Oficina de Conto 2005

 
 
 
 
 
 
 
     
     
  Oficina de Conto 2005  
   
 

Jorge Lobo Mesquita

 

 

 
 
45 MINUTOS
 
 

  
Tens um aliado no sujeito que está na sua casa, em Lisboa, sem saber para que lado do dia se há de inclinar, o tal que tem a cozinha desarrumada, uma boa sala com uma aparelhagem de qualidade e livros confortantes, tão confortantes como os sofás de veludo e o gato fugitivo que lhe empresta uma sombra de companhia. Uma presença mais forte, mas agora distante, ou por agora distante, paira sobre aquela casa, mesmo que lá não esteja. Saiu e talvez não regresse, ele pensa a todos momentos nela, mesmo quando se esforça por tranquilizar o espírito, por emergir no seu ninho de boas recordações, de sentimentos fortes.

Nessa casa recebe visitas de pacientes, que acolhe sempre no mesmo espaço. A duração da sessão, quarenta e cinco minutos é uma escolha sua, dentro dos padrões de terapia que segue. Três quartos de hora exactos, sobra-lhe um quarto de cada hora, que reserva para o paciente seguinte. A sua hora analítica. Os pacientes variam ao longo do tempo, uns prolongam-se desde os seus primeiros tempos de actividade, outros abreviam-se, alguns mesmo demasiadamente, tomam abruptamente a decisão de partir ou de suspender a sua terapia. A tudo isto assiste, sem interferir decisivamente num sentido ou noutro, procurando contudo explorar a sua aceitação por parte do paciente, acompanhá-lo nas suas decisões, levá-los a que interiorizem o diálogo construído ao longo do tempo.

Estamos naquele exacto momento do dia em que a porta se deverá abrir e entrar o primeiro paciente. Deixou momentaneamente para trás outras preocupações, suas. Não pensa por exemplo se o seu filho lhe telefonará, desafiando-o para um jantar nessa noite. Será uma gratificação imprevista que poderá receber, mas cuja expectativa por agora suspende.

Recolhe-se ao contacto com o seu corpo, sobre a cadeira confortável, abstraindo-se dos ligeiros minutos que já passaram sobre a chegada prevista do primeiro paciente, uma rapariga que ganha a vida como modelo fotográfico e procura iniciar uma carreira de actriz, e que entretanto sofre, sofre de aneroxia. Prende-se nesse medo de deformação do corpo, tem uma representação exterior de si muito elevada e ao mesmo tempo fortes sentimentos de insegurança interna, de vazio, de não existência. "Nada existe em mim para além desta beleza que vai desaparecer, que irá desaparecendo."

Estende-se no divã, vestida com umas simples calças e uma blusa desportiva, e suspende-se num silêncio que ele se habituou a conhecer, aguardando que do lado onde ele está venha a interrogação que catalize o diálogo. Controla a tentação de lhe sugerir uma saborosa refeição, um daqueles jantares em que tem um genuíno prazer, mas coibe-se de uma intrusão violenta. Está a seguir o seu campo de insatisfação, volta com ela ao final da sessão anterior, em que que se instalou um bloqueio, que hoje continuará. Assume emprestada a figura do pai protector, tolerante e acolhedor, que ela parece integrar, saindo com um sorriso de despedida e sem ter dito também hoje uma palavra.

Aguardando o próximo paciente, aflui-lhe uma mancha de incerteza, o sentimento de não estar seguro que a terapia oferece o melhor a quem busca atenuação dos seus padecimentos. Felizmente que permanece do lado da incerteza, da incerteza sobre os resultados e não da dúvida, da dúvida sobre a eficácia desta procura. Por auto-defesa, ou por convicção assumida exclui a dúvida e coloca-se sempre no campo da incerteza.

Não se pode substituir a esta jovem e abrir a porta do frigorifico no final da noite, após o seu regresso de mais um ensaio de uma peça de teatro experimental, em que tem um papel secundário, em que está tensa por ter de desempenhar o papel de uma simples empregada de balcão de um bar, modelo de alegria e futilidade, que ela não consegue representar. As dificuldades de encontrar uma máscara, na procura de fingimentos maiores. A jovem entretanto partiu, guardando consigo as suas incertezas para o próximo dia.

Entretanto tem já consigo um homem forte, vestido de fato e gravata, tem uma natureza obsessiva, o pânico de perder a mulher, que não o deseja, que não lhe transmite suficientes demonstrações de afecto, que se apaixona por imensas coisas, excepto ele. Entrou num ciclo de ansiedade sem saída aparente, não percebendo que quem em primeiro lugar quer fugir é ele, incapaz de vencer o grande desafio colocado por essa mulher. " Sento-me ao seu lado e toco-lhe com a mão, e ela logo se afasta, dizendo não haver espontaneidade nos meus gestos. Assim era até há algum tempo, porque agora já não lhe toco, já mal falamos, olhamo-nos de soslaio, chegamos em ocasiões separadas à cama, evitamo-nos durante o dia, salvo por questões práticas, questões que parecem adquirir uma importância excessiva. E nas férias, o ponto comum mais forte é passarmos horas a fio, lado a lado, apanhando sol no maior silêncio".

Enquanto ouve guarda também para si esse pensamento, uma mulher que se desejou concerteza muito fortemente para a trazer para a sua vida, uma mulher perante a qual a impossibilidade do amor impede que seja gratificada, preenchida, saciada. Ela não está lá, porque ele também não está. A erotização da análise, contra todos os canones tradicionais, parecia-lhe uma via terapeutica bem aliciante. O silêncio, era outro espaço para ser preenchido dentro dessa via de regeneração, um silêncio carregado de esperas, de reencontros e de descobertas. Dois velhos cúmplices cansados, ou dois velhos cúmplices, que usam essas linhas de desgate para explorar novas cumplicidades, pensou reavivando involuntariamente uma leitura.

Arriscou uma primeira interpretação nesse dia, "o problema não está no novo, mas sim na contínua descoberta e paixão por um mesmo objecto de amor, gratificado em permanência." E calou-se no ponto em que a sua voz poderia deixar de soar natural e as interrogações que ele próprio vivia subirem à tona. Esperança, pensou para si, esperança, contra o desespero, as inquietações abusivas, as traições a nós próprios.

O paciente acolhe a ideia e reconhece as suas limitações, " O problema é que eu não consigo dar nada mais do que a minha presença, no que isso tem de mais limitado, a presença física. Sou o outro que está naquela casa, nada além disso".

Perante isto o analista sente-se conduzido a uma interpretação kleiniana, "Posiciona-se como o bebé perante a mãe, aguardando que ela se aproxime de si e lhe estenda o peito, o acaricie e sorria, está numa história desiquilibrada com sua mulher, tem medo de ser o seu pai". Aqui calou-se novamente, para o paciente não sentir agressividade e reter a interpretação. A reacção levou este último para longe, para a idealização desse pai da sua infância, para a capacidade de sedução que ele deve ter exercido sobre a sua mãe.Imaginou que assim fôsse, arriscando uma questão final ao paciente: " E não pode fazer mais em relação à sua mulher, está disso certo?". Quando concluia a frase já estava levantado, indicando o final da sessão. O paciente partia visivelmente confortado, como se houvesse introduzido uma nova solução na sua vida. Provavelmente nessa noite a mulher seria surpreendido com um despontar de jovialidade por parte do marido, se é que já não tivesse irreversívelmente perdido a receptividade para qualquer gesto da sua parte.

Talvez aí a via fôsse a ruptura, o afastamento e a reconstrução, temas que podia introduzir mas não sugerir como perspectivas de saída, fugindo sempre ao ónus de arriscar sobre os outros.

Muitas coisas um analista não sabe em absoluto e coloca a intuição como campo de acção, com um risco permanente de erro, só susceptível de ser avaliado perante o paciente, no seu regresso, no reencontro na sessão seguinte. Um pacto muito particular entre estranhos, irmanados numa relação naturalmente desiquilibrada. "A porta abrir-se-à para si a todas as horas que combinámos, não mais do que isso, e também não menos. Eu nunca me atrasarei, nunca lhe fecharei a minha porta naquelas horas". E se eventualmente não fôr possível o nosso encontro combinado será alertado, ficando o aviso para aqueles casos imprevisiveis. E haverá concerteza as férias e outras interrupções mais breves.

A imprevisibilidade estava bem afastada do seu quotidiano. Uma opção, talvez a condizer bem com o seu carácter. Uma batalha perdida, a das surpresas agradáveis, calorosas. Como surpreender mesmo assim? "O quadro, o essencial é o quadro", dizia-lhe o seu orientador, vinte anos antes, quando se iniciara na prática. Por esse quadro escolhera a casa, seleccionara os horários, adaptara a sua vida. A irreversibilidade da partida dela também o continuava a preocupar, sobre o qual sentia que já estava resignado e tal perspectiva inquietava-o.

A confiança, o optismismo, tinham que prevalecer, mesmo que numa fase inicial fossem apenas conceitos desprovidos de qualquer conteúdo. Entrou entranto na sala um novo paciente, no caso uma mulher. Imerso nas suas congeminações saudou-a com um olhar mais seco do que habitual e afundou-se bruscamente no seu cadeirão.Como é habitual orienta o olhar para um ponto indefenido do tecto da sala, esse tecto branco, com uma pequena esquadria em gesso, que ele percorre vezes sem conta com o olhar, como se ali estivessem muitas das respostas para as questões colocadas, as suas questões,as questões dos pacientes. Na outra parte da casa, no seu quarto, fixa nas noites de insónia o mesmo tecto branco, com interrogações diferentes, mas também sem resposta.

Alice, a paciente que iniciou a sessão, fala de um sonho em que fazia uma viagem com o namorado, que uns tempos antes morrera num acidente de viação. Era uma ida a casa da família desse rapaz. Quando chegaram lá a casa estava vazia, há muito tempo sem ocupantes e o namorado desaparece entre os corredores cobertos de musgo, sem que ela consiga voltar a encontrá-lo.

Tenta não chamar outras associações, e prende-se a esta imagem de musgo, de revestimento de um interior felpudo onde um corpo, um homem desaparece, é absorvido, enquanto a mulher fica de fora, sózinha, sem capacidade de resgatar o seu companheiro perdido. "Onde estará ele?", interroga-se Alice, em mais uma incursão em torno do desaparecimento e do desencontro.

Traduz algum incómodo com um imperceptível movimento de garganta, logo antes de começar a falar. "Ele já não está, agora trata-se de conseguir que dessa casa musgosa saia um outro corpo, um elemento de vida, de futuro e não de morte."

Alice compreende a sua sugestão, que a deixa com uma tensão no corpo, de que não consegue sair, a sugestão de maternidade, que até aí não se lhe colocara, a insinuação de que do interior do musgo podem nascer novos elementos de vida. Ele guarda outras imagens, mais sexualizadas, onde se sente ofuscar, compensando-as com um brilho radioso no olhar de despedida que oferece à paciente.

Nessa noite, após a partida do último cliente ele vai até à sala e coloca um concerto de piano e violino de Beethoven na aparelhagem. A música acompanha-o nesta ideia de vazio, de uma digressão entre o nada e o nada, assim como agora se sente, confortado apenas com a ideia de que amanhã terá que receber de novo os pacientes, acompanhá-los dia a dia, sem limite pré definido, sem partidas obrigatórias. Dirige-se para a cozinha, agora muito bem arrumada e pensa no que há de comer, mesmo que o apetite o tenha aparentemente abandonado. Tira um pequeno bife do frigorifico, tempera-o e coloca-o na grelha do fogão.Irá acompanhá-lo com uma pequena salada de tomate e beberá água. Tudo tão frugal como os seus sentimentos.

Depois não escreverá nenhum artigo. O computador ligado, à espera de ser tocado, uma rápida visita aos apontamentos do dia, sem inspiração. Ocupar-se-à em sentir o cheiro da sua ausência, os vestígios de um passado comum ainda visiveis, a imaginação sobre outros lugares e afectos onde ela agora está, longe dele, sem ele, sem a falta dele. Por agora, nada a substitui, a vida consegue ser permanentemente mais incompleta, refém desta partida.

Poderia começar uma carta e enviá-la na manhã seguinte, mas sabe que não haveria resposta, que aquilo que diria nada alteraria. Poderia telefonar-lhe, ligar para o número de telemóvel que tão bem conhece, aguardar ansiosamente por ouvir a sua voz. Mas nada teriam para dizer, tudo já fora dito, incluindo o relato do sofrimento da sua ausência. Seria irreversível, ela não voltaria.

Entrou no quarto, despiu-se e viu-se nú, diante do espelho. Aquele era o corpo para que ela não mais olharia, era o corpo com o qual ela não faria amor, o corpo que ele pensava que ela se habituara a conhecer, pelo peso, pela textura da pele, por todas as suas pequenas imperfeições. Vestiu um pijama, um pijama que ela ainda conhecia, que lhe comprara talvez, e pensou que também esse pijama ela não mais veria. Coibiu-se de mais elocubrações dolorosas quando fez os últimos cuidados de higiene pessoal do dia. Deitou-se com alívio sobre a cama, pronto a adormecer à primeira aparição de sono.

Antecipava os sonhos que iria ter, enquanto tentava ler algumas páginas de um romance, que começara ainda com ela em casa. Começava a ser tarde e o silêncio da noite fazia se sentir mais fortemente, agora que cessara completamente o trânsito na rua, o que facilitava a sua concentração na leitura, sem que fôsse perturbado por alguns pequenos ruídos da casa, bem familiares: o tiquetaque de um despertador, o recolher do lixo lá embaixo, uma discreta passagem do gato no corredor. Confortou-se na pressão do corpo contra as almofadas, na luz suave que acompanhava a leitura. Se ela estivesse aqui, lendo a seu lado, beijaria-a agora e adormeceria, aquecido pela sua presença.

Era ainda mais tarde quando foi sobressaltado pelo barulho da campainha da porta. Ergeu-se da cama, sem saber o que pensar, provávelmente era um engano, não era lá para casa. Olhou pelo olho de lince, supreendendo-se com um contorno tremendamente familiar, que o levou a abrir de imediato a porta e a exclamar em voz embargada: "Minha querida!"

Neste exacto momento acordou olhou para o lado e viu que continuava sózinho na cama. Duvidava que depois desse sonho conseguisse retomar o sono. Levantou-se, vestiu o roupão e foi para a cozinha preparar uma tisana.

Muito mais tarde, após passar uma boa parte da noite em branco, terá adormecido. Acordou com a penumbra que entrava pelo quarto, com uma dificuldade inicial em imaginar a hora e reconhecer os objectos do quarto. Pairava um silêncio absoluto que não permitia determinar a hora, enquanto que os seus olhos iam reconhecendo o lugar, a cadeira onde repousava tranquilamente a roupa da véspera, a porta quase que fechada dando para esse corredor despovoado, que em breve teria que cruzar.

Num ímpeto levantou-se da cama, congratulando-se com a decoração simples do quarto, a cor branca das paredes, os escassos móveis, os armários apainelados oferecendo generosos arrumos. Enquanto se deixava abraçar pelo felpo do roupão hesitou um pouco, adiando o banho para depois de uma incursão pela cozinha. Entreabrindo a porta do quarto avançou pelo corredor. Libertaria a casa de recordações omnipresentes, torná-la-ia num deserto, olharia para este espaço como se fôsse um primeiro ocupante, recem chegado sem passado.

Entrou na cozinha, esquecido de aí ter estado horas antes preparando uma infusão, como se não tivesse ali jantado na véspera, como se aquele lugar não tivesse sido ocupado ao longo de todos os dias de todos os anos em que ali vivera. Essas recordações estavam presentes no ligeiro cheiro seco que lhe chegava ao nariz, característico dessa parte da casa. Conhece de cor estas paredes, as estrias nos azulejos, a superfície rugosa no mármore da banca, a textura das portadas de madeira dos armários, qualquer canto da cozinha, qualquer objecto aí guardado. Conhece de cor outras coisas que se esforça em não avivar. Procura mecânicamente o boião onde está guardado o café, enche a máquina com a dose matinal, perpétuamente igual a que desde há muito se habituara.

Senta-se no banco de madeira corrido que atravanca o espaço entre a cozinha e a pequena varanda envidraçada nas traseiras da casa, puxa distraído umas velhas revistas guardadas debaixo da mesa, que folheia com um olhar vazio de recordações. Distraídamente coça ao de leve a barriga do pé direito com os dedos descalços do pé esquerdo, e tem um arrepio de sensações por outras carícias passadas. Felizmente que se escoavam os breves minutos necessários à ebulição da água, que pode ir buscar a velha caneca esmaltada que nunca dispensa cada manhã e sorver o café negro.

Encorajado, dirige-se para a casa de banho, deixando correr a água quente na banheira, enquanto contempla o rosto inexpressivo no espelho, preparando-se para o obrigatório exercício da barba. Este diálogo permanente com a face, na superfície do espelho, a que nunca pode fugir, porquê essas sobrancelhas espessas, porquê esses olhos sem alegria? A resposta não virá, enquanto espalha o creme pela face e procura que a mão direita em gesto firme faça a lâmina rápidamente escanhoar a barba áspera. Mergulha de seguida no banho quente, esquece-se fugazmente de si próprio, e sai de um impulso. Vestindo-se com cuidado, com roupa diferente do dia anterior, sente-se finalmente preparado para um novo dia, distinto do passado.


 
  Jorge Lobo Mesquita, nasceu no Porto em 1960 e vive em Lisboa. Formou-se em Antropologia pela Universidade Nova de Lisboa e é funcionário diplomático. Colocações na Representação Permanente Junto da União Europeia, em Bruxelas, como Cônsul de Portugal em Lille, França e na Missão de Portugal em Dili, Timor Leste, sendo actualmente Director de Serviços da Administração Patrimonial no Ministério dos Negócios Estrangeiros.  
 
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