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Pedro
Ludgero, "A Resposta do Perguntador"
"A Resposta do Perguntador"
Andante misterioso
(Desejo = 40)
O que dizer a alguém
que viaje até Saturno na época das festas, mas que
não se aventure na montanha-arménia do Parque de
Diversões de Cassini? Como classificar o idiota
que, em congresso numa metrópole de Júpiter, não
aproveite um momento de pausa para tomar o space-ferry
para um dos belos satélites que ainda ostentam a
abundância selvagem daquelas hortênsias-mais-senhoras-que-cachopas
que não se encontram em mais nenhum arquiempíreo
do universo? Podemos ir a Roma e não ver o Papa,
não há problema nenhum. Mas será lícito não tirar
uma fotografia em frente da Fontana di Anna Gramma,
a mulher lendária que inventou o mais antigo hobby
do mundo: a profissão? Devemos ser proprietários
de um Stradivarius (só um para não rimarmos em demasia),
mantendo-o enjaulado na altura do cio quando os
telhados são invadidos por um rocio digno de Paganini?
Devemos receber um coração, e comê-lo sem requinte?
Quando podíamos, com paciência, catar as suas tiladas
pevides, uma por uma, e reuni-las depois numa salada
vistosa, dessas que prometem uma cor sã num sabor
são, e que podem ser comidas entre dois dedos de
silêncio…
Tinha-o visto substituindo o remate pelo alinhavo,
uma vez em que ele tinha decidido terminar os seus
jeans não em sapatos mas em singelas sandálias,
dessas que calçam a maravilha do pé numa retórica
que hesita precisamente entre areia inglesa e flor
à portuguesa. E desde que o Kamera lhe fizera a
sua aparição nesses preparos, Gael tinha esclarecido
a sua opinião sexual acerca do cantautor numa diversa
direcção. Pois se, em tempos que já lá vão-e-vêm,
o Kamera lhe fora causa de apenas indiferença, achava-o
mesmo um pouco grosseiro para o seu gosto insuportavelmente
urbano, a súbita revelação do pé no molde de sugestão
da sandália tinha causado nele a convicção de uma
atracção pós-fatal, uma atracção tão umbilicalmente
ligada a algo que não passa de sugestão, que toda
a sua propensão para o excesso, o destino, e a tragédia,
se encontrava exilada, desde a nascença, num passado
meramente conceptual.
Gael há muito que conhecia o seu fetiche grosseiro.
Mas não se importava com isso. O Homem precisa de
mediocridades, de grosserias, precisa de ter pés
demasiado grandes para não ser santo, de ter pés
de orgulhoso barro antes de este entrar no forno
definitivo da morte. Só assim o Homem se defende
de ser animal, vegetal, mineral, deus, espectro,
conceito, ou qualquer outra dessas chinelas que
o mundo lhe põe à frente como se ele só se saldasse
fora de si mesmo. Gael recordava com menos encanto
a história da colega dos tempos de escola que nos
sonhos eróticos só via os homens nus da cinta para
cima, do que aquele coscuvilho sobre o casto monge
budista que não podia ver um homem de botas sem
se ajoelhar na sua frente, não para rezar.
Tinha, aliás, a mania de começar o seu desejo de
forma centrípeta. Olhava, quase em simultâneo, para
o rosto (sim, o velhinho espelho da alma)
e para os pés, para o milagre dos olhos, e para
a sua profanação pelos sapatos, e só depois, partia
dos extremos para o centro do corpo, o sexo, como
se tocasse um acordeão-deão-de-acordos que continuamente
desenhasse uma circunferência imaginária em torno
do corpo, e afastasse a hipótese meramente filosófica
de que a linha do rosto e a linha dos pés fossem
inconciliáveis paralelas. Ainda por cima, as mãos,
também elas sempre nuas e disponíveis, pareciam-lhe
demasiadamente técnicas, boas para tocar o acordeão,
para fabricar tudo o que há para fabricar, mas demasiado
equidistantes da ternura e do canto-chão. Então,
assim como o Kamera tinha os pés bem assentes na
terra, Gael tinha o seu desejo bem assente nos pés.
E aliás, como não ficar embevecido com um homem
que vulnerabiliza os seus pés, que se assume genealógico
usufrutuário da sedução do deus Hermes? Gael era
tão contraditório que se tinha tornado perito em
mitologia grega. A cada homem que lhe interessasse,
atribuía-lhe o privilégio de poder representar este
ou aquele deus, aquele ou este herói, construindo
o seu museu imaginário sem constrangimentos de crítica
ou responsabilidade institucional. Ao Kamera, tinha-lhe
oferecido Hermes, o deus das sandálias aladas. Apolo
era certamente bonito, mas demasiado escandinavo.
Zeus muito cota. Hades um intelectual de esquerda,
Hefesto devia feder a cavalo como os homens de antigamente,
e Poseídon era demasiado excêntrico. Não: Hermes
era a boa escolha. Deus com sentido de humor, que
tanto acudia aos comerciantes quanto aos que os
roubavam, e acima de tudo arauto celeste, carteiro
que punha e dispunha os astros como se essa dança
fosse a matriz verdadeira de qualquer vida. Mas
chega de devaneios.
Como ia partir, na semana seguinte, para Roma, onde
o Kamera vivia, o director do jornal tinha-lhe arranjado
uma entrevista exclusiva com o cantautor. E Gael,
conduzido pelos amigos até ao sítio onde iam passar
a noite a dançar, sentia-se prematuramente preocupado.
Pois não só conhecia a fama de predador sexual que
fazia os cem rodeios do Kamera, como sabia que quando
o encontrasse, não era a mão que ia estender para
se apertarem um no outro, mas o sexo, perfilado,
orgulhoso, insistente, alcoviteiro.
- Então o chefe lá te arranjou uma entrevista com
o homem?
- Oh… isso não quer dizer nada. Estou cada vez pior
no jornal. Ele já me disse que vou é acabar a fazer
os horóscopos. Não… a vedeta é o jovem Pôncio, a
ele é que lhe vão dar as politiquices e as mortes
dos papas. O paizinho dele só vai descansar quando
me enterrar vivo.
- E como tu ajudas bastante…
Chegaram ao Mais ou Menos Vícios. Gael saiu
do automóvel como um peixe prestes a reentrar no
seu elemento depois de algum tempo a sufocar. Levava
o seu inseparável chapéu preto de seda-de-Innisfree,
usava um colete estampado com anacronismos, e enfeitava
tudo com a correia de um relógio inexistente mas
definido pelo bolso. Já vinha a fumar, porque o
cigarro é o atributo da noite.
A entrada num local da noite aproxima-se mais de
um salto qualitativo do que de uma variação na quantidade.
É preciso já ser filho do hábito para saber nadar
com facilidade nessas escuras profundezas. Caso
contrário, o noctívago ocasional tem de se precaver
com o oxigénio engarrafado na improvisação de um
papel. E depois, durante a soirée dançante, tem
de se cuidar, não vá ser mordido por um gesto menos
sofisticado, ou ficar preso na estreita gruta de
uma frase demasiado sincera.
No entanto, para o tímido observador, a experiência
acaba sempre por compensar. À sua frente, orbita
todo um aquário de mutações, excentricidades, estranhos
pontos de chegada da evolução social que nem um
cientista da estatura de Marcel Proust poderia ter
previsto. Mais do que proporcionar visão, a luz
intermitente e caprichosa da discoteca latiniza
tudo em seu redor, de modo que o rapaz andrajoso
na roupa e na atitude se torna mais sensualis
macarronicus que David, luz solidária do introvertido
que fragmenta o tempo do real para que este possa
ser calmamente catalogado, ritmado, coreografado
pela imaginação verbal daquele que tem mais arte
do que ciência de viver.
Nada disso afectava Gael. It took more than one
man to change his name to. Gael era o seu nome
de guerra, o seu nome de alegria, a password para
aceder a esse sítio de todas as espionagens que
é a vida-depois-da-noite. Gael não procurava coreografar.
Era bem mais Mata-Hari do que Pina Bausch. Gostava
da vida desconchavada, sem tango-latim nem valsa-esperanto,
apenas gente abanando o seu próprio risco sobre
a intensa motorizada da música rock.
- Você pode me avermelhar o cigarro?
Há já algum tempo que Gael não sentia o vício de
ninguém. Essa coisa de + apreciar (apressar) o corpo
de outrem, de + o desculpar no seu fazer de irritações,
de + prestar uma solidariedade que não só fica cara
como faz mal à saúde, mas da qual ninguém consegue
prescindir sem dar em obeso ou em neurótico. In
medio vicius, portanto. Mas Gael não sabia se
era a vida que estava a encanecer um pouco, cada
vez mais fina e fraca como o sinal menos, ou se
era ele próprio que tinha abrandado a velocidade
do desejo. A sua guerra parecia estar mais fria.
E embora subsistissem ameaças como os pés do Kamera
armados numas sandálias, Gael já se sentia mais
próximo do seu cigarro do que de qualquer símbolo
a que este pudesse levar o seu cancro.
- Você já fez com um brasileiro? É mais carinhoso,
sabia…
À sua frente estava um rapaz magríssimo, moreníssimo,
com arzíssimo de pecado, e tudo o mais que tenha
parecido superlativo ao cansaço de Gael. Chamavam-lhe
o Brinquinho, se bem que ele não usava brinco. Era
brasileiro, e como todos os brasileiros, trazia
mais auto-propaganda no sotaque do que na propaganda
do próprio discurso. Gael avermelhou-lhe o cigarro,
mas nem o deixou fumar mais. A sua boca foi a Roma
numa boca de substituição.
Os peixes grisalhos nadavam devagar, muito devagar
aliás, como se a sua natação tivesse mais a ver
com nada (que, como se sabe, é a nata da
morte) do que com um processo de física locomoção.
Havia peixes maiores, peixes menores, mas também
peixes aumentados e diminutos, eventualmente alguns
perfeitos, mas todos se moviam devagar, sem louco-moção.
A janela que denunciava o aquário era minúscula,
o pequeno portão de uma água tão desonesta que,
vista de perto, dava a impressão de ser apenas ar.
Nem tudo o que transparece é água, lá diz o provérbio…
- Então que tal andam os joelhos de Claire?
O Guimarinho estava incomodado com a estreiteza
dos assentos.
- Não me rotules dessa forma. Sabes que não sou
dado a detalhes.
- Mas estou eu dar-te um. E a cavalo dado…
- Talvez seja esse… o meu detalhe é o rabo-de-cavalo!
- Isso já não se usa…
- És tu que me estás a dizer que o rabo já não se
usa?
- Não abuses!
As conversas que Gael mantinha com o Guimarinho
tomavam sempre a forma da uma competição no hipódromo
da linguagem. E se o Guimarinho era o homem das
fotografias, não lhe faltava verbe nem veneno para
ir ganhando algumas das apostas. Mutuamente devotos,
mais por derrame da profissão do que por amizade,
achavam que tinham de representar a orientação sexual
de cada um como se fossem carapaus em corrida. No
entanto, os campeonatos eram breves, pois enquanto
não se atingem os mínimos da amizade (ou do seu
oposto), as discussões também não alcançam proporções
olímpicas. Por isso, o pégaso e o hipocampo caíam
muitas vezes no silêncio, que era o maior laço que
os unia, e a única hipocrene do seu trabalho.
Gael continuava preocupado. Já nem ouvia o que o
Guimarinho resmungava, rebarbativo de alma e corpo.
Posto perante o Kamera, o que Gael queria era fazer
uma entrevista inteligente.
- Vou chamar o raio da hospedeira. Vou protestar,
pá, eles têm de fazer assentos para todos os tamanhos...
O prazer da inteligência está socialmente proscrito
na zona oposta ao prazer sexual. Para um homem ser
herói na sua rua, é mais importante que ele coleccione
troféus de engate e que, acima de tudo, não os exponha
nem os defenda, do que qualquer paciência intelectual
a que ele dedique maior ou menor domingo, sendo
porém esta actividade que ele deve exibir na dieta
do seu sucesso. Ou seja, é mais importante que ele
seja pecador do que pescador, não
sendo de enjeitar a hipótese de este s tão relevante
ser, precisamente, a primeira letra da palavra sociedade.
Toda a vida Gael sentira o apelo da inteligência.
Mas, ou porque era acomodado por natureza, ou porque
prezava demasiado a vida social para correr o risco
de a pôr em causa, sempre mantivera as devidas distâncias
no convívio com o intelecto, como se este fosse
Dreyfuss já absolvido mas ainda olhado com desconfiança
pelos cínicos do mundo.
Todavia, assim como um antigo vinte valores no Conservatório,
no presente perdido nos nocturnos da droga, gosta
de esporadicamente meter as mãos no seu Chopin para
desintoxicar a sua imagem perante os outros, mesmo
que dessa frustrante pescaria só resulte o clássico
e anedótico sapato, roído pelas miríades de notas
esborrachadas, também Gael era por vezes acometido
por uma espécie de chamamento medíocre que o fazia
sonhar com a inteligência à maneira de uma Bovary.
Como se a Filosofia, a Poesia, ou a História, fossem
marcas de charutos cubanos, às quais se regressa
com esporádica afectação, mas que não podem tomar
o lugar das nicotinas que o herói compra no sórdido
quiosque da sua rua.
- Minha senhora, estou neste momento a sair de um
emagrecimento litigioso que lhe garanto foi muito
traumatizante. Pode-me explicar como é que ao fim
de vinte e cinco quilos de contenção, mesmo assim
eu não caiba nos vossos assentos?
A hospedeira, calma e sorridente, tinha deslocado
o seu olhar para a janela, como se estivesse a pensar
na Inglaterra. Erro seu, já que o avião se dirigia
para Itália. Entretanto, as nuvens tinham-se tornado
baleares, e o puro sangue do sol fazia as vezes
de uma imemorial diplomacia.
Gael queria saber que livros o Kamera tinha lido.
Que livros o tinham devorado. Queria saber se ele
tinha tendências platónicas ou aristotélicas, se
tanto dava para o Camilo como para o Eça, saber
onde inseria o seu neo: se no real ou noutra coisa
menos consensual. Queria saber as suas perversões
cinéfilas: bergmanfellinia? godardismo? renoiridade?
Saber se o seu cirurgião plástico fora van Gogh,
Vermeer, ou Velásquez. Saber se as suas cantigas
haviam sido escritas sob influência, sob que influência.
Se ele conseguia fazer um quatro, após se ter posicionado
sobre a religião, a política, a moral, e o amor.
Conhecer a sua declaração particular sobre as ressacas
do Homem. Se preferia o Futuro com ou sem filtro.
Gael queria conhecer a inteligência do Kamera.
Pela primeira vez na vida, o sexo surgiu-lhe como
algo muito triste. Não se sentiu velho, por isso.
Apenas cansado.
- Os nossos nomes? Queira a senhora saber que somos
O Lírio e o Cavalheiro de Xangai…Quem é quem?...
Cara amiga, neste mundo onde os conteúdos são tão
promíscuos, proteja-se, acima de tudo, das evidências.
Todo o agente de autoridade tende a julgar-se autor
da Idade que ajuda a tutelar. Este andava de um
lado para o outro, fardado com algodão-de-nó-doado,
demasiado ocupado pela sua ronda para conseguir
detectar outras geometrias menos impecáveis. Não
tinha pó nem cabelo branco, não tinha barriga nem
olheiras, dir-se-ia que ainda nem tinha aberto os
olhos, se não fosse a azeitona de céu incrustada
em cada frasco ocular como se a astronomia da beleza
ainda fosse uma gordura arcaica. Ao longe parecia
quase choroso, mas de um modo ao mesmo tempo autoritário
e juvenil, cada lágrima de ansiedade e inadequação
rigorosamente divorciada do crocodilo institucional
que tinha de representar. Mas não, não estava choroso.
Estava apenas inexperiente.
Gael, tentáculos em torno do acordeão, imaginava
que se o polícia o abordasse, não o iria escorraçar,
muito menos aprisionar. Irreverente à maneira do
acordeonista (e é na imaginação deste que estamos
situados), o agente limitar-se-ia a dizer:
- Je n'ai jamais vu un mec si con!
Por vezes, Gael ia tocar acordeão para a rua. Não
o fazia nos seus dias-sim nem nos seus dias-não,
como poderíamos supor a partir de uma euforia ou
de um desespero. Fazia-o apenas quando conseguia
triunfar sobre os seus últimos totalitarismos internos,
quando perdia a ocupação nas bocas do mundo, e sentia
um desprezo saudável e generoso por todos e por
tudo. Fazia-o nos seus Dias D. O acordeão soava
então mais parisiense do que nunca, como se a voz
da libertação não fosse branca nem operática, mas
roufenha, rude, e envelhecida.
Que ninguém se deixe, porém, enganar por um acordeão.
A horizontalidade tendencial e aparente do percurso
do seu fole não passa de uma condescendência à erecção
evolutiva do ser humano. Pois, na verdade, o que
está em causa no jogo do acordeonista não é a eterna
incompreensão entre leste e oeste, mas a diferença
de nível de vida entre o zénite e o nadir. O fole
do instrumento é desabraçado em direcção aos pólos
extremos da verticalidade, para logo em seguida
converter o prumo no aprumo de um cerrar de membros,
um cerrar de distâncias, uma fusão lírica que de
previsível só tem o cadinho do abraço.
Esse movimento simples, pueril, provoca extravagâncias
que uma narração mais madura se escusaria de apontar.
No entanto, por mais adulto que seja o escritor,
que pode ele contra a verdura do próprio texto que,
seja qual for o seu tamanho, tem de aprender a crescer
desde a imagem que engravida a imaginação até às
cinzas daquela palavra que, por ser a última, é
guardada na pequena urna de um ponto final?
O movimento do acordeão, metafísico, criador, é
esse entremez de respiração no tempo que, no ponto
mais tenso do aparente espreguiçar, recolhe uma
nuvem e uma pedra, e as junta como um jovem par
obrigado a contrair matrimónio sem nunca ter passado
pelo consentimento de um namoro. Que ninguém se
estranhe de ver, no céu, uma nuvem dura de forma,
insistente, para sempre anjo ou toupeira no âmbar
de acaso que lhe concedeu uma identidade. Pelo contrário,
a criança veraneante que quer acrescentar alguns
seixos à sua delapidada colecção (a mãe vai deitando
as pedras ao lixo), sujeita-se a encontrar geologias
mais finas e indecisas do que o próprio mar que
as banha, seres feéricos que mudam de forma, peso,
textura, cor, ao sabor de uma perigosa inteligência
sem dono que, àqueles por ela adentro julgam ir,
não os deixa mais voltar.
O mundo assim contraído no centro não é, como muitos
julgam, o mundo verosímil. O mundo do centro
é a grande força demiurga de que a vida se socorre.
Como se poderia explicar a existência daqueles répteis
que de repente ganharam asas, e que desde então
adquiriram o comportamento de uma aristocracia da
natureza que mundanizou o mundo no próprio ar? Como
explicar o leite que migrou para dentro do coco,
o leão que ofereceu a dentição à menos cariada das
flores, a arte têxtil da aranha a que a mulher erroneamente
retirou o elemento predador? Como explicar esses
ecos coloridos dos glaciares que as crianças levam
em torno de um pau com a mera lógica da delícia?
As estrelas zoologicamente guardadas em lampiões?
A banda sonora do relâmpago? Como explicar o Homem?
Preso ao acordeão, Gael cantarolava a sua canção
(uma ariazinha absurda chamada O homem que não
cabia num acento) com alguma consciência do
sentido do seu gesto. Recebia as esporádicas esmolas
sem vergonha nem orgulho, apenas com intenso sentido
prático.
O polícia olhava para ele. Desejava-o. Mas no seu
íntimo, não sabia se a marginalidade de Gael era
um assunto que havia crescido consigo, autóctone,
ou se era apenas um legado colonizador da Civilização.
Agora que Portugal era estrangeiro tanto em endereço
quanto em adereço, o Garcia recebia a sua encomenda
de rebuçados da Régua como se controlasse a qualidade
de um contrabando de saudade (era um amigo que lhos
mandava, amigo assombradamente sentimental, que
se pudesse, adoçaria o Garcia com tudo o que a mão
de um e a mão do outro pudessem semear de distância
dolorosa). Já não tinha nome de guerra. Isto apesar
de agora habitar e trabalhar em Granada, palavra
que nesta aldeia global que é o passado comum das
línguas (aldeia cada vez mais deserta pois todos
querem ir morar para o inglês), ainda continua a
cumprir serviço militar obrigatório. Mas já ninguém
sabia quem era o Gael. Pois sempre há uma espanha-destino
que persiste na invasão e destruição do méxico-prévio
de qualquer contexto. E nada disso se chama aurora.
Antes do ajuste deste conto ao género que nele quer
ser militância (e é só isto que por cá se arranja
de narrativa fantástica), e já que estamos a fazer
cair todos os nomes que funcionam como venezianas,
será altura de trair um pouco o protagonista deste
punhado de ficção. Ele próprio deu o mote, ao apresentar-se
em Granada com um descarado cabelo oxigenado, a
bem dizer com mais casca que capacete, todo falso
e bujiganga, ninguém sabe se mais pindérico ou mais
alienígena, se cantor pimba ou roqueiro inteiro
de glam. E quando o mote é assim tão cigano, a glosa
tem de ser justa para com a especificidade de uma
raça.
Se nem todos somos autores da cama em que nos deitamos,
nenhum de nós se pode escapar a ser filho do sonho
nocturno que o vai engendrando, filho dessas essenciais
águas do sono que rebentam sempre a despeito da
vontade organizadora da parteira matinal. Mas, em
geral, filho de sonho não sabe continuar a sonhar.
De modo que quase todos os homens sofrem de inevitáveis
decadências enquanto lutam contra as ondas do quotidiano.
Começamos a solidão ainda erectos, sapiens, mas
mal entramos no divertimento social, na Sociolândia,
imponderáveis forças (farsas) nos obrigam a andar
de quatro, a produzir clorofila, a reagir ao beijo
do limão, a aplacar ira com lira, a assombrar (sombrear)
tudo isto produzindo filosofia. É, de resto, a própria
filosofia que a pés juntos jura que o Homem é um
primata social, e essa boutade é incessantemente
confirmada pelo desejo sexual, a vontade de convívio,
a repartição do trabalho, o espírito de sobrevivência.
Mas toda a gente sabe que tudo isso tem um preço.
E que para aceder aos cómodos produtos que a comunidade
nos propõe, cada indivíduo tem de desistir um pouco
da sua individualidade. Os menos adaptáveis precisam
mesmo de ser auxiliados (por uma calçadeira?). De
modo que, se de cada vez que um homem deixa o útero
da solidão, sofre uma decadência de si mesmo, esse
homem tem de regressar de vez em quando à solidão,
não para reencontrar a essência perdida (pois a
essência do homem faz-se no fazer, faz-se no sofrer
o impacto do outro), mas para se reconciliar com
aquilo que em si mesmo respeita, e que para si mesmo
sonha. No fundo, o Homem é sempre eremita, ainda
que o seu eremitério seja tão exíguo em quantidade
quanto é urgente e indispensável ao nível da auto-satisfação.
Nada disso afectava o Garcia. Perante os outros,
ele mantinha uma atitude onde era difícil destrinçar
o que era desprezo e o que era tolerância, se é
que (e podemos finalmente fugir da filosofia de
alcova do parágrafo anterior) há alguma diferença
entre estas duas emoções. O Garcia estava no mundo
como estava consigo mesmo. Era transparente, mas
duma transparência tão incómoda para os outros quanto
não era especular. O que se via no Garcia era o
próprio Garcia, e não esse paliativo civilizacional
a que chamamos calor humano. Ele passava
na pólis sem necessidade de aprovação (muito menos
de proscrição), sem timidez, sem vergonha, sem calculismo,
sem cinismo, escolhendo sem complexos o seu próprio
catálogo de respeitos e desejos. O seu cabelo oxigenado
(mais casca que capacete, todo falso e bujiganga,
ninguém sabe se mais pindérico ou mais alienígena,
se cantor pimba ou roqueiro inteiro de glam) não
era, portanto, uma provocação. Fim de traição.
Sentado numa mesa de esplanada, descalço (tinha
depositado as sapatilhas verdes numa cadeira ao
seu lado), vestido com umas jeans demasiado justas
e uma camisa-de-maravedi, estava a escrever no seu
computador portátil.
!!!!!!!!!!!!!!!
- 'Tou… Guimarinho!! Então, grande palhaço? Já não
te ouvia há algum tempo, meu… Continuas feio e gordo?...
Oh! Cá vamos andando, cá vamos andando… Que é que
hei-de fazer?... Enterraram-me vivo, foi o que foi…
Olha, nesse aspecto o Kamera teve mais sorte!...
O leitor ainda não sabe mas, durante a viagem de
avião que levou o ex-Gael e o sempre-Guimarinho
em direcção a Roma, o gentil Kamera não achou nada
melhor para fazer senão bater a sua própria bota.
Isso mesmo. E o chefe do malogrado jornalista (nada
mais sobre ele é preciso dizer a não ser que em
todos os discursos usava a palavra doravante,
e que, se nos discursos de patrão coubessem palavras
como ósculo e amplexo, ele não se
coibiria de as usar), que o mantinha no emprego
por uma unha negra, achou que tal sucedido fora
a última palha, e mandou cortar a dita unha. Assim
se viu o Garcia com um despedimento nas mãos, como
se a sua estrela se tivesse esquecido de se proteger
na relação com a vida.
E assim o encontramos em Granada, numa publicação
de terceira ordem, a escrevinhar horóscopos em espanhol.
Ironia do destino, ele acabou mesmo a fazer aquilo
que mais temia. Dizemos nós que foi vingança do
Kamera (pois o homem sensual tem o seu orgulho!).
Mas se o leitor quiser uma história menos fantástica
que ponha todas as causas a morder nas caudas dos
verosímeis efeitos, faça o favor de meter mãos à
obra que, já se sabe, todo o Homem é Artista.
Quanto aos horóscopos…Que destino poderia ser pior?
A astrologia é a música do intelecto. Em ambas as
actividades se verifica um sobranceiro desinteresse
pela verdade da palavra, não significam nada, prometem
muito, e desta forma consolam muitos corações sem
que nada de concreto tragam às suas vidas. Ambas
são levadas a cabo por profissionais que de algum
modo desprezam o que fazem, que se orgulham da sua
falta de cultura, e que muitas vezes descambam em
puros mercenários. No fundo, ambas servem mal as
esferas de que se reclamam. Para que ninguém o reconhecesse,
o recente astrólogo assinava com o nome Bernal.
No intervalo entre dois signos, Garcia ia comendo
as pevides da sua romã.
No texto homossexual, ninguém tem consciência de
optar por coisa nenhuma (é o acordeão da alma que,
livre das mãos mas não livre do vento de Hermes,
direcciona o sexo em x ou y direcção), a não ser
pela figura de retórica que convém à sua específica
circunstância. Garcia não se podia comprazer com
esse simbolismo que une a romã ao coração até que
um poeta vigoroso decida separar tão ruborizados
nubentes. O mundo estável que permite que a romã
se compenetre de tal forma do papel de coração até
começar a bater um amor tão institucional que só
o enfarte do divórcio vem trazer um ensaio da morte,
esse mundo que se quer perene não como uma catedral
mas como aquela folhagem que tenta resistir aos
Invernos da falta de comunicação, esse mundo não
lhe pertencia. Que tudo tenha que ser assim-natureza,
ou que tudo possa ser de outra forma-filosofia,
referende o Homem com o voto continuado do seu pensamento
e da sua moral. Garcia não podia optar pelo símbolo
(pelo cliché), mas por algo mais marginal: pelo
anagrama. Assim, comia a sua romã como se comesse
o desejo do amor, mas um amor já nasalado, tornado
imperfeito pelo condicional, o amor de quem o não
consegue dizer de forma clara, plena, limpa.
Pevide após pevide, Garcia (que na mira tinha já
um barman de serviço) era acometido por uma questão
secundária, pelo sabor da ignorância: ao fim e ao
cabo, de onde vêm as romãs? Serão filhas de uma
árvore gloriosa, alta e luxuriante, verdadeira Sotheby's
do apetite dos transeuntes? Ou estarão penduradas
em arbustos insignificantes, longe da vista, dependentes
mais do jogo do acaso que de uma generosidade constante
e evidente? Enfim, Garcia não o pensou, mas pensamos
nós agora: estarão as romãs apenas suspensas em
linhas de constelação?
O empregado já o tinha topado. E ao que parece,
nenhum dos dois se entre-vistava pelas razões erradas.
E como nada consegue superar nem o gosto de uma
fruta carmim nem o gosto de um jovem ocasional,
e como a manhã é um bumerangue em que sempre podemos
sobreconfiar, foi com boa disposição (mas sem esbanjar
sorriso) que Garcia voltou ao trabalho. Não
sabemos que signo era agora contemplado com o seu
improvisado horóscopo, sabemos apenas que os astros
lhe ditaram a seguinte futorologia:
O que dizer a alguém que viaje até Saturno na
época das festas, mas que não se aventure na montanha-arménia
do Parque de Diversões de Cassini? Como classificar
o idiota que, em congresso numa metrópole de Júpiter,
não aproveite um momento de pausa para tomar o space-ferry
para um dos belos satélites que ainda ostentam a
abundância selvagem daquelas hortênsias-mais-senhoras-que-cachopas
que não se encontram em mais nenhum arquiempíreo
do universo? Podemos ir a Roma e não ver o Papa,
não há problema nenhum. Mas será lícito não tirar
uma fotografia em frente da Fontana di Anna Gramma,
a mulher lendária que inventou o mais antigo hobby
do mundo: a profissão? Devemos ser proprietários
de um Stradivarius (só um para não rimarmos em demasia),
mantendo-o enjaulado na altura do cio quando os
telhados são invadidos por um rocio digno de Paganini?
Devemos receber um coração, e comê-lo sem requinte?
Quando podíamos, com paciência, catar as suas tiladas
pevides, uma por uma, e reuni-las depois numa salada
vistosa, dessas que prometem uma cor sã num sabor
são, e que podem ser comidas entre dois dedos de
silêncio…
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