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Biblioteca online
do conto |
A Ficções apresenta a primeira BIBLIOTECA ONLINE DO CONTO. Através dela, queremos tornar acessíveis a todos os leitores de língua portuguesa os textos integrais de alguns dos contos mais notáveis do século XIX português.
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Contos dos
leitores |
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João
Medeiros
"Daqui Só Saio Quando Morrer"
O cão gemia tanto que miava. Pendurou-o debaixo
do braço, pegou-lhe pela cauda pendular,
volteou uma corda de ponto cruzado na sua ponta
e uma lata destapada de querosene na outra, e soltou-o
no chão. Balançou a perna bruscamente
de um lado até ao rabo do cão, que
ganiu num salto e solto fugiu regando óleo
pela lata. Araújo soltou então um
fósforo aceso no riacho de combustível.
Num só fôlego, o fogo galopou até
ao cão, perseguindo-o através da floresta.
Os pinheiros e os eucaliptos acenderam-se como lâmpadas.
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Eduardo Cintra Torres
"A Biblioteca"
"Biblioteca Luís de Camões. Oferta de um grupo de
patriotas de Lisboa. 1908" O orgulho da inscrição
ia-se apagando, caindo como caía a caliça pobre,
mas as portas de madeira aguentavam há quase um
século a abertura às nove e o fecho ao meio-dia
e meia, a abertura às duas e o fecho às cinco e
meia. A sala de leitura ficava a seguir ao depósito
dos livros. Realmente um depósito: ninguém os lia.
Que livros ali haveria? Os mesmos de 1908? Teria
entrado algum livro depois? E os espaços vazios
nas prateleiras, esperariam eles sem esperança alguma
obra recente ou seriam antes lembranças de roubos
e de devoluções por fazer para sempre? Coisas de
antigamente. Agora já nem mesmo se roubavam livros
desta biblioteca.
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Pedro
Ludgero
"A Resposta do Perguntador"
O que dizer a alguém que viaje até Saturno na época das festas, mas que não se aventure na montanha-arménia do Parque de Diversões de Cassini? Como classificar o idiota que, em congresso numa metrópole de Júpiter, não aproveite um momento de pausa para tomar o space-ferry para um dos belos satélites que ainda ostentam a abundância selvagem daquelas hortênsias-mais-senhoras-que-cachopas que não se encontram em mais nenhum arquiempíreo do universo? Podemos ir a Roma e não ver o Papa, não há problema nenhum. Mas será lícito não tirar uma fotografia em frente da Fontana di Anna Gramma, a mulher lendária que inventou o mais antigo hobby do mundo: a profissão? Devemos ser proprietários de um Stradivarius (só um para não rimarmos em demasia), mantendo-o enjaulado na altura do cio quando os telhados são invadidos por um rocio digno de Paganini? Devemos receber um coração, e comê-lo sem requinte? Quando podíamos, com paciência, catar as suas tiladas pevides, uma por uma, e reuni-las depois numa salada vistosa, dessas que prometem uma cor sã num sabor são, e que podem ser comidas entre dois dedos de silêncio…
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Eduardo
César
"Os Lugares Separados"
Eram seis e meia da tarde quando se despediu dos secretários, e reparou que todos abandonavam o recinto em veículos próprios. Podia assim percorrer sozinho o caminho que leva à estação de comboios, uma estrada secundária de terra batida com algum declive a subir. Tinha tempo para o fazer com vagar. Apreciava bastante fazer isto. A estação ficava nos arredores da cidade e ao adentrar-se na vegetação, composta por árvores de porte robusto de ambos os lados da estrada, e erva alta nas bermas também, tinha a sensação de penetrar num bosque que nada tinha que ver com a cidade industrial que deixava para trás.
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Rita
Maia e Silva
"O Nosso Jardim"
Resolvo tudo através da discussão. Desde sempre.
Não conheço outro sistema. E não se entenda por
isto que são discussões construtivas, fórum aberto,
tipo vamos lá trocar de opinião para ver se chegamos
a alguma conclusão. Não. São discussões acaloradas,
animosas, atingindo às vezes níveis de violência
impensáveis. Sou eu contra o obstáculo, inimigo
sem identidade. Descarrego energias empilhadas,
alimento ódios e raivas várias. Sem razão aparente.
Exponho sem pudor a frustração que não agarro, exibo
o lado mau com muita lata. Encerro-me num autismo
que pisa sem querer - mas até quer - o outro, transformo-o
num verbo de encher. Ou apenas convencido que o
semelhante não passa de um alien por apurar.
Uma entidade distante que teima em chocar comigo.
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Nuno
Berkeley Cotter
"Plume"
No balcão do bar as garrafas dançavam
com os respectivos copos compassadamente. De vez
em quando o barman - neurótico e magrinho - puxava
do bastão de baseball e partia tudo só para poder
limpar. Tentava fazê-lo o mais silenciosamente possível.
Não gostava de incomodar a clientela. O sítio era
engraçado e acolhedor. Chamava-se Plume porque não
havia nome melhor.
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Leila S. Terlinchamp
"Nervos"
Súbito
uma revolução no céu. Meus carneirinhos foram varridos
com fúria e covardia. Contemplava essa transformação
quando mamãe chegou e perguntou-me: O que há, meu
querido? Nada, estava assistindo à performance das
nuvens. Respondi. Esta bela performance está a nos
dizer que mais tarde haverá chuva em abundância.
Disse ela. A chuva é boa, mãe. Respondi.
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