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Eduardo
Cintra Torres, "A Biblioteca"
"A Biblioteca"
"Biblioteca Luís de
Camões. Oferta de um grupo de patriotas de Lisboa.
1908" O orgulho da inscrição ia-se apagando, caindo
como caía a caliça pobre, mas as portas de madeira
aguentavam há quase um século a abertura às nove
e o fecho ao meio-dia e meia, a abertura às duas
e o fecho às cinco e meia. A sala de leitura ficava
a seguir ao depósito dos livros. Realmente um depósito:
ninguém os lia. Que livros ali haveria? Os mesmos
de 1908? Teria entrado algum livro depois? E os
espaços vazios nas prateleiras, esperariam eles
sem esperança alguma obra recente ou seriam antes
lembranças de roubos e de devoluções por fazer para
sempre? Coisas de antigamente. Agora já nem mesmo
se roubavam livros desta biblioteca.
No depósito a limpeza era sumária e ao nível das
prateleiras mais baixas. Para cima ninguém olhava
e as aranhas guarda-livros impediam com as suas
teias antigas que os volumes encadernados partissem
sem chamada de atenção. Ao lado esquerdo, a única
janela iluminava o armário do arquivo das obras
catalogadas. Numa das gavetas de madeira faltava
o puxador metálico. A ordem alfabética fora substituída
pela ordem do uso do tempo à medida que as fichas
manuscritas se soltavam ou eram arrancadas do tubo
metálico e recolocadas depois noutro lugar. Tal
desordem não constituía para a biblioteca qualquer
problema; já ninguém consultava o ficheiro e muito
menos havia quem se preocupasse como antigamente
em escrever nas fichas sebosas algum comentário
independente sobre o livro folheado: "Monárquico,
mas documentado." Ou generoso: "Muito bom, recomendo
a outros leitores." Ou explicativo: "Poema de amor
intenso, fervor do amor físico, páginas 23 a 26.
Atenção que 'lírio' simboliza o pito da miúda."
Ou violento: "O que é que este gajo quere, afinal?"
Várias fichas tinham comentários sobrepostos. Um
leitor escreveu num dos cartões: "É belo, mas não
percebi nada." Por baixo, noutra letra, noutra cor,
alguém escreveu depois: "Não percebi nada, mas é
belo." No fundo de todas as gavetinhas estreitas
e compridas havia fichas soltas de obras esquecidas
nas prateleiras.
Dali se passava para a sala de leitura. As sua grandes
janelas davam também para o logradouro dum quarteirão
antigo. O sossego dos livros repetia-se no rectângulo
enorme de antigos talhões de cada prédio, agora
reunidos pelas ervas altas e tombados que estavam
os murinhos de tijolo burro como em ruínas de antigos
impérios.
Ao fundo da sala iluminada de luz velha que se espalhava
por abóbadas envergonhadas ficavam uma secretária
simples, quase uma mesa de refeição, e a sua cadeira
sóbria estofada com uma almofadinha baixa e um encosto
para as costas que compensasse as longas horas de
vigília. Era nessa cadeira por trás dessa secretária
que muitas vezes se sentava a menina Julieta.
Chamavam-lhe menina precisamente desde o tempo em
que deixara de ser menina, quando cresceu - não
de repente, mas sem se dar por isso, como uma florzinha
que desabrocha suavemente, entre a primeira réstea
da madrugada e o primeiro raio forte do sol - e
cresceu até usar sapatos de saltos altos. Antes
de ser menina Julieta ela era para todos a Julieta,
a filha da Jeropiga, a Jeropiga que limpava a biblioteca
com o mesmo encanto e empenho que punha em todo
o seu trabalho: nenhum. Limpava só até à hora do
almoço, porque depois era uma tristeza, um calicezinho
bastava para soltar o génio do seu corpo forte e
toda ela transbordava em coisas que não se deviam
fazer e ela fazia e em coisas que não se deviam
dizer e ela dizia em altas vozes. Uma desgraçada.
Nada que se adivinhasse de manhã, com as canções
controladas a marcarem o vaivém do pano do pó e
da esfregona molhada. Quando a tranca da porta da
biblioteca soava no logradouro no intervalo para
o comer, todos sabiam que a Dona Jeropiga já não
voltava, nem mesmo a buscar a filha. Outra desgraçada.
"Não há livros que contem estórias destas", dizia
um velho que se sentava no resto do muro que separava
do logradouro abandonado o claustro republicano
do edifício da biblioteca. "Então não há?!", dizia
outro, que lia livros. E discutiam o assunto com
pouco entusiasmo e mesmo algum incómodo até voltarem
às doenças e ao futebol.
A Dona Jeropiga, cuja graça já ninguém recordava
e por isso tinha o Dona legitimador colado à alcunha,
trazia a miúda pela mão e deixava-a a brincar no
logradouro ou na biblioteca, chovesse ou não. Nem
tinha mal: os poucos que lá entravam achavam a miúda
engraçada. Ela aprendeu a ler na escola, e na biblioteca
brincava com a boneca. A Julieta ia fazendo parte
dos dias e do lugar. A Senhora Clotilde, que se
lembrava de também ter sido Julieta num dia longínquo
e de ter visto o ministro da Instrução da República
na única visita de Estado à Biblioteca (foi na Festa
da Árvore, e plantaram uma no logradouro, que morreu
dois invernos depois), pedia à miúda, por causa
do reumático e de outras mil doenças de que nem
os livros falavam, que fosse buscar e entregar coisinhas,
fosse ele livros ou fichas, jornais ou uma merenda,
revistas encadernadas ou um lavor de uma vizinha.
Assim cresceu a Julieta até desabrochar a menina
Julieta. Já ela era da casa. Se a mãe entrava mais
cedo na taberna, a Julieta vinha limpar o pó por
ela. Os velhotes gostavam de ver a Julieta a limpar
o pó em cima dum banco. Foi então que descobriram
que ela já era menina. E que bela menina! Parecia
uma estampa, a Julieta. O velho que lia coisas dizia
que ela parecia as mulheres que o Stuart desenhava,
mas os outros não visualisavam. Viam o mesmo à sua
maneira, porém: umas pernas realmente desenhadas
por mão de artista, um peito de República, uns cabelos
de deusa romana, uns lábios de artista de cinema.
Não viam com estas palavras, mas o ver bastava-lhes.
A Dona Clotilde pigarreava como no tempo em que
as pessoas pigarreavam. Morreu primeiro que a mãe
da menina Julieta. Mas com pouca diferença. Parecia
combinado. Da Dona Clotilde ninguém sentiu realmente
falta, mas sentiram sim da tossezinha educada com
que marcava o fluir do tempo pois o novo silêncio
punha a morte atrás da orelha dos poucos que faziam
do espaço da biblioteca um muro que a enganasse.
Caso diferente foi a morte da Jeropiga. O bairro
não chorou, mas foi mais a pena da menina que da
mãe - e estava encontrada, com a naturalidade das
coisas simples, a herdeira das funções da Dona Clotilde
e da Dona Jeropiga. O Estado estava em tempo de
poupanças. Duas em uma. A menina Julieta limpava
o pó aos livros e sentava-se na cadeira da, chamemos-lhe
assim, bibliotecária. Os velhotes passaram a usar
a biblioteca com uma regularidade antes interrompida
pelas maleitas, servicitos, afazares, idas à Caixa,
enterros, jogatina no jardim público. Não queriam
perder a limpeza dos livros. A menina Julieta tirava
os sapatos altos, ficava em pontas de pés um momento,
tendo um delicioso arrepio por causa da pedra gelada
do chão irregular do depósito, juntava os sapatos,
punha-os numa das prateleiras onde o tempo deixara
espaços vagos, e subia o escadote com gentil firmeza.
Quando se aplicava a limpar o pó, com um certo entusiasmo
de juventude, percebia-se que sabia como limpar
o pó em livros velhos. A menina Julieta parecia
aos velhotes a Julieta do balcão de Verona mesmo
que nunca tivessem sabido que havia um balcão em
Verona. Era linda, a menina Julieta. E quando se
sentava na sua cadeira sóbria, toda direita, sem
se envergonhar do peito alevantado, do seu peito
5 de Outubro, olhando a janela, fechando os olhos
se o sol entrava sem medo? Melhor que uma santa
no altar duma igreja quando a luz apanha a jeito
os rasgos na pedra e atravessa os vidrinhos transparentes
colocados no lugar de antigos vitrais. Os velhotes
deixaram os bancos do falso claustro e passaram
a sentar-se nas mesas de leitura, viradas para o
lugar institucional da menina Julieta. Com livro
ou sem livro, os velhos admiravam a Julieta ao sol,
virando a face para a janela, fechando os olhos,
às vezes inclinando a cadeira mais para a sua direita,
para receber o calor no regaço, nas pernas, no corpo
todo.
Um dia entrou na biblioteca um rapaz e viu o mesmo
que viam os velhos. A diferença é que era rapaz.
Porque teria ele lá entrado? Um dos velhos dizia
que andava à procura duma morada para entregas e
foi ali ao engano; outro que o moço já a devia ter
visto na rua muitas vezes e sabia muito bem quem
ela era; outro, ainda, aventou que ele ia à procura
dum livro, mas os outros riram-se da ideia e ele
calou-se. Certo é que o rapaz quando a viu sentiu
qualquer coisa; como que parou, congelado, ou a
ferver por dentro; sem saber o que sentia, sabia
o que via e o que via era o que sentia e o que sentia
era uma atracção por olhá-la, vê-la, mirá-la, fitá-la,
observá-la, sentada, em pé, parada, em movimento.
A menina Julieta não era de gestos delicados, mas
naquela idade os gestos têm o cheiro do amor. Fazem
tremer os rapazes por dentro. O rapaz que lá entrou,
que não entrou à procura de nenhum livro porque
não sabia sequer que ali havia livros e não lhes
tinha gosto, ficou a tremer por dentro e com a borracha
da sola dos ténis agarrada ao chão, a derreter-se
como ele. A menina Julieta deu por ele ali especado,
entre o depósito e a sala de leitura e sorriu bom-dia
como era costume a quem ali entrasse, mas o bom-dia
arrastou-se e ela também se sentiu agarrada pelo
meio do ar aos olhos do rapaz e quase se podiam
ver as setas do olhar da menina Julieta a seguirem
em sentido contrário, dos seus olhos cor de castanha
para os olhos esverdeados do rapaz. Em breve (foi
uma questão de segundos) as setas dos olhares, duas
em cada sentido, começaram a tremer também.
A menina Julieta foi a primeira a despertar do ataque
que o seu próprio corpo lhe fazia, uma coisa interna
em que ela não pensou propriamente, nem precisava,
pois dela tinha milenar conhecimento. Pegou ao calhar
numa revista qualquer que nem era da biblioteca,
tinha-a trazido dum consultório para ver nas horas
vagas, e disse ao rapaz para se sentar numa das
mesinhas mais próximas dela. Ele obedeceu sem dizer
palavra e seguindo a menina Julieta com os olhos,
seguindo o que quer que ela fizesse ou não fizesse,
foi folheando a revista uma, duas, três vezes, as
vezes que foram precisas até que se aproximasse
a hora do almoço da biblioteca.
Os velhotes saíram um a um da sala e do portal e
foram para as suas casas, os seus quartos, os seus
lares, os seus pratos de sopa, os seus caldos e
uma peça de fruta. O rapaz ficou-se pela menina
Julieta e a menina Julieta ficou-se pelo rapaz.
A menina Julieta fechou a porta como era hábito,
mas fechou-a consigo dentro da biblioteca, ela e
o rapaz.
Perguntou-lhe o nome, porque ela não era dessas
que nem sabia o nome dos rapazes com quem andava,
repetiu o nome Armindo e agarrou-se-lhe ao pescoço
arrastando-o para o depósito, para um dos corredores
escuros, afastado da janela do móvel do arquivo.
Ali, encostada ela à prateleira das letras A, B
e C e ele de costas para o J, o L e o M, pois a
biblioteca não tinha livros de autores começados
por K, o rapaz e a menina Julieta possuíram-se um
ao outro em igualdade republicana, ais mudos e bafos
quentes quantificando e qualificando a intensidade
do encontro.
O rapaz queria mais, o que era compreensível dada
a perfeição da troca dos corpos um no outro. Ela,
com um sorriso a chamar-lhe maroto e a si mesma
marota, levou a mão atrás da cabeça, pegou num livro
(eram os sonetos de Camões) e deu-lhe com ele ao
de leve no cocuruto, enquanto o puxava para cima
da mesa de apoio do depósito, onde apenas uma Lírica
de Garrett esperava que a menina Julieta a devolvesse
à prateleira do A, de Almeida. Ali, deitada na mesa,
de pernas ao alto apoiadas no BA início do B e a
Lírica a servir-lhe de almofada para a cabeça,
o rapaz penetrou a menina Julieta e a menina Julieta
penetrou o rapaz, se é que a imagem se pode usar
só para que conste que aqueles dois tentavam com
igual empenho, naquela alegria breve, ser apenas
um. Assim terminaram a hora de almoço, comendo-se
um ao outro, consumindo as energias mútuas com toda
a seriedade que há nas coisas do amor mais perfeito
que há, que é o que não tem amor consciente nem
pensado.
Recompuseram-se. A menina Julieta abriu-lhe a porta
para ele se ir, e ele só se apercebeu disso com
ela dentro e ele fora, e ele a querer vir outra
vez e ela a sorrir que não e a fechar a porta da
biblioteca onde ele tinha aprendido tantas coisas
de uma só vez naquele fim de manhã.
O rapaz, trabalhador como poucos, não voltou lá
no dia seguinte nem no outro. Passados uns dez dias,
entrou de novo na biblioteca e a entrada anunciava
que se estava quase na pausa do almoço. A menina
Julieta sorriu-lhe e, à parte as setas dos olhares
cruzados, repetiu todos os gestos pela mesma ordem,
pois os hábitos de bibliotecária diligente implicavam
disciplina nos actos quotidianos. E, assim, sentou-o
na mesma mesa, deu-lhe uma revista recente, fechou-se
com ele lá dentro, encostou-se à prateleira do D,
do E e do F e lá foram eles aprender a ler o amor
em cada centímetro de pele, em cada linha do rosto,
em cada mistério do corpo. Desta vez falaram mais,
mas a menina Julieta não queria muitas conversas.
Como saberia ela que quanto mais se fala mais o
amor se complica? Punha-lhe o dedo indicador nos
lábios e impedia-o de falar. Ela sabia que ele estava
a tentar apaixonar-se.
De duas em duas semanas lá voltou o Armindo, toda
a primavera e meio verão. Depois falou que emigrava
e chorou. Queria levá-la. Ela disse: "só se levares
a biblioteca". Ele não entendeu, mas parou de chorar
porque sabia que tinham ambos falado de mais. Já
não havia setas imaginárias ligando o olho esquerdo
dele ao olho direito dela e o olho direito dele
ao olho esquerdo dela. Estavam as coisas neste pé:
ela ficava, ele partia e o que houvera entre eles
sobreviveria ainda como memória às primeiras chuvas.
Ele disse que já estava a passar a pasta a um colega
e que passaria a dizer-lhe adeus uma última vez
antes de abalar para a América. Ela, com o mesmo
sorriso de sempre (apenas com uma ligeira sugestão
de que era um sorriso segurado numa linha do canto
da boca) disse que sim, que passasse.
Ele passou. Trazia o colega. A menina Julieta, sempre
atarefada com as suas coisinhas, olhou-o e olhou
o colega. Disse-lhe adeus, um adeus sentido mas
já resignado, enquanto sentia, de novo, as setas
nos olhos ligando-se aos olhos pretos do colega
do rapaz.
De duas em duas semanas, o colega do rapaz passava
na biblioteca à hora de almoço e a menina Julieta
fechava-se por dentro com ele. Correram as prateleiras
todas. A coisa tornou-se um hábito. Mas, desta vez,
em chegando ao Z, a menina Julieta hesitou antes
de regressar ao A.
E, já depois de esquecidas as primeiras chuvas,
a menina Julieta dava por si a pensar se haveria
na América alguma biblioteca como aquela.
Estoril, 2002-3
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