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Biblioteca online do conto |
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UMA
COPEJADA DE ATUM |
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  Tunes, 24 de Dezembro de 1926
Meu caro amigo:
  Lendo a minha última carta terá talvez
dito para consigo: que extravagância será a deste
homem, agora, que em terras tão remotas, pitorescas
e variadas, leva horas a escrever sobre a costa
do Algarve? Duas razões há para isso, e qual delas
a mais simples e plausível. No curso da vida,
quem é que se não encontrou uma vez a falar, ingénuo,
do coração para o coração, e se, depois, o amor,
ou a ilusão do amor, se lhe desfez, que mimosa
recordação lhe não ficou desses momentos em que
a alma parecia ter revertido à candura do Paraíso
perdido? Foi assim o amor que me inspirou o mar
da minha terra; diferente dos outros amores em
nunca ter sofrido desilusão, antes ampliado e
sublimado pela separação e pela ausência. Ali,
durante anos, destemido, sereno, livre e forte,
como um semideus - e quase na persuasão de que
realmente o era - vivi na pureza das águas desse
mar, sondando-lhe as profundezas cristalinas,
rolando nas volutas das suas ondas encapeladas,
como se ele fora o meu elemento natural; despido
e nu de toda a malícia e de todo o pecado, nele
me embalava horas sem fim, sonhando com os astros,
e entre sonhos, imaginando que, talvez, um dia,
para eles fosse arremessado... É-me prazer inefável
recordar esses anos, ou pelo menos os cenários
em que decorreram; e aqui está a primeira razão.
A segunda vem de que é muito mais fácil fazê-lo
a distância. Porque é que tanto me enleia e confunde
escrever meia dúzia de linhas sobre uma paisagem,
um quadro, um monumento, que me estão diante dos
olhos, e logo que se afastam, a ponto de não serem
já perceptíveis, as observações, o discorrer,
que eles motivam, tomam forma e (correntemente)
a linguagem lhes dá expressão abundante e apropriada?
Excesso de imaginação, talvez, que se sente restringida,
limitada, cerceada, pelo testemunho do modelo
em presença, e que pode trabalhar livremente
sobre ele, quando está ausente. E enquanto lhe
escrevia a minha última carta, mais de uma vez
me acudiu à lembrança a promessa que fiz, já não
sei a quem - ao Jaime Cortesão, se me não engano
- de dar, para o Guia de Portugal dos rapazes
da Seara Nova, a descrição de "uma copejada
de atum". Fiquei sempre pensando que era agora
- de longe - boa ocasião de a fazer. Pois vou
tentá-lo hoje, e se lhe parecer que pode servir,
guarde-a para o caso de eles um dia a pedirem.
   A costa, a leste de Portimão, continua
alcantilada e pitoresca em algumas léguas, mas
de difícil acesso, com pequenas e raras praias,
na boca de apertadas ravinas. Assim é a praia
do Carvoeiro, que serve aos habitantes de Lagoa
para banhos e passeio.
   Aí tinham uns amigos meus o arraial
de uma armação de atum, lançada mesmo em frente
da praia, a três ou quatro quilómetros de distância,
no mar alto, que me proporcionou, pela primeira
vez, o espectáculo de uma copejada.
   Era no fim de Maio, com vento mareiro
e águas claras, indispensáveis para trazer à costa
os cardumes do atum, que se assusta e foge à menor
sombra que lobriga. Esperava-se farta passagem
de peixe e eu recebera aviso para comparecer.
   Logo à minha chegada, ao cair da tarde,
fizeram sinal da armação de que um "bom cardume"
de peixe se aproximava. A notícia causou profunda
sensação, pois as vigias, sempre cautelosas, o
mais que anunciam, de ordinário, é o aparecimento
de alguns peixes, "poucos", e eu fui recebido,
pelos meus amigos, festivamente, como se a minha
presença tivesse chamado o atum.
   O director técnico da sociedade (um
Joaquim Negrão, curiosa figura desportiva, donjuanesca,
aventurosa; o mesmo que em moço levara o Antero
à América, numa escuna que ao tempo comandava)
seguia, por um grande óculo de alcance, o que
se passava na armação, e ia comunicando as informações
colhidas. O atum era muito, acudira bem ao "atalho",
e entrara no copo, onde esperaria a madrugada
seguinte para ser pescado.
   "Onde esperaria..."
   Para os pescadores uma noite dessas
é de incomparável ansiedade; não vá o ruaz entrar
na armação, e senti-lo basta para que o atum,
tomado de pânico, faça acuada e abra caminho,
rompendo o copo com o peso, e desaparecendo em
poucos minutos.
   E o que isso significa?! A grande esperança
frustrada; a rede inutilizada e levada para terra
a conserto; dias perdidos no tão apertado período
da pesca, que para o atum de direito não vai além
de um mês escasso, e logo na boa monção de águas
claras, que raramente se repete no mesmo ano.
   Sem embargo, alegre decorreu o jantar,
e, para desfazer cuidados, os meus anfitriões
deram-nos à sobremesa um velho bastardinho, criado
nas areias de Alvor, capaz de desanuviar a alma
do próprio Job.
   Notícias mais precisas, trazidas pelo
mandador da armação, avaliavam o peixe entrado
em oitocentas cabeças, o que daria uma copejada
esplêndida a todos os respeitos: lucrativa e pitoresca.
   Depois do jantar o Negrão leccionou-me
um pouco sobre o que era uma armação, e o que
se conhecia dos costumes do atum.
   O covo ou copo da armação, que é um
longo e perfeito rectângulo, está fixo no fundo
do mar por pesadas fateixas, a que o prendem cabos
de aço; e à superfície segura-se na amurada das
grandes lanchas que o cercam, das quais a maior,
chamada da "testa", ocupa uma das extremidades
mais estreitas do rectângulo. Na extremidade oposta
está a entrada - "as portas" - da armação, precedida
de um jogo de redes, cujos movimentos permitem
encaminhar o peixe para dentro do copo; esta operação
chama-se "atalhar". A começar das portas, e estendendo-se
muito pelo mar fora, segue uma rede de metro e
meio de altura, suspensa em bóias de cortiça,
e esticada por pesos de chumbo, a que se chama
"rabeira".
   O atum, que anda em cardumes, procurando
a proximidade da costa para desovar, se entra
na faixa de água limitada pela rabeira e lhe vê
a sombra, assustadiço, como é, em vez de tentar
atravessá-la vai-a seguindo mansamente, à busca
de saída, e mansamente cai nas portas da armação,
que se fecham apenas o apanham dentro.
   Antes de desovar, o atum chama-se "de
direito", e as armações que o apanham têm a boca
voltada para oeste, de onde ele vem na derrota
do Estreito; essas mesmas armações, postas com
a boca voltada para leste, servem para o atum
"de revés", que regressa em poucas semanas, já
desovado e magríssimo. Daí a grande diferença
de valor entre os atuns de direito e de revés,
sendo aqueles aproveitados especialmente em conservas
e estes para a salga.
   O seu grande inimigo é o ruaz, cetáceo
potentíssimo, que os persegue também em cardumes,
e lhes come de preferência a barriga, de uma só
dentada, atirando-os depois ao ar, como se fossem
pélas cheias de vento. Um atum adulto pesa de
seis a doze arrobas, mas o ruaz é um monstro da
forma do tubarão, com oito metros e mais de comprido.
Este monstro, porém, não ataca o homem, e eu tive
disso a prova, porque uma vez, nadando longe da
costa, alguns vi e por eles fui visto, sem me
fazerem mal; eu é que não sei como escapei do
susto!
   A copejada faz-se levantando uma rede
móvel chamada "céu", que está no fundo do copo,
e vai lentamente trazendo o peixe à superfície
da água, onde ele é apanhado pela gente da companha
debruçada sobre as barcas, e tendo preso no pulso
direito, por uma corda, um pequeno arpão móvel.
O peixe corre em círculo à roda das barcas, e,
quando lhes passa ao alcance, o pescador mete-lhe
o arpão e puxa-o para dentro da barca, onde ele
entra e cai pelo seu próprio impulso, desprendendo-se
do arpão automaticamente, apenas transpõe a borda
da lancha. Uma criança de dez anos pode, assim,
pescar peixes de dez arrobas.
   Ainda a madrugada não dava sinais de
romper, já nos encontrávamos no bote que nos devia
levar à armação. Durante a noite o vento fizera-se
mais de terra, mas ainda de má feição; a distância
era grande e havia muito que bordejar para vencer
a tempo de assistir ao começo da copejada. Fazia
luar; a ondulação do mar, espaçada e surda, era
como que abafada por aquela silenciosa luz branca.
   O caminho fez-se mais depressa do que
julgávamos, e quando entrámos na barca da testa,
onde devíamos assistir à pesca, a Lua não empalidecera
ainda de todo e apenas a nascente dois fios de
carmim, tenuíssimos, assinalavam, no céu polido
e esverdinhado, o ponto por onde ia surgir o Sol.
   A companha, que viera duas horas antes,
acabava os últimos preparativos para a pesca,
ensebando os cabos, experimentando as roldanas,
e reforçando as pulseiras dos arpões.
   À volta da armação aglomerava-se grande
número de lanchas de carga, vindas, durante a
noite, dos portos vizinhos, onde o telégrafo levara
aviso da grande copejada em perspectiva. Essas
lanchas, pela ordem da sua chegada, destinavam-se
a carregar o peixe que se pescasse, para o conduzir
à lota de Vila Real de Santo António, o grande
mercado de atum, concorrido de italianos e espanhóis.
   Mas no enorme agrupamento de gente,
batéis e lanchas, de que se distinguiam já claramente
as formas e os movimentos, o que surpreendia era
o silêncio, inesperado e sempre admirável na gente
do mar, e sobretudo em algarvios de tão falaruca
fama. Era para não espantar o peixe, como a superstição
aconselha.
   Rompeu, por fim, o Sol, apressado e
quente, sem que tivéssemos prestado atenção ao
seu glorioso aparecimento, e começou a concertada
faina de levantar o céu da armação. Logo aos primeiros
movimentos a superfície da água, no recinto da
armação, começou também de se encrespar, aqui
e ali, de rolos de prata viva; eram pequenos cardumes
de sardinha, que fugiam à voracidade do atum.
Acudiu-se-lhe com umas redes triangulares, dobradiças,
chamadas "muletas", que facilmente a apanhavam
e distribuíam pelos convidados. Nós já tínhamos
o nosso fogareiro de barro preparado, à espera,
com a lata sobre as brasas; ali, em poucos minutos
ficava a sardinha assada, e logo era comida mesmo
na ponta da unha, com pão de toda a farinha, minheiro
e ainda quente do forno, e regado com um "tinto"
áspero de surdo flavor, trazido adrede para aquela
função já certa.
   Apenas a água principiou a ferver,
com a revolução do peixe que se aproximava da
superfície, rompeu a mais tremenda gritaria e
algazarra, de que tenho memória, e que ainda redobrou
ao aparecimento dos primeiros atuns. Começou então
a toirada.
   Sucedeu que o primeiro atum arpoado
se escapou, e caído à água com tal velocidade
parecia voar, jorrando sangue que o acompanhava
de um rastro de púrpura. A assuada ao marujo infeliz
foi medonha, e vi jeitos de o atirarem também
à água. Mas é que os primeiros atuns que apareciam,
tendo ainda campo avonde para nadar, fugiam das
barcas, enquanto os marujos, abrindo os braços,
e com grandes pancadas no costado das lanchas,
os incitavam às sortes, como se fossem bois.
   Isso, porém, durou pouco. Entre borbolhões
de espuma assomou logo uma densa camada de peixe,
e tão apertada pelo costado das barcas, que os
marujos quase lhe davam às cegas, levantando uma
cabeça a cada arpoada.
   Viu-se então que o atum era de bom
calibre e muito. Ao meu lado, um perito amador,
mas de reconhecida autoridade, ia-o contando,
e quando chegou aos quinhentos verificou-se que
não fazia falta no copo, onde continuava a afluir
em camadas igualmente densas.
   O sangue e a água, misturados, soltavam-se
aos cachões, envolvendo os peixes em línguas de
púrpura cristalina, e ao centro da rede faziam
remoinho, abrindo um poço fundo e largo, por cujas
paredes transparentes giravam, desvairados, os
grandes bichos cintilantes.
   Dissera-me o meu hóspede que o Joaquim
Negrão me preparava uma surpresa, e sem o ter
esquecido eu pensava, com cepticismo, no que poderia
haver mais surpreendente do que aquele espectáculo
de colossal carnificina, com tal cenário, nunca
igualado, nem aproximado pela fantasia do mais
asiático dos imperadores romanos.
   O contador já ultrapassara o milhar
e ainda o peixe acudia em abundância, sendo algum
de extraordinário tamanho. Eram os "velhos manhosos",
observava um marujo, que só aparecem no fim. Com
efeito, as camadas que vinham à superfície tornavam-se
pouco a pouco menos densas, avolumando ainda mais
as proporções dos "velhos manhosos" que se multiplicavam.
   O Negrão, aproximando-se do meu grupo,
para falar com o mestre da companha, bradou-me:
   - "Agora vou-lhe mostrar um quadro
da mitologia." - "Vamos lá ver", repliquei, se
bem que pouco disposto ao entusiasmo, já embotado
pela prodigiosa cena a que assistia. Depois de
falar com o mandador, o Negrão gritou para a ré
da barca: - "Bem, se não há mais nenhum, que venha
cá o Serafim..." - "O Serafim, o Serafim!" pôs-se
a clamar quase em coro a marujama, e um rapaz
atarracado, embezerrado, e arruivado, como que
lhe veio nos braços, pela amurada fora, até onde
o Negrão estava. E ouvi este que lhe dizia: -
"Não quero desculpas; é para já..."
   Então o rapaz, depois de olhar entre
envergonhado e receoso para o meu grupo, principiou
a despir aquela quantidade de trapalhadas em que
os pescadores se envolvem, mesmo de Verão, quando
vão para o mar. E apareceu admiravelmente bem
proporcionado e forte, com um tronco de coiraça
grega, abaulado no peito e estio no ventre, os
quadris estreitos, mas as coxas volumosas e de
formidável musculatura. Tirante os pulsos, o pescoço,
e os pés, que andavam tostados do sol, todo ele
era de uma brancura marmórea. De pé, na borda
da lancha, erguendo os braços e juntando as mãos,
tomou um leve balanço e jogou-se à água, sumindo-se
entre os peixes.
   Mas em poucos segundos ele surgia,
quase na extremidade oposta do copo, montando
um enorme atum, que, para se desembaraçar da estranha
carga, entrou a correr vertiginosamente, saltando
sobre o outro peixe que lhe impedia a passagem,
ou mergulhando subitamente, para reaparecer alguns
metros mais longe, sempre com o tritão às costas,
agarrado com a mão esquerda a uma das alhetas,
agitando a outra mão no ar, e dando gritos de
triunfo. O rapaz estava transfigurado; resplandecia
de audácia e mocidade, entre as grandes salsadas
de água rubra que lhe lambiam o corpo, e luzia,
ao sol, como um vivo mármore cor-de-rosa.
   Animados pelo exemplo, outros rapazes
se atiravam à água, para cavalgar os peixes, mas
nenhum tinha a segurança heróica, nem a graça
helénica do Serafim.
   A pesca fechou acima de mil e trezentas
cabeças. Mais de "treze centos", como dizia a
gente da companha. Fora, na verdade, uma copejada
maravilhosa.
   Tomámos o bote para regressar a terra.
O sol ardia já como fogo, e em volta da armação
formara-se um círculo imenso ensanguentado, onde
as lanchas, carregadas de peixe, bordejando, abriam
silhagens de carmim, que se lhes reflectia nos
bojos das velas pandas.
   Quando entrámos em águas limpas, senti
a necessidade de me purificar, depois daquela
monstruosa hecatombe, e atirei-me, nu, ao mar.
Após vários mergulhos fundíssimos, até onde o
peso morto do corpo me podia levar, passei debaixo
dos braços um cabo que lançaram do bote e deixei-me
rebocar para terra, já meio adormecido...
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In GOMES, Manuel Teixeira. Agosto Azul, prefácio de Urbano Tavares Rodrigues,
notas de Urbano Tavares Rodrigues, Helena Carvalhão Buescu e
Vitor Wladimiro Ferreira, Lisboa, Bertrand, 1986, pp. 123-133.
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