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Biblioteca online do conto |
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UMA
CENA GREGA |
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  Blidá, 3 de Fevereiro de
1928
Meu caro amigo:
  Aqui vai o conto prometido.
   Passei uma das minhas últimas "luas-de-mel" nesse mesmo abençoado trecho da costa do Algarve, tantas vezes por mim encarecido, que abre da Ponta do Altar à Ponta da Piedade, isto é, da barra de Portimão ao extremo da baía de Lagos, numa sucessão de praias de areia finíssima e doirada, fechadas e semeadas de rochedos multicores, que se vão lentamente esboroando, e afeiçoando em composições pitorescas, onde parece que entrou a mão de algum artista ao mesmo tempo delicado e poderoso.
   Foi no sítio dos Castelos, e numa casa (ou monte, como no Algarve chamam às habitações do campo) de taipa sem reboco, pequena, quadrada, de telha vã, com o interior ainda por dividir, e debruçada sobre a cornija natural, que segue ao longo da costa, no debrum da terra firme, mas ali tão escavada e carcomida, pelas chuvas e pelas derrocadas, que dir-se-ia milagre não ter a casa escorregado já para o mar. Essa periclitante situação é que dissuadira o proprietário, um lavrador da serra, de a acabar, e concorrera também para que ele ma vendesse, quase por nada, quando eu buscava ninho para os meus novos amores.
   Com uns capachos de empreita se lhe armaram as divisões indispensáveis; o chão, ladrilhado, alcatifou-se de cobertas de trapos, tão vistosas e baratas, que ao tempo ainda o Alentejo exportava; e o mobiliário de vime e tábua completou o arranjo, leve e frágil, do interior dessa casa, que tinha toda a aparência de não resistir a um bom pé-de-vento.
   A minha rapariga abandonou os penates já noite cerrada, sem mesmo pôr o xale nos ombros, a pretexto de ir ver uma vizinha doente; e metendo por uma viela, pouco ou nada frequentada, veio dar comigo à carrinha onde eu a esperava, na estrada da ponte, que logo se bifurca nas direcções de Monchique e Lagos. Por aqui foi que nós seguimos; e depois, pelo labirinto de barrancos e veredas, que sulcam os campos, demos volta ao povoado, até à Senhora do pé da Cruz, de onde há caminho de carro que mal ou bem chega aos Castelos. Tormentosa viagem! O carrinheiro, algo assustado com a sua possível responsabilidade no rapto (a rapariga apenas completara dezasseis anos), para se despachar batia na mula, que era briosa e possante, e arrastava o carro pelas trevas daqueles fundos e estreitos atalhos, com solavancos mortais. Para de algum modo lhe resistir, eu sentara-me no fundo da carrinha, levando quase ao colo a linda moça, cujas lágrimas os meus lábios sofregamente enxugavam; e aos tombos, com mil carícias e mimos a fui consolando, até que chegámos.
   Da permanência dos navios flamengos, que durante séculos iam a Portimão carregar de figos e amêndoas, e estacionavam dentro do porto durante muitos meses cada ano (em mau tempo ainda lá os vi em número superior a quarenta), dessas demoradas e periódicas estadias, ficaram patentes vestígios naquela parte da província, em gente do povo, loira, de olhos azuis e pele branca de leite. Os capitães, em geral, ao fim de alguns anos constituíam família, sem prejuízo da que já tinham no seu país, e não eram poucos aqueles que, idosos e desembarcados, preferiam terminar os seus dias na doçura do nosso clima, fruindo os afagos da mancebia, entre os rebentos espúrios. A minha rapariga, sem dúvida, descendia de algum desses cruzamentos fortuitos, e ao mimo da compleição das filhas do Norte juntava a graça azougada, que não é raro encontrar nas moças algarvias.
   Fosse como fosse, eu estava profundamente enamorado, e arriscara-me a mil dissabores (que me não faltaram), para entrar na posse, ilegítima, mas muito real, firme, e duradoira, do tesouro de encantos que compunham o delicioso corpo da minha amada. A sua família - não a minha - conformou-se rapidamente com o rapto e a lua-de-mel decorreu sem o mínimo entrave, no isolamento quase absoluto da praia dos Castelos, com longos passeios pela costa alcantilada, sestas dormidas sobre a fofa e morna areia seca, e intermináveis banhos no mar cerúleo. Ensinei-lhe a nadar, que ela aprendeu facilmente, e ao mesmo tempo, já me não lembro porquê, nem com que intuitos (daí nunca obtive resultados satisfatórios) ia-lhe ensinando a ler e escrever. Traçaram-se as primeiras letras na areia. Em suma, um rematado idílio!
   Muito perto da nossa habitação (que ficava na maior altura daqueles sítios) mas numa cova ou dobra do terreno, como que agachado ao abrigo dos ventos do mar, estava outro monte, com seu lote de vinha, que andava arrendado a um casal, com quem eu me entendera para me fazer a comida, e mais serviços indispensáveis. O marido nascera numa propriedade vizinha, que pertencia a meus pais, chamada também "Os Castelos", de que tomara o nome: João dos Castelos. Era então um rapaz de vinte e dois anos que a mulher, viúva e mais velha dez ou quinze, seduzira e trouxera para casa, quando ele mal entrava à puberdade. Depois, ao primeiro filho, haviam-se casado.
   Era ela uma criatura tristonha, embiocada sempre num desbotado lenço preto, dando todo o dia fundíssimos suspiros e ais lamentosos, entre rodas de açoites nas duas filhinhas, que os não mereciam, e invocações extáticas, a uma boa dúzia de santos da sua devoção, cujos martírios citava por miúdos. Só levantava a viseira à hora de ir para a cama. Desabrochava-lhe então um sorriso bastante composto de dentes, que deviam ter sido maravilhosos de igualdade e alvura: sentava-se à porta, desempeçando e alisando os cabelos, compridos e fartos, que enrolava e metia numa coifa de linha branca; e feito isso desatava a chamar pelo marido, como quem chama por um cão estimado. Do meu monte ouviam-se-lhe os gritos: - "João, ó João, venha já para casa; ainda não acha que são horas de dormir, sô mariola? Venha já ou eu vou buscá-lo pelas orelhas..." e o João, que não era positivamente a encarnação da docilidade, raro se fazia esperar, acudindo com festivos assobios, entre dizeres como este: - "Já lhe tarda a ceia; hem, sua magana? Pois não se assuste que não perde nada com a demora..."
   Não me recordo de ter encontrado nunca tipo de beleza masculina superior ao desse João dos Castelos. E como andasse o dia inteiro pela praia, descalço e pouco menos de nu, todo o corpo se lhe patenteava, na variedade de todas as luzes, como estátua de bronze, levemente doirado, que tomasse vida. Trigueiro, e por igual tostado do sol, movia-se com a elasticidade e a graça próprias dos felinos; espigado, enxuto, mas bem musculado; o pescoço alto, as feições regulares de puro padrão agareno; completamente imberbe; os grandes olhos, de madona, ingénuos, parados, e de um escuríssimo azul profundo. Criara- -se, em plena liberdade, por aqueles sítios, não tendo nunca pegado na enxada, nem em trabalho regular, salvo nas duas ou três semanas da vindima. Aprendera todas as artes do rústico boémio, que vive ao fanico, armando esparrelas aos pássaros de arribação, no Outono, e nas outras estações apanhando espargos bravos; indo ao mexilhão, aos camarões, e às coquinhas, que vendia pelos montes, ou encarregava alguém de vender na vila, onde ele nunca punha os pés, nutrindo pelos povoados instintiva e invencível aversão. Na pequena courela de vinha que lhe cercava o monte, havia só três figueiras, mas ele secava e recolhia avultada porção de arrobas de figo passado; até à vindima não se lhe enxergava cepa que não estivesse intacta, e no entanto as pequenas andavam sempre a debicar num cacho de uvas, de que sempre tinha farta provisão em casa. Naturalmente eram as cepas e as figueiras dos vizinhos que pagavam as diferenças. De resto ele parecia de contínuo emboscado, à espreita de tudo que lhe fosse caça, e surgia detrás das rochas, ou assomava por entre os ramos das árvores, silencioso e risonho, quando menos se esperava.
   Exprimia-se por comparações e imagens, como é frequente no povo algarvio, pitorescas, sensuais e de um cinismo absolutamente pagão. "Quando acordo - dizia ele - ainda com os olhos fechados, busco as tetas da minha mulher e deixo-me ficar um bom bocado a chupar nelas; depois levanto-me, vou onde está a cabra, e chupo-lhe o leite até ficar fartinho; e mesmo pela escuridão, porque o meu gosto é levantar-me pela manhã muito cedo, para gozar aquela fresquidão tão boa, mesmo tenteando, à luz das estrelas, vou à vinha, escolho um bom cacho de uvas, e deitado de costas me ponho a chupar nele: os cachos de uvas são as tetas de Nosso Senhor..."
   O João dos Castelos sempre me fora dedicado, mas evidentemente essa dedicação redobrara desde que ele vira a minha rapariga. Conservava-se alerta, como sentinela vigilante, e bastava dizer-lhe o nome a meia voz para o ouvir gritar: "Pronto, já lá vou..." Tornou-se-nos imprescindível, desenvolvendo uma actividade que eu nunca lhe suspeitara. Perdia as noites na pesca, para arranjar peixe fresco, ou coquinhas e camarões, e desde que a rapariga disse defronte dele que gostava de ouriços-do-mar, nunca mais nos faltou à mesa esse marisco delicado mas raro, e difícil de encontrar e apanhar naquela costa. Pontual e certíssimo à hora do banho, para descer à praia connosco, levando a roupa, os lençóis de enxugar, os bancos dobradiços, e os mais petrechos, que tomara a seu cargo, tudo sempre numa ordem que fazia pasmar a mulher. "O meu João parece outro - observava ela - e tão meu amigo; isto foi o exemplo dos senhores: parece que estamos nós também na lua-de-mel..."
   Ele, que de ordinário andava quase nu, e dizia, com o orgulho do marítimo algarvio: "O homem nu é Deus; a mulher nua é o Diabo", começou a compor-se, e não quis acompanhar-nos no banho enquanto não arranjou um grotesco fato de malha, de listas verdes, roubado, provavelmente, a algum banhista da praia da Rocha. Mas aqui intervim eu, e fiz com que a mulher o reduzisse a um simples calção, que o transformou na viva e graciosa imagem do pescador napolitano do Rude.
   Nós não tínhamos barraca para nos despirmos antes do banho, nem ela era necessária naquela praia solitária, e semeada de rochedos anfractuosos, onde encontrávamos suficiente abrigo, e o João, que os conhecia a todos como aos seus dedos, escolhia-nos os mais cómodos para neles dependurar o fato, insistindo por fim em preferir um deles, que, embora apropriado, me pareceu inferior a outros, onde já nos tínhamos despido. Essa observação lhe fiz, mas ele, com muitos argumentos, logo acudiu a querer-me provar que em toda a costa do Algarve não havia rochedo comparável àquele, para substituir a barraca de banho. Eu ri-me do caso e não pensei mais em tal. Porém um dia em que, estando a vestir-me, precisei dele e o chamei várias vezes, respondeu-me, afinal, com a voz algo contrafeita e que, evidentemente, vinha do cimo das rochas. Quando se foi com a roupa do banho, o que fazia sem demora, para a pôr a secar ao pé do monte (e pelo que eu tinha compreendido, nas meias palavras da mulher, ele chegava a casa com uma fúria de sátiro, e onde a topasse ali a assaltava), procedi ao exame minucioso do rochedo, e foi-me fácil verificar que, por detrás, se podia trepar a um posto, do qual se via perfeitamente o sítio onde a minha rapariga e eu nos despíamos. À tarde chamei-o de parte, e sem lhe dizer exactamente do que se tratava, fiz-lhe um longo sermão, terminando por ameaçá-lo de o castigar, como criança que era, se não tomasse juízo. Com grande espanto meu desatou a chorar, e entre os soluços dizia:
   - Bata-me as vezes que quiser, que a mim não me importa! Afinal o que é que eu sou mais do que um cão vadio... Ah! se eu tivesse educação e fosse rico... - E parando com o choro de repente: - Vossemecê não gosta de minha mulher?...
   - Então não hei-de gostar, parvo, uma mulher tão trabalhadora e arranjada...
   Ele atalhou:
   - Não é disso que se trata; é se gostava de dormir com ela?...
   - Tu estás doido, João?...
   - Não estou... É que eu sou tão seu amigo que até me agradava... Olhe que ela despida é outra coisa do que parece...
   - Vai-te já embora, anda, não me faças perder a cabeça...
   Não restava dúvida: o João apaixonara-se pela minha rapariga. E o desfecho desse amor, que lhe contarei, talvez, um dia, foi-lhe funesto, coitado! A descoberta aborreceu-me deveras, e estava já resolvido a voltar para a vila quando sucedeu o episódio a que aludo na minha carta anterior, e se podia intitular "uma cena grega".
   - Íamos em meados de Agosto, e tinha chegado a Lagos uma grande esquadra inglesa - das últimas que ali vieram no tempo da monarquia. Os marujos, como de costume, começaram logo a fazer surtidas em terra, pelos arredores da cidade, atirando-se às figueiras e às vinhas, como se estivessem em país conquistado. Aos clamores dos habitantes e autoridades de Lagos, o comando da esquadra acudiu com algumas medidas de polícia, que atalharam o mal, mas somente nas imediações da cidade, porque os marinheiros, a pretexto de exercícios de remos, passeios e banhos, puseram-se a correr a costa para leste, e tinham encontrado a terra de promissão justamente nas vizinhanças do meu monte, pelos areais e declives barrentos que vão da Ponta de João de Ourém aos Três Irmãos de Alvor (grupo de leixões que se levantam do mar, agudos, altos e parelhos) onde se criam talvez os figos mais gostosos, e as mais sumarentas e perfumadas uvas do mundo inteiro. A propriedade, ali, está imensamente dividida, e pertence quase toda à gente de Alvor, dos Montes, da Mexilhoeira Grande, que vive distante e a traz mal guardada, de modo que os ingleses entravam nela como em sua casa, e ingaram ao sítio, vindo à colheita todos os dias sem falta. Sem a menor cerimónia, e munidos de cestos, iam eles fazendo a vindima nas vinhas que invadiam...
   É fácil imaginar o sobressalto, indignação e fúria que o caso provocou nos habitantes daquelas pequenas povoações, que logo representaram, em dolorosos termos, às autoridades de Lagos, mas sem resultado. Nessas diligências ninguém decerto andava mais aceso do que o João dos Castelos. Vestiu-se com o fato do casamento, o que ainda não fizera desde essa data memorável, para acompanhar a representação a Lagos, e noite e dia palmilhava montes e vales, incitando os campónios à defesa e às represálias, qual outro Pedro o Eremita preparando nova cruzada contra os infiéis.
   Um dia, de manhã muito cedo, entrou-me em casa todo açodado, e ainda com a cara lambuzada do sumo das "tetas de Nosso Senhor" (que certamente fora chupar na vinha do vizinho), para me perguntar se os ingleses seriam capazes de bombardear a costa, caso dessem "um bom castigo" na marujama, pois o regedor da Mexilhoeira, que tinha toda a autoridade de homem viajado, por ter andado na pesca do bacalhau, assegurava que, se por acaso matassem um inglês, não ficava pedra sobre pedra em dez léguas em redor.
   - João - disse-lhe eu -, o que tens tu com tudo isso, tu não és proprietário...
   - Não sou proprietário!... não sou, mas é como se fosse. Então não somos todos portugueses?... Eu sempre queria ver o que nos acontecia, se nós fôssemos à Inglaterra, roubar os figos e as uvas que eles lá têm... Ná; já que ninguém faz caso temos que lhes dar o castigo pelas nossas mãos... Eu cá não acredito que eles atirem para terra; isso era uma guerra! Então de que serve a canhoneira que está metida no rio?... e as duas peças da fortaleza de Santa Catarina?... Eu cá não acredito; vossemecê o que diz?...
   - Não atiram, não; disso podes tu estar certo; mas o que tencionam vocês fazer?
   - Bom, bom..., o que eu queria era ter a certeza de que eles não atiravam, e vossemecê não é capaz de nos enganar. Amanhã logo lhe digo o que a gente tenciona fazer...
   Na manhã seguinte, com efeito, veio buscar a roupa do banho, ao que faltava havia já alguns dias, declarando que também queria nadar até muito longe; e dentro de água, já bastante ao largo, como quem confia um segredo inviolável, longe de testemunhas ou espias, foi-me contando o projecto do "grande castigo". A ouvi-lo - e assim devia ser - fora ele a alma da conjuração. Pusera-se a espreitar os ingleses nas suas surtidas, para se certificar de que não traziam consigo armas de fogo, e com o coração a sangrar, do modo como eles tratavam a fruta ("não é tanto o que comem e roubam; o dó de alma está no que estragam", gemia), fora aos Montes de Alvor, onde a gente é mais dura e animosa, e onde ele conhecia uns cabreiros, pregar a cruzada, instigá-los a que a levassem aos outros povoados. Muitos encolhiam-se. O grande medo era ao bombardeio, mas depois do que eu afirmara já ninguém pensava nisso, e tudo se decidiu logo.
   - Vão ser corridos à pedrada, e sempre há-de ficar uma boa meia dúzia de mortos. Já estão certos os melhores atiradores de funda; vem o famoso Luís Sagreira dos Pegos Verdes e até o José Rijo de Monte Canelas, que onde põe a vista lá está a pedra; aquilo é capaz de partir com uma pedrada um cornicho da Lua... - E dizendo isto, tinha ele próprio - não sei como erguido sobre a água - um tão impetuoso gesto de arremesso, com toda a linha do corpo, nervoso e grácil, desfechando no movimento do braço, que decerto nunca houve mais perfeita representação de David disparando sobre Golias.
   Preparara-se a espera para essa tarde. Devia ser próximo dos Três Irmãos onde o acesso era fácil, e as vinhas ainda estavam intactas. As munições eram seixos da ribeira do Farelo, todos escolhidos a dedo: do tamanho de ovos de perua, e mais pesados que chumbo. Os lugares donde eu podia, mais a menina, assistir à festa, estavam escolhidos. Pediu-me para que lhe emprestasse o binóculo para vigiar a costa. Assim que vissem os escaleres dos piratas largar de Lagos, e vogar na direcção de terra - e para a pilhagem nunca vinham mais de dois ou três, trazendo, o máximo, de trinta a quarenta homens - logo ele mandava aviso por um próprio, pois havia tempo de eu chegar aos Três Irmãos antes de os ladrões desembarcarem.
   O dia foi excepcionalmente abafado, como se ameaçasse trovoada; ao começar da tarde ainda não se sentia a mais leve aragem. Eu prolongara a minha sesta dentro de casa, sem ânimo para descer à praia, e dormitava quando me bateram à porta. Era o próprio. Os ingleses já vinham a caminho dos Três Irmãos, e dentro de uma hora, quando muito, deviam chegar. Dos Castelos aos Três Irmãos eram trinta minutos de passeio; sem pressa nos pusemos em marcha. Seriam quatro horas; o sol abrasava, cobrindo o mar de tremulina de fogo; e como nós caminhávamos direito ao poente, tínhamo-lo pela frente, encandeando-nos, não se distinguindo, naquela toalha ardente, nem mesmo as inúmeras e pesadas moles de ferro, que compunham a esquadra.
   Apenas o João nos lobrigou correu para nós, célere mas digno, sem os saltos de corça que lhe eram habituais, e lhe acentuavam a aparência infantil. Levou-nos ao lugar que escolhera para assistirmos ao "combate" (ele esperava que os ingleses resistissem), e apontando para uma farta sebe de lentiscos e piteiras, que corria por um lombo de terreno, segredou: "Ali é que os rapazes estão emboscados." Depois entregou-me o binóculo: "Agora a própria vista lhe bastava para fazer alvo nos piratas"; e voltando-se para a minha rapariga, mas sem erguer os olhos: "A menina vai ter a prova de que também há portugueses valentes." Recomendou-nos com grande instância que nos conservássemos estendidos, "não viesse alguma pedra desgarrada", ou, quem sabe, algum tiro de pistola dos ingleses, "que talvez venham prevenidos"; e despedindo-se ainda com um ar mais sério e grave, foi-se correndo para onde estavam os companheiros.
   O posto onde nos instalámos era verdadeiramente apropriado, porque, abrangendo a vista do mar, até quase à barra de Alvor, não perdia movimento algum do terreno da costa, que ali se escoa em declives mais doces, e é menos abrupta junto da praia. O mar estava "como morto", sem uma prega na superfície acetinada. Os batéis ingleses já se iam aproximando a ponto de quase se poderem contar os marujos; remavam com força e como se realmente andassem em competência de velocidade. Mas em vez de aproar à pequena enseada, que fica por dentro dos Três Irmãos, deram a volta por fora, parecendo buscar a Ponta de João de Ourém. Isto alvoroçou logo a gente da espera, que ainda julgou que eles não acudiam ao lugar presumido, e os principais vieram ao meu posto, a observar-lhes os movimentos.
   Foi então que conheci o afamado José Rijo, rapagão cor de ladrilho molhado, com olhos esgazeados; brandia uma longa funda de coiro, e quase chorando clamava: "Ai, os malvados que se escapam..." Mas os ingleses, provavelmente para que os não vissem da esquadra, deram a volta completa aos Três Irmãos, e entraram na enseada pela parte do sul, parando de remar logo que chegaram à sombra dos rochedos.
   Havia trinta marujos, ao todo, nos dois batéis, que sem demora se despiram, atirando-se à água, quase ao mesmo tempo, como rãs. Do meu posto, ouvia-se-lhes perfeitamente a algazarra, e até se lhes distinguiam as feições. A água, ali, era funda, o que lhes permitia fazer toda a classe de evoluções; subindo aos batéis para mergulhar em conjunto, e ver qual deles vencia maior distância, nadando sem tomar fôlego.
   Era um espectáculo surpreendente, o de todos aqueles corpos de marmórea alvura, movendo-se no recinto relativamente acanhado, onde a água se espelhava em transparências de cristal. Perseguiam-se e lutavam, tentando agarrar-se pelos cabelos; juntando-se em grupos que lhes cingiam os corpos tão estreitamente como nos frisos das lutas míticas; dispersavam e deslizavam à superfície da água, com a graça de golfinhos, ou de tritões; e após uma boa meia hora de brinquedo e exercício, vieram estender-se na areia seca, onde o sol batia; depois, ali, recomeçaram os jogos e os desafios.
   Ainda mal enxutos, os cabelos empastados e os membros reluzentes da humidade, puseram-se a trepar a rocha, por sítio que evidentemente já haviam estudado, e que mais rápido acesso dava às vinhas. Alguns, que traziam cestos de vime, para facilitar a subida, enfiavam-nos na cabeça, tomando a aparência de gladiadores romanos: inteiramente nus, apenas a cabeça protegida pelo cilindro de rede de aço; outros levavam as facas abertas, presas nos dentes, e atravessadas na boca: imagem verdadeira dos piratas de romance. Os que iam chegando à vinha logo se atiravam às cepas, e arrancando os cachos abocavam-nos com sofreguidão; depois, suspendiam-nos sobre a cabeça, e dançavam por entre as enramadas vides, com o sumo das uvas a escorrer-lhes dos lábios. Os que traziam cestos deram-se à faina de vindimar com método, escolhendo os melhores e mais maduros cachos, para os levar para bordo.
   Haviam tomado conta da vinha, sem que os da espera dessem rumor ou sinal de si; na sebe das piteiras, que eu explorava com o binóculo, nada se distinguia: parecia abandonada. Mas de repente alguém atirou de ali uma pedra, que veio cair cerca de dez metros do sítio onde estavam os ingleses, alguns dos quais deram por ela, pela poeira que levantou ao bater no chão, e ficaram-se parados e entreolharam-se, como quem busca a solução de um passo difícil. Logo porém outra pedrada seguiu, caindo-lhes já muito perto, e ao mesmo tempo a voz do João dos Castelos, que se erguera por fora das piteiras, gritava: "Ânimo, rapazes; é dar-lhes com alma!...", e agora já apareciam ao longo da sebe, em fila, uns vinte labregos, vestidos de soriano, a maior parte de barrete preto, e todos iluminados pelo sol, que no seu declive lhes batia de chapa, avolumando-lhes as proporções.
   Uma saraivada de pedras acompanhou a exclamação de João dos Castelos, sem que nenhuma encontrasse o alvo, e muitas passando por cima das cabeças dos ingleses. Estes suspenderam a sua faina; e os que tinham facas, depois de parecerem concertar-se, brandiram-nas direito aos assaltantes, movendo-se com jeito de querer avançar para eles. Tanto bastou para que todos se sumissem, ficando somente o João agarrado ao José Rijo, como quem não o queria soltar. Vendo isto, alguns ingleses puseram-se a rir às bandeiras despregadas, com as mãos nas ilhargas, e um, mais insolente, adiantou meia dúzia de passos, ensarilhando os braços à moda portuguesa, direito aos algarvios. O gesto acendeu os brios ao José Rijo, que, atirando o barrete para a frente, como o campino provoca o toiro, num abrir e fechar de olhos, armou, brandiu, e disparou a funda, com tal arte que a pedra foi bater num grupo de marujos, um dos quais, soltando um grito e levando as mãos à cabeça, se foi a terra. Acercaram-se-lhe os companheiros, que o levantavam e sustinham, levando-o direito à praia, e via-se o rosto lavado em sangue, que, púrpura viva, lhe escorria pelo desfalecido arcaboiço alabastrino. Animados, os algarvios tornaram a aparecer, atirando pedradas às cegas, e fazendo uma algazarra tremenda.
   Os três ou quatro que manejavam fundas, querendo competir com o José Rijo, que não cessava de atirar, disparavam já com calma, e muitas pedras davam ao mesmo tempo nos ingleses. Estes, compreendendo que não podiam levar a melhor, bateram em retirada, alguns deles ainda tentando responder a armas iguais aos inimigos, mas não só não encontravam projécteis apropriados no terreno ariusco e barrento que pisavam, senão que o alcance das fundas lhes proibia de se aproximarem, em termos de tornar úteis as pedradas à mão. Ainda assim, ao ver a tentativa de resistência, a maioria dos assaltantes recolheu-se ao abrigo da sebe, mas o José Rijo, mais os companheiros da funda, excitados pelo João dos Castelos, que corria por todos os lados, já se não intimidaram, e as suas pedradas, agora, eram despedidas com tal força que do lugar onde eu estava se lhes ouviam os silvos.
   Entre os ingleses havia um, agigantado mas divinamente esculpido, e vermelho todo ele - de um vermelho fulvo, que dos cabelos parecia destingir sobre o mármore do corpo (devia ser escocês), que exercia certa autoridade, e como que dava ordens aos outros. Fora ele quem iniciara a vã resistência, e dir-se-ia, em dado momento, que estava dispondo os companheiros para avançarem sobre os algarvios, quando, ao mesmo tempo, duas pedras lhe bateram em cheio, no peito, prostrando-o instantaneamente, e deixando-o a estorcer-se entre as cepas. Acudiram-lhe seis ou oito companheiros, adestrados, provavelmente, na condução de feridos, porque sem hesitação, e em perfeito concerto, o tomaram pelos braços e pelas pernas, sustendo-lhe a cabeça, e levaram-no para o mar, formando, com os demais da companha, entre os pâmpanos verdes e viçosos da vinha, além daquele grupo admirável de composição e ritmo, que recordava o enterro de Adónis, uma procissão de atletas contristados, braços erguidos ao céu, e os corpos todos inclinados para o ferido.
   Os algarvios, vendo-os retirar, e supondo que levavam já um morto, suspenderam o ataque, e essas tréguas deram tempo aos ingleses de descer à praia, onde outros feridos aguardavam, para embarcar, a chegada de um dos batéis, que vários marujos se esforçavam por varar, operação difícil naquele ponto, onde a poucos passos da costa se cai logo em duas ou três braças de água.
   Mas o João dos Castelos é que se não conformava com as tréguas, e, possuído de uma agitação endiabrada, puxando por um e por outro, exortando, ameaçando, com tal calor, que lhes comunicou o entusiasmo; e com ele à frente caminharam de roldão para a beira das rochas. Entretanto, os ingleses, desistindo de varar o batel, haviam conseguido embarcar o ferido, dando-lhe primeiro um banho que o fez voltar a si; e eu via-o, já sentado no fundo da lancha, apalpando com cautela as costelas, como se contasse as que tinha partidas.
   Os demais marujos metiam-se à água sem grande precipitação, e os que pertenciam ao segundo batel, que estava mais longe, iam-no alcançando a nado. Mas novamente uma saraivada de pedras, lançadas de cima das rochas, os alvejou e, sem que desse em nenhum, bastou para lhes completar a derrota. O ferido estendeu-se ao comprido, no fundo do batel, fazendo de morto; e por terem perdido tempo a salvar os cestos de uvas, que pela desordem da retirada se haviam entornado na praia, poucos marujos tinham ainda embarcado. Com o sobressalto das pedras precipitaram-se sobre a lancha, tentando muitos, em tropel, ao mesmo tempo, e do mesmo lado, trepar ao barco, agarrando-se-lhe à borda com unhas e dentes. O peso de tanta gente junta fez adornar o batel, que logo começou a meter água pela borda. Com isto o ferido voltou de vez e inteiramente a si; erguendo-se, retomou a autoridade perdida, e empunhando um remo pôs-se a ameaçar e a bater nos que não queriam largar o batel. Isso o livrou de ir ao fundo, e tendo alguns tomado os remos, enquanto outros despejavam a água embarcada, já à mistura com esgalhos de uvas, se foram afastando da praia, e recolhendo um a um os companheiros que seguiam a nado.
   Ao ver erguer-se o suposto morto, a gritaria dos algarvios foi medonha, mas, apesar das loucas incitações do chefe, as pedradas cessaram por terem os cabreiros reconhecido que os ingleses já estavam fora do alcance das fundas, e negando-se a descer à praia em sua perseguição, como o João dos Castelos lhes mandava. Em regozijo da vitória abraçaram-se uns aos outros, e depois, naturalmente, sequiosos, atiraram-se à vinha e muito sossegadamente lhe iam colhendo e comendo os melhores cachos. Decerto completaram a obra dos ingleses, acabando a vindima.
   O João dos Castelos é que se não importava com as uvas; avançara para a ponta de uma rocha a pique sobre o mar, e de ali seguia o movimento dos batéis, que, embarcada a marujama, vogavam rapidamente no rumo da esquadra. O Sol baixara quase ao lume de água, abrasando de púrpura escarlate o céu e o mar; os dois batéis corriam direito a ele sobre um lençol de metal candente, e desapareceram, derretidos, no encandeamento da luz.
   Vinha anoitecendo do lado de terra; os algarvios, fartos de uvas, dispersavam por caminhos diversos. Só o João dos Castelos, como que soldado à sua peanha de rocha, e todo envolto nas últimas reverberações do poente, continuava estendendo para o horizonte o braço ameaçador, não sei se amaldiçoando o Sol, os ingleses, ou a sua própria sorte...
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In GOMES, Manuel Teixeira. Agosto
Azul, prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, notas
de Urbano Tavares Rodrigues, Helena Carvalhão Buescu
e Vitor Wladimiro Ferreira, Lisboa, Bertrand, 1986,
pp. 141-161. |
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