Dois
corpos estranhos cruzaram-se: corpos não
humanos, mas matéria que existe porque o
homem a fez: o metal da faca entrou na manteiga,
ainda compacta, com certa facilidade, e aí
ficou; como que numa prateleira: o cabo para cima.
Só o sangue era estranho.
Ela gostava de tudo aquilo: da mesa da cozinha,
dos pequenos bancos de madeira, das árvores
que conseguia ver da janela, de uma certa pureza
do ar que a obrigava a renunciar aos prazeres de
adulto: aquele tempo tinha uma marca infantil. Crescera
naquela casa.
Mas agora acabou: estava já crescida. Como
uma investigação que termina, ela
sentia que chegara ao fim. Já não
cresço, murmura.
Não havia necessidade de não ser sincera:
estava sozinha, podia dizer a verdade.
No corredor, um espelho. Ela parou. Era o mesmo
espelho onde se via com seis anos. Mas agora a sua
cabeça já não entrava na imagem.
O espelho era pequeno. Ela tinha aumentado de tamanho,
o espelho não. Espelho estúpido!
A princípio teve vontade de rir, mas a seguir
assustou-se. Frente ao espelho via apenas as suas
pernas e o início do tronco. A cabeça
estava lá em cima, mas não sabia nada.
Onde estava a sua cabeça?
Sentiu repulsa por aquele espelho que não
lhe dava a cabeça, que não retribuía
o seu rosto, que não a olhava. Estou a olhar
para mim e não me vejo, pensou. Um espelho
envergonhado - pensou ainda – não consegue
levantar os olhos. Que fiz eu? Tens vergonha? Estive
muitos anos sem vir cá.
Irritou-se, tirou um sapato e aproximou-se do espelho.
Parou. Voltou a pôr o sapato no chão
e calçou-se.
Encostou-se à imagem da sua barriga: barriga
contra barriga - pensava - como dois apaixonados.
Depois ajoelhou-se. Estava a alguns centímetros
do espelho, ajoelhada. Finalmente: um rosto.
Virou ligeiramente a cara para se ver de perfil,
depois virou-se para o outro lado. A orelha direita
sangrava. Voltou a virar a cabeça. Neste
lado não havia sangue. O rosto intacto.
Vou mostrar só este lado, pensou.
Começou a rezar. Parou. Olhou para a sua
cara no espelho e sorriu. A cara retribuiu o sorriso.
Recomeçou a rezar, mas virada para o espelho.
Rezava a olhar para os próprios olhos.
Parou.
Mentirosa, estás a mentir!
Tentou rezar de novo, agora sem olhar para o espelho.
Impossível. A sua imagem estava mesmo ali,
a centímetros. Ela não era assim tão
forte.
Concentrou-se de novo, mas assumindo o olhar dirigido
ao espelho. Começou a rezar. Via-se a rezar.
Parou de novo. Não estava concentrada, não
pensava nas palavras. Não estava a rezar:
olhava para si própria, vigiava-se.
Quase mordeu os lábios, concentrou-se. Tentou
despejar tudo. Para fora, para o poço, para
o poço!, repetia. E depois fez aquilo, virou-se.
Via o lado da cara, aquele lado da orelha. E o sangue.
Manteve-se nessa posição.
De novo: rezava. Com os olhos virados para o espelho,
a ver a própria orelha que sangrava. Mas
agora rezava mesmo. Olhava em frente, o espelho
retribuía o seu rosto, mas ela nada via.
Só escutava as palavras. Uma oração,
finalmente!
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