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  Biblioteca online do conto  
   
 
Gonçalo M. Tavares

 
 
TENTAR NÃO MORRER
 
     
 

Dois corpos estranhos cruzaram-se: corpos não humanos, mas matéria que existe porque o homem a fez: o metal da faca entrou na manteiga, ainda compacta, com certa facilidade, e aí ficou; como que numa prateleira: o cabo para cima. Só o sangue era estranho.
Ela gostava de tudo aquilo: da mesa da cozinha, dos pequenos bancos de madeira, das árvores que conseguia ver da janela, de uma certa pureza do ar que a obrigava a renunciar aos prazeres de adulto: aquele tempo tinha uma marca infantil. Crescera naquela casa.
Mas agora acabou: estava já crescida. Como uma investigação que termina, ela sentia que chegara ao fim. Já não cresço, murmura.
Não havia necessidade de não ser sincera: estava sozinha, podia dizer a verdade.
No corredor, um espelho. Ela parou. Era o mesmo espelho onde se via com seis anos. Mas agora a sua cabeça já não entrava na imagem. O espelho era pequeno. Ela tinha aumentado de tamanho, o espelho não. Espelho estúpido!
A princípio teve vontade de rir, mas a seguir assustou-se. Frente ao espelho via apenas as suas pernas e o início do tronco. A cabeça estava lá em cima, mas não sabia nada. Onde estava a sua cabeça?
Sentiu repulsa por aquele espelho que não lhe dava a cabeça, que não retribuía o seu rosto, que não a olhava. Estou a olhar para mim e não me vejo, pensou. Um espelho envergonhado - pensou ainda – não consegue levantar os olhos. Que fiz eu? Tens vergonha? Estive muitos anos sem vir cá.
Irritou-se, tirou um sapato e aproximou-se do espelho. Parou. Voltou a pôr o sapato no chão e calçou-se.
Encostou-se à imagem da sua barriga: barriga contra barriga - pensava - como dois apaixonados. Depois ajoelhou-se. Estava a alguns centímetros do espelho, ajoelhada. Finalmente: um rosto.
Virou ligeiramente a cara para se ver de perfil, depois virou-se para o outro lado. A orelha direita sangrava. Voltou a virar a cabeça. Neste lado não havia sangue. O rosto intacto.
Vou mostrar só este lado, pensou.
Começou a rezar. Parou. Olhou para a sua cara no espelho e sorriu. A cara retribuiu o sorriso. Recomeçou a rezar, mas virada para o espelho. Rezava a olhar para os próprios olhos.
Parou.
Mentirosa, estás a mentir!
Tentou rezar de novo, agora sem olhar para o espelho. Impossível. A sua imagem estava mesmo ali, a centímetros. Ela não era assim tão forte.
Concentrou-se de novo, mas assumindo o olhar dirigido ao espelho. Começou a rezar. Via-se a rezar. Parou de novo. Não estava concentrada, não pensava nas palavras. Não estava a rezar: olhava para si própria, vigiava-se.
Quase mordeu os lábios, concentrou-se. Tentou despejar tudo. Para fora, para o poço, para o poço!, repetia. E depois fez aquilo, virou-se. Via o lado da cara, aquele lado da orelha. E o sangue.
Manteve-se nessa posição.
De novo: rezava. Com os olhos virados para o espelho, a ver a própria orelha que sangrava. Mas agora rezava mesmo. Olhava em frente, o espelho retribuía o seu rosto, mas ela nada via. Só escutava as palavras. Uma oração, finalmente!

 
  In Magazine Artes, Janeiro, 2005


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