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Fernando Cabral Martins

 
TEMPO A PERDER
 
 
 
 

 

Não me importei nada. Deixei-me cair no tapete da casa de banho, para não aleijar os joelhos. Apertei as mãos uma na outra e rezei de olhos fechados, enquanto as lágrimas picavam os olhos que ardiam, rezei com uma invocação a abrir e depois a exposição pormenorizada da graça que pedia que me fosse concedida. Sentia o desconforto da situação de alguém que não acredita numa palavra do que diz, que não tem qualquer consideração intelectual ou moral pelo gesto em si, e que vê todo o fundo de infantilismo e hipocrisia nesse histrionismo do desespero. O que é verdade é que: 1.º me estava nas tintas; 2.º sentia uma atmosfera geral de irrealidade; 3.º tinha a certeza absoluta da necessidade do que estava a fazer, no sentido da sua utilidade prática e, imaginando mesmo a ausência de concessão da graça divina, da irrevocabilidade da minha prostração ritual perante uma entidade inteiramente imaginária; 4.º se calhar estava a realizar um programa nem sequer educacional mas já hereditário, a compulsão de um pedido de ajuda à divindade que habita em múltiplas formas (que enxameia) o interior da cabeça de cada qual. Concebia vagamente, obtusamente, no poço negro onde tinha caído, que chamava com todas as forças por alguém que não habitava no mundo nem fora dele, que não estava antes nem depois nem em nenhum lugar, e que era essa, de resto, a sua definição. Habitava o interstício puro, o momento em que o sonho dá lugar à vigília, o branco entre as palavras, a clareira que se abre dentro da cabeça. Não me importava nada o que me pudesse acontecer porque eu era invulnerável, era o conjunto de todos os homens, vivia na longa duração de um universo, era a palavra. Não ainda a oração atabalhoada à noite ajoelhado na casa de banho, as razões que escondem a vaidade, a maldade, o desejo. Mas o momento antes, aquele que torna possível que as frases, e o infinito de tudo o que é possível dizer, possa ser dito. Era uma forma miserável de meditação, se não fosse um gesto que fazia afinal parte do meu corpo, e que os braços e as pernas sabiam realizar de cor para ajudarem a cabeça estalada a recompor-se relativamente.
Sem valer a pena entrar em pormenores, uma certa pessoa tinha aceitado sair comigo. Tinha proposto até a feira popular como espaço de prazer popular além de comidas populares, tínhamos bebido garrafa e meia os dois, de vinho branco, houvera uma entusiástica partida de matraquilhos que eu a deixara ganhar, a seguir um passeio pelos alfarrabistas, pelo comboio fantasma, pelos carrosséis, pela montanha russa de gritos alegres, pelo poço da morte onde uma diva de cabelos louros ondeava, toda vestida de um couro negro justo, e fazendo acelerar uma mota atroadora em cima de dois rolos paralelos. Então, ao pé de uma árvore cujas folhas tinham caído de barulho e poeira, ouvi-lhe dizer que, com grande pena a sua embora, achava melhor para a sua sanidade mental nunca mais me pôr os olhos em cima. De repente estava sozinho na feira popular, grupos de adolescentes passavam e rodopiavam luzes, músicas estridentes e roucas cruzavam-se no ar da noite quente, até que as imagens começaram a tremer e a desfazer-se.
Bem. As contas que eu desfiei na casa de banho, lobrigando de vez em quando o espelho, foram qualquer coisa como isto. Que nós somos apenas transformadores de corrente. Que alguns são apenas bons condutores, outros nem por isso, outros ainda são intensificadores, outros estabilizadores. Que não vale a pena falar de interrupções da corrente, nem de desvios dela, nem de alterações do seu teor. A corrente transmite-se mesmo através da madeira, da borracha. Projecta-se a grandes distâncias, risca os céus, muda a cor das cidades, o peso do ar, o espaço nos pulmões. Sentimos passar a corrente nas coisas em volta, na chávena de café recentemente coado, no botão premido do rádio, na música transmitida por auscultadores, nos sinos, na pressão do vento de tempestade com tufos de gotas de chuva atiradas assim, como se o vento enrolado se andasse a treinar para catástrofes futuras, ao mesmo tempo brincando por não ser totalmente a sério (sim, se o vento quisesse arrancava as árvores e as casas e varria-nos para muito longe), na intimação da companhia de seguros para uma prestação incomportável, na esferográfica desirmanada da tampa, na reprodução de um cartaz de cinema neo-realista de cores empalidecidas, quase ilegível, na fotografia de um grupo de amigos batendo palmas num espectáculo de golfinhos saltadores, num jornal do dia anterior encafuado no seu fúnebre saco de plástico. Nós não somos do amor a fonte e a origem, por nós só passa a corrente.
Então levantei-me. Não porque estivesse melhor, os olhos queriam explodir nas suas órbitas. Nem porque tivesse percebido alguma coisa de especial, o que às vezes ajuda. Nem porque me tivesse lembrado de algum novo argumento de teologia. Nem porque me doessem as rótulas, nem o estômago se contraísse. É que não me lembrava de mais nada para dizer.

 
     
  In Viagem ao Interior, Lisboa, & Etc., 2004  
     
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