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Mário Cláudio

 

SE TU VIESSES VER-ME HOJE À TARDINHA

 
 
 
 

    O quarto continha o necessário a um adolescente cuja mãe insistia em que fosse o urso da turma. E não levaria tempo de mais a enumerar os trastes, uma secretária com umas gavetas, os utensílios indispensáveis ao estudo, livros cuidadosamente encapados em papel-cera, cadernos que não deixavam margem aos voos da imaginação, material de escrita, uma cadeira, um calendário de parede e um penico. E adivinhava Sesisnando a cidade distante, aproveitando o intervalo do trânsito da aprendizagem das ordens das aves ao exercício de geografia que incluía fusos horários. Ficava ela para além do bairro de moradias, e arrulhavam as rolas em cima dos pinheiros mansos, e surgia-lhe o casario matizado por uma luz juvenil que se espraiava pelos cafés onde inventavam os outros da sua idade barrocas formas de cabular.

    A mãe rodava a chave, entrava sorridente com o tabuleiro do lanche, a almoçadeira de leite com café, a sanduiche de fiambre, e em ocasiões de premiá-lo por um "muito bom" em matemática, só nessas, a tacinha de mousse de chocolate. E retirava ela então o peniquinho, o qual registava apenas um fundo de chichi deslavado a essa hora em que diferentes precisões rarissimamente se manifestavam. Acolhe Sesisnando o ritual com muito e fosca atenção. Simulando distrair-se dos deveres escolares, arredava da testa a madeixa lisa, dirigia-se à janela que dava para o jardim, olhava a copa das tramagueiras, a mordiscar o lápis Viarco número dois, e a antecipar o proverbial aviso materno, "Procure uma posição direitinho, lembre-se do coitado do João Catarino, apanhou uma escoliose por não aprender a sentar-se como deve ser".

*

   À noite, e da cama onde em plena Primavera se acumulavam ainda quatro cobertores de lã, ia escutando Sesisnando pacificamente, pousados os auscultadores com que se punha em contacto com o Mundo, os suavíssimos compassos, atravessados pelo jacto metálico dos trompetes, da grande orquestra de Burt Bacarat. A mãe adorava aquele disco, reservava-o para com quem entretecia os romances mais arfantes. E dispunham-se eles a tal função, sorvendo o whiskey com soda, tomando nos dedos os dedos dela, perguntando na voz um pouco rouca, "E o pequeno, já dorme?"

   O pequeno não dormia. Ocupava-lhe a ideia o Alfa Romeo branco do mais tenaz amigo da mãe, o que o levava ao liceu, o dos recados de improviso, o das gravatas flamejantes, o das suíças de cobre até meio da face, o dos casacos pied-de-poule, o que aparecia às quinhentas, o que guardava nos dentros da trincheira o envelope com o cheque para as despesas da contínua revisão do carro. Do outro lado do Canal da Mancha expediam-se as notícias empolgantes do Caso Profumo, e da call-girl Christine Keller que faria desabar um governo inteiro, e que ele admirara, nervosa no corpo magro, promissora de cocktails em que tudo, tudo poderia acontecer. E sintonizava minuciosamente a frequência, encolhendo-se de joelhos dobrados debaixo do peso da roupa, e eis que retomava Burt Bacarat à inicial de suas vinílicas melodias.

   A mãe acordava às três da madrugada, andava de braços cruzados pela sala, a interrogar-se, "Mas o que me apetece, o que me apetece, o que me apetece?", acabando por se fixar nisto, "Uma lagosta!" E seguia o amigo de serviço, trazia o crustáceo embrulhado em jornal, desarrolhava-se a garrafa de "Fita Azul", e a mãe declamava o soneto da Florbela, "Se tu viesses ver-me hoje à tardinha".

*

   E assim era a mãe, e assim continuaria até à partida de Sesisnando para a Capital.

 
     
 

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