O quarto continha o necessário
a um adolescente cuja mãe insistia em que fosse
o urso da turma. E não levaria tempo de mais a
enumerar os trastes, uma secretária com umas gavetas,
os utensílios indispensáveis ao estudo, livros
cuidadosamente encapados em papel-cera, cadernos
que não deixavam margem aos voos da imaginação,
material de escrita, uma cadeira, um calendário
de parede e um penico. E adivinhava Sesisnando
a cidade distante, aproveitando o intervalo do
trânsito da aprendizagem das ordens das aves ao
exercício de geografia que incluía fusos horários.
Ficava ela para além do bairro de moradias, e
arrulhavam as rolas em cima dos pinheiros mansos,
e surgia-lhe o casario matizado por uma luz juvenil
que se espraiava pelos cafés onde inventavam os
outros da sua idade barrocas formas de cabular.
A mãe rodava a chave, entrava sorridente
com o tabuleiro do lanche, a almoçadeira de leite
com café, a sanduiche de fiambre, e em ocasiões
de premiá-lo por um "muito bom" em matemática,
só nessas, a tacinha de mousse de chocolate. E
retirava ela então o peniquinho, o qual registava
apenas um fundo de chichi deslavado a essa hora
em que diferentes precisões rarissimamente se
manifestavam. Acolhe Sesisnando o ritual com muito
e fosca atenção. Simulando distrair-se dos deveres
escolares, arredava da testa a madeixa lisa, dirigia-se
à janela que dava para o jardim, olhava a copa
das tramagueiras, a mordiscar o lápis Viarco número
dois, e a antecipar o proverbial aviso materno,
"Procure uma posição direitinho, lembre-se do
coitado do João Catarino, apanhou uma escoliose
por não aprender a sentar-se como deve ser".
*
À noite, e da cama
onde em plena Primavera se acumulavam ainda quatro
cobertores de lã, ia escutando Sesisnando pacificamente,
pousados os auscultadores com que se punha em
contacto com o Mundo, os suavíssimos compassos,
atravessados pelo jacto metálico dos trompetes,
da grande orquestra de Burt Bacarat. A mãe adorava
aquele disco, reservava-o para com quem entretecia
os romances mais arfantes. E dispunham-se eles
a tal função, sorvendo o whiskey com soda, tomando
nos dedos os dedos dela, perguntando na voz um
pouco rouca, "E o pequeno, já dorme?"
O pequeno não dormia. Ocupava-lhe
a ideia o Alfa Romeo branco do mais tenaz amigo
da mãe, o que o levava ao liceu, o dos recados
de improviso, o das gravatas flamejantes, o das
suíças de cobre até meio da face, o dos casacos
pied-de-poule, o que aparecia às quinhentas, o
que guardava nos dentros da trincheira o envelope
com o cheque para as despesas da contínua revisão
do carro. Do outro lado do Canal da Mancha expediam-se
as notícias empolgantes do Caso Profumo, e da
call-girl Christine Keller que faria desabar um
governo inteiro, e que ele admirara, nervosa no
corpo magro, promissora de cocktails em que tudo,
tudo poderia acontecer. E sintonizava minuciosamente
a frequência, encolhendo-se de joelhos dobrados
debaixo do peso da roupa, e eis que retomava Burt
Bacarat à inicial de suas vinílicas melodias.
A mãe acordava às três da madrugada,
andava de braços cruzados pela sala, a interrogar-se,
"Mas o que me apetece, o que me apetece, o que
me apetece?", acabando por se fixar nisto, "Uma
lagosta!" E seguia o amigo de serviço, trazia
o crustáceo embrulhado em jornal, desarrolhava-se
a garrafa de "Fita Azul", e a mãe declamava o
soneto da Florbela, "Se tu viesses ver-me hoje
à tardinha".
*
E assim era a mãe,
e assim continuaria até à partida de Sesisnando
para a Capital.