Mal refeito do pifo e muito picado dos mosquitos,
com os olhos inchados e os braços quase em carne
viva, chegou o alferes miliciano Ramalho a Takiá,
povoação implantada em esplêndido verde, na planura
enorme.
Uma escolta reduzida montava a segurança à pista
de terra batida que, vista do ar, não passava duma
diminuta clareira castanha entre a vegetação densa.
Havia uma auto-metralhadora circulando sem cessar.
O alferes Ramalho, completamente regado de suor,
lançou uma olhadela através do ar espesso. Era quase
meio-dia e a humidade, aliada à alta temperatura,
criava uma espécie de forno. Por isso, ou por deficiência
visual, ou porque não distinguisse convenientemente
galões disfarçados sobre camuflado, o alferes Ramalho
ficou-se com ar idiota a avaliar o mundo circundante.
Foi preciso que o major Smith, oficial mais categorizado
na circunstância, inquirisse do intruso quem era e ao
que vinha. Só então o alferes Ramalho, mal acordado,
esboçou uma incorrectíssima continência e declinou
identidade e informações afins.
Subiu para o jipe do major, escarranchou-se no
banco traseiro com a mala única encaixada entre os
joelhos, e lá se foi equilibrando por entre os solavanco.
O povoado surgiu das bermas dum carreiro. À esquerda,
em lugar de honra, o cemitério. O soldado-condutor
persignou-se. O major limitou-se a informar:
– É o cemitério.
O recém-chegado pôde apreciar umas tabuletas
fincadas num solo terrivelmente verde.
– Além, é o túmulo do nosso último morto... furriel...
uma mina... Sepultámos só um bocadinho do
camuflado... que talvez fosse dele...
O soldado-condutor desenvencilhou as rodas do jipe
por um momento atoladas. O major voltou-se para o
novato:
– Você é de poucas falas, pelo que vejo...
O alferes miliciano Ramalho encolheu os ombros.
Atravessavam o povoado, duas filas de tabancas ao
longo dum carreiro. Tectos de colmo prolongados para
fora das paredes. E, sentadas no chão, as mulheres
indígenas, familiarizadas já com a passagem dos jipes.
Mulheres e velhos e crianças. Velhos de túnicas brancas
como as suas carapinhas, fumando cachimbo. Crianças
por vezes multirraciais. Desembocaram num amplo
largo, cujas faces eram ocupadas pela igreja de torres
esguias e por casas semelhantes às da Europa. Zona de
religião e de comércio. Enfiaram por uma ruela e pararam
junto dum edifício vagamente europeu, de um só piso:
a messe dos oficiais. Para além, no outro extremo do
povoado, ficava o muro do quartel. Para além, a planura
densa de vegetação e outros perigos.
Quando quis apresentar-se ao comandante, o alferes
Ramalho viu-se e desejou-se para penetrar naquele
reduto.
Em primeiro lugar, não compreendeu imediatamente
o que poderiam significar aqueles bidões no meio
da parada. Mas, pensando que cada terra tem seu uso,
imaginou tratar-se duma tribuna destinada a patrióticas
alocuções.
E recorreu aos préstimos dum soldado que passava,
distraído, de mãos atrás das costas, de calção e em
chinelos, no sentido de obter uma informação precisa
quanto ao paradeiro do comandante. O soldado, porém,
limitou-se a corroborar informações já colhidas,
apontando para os bidões. Reparando melhor, pôde o
alferes Ramalho apurar que os bidões, em duas filas
sobrepostas, desenhavam um quadrado tosco. Pôs-se a
examinar os ângulos daquela construção, até encontrar
finalmente uma passagem. A passagem dava, no
entanto, para um estreitíssimo corredor entre bidões.
Percorrendo o dito corredor num dos sentidos, não
encontrou saída. Julgou-se a contas com um labirinto.
Retrocedeu, pesquisou e acabou por desembocar numas
escadinhas acimentadas que davam acesso a uma porta
verde. Bateu. E foi o comandante, em pijama, que veio
abrir.
Era um homem duns cinquenta anos, entroncado e
grisalho, de olhinhos saltitantes por trás de grossas
lentes. Enervado e surdo. A cada instante colocava a
mão em concha atrás duma imensa orelha e pedia a
repetição das declarações. O alferes Ramalho, homem
de poucas falas, no dizer do major, saiu da entrevista
extenuado.
Na messe havia um pequeno bar, uma armação à
base de barris velhos, atrás do qual um soldado
manejava copos e garrafas. O alferes Ramalho teve de
apertar as mãos de outros alferes, sombras de faces
amarelentas, porque havia mais dum ano que a sede
do batalhão ali se fixara, no meio da vegetação muito
verde, entre bolanhas e mosquitos. O periquito tinha
um ar relativamente saudável, apesar das pálpebras
inchadas e dos braços quase em ferida. Dedicou-se à
absorção regular de whisky com Perrier, muito
concentrado nos goles que ingeria. Na sua camisa verde
não restava nem um fio enxuto. Bebia e transpirava,
transpirava e bebia.
– Este promete! – comentou alguém.
Com a chegada solene do comandante, fardado e
de pingalim, todos entraram para a “gaiola”. Consistia
esta num cubículo protegido por rede de fina malha.
Ali decorriam as refeições, sob a presidência do surdo
comandante e a ameaça constante dos mosquitos. O
alferes Ramalho, como mais recente aquisição da
unidade, ficou no topo da longa mesa, muito entretido
a mirar as laranjeiras que, sob o tornado, curvavam os
ramos e desprendiam os frutos ainda verdes. Veio a
bátega e o chão farto de água cobria-se de extensas poças.
Veio o bacalhau com arroz e cebola, o todo amalgamado,
quase papa. O alferes Ramalho pôs-se a comer
gelo, assim sem mais aquelas, trincando os cubos com
fragor. Aí o major alarmou-se, receando não restar
nenhuma cuvete no frigorífico. O alferes Durand, ex-aluno de História, resolveu indagar:
– És do quadro?
Surpreendido, o periquito exclamou:
– Eu?!
– É que o teu antecessor era do quadro. Um lateiro.
O alferes Ramalho nada respondeu.
Depois do almoço percorreu o quartel, tomando por
referência os bidões. A chuva voltava de quando em
quando, precedida por violento tufão. As casernas dos
soldados exalavam o cheiro habitual – mofo, detrito,
suor. O posto de transmissões foi-lhe indicado por duas
antenas e pelo crepitar do morse. A messe dos sargentos
ficava junto à porta larga que dava para a praça do
povoado. Um edifício amarelo, com janelas gradeadas,
só podia ser a prisão. O alferes Ramalho, circundando
o edifício, esteve prestes a ser atingido na cabeça por
uma coisa negra e inesperada. Recuou, erguendo os
olhos. Um negro, que tinha por vestuário uns velhos
calções, sentara-se no parapeito da cela, passara os
joelhos por baixo da grade e balouçava ao vento os pés
enormes. O alferes Ramalho olhou os olhos do
prisioneiro. Inexpressivos ou quase. Fixos nos do branco,
sem receio, sem nenhum sentimento, sem súplica, sem
rancor. Uma máscara negra com dois olhos muito
abertos.
Avançou para o que sabia ser o seu posto. Era um
barracão com uma única porta sobre a qual um letreiro
proibia a entrada. Constava a sua equipa de três cabos
e um sargento. No primeiro compartimento havia três
camas munidas de mosquiteiros. Tudo com aquele ar
varrido e lavado, e mesmo assim fatalmente sujo, que
caracteriza as instalações da tropa antes de revista. O
sargento ordenou “sentido” e o alferes Ramalho moveu
a mão num gesto ambíguo. O sargento Lara, chefe
interino da equipa, tinha-se assenhoreado do comando – notava-se pelos seus ares de dono. O alferes Ramalho
entrou no outro compartimento, foi direito aos dossiers,
folheou ao acaso um deles, olhou os recantos como
quem inspeccionasse teias de aranha, sentou-se à
secretária e esfregou os olhos. Todos lhe espiavam os
gestos e ele não dizia nem uma palavra. E, quando o
sargento lhe falou em conferir material, bocejou,
parecendo ignorar do que se tratava. Após a qual
atitude, todos se entreolharam, escandalizados. O alferes
Ramalho, literalmente mudo, saiu sem deixar uma
ordem.
Tornou a reparar nos pés do negro prisioneiro e na
maneira como balouçavam. Na messe, indagou do local
onde poderia dormir. O activo soldado do bar preveniu-o de que não era fácil arranjar alojamento. O alferes
Ramalho engoliu um brandy e foi procurar o major.
Estava este atrás da secretária, de camuflado, e entregue
aos seus montes de papelada. O alferes Ramalho reparou
então no movimento incerto daquelas pupilas verdes.
Depois lembrou que, segundo a sua guia de marcha,
competia àquela unidade, cujo segundo comandante
era o major Smith, dar-lhe alimentação e alojamento.
O major segurava montes de papel, em luta contra uma
pequena ventoinha, e sentiu-se ofendido:
– Isso agora! É muito discutível!
– Vamos a ver uma coisa – declarou pacientemente
o Ramalho – Eu estou aqui a cumprir as ordens que me
deram...
– Isso todos nós!
– Com certeza. Deram-me uma guia de marcha na
qual está escrito que compete à Unidade de V. Ex.ª dar-me alojamento e alimentação...
– Não tenho nada a ver com isso!
– Então?...
– Desenrasque-se!
– Não é resposta – disse secamente o Ramalho – E
se eu me queixar?
– A quem? – fuzilou o major.
– Sabe muito bem a quem.
– Não sei, nem me interessa. Não há camas. Que é
que quer que eu lhe faça? O que sei é que você entra
amanhã de serviço.
– O que sei é que não entro de serviço, nem amanhã
nem nunca.
– Isso é o que se vai ver.
– O que não se vai ver.
– Já está aqui nomeado.
– É a minha vez de dizer não sei nem me interessa.
Voltou costas. Não sabia deitar contas ao tempo
que passara sem dormir. À porta da messe, a sua mala
continuava, paciente. No bar, pediu whisky, água e
muito gelo. O médico, um sujeito dos seus trinta e tal
anos, veio acompanhá-lo na bebida.
– Doutor, desculpe a pergunta: o nosso major é
doido?
– Bom, não deve estar psicologicamente em forma – declarou eufemisticamente o médico – Sabe, tem tido
muitos desgostos. Nunca obteve licença... há mais dum
ano que não vê a família... Foi uma chatice. No fundo,
o nosso major é um intelectual. Experimente falar-lhe
de literatura. Lê muito. Enganou-se na vocação. Sabe,
não tem sentido prático. Mas o que é que aconteceu?...
– Acontece que não tenho alojamento e ele diz que
não tem nada a ver com isso.
– Eu compreendo. É que ele foi punido com três
dias de prisão por não ter apresentado as contas no
devido prazo. É um ressentido. Foi transferido de
unidade, perdeu o direito à licença. Uma chatice! Talvez
falando ao nosso comandante...
O alferes Ramalho foi ao gabinete do comandante,
o qual gabinete não coincidia com a residência
disfarçada por bidões, mas ficava junto do gabinete do
major Smith. Antes, porém, de expor o seu problema,
ouviu a admoestação do homem surdo:
– Fui informado da sua recusa de prestar serviço na
unidade... Posso saber porquê?
– O regulamento, meu comandante. O meu serviço
é incompatível com...
– Está bem.
Percebia-se que a questão não estava de modo algum
encerrada. E, quanto ao alojamento, havia de se ver,
segundo o ditame duns olhinhos velhacos.
O alferes Ramalho tornou ao bar e ao whisky. O
médico avisou:
– A beber assim, você mata-se.
O outro encolheu os ombros.
– Desculpe outra pergunta, doutor: o nosso
comandante é doido?
– Bom, deve estar psicologicamente abalado.
Aconteceu-lhe uma coisa horrível. Uma noite, há uns
meses atrás, ia da messe para o quarto dele, que fica ali
no meio da parada... já viu? Pois! Nessa altura ainda
não havia aqueles bidões... depois é que vieram os
bidões... Ia ele para o quarto quando lhe deram uma
cacetada... uma grande cacetada... Teve de levar seis
pontos no coiro cabeludo...
– Mas... quem foi?
– De lá até hoje! É o que eu gostava de saber. E ele
também. O agressor, parece-me a mim, tinha ideias de
o matar. Mas a cabeça era mais rija que o cacete. O
cacete estava partido, ao lado do nosso comandante.
Era sangue que nunca mais acabava. Lá tive de lhe
coser a cabeça...
– Mas quem teria sido?
– Sabe-se lá!
– O inimigo?... Como é que entrou?
– Nunca se soube.
O alferes Ramalho dirigiu-se ao centro de
transmissões. O chefe, o alferes Mike, anafado e míope,
resmungou vagas desculpas, aflito com a desarrumação
da papelada.
– Preciso da tua colaboração – declarou o Ramalho.
– Com certeza, com certeza...
Em poucos minutos, o alferes Ramalho desbobinava
os elos da intriga: o major prevenira o comandante, o
comandante enviara uma mensagem ao quartel-general,
informando-se da veracidade das afirmações do
Ramalho.
– A resposta deve chegar ainda hoje – disse Mike.
– Avisa-me.
– Certamente – respondeu o chefe, aliviado por não
se tratar duma inspecção geral.
– Precisava duma cama... para esta noite.
– Não te preocupes, há uma no meu quarto. É dum
tipo que está de licença. Disse que não queria lá
ninguém... mas, num caso destes... já te mostro.
O alferes Ramalho dirigiu-se ao seu posto e verificou
que os pés do prisioneiro negro continuavam a balouçar.
O sargento, com o respeito da tarimba, indagou:
– Meu alferes, se tem alguma ordem a dar...
O alferes observou o andamento do serviço e replicou:
– Primeiro, preciso de ler aquilo tudo.
“Aquilo tudo” eram montes de documentos metidos
em vários dossiers. O sargento sorriu perante a
enormidade da tarefa. O alferes Ramalho saiu,
avisando:
– Eu leio muito depressa.
Anoiteceu bruscamente quando o alferes Ramalho
atravessava a lama da parada. Um tufão atirou-lhe lixo
para os olhos. Numa esquina esbarrou com um soldado.
Desabou-lhe em cima uma bátega furiosa. Na varanda
da messe brilhavam uns globozitos amarelados. O alferes
Ramalho limpou da testa o suor misturado à água e
deixou-se cair numa cadeira de vime. No ar escurecido,
vento e chuva desenhavam fantásticas manchas.
Adormeceu uns minutos. Não sabia donde surgira
aquele capitão de farda amarelada, um estilo de farda
que julgava abolido. Era um capitão em carne e osso,
magro, muito idoso para a patente. Levantou-se,
ensonado, e apresentou-se. O capitão chamava-se Lami,
comandava a CCS e já estava ao corrente dos problemas
levantados pelo novo alferes.
– Se eu é que mandasse... – resmungou.
E desatou a passear, para diante, para trás,
desalentado, chupando avidamente o cigarro, de olhos
inquietos: “Se eu é que mandasse...”
O alferes Ramalho, com os olhos doridos de sono e álcool, acabou por não resistir à pergunta:
– Que é que fazia, meu capitão?
– Que é que eu fazia? – comentou o outro, estacando
em frente do periquito – Com uma companhia das
minhas... das minhas... daqueles tempos... Garanto-lhe
que acabava com esta guerra num mês.
O alferes Ramalho, que se atordoara com whisky,
resolveu tomar um whisky para despertar. O médico
via chover e observou:
– Você mata-se, a beber assim.
– Desculpe outra pergunta, doutor: o nosso capitão
Lami é doido?
– Bom, talvez não disponha de muita resistência
psíquica. Sabe, tem muitas saudades dos tempos em
que... outro tempo, o tempo dele. Depois, aconteceu-
-lhe uma coisa horrível. Mataram-lhe um homem, mal
chegámos aqui. Reagiu mal. É vingativo e...
A conversa foi interrompida pela chegada do capitão
Lami. Momentos depois o alferes Mike veio oferecer os
seus préstimos ao novato. O alferes Durand veio
observar o grupo. O soldado do bar aprontou bebidas.
No interior do edifício, por trás da gaiola, alguém
tomava duche. Os mosquitos, animados pela noite,
voavam para os tornozelos e alguns, mais sádicos,
procuravam as feridas do alferes Ramalho. Completamente
vencido pelo cansaço, o periquito tombou do
banco, com o copo na mão. Coincidindo a sua queda
com uma rajada de espingarda automática. Os presentes
atiraram-se ao chão, em queda facial executada conforme
a ginástica de cada um. O major, em pêlo, ensaboado,
correu para a sentinela:
– Ouve lá, pá! Que é que foi isso?
A sentinela, trémula, jurou ter visto sombras.
– E quantos mataste, pá? Diz depressa: quantos
mataste?
A sentinela encolheu-se, envergonhada.
– Talvez um gato – troçou o major. – O teu número!
O infeliz balbuciou o número.
O alferes Ramalho, aparentemente atingido pela
rajada, foi o primeiro a levantar-se. E, vendo o major
nu, ensaboado e irritado, largou uma gargalhada
fulgurante. Os outros puseram-se de pé
Ia em meio a manhã quando o alferes Ramalho
abriu a janela do seu quarto provisório e se pôs a gritar
pelo soldado do bar. Dormira mal e mais uma vez
comprovara a ineficácia dos mosquiteiros, que ajudavamà transpiração sem vedarem uma espécie de mosquito
quase microscópico, nessas latitudes chamado melga,
cuja acção se notava por grandes caroços na epiderme e
endiabrada comichão. O soldado do bar atravessou o
escasso pátio, que separava a messe do pavilhão onde o
periquito se instalara, e ouviu as ordens deste: duas latas
de leite gelado. Com as quais, passado um minuto, o
alferes Ramalho iniciava a sua terapêutica de
desintoxicação.
Barbeado, quase capaz de andar em linha recta,
cada vez mais picado dos mosquitos, foi o alferes
Ramalho até ao seu posto. De passagem, verificou que
os pés do prisioneiro negro balouçavam, como no dia
anterior. O sargento Lara e os cabos tagarelavam e o
serviço não estaria adiantado. O alferes Ramalho pediu
contas da actividade da manhã. Não percebia patavina
daquelas folhas rabiscadas e vociferou ser aquele método
uma autêntica pouca vergonha. Examinou um dossier
e tomou umas notas. Bateram à porta. O sargento veio
informar que se tratava do major.
O alferes Ramalho saudou o major e perguntou a
que motivo devia a honra de tal visita. O major queria
entrar. O alferes Ramalho colocou-se no vão da porta,
declarando que o segundo comandante da unidade não
tinha acesso àquelas instalações. Aí o major Smith
teimou que sim e o alferes Ramalho teimou que não.
Ficaram a teimar longo tempo, num duelo de paciência,
a ver quem a perdia em primeiro lugar. O alferes
Ramalho falava muito menos que o adversário e por
isso logrou marcar alguns pontos. Para amesquinhar o
assunto, o major desfechou:
– Que ao fim e ao cabo não me interessa o que você
tem aí dentro...
– Mais uma razão para não entrar.
– Mas sabe o que lhe digo? Se fosse eu o comandante,
você fazia serviços como qualquer outro... e não se tinha
dado a barraca desta manhã...
Fosse qual fosse a “barraca”, nessa manhã o alferes
Ramalho dormia.
– Sabe o que eu queria? – prosseguiu o major –
Apenas fazer a barba... Veja lá!
– Mas... – gaguejou o alferes – Não me consta que
isto aqui seja barbearia... Desculpe... pode ser... mas
não fui informado.
– Não, homem de Deus. É que a esta hora não há
energia eléctrica no resto do quartel, compreende? Ao
passo que aqui, posso ligar a máquina.
– Pois claro! – percebeu o alferes – Se o meu major
tivesse começado por aí, já estava com a barba feita.
Ordenou a um cabo que ligasse uma extensão até à
porta. Arranjou-se um espelho à altura da cara do major.
E assim se sanou um incidenite que nascera duma
péssima utilização da linguagem.
O sargento Lara aproveitou o silêncio do major para
informar que um dos motores tinha começado a falhar,
facto gravíssimo para a regularidade do serviço.
Decidiram observar imediatamente os motores. Para tal,
percorreram um campo coberto de capim e, por baixo
do capim, de lama, até alcançarem a muralha, do lado
do descampado. Assim, pôde o alferes Ramalho verificar
que a extensão cercada pela muralha era muito mais
ampla do que lhe parecera na véspera. Junto à muralha,
via-se um casinhoto mal acabado. Entre o posto e os
motores a distância seria duns duzentos metros e o alferes
ficou a meditar nas passíveis vantagens de incluir-se no
chamado quartel uma tão grande faixa de capim. Como
o facto se lhe afigurasse negativo, perguntou ao sargento:
– Quantos anos tem você de tropa?
– Dezoito, meu alferes.
– Tem visto muita coisa, não?
– Umas coisas, sim...
– Então deve saber por que razão há zonas de capim
no interior dum quartel.
– Como?
– Isto! – e o alferes Ramalho apontou a zona em
frente.
– Não, não percebo – confessou o sargento.
– Não percebe o que eu digo ou não percebe por
que há capim?
– Sim, não percebo o capim.
– Nem eu.
O alferes Ramalho mediu com o olhar a altura da
muralha.
– Não tem mais de dois metros – comentou. –
Qualquer indivíduo salta isto nas calmas...
– Lá isso é verdade, meu alferes.
– E esconde-se no capim...
– Ah! Agora é que percebi! Mas sabe, meu alferes,
este batalhão está aqui há mais dum ano e nunca foi
atacado. Houve no princípio, parece, aí uma bronca.
Mas depois, nunca mais houve nada...
Regressaram ao posto. Os pés do prisioneiro negro
continuavam a balouçar e os seus olhos eram tranquilos
na observação dos transeuntes.
– Quem é esse tipo?
– Oh, tem uma grande história, esse patife! –
esclareceu o sargento.
E contou. Aprisionado meses antes, portara-se como
um malvado. Era tenente, ou coisa parecida, nos bandos
do inimigo. Tenente de tanga – onde diabo já se viu?
Bruto como uma porta. Em vez de reconhecer os seus
erros, olhava os captores com sobranceria. Não
pronunciava senão uns grunhidos. Recusava-se a falar
língua de gente, embora às vezes parecesse entender o
que lhe perguntavam. Tinham decidido enviá-lo para
Takau, onde seria julgado. O patife entendia as
conversas. Na véspera da partida, tentara a evasão.
Descoberto pela sentinela, quando galgava a muralha,
fora atingido na coxa. Extraída a bala, aguardava a
partida e passava os dias a balouçar os pés.
Vários soldados desataram em grande alarido, sob
uma mangueira, em frente da janela onde o prisioneiro
balouçava os pés. No chão, atordoada por uma primeira
cacetada, uma cobra cuspideira ainda ziguezagueava.
“Acabem com ela! Dá-lhe tu! Depressa!” Os soldados
formaram uma circunferência de largo diâmetro, em
torno daquele ziguezague verde, esguio e ferido. “Dêem-lhe um tiro!”, sugeriram. Mas ninguém estava armado.
Então o cabo Ramon, da equipa do alferes Ramalho,
apareceu com uma espingardinha ridícula, uma pressão-de-ar.
– Que é que vais fazer com isso? – escarneceu o
sargento Lara.
– Vou acertar-lhe na cabeça.
Estava a fazer cuidadosa pontaria à cabeça da cobra
quando esta, num assomo, cuspiu no olho direito do
carrasco a sua derradeira bílis. O cabo Ramon largou a
pressão-de-ar e, ganindo que ia ficar cego dum olho, foi
levado ao posto de socorros. A cobra foi morta à paulada
e com prudência.
– Por uma cobra...
O alferes Ramalho verificou que o comentário era
de sargento para sargento.
– Coisa de rapazes! – comentou o Lara.
O alferes Ramalho teve assim ensejo de conhecer o
sargento Farrin, muito ligado ao Lara por velhos
empreendimentos e análogas memórias. Era baixo, forte,
grisalho, perfeitamente sargento.
– Cobras! – exclamou ele, com desprezo. – Medo de
cobras! Ao fim e ao cabo são animais domésticos.
Perante um gesto admirativo do alferes Ramalho,
um periquito, um homem nada calejado por estas coisas
da guerra, o sargento Farrin garantiu a veracidade do
que se propunha narrar. E então contou da domesticidade
duma cobra, que conhecera em outras latitudes,
alimentada regularmente a leite, mais mansa que um
gato, reconhecida a seu senhor, manifestando a sua
gratidão numa espécie de bailado sempre que o dono
entrava no quartel; o qual dono era brusco como todos os
comandantes de quartéis, e contudo preso de amor à cobra.
O alferes Ramalho parecia muito atento à narrativa,
o que foi de molde a entusiasmar o narrador. O qual
garantiu, minutos depois, ser o tal comandante brusco
uma excelente criatura. Homem um tanto excêntrico, é
certo, mas dotado de tão bom fundo que nem as cobras
lhe eram indiferentes. Contribuíra para essa fama de
excentricidade o facto de o comandante usar um enorme
bigode, aí com meio metro para cada lado. E então? Os
mexicanos não usam chapéus de aba larga? Era um
homem que se reconhecia à légua pelo tamanho dos
bigodes. E, quando vinha à cidade, num jipe meio
desmantelado, era com os bigodes que realizava os sinais
de trânsito. E o sinaleiro compreendia, atento aos
movimentos de tão grandes bigodes, os quais,
ultrapassando o pára-brisas, funcionavam às mil
maravilhas.
Foi-se o alferes Ramalho em busca do almoço e
deparou, na varanda da messe, com o passeio monótono
do capitão Lami.
– Sabe, nosso alferes, se eu é que mandasse...
– Já sei, meu capitão!
– Não sabe, não senhor! Infelizmente, há gente que
não trabalha...
– É possível, é muito possível.
– Gente que dorme até ao meio-dia...
– Muito possível.
– Assim como você!
Feroz. chupado das faces, febril de olhos.
– E a barraca que se deu por sua culpa!... Ah, se eué que mandasse...
– Que barraca?
– Ainda pergunta! Nunca na minha vida vi uma
coisa assim. Estamos perdidos. O oficial de dia não
comparece ao render da parada... e fica tudo à espera...
Prisão! Só prisão!
Quebrou a monotonia do passeio, agitou-se mais:
– Se eu é que mandasse... bastava uma companhia...
num mês!
O alferes Ramalho olhou para o relógio e encaminhou-se para o bar. Começava a beber o primeiro whisky
quando o alferes Durand, de braçadeira, avisou:
– Ganhaste! Mas vai-te sair caro...
– Como?
– Entrei de serviço no teu lugar. Vê lá se te custava
muito fazeres de oficial de dia de vez em quando! Assim,
a malta não te vai gramar, podes estar certo. E todos
têm mais experiência que tu. Da fama de bufo já
ninguém te safa... porque o nosso comandante, que a
gente conhece bem, deve ter as suas razões para não te
espetar com uns dias de prisão. Esses privilégios vão-te
sair caros, garanto! Qando todos souberem que és bufo...
O alferes Ramalho mirou por instantes o interlocutor.
– Camarada! – disse secamente – Estás mesmo a
pedir que te parta o focinho.
E iniciou o segundo whisky. O alferes Durand,
colérico, achou por bem não prosseguir. Estreito de
ombros e um tanto barrigudo, apurado para serviços
auxiliares, agora a contas com problemas de administração,
recusava argumentos físicos.
Chegaram diversos oficiais, logo seguidos do major
e do comandante. O alferes Ramalho foi ocupar o lugar
da véspera. Então começou a identificar os rostos que
compareciam. À sua frente, melífluo, o alferes Mike,
das transmissões. Ao lado deste, o alferes Durand, todo
entregue ao rancor. Ao lado esquerdo do Ramalho, um
alferes que conjugava a artilharia com a gerência de
messe. Tinha um ar de menino mimado e levava a sério
tudo o que lhe diziam. Depois o capelão. Depois o
médico. Comandante em presidência. Major em frente.
Depois o capitão Lami. Depois oficiais de secretaria e
de abastecimentos diversos. Numa gaiola, cerca das
treze horas e trinta minutos. O major protestou contra
a sopa. Como sempre, sem sal. O gerente de messe,
alferes miliciano de artilharia, foi fuzilado por vários
olhares. Incompetente, mesmo na dose de sal.
Então o alferes Ramalho, em voz baixa, perguntou
ao alferes Mike:
– Em caso de ataque, quem é que defende isto?
– Ora ataque... quer dizer... há uma companhia de
cavalaria que não está cá...
– Mas costuma estar?
– Ás vezes está... outras não...
– E quando não está?...
– Há o alferes Carril, das auto-metralhadoras...
aquele do bigode... Há aqui o gerente que tem um
canhão...
A conversa começava a ser escutada com excessivo
interesse. O alferes Ramalho remexeu o bacalhau pouco
apetitoso. Arroz, bacalhau, cebola. O major pediu dois
ovos estrelados com bastante sal.
– Eu acho graça aos periquitos que julgam saber
mais que os outros – desfechou o alferes Durand,
incomodado pela braçadeira.
– Isso é comigo? – picou-se o gerente, que tinha
três meses de comissão.
– Há outros mais periquitos.
Só o Ramalho, que regressara ao silêncio.
– Todos esses gajos chegam com a mania de ganhar
a guerra.
– Gajos?! – repreendeu o comandante surdo – Terei
ouvido bem?
– Desculpe, meu comandante, é uma maneira de
falar – resmungou o Durand.
O comandante perorou sobre as virtudes da
linguagem, lamentando o vocabulário indigno (dum
oficial), o qual impedia, até certo ponto, a desejada
projecção, o desejado prestígio, a desejada paz, a
desejada multirracialidade. Aproveitou a circunstância
para verberar a incúria do gerente de messe, alferes de
artilharia, devido à qual as refeições se apresentavam
em sequências monótonas de arroz e bacalhau.
– Foi o homem da vaca que não apareceu, meu
comandante – desabafou o arguido. – Há uma semana
que falei com ele. Disse que sim... e de lá até hoje!
– E galinhas? – quis saber o comandante.
– Não querem vender...
– Insista. É preciso aprender a psicologia deles. Trate
de arranjar uns frangos.
Nessa tarde, o alferes de artilharia foi à procura de
galináceos, coadjuvado por seus furriéis. O alferes
Durand continuou com a braçadeira vermelha, onde se
indicava, a amarelo, o número do batalhão. O alferes
Carril mandou pintar uma das suas auto-metralhadoras.
O capitão Lami, lamentando não dispor duma
companhia de bravos, mandou examinar um cano que
vertia algumas gotas num ângulo da cozinha. O alferes
Ramalho meteu-se no seu posto. O major exortou o
cozinheiro a pôr mais sal na comida. O comandante foi
dormir a sesta entre os seus bidões. O médico bocejou.
O capelão agarrou no breviário. A tarde acumulava
nuvens. A transpiração progredia. O tornado
avizinhava-se. O prisioneiro negro balouçava os pés.
Depois da terra enlameada, deu-se uma aberta. O
alferes Ramalho abandonou os dossiers e veio ao bar
tomar um whisky. Conheceu então o alferes miliano
Trabuco, um veterano, a avaliar pela farda amarela.
Inchado, ou parecendo-o, esverdeado pelo tempo, o
alferes Trabuco ia no segundo gin.
– Olha um periquito! – exclamou – Desgraçado!
O soldado do bar, receoso, explicou, por sinais, ao
alferes Ramalho que aqueloutro alferes estava maluco.
– Como é que vieste aqui parar? – quis saber o
Trabuco.
– Como todos, parece-me.
– Eu passei aqui, quando era periquito, há dois anos,
e devia ter um ar idiota como tu. Já se foram dois anos.
No primeiro dia, isto pareceu-me um inferno... mas
inferno inferno foi o que que vi depois. Enfim, merda!
Já se passaram dois anos. Nem aqui me deixam vir
muitas vezes. O meu azar começou em Takau, logo à
chegada...
O alferes Trabuco contou como pregara com uma
travessa coberta de chantilly nas trombas do digno
empregado da mais fina “Sociedade” de Takau. O gesto
provocara uma completa barafunda, durante a qual o
bravo recém-chegado partira louças e espelhos no valor
de trinta contos. Punido com razoável dose de prisão
disciplinar, perdera o direito a qualquer licença.
Esquecera a Europa. Adaptara-se às nativas. Procurara
sobreviver. Sempre destacado para os sítios mais
perigosos. Havia um ano que habitava X, guardando
as propriedades do velho Salomon, senhor de bolanhas
e de muito arroz. Comandava um pelotão e alguns
milícias. Uma chatice. Só um lenitivo: a filha do velho
Salomon, uma mulata de quarenta anos, mulata clara,
claríssima, uma preciosidade. Como prova uma pulseira
de ouro com uma inscrição “Juliana, Salomon, Amor”.
Estendeu o braço heróico para deslumbramento do
periquito.
– Que mais queres da vida? – perguntou o Ramalho.
– Eu?! Fazes perguntas burras. Quero ver-me livre
disto tudo.
Fértil narrador, o alferes Trabuco retomou o fio à
meada. Tivera mulheres em todas as povoações por onde
passara. Comera um cabaço em Takiá, antes de o
exilarem para X. Queixa do pai do cabaço, perante um
comandante que já se fora. Que fazer? Tinham-lhe
suprimido a licença desde a bronca do chantilly, tinham-no destinado às zonas perigosas... que é que um cabaço
podia fazer?... Continuara a montar negras a torto e a
direito até ao dia em que lhe faltara a tesão. Restava-lhe o carinho da Juliana. O carinho e a exigência, uma
exigência terrível, que aquilo nem sempre endireitava...
– Tu sabes... sabes lá coisa nenhuma!... sabes o que é estar a meio da pinocada e as morteiradas, começarem
a chover? Sabes uma porra! A Juliana ficava a ver
navios... Mas depois fui-me habituando e consegui
aquilo que ninguém mais consegue: foder debaixo de
fogo!!! Mas só consegui uma vez. E quando estava a
vir-me gritei: “Matem-me esses filhos da puta!” Mas só
consegui uma vez...
O alferes Ramalho deixou o herói entregue às
lembranças de múltiplas guerras e foi examinar a
actividade do seu posto. Lembrou-se de interrogar o
sargento quanto a armas e munições.
– Não há nada, meu alferes.
– Conhece as instruções?
– Se conheço! Já ando nesta vida há uns anos.
– Quais são?
O sargento recitou atabalhoadamente uns parágrafos.
E quanto à defesa?
– Só há a pressão-de-ar do Ramon... Mas, se o meu
alferes tem medo, posso garantir-lhe que “eles” nunca
vieram cá.
O alferes Ramalho, rabugento, tomou a queixar-se
da qualidade do serviço. Em seu entender, a equipa
produzia pouco e os erros de ortografia estavam à vista
tanto nos papéis recentes como nos antigos.
Saiu. Tinha caído a noite, nesse desabar característico
dos trópicos. Os pés do prisioneiro negro, sempre
balouçando. As nuvens baixas. Primeiros pingos de água
morna. Grossos como bagas de suor. Deixou passar a
bátega e atravessou o quartel. Os globos amarelados
assinalavam a messe dos oficiais. Tomou banho e vestiu-se à civil, conservando as botas militares, porque o
polainito protegia os tornozelos muito atacados pelos
mosquitos. Improvisou com papel de velhas revistas
umas caneleiras. Apertou tudo com força. O tornozelo
direito, talvez devido à humidade, produziu um estalo.
Recomeçou a sessão de whisky, empoleirado num
dos poucos bancos do bar. O alferes Durand deixou-o
em paz, o capitão Lami tomou uma água mineral e
lançou para o espaço húmido uma olhadela doente. O
alferes Ramalho agarrou no whisky e foi bebê-lo para a
varanda, no escuro, onde os mosquitos perseguiam
menos. Repetiu o whisky. Um cheiro a churrascada
espalhava-se no ar. O alferes Ramalho engulhou. A essa
hora encontrava-se geralmente bêbado, preso dum
embrutecimento pouco visível exteriormente, à força de
ser por dentro uma forma de resistir.
– Este gajo parece que adivinha – comentou o alferes
de artilharia – Logo aparece hoje... em dia de churrasco…
O gajo era o alferes Trabuco, que só de longe em
longe conseguia pôr os pés em Takiá.
Com as narinas deliciadas por tão apetitoso odor, o
comandante surdo tomou a palavra perante os oficiais
reunidos, de pé, em volta da mesa:
– Senhores, camaradas-oficiais... Se alguém
duvidasse da eficácia dos nossos regulamentos, teria
agora a prova de que eles são válidos. O que é preciso é
boa vontade. E assim tenho de agradecer não só a
prontidão com que o nosso gerente de messe nos
proporcionou uma churrascada... como também de
felicitar-me... sim, a mim que tive a ideia. Vamos a ele!...
Ia a sentar-se...
A metralhadora cuspiu sobre a refeição.
E então o alferes Ramalho verificou ser a única
pessoa à mesa. Um sumiço colectivo se operara, com a
excepção da excepção da fábula. No ar denso, ao
impacto da metralha sucediam-se as morteiradas,
assinaladas por um silvo. Os rebentamentos sucediam-se com intervalos de um minuto, talvez. Mas o mais
irritante eram os cacarejos das metralhadoras.
Saiu, procurou uma sombra, por instinto, sob uma
mangueira. Recomeçou a chover, em grossas bagas de
suor. Parecia-lhe ver chamas, muito próximas, seguidas
de explosões. Inspirou um ar ressequido – o cheiro da
pólvora. Era preciso calar, antes de mais, as metralhadoras.
Com quê? O quartel parecia não responder
ao fogo inimigo.
Cosendo-se com as sombras, começou a atravessar
a parada deserta. Tinham-lhe dito muitas vezes que o
lugar de cada comandante é junto dos homens que
comanda. Mas o seu posto ficava no outro extremo,
imensamente distante da sombra a que ilusoriamente
ele se abrigava. Tinha de atravessar uma zona
relativamente iluminada. Mas o que não conseguia
suportar era a própria raiva perante o cheiro da pólvora.
Correu através da luz.
– Desapareça, idiota!
Era a voz do major. Alcançou a porta do posto.
Estava mergulhada na sombra, tal como os pés do
prisioneiro negro, que lhe pareceram balouçar agora
velozmente. Então lembrou-se do que lhe dissera o
sargento: a única arma ali existente era uma pressão-de-ar. Ficaram por momentos a olhar-se. O alferes saiu.
Tornou a percorrer o quartel e entrou no posto de
socorros. O médico examinava o primeiro ferido, um
soldado que sangrava por um dos cantos da boca e
pestanejava com muita velocidade.
– A tensão está óptima – declarou o médico,
libertando o braço do ferido – mas é preferível pedir-se
a evacuação.
– Que foi? – perguntou o Ramalho.
– Uma estupidez, meu amigo! – suspirou o médico – Com a histeria, o condutor dum camião esmagou-o
ali à esquina.
As pálpebras do ferido imobilizaram-se nesse
instante.
– Está morto, doutor – disse o Ramalho.
Assim era. E as metralhadoras recomeçaram, no seu
irritante estilo. Soou perto uma rajada.
– São os nossos – disse o médico. – Finalmente!
– Os nossos? Quem?
– O sargento Farrin saiu com uma metralhadora...
Ao crepitar próximo da metralhadora, dita nossa,
sucedeu a chegada dum novo ferido. Fora ferido pelo
próprio sargento Farrin.
– Santo Deus! – exclamou o médico.
Não passava de um arranhão num braço. O homem
estava apavorado e recusava mostrar a ferida, crispando
os dedos sobre o bíceps, donde jorravam sangue e
farrapos da camisa.
– Merda! – comentou o alferes Ramalho, voltando
para a sombra.
Avistou um vulto na gaiola. As morteiradas tinham
cessado, mas as metralhadoras longínquas respondiam
ao fogo duma metralhadora próxima. O alferes
Ramalho foi andando lentamente, já mais habituado
ao cheiro da pólvora. E pôde certificar-se de que uma
farda amarela abancara, diante do churrasco. Tratava-se do alferes Trabuco, que, na qualidade de veterano
calejado pela fuzilaria, se empenhava em comer o
churrasco ainda quente. Servia-se abundantemente de
cerveja e comera já duas rações. Ao avistar o periquito
Ramalho, mostrou-lhe uns dentes salpicados de bocados
de frango:
– Porra! Ou és parvo... ou tens coragem. Se calhar
não há diferença. Quando é que chegaste a esta bela
terra?
– Ontem.
– E andas com a cabeça de fora?! És parvo... e já me
disseram que és bufo... Mas come, pá! Talvez tu é que
tenhas razão.
E o alferes Trabuco roía uma perna de frango,
indiferente ao ganir das metralhadoras.
– Se morrer agora é uma chatice! Não é que morrer
seja uma chatice em si... l’être en soi... No meu
pensamento há influências de Sartre. Há-de me servir
para muito. Já ouviste falar de Sartre? Não importa.
Alguma destas bestas ouviu falar de Sartre?... O que
me chateia é morrer no fim, a oito dias do regresso.
Queria tornar a montar uma branca com tesão como
tinha dantes. Cambada de bestas! Julgam que os têm...
É falso! Cambada de panascas! E tu, periquito de merda,
com esse ar idiota... já me disseram que és um bufo.
Mastigava a comida e a palavra, como se trincasse
a última em vez da primeira. E a sinfonia de fundo
recomeçava mal prometia esmorecer. O alferes Trabuco,
bom conhecer de usos e costumes, foi ao frigorífico e
trouxe duas grandes cervejas:
– Bebe lá isso, periquito de merda! Talvez te tire o
medo!
O alferes Ramalho enchia o copo. A espuma
ultrapassou os bordos. O líquido inundou a cara do
interlocutor. O alferes Trabuco varreu as pálpebras com
as costas da mão e redarguiu com líquido e copo à
mistura, arranhando uma orelha do adversário. O alferes
Ramalho atirou-lhe com a garrafa meia de cerveja, mas
o Trabuco baixou-se. A janela da casa de banho deixou
tombar uns estilhaços. O alferes Trabuco ripostou com
um copo vazio, um dos muitos que povoavam a mesa
deserta. Mas, como não tinha espaço para largos gestos,
acertou na rede da gaiola. As metralhadoras ganiam e
expandiam o cheiro seco da pólvora.
O alferes Ramalho levantou-se e galgou por sobre a
mesa. Mas escorregou num resto de frango e não atingiu
o alvo. O alferes Trabuco saiu da gaiola e sacou do bar
uma garrafa de whisky, da qual bebeu largos goles. O
alferes Ramalho aproximou-se e conseguiu tirar a garrafa
ao inimigo. Bebeu uns goles e ia atacar com o restante
quando apanhou um soco nos queixas. Cambaleou, mas
reagiu a pontapé. O alferes Trabuco dobrou-se, agarrado à barriga. O alferes Ramalho ergueu o braço. Apanhou
uma cabeçada no queixo e a garrafa espatifou-se. As
metralhadoras exalavam um cheiro cada vez mais
ressequido.
O alferes Trabuco saltou para a lama, despiu a
camisa e pôs-se de língua de fora a aparar um resto de
chuva. O alferes Ramalho saltou para a lama, despiu a
camisa e pregou um murro na boca do inimigo.
– É uma chatice! – resmungou o Trabuco,
cuspinhando sangue.
– Uma grande chatice! – reafirmou o Ramalho,
palpando a orelha.
Fingiu o alferes Trabuco voltar costas ao combate
mas, fazendo meia-volta, atingiu o inimigo a pontapé.
O alferes Ramalho caiu, apertando com ambas as mãos
o tornozelo direito:
– Porra! – resmungou – Logo neste sítio!
O alferes Trabuco atirou-se ao adversário. Foi
apanhado pela cabeça do alferes Ramalho que se erguia
nesse instante.
– Merda! – gritaram à uma.
As metralhadoras insistiam na sua interminável
competência. Bêbedos, incapazes de se susterem nas
pernas, o veterano e o novato chafurdavam na lama.