Biblioteca online do conto
 
 
 
 
 
 
 
     
     
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José Martins Garcia

 
PERFORMANCE
 
     
 

Mal refeito do pifo e muito picado dos mosquitos, com os olhos inchados e os braços quase em carne viva, chegou o alferes miliciano Ramalho a Takiá, povoação implantada em esplêndido verde, na planura enorme.
Uma escolta reduzida montava a segurança à pista de terra batida que, vista do ar, não passava duma diminuta clareira castanha entre a vegetação densa.
Havia uma auto-metralhadora circulando sem cessar.
O alferes Ramalho, completamente regado de suor, lançou uma olhadela através do ar espesso. Era quase meio-dia e a humidade, aliada à alta temperatura, criava uma espécie de forno. Por isso, ou por deficiência visual, ou porque não distinguisse convenientemente
galões disfarçados sobre camuflado, o alferes Ramalho ficou-se com ar idiota a avaliar o mundo circundante.
Foi preciso que o major Smith, oficial mais categorizado na circunstância, inquirisse do intruso quem era e ao que vinha. Só então o alferes Ramalho, mal acordado, esboçou uma incorrectíssima continência e declinou identidade e informações afins.
Subiu para o jipe do major, escarranchou-se no banco traseiro com a mala única encaixada entre os joelhos, e lá se foi equilibrando por entre os solavanco.
O povoado surgiu das bermas dum carreiro. À esquerda, em lugar de honra, o cemitério. O soldado-condutor persignou-se. O major limitou-se a informar:
– É o cemitério.
O recém-chegado pôde apreciar umas tabuletas fincadas num solo terrivelmente verde.
– Além, é o túmulo do nosso último morto... furriel... uma mina... Sepultámos só um bocadinho do camuflado... que talvez fosse dele... O soldado-condutor desenvencilhou as rodas do jipe por um momento atoladas. O major voltou-se para o novato:
– Você é de poucas falas, pelo que vejo...
O alferes miliciano Ramalho encolheu os ombros.
Atravessavam o povoado, duas filas de tabancas ao longo dum carreiro. Tectos de colmo prolongados para fora das paredes. E, sentadas no chão, as mulheres indígenas, familiarizadas já com a passagem dos jipes. Mulheres e velhos e crianças. Velhos de túnicas brancas como as suas carapinhas, fumando cachimbo. Crianças por vezes multirraciais. Desembocaram num amplo largo, cujas faces eram ocupadas pela igreja de torres esguias e por casas semelhantes às da Europa. Zona de religião e de comércio. Enfiaram por uma ruela e pararam junto dum edifício vagamente europeu, de um só piso:
a messe dos oficiais. Para além, no outro extremo do povoado, ficava o muro do quartel. Para além, a planura densa de vegetação e outros perigos.
Quando quis apresentar-se ao comandante, o alferes Ramalho viu-se e desejou-se para penetrar naquele reduto.
Em primeiro lugar, não compreendeu imediatamente o que poderiam significar aqueles bidões no meio da parada. Mas, pensando que cada terra tem seu uso, imaginou tratar-se duma tribuna destinada a patrióticas alocuções.
E recorreu aos préstimos dum soldado que passava, distraído, de mãos atrás das costas, de calção e em chinelos, no sentido de obter uma informação precisa quanto ao paradeiro do comandante. O soldado, porém, limitou-se a corroborar informações já colhidas, apontando para os bidões. Reparando melhor, pôde o alferes Ramalho apurar que os bidões, em duas filas sobrepostas, desenhavam um quadrado tosco. Pôs-se a examinar os ângulos daquela construção, até encontrar finalmente uma passagem. A passagem dava, no entanto, para um estreitíssimo corredor entre bidões.
Percorrendo o dito corredor num dos sentidos, não encontrou saída. Julgou-se a contas com um labirinto.
Retrocedeu, pesquisou e acabou por desembocar numas escadinhas acimentadas que davam acesso a uma porta verde. Bateu. E foi o comandante, em pijama, que veio abrir.
Era um homem duns cinquenta anos, entroncado e grisalho, de olhinhos saltitantes por trás de grossas lentes. Enervado e surdo. A cada instante colocava a mão em concha atrás duma imensa orelha e pedia a repetição das declarações. O alferes Ramalho, homem
de poucas falas, no dizer do major, saiu da entrevista extenuado.
Na messe havia um pequeno bar, uma armação à base de barris velhos, atrás do qual um soldado manejava copos e garrafas. O alferes Ramalho teve de apertar as mãos de outros alferes, sombras de faces amarelentas, porque havia mais dum ano que a sede do batalhão ali se fixara, no meio da vegetação muito verde, entre bolanhas e mosquitos. O periquito tinha um ar relativamente saudável, apesar das pálpebras inchadas e dos braços quase em ferida. Dedicou-se à absorção regular de whisky com Perrier, muito concentrado nos goles que ingeria. Na sua camisa verde não restava nem um fio enxuto. Bebia e transpirava, transpirava e bebia.
– Este promete! – comentou alguém.
Com a chegada solene do comandante, fardado e de pingalim, todos entraram para a “gaiola”. Consistia esta num cubículo protegido por rede de fina malha.
Ali decorriam as refeições, sob a presidência do surdo comandante e a ameaça constante dos mosquitos. O alferes Ramalho, como mais recente aquisição da unidade, ficou no topo da longa mesa, muito entretido a mirar as laranjeiras que, sob o tornado, curvavam os ramos e desprendiam os frutos ainda verdes. Veio a bátega e o chão farto de água cobria-se de extensas poças. Veio o bacalhau com arroz e cebola, o todo amalgamado, quase papa. O alferes Ramalho pôs-se a comer gelo, assim sem mais aquelas, trincando os cubos com fragor. Aí o major alarmou-se, receando não restar nenhuma cuvete no frigorífico. O alferes Durand, ex-aluno de História, resolveu indagar:
– És do quadro? Surpreendido, o periquito exclamou:
– Eu?!
– É que o teu antecessor era do quadro. Um lateiro.
O alferes Ramalho nada respondeu.
Depois do almoço percorreu o quartel, tomando por referência os bidões. A chuva voltava de quando em quando, precedida por violento tufão. As casernas dos soldados exalavam o cheiro habitual – mofo, detrito, suor. O posto de transmissões foi-lhe indicado por duas
antenas e pelo crepitar do morse. A messe dos sargentos ficava junto à porta larga que dava para a praça do povoado. Um edifício amarelo, com janelas gradeadas, só podia ser a prisão. O alferes Ramalho, circundando o edifício, esteve prestes a ser atingido na cabeça por uma coisa negra e inesperada. Recuou, erguendo os olhos. Um negro, que tinha por vestuário uns velhos calções, sentara-se no parapeito da cela, passara os joelhos por baixo da grade e balouçava ao vento os pés enormes. O alferes Ramalho olhou os olhos do prisioneiro. Inexpressivos ou quase. Fixos nos do branco, sem receio, sem nenhum sentimento, sem súplica, sem rancor. Uma máscara negra com dois olhos muito abertos.
Avançou para o que sabia ser o seu posto. Era um barracão com uma única porta sobre a qual um letreiro proibia a entrada. Constava a sua equipa de três cabos e um sargento. No primeiro compartimento havia três camas munidas de mosquiteiros. Tudo com aquele ar
varrido e lavado, e mesmo assim fatalmente sujo, que caracteriza as instalações da tropa antes de revista. O sargento ordenou “sentido” e o alferes Ramalho moveu a mão num gesto ambíguo. O sargento Lara, chefe interino da equipa, tinha-se assenhoreado do comando – notava-se pelos seus ares de dono. O alferes Ramalho entrou no outro compartimento, foi direito aos dossiers, folheou ao acaso um deles, olhou os recantos como quem inspeccionasse teias de aranha, sentou-se à secretária e esfregou os olhos. Todos lhe espiavam os gestos e ele não dizia nem uma palavra. E, quando o sargento lhe falou em conferir material, bocejou, parecendo ignorar do que se tratava. Após a qual atitude, todos se entreolharam, escandalizados. O alferes Ramalho, literalmente mudo, saiu sem deixar uma ordem.
Tornou a reparar nos pés do negro prisioneiro e na maneira como balouçavam. Na messe, indagou do local onde poderia dormir. O activo soldado do bar preveniu-o de que não era fácil arranjar alojamento. O alferes Ramalho engoliu um brandy e foi procurar o major. Estava este atrás da secretária, de camuflado, e entregue aos seus montes de papelada. O alferes Ramalho reparou então no movimento incerto daquelas pupilas verdes. Depois lembrou que, segundo a sua guia de marcha, competia àquela unidade, cujo segundo comandante era o major Smith, dar-lhe alimentação e alojamento.
O major segurava montes de papel, em luta contra uma pequena ventoinha, e sentiu-se ofendido:
– Isso agora! É muito discutível!
– Vamos a ver uma coisa – declarou pacientemente o Ramalho – Eu estou aqui a cumprir as ordens que me deram...
– Isso todos nós!
– Com certeza. Deram-me uma guia de marcha na qual está escrito que compete à Unidade de V. Ex.ª dar-me alojamento e alimentação...
– Não tenho nada a ver com isso!
– Então?...
– Desenrasque-se!
– Não é resposta – disse secamente o Ramalho – E se eu me queixar?
– A quem? – fuzilou o major.
– Sabe muito bem a quem.
– Não sei, nem me interessa. Não há camas. Que é que quer que eu lhe faça? O que sei é que você entra amanhã de serviço.
– O que sei é que não entro de serviço, nem amanhã nem nunca.
– Isso é o que se vai ver.
– O que não se vai ver.
– Já está aqui nomeado.
– É a minha vez de dizer não sei nem me interessa.
Voltou costas. Não sabia deitar contas ao tempo que passara sem dormir. À porta da messe, a sua mala continuava, paciente. No bar, pediu whisky, água e muito gelo. O médico, um sujeito dos seus trinta e tal anos, veio acompanhá-lo na bebida.
– Doutor, desculpe a pergunta: o nosso major é doido?
– Bom, não deve estar psicologicamente em forma – declarou eufemisticamente o médico – Sabe, tem tido muitos desgostos. Nunca obteve licença... há mais dum ano que não vê a família... Foi uma chatice. No fundo, o nosso major é um intelectual. Experimente falar-lhe
de literatura. Lê muito. Enganou-se na vocação. Sabe, não tem sentido prático. Mas o que é que aconteceu?...
– Acontece que não tenho alojamento e ele diz que não tem nada a ver com isso.
– Eu compreendo. É que ele foi punido com três dias de prisão por não ter apresentado as contas no devido prazo. É um ressentido. Foi transferido de unidade, perdeu o direito à licença. Uma chatice! Talvez falando ao nosso comandante...
O alferes Ramalho foi ao gabinete do comandante, o qual gabinete não coincidia com a residência disfarçada por bidões, mas ficava junto do gabinete do major Smith. Antes, porém, de expor o seu problema, ouviu a admoestação do homem surdo:
– Fui informado da sua recusa de prestar serviço na unidade... Posso saber porquê?
– O regulamento, meu comandante. O meu serviço é incompatível com...
– Está bem.
Percebia-se que a questão não estava de modo algum encerrada. E, quanto ao alojamento, havia de se ver, segundo o ditame duns olhinhos velhacos.
O alferes Ramalho tornou ao bar e ao whisky. O médico avisou:
– A beber assim, você mata-se.
O outro encolheu os ombros.
– Desculpe outra pergunta, doutor: o nosso
comandante é doido?
– Bom, deve estar psicologicamente abalado.
Aconteceu-lhe uma coisa horrível. Uma noite, há uns meses atrás, ia da messe para o quarto dele, que fica ali no meio da parada... já viu? Pois! Nessa altura ainda não havia aqueles bidões... depois é que vieram os bidões... Ia ele para o quarto quando lhe deram uma cacetada... uma grande cacetada... Teve de levar seis pontos no coiro cabeludo...
– Mas... quem foi?
– De lá até hoje! É o que eu gostava de saber. E ele também. O agressor, parece-me a mim, tinha ideias de o matar. Mas a cabeça era mais rija que o cacete. O cacete estava partido, ao lado do nosso comandante.
Era sangue que nunca mais acabava. Lá tive de lhe coser a cabeça...
– Mas quem teria sido?
– Sabe-se lá!
– O inimigo?... Como é que entrou?
– Nunca se soube.
O alferes Ramalho dirigiu-se ao centro de transmissões. O chefe, o alferes Mike, anafado e míope, resmungou vagas desculpas, aflito com a desarrumação da papelada.
– Preciso da tua colaboração – declarou o Ramalho.
– Com certeza, com certeza...
Em poucos minutos, o alferes Ramalho desbobinava os elos da intriga: o major prevenira o comandante, o comandante enviara uma mensagem ao quartel-general, informando-se da veracidade das afirmações do Ramalho.
– A resposta deve chegar ainda hoje – disse Mike.
– Avisa-me.
– Certamente – respondeu o chefe, aliviado por não se tratar duma inspecção geral.
– Precisava duma cama... para esta noite.
– Não te preocupes, há uma no meu quarto. É dum tipo que está de licença. Disse que não queria lá ninguém... mas, num caso destes... já te mostro.
O alferes Ramalho dirigiu-se ao seu posto e verificou que os pés do prisioneiro negro continuavam a balouçar.
O sargento, com o respeito da tarimba, indagou:
– Meu alferes, se tem alguma ordem a dar...
O alferes observou o andamento do serviço e replicou:
– Primeiro, preciso de ler aquilo tudo.
“Aquilo tudo” eram montes de documentos metidos em vários dossiers. O sargento sorriu perante a enormidade da tarefa. O alferes Ramalho saiu, avisando:
– Eu leio muito depressa.
Anoiteceu bruscamente quando o alferes Ramalho atravessava a lama da parada. Um tufão atirou-lhe lixo para os olhos. Numa esquina esbarrou com um soldado.
Desabou-lhe em cima uma bátega furiosa. Na varanda da messe brilhavam uns globozitos amarelados. O alferes Ramalho limpou da testa o suor misturado à água e deixou-se cair numa cadeira de vime. No ar escurecido, vento e chuva desenhavam fantásticas manchas.
Adormeceu uns minutos. Não sabia donde surgira aquele capitão de farda amarelada, um estilo de farda que julgava abolido. Era um capitão em carne e osso, magro, muito idoso para a patente. Levantou-se, ensonado, e apresentou-se. O capitão chamava-se Lami, comandava a CCS e já estava ao corrente dos problemas levantados pelo novo alferes.
– Se eu é que mandasse... – resmungou.
E desatou a passear, para diante, para trás, desalentado, chupando avidamente o cigarro, de olhos inquietos: “Se eu é que mandasse...”
O alferes Ramalho, com os olhos doridos de sono e álcool, acabou por não resistir à pergunta:
– Que é que fazia, meu capitão?
– Que é que eu fazia? – comentou o outro, estacando em frente do periquito – Com uma companhia das minhas... das minhas... daqueles tempos... Garanto-lhe que acabava com esta guerra num mês.
O alferes Ramalho, que se atordoara com whisky, resolveu tomar um whisky para despertar. O médico via chover e observou:
– Você mata-se, a beber assim.
– Desculpe outra pergunta, doutor: o nosso capitão Lami é doido?
– Bom, talvez não disponha de muita resistência psíquica. Sabe, tem muitas saudades dos tempos em que... outro tempo, o tempo dele. Depois, aconteceu- -lhe uma coisa horrível. Mataram-lhe um homem, mal chegámos aqui. Reagiu mal. É vingativo e...
A conversa foi interrompida pela chegada do capitão Lami. Momentos depois o alferes Mike veio oferecer os seus préstimos ao novato. O alferes Durand veio observar o grupo. O soldado do bar aprontou bebidas.
No interior do edifício, por trás da gaiola, alguém tomava duche. Os mosquitos, animados pela noite, voavam para os tornozelos e alguns, mais sádicos, procuravam as feridas do alferes Ramalho. Completamente vencido pelo cansaço, o periquito tombou do banco, com o copo na mão. Coincidindo a sua queda com uma rajada de espingarda automática. Os presentes atiraram-se ao chão, em queda facial executada conforme a ginástica de cada um. O major, em pêlo, ensaboado, correu para a sentinela:
– Ouve lá, pá! Que é que foi isso?
A sentinela, trémula, jurou ter visto sombras.
– E quantos mataste, pá? Diz depressa: quantos
mataste?
A sentinela encolheu-se, envergonhada.
– Talvez um gato – troçou o major. – O teu número!
O infeliz balbuciou o número.
O alferes Ramalho, aparentemente atingido pela rajada, foi o primeiro a levantar-se. E, vendo o major nu, ensaboado e irritado, largou uma gargalhada fulgurante. Os outros puseram-se de pé Ia em meio a manhã quando o alferes Ramalho abriu a janela do seu quarto provisório e se pôs a gritar pelo soldado do bar. Dormira mal e mais uma vez comprovara a ineficácia dos mosquiteiros, que ajudavamà transpiração sem vedarem uma espécie de mosquito quase microscópico, nessas latitudes chamado melga, cuja acção se notava por grandes caroços na epiderme e endiabrada comichão. O soldado do bar atravessou o escasso pátio, que separava a messe do pavilhão onde o periquito se instalara, e ouviu as ordens deste: duas latas de leite gelado. Com as quais, passado um minuto, o alferes Ramalho iniciava a sua terapêutica de desintoxicação.
Barbeado, quase capaz de andar em linha recta, cada vez mais picado dos mosquitos, foi o alferes Ramalho até ao seu posto. De passagem, verificou que os pés do prisioneiro negro balouçavam, como no dia anterior. O sargento Lara e os cabos tagarelavam e o serviço não estaria adiantado. O alferes Ramalho pediu contas da actividade da manhã. Não percebia patavina daquelas folhas rabiscadas e vociferou ser aquele método uma autêntica pouca vergonha. Examinou um dossier e tomou umas notas. Bateram à porta. O sargento veio informar que se tratava do major.
O alferes Ramalho saudou o major e perguntou a que motivo devia a honra de tal visita. O major queria entrar. O alferes Ramalho colocou-se no vão da porta, declarando que o segundo comandante da unidade não tinha acesso àquelas instalações. Aí o major Smith teimou que sim e o alferes Ramalho teimou que não.
Ficaram a teimar longo tempo, num duelo de paciência, a ver quem a perdia em primeiro lugar. O alferes Ramalho falava muito menos que o adversário e por isso logrou marcar alguns pontos. Para amesquinhar o assunto, o major desfechou:
– Que ao fim e ao cabo não me interessa o que você tem aí dentro...
– Mais uma razão para não entrar.
– Mas sabe o que lhe digo? Se fosse eu o comandante, você fazia serviços como qualquer outro... e não se tinha dado a barraca desta manhã...
Fosse qual fosse a “barraca”, nessa manhã o alferes Ramalho dormia.
– Sabe o que eu queria? – prosseguiu o major – Apenas fazer a barba... Veja lá!
– Mas... – gaguejou o alferes – Não me consta que isto aqui seja barbearia... Desculpe... pode ser... mas não fui informado.
– Não, homem de Deus. É que a esta hora não há energia eléctrica no resto do quartel, compreende? Ao passo que aqui, posso ligar a máquina.
– Pois claro! – percebeu o alferes – Se o meu major tivesse começado por aí, já estava com a barba feita.
Ordenou a um cabo que ligasse uma extensão até à porta. Arranjou-se um espelho à altura da cara do major.
E assim se sanou um incidenite que nascera duma péssima utilização da linguagem.
O sargento Lara aproveitou o silêncio do major para informar que um dos motores tinha começado a falhar, facto gravíssimo para a regularidade do serviço.
Decidiram observar imediatamente os motores. Para tal, percorreram um campo coberto de capim e, por baixo do capim, de lama, até alcançarem a muralha, do lado do descampado. Assim, pôde o alferes Ramalho verificar que a extensão cercada pela muralha era muito mais ampla do que lhe parecera na véspera. Junto à muralha, via-se um casinhoto mal acabado. Entre o posto e os motores a distância seria duns duzentos metros e o alferes
ficou a meditar nas passíveis vantagens de incluir-se no chamado quartel uma tão grande faixa de capim. Como o facto se lhe afigurasse negativo, perguntou ao sargento:
– Quantos anos tem você de tropa?
– Dezoito, meu alferes.
– Tem visto muita coisa, não?
– Umas coisas, sim...
– Então deve saber por que razão há zonas de capim no interior dum quartel.
– Como?
– Isto! – e o alferes Ramalho apontou a zona em frente.
– Não, não percebo – confessou o sargento.
– Não percebe o que eu digo ou não percebe por que há capim?
– Sim, não percebo o capim.
– Nem eu.
O alferes Ramalho mediu com o olhar a altura da muralha.
– Não tem mais de dois metros – comentou. – Qualquer indivíduo salta isto nas calmas...
– Lá isso é verdade, meu alferes.
– E esconde-se no capim...
– Ah! Agora é que percebi! Mas sabe, meu alferes, este batalhão está aqui há mais dum ano e nunca foi atacado. Houve no princípio, parece, aí uma bronca.
Mas depois, nunca mais houve nada...
Regressaram ao posto. Os pés do prisioneiro negro continuavam a balouçar e os seus olhos eram tranquilos na observação dos transeuntes.
– Quem é esse tipo?
– Oh, tem uma grande história, esse patife! – esclareceu o sargento.
E contou. Aprisionado meses antes, portara-se como um malvado. Era tenente, ou coisa parecida, nos bandos do inimigo. Tenente de tanga – onde diabo já se viu?
Bruto como uma porta. Em vez de reconhecer os seus erros, olhava os captores com sobranceria. Não pronunciava senão uns grunhidos. Recusava-se a falar língua de gente, embora às vezes parecesse entender o que lhe perguntavam. Tinham decidido enviá-lo para Takau, onde seria julgado. O patife entendia as conversas. Na véspera da partida, tentara a evasão.
Descoberto pela sentinela, quando galgava a muralha, fora atingido na coxa. Extraída a bala, aguardava a partida e passava os dias a balouçar os pés.
Vários soldados desataram em grande alarido, sob uma mangueira, em frente da janela onde o prisioneiro balouçava os pés. No chão, atordoada por uma primeira cacetada, uma cobra cuspideira ainda ziguezagueava.
“Acabem com ela! Dá-lhe tu! Depressa!” Os soldados formaram uma circunferência de largo diâmetro, em torno daquele ziguezague verde, esguio e ferido. “Dêem-lhe um tiro!”, sugeriram. Mas ninguém estava armado.
Então o cabo Ramon, da equipa do alferes Ramalho, apareceu com uma espingardinha ridícula, uma pressão-de-ar.
– Que é que vais fazer com isso? – escarneceu o sargento Lara.
– Vou acertar-lhe na cabeça.
Estava a fazer cuidadosa pontaria à cabeça da cobra quando esta, num assomo, cuspiu no olho direito do carrasco a sua derradeira bílis. O cabo Ramon largou a pressão-de-ar e, ganindo que ia ficar cego dum olho, foi levado ao posto de socorros. A cobra foi morta à paulada e com prudência.
– Por uma cobra...
O alferes Ramalho verificou que o comentário era de sargento para sargento.
– Coisa de rapazes! – comentou o Lara.
O alferes Ramalho teve assim ensejo de conhecer o sargento Farrin, muito ligado ao Lara por velhos empreendimentos e análogas memórias. Era baixo, forte, grisalho, perfeitamente sargento.
– Cobras! – exclamou ele, com desprezo. – Medo de cobras! Ao fim e ao cabo são animais domésticos.
Perante um gesto admirativo do alferes Ramalho, um periquito, um homem nada calejado por estas coisas da guerra, o sargento Farrin garantiu a veracidade do que se propunha narrar. E então contou da domesticidade duma cobra, que conhecera em outras latitudes,
alimentada regularmente a leite, mais mansa que um gato, reconhecida a seu senhor, manifestando a sua gratidão numa espécie de bailado sempre que o dono entrava no quartel; o qual dono era brusco como todos os comandantes de quartéis, e contudo preso de amor à cobra.
O alferes Ramalho parecia muito atento à narrativa, o que foi de molde a entusiasmar o narrador. O qual garantiu, minutos depois, ser o tal comandante brusco uma excelente criatura. Homem um tanto excêntrico, é certo, mas dotado de tão bom fundo que nem as cobras lhe eram indiferentes. Contribuíra para essa fama de excentricidade o facto de o comandante usar um enorme bigode, aí com meio metro para cada lado. E então? Os mexicanos não usam chapéus de aba larga? Era um homem que se reconhecia à légua pelo tamanho dos bigodes. E, quando vinha à cidade, num jipe meio desmantelado, era com os bigodes que realizava os sinais de trânsito. E o sinaleiro compreendia, atento aos
movimentos de tão grandes bigodes, os quais, ultrapassando o pára-brisas, funcionavam às mil maravilhas.
Foi-se o alferes Ramalho em busca do almoço e deparou, na varanda da messe, com o passeio monótono do capitão Lami.
– Sabe, nosso alferes, se eu é que mandasse...
– Já sei, meu capitão!
– Não sabe, não senhor! Infelizmente, há gente que
não trabalha...
– É possível, é muito possível.
– Gente que dorme até ao meio-dia...
– Muito possível.
– Assim como você!
Feroz. chupado das faces, febril de olhos.
– E a barraca que se deu por sua culpa!... Ah, se eué que mandasse...
– Que barraca?
– Ainda pergunta! Nunca na minha vida vi uma coisa assim. Estamos perdidos. O oficial de dia não comparece ao render da parada... e fica tudo à espera...
Prisão! Só prisão!
Quebrou a monotonia do passeio, agitou-se mais:
– Se eu é que mandasse... bastava uma companhia... num mês!
O alferes Ramalho olhou para o relógio e encaminhou-se para o bar. Começava a beber o primeiro whisky quando o alferes Durand, de braçadeira, avisou:
– Ganhaste! Mas vai-te sair caro...
– Como?
– Entrei de serviço no teu lugar. Vê lá se te custava muito fazeres de oficial de dia de vez em quando! Assim, a malta não te vai gramar, podes estar certo. E todos têm mais experiência que tu. Da fama de bufo já ninguém te safa... porque o nosso comandante, que a gente conhece bem, deve ter as suas razões para não te espetar com uns dias de prisão. Esses privilégios vão-te sair caros, garanto! Qando todos souberem que és bufo...
O alferes Ramalho mirou por instantes o interlocutor.
– Camarada! – disse secamente – Estás mesmo a pedir que te parta o focinho.
E iniciou o segundo whisky. O alferes Durand, colérico, achou por bem não prosseguir. Estreito de ombros e um tanto barrigudo, apurado para serviços auxiliares, agora a contas com problemas de administração, recusava argumentos físicos.
Chegaram diversos oficiais, logo seguidos do major e do comandante. O alferes Ramalho foi ocupar o lugar da véspera. Então começou a identificar os rostos que compareciam. À sua frente, melífluo, o alferes Mike, das transmissões. Ao lado deste, o alferes Durand, todo entregue ao rancor. Ao lado esquerdo do Ramalho, um alferes que conjugava a artilharia com a gerência de messe. Tinha um ar de menino mimado e levava a sério tudo o que lhe diziam. Depois o capelão. Depois o médico. Comandante em presidência. Major em frente. Depois o capitão Lami. Depois oficiais de secretaria e de abastecimentos diversos. Numa gaiola, cerca das treze horas e trinta minutos. O major protestou contra a sopa. Como sempre, sem sal. O gerente de messe, alferes miliciano de artilharia, foi fuzilado por vários olhares. Incompetente, mesmo na dose de sal.
Então o alferes Ramalho, em voz baixa, perguntou ao alferes Mike:
– Em caso de ataque, quem é que defende isto?
– Ora ataque... quer dizer... há uma companhia de cavalaria que não está cá...
– Mas costuma estar?
– Ás vezes está... outras não...
– E quando não está?...
– Há o alferes Carril, das auto-metralhadoras... aquele do bigode... Há aqui o gerente que tem um canhão...
A conversa começava a ser escutada com excessivo interesse. O alferes Ramalho remexeu o bacalhau pouco apetitoso. Arroz, bacalhau, cebola. O major pediu dois ovos estrelados com bastante sal.
– Eu acho graça aos periquitos que julgam saber mais que os outros – desfechou o alferes Durand, incomodado pela braçadeira.
– Isso é comigo? – picou-se o gerente, que tinha três meses de comissão.
– Há outros mais periquitos.
Só o Ramalho, que regressara ao silêncio.
– Todos esses gajos chegam com a mania de ganhar a guerra.
– Gajos?! – repreendeu o comandante surdo – Terei ouvido bem?
– Desculpe, meu comandante, é uma maneira de falar – resmungou o Durand.
O comandante perorou sobre as virtudes da linguagem, lamentando o vocabulário indigno (dum oficial), o qual impedia, até certo ponto, a desejada projecção, o desejado prestígio, a desejada paz, a desejada multirracialidade. Aproveitou a circunstância para verberar a incúria do gerente de messe, alferes de artilharia, devido à qual as refeições se apresentavam em sequências monótonas de arroz e bacalhau.
– Foi o homem da vaca que não apareceu, meu comandante – desabafou o arguido. – Há uma semana que falei com ele. Disse que sim... e de lá até hoje!
– E galinhas? – quis saber o comandante.
– Não querem vender...
– Insista. É preciso aprender a psicologia deles. Trate de arranjar uns frangos.
Nessa tarde, o alferes de artilharia foi à procura de galináceos, coadjuvado por seus furriéis. O alferes Durand continuou com a braçadeira vermelha, onde se indicava, a amarelo, o número do batalhão. O alferes Carril mandou pintar uma das suas auto-metralhadoras.
O capitão Lami, lamentando não dispor duma companhia de bravos, mandou examinar um cano que vertia algumas gotas num ângulo da cozinha. O alferes Ramalho meteu-se no seu posto. O major exortou o cozinheiro a pôr mais sal na comida. O comandante foi dormir a sesta entre os seus bidões. O médico bocejou.
O capelão agarrou no breviário. A tarde acumulava nuvens. A transpiração progredia. O tornado avizinhava-se. O prisioneiro negro balouçava os pés.
Depois da terra enlameada, deu-se uma aberta. O alferes Ramalho abandonou os dossiers e veio ao bar tomar um whisky. Conheceu então o alferes miliano Trabuco, um veterano, a avaliar pela farda amarela.
Inchado, ou parecendo-o, esverdeado pelo tempo, o alferes Trabuco ia no segundo gin.
– Olha um periquito! – exclamou – Desgraçado!
O soldado do bar, receoso, explicou, por sinais, ao alferes Ramalho que aqueloutro alferes estava maluco.
– Como é que vieste aqui parar? – quis saber o Trabuco.
– Como todos, parece-me.
– Eu passei aqui, quando era periquito, há dois anos, e devia ter um ar idiota como tu. Já se foram dois anos.
No primeiro dia, isto pareceu-me um inferno... mas inferno inferno foi o que que vi depois. Enfim, merda!
Já se passaram dois anos. Nem aqui me deixam vir muitas vezes. O meu azar começou em Takau, logo à chegada...
O alferes Trabuco contou como pregara com uma travessa coberta de chantilly nas trombas do digno empregado da mais fina “Sociedade” de Takau. O gesto provocara uma completa barafunda, durante a qual o bravo recém-chegado partira louças e espelhos no valor de trinta contos. Punido com razoável dose de prisão disciplinar, perdera o direito a qualquer licença. Esquecera a Europa. Adaptara-se às nativas. Procurara sobreviver. Sempre destacado para os sítios mais perigosos. Havia um ano que habitava X, guardando
as propriedades do velho Salomon, senhor de bolanhas e de muito arroz. Comandava um pelotão e alguns milícias. Uma chatice. Só um lenitivo: a filha do velho Salomon, uma mulata de quarenta anos, mulata clara, claríssima, uma preciosidade. Como prova uma pulseira de ouro com uma inscrição “Juliana, Salomon, Amor”.
Estendeu o braço heróico para deslumbramento do periquito.
– Que mais queres da vida? – perguntou o Ramalho.
– Eu?! Fazes perguntas burras. Quero ver-me livre disto tudo.
Fértil narrador, o alferes Trabuco retomou o fio à meada. Tivera mulheres em todas as povoações por onde passara. Comera um cabaço em Takiá, antes de o exilarem para X. Queixa do pai do cabaço, perante um comandante que já se fora. Que fazer? Tinham-lhe
suprimido a licença desde a bronca do chantilly, tinham-no destinado às zonas perigosas... que é que um cabaço podia fazer?... Continuara a montar negras a torto e a direito até ao dia em que lhe faltara a tesão. Restava-lhe o carinho da Juliana. O carinho e a exigência, uma exigência terrível, que aquilo nem sempre endireitava...
– Tu sabes... sabes lá coisa nenhuma!... sabes o que é estar a meio da pinocada e as morteiradas, começarem a chover? Sabes uma porra! A Juliana ficava a ver navios... Mas depois fui-me habituando e consegui aquilo que ninguém mais consegue: foder debaixo de
fogo!!! Mas só consegui uma vez. E quando estava a vir-me gritei: “Matem-me esses filhos da puta!” Mas só consegui uma vez...
O alferes Ramalho deixou o herói entregue às lembranças de múltiplas guerras e foi examinar a actividade do seu posto. Lembrou-se de interrogar o sargento quanto a armas e munições.
– Não há nada, meu alferes.
– Conhece as instruções?
– Se conheço! Já ando nesta vida há uns anos.
– Quais são?
O sargento recitou atabalhoadamente uns parágrafos.
E quanto à defesa?
– Só há a pressão-de-ar do Ramon... Mas, se o meu alferes tem medo, posso garantir-lhe que “eles” nunca vieram cá.
O alferes Ramalho, rabugento, tomou a queixar-se da qualidade do serviço. Em seu entender, a equipa produzia pouco e os erros de ortografia estavam à vista tanto nos papéis recentes como nos antigos.
Saiu. Tinha caído a noite, nesse desabar característico dos trópicos. Os pés do prisioneiro negro, sempre balouçando. As nuvens baixas. Primeiros pingos de água morna. Grossos como bagas de suor. Deixou passar a bátega e atravessou o quartel. Os globos amarelados assinalavam a messe dos oficiais. Tomou banho e vestiu-se à civil, conservando as botas militares, porque o polainito protegia os tornozelos muito atacados pelos mosquitos. Improvisou com papel de velhas revistas umas caneleiras. Apertou tudo com força. O tornozelo direito, talvez devido à humidade, produziu um estalo.
Recomeçou a sessão de whisky, empoleirado num dos poucos bancos do bar. O alferes Durand deixou-o em paz, o capitão Lami tomou uma água mineral e lançou para o espaço húmido uma olhadela doente. O alferes Ramalho agarrou no whisky e foi bebê-lo para a varanda, no escuro, onde os mosquitos perseguiam menos. Repetiu o whisky. Um cheiro a churrascada espalhava-se no ar. O alferes Ramalho engulhou. A essa hora encontrava-se geralmente bêbado, preso dum embrutecimento pouco visível exteriormente, à força de ser por dentro uma forma de resistir.
– Este gajo parece que adivinha – comentou o alferes de artilharia – Logo aparece hoje... em dia de churrasco…
O gajo era o alferes Trabuco, que só de longe em longe conseguia pôr os pés em Takiá.
Com as narinas deliciadas por tão apetitoso odor, o comandante surdo tomou a palavra perante os oficiais reunidos, de pé, em volta da mesa:
– Senhores, camaradas-oficiais... Se alguém duvidasse da eficácia dos nossos regulamentos, teria agora a prova de que eles são válidos. O que é preciso é boa vontade. E assim tenho de agradecer não só a prontidão com que o nosso gerente de messe nos proporcionou uma churrascada... como também de felicitar-me... sim, a mim que tive a ideia. Vamos a ele!...
Ia a sentar-se...
A metralhadora cuspiu sobre a refeição.
E então o alferes Ramalho verificou ser a única pessoa à mesa. Um sumiço colectivo se operara, com a excepção da excepção da fábula. No ar denso, ao impacto da metralha sucediam-se as morteiradas, assinaladas por um silvo. Os rebentamentos sucediam-se com intervalos de um minuto, talvez. Mas o mais irritante eram os cacarejos das metralhadoras.
Saiu, procurou uma sombra, por instinto, sob uma mangueira. Recomeçou a chover, em grossas bagas de suor. Parecia-lhe ver chamas, muito próximas, seguidas de explosões. Inspirou um ar ressequido – o cheiro da pólvora. Era preciso calar, antes de mais, as metralhadoras.
Com quê? O quartel parecia não responder ao fogo inimigo.
Cosendo-se com as sombras, começou a atravessar a parada deserta. Tinham-lhe dito muitas vezes que o lugar de cada comandante é junto dos homens que comanda. Mas o seu posto ficava no outro extremo, imensamente distante da sombra a que ilusoriamente ele se abrigava. Tinha de atravessar uma zona relativamente iluminada. Mas o que não conseguia suportar era a própria raiva perante o cheiro da pólvora.
Correu através da luz.
– Desapareça, idiota!
Era a voz do major. Alcançou a porta do posto.
Estava mergulhada na sombra, tal como os pés do prisioneiro negro, que lhe pareceram balouçar agora velozmente. Então lembrou-se do que lhe dissera o sargento: a única arma ali existente era uma pressão-de-ar. Ficaram por momentos a olhar-se. O alferes saiu.
Tornou a percorrer o quartel e entrou no posto de socorros. O médico examinava o primeiro ferido, um soldado que sangrava por um dos cantos da boca e pestanejava com muita velocidade.
– A tensão está óptima – declarou o médico, libertando o braço do ferido – mas é preferível pedir-se a evacuação.
– Que foi? – perguntou o Ramalho.
– Uma estupidez, meu amigo! – suspirou o médico – Com a histeria, o condutor dum camião esmagou-o ali à esquina.
As pálpebras do ferido imobilizaram-se nesse instante.
– Está morto, doutor – disse o Ramalho.
Assim era. E as metralhadoras recomeçaram, no seu irritante estilo. Soou perto uma rajada.
– São os nossos – disse o médico. – Finalmente!
– Os nossos? Quem?
– O sargento Farrin saiu com uma metralhadora...
Ao crepitar próximo da metralhadora, dita nossa, sucedeu a chegada dum novo ferido. Fora ferido pelo próprio sargento Farrin.
– Santo Deus! – exclamou o médico.
Não passava de um arranhão num braço. O homem estava apavorado e recusava mostrar a ferida, crispando os dedos sobre o bíceps, donde jorravam sangue e farrapos da camisa.
– Merda! – comentou o alferes Ramalho, voltando para a sombra.
Avistou um vulto na gaiola. As morteiradas tinham cessado, mas as metralhadoras longínquas respondiam ao fogo duma metralhadora próxima. O alferes Ramalho foi andando lentamente, já mais habituado ao cheiro da pólvora. E pôde certificar-se de que uma farda amarela abancara, diante do churrasco. Tratava-se do alferes Trabuco, que, na qualidade de veterano calejado pela fuzilaria, se empenhava em comer o churrasco ainda quente. Servia-se abundantemente de cerveja e comera já duas rações. Ao avistar o periquito Ramalho, mostrou-lhe uns dentes salpicados de bocados de frango:
– Porra! Ou és parvo... ou tens coragem. Se calhar não há diferença. Quando é que chegaste a esta bela terra?
– Ontem.
– E andas com a cabeça de fora?! És parvo... e já me disseram que és bufo... Mas come, pá! Talvez tu é que tenhas razão.
E o alferes Trabuco roía uma perna de frango, indiferente ao ganir das metralhadoras.
– Se morrer agora é uma chatice! Não é que morrer seja uma chatice em si... l’être en soi... No meu pensamento há influências de Sartre. Há-de me servir para muito. Já ouviste falar de Sartre? Não importa.
Alguma destas bestas ouviu falar de Sartre?... O que me chateia é morrer no fim, a oito dias do regresso.
Queria tornar a montar uma branca com tesão como tinha dantes. Cambada de bestas! Julgam que os têm...
É falso! Cambada de panascas! E tu, periquito de merda, com esse ar idiota... já me disseram que és um bufo.
Mastigava a comida e a palavra, como se trincasse a última em vez da primeira. E a sinfonia de fundo recomeçava mal prometia esmorecer. O alferes Trabuco, bom conhecer de usos e costumes, foi ao frigorífico e trouxe duas grandes cervejas:
– Bebe lá isso, periquito de merda! Talvez te tire o medo!
O alferes Ramalho enchia o copo. A espuma ultrapassou os bordos. O líquido inundou a cara do interlocutor. O alferes Trabuco varreu as pálpebras com as costas da mão e redarguiu com líquido e copo à mistura, arranhando uma orelha do adversário. O alferes Ramalho atirou-lhe com a garrafa meia de cerveja, mas o Trabuco baixou-se. A janela da casa de banho deixou tombar uns estilhaços. O alferes Trabuco ripostou com um copo vazio, um dos muitos que povoavam a mesa deserta. Mas, como não tinha espaço para largos gestos, acertou na rede da gaiola. As metralhadoras ganiam e expandiam o cheiro seco da pólvora.
O alferes Ramalho levantou-se e galgou por sobre a mesa. Mas escorregou num resto de frango e não atingiu o alvo. O alferes Trabuco saiu da gaiola e sacou do bar uma garrafa de whisky, da qual bebeu largos goles. O alferes Ramalho aproximou-se e conseguiu tirar a garrafa ao inimigo. Bebeu uns goles e ia atacar com o restante quando apanhou um soco nos queixas. Cambaleou, mas reagiu a pontapé. O alferes Trabuco dobrou-se, agarrado à barriga. O alferes Ramalho ergueu o braço. Apanhou uma cabeçada no queixo e a garrafa espatifou-se. As metralhadoras exalavam um cheiro cada vez mais ressequido.
O alferes Trabuco saltou para a lama, despiu a camisa e pôs-se de língua de fora a aparar um resto de chuva. O alferes Ramalho saltou para a lama, despiu a camisa e pregou um murro na boca do inimigo.
– É uma chatice! – resmungou o Trabuco, cuspinhando sangue.
– Uma grande chatice! – reafirmou o Ramalho, palpando a orelha.
Fingiu o alferes Trabuco voltar costas ao combate mas, fazendo meia-volta, atingiu o inimigo a pontapé.
O alferes Ramalho caiu, apertando com ambas as mãos o tornozelo direito:
– Porra! – resmungou – Logo neste sítio!
O alferes Trabuco atirou-se ao adversário. Foi apanhado pela cabeça do alferes Ramalho que se erguia nesse instante.
– Merda! – gritaram à uma.
As metralhadoras insistiam na sua interminável competência. Bêbedos, incapazes de se susterem nas pernas, o veterano e o novato chafurdavam na lama.

 
     
 

in Katafaraum é uma Nação, Assírio & Alvim (1974),
reimpresso em Ficções de Guerra

 
     
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