| |
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 165-170.
Abyssum Abyssum
Nesse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio. Assim eles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentação para ambos, o rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de ameaça, aquelas terríveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia que lhe apareceram em casa tarde e às más horas.
– Ouvistes? – ralhara-lhes a mãe. – Olhai se ouvistes! Se voltais ao rio, mato-vos com pancada! Andai lá...
Ih! como ela dissera aquilo, Mãe Santíssima! Colérica, ameaçadora, com a mão em gume sobre as suas cabecitas louras... Lembravam-se de haver tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob aquela ameaça terminante. E então, nesse dia, eles não tinham ido ao rio. Aos pássaros, sim... – lá estavam as calças rotas do Manuel a dizê-lo – ...aos pássaros é que eles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe que o soubesse...
Ah, mas então não os deixassem dormir naquele quarto! Logo de manhã, mal abriam as janelas, a primeira coisa que viam era o rio, uma corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos salgueiros. Lá estava a ponte velha, de onde os rapazes se atiravam despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do fidalgo, – lindo barquinho! – sempre à espera que o fidalgo o desamarrasse para passar à grande quinta que tinha na margem de lá.
De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, tão madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprendê-lo da praia e deixá-lo ir então para onde ele quisesse, contanto que fosse sempre para diante... Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua vista seguia, mesmo através da escuridão da noite, a linha que ia dar ao barco. Era o seu – «adeus até amanhã!» – àquele pequeno objecto que valia tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo... Ah! tivessem eles assim um barquinho, que não queriam mais nada...
– Mais nada?
– Isso não... mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.
Mas nessa manhã, bela manhã, na verdade! a mãe viera acordá-los mais cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida – gente que passava para os campos, os solavancos dos carros no empedrado péssimo da rua, os patos da vizinhança que saíam em rancho para a digressão pelos prados, grasnando ruidosamente, levantando-se em voos curtos, espantados da agressão acintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que ali perto se ouvia o retintim agudo do martelo do ferrador atarracando cravos na bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e vagaroso, as chaves da igreja na mão esquerda e na direita a cabacita do vinho. E àquela hora onde iria já a missa! A última beata, encapuchada e lenta, recolhera, trazendo consigo a esteira em que ajoelhara na igreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua, dava com valentia num carro cujo eixo ardera na véspera, e que era urgente compor, pelos modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a loja, e subira à varanda a regar os manjericos. Começos da labuta diária, enfim; os senhores sabem.
Pois como lhes disse, a mãe viera nessa manhã acordar mais cedo os dois pequenos.
– Fora, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal está! Ai, ai, dia claro há que tempos, vem aí o sol, e os morgadinhos na cama! – E enquanto falava, ia-lhes abrindo as janelas. – Persignar e vestir, vamos! Calças... colete... os jaquetões... tomem!
E pôs-lhes tudo sobre a cama.
– Mãe, a bênção! – balbuciaram os dois, tontos de sono ainda.
– Deus os abençoe. Que Deus não abençoa mandriões, ouviram? Ora, eu já volto! Queira Deus que não vos encontre cá fora, tendes que ver!
Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os olhos àquela hostilidade viva da luz que invadira o quarto num jacto repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito que eles afagavam numa última carícia, suavemente, docemente. Seria tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos!...
Mas a mãe não tardava ali. Era preciso vestirem-se, que remédio! Foi então que o Manuel, mais esperto do sono, olhando para o campo o achou encantador, todo resplandecente de verduras.
– Bonita manhã, não vês? As árvores parecem mais lindas, repara. Porque será?
O outro encolheu os ombros, não sabia; só se fosse por não haver nuvens...
Pela janela aberta, avistava-se um trecho de paisagem que a luz viva da manhã fazia muito nítida. As vinhas tinham um verde encantador, muito suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das laranjeiras que cerravam alas nos pomares húmidos das baixas. Revestidos de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaços de horta estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.
Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que nessa manhã deslizava muito sereno, esverdeado de águas, espelhante sob aquele céu imaculado.
– Ah! ah!... riu-se o Manuel, contemplando-o. – O rio! Que te parece?! Olha que é lindo, o rio! Ora é, ó António?!
– É, lá isso... Mas tamém de que vale? – tornou-lhe com desalento o irmão. – A gente não pode lá ir... Olha se a mãe o soubesse, han? – E mirando por sua vez a paisagem, perguntou: – Já reparaste no barco, ó Manuel?
– Tão bonito!
Os dois riram.
– Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara!
– Pudera!... – explicou o Manuel – ...amarrado com uma corda... – E depois radiante, gesticulando para o irmão: – Mas eu era capaz de o desamarrar...
– Ai eras! – disse duvidoso o António, para o incitar.
Calaram-se. Era bom podê-lo desamarrar, lá isso era! Ambos dentro dele, sozinhos, isso é que seria bom! E eles então que estavam mortos por ir às azenhas, e pelo rio era um instante enquanto lá chegavam. O barco! Era tão bom andar de barco! E aquele então era lindo, como não tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido – olhem lá não esquecessem! – aquelas tardes em que o fidalgo os levara lá dentro do barquinho, ensinando-lhes como se remava.
O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito à janela. Passava naquele instante um bando de andorinhas, chilreando.
– Está um dia lindo, avia-te.
– Olha «avia-te»! para quê?. – perguntou o António torcendo e retorcendo o pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama.
O Manuel sorriu-se, triste. – Era verdade... Aviarem-se para quê? A mãe não os deixava ir ao rio... E se não, que fossem! – «Mato-vos com pancada se desceis a ladeira». – Já se vê que depois disto... – E os dois suspiravam, desgostosos. «Que pena serem pequenos»!
Nisto o António chegou-se também para a janela. Que lindo, o campo! Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demónio de tentação! E para mais tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo o comprimento, uma faixa azul--clara destacava nitidamente, parece que apenas meio palmo acima do nível da água!
– Tate, ó Manuel! E se nós fugíssemos?
– Ora! se fugíssemos!.... E depois? A gente tínhamos de voltar...
Ora ai está! isso é que era o pior! A mãe, depois, era capaz de fazer o que tinha prometido. E arregalando muito os olhos, imitando a cólera da mãe: – «Se voltais ao rio...» Ai, ai, a triste sorte!
Recaíram em silêncio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia ao nascente, numa explosão violenta de luz, acendendo coloridos na largura muito ampla da paisagem.
– Mas palavra que o barco parece pintado de novo... – relembrou com alegria o Manuel.
– Mas é que está, palavra que está! Agora é que havia de ser bom andar dentro dele!...
Os dois riram-se muito àquela ideia encantadora de andarem no barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso, cobrando ânimo, o António disse resoluto:
– Olha agora o medo! Seguro que nos mata! – E puxando-o pela jaqueta: – Vamos lá, ó Manuel?!
O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não vinha, disse baixo ao irmão:
– À tardinha, hem? dois pulos e estamos lá. Não é tão fácil dar pela nossa falta, ali à tardinha. A gente finge que vai para o adro. Levam-se os piões…
– Há-de ser mesmo assim! à tardinha! – concordou o António. – Eh! eh! eu cá desatraco.
– E eu remo, – disse logo o Manuel com gesto de quem remava.
– Ao leme vou eu: o leme é aquilo que regula – explicou.
– Pois sim, mas à vinda pertence-me a mim, remas tu. Se queres assim...
– Pois está bem, quero! Assim mesmo é que há-de ser!
E recapitulando, para melhor ficarem combinados:
– Ao p’ra baixo remo eu, ora remo?
– Remas.
– E tu regulas, ora regulas?
– Regulo.
– Ao p’ra cima é às avessas, ora é?
– É.
Muito bem, «basta palavra»! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se impuseram segredo...
– Schiu!...
– Schiu!...
*
A tarde descaía límpida. Na vasta cúpula do céu, penachos de nuvens alvejavam, imóveis.
Acesas naquela explosão rubra do ocaso, as arestas dos montes franjavam-se de púrpura e oiro, na decoração mágica dos poentes. Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquila dos crepúsculos, e uma quietação dulcíssima e vagamente melancólica entrava de adormecer a natureza para o grande sono reparador de toda a noite.
...E a tarde ia descendo, cada vez mais límpida.
Naquela luz indecisa de crepúsculo que mansamente se ia acentuando, os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas, imobilizados num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma espécie de silêncio confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as formas às coisas...
Muda de gorjeios, atravessando o espaço em voos muito rápidos, a passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava. Caíam já pesadas sobre os vales as sombras das montanhas, e um fumozito subtilmente azulado nadava à flor das coisas, velando-as para o tranquilo sono em que iam adormecer.
E a tal hora e no meio de tal silêncio, o barquinho branco deslizava mansamente sobre a água tranquila do rio, onde as primeiras estrelas começavam de lampejar. Dentro dele, os dois irmãozitos silenciosos iam-se deixando enlevar naquele ruído suave dos remos abrindo fendas nas águas... Não! era bem certo que eles não tinham jamais sentido uma tão poderosa e viva alegria – alegria doida que lhes trasvazava do peito, fundindo-se em energia nos músculos e cristalizando-se nos lábios em sorrisos.
Dentro daquele adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres de admoestações alheias, sozinhos, independentes. E esta feliz convicção de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de alegria. Por certo eles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o seriam jamais?... No entanto a noite acentuava-se. Espertava nas margens o marulho da água nas raízes fundas dos salgueiros. No céu alto e sereno cintilavam as estrelas em cardumes.
– Remas, António? – perguntava o do leme. – Olha se a vês... – E apontava para Vésper, a estrela que mais brilhava.
Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcançar a estrela cujo brilho diamantino os fascinava. Tão linda!...
– Anda-me tu com o leme! – tornou-lhe com intimativa o Manuel. – Ai a estrelinha! Deixa que ela faz-se fina, mas havemos de passar-lhe adiante, só por isso...
– Olha o milagre! Ela está queda! – fez o outro, convencido da facilidade da empresa.
– Está queda, está queda, mas sempre na frente de nós! Vai lá entendê-la. Olha como brilha, ó António!
– Mas rema, que eu cá vou; falta pouco. Ao direito daquela fraga é que ela está.
Não era difícil passar-lhe adiante, qual era? Em menos de meia hora era certo alcançá-la.
E engastada no azul escuro do céu, a estrela parecia brilhar mais, quanto mais a olhavam.
– De que são feitas as estrelas? – perguntou o mais novito.
– De prata. Pois está visto!
Então o outro, lançando um amplo olhar à vastidão infinita do céu, exclamou:
– Eh! tanta prata!
– O sol, esse é d’oiro! – disse ainda o Manuel.
– Bem de ver! – volveu-lhe convencido o irmão. – Que eu, se me dessem à escolha, antes queria as estrelas! Olha que rebanho!
– Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais grande!
E enquanto falavam, os dois não desfitavam os olhos da estrela feiticeira que perseguiam. Os remos, no entanto, iam abrindo fenda na água, com certo ruído muito doce... E lá no alto céu, dir-se-ia que de instante para instante a feiticeira estrela mais brilhava, incitando-os.
– Vê-la a fazer assim? – e pôs-se a pestanejar, imitando a palpitação crebra e irregular da luz sideral.
– É que tem sono! – respondeu o outro a rir.
– Olha que não! Aquilo é a fazer-nos negaças, tamém to digo!
– Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo, bem se afoga... – E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir: – Eh, boieira!
Neste momento, uma estrela cadente abriu esteira de prata no azul, sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram em tom de reza as palavras rituais:
Deus te guie bem guiada,
Que no céu foste criada.
– Vês? – disse o Manuel, que era dos dois o mais supersticioso. – Torna a apontar para elas... Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos.
– A ti talharam-te o ar, ó Manuel!
– Diz a mãe! À meia-noite levaram-me à fonte e esparrinharam-me água para cima do corpo! E a água que havia de estar fria! – observou encolhendo os ombros. – Depois, viraram-me para as estrelas e disse então a mãe:
Ar vejo,
Lua vejo,
Estrelas vejo:
O mal do meu corpo
P’r’a trás das costas o despejo.
Riram muito. O Manuel despidinho, coiracho ao colo da mãe, havia de ser engraçado! E então todos de volta, a ver quando se talhava o ar!
– Mas talhou-se! Agora, em paga, uma vez por ano (ao menos uma vez por ano) tenho de olhar pelos ralos do lenço p’r’as cinco chagas, umas estrelas que além estão, e rezar uma ave-maria.
– Sempre, sempre?!
– Até que morra. Depois de morrer, diz que vou morar três dias com três noites dentro de uma.
– Ora! – tornou-lhe incrédulo o irmão. – Tu não cabias lá!
– Não sei! Assim é que anda nos livros!
...Mas os braços doíam já dos remos, doíam muito...
Devia ser tarde, e eles sem darem fé, enlevados como iam no desejo louco de alcançar a estrela.
A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um silêncio contínuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a água da corrente ia espumando na quilha, com certo ruído cada vez mais doce.
…Mas os braços já doíam mais!...
Agora, no céu, havia muitas estrelas brilhantes, muitas, mas nenhuma como aquela, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar menos para ela, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o peito, e as pálpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço.
…E os braços sempre a doerem!..
Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente, cortando-a com levíssimo ruído. Imobilizara-se também o cabo do leme, sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do súbito desleixo do outro.
…E os braços já não doíam, nem ao de leve sequer...
O pequeno barco vogava agora à mercê da corrente, sem impulso algum estranho. Dentro dele, a música levíssima das respirações dos dois pequenos adormecidos...
Algum tempo assim. Senão quando, um ruído surdo, e logo um movimento brusco de balanço, fez acordar o do leme.
Na grande alucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou imediatamente:
– Manuel! Ó Manuel!
O remador acordou, sobressaltado.
– A estrela? Ainda lá está, olha! – disse incoerente, estonteado pelo sono.
– Uma fraga de cada lado! Ouves o rio?! É já muito tarde! – continuou aflito o António.
– Então não lhe passamos adiante? – perguntou ingenuamente o Manuel, referindo-se ainda à estrela.
Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamá-lo à realidade, de novo lhe gritou, com lágrimas na voz:
– Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!
E, mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam num choro muito violento, agarrados um ao outro, feridos de um terrível susto que a hora e o lugar aumentavam angustiosamente. Parecia-lhes medonho aquele marulhar contínuo da corrente, afligia-os como se fosse o salmodiar monótono e rouco de uma legião de espíritos maus, preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os rochedos informes das margens afiguravam-se-lhes negros gigantes, que num requinte de malvada indiferença houvessem jurado assistir impassíveis e mudos à escura tragédia da sua desgraça.
E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem dali. Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguém viesse acudir-lhes, alguém que ouvisse de longe os seus gritos de aflição!
Transe crudelíssimo!
E então os braços continuavam a doer; doía-lhes agora o corpo todo, ao mesmo tempo que uma tristeza cada vez mais pesada lhes oprimia o espírito, parece que embrutecendo-os.
– Mas a estrela sempre além... – notou ainda o Manuel, balbuciante de medo, como se quisesse increpar a própria estrela da sua indiferença criminosa, no meio daquele enorme infortúnio em que por causa dela se haviam precipitado. – Se ela pudesse acudir-nos!
Até que por fim, prostrados de fadiga e das lágrimas, de novo se deixaram adormecer, era já alta noite.
Mas, na sua fúria constante, a corrente, que ali era muito forte, não cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que, após tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as águas se contorciam em remoinho, e entrou de girar com ele, violentamente. Quando a água se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de súbito acordados romperam em gritos lancinantes:
– Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale! Acudam! Acudam!
Tinha surgido a manhã, serena, tranquila, cheia de gorjeios e de azul. Mas como ninguém acudisse e a luta no rio fosse desigual, num repelão mais violento o pobre barco esfacelado investiu de proa com o abismo e lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no último paroxismo da sua enorme dor desesperada, os dois irmãozitos abraçados sumiram-se também com ele!...
*
...Nesse mesmo instante... – e mais longe do que nunca – ...a estrela feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!...
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas,Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 121-133.
António Fraldão
A Columbano Bordalo Pinheiro
Noite velha, saía o António Fraldão de casa da Alonsa, quando viu, a curta distância, escoar-se um vulto que parecia de gente.
O Fraldão saía à esconsa e por isso não se afirmou; – mas ainda que se afirmasse, provavelmente não conhecia quem era, pois já não havia luar àquela hora, e as estrelas, ao alto, esmoreciam. Demais, os dois seguiram em sentido contrário; ele a meter-se em casa, e o outro, se era gente, direito à cova dos castanheiros, onde se internaria na treva densa.
Aquilo, a princípio, não deu que pensar ao Fraldão; – mas ao chegar a casa pouco depois, no extremo oposto da pequena aldeia, já com a mão na aldraba da porta, suspeitou:
– Ora quem seria o melro?! Se teremos história?!...
Ainda lhe vieram, num ímpeto, ganas de voltar atrás, de farejar o rasto até dar com o vulto, algures, e de o obrigar, se fosse embuçado, a mostrar a cara. Mas presumindo que já o não encontrava, e nada suspeitoso, ainda, dos beijos da Alonsa e das suas juras, abriu a porta e foi-se para a cama – embora, lá no íntimo, arreliado...
Quando depois acendia a candeia, ao pé do catre, reparou que a mão lhe tremia; – e deitando-se, não havia maneira de pegar no sono, às voltas debaixo da manta.
– ...Está bonito, está! E esta?!
A mãe, que ficava num quarto contíguo, separado apenas por um tabique, ainda lhe perguntou de lá se estava doente, ou que é que tinha. Mas ele, respondendo que não tinha nada, parece que até na sua ouviu a voz da mentira, – e se mal estava pior ficou.
Agora, umas guinadas de impaciência picavam-no todo até à alma, e entrou, pouco a pouco, a cismar se seriam ciúmes...
– Ciúmes! – admirava-se ele. – Mas ciúmes de quem?
Considerando, aquilo não passava talvez de uma curiosidade, talvez de uma simples suspeita – curiosidade de conhecer o vulto, suspeita de ter sido conhecido, ele...
Mas logo a seguir tranquilizava-se:
– Agora! Tanto como eu o conheci também! E quem sabe até se não seria algum lobo... – aventava o Fraldão a ver se dormia.
Mas não dormia; e no quarto ao lado, aflita, a mãe pegava-se já a Nossa Senhora: – «Ave-Maria, cheia sois de graça, o Senhor é convosco...»
– Bem digo eu! – arriscou-se a viúva a dizer outra vez. – Ora queira Deus, António; queira Deus e Deus o queira, que te não dêem pela cabeça estas noitadas...
– Isso! – replicou o rapaz. – Agoure-me vossemecê agora, inda por cima!
Um galo cantou a distância, nalguma capoeira.
– Ouve, minha mãe? Deixe-me vossemecê dormir, que já cantam os galos.
Mas espantara-lhe o sono o cuidado que entrara com ele, – nem sabia de quê; e embora de olhos cerrados, e imóvel p'r amor da mãe, as ideias, agora, tomavam-lhe certo rumo, já fixo. – Aquilo com a Alonsa era ainda de fresco, e namoros, pelo visto, a rapariga não tinha nenhum. Ela mesmo lho havia jurado pouco antes mais uma vez, – e que tirante aquele que a perdera, e que depois a botara ao desprezo, não conhecera mais homem nenhum – nem queria. Boa moça, vivendo à jeira do seu trabalho, sozinha, parecia com efeito que gostava dele, a pobre da rapariga; – e de uma vez que lhe tinha falado em se casarem, fitou nele os seus grandes olhos negros, marejados de lágrimas, e com a cabeça disse-lhe que não.
– Não?! Mas se eu quiser? – perguntara ele.
– Não! Tu tens tua mãe.
– Mas minha mãe...
– Tua mãe precisa de ti.
E abraçando-se a ele e apertando-o, agora a chorar com alma, entregara-se-lhe dizendo assim:
– Deixa lá!
Gostava da rapariga desde então, só por isso; – e procurando-a de noite, às escondidas, era mais por lhe fazer a vontade a ela para que a publicidade dessas relações o não desairasse, do que por envolver estas em um mistério, que, por não ter de que se envergonhar, até lhe pesava! Casaria com ela, decerto, quando a demovesse ao casamento; – e essa objecção da mãe, com que ela, coitada, lhe viera mais uma vez ainda essa noite, a própria mãe acabava de o desfazer lá do seu cubículo, dizendo-lhe quando já luzia o buraco, e ao tempo a que todos os galos da vizinhança tagarelavam de longe uns com os outros:
– Olha, António! Se esses cuidados são o que eu penso...
Deteve-se...
– Que tem? – provocara o rapaz o resto da frase.
– Que tem?!... O melhor é casares-te!
Não respondeu.
*
Nesse mesmo dia, depois de cear com a mãe o caldo das versas, o António Fraldão deu-lhe as boas-noites, pegou no chapéu e ia a sair...
– Não te era melhor ires-te p'r' a cama, António?! – perguntou a viúva.
– Eu não me demoro, minha mãe. Deite-se vossemecê, que eu venho já.
Dirigia-se para a porta, mas a mãe ainda o admoestou que tivesse cuidado, – que os perigos donde quer surdiam...
– Não tem dúvida, minha mãe. Não se aflija.
E cerrando a porta atrás de si, achou-se, de repente, na rua escura. No céu, muito alto, luziam estrelas em cardumes, e não havia lua; e nas casas vizinhas, janelas e portas estavam fechadas, e a aldeia, prestes a adormecer, parecia deserta. Ladravam cães aqui e além, disseminados, de guarda às curraladas; e só das bandas do campo, embalando o dormir da paisagem, um ruído atenuado e doce, que era, àquela hora, a fusão do canto dos ralos, dos grilos e das cigarras, vinha, difuso, embriagar de sonho o silêncio das coisas...
Sublinhadas de luz, uma agora, outra logo, raras portas no interior da aldeia; e na taberna do Grincho, entreaberta, sob a fumaceira dos cigarros, que ondulava no ar como um nevoeiro, a mesa do jogo rodeada de gente.
Cortara a aldeia toda o António Fraldão, sem ser visto; e quando chegou à casa da Alonsa, a rapariga, que já o esperava fisgando a rua por uma frincha, abriu-lhe a porta e cerrou-a logo:
– Valha-me Deus, António! Tenho tanto medo que te veja alguém!
– E eu nenhum! Tem de se saber: pouco me importa!
E já defronte da rapariga, ajeitando-lhe o rosto para lhe ver os olhos, perguntou- -lhe se estava triste.
– Não... Triste porquê?!...
– Estás, isso estás!
– É modo meu, não estou...
Mas aos olhos da Alonsa, a desmenti-la, afloraram logo duas grandes lágrimas.
– Vês?! – tornou o Fraldão. – Bem digo eu! Estás a chorar. Eu não gosto de te ver chorar.
– Não! Pois não! – anuía ela enxugando os olhos. – Já não choro. Mas esta minha vida...
Sentou-a numa arca de pinho que havia ao pé; sentou-se ao lado dela; tomou-lhe as mãos.
– Mas anda cá, vem cá, sossega! – suplicava o rapaz. – Mas essa tua vida que é que tem?
– Ora!
– Ora quê, sossega!
Desafogava a Alonsa: – Inda o que lhe valia era o trabalho...
– Ao menos enquanto ando por lá, quer chova, quer neve, até parece que alivio penas!
Respirou muito fundo, mordeu o beiço para reprimir as lágrimas.
– Deixa lá, já te disse, não te aflijas! – continuava o António. – De hora a hora Deus melhora.
– Sim, sim... Mas o que lá vai...
Desdenhava o Fraldão, para a animar:
– Ora, o que lá vai! O que lá vai, lá vai! O que lá vai deixá-lo ir!
E fitando-a, a rir-se:
– És tu minha amiga?
– Sou.
– Muito?
– Muito. Não posso ser mais.
Mas aqui, sem querer, veio-lhe outro hausto; e escondendo a cara no avental, como envergonhada, entrou a chorar convulsamente.
– Maria, então?! Isso que é?! – procurava reprimi-la o rapaz. – Ouve! Escuta! Olha que eu zango-me!
– Não! Não! – repetiu ela com haustos.
– Sim! Mas sim! Ouve! O que tu queres dizer bem sei eu...
Rogava-lhe a Alonsa que se calasse, adivinhando no que lhe ia falar.
– Não, não, António! Tem piedade!
– Sim! Hei-de dizer! O outro!...
– Por alma de teu pai, António! – suplicava a Alonsa pondo as mãos.
– O outro, sim! O outro! – recalcava o Fraldão. – Mas queres então que te diga?
– Oh, não, não! Cala-te!
– Sim! Hei-de dizer! Vou dizer: – Tanto como ele valho eu agora!
Ela repeliu o avental, espantada:
– Tu?!
– Sim! Eu! Inda menos!
– Oh, António! – exclamou a Alonsa pondo as mãos. – Não digas isso, que pecas!
Mas ele, como a cravar-se um punhal, insistiu:
– Esse enganou-te, não é verdade? Disse que se casava con¬tigo e não se casou! Mas eu...
– Mas tu...?! – provocou a rapariga sem perceber.
O Fraldão desfechou:
– Eu... Foi um empurrão que te dei p’r’ a desgraça, arredando-te dele!
– Mas se foi ele que não quis casar, António! – objectou desvairada a rapariga.
– Foi! Mas agora, mulher de dois, mulher de cem! Deixasse-te eu estar como estavas, que o desonrado não eras tu!
Percebera, a Alonsa! E caiu num grande marasmo, que assustou o rapaz.
Para a reanimar, o Fraldão ameigou a voz e atraiu-a para ele:
– Ora mas anda cá! Vem cá! Não te aflijas! Vais-me falar então toda a verdade, prometes?!
Ela não respondeu, absorta...
– Prometes – disse por ela o Fraldão. – Olha então bem p’ra mim.
Ela fitou-o, serena.
– Responde! Tu inda gostas dele?!
Chisparam-lhe de ira os olhos acesos:
– Eu?!
– Então anda cá! Vem cá! – ameigou-a o António. – Pois se já tu vês que fui pior do que ele...
– Ó António!
- ...Perdoas-me?!...
– Perdoo!
– E casas-te comigo?
– Não! Isso não!
– Mas eu perdão só quero esse!
– Deixá-lo!
– Deixá-lo porquê?!
Desdenhando de si, a rapariga ergueu os ombros.
– Inda o perguntas, António!
Mas nisto, parece que no silêncio da rua, perto da porta, ouviram-se passos...
– Escuta... – disse o Fraldão.
– Não é ninguém! – conteve-o a Alonsa sobressaltada.
Mas o Fraldão, desconfiado, ficou em brasas, – lembrado do vulto da véspera.
Desviou-se, mediu-a. Agarrando-lhe os pulsos interpelou-a:
– Ouves?! Tu enganas-me!
Caiu de rojo a rapariga, fulminada:
– Por alma de minha mãe, António!
Mas ele repeliu o juramento:
– Não! Só dizendo que sim ao que te vou perguntar: – Casas-te comigo?
– Caso! – respondeu ela com energia.
Levantou-a num ímpeto o Fraldão, apertou-a contra o peito, despediu-se; – e carregando o chapéu até aos sobrolhos, apagada a luz por precaução, desandou a chave e saiu para a rua.
Cantavam os galos... Em casa, sentada ao lume quase apagado, a mãe de Fraldão desfiava o rosário, – rogando pelo filho a Nossa Senhora: – «Ave-Maria, cheia sois de graça, o Senhor é convosco...»
*
Já no escuro, cá fora, o Fraldão pôs-se a farejar como se fosse um lobo. – Sentira passos, não se enganava, e era o vulto da outra noite, com toda a certeza! Mas agora, rondando com o olhar à volta dele, – na treva imóvel e silenciosa, debaixo do céu melancólico onde as últimas estrelas já feneciam, nenhum vulto, nenhum ruído, lhe feriam a atenção. Contudo, esse ar frio que respirava, ia jurar que um hálito inimigo o empestava – de alguém por ali escondido, algures... Mas um exame atento e perscrutador, do ouvido principalmente, não lhe dava nada, e os olhos, inquietos em todas as direcções, como os dos lobos quando têm fome, continuavam a receber do escuro a mesma impressão de vazio – que o afligia e o exasperava!
– Ah cão! – regougava o rapaz. – Não te encontrar eu, que te comia os fígados! – Oh, mas havia de encontrá-lo! Fosse como fosse! Fosse onde fosse! No inferno! Sete braças abaixo do chão! Havia de topá-lo! Era o vulto da outra noite, não tinha que ver! –Era malandro que o espreitava!
– Pois a cova tenhas tu onde pões os pés, ladrão! Não se abrir a terra que te comesse, grande malvado!
E ao mesmo tempo que se não queria arredar para longe, e sondava o escuro, com pertinácia, na direcção da casa da Alonsa, vinham-lhe ganas de procurar mais lá, mais ao largo, por todas as bandas, de não deixar polegada que não perscrutasse, – de mexer e remexer com as unhas, sendo preciso, a própria terra onde tinha os pés!
– Cão do diabo! Cão tinhoso! Tão longe estejas tu do inferno, como estás de mim, – ladrão!
Agora, como os olhos se lhe iam habituando ao escuro, a exploração corria melhor; – e porque conhecia o terreno como as suas mãos, e caminhava por isso com segurança, procurou, sondou, farejou, – até se convencer que não havia ninguém.
– Sumiu-se! Um raio venha que o parta! Não dou com ele!
Mas de repente deu-lhe um palpite:
– Tate! Fugiu-me p’r’ a cova! Detrás dalgum castanheiro é que eu o topo!
E largando para lá como uma bala, pouco tardou que não lobrigasse um vulto que fugia, – e sentiu-lhe ainda o trupido dos pés.
– Eh cão! É agora! Já me não escapas, malandro!
Mas na dianteira que lhe levava o outro, de mais a mais correndo em declive, no mesmo instante perdeu-o de vista, – sumido, como que diluído, no escuro dos castanheiros!
– Ah ladrão! que era o último dia da tua vida! Mas acabou-se! Algum diabo tinhas por ti! Ah, malvado!
E apanhando do chão duas grandes pedras, ainda as arremessou, com fúria, ao seio do escuro. – Mas só ouviu ramalhar os castanheiros, o baque dos matacões caindo no solo, – e nada mais.
– Pronto! Foi-se! Alma do diabo! Não tinha de ser inda esta noite!
E desandou direito à aldeia, furioso.
– Amanhã! Deixa! Não as perdes! Eu te armarei a esparrela se voltares!
…Mas agora, regressando, só o preocupava saber quem seria o vulto, – de todo inclinado já, contra a Alonsa, à ideia de que o atraiçoava:
– …Oh, a grande magana!... Tinha outro!... Vão-se lá fiar!... A grande magana tinha outro!...
Defronte da porta da rapariga, parou, – imprecando de punhos cerrados:
– Ah traidora! Agora é que era matar-te! O que tu precisavas era morrer! Ah traidora!
E num repelão, desvairado, foi-se ao postigo e bateu.
– Se abre é porque o esperava, a desavergonhada! E capaz sou eu de a matar! Mato-a! Mato-me, acabou-se!
Mas de dentro não acudia resposta: tornou a bater. Senão quando, rente ao postigo, ouviu-se muito aflita a voz da Alonsa:
– Vai-te! Deixa-me! Não me persigas! Por alma de tua mãe tem dó de mim!
– Abre! – rugiu o Fraldão empurrando a porta.
– Não! Não! E se abres mato-me! – tornou de dentro a voz da Alonsa. – Vai-te! Bem bonda o que me fizeste! Vai-te!
– Oh! – regougou espantado o Fraldão. – «O que me fizeste...»
Percebera! Percebia tudo agora!... O vulto era então o José Cherugaço, o de Valdamadre... – e o malvado, depois de ter enganado a rapariga, e de andar por lá a enganar outras, voltava à mesma por desfastio, voltava à mesma por inveja! Era o costume, já se sabia! Oh, o grande malandro! Por isso – lembrava-se agora – quando o encontrara outro dia à Cruz da Carreira, caminho do Souto, o meliante se rira para ele de certo feitio, como se riem os lobos... Espreitava-o, o refinado patife! Estava ao facto de tudo! E era por inveja – ele conhecia-o! – era só por inveja, que voltava outra vez à porta da Alonsa, – a perseguir a rapariga e a desinquietá-la!...
– Oh, mas deixa!... Não as perdes!... Grande malandro, que as não perdes!...
E já distante, pois que deixara em paz a rapariga, a sua vontade foi ir-se dali até Valdamadre, – ajustar contas com esse ladrão!
– Vou! Atiro-me a ele, que o como vivo! – Mas parecendo-lhe aquilo uma surpresa, reconsiderou:
– Não! Há-de ser de dia! À luz do sol é que há-de ser!
E entrando em casa quase contente, o Fraldão fingiu ralhar com a mãe por o ter esperado, e pedindo-lhe a bênção foi-se para a cama.
– Vê lá se vens com frio, António! Aqui inda há umas brasas.
– Não, minha mãe! Não esteja vossemecê agastada! O que eu não queria era vê-la a pé. Vá-se vossemecê deitar, ande, e tenha paciência.
Dormiu o rapaz o resto da noite, de um sono pegado; e ao acordar de manhã para ir para o trabalho, antes do romper do sol, pareceu-lhe tudo aquilo um pesadelo – o que se passara na véspera!...
– Olha que tal, han?!... Como o diabo as arma, às vezes! – lembrava-se ele ainda aterrado.
No íntimo, porém, tirante esse ódio ao Cherugaço, o António Fraldão sentia-se bem; – e logo que o ouviu cantarolar, já levantado, – também a viúva ficou contente:
– Ora graças, António! – festejou ela muito alegre. – Graças que já te ouço cantar!
– Então, minha mãe! É que vi passarinho novo!...
– Ah! – fingiu a viúva que se admirava. – E bonito? – perguntou a rir com certa malícia.
– Mas sim! Muito!
Não insistiu a mãe do António, e o rapaz calou-se também; – mas quando se despediu para sair para o campo, a um olhar da mãe mais perscrutador o Fraldão começou-se a rir...
– Então?... – desafiou-o a viúva.
– Então quê, minha mãe? Não é nada! – disfarçou ele. – É cá uma coisa.
– Mas diz!...
Hesitou. Houve um silêncio...
– Pois digo, acabou-se! – condescendeu o rapaz. – Mas vossemecê há-de-me prometer primeiro que guarda segredo...
– Guardo! – prometeu ela.
Outra pausa...
– É que me está a parecer que vossemecê...
Quedou-se outra vez.
– Anda! Desembucha!
– ...Inda vai ter uma filha depois de velha!
Deu-lhe a mãe uma grande risada, fingindo que não percebia.
– Isso! A boas horas!... Está feito!
E como o filho já ia na rua, correu a dizer-lhe da porta:
– Ouves, António? – E ria-se muito. – Agora só se forem netos...
Já distante, o filho voltou-se para trás, também a rir:
– Ó minha mãe!... E se forem?...
*
Nessas manhãs de fim de Verão, quase outoniças, o sol, lá em cima, nasce muito pálido; e já faz frio. Mas esse mesmo «arzinho» agreste, muito puro, rarefeito pela grande altitude, tonificava o sangue do António Fraldão, que horas antes, por esses mesmos lugares, lhe subira à cabeça quase a escaldar.
As ideias, agora, vinham-lhe lúcidas e chilreantes, – alegres como essa passarada ligeira que por cima dele passava a cantar. Parecia-lhe o campo também mais claro, e mais alegre; – e certas árvores suas amigas, que já tinham conhecido de pequeno o avô dele, ouvia-as mesmo felicitá-lo, quando passava:
– Bons-dias, António! Do que tu te livraste! – Um poço aos pés – dizia-lhe um olmo – e tu por um triz a malhares lá dentro!...
– É verdade! É verdade! O demónio como quer as arma! Nosso Senhor nos livre de tentações!
– Bons-dias! Adeus!
– Adeus! Bons-dias!
E certo pombal por onde passou, todo caiado de branco, sorriu-lhe como um noivado:
– Adeus, António! Quando te casas?...
Ao Caminho Velho, saudando as raparigas que estavam na fonte, o Fraldão pôs-se a cantar:
Entre canas e caninhas
Água deve de nascer,
Menina que está na fonte,
Dê-me água, quero beber.
Elas agradeceram-lhe, a rir:
– Adeus, António! Adeus!
E como se estivesse no grupo a Aninhas do Souto, que além de ser muito linda era cantadeira, mandou-lhe esta – «só pra ela»:
Fechei na mão um sorriso
Da tua boca formosa,
Quando fui a abrir a mão
Tinha-a toda cor-de-rosa.
– Mas que linda, António! Mas que bonita! – agradeceu a Aninhas.
– Isso és tu! Bonita és tu! Linda como os amores! Adeus!
Mas um pouco adiante, ao saltar a ribeira por umas poldras, uma velha que estava a lavar interrogou-o:
– Ó António! Então tu diz que te casas?...
A pergunta surpreendeu-o...
– Eu, tia Claudina!?... – disfarçou o rapaz. – Isso sim! Tenho lá
minha mãe. Pró que eu ganho chegamos bem! Então tão cedo? – perguntou ele sem se deter.
– Os cueiros dos netos! Que remédio!...
Apreensivo, o Fraldão ia agora pensando:
– Aquilo seria bruxedo?!... Ou a tia Claudina estaria a mangar?!...
Mas à Cruz do Carlos, onde o caminho fazia uma encruzilhada para Valdamadre, conheceu, já lá adiante, seguindo pela ladeira que levava à aldeia, o filho do José do Cachão.
– Ó Valentim! – gritou-lhe de longe o António Fraldão.
– Que é? – respondeu o outro conhecendo-o logo.
– Tu vais pra Valdamadre?
– Vou!
– E és capaz de me fazer um favor?
– Até dois!
– Então – ouves?! – então diz-me lá a esse malandro do José Cherugaço...
– Ao pai ou ao filho?
– Ao filho! Diz-me lá a esse grande malandro, – diz-lhe lá! – que a primeira vez que o topo, seja onde for, que lhe hei-de arrombar com um pau a caixa dos miolos! Tão certo como haver uvas!
O outro quis voltar atrás.
– Não venhas, adeus! Diz-lhe lá isto que lho mando eu!
– Ó António! – chamou agora o José do Cachão.
– Que é?
– Então que demónio é isso?!
– Cá umas contas! Diz’-lho!
E o José Cherugaço, prevenido pouco depois, só retrucou ao José do Cachão:
– Deixa-o! Morto por isso estou eu!
*
Não tardou, pois, que os dois se encontrassem; mas nem o Fraldão procurou o Cherugaço, nem o Cherugaço, tão-pouco, buscou evitar o outro. Foi obra do acaso avistarem-se ambos no cabeço das eiras, num dia de feira; – e avistarem-se, o mesmo foi que irem um para o outro, lestos e de cabeça erguida. Já sabia o Cherugaço quem tinha pela frente; e porque o terreno o favorecia, e o inimigo era de respeito, tomou a ofensiva em vez de se defender, brandindo o pau contra o adversário. Errou o golpe, todavia; – e lesto como um gamo, o Fraldão, fazendo pé atrás, pôs a zenir no ar o pau de lódão, calculou, apontou, e atirando à cabeça do Cheru¬gaço, com toda a gana, acertou- -lhe, prostrou-o à primeira, –matou-o.
– Àq’ del-Rei! – Àq’ del-Rei! – Acudam!
Corria gente de todas as bandas, era um torvelinho à roda do morto. Atirando com o pau, o Fraldão, muito lívido, pedia aos que o rodeavam que o prendessem:
– Prendam-me! Prendam-me! Matei um homem! Sou um desgraçado! Prendam- -me! Prendam-me!
E atirando para diante com ambos os braços, aflito que metia horror, parecia oferecer já os pulsos às algemas, enquanto a feira, num alvoroço, se enovelava toda naquele lugar.
– Que é?!
– Que foi?!
– Quem mataram?!
– José! Não te vás pra lá meter, anda cá!
– António! Foge p'r' aqui, olha que te esmagam!
Eram as mães a gritar pelos filhos, mulheres pelos maridos: um berreiro e um alvoroço! E à tona desse vozeiro medonho, aqueles clamores que fazem as possessas, trágicos e arrepiados, ferozes como gritos de hienas: – «Ihh!...» Estava já preso o António Fraldão; e de jaqueta ao ombro, sem chapéu, seguia para a vila no meio dos cabos, atrás do regedor que abria caminho; – enquanto outros, tomando conta do morto, faziam círculo à roda do corpo, aguardando que viesse a justiça.
Mas passada a crise, entrava de comentar-se o acontecido, e já havia partidos: – Quem atacara primeiro fora o Cherugaço! – o Fraldão, defendendo-se, fizera o que outro faria! – Tal e qual! – Tal e qual!
– Mas eles já andavam de rixa!
– Deixá-lo! O que aqui se passou é que vale!
– O Fraldão tinha-o desafiado!
– Quem to disse?!
– Está-o ali a contar o José do Cachão!
– Recados! Sinal é que não foi traiçoeiro!
– Também o Cherugaço lhe mandou dizer que morto por isso estava ele!
– Ora aí está!
– Pois aí está! O rapaz não teve culpa!
– Não?!
– Não!
– Então assim se mata um homem?! – vociferou um de Valdamadre.
– Isso é outro caso! E se fosse o António que tivesse mor¬rido?! Ele não lhe atirou também à cabeça?!
– E primeiro!
– E primeiro, está visto!
– Se o não apanhou foi porque não pôde!
– E se o apanha era uma vez!
– Está visto! Defendeu-se! Outro qualquer fazia o mesmo!
A corrente, como levada impetuosa, era, pois, a favor do Fraldão; e quando se ouviu, daí a pouco, gritar uma mulher lancinantemente, e se soube que era a Alonsa, e porque chorava, o incidente acabou de voltar a feira a favor do rapaz, e já ninguém, ostensivamente, tomava o partido do morto.
– Coitada da Alonsa!
– Coitado do António!
– E se nós fôssemos tirá-lo aos cabos, ó rapazes?! – desafiou um. – Vamos nós tirá-lo aos cabos?!
– Pronto!
– É pra já! – anuíram uns poucos.
Mas um velho de Variz, que estava a cavalo para ver melhor, meteu-lhes à cara a cavalgadura, contendo-os:
– Alto! Juízo! – gritou ele imperativamente. – Vocês que é que vão fazer?!
– Arrede! – vociferaram muitos ao mesmo tempo. – Arrede!
– Não arredo! – teimou o velho de cima da égua. – Quem é aí que manda arredar?!
Rodearam-no, iam atirar-se a ele.
– Bem! Então agora é julgado! – increpou um com a boca a escumar-lhe. – E julgado, lá vai p'r' a África, condenado?!
– É assim?!
– É assim?!
– Vai o quê?! Vai o quê?! – clamaram uns poucos num crescendo. – Ao juiz que o condenasse fazia-se-lhe o mesmo!
– O mesmo! Pois está visto!
– Está visto! Fazia-se-lhe o mesmo!
– Morra!
– Morra!
O velho apeara-se, furioso:
– Morra quem?! grandes animais! Cuidam vocês então, seus burros, que há juiz que condene o rapaz?!
– Viva!
– Viva!
– Tem razão o tio José!
– Viva!
– Viva!
...Ao mesmo tempo que as grades do cancelão, abrindo-se e fechando-se logo, recluíam o rapaz em nome da lei, – e o Cherugaço, de ventre p’r’ o ar, continuava, estendido na feira, esperando que lhe fizessem a autópsia...
*
Não foi condenado, com efeito, o António Fraldão. Absolvido unanimemente, ao abraço que lhe deu a Alonsa à saída da audiência, com todos à roda a quererem abraçá- -lo, o Fraldão respondeu a chorar – beijando-a como uma criança! Tinham-se casado na cadeia, meses antes, – quando a mãe do Fraldão, coitada, receando pela sorte do filho, se tinha já consumido a chorar por ele – e a chorar por ele e a rezar, expelira, sem o ver, o último alento...
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas , Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 227-248.
Idílio Rústico
A Fialho de Almeida
Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele, era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas. Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo companhia aos novilhos. De onde em onde, galos madrugadores entoavam matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma estúrdia, a desoras…
Mas, passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela ladeira que levava ao rio, por um caminho em ziguezagues. Fulgiam no céu azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando a marcha se de novo ele se punha a caminhar.
Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro, que o eco levou para longe.
– Não gastes pólvora, António! – recomendou o pastor. – Ouviste?
E logo a voz do guardador:
– Madrugas hoje, Gonçalo!
– Pra que saibas! Cá um homem não tem medo!
– Está bem. Adeus!
– Saudinha.
A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham atitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra... Neste assomo de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços. De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens secas, onde algum réptil passasse vagaroso.
– Busca, Turco! – fazia-lhe o Gonçalo, que tinha medo às cobras. – Busca, valente!
À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se, mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de paciência, – reflectia o pastor, a quem abor¬reciam de morte os intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado, o Gonçalo desabafou: – Uff! até que enfim! – E pensava aliviado: – Nada mais fácil do que terem-me saído os lobos!...
Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda acidentada de rochedos informes, blocos medonhos por entre os quais no inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num descuido involuntário – simples remadela pouco a tempo, manobra menos segura de leme, ou impulso errado de vara.
E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo limitada a paisagem.
A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e manso, e sem o mínimo ruído.
Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também.
– Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada...
E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:
– Ora se será ela?...
Súbito, estremeceu. Ante o seu espiríto infantil perpassou, como um clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.
– Ai, se fosse a Rosária!... – disse consigo.
E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta.
«O rebanho parecia ser o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser outro que não a Rosária...» Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de con¬tente. Atirou ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica.
No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:
– Eh lá, Gonçalo, és?
O pastor desatou a rir.
– Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!
E logo a voz fresca da rapariga lembrou:
– Não te esqueceu a moda, rapaz!
– Isso esquece ela!... Ouviste, Rosária? – Se outra fosse que ma tivesse ensinado...
Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marme¬leiro para ir ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou:
– Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?
– Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p’r’as ovelhas. Han?
– Basta!
E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a pouco entrava, mais o rebanho, pela velha ponte mourisca, toda severa de construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, sil¬vas, ortigas bravas.
A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno orató¬rio ao Senhor Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que era como um talismã precioso para livrar de maiores desgraças – naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles caminhos escabrosos que eram um perigo constante para homens e animais.
Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual seguida do seu rebanho.
– Ora viva a Rosária! – disse o pastor muito alegre, parando defronte da cachopa.
– Bons-dias, Gonçalo! Então que ventos?
Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da feira dos Caniços.
– Por sinal que nem rez se vendeu! – lembrou o Gonçalo.
– Por sinal! – disse com pena a Rosária.
Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que a encontrava. – «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de sonhar! Nanja ele...»
– Mas se eu estive tão doente! – volveu triste a Rosária.
E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou:
– Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era mesmo lume, desde manhã até ao escurecer... Uma assim!
E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados, como agora tinha acontecido, – «tal e qual».
– Assim te Deus salve, ó Rosária! – atalhou rápido o pastor, a quem enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga.
– Assim; pois que dúvida? – tornou-lhe confiada a Rosária.
– Não! – disse agastado o Gonçalo. – Não hás-de dizer assim... Dize certo, hás-de jurar direito.
– Pois assim me Deus salve…
– Como é verdade... Dize, tudo, Rosária! – suplicava o pastor.
– Sim – volveu-lhe paciente a companheira – como é ver¬dade que sonhava que nos encontrávamos – concluiu por fim muito risonha.
E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também não a esquecera. – «Tanto é que tirava da frauta as cantigas todas que ela lhe tinha ensinado.»
– Lembras-te?
A Rosária fez que sim com a cabeça. E logo, batendo na frauta de sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:
– Saem daqui sem falhar uma! – E resoluto: Vá feito, Rosária, pede por boca!
A Rosária pediu então a Pastorinha.
– Eu é da que mais gosto – explicou. – É a mais linda.
E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a Pastorinha, enquanto a Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra:
Onde vás, ó pastorinha,
Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé...
– Sabes essa! É mesmo assim! – disse-lhe a Rosária a rir-se.
– É como vês! – afirmou contente o Gonçalo.
Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois reba¬nhos, confundidos, andavam na pastagem.
– Olha as ovelhas juntas! – notou o Gonçalo.
– Também nós nos quedámos juntos, – volveu-lhe a pequena, sorrindo. – As pobres dão-se bem, são amigas... – continuou com júbilo.
– E nós também, ora também, Rosária?
– Também – respondeu afoita a pastora.
E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias.
*
A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela de alva fenecera por fim, e o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam despertar tudo: a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena, tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de asas – passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre renques verdejantes, gente em mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos, viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e berrando-lhes cada chó! que se ouvia na outra ladeira. Já nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a ave-marias. Nas quintas e casais fumegavam os tectos, dizendo horas de almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante, no céu imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores e continuavam conversa.
Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a Rosária...
– Mas o cabelo assim cortado... – disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça nua, e passando a mão pela dele – é que te não fica bem!
«Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças! Negras, de mais a mais, que era como ele gostava...»
– Promessa da mãe se eu melhorasse – explicou a Rosária. – Lembranças... A gente quando está aflita...
– Quando está aflita... – repetiu como um eco o pequeno. E depois, amuado: – Se te promete os olhos...
A rapariga fitou-o, espantada.
- ...é porque tos tirava! – concluiu convicto.
Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.
– Não falas, Rosária? – perguntou o pastor sem levantar os olhos para ela.
– Também tu... – começou com medo a pequena, – logo te zangas! Olhem a lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo! – E depois animando-se: – Já foste à Senhora dos Remédios?
O Gonçalo fez sinal que não tinha ido.
– Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. Num prego ao lado do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.
O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E para acabar com ela:
– Que enfim como melhoraste... – fez que concordava, pondo o bilro a girar. – Olha como dança... – E depois, mais pensativo, batendo com o bilro nos dentes:
– Que às vezes as promessas pouco valem... – E interrompendo: – Sabes quem fez este bilro?
– Foste tu, aposto!
Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lho orgulhoso – «que visse os torneados». Depois continuou:
– Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os santos! – Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem rezou e bem promessas fez, mas ela foi-se.
E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.
– Aquela ovelha, a branca, não vês? A que se vai agora deitar... Pois era para Nossa Senhora, repara que é a melhor. – E deitando-se para trás: – Lá anda ela a pastar! – concluiu desalentado. – Mas tinha de ser – volveu-lhe triste a Rosaria, – que as promessas sempre fazem, lá isso...
E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ângulo tocando-se com os joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosária ia entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia, firme na sua objecção:
– Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!
*
À medida que o sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois conduzindo as ovelhas para os sítios mais ensombrados, para se livrarem da estiagem, que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais, depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que nada: os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas.
– Olha lá não caiam! – tinha dito o Gonçalo, já cansado de estar à espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo. – Se eles fossem tolos...
E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demónio os pássaros. Ela então propôs que jogassem a pocinha.
– E o fito, ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro, aos domingos à tarde, bato-me com qualquer, sabias?
E generoso:
– Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta...
Como o tempo rendia, jogaram tudo – a pocinha, o fito, as necas, a bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia à mão, era ele que ia buscar o pauzinho, quando zenia para longe.
– Turco, traze cá.
No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céu esmorecia no seu azul suavíssimo. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno, e já começava para poente a decoração fantástica do ocaso. Parece que se ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio; já não faiscava assim tão viva a areia branca das margens.
Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se che¬gando, mais as ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os olhos negros da Rosária, disse-lhe assim:
– Mas olha o que prometeste... Inda vais feita no que disseste?
«Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas
tinham andado juntas todo o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?» – E o mais, ó Rosária? – perguntou de novo com interesse.
A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar, respondeu:
– Também. – E sorriu-se. – Pois eu...
Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o sinal de partida, assobiando aos cães.
Daí a pouco, estavam de marcha para o curral. Quando passavam a velha ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo areal a sombra dos três arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada tremeluzia, tirando à água a sua translucidez normal.
– É bonito! – fez notar o pastor.
A Rosária explicou logo:
– São as mouras a caçar com redes de oiro, sabias?
Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam à flor da corrente as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da chata que vogava serenamente, a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista, enquanto o pai, em mangas de camisa, de pé num topo de fraga, lhes ia ensinando as manobras. Ao fundo, três vitelos passavam o rio a vau, muito devagar, parando a espa¬ços, alongando o pescoço para a veia de água serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o guardador can¬tarolava, acenando com o chapéu ao moleiro – «Boas-tardes! Boas- -tardes!» Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos carregados, tilintando campainhas.
– Adeus, pequenos! – cumprimentou.
– Venha com Deus! – tornaram-lhe ambos.
E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas; confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente, o Gonçalo ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. O brando rumor dos chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a música, fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingénuo de balada...
Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, colocando na sua frente a Rosária, e pondo-lhe à cara a flauta, na direcção em que devia olhar:
– Vês além?... Neste direito? Resvés do castanheiro, não enxergas?
A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:
– Então é ali?
– Ali mesmo – volveu-lhe já de marcha.
E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapa¬riga, repetiu-lhe muito contente:
– É mesmo além.
Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espaço que as ovelhas tinham de ocupar essa noi¬te.
– Falta pouco. A gente vai pelo atalho, que é só mau para quem passa a cavalo.
E como ele ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quis então saber:
– Estás triste, ó Rosária?
– Triste… não… Já agora... tem de ser – volveu-lhe cabisbaixa.
– Huum! Arrependeu-se... – volveu consigo o pastor.
*
Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para dentro e toca a merendar; o que era de um era de outro: ele ainda trazia azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem: estavam moídos da soalheira de todo o dia, e da caminhada agora.
Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deita¬ram sobre o colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de toda a noite, e formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul indefinido do céu.
– E os lobos? – perguntou a Rosária com medo.
– Não há perigo – tranquilizou-a o Gonçalo. – Isso é lá com os cães.
*
Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a música triste dos chocalhos. A ladrar, os cães faziam eco. O rebanho devia dormir profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo, num ciciar brando de vozes, até que por fim, venci¬dos da fadiga, se deixaram adormecer – quando a história das mouras encantadas ia no seu melhor episódio...
E lá no alto céu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde não era nem mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas crianças...
Quando ao repontar da manhã se levantaram, e saíram a ver o céu...
– Bonito dia, Gonçalo!
– Bonito dia, Rosária! Olha...
…na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando... voando...
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 7-21.
Luzia
Mesmo ao fundo da povoação, ficava, parece que já esquecida, a casita do António Valente. Pela porta dele não se fazia caminho para banda nenhuma. A aldeia acabava ali. Começava logo adiante, numa pequena chapada sem parapeito, esse terreno ladeiroso que ia dar ao rio, e da banda de lá do rio – tudo aquilo era já Espanha: largos e compridos vinhedos que pela Primavera entravam de revestir de verde todos aqueles montes e cabeços, – montes e cabeços que além, à borda do rio, estacavam, de repente, eriçando-se, imóveis, em fragaredos escalvados de meter medo.
Dir-se-ia, pois, com efeito, esquecida já para aquele deslado a casita do jornaleiro, mas ficava, como vêem, muito bem situada, porque de mais a mais era vizinha de uma pequena ermida – a ermidinha branca da Senhora das Graças – que devia, vista de lá, sorrir-se para os espanhóis, como sorria aos portugueses, especialmente ao António Valente quando aos domingos assomava à janelita, essa linda capelinha da Senhora chamada del Pilar, que alvejava naquele grande trono de verdura, além, debaixo do céu azul.
O António Valente era ainda novo, e tinha dois filhos muito bonitos e ambos muito louros: a Maria da Graça, a mais velhinha, que fizera sete anos, e então o Manuel, que tinha seis. Sete anos e nove meses tinha ele de casado com a Luzia, a mais linda, a mais alegre rapariga das que no Verão arranchavam nas vindimas. Namorara-o o seu lindo cabelo preto, o seu rosto de nazarena, aquele seu ar esbelto de choupo, os belos olhos da rapariga, que lhe lembravam duas amêndoas grandes no feitio, – e então certa covinha que fazia na sua linda face trigueira, quando se ria, aquele demonete...
– Ora aí está uma covinha em que eu gostava de enterrar beijos! – dissera-lhe uma vez, também a rir, esse mocetão do António Valente.
Ela respondera-lhe, fingindo uma grande surpresa:
– Gostavas?!...
– E esses dentes, ó Luzia! Queres-me tu dar uma dentada com esses dentinhos?
– Isso não, rapaz! Preto por preto, está em primeiro lugar o pão centeio!
– Ah, marota!
A esse tempo, a Luzia era órfã de pai e mãe, e não tinha irmãos. – «Sou como o sargacinho do monte!» dizia ela às vezes. – Pensava em se casar? Pensava. Mas não era «para se arrumar»; que muitas vezes dizia ela que «enquanto Deus lhe desse saúde, e força naqueles braços...» – «Esconde lá isso, rapariga! Ora para que hás-de tu estar a arregaçar os braços se mos não atas aqui ao pescoço!» dissera-lhe de outra vez o António Valente – ...que enquanto Deus lhe desse saúde e força naqueles braços, não era ela que caía nessa, – a não ser, já se vê, acrescentava fazendo a covinha, que lhe desse o demo na cabeça para gostar para aí de algum feiarrão...
Certa vez, o António Valente, que já andava aflito de lhe ouvir a conversa, volvera-lhe:
– Ouves, Luzia? Mas para te livrares desse perigo, aqui estou eu que sou bem guapo!
– Tu?! – perguntara ela muito estranha.
E o António redarguiu-lhe logo:
– Olha lá agora se me enjeitas, ó cachopa!
Estavam a cear, por sinal. Tinham andado à azeitona todo o santo dia, e estavam a cear, de ranchada, em casa do amo. Prosse¬guiu a conversa em grande galhofa enquanto durou o caldo, e enquanto, depois do caldo, comeram as batatas guisadas. Era na cozinha, a grande cozinha escura do lavrador, – com o lume a arder além, o armário acantoado acolá, ali a cantareira, além a boca do forno, a masseira logo ao pé, a banca daquela banda, onde a moça, mais a ama, despachavam as refeições, e em cima, pingando, as varas do fumeiro. A um lado, ao pé da porta que dava saída para o quintal, as azeitoneiras comiam, alumiadas por uma candeia.
Ao lume, escarranchado, estava o amo, a regalar-se de os ouvir, e de ouvir ferver a panela. E por que não esmorecesse a conversa, meteu de lá também a sua «foiçada», enquanto, enxo¬tando o gato dorminhoco, ajeitava com as tenazes um tição:
– Quem há-de casar com a Luzia bem eu sei...
– Quem?! Quem?! Ó Sr. António, diga lá quem! – acudiram logo em coro as azeitoneiras.
Mas ele, desviando a conversa:
– Ó Ana! Ó mulher dos meus pecados! Não me tirarás de cima do lume esta amaldiçoada caldeira?!
– Mas quem, ó Sr. António?! Diga lá quem! – insistiram as outras.
– Isso agora... Ó Ana, olha que esta vianda já está farta de ferver. Tira para lá a caldeira!
– Então não diz, ó Sr. António?!
– Não! É segredo. – E voltando-se para trás: – Se não tiras a caldeira, tiro-a eu!
– Mas ora o que te aflige a caldeira! – disse zangada a Sr.ª Ana, pegando-lhe pela asa e levando-a, num rompante.
– Bem. Agora venha de lá o caldo, que eu também sou filho de Deus.
– Não! Não! Mas antes, há-de dizer quem é o derriço da Luzia! – impetravam de lá os outros todos. – Diga, ó Sr. António! A gente guardamos segredo!
– Isso guardam vocês, olha quem! Ó Ana, mas vem esse caldo ou não vem esse caldo?!
– Jesus! Santo nome de Jesus! – exclamava aflita a Sr.a Ana.
– ...Porque enfim, rapazes, há coisas que são segredo – desculpou-se o lavrador. E dando uma palmada – pá! – no lombo gordo do maltês, que vinha, lambareiro, fariscar a panelinha dos petiscos: – Só se a Luzia deixar...
A Luzia, que o percebera, acudiu de lá contendo a risa, – e, levantando no ar o garfo de ferro, suplicou:
– Não diga, ó Sr. António! Pelas suas alminhas não diga! Peço-lhe eu que não diga!
Foi um alvoroço na cozinha, todos a pedirem-lhe que dissesse! Mas a voz fina de Luzia trepava mais alto que as mais:
– Não diga, ó Sr. António! Sempre quero ver agora se é meu amigo!
– Já vocês vêem... – rematou o lavrador desculpando-se. Mas fingindo logo que se arrependera, emendou: – E tu que é que me dás se eu me calar?!
– Olhem o interesseiro! Eu só se lhe der este anel...
– Valeu! Mas ele de que é o anel?
– É de coralina, quer?
– Não! Só se me deres um beijo!
Foi uma risota.
– Ó Luzia, vai-lhe ali dar um beijo! – acudiu logo, chamando-lhe tolo, a Sr.ª Ana. – Ora o grande tolo!...
– Pois então, ó mulher de juízo, dá-me cá tu o caldo! Não se envergonha de ter aqui o seu homem a morrer de fome!
– ...De fome de beijos, ó Sr. António! – acudiu de lá a Luzia, a rir.
– Ah, grande magana! – disse o lavrador repreendendo-a. – Ora mas é mesmo p’r amor disso...
– Diga! Diga! – clamaram em coro as azeitoneiras.
– ...é mesmo p’r amor disso – continuou o lavrador, – que vou chimpar aqui com quem te tu casas!
E erguendo-se a meio corpo, já com o caldo em uma das mãos, na outra o carolo de pão centeio, começou, voltado para o rancho suspenso:
– A Luzia... – e pisou sem querer o rabo do cão, arredando-o com a ponta do pé. – Vai-te!
– A Luzia... – repetiram todos.
– ...Casa-se com o porqueiro!
Foi uma assuada! Trinta vozes clamaram ao mesmo tempo:
– Casas-te co’ o porqueiro! Casas-te co’ o porqueiro!
O porqueiro era um muito feio, gago e aleijadinho, que estava a comer a um canto do escano.
Perguntaram-lhe:
– Ele é verdade, ó Luís?!
– Quem tera! – acudiu muito contente, soprando a garfada fumegante, o pobre do Luís. E fungou uma risadinha...
– Gostavas, ó Luís? – perguntou-lhe de lá o António Valente.
– To... tava! – disse o gago.
– Tam’ém eu!
Fora então que a Luzia, já de pé para se ir embora, no meio de alguns que se despediam – «Boas-noites, Sr. António! Muito boas-noites, Sr.ª Ana!» – dissera outra vez a sua «história»: – que «enquanto Deus lhe desse saúde, e força naqueles braços...» – acabando por os seus receios de que viesse enfim a dar-lhe volta ao miolo algum feiarrão – «inda mais feiarrão do que o Luís!»
– Olha que já esta noite disseste isso, ó Luzia! – tornara-lhe a rir o António Valente, anediando com a manga o chapéu grosso.
– E tu que tens com isso? – perguntara-lhe ela fingindo-se zangada.
– Tenho! – acudiu o António. – É que se me não dava de casar contigo. – E abalou, acto contínuo, direito à escada. – Com bem passem a noite. Adeus, Luzia!
Não rira desta vez, a Luzia, nem tão-pouco lhe acudiu o remoque...
– Ouves? – chamou ela, sem saber o que ia dizer.
– Que é? – respondeu, já do fundo da escada, a voz do António Valente.
– Não é nada... Era cá uma coisa. Já não é nada.
Mas o lavrador, que percebera, voltou-se logo para a Sr.ª Ana, e disse-lhe assim, de velhaco:
– Sabes que mais, ó mulher? Olha se me vais arejando a roupa sécia, que há-de ser precisa pra um casamento...
Atirando o chaile para a cabeça, a Luzia botara a correr para a escada, sem dizer palavra.
– Então boas-noites, ó rapariga! Vê lá agora se cais...
– Ah, não caio... – respondera ela de certa maneira.
– Não é isso! Que não vás cair que me quebres a escada! – explicou o lavrador alçando a voz, e desfechando-lhe uma gargalhada!
Enfim, enfim, caso é que daí a menos de um ano, à missa do dia, o bom do senhor Reitor dizia assim ao lavabo, com uma grande chapada de sol a bater-lhe na casula branca:
– Na forma do Sagrado Concílio Tridentino...
Pausa.
– Ora mal sabem vocês quem se vai casar! – pareciam dizer no altar-mor, a rir, os lindos santinhos cheios de flores.
E o povo parecia perguntar, escutando:
– Quem será? Quem será?
...e pelo favor de Deus e da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana, querem contrair o Santo Sacramento do Matrimónio que pretendem...
Eram, já se vê, os proclames do António Valente mais da Luzia. Disse-lhes os nomes dos pais, disse-lhes os nomes dos avós, o senhor Reitor: – «todos desta freguesia». Riam, os santinhos: – «Todos desta freguesia!» Sorriam-se cá baixo os do povo:
– Pois vão bem! Pois vão muito bem!
E o senhor Reitor, cheio de sol, fazendo ao alto do papel dos «banhos» um rasgãozinho, para se lembrar que era aquele o primeiro pregão, concluía, cheio de sol, na sagrada forma do estilo, mirando ao alto uma andorinha, que viera também à missa:
– Se alguém souber dalgum impedimento pelo qual os contraentes deixem de receber o Santo Sacramento do Matrimónio que pretendem, debaixo de pena de excomunhão maior o descubram, e debaixo da mesma pena maliciosamente o não embaracem.
Ora, ora! pelo contrário!... Impedimentos não os havia de casta nenhuma, e todos levavam muito em gosto, na freguesia, o casamento: – os santos, o povo, as árvores, as andorinhas... E do mais velho ao mais novo, estou em dizer que não houve ninguém que nos três domingos dos «parabéns» não provasse a rica «pinguinha», e ninguém, dos quarenta para baixo, que na boda não desse à perna – trup-trup! trup-trup! – nesse lindo dia de sol...
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 157-16
Mãe!
Ao Dr. J. C. da Mota Prego
Bela cabra, a Ruça! – posso dizê-lo aos senhores. A melhor da manada, luzida e de pêlo macio, sem saliências de ossos como as outras, altiva de porte quando à frente do rebanho parecia comandá-lo, badalando cadencialmente o seu chocalho enorme – tlão! tlão! Era no rebanho a que mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilâncias particulares no seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia árvore a que não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.
E depois, ali onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas vezes iludira ela a atenção do pastor, e se ficara por hortas e quintalórios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro. Por isso Alípio José, pastor a quem doíam as denúncias, ao pescoço da Ruça prendera o chocalhão, para dar do atrevido ani¬mal mais fácil rumor, pois era de timbre muito distinto dos demais, e muito mais grave.
Em pastagem pelos montados, a Ruça era de uma audácia extrema. Fazia gosto vê-la trepar às últimas cumiadas, subir des¬temidamente às arestas superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas, pescoço alto, ajoelhando destemida a retouçar as ervas dos declives alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com abismos, enquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e córregos, saboreando as giestas, sem se atreverem a segui-la nas suas excursões arriscadas de touriste.
Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores
audácias, e então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que encontrasse por essas paragens era para ela um desespero – tamanha a fúria com que a perseguia, e a insis¬tência com que se ficava às marradas na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o Alípio, que dormia à sombra das azinheiras, de chapéu sobre a cara, levantava-se sobre um cotovelo e intimava para o alto, com o seu vozeirão que fazia eco: – Toma tento, Ruça!
E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotove¬los fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alípio José ficava-se a olhar a cabra, invejoso daquela facilidade em subir aos últimos pináculos, admirado dos saltos que ela fazia para sal¬var gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caísse, a morte seria infalível. E por lá andava dias inteiros a Ruça, naquela vagabundagem por sítios inacessíveis ao resto do rebanho, resguardando-se da chuva em recôncavos de rocha, onde as águias faziam ninho.
*
Foi num desses sítios que a Ruça teve o primeiro filho, por lá se deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia quis ela descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem vezes, fitando o topo da ladeira, Alípio José gritara cá de baixo, cada vez mais desesperado:
– Volta ao rebanho, Ruça!
E cuidando que mais lhe feria assim a atenção, punha-se a agitar com fúria o molho dos chocalhos, gritando sem cessar:
– Ruça! Torna ao rebanho, Ruça!
Mas impossível! que a não deixava a quebreira em que toda ela ficara do parto, nem o pequeno poderia – pobrezinho! – descer por tais ladeiras, de pedregosas e ásperas que eram.
Mas de noite o frio era intenso naquelas alturas, e o filho congelava unindo-se à mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o aconchegava mais e mais para lhe transmitir o natural calor do seu corpo enfraquecido e doente.
Por altas horas da noite, na solidão lúgubre daquele sitio, alcantilado e íngreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava lugubremente, num como choro dolente e prolongado, o balido da mãe, traduzindo angústias e desesperos íntimos, res¬pondia ao vagido fraco do filhinho, cuja vida parecia ir-se apa¬gando de hora a hora e instante a instante, inteiriçando-se-lhe, com o frio, os membros delicados e tenros.
Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por tais frios e doenças, impossível dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e mais num como abraço de eterna despedida – amigos que se iam apartar para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade, soluçando e gemendo, num adeus! que era infinito, como o infinito amor que os unia...
E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava lugubremente, assustando o animalzinho, como se aquele fora o sinal para o transe derradeiro...
Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abóbada, as estrelas bocejavam dormentes, numa criminosa indi¬ferença por aquela dor suprema de que eram as únicas testemunhas.
E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céu a vida do filho ao menos, – ora súplice em balidos de resignação que uma profundíssima dor ungia, ora desvairada e louca, em gritos que significavam blasfémias – blasfémias de desespero contra o céu que a não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe estrangular o filhinho que ela amava tanto.
E a fazer-lhe mais viva a sua enorme dor – a ironia acerba da chocalhada longínqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra banda, deixando-a a ela só com o filho, à espera da morte que era inevitável.
Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pes¬coço, e pelo ar fora o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, num – adeus! adeus! – de despedida às companheiras felizes que lá iam, num ruído longínquo de chocalhos...
*
Naquela solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam e o sangue circulava.
E o animalzinho sem poder ainda descer!...
De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compun¬gidos para as escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvai¬rada e trémula, como que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas horríveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio, lá baixo, rugia nas cachoeiras, aumentando- -lhe o receio.
Impossível! Impossível!
E sentia-se enfraquecer à míngua de sustento, pois a erva, por ali, estava comida e recomida pela pastagem miserável de três dias.
Num momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes e crebros, refez-se de coragem a cabra, e, segurando entre os dentes o filho, tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito, assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e trémulo...
Impossível! Impossível!
Nada que signifique a dor daquela mãe, e traduzir possa em linguagem toda a gama de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia, estendido para ali, na prostração pesada do último desalento; animava-o com carícias, aproximava-lhe da boca os úberes já flácidos e amolentados, convidando-o a mamar, como se aquele leite pudesse levar ao filho a coragem que a ela própria faltava em tamanho transe aflitivo...
Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a última cambiante do poente e sobre as gargantas dos montes pas¬savam subtilmente as primeiras névoas, alvadias e ténues. À medida que a treva se condensava, decresciam os ruídos em todo o horizonte, acentuando-se cada vez mais a melopeia sonolenta do rio nos açudes.
Perpassavam pelo ar as aves para os ninhos. Ban¬dos de pombas, como flocos voláteis de arminho, cortavam em voos mansos a profundidade calma do céu, demandando os pombais e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo. Revoadas de perdizes e de tordos passavam por ali alegremente, num chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos estevais e nas urzes. Pelas ervagens secas raste¬javam apressados os répteis, e sob os tojais bravios a lebre buscava a cama...
…E tudo tinha ninho – pombas que voavam e perdizada sonora, quem passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda a colónia vagabunda de répteis e de aves, que passou alegremente o seu dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia amanhã...
Só a desgraçada cabra, ali, junto do filho tenro, não mais fizera passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração alanceado de mãe. Aí vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho... – o filho que já tremia a ela aconchegado – o triste pobrezinho!
Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante naquele silêncio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céu era baixo e torvo de nuvens. Estrelejava a espaços a abóbada, irradiando uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em últimos transes de crianças, em que a vida gradualmente se extin¬guisse, num latejar vagaroso de pálpebras sonolentas...
Mais álgida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva aparência da atmosfera e do céu. Noite pior do que as outras, porém com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenua¬dos de forças e nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancá-los do abraço em que se uniram, mal cerrara a noite!
A pequena distância, o monte era cortado de profundíssima garganta em rocha viva. Do lado oposto, e quase defronte dos moribundos, acenderam-se na treva dois pontos fosforescentes, de uma claridade esverdeada e rútila. E, imóveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a que parecia terem arrancado as pálpebras, projectavam a sua luz sinistra na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retraía-se num como pavor medonho, concen¬trado de íntimos terrores e silêncios lôbregos de horas altas. Cerrava- -se mais no céu a falange muda das nuvens, densificando-se em tintas negras, impenetráveis e caliginosas, sem cintilas de estrelas, por fugidias e ténues que fossem...
E sempre, e constantemente imóveis na escuridão pesada, aqueles dois olhos flamejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a treva na direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando convulsamente no último paroxismo da sua enorme dor, a pobre mãe não ousava arriscar um único movi¬mento, e mais e mais cerrava contra si o corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.
Assim durante horas que aquele atrocíssimo suplício fez enormes, quase eternas, tumultuosas de acerbos sofrimentos e de indizíveis angústias, vazias de esperança na vida do seu pequenino filho.
De repente, aqueles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distância. Estremeceu a pobre de súbita alegria, – e no abalo que sofreu o seu corpo, até então retraído, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleópteros de asas fosforescentes, os olhos até então imó¬veis do inimigo. E por ali levou a noite toda, farejando e uivando, até que, cansado de perscrutar o insondável, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada que vinha, docemente, alu¬miando píncaros e arestas.
*
Ao romper d’alva o céu era azul. Apenas de longe em longe penachos de nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando, diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações imperceptíveis e suaves.
Começavam de animar-se os longes da paisagem, e a retina acusava já as diferenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados de restolhos, tons pardos de olivais, terras plantadas de vinhedo, e pinheirais cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céu nos altos dos montados.
Pelas ladeiras de além, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao areal da margem. Em turbilhões de espuma alvíssima precipitava-se a água nos açudes marulhando nos altos penedos marginais, denegridos e informes, de uma mudez contemplativa e perpétua. Do tecto do moinho, lá em baixo, uma coluna azulada de fumo elevava-se tranquilamente no ar sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma ambição ou como um sonho...
*
Foi então que Alípio José, à frente do rebanho, de novo abordou àquelas paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.
– Ruça! Torna ao rebanho, Ruça!
Mas precisamente a essa hora, a Ruça exalava o último alento, pendida sobre o cadáver do pobre filhinho morto!...
E ao pino do meio-dia, quando o sol faiscava causticando nos rochedos – passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a esfaimada legião dos amaldiçoados corvos...
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 135-142.
Manhã Bendita
A António Correia de Oliveira
Em casa do José Grilo, quando de manhãzinha lhe bateram à porta – «Truz, truz, truz!» – acordaram todos sobressaltados: – «Quem demónio seria?!...»
– Schiu! Nem pio! – fez o José Grilo para a mulher. – Moita carrasco!
Mas de fora tornaram a bater: – «truz, truz, truz!»
Do seu cubículo, a Ana, filha do José Grilo, pôs-se de lá a chamar pelo pai:
– Ó meu pai! Vossemecê não ouve bater?
– Bem ouço, deixa! Algum bruto que se quer divertir. Isto é Entrudo.
Mas ainda outra vez bateram à porta, agora com força.
– Arre, bruto! – gritou então o José Grilo. – Vá bater ao diabo que o leve, ou com a cabeça às grades do inferno! Arre, bruto!
Mas pondo-se à coca de orelha fita, os olhos na telha vã do casebre, sentiu passos de alguém que fugia.
– Bem digo eu! É bruto! Aquilo foi animal que se quis divertir!
Mas palavras não eram ditas, o José Grilo pôs-se outra vez à escuta, e disse para a mulher:
– Não ouves, ó Joana...?
– Não...
– Um cachorrinho... Mesmo à porta... – E como quem lhe palpita que acertou, emendou logo: – Tate! Isto é volta de zorro!
– Volta de quê?!
– De zorro! Queres tu apostar que há novidade?!
E de um pulo saltou da cama, atirou com a manta para cima das costas, – e abriu a porta.
– Ele que dianho...?! – perguntou o José Grilo vendo um embrulho.
Era um embrulho de trapos.
– ...Ele que demónio de embrulho...?!
Pegou-lhe. Não pesava nada. Mas era efectivamente um recém-nascido, envolto nuns trapos velhos.
– Ó mulher! – pôs-se o José Grilo logo a chamar. – Ó Ana!
Mas ele próprio veio a correr onde à mulher:
– Deixa! Deixa! Abre aí um cantinho da cama, pra este inocente!
– Pra este quê?
– Pra este inocente! Está mesmo morto com frio!
Mas a filha acorrera também.
– Uma criaturinha de Deus, vede!
E já o José Grilo a ajeitava na cama, envolta ainda nos seus trapinhos; e enquanto a mãe enfiava o saiote, bafejava a filha, muito solícita, a criancinha:
– Coitadinho! Parece mesmo um novelinho! Tão pequenino e tão bonito! – Ó minha mãe!
Mas a mãe, silenciosa, acabava de se vestir, e o José Grilo já enfiava a jaqueta.
– Ouves?! – acudiu ele para a filha. – Despacha-te! Ele quem há por aí que tenha leite? A filha do António das Veredas, essa. A Brites, que lhe morreu o cachopo! Acode já para que venha cá! Despacha-te!
– A pressa... – resmungou a Sr.ª Joana.
E o José Grilo, inda sem perceber:
– Nada! Deixa-se agora p’r’ aí a criança, a morrer de fome!
E da porta, gritando para a rapariga que ia correndo:
– Ouves?! Que se não demore! Que se lhe paga o que for preciso! Corre!
Mas a mulher do José Grilo, a Sr.ª Joana, embezerrada já no meio da casa...
– Ó mulher! – espertou-a o marido. – Parece que algum medo te deu! Não tenhas aflições, que não vale a pena.
…Oh, mas parecia-lhe agora ter percebido: – «Aquilo eram zelos! Capaz era ela de estar com ciúmes!... Então espera...» – E desfechou-lhe para a arreliar:
– É tal qual como se fosse nosso, faz de conta!
– Nosso, é um modo de falar! Será do meu homem, mais de alguma desavergonhada como a ele!
E o José Grilo, na sua:
– Faz de conta que te nasceu a ti.
– A alguma «cadela», mas é!
O José Grilo abotoava o colete. Fingiu um tom de ameaça e de repreensão:
– Ó mulher!...
E ela, no mesmo tom:
– Ó homem!...
– Tu não me rezingues, olha que me desgraças!...
(E reprimiu uma gargalhada).
– E tu não negues, que negas a Cristo! O meu homem é um «santinho»!
O José Grilo, sério:
– Ajeita a criança, anda! Não fazes mais que é o teu dever. Uma caridade faz-se a um inimigo.
– Ajeita-o tu!
E o José Grilo, inda de teimar:
– Vai lá ver, que estará molhado!
Agora, ela fitou-o, turbada...
O José Grilo entendeu recuar:
– Então! Não querem ver?! Capaz és tu...
– De dizer que é teu?! E digo, e digo, e digo!
E o José Grilo de a ameaçar, agora como quem perde a paciência:
– Ó mulher, ó mulher!...
E ela, na mesma:
– Ó homem, ó homem!...
– Ó mulher dos meus pecados!
E tornando ao jeito de inda há pouco:
– Anda cá ver que é um rapaz. Vem cá se queres ver.
Rompeu a chorar a Sr.ª Joana; e o próprio «crianço» chorava também.
– Isso! Era só agora o que cá me faltava! Agora até os filhos das outras!
E berregando que lembrava uma cabra, a Sr.ª Joana rompeu a chorar, – jurando que o «filho» era do seu homem!
– Ai Jesus, que estou perdida!
– Ó mulher! – acudiu o José Grilo como se fosse a um fogo.
Mas ela, desaustinada:
– Má hora em que m’eu casei! Má hora em que eu fui à igreja! Ai Jesus, que vai ser de mim!
– Mau, mau... mau, mau! – entrou o José Grilo de regougar também, nem ele sabia já se de zangado.
Mas firme como uma rocha, plantou-se agora diante da mulher:
– Pois assim me Deus salve... Ouves?!
A mulher fitou-o de frente.
…Mas ele – fingindo que se arrependia:
– Nada.
Foi pior! Num alarido, a Sr.ª Joana atou as mãos à cabeça:
– Não jura! O meu homem não jura! Àq’ del-Rei que o «filho» é dele!
Tornou o Grilo a recuar:
(... Demónio...!)
E outra vez diante da mulher, com os dedos em cruz chegados à boca:
– Pois juro que não é meu o rapaz!
– E beijas a cruz?!
– Olha!
– E assim te Deus dê saude, ó José?!
– Assim me Deus dê saúde!
– Preto sejas tu como o teu chapéu?
– Preto seja eu como o meu chapéu!
Já a Sr.a Joana corria para o canto da casa, onde tinha a arca do bragal. Abriu-a; e uma «Nossa Senhora do Caminho» que tinha na tampa, colada com bocadinhos de hóstia, cobriu-a de beijos com muita ânsia!
Desabafou, aliviada:
– ...Ai!
O José Grilo pusera-se a rir: – «O demónio da mulher picada de ciúmes!...»
E agora, como espantado e muito ofendido:
– Mas ciúmes de quê, ó mulher?!... Ciúmes de quem?!... Não farás favor de me dizer?!...
A Sr.ª Joana já ajeitava o pequeno, encafuando-o muito debaixo da roupa:
– Isso! Agora vê se o abafas!
Caíra em si a Sr.ª Joana; – mas não queria, agora, dar de pronto o braço a torcer:
– ...Bem sei!... O meu homem é um «santinho!»
– Lá pra «santinho» inda me falta... Mas com’ o outro que diz...
– Gaba-te, cesto!
– Não é «gaba-te!» – tornou o José Grilo, outra vez para arreliar a mulher. – Eu não me meto com elas!
– Olha quem!
– ...Mas se elas vêm e se metem comigo...
– José... José...
– Joana... Joana!... Se m’eu casei, tu me perdeste...
Ela riu-se.
E ele, de continuar:
– ...Mas se elas se metem comigo...
– Que tem?!
– Que tem?!... Não hão-de dizer que não tens homem!
O pequeno chorava mais.
– É fome, coitadinho! – disse a Sr.ª Joana. – E a Brites que se demora tanto!
E ela mesma acudia à porta, a ver se chegava a filha com algum recado, e atrás dela o José Grilo.
– Não queres ver?! – espantou-se ele para a mulher. – Aquela que vem é a Doroteia!
E atirando-se para fora da porta, gritou para elas:
– Não és tu! É a tua irmã! Que diabo vens tu cá fazer?!
E pregou à filha dois bofetões, – «para que soubesse dar o recado».
Mas a Doroteia acudiu: – «que a Ana não tinha culpa. A irmã é que a mandava a ela para levar a criança, porque a Brites, adoentada, fazia-lhe mal apanhar o relento».
– Só se lhe queres tu dar de mamar! – inda insistiu o José Grilo para a Doroteia, irreverente pela sua virgindade.
– Ó José!... – repreendeu-o a mulher. – Essas coisas nem por graça...
– Eu sei lá se «nem por graça!» O que eu sei é que não veio a outra! E leva a criança e não leva, e chega e não chega daqui ao Varandas, capaz é a criança de me morrer de fome!
Já as mulheres pegavam no menino, – aconchegando-o com mil carinhos.
E o José Grilo, da porta:
– Então vem ou não vem?!
E quando depois chegaram as mulheres:
– Com jeitinho, hem?!...
…Parecia mesmo que levava o Santíssimo, a Doroteia, e que as outras duas, agasalhando-lho ainda no colo, rezavam o Bendito...
E quando abalou a filha do Varandas, dizia o José Grilo recolhendo-se:
– Seja tudo pelo amor de Deus! Seja de quem for, é uma alma cristã!
E a mulher e a filha, com os olhos rasos de lágrimas, – beijavam-se dando os bons-dias:
– Bons-dias, mãe.
– Bons-dias, filha.
E para o pai, reparando que ainda nessa manhã lhe não pedira a bênção:
– A sua bênção, pai.
– Deus te abençoe.
…No campanário, que o sol nascente doirava na aresta, – tocavam as ave- -marias...
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 249-257.
Maricas
Vocês lembram-se da Maricas, aquela magrita de cabelos muito castanhos, quase louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benévola e complacente para as nossas balbúrdias e algazarras, de todo o dia e de toda a noite. E vocês bem sabem que tais elas eram, as nossas balbúrdias e algazarras...
Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e encantadora: – a de não mostrar jamais, na sua amizade, prefe¬rência por algum de nós. Dir-se-ia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e brando...
Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ela vos perguntaria por mim, nos meus dias de cábula, pela solicitude e interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao escritório.
– Então esses cábulas? Então esses marotinhos? Doente, algum?
– Na estúrdia, Maricas! Andam todos por lá...
– Ora vejam! – fazia ela quase escandalizada
Ah, como eu me lembro neste momento da vivacidade franca dos sorrisos que nos mandava, quando, todos em pinha, furando pelos ombros uns dos outros, palreiros conversávamos com ela de janela para janela, num tête-à-tête que durava horas, muito familiares, muito dados, quase que chamando-lhe por tu e ela a nós! Como eu me lembro!
Ela tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil perguntas que lhe fazíamos, e então uma grande paciência inexaurível. Nós, os estroinas, quase que chegávamos a adorar aquela ingenuidade singela do seu coração de vinte anos. A boa da Maricas era adorável, toda ela bondade e paciência para os nossos distúrbios e para as nossas algazarras de toda a hora e de todo o instante.
Mas como se familiarizou ela connosco e nós com ela, é que me não lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes, é que nós como que a considerávamos uma companheira de redacção, espécie de directora com casa à parte e viver independente, – pois que se entrávamos no escritório (parece mesmo que estou a ver aquela barafunda de escritório!) e, assomando à janela, a não víamos na sua, dizíamos quase sem querer, mas invariavelmente:
– Mau! Falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?
E passados instantes debandávamos todos, um agora, outro logo, à formiga, mal nos convencíamos de que ela passava a tarde fora, em casa da freira de Quebra-Costas – dessa lembram-se vocês... No entanto, deveis recordar-vos que ela, no dia seguinte... – coitada! – ...a primeira coisa que fazia era justificar a sua falta: «estive aqui, estive ali, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborizada e confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar ali a aturar-nos. Por pouco ela nos não pedia de mãos postas que lhe perdoássemos, a boa da rapariga.
E nós então galhofeiros, brincalhões:
– Sem mais aquelas, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora essa!...
E ela mais confusa, fazendo girar no dedo o seu anelzinho de cobra:
– Pois sim, mas é que às vezes...
– Às vezes quê?...
Não! ora adeus! Ninguém desconfiava que ela estivesse zan¬gada connosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa!
Pois não era verdade – perguntávamos-lhe – que ela adorava aquela troupe de boémios?
– São todos muito bons rapazes – dizia já a sorrir. – Todos me tratam muito bem...
E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pálido todo se iluminava de prazer e sorria de íntima gratidão. Mas porque simpatizava ela connosco, a pobre da Maricas?
Quando nos via em palestras intermináveis, nas libações do cognac e do café, ouvia-se lá da janela um – pschiu! – muito sibilado.
– Que manda a D. Maricas? É servida?
E ela, levantando os olhos da costura, com ares de formalizada:
– Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?
«O cuidado que lhe dava o jornal!»
– Ora faz favor de não falar em coisas tristes? Olhem agora que lembrança, o jornal!
Ela então, por única resposta, dizia-nos às vezes que na semana passada o tipógrafo viera queixar-se de que havia falta de originais, quantas vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas...
E por falar em provas: – a Maricas sabia todos os sinais das emendas, todos.
– Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais nesta palavra.
– Risco por cima, risco à margem, e um d cortado; é fácil.
– Um m de pernas para o ar, e esta?
– Risca-se, e um três cortado, à margem. Está farto de o saber... Quando via algum sentado à mesa, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse mostrando as tiras, à medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava que isso era um estímulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal escrevia a derradeira letra pegava da tira e dizia-lhe para a janela, acenando-lhe com o papel:
– Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escrita de alto a baixo.
À terceira que se lhe mostrava, ela saía-se de lá com um – bravo! – e recomendava, solícita, cinco minutos de folga, enquanto se fumava um cigarro.
A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia a goma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bela goma! Em paga, quando o jornal chegava da imprensa, quase sempre nos sábados à noite, o primeiro exemplar era para ela. Como a rua era estreita, atirava-se-lhe da janela.
– Maricas, aí vai ainda fresquinho!
– Está bem, obrigada. Vou ler, até amanhã.
Corríamos todos à janela, a dar as boas-noites à nossa amiga.
– Durma bem, ouviu?
E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada autor frases e frases do artigo publicado, jurava que nos conheceria no estilo ainda que mudássemos de pseudónimo. De resto, sempre benévola: achava tudo muito bom – «escrito com muita graça e muito bem» – como ela dizia.
Nos serões que fazíamos e que por via de regra não passavam de um interminável cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escândalos, desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções... Mas da Maricas ninguém tinha que dizer senão bem; era a privilegiada naquelas sessões de má língua. Quase sempre a conversa degenerava em algazarra – um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e gemia fados com acompanhamento de violão. E era de ver o Santos Melo, de olhos cerrados e cabeça à banda, como cantava a sua quadra predilecta:
Sei cantigas misteriosas,
Cantigas de endoidecer,
Que os lírios dizem às rosas,
Que as rosas me vêm dizer.
Mas no meio desta inferneira havia sempre um que recomen¬dava silêncio:
«Com mil demónios! não viam que a Maricas não podia pregar olho...»
Todavia... – ó suprema bondade! – ...ela nunca se queixava quando no dia seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes que as cadeiras tinham caído.
«Ora viam?! Não a tínhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse! palavra de honra! doravante...»
Ela então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça:
– Não, não, eu até gosto. Entretém-me vê-los alegres, faz-me bem, ora essa...
*
Pois, meus amigos, a boa da Maricas – morreu! Vocês não sabiam? E morreu tísica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a pensar naquela tossezinha muito seca em que às vezes a surpreendíamos, naquele branco pálido das suas faces, no bistre das suas olheiras, naquela magreza transparente das suas mãozitas de marfim...
Pobre Maricas!
Haverá três meses que ela me desapareceu da sua janela, onde continuei a vê-la depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ela tinha ido?!...
Mal diria eu que estavas no cemitério, tão longe e tão só! porventura na vala comum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura humilde – onde neste instante cai chuva e chuva! Ainda se as noites fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro, cheio de mágoa, a tua frase de infinita bondade e de infinita resignação:
– ...«Entretém-me vê-los alegres, até me faz bem...»
Compreendo agora tudo – vivias da nossa alegria, já que a tua alma era triste... Mas porque foi que nos não disseste, pobrezinha, que nessa frase singela ia a revelação do pressentimento que tinhas da tua morte prematura?! Triste criança que nós não mais veremos!
..............................................................................................................................
.................................................
Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes – bravo! – ora não?...
*
... Bom Deus! bom Deus! Para que a terra produza diamantes, e dela rebentem flores, são talvez precisos estes corpos a vigorar-lhe as seivas!...
In , Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 103-109.
Para a Escola
No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras letras. A porta lá estava, amarela, com fortes pinceladas vermelhas, ao cimo da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la. Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha princi¬piado a aula quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um silêncio nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada, num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz da Helena dizer para o senhor professor, um de óculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:
– Muito bons-dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encomendinha.
Oh! Oh! A encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali estava a encomendinha!
– Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?
E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia... E ali estava eu entre os joelhos do senhor professor, com o boné numa das mãos e a saquinha vermelha na outra, muito com¬prometido. A Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.
Choraminguei, quis sair na companhia dela.
– Não, agora o menino fica – disse-me a Helena. – Isto aqui é a escola, é onde se aprende a ler. – E agachando-se, diante de mim: – Olhe tanto menino, vê?
– Mas fica tu também... – disse-lhe eu então.
Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de inter¬vir, iracundo:
– Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai tudo raso com bolaria!
Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, pelos modos. Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes; cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão principalmente.
– Isto é preciso muita paciência, senhora Helena, muita soma de paciência. Um mestre precisa de ser um santo. – (Pausa. Olho duro sobre as bancadas). – Mas está bem, diga lá que a encomen¬dinha cá fica. Em boa hora entrasse...
– Entrou, ele há-de estudar. Ora há-de, Josézinho?
Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos.
– É verdade, – insistiu por sua vez o senhor professor – o menino há-de estudar as suas lições, não é assim?
– Diga: sim senhor – ensinou-me então a Helena. – Hei-de estudar muito e ser sossegadinho na aula: diga. – E a meia voz para o professor: – isto em casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?
Ele riu, já sabia. As crianças são todas assim, enquanto estão no mimo das mães. Mas uma vez metidas na escola, as coisas mudavam um pouco. E piscando o olho, designou a palmatória. A Helena ficou transida!
– Faz milagres, senhora Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz milagres.
Eu tinha percebido. Começava de novo a embezerrar, com vontade de sair quando a Helena saísse. Aquilo sabia eu para que servia, a palmatória...
– Mas para o nosso Zézito não há-de ser precisa, ora não?
– Diga assim: não senhor, porque eu hei-de cumprir com as minhas obrigações, diga.
– Ora aí é que está! – atalhou o senhor professor. – Vê, senhora Helena? Aqui já os pequenos têm a sua obrigaçãozinha, os seus deveres a cumprir, as suas coisas...
– Sim senhor, sim, enquanto que em casa...
– Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos: meu menino isto, meu menino aquilo. Vão assim criados à lei da natureza, sabe vossemecê? É mau isso, péssimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos? – E bateu num «Monteverde» pousado sobre a mesa dizendo: – Olhe, aqui está neste livro: «de pequenino...
– ...é que se torce o pepino» – concluiu rápida a Helena, orgulhosa de saber o que estava no livro, coitada!
– Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma coisa que se cria na horta...
Risota dos rapazes!
– Ora vê isto, senhora Helena! Vê estes brutinhos?! – E com entono, de palmatória alta, fazendo-se carrancudo:
– Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença à senhora Helena, começo numa ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o que se chama tudo!
E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquela ameaça, os rapa¬zes ficaram transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que ele podia pedir licença à Sr.ª Helena, e mesmo diante dela cascar de rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, sossegaram; até o Estêvão deixou de me fazer caretas.
– É o que se vê, senhora Helena – disse então vitorioso, a sorrir-se, o bom do senhor professor. – É o que vê! Um mestre sem palmatória é um artista sem ferramenta, não faz nada. Santa Luzia milagrosa! Aqui onde a vê tem feito muitos doutores.
– Essa? – perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquele pedaço de pau de buxo, se na verdade ele tivesse feito muitos doutores.
– Não, mulher, se não foi esta, outras como esta; essa é boa! Isso não faz ao caso.
Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena. Também ele, velho naquele ofício, muitas vezes investi¬gara com mágoa o motivo por que a sua palmatória não fazia um único doutor... Morreria sem ter essa «glória», decerto! Forte martírio que a Helena veio recordar-lhe!...
Houve uma interrupção: um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia para ir lá fora.
– Licete! – foi como ele disse, arremedando o latim licet. Outros havia que diziam, por troça, Aniceto!
– Ora já a mim me admirava, – tornou-lhe o professor. – Se tu não havias de pedir para ir lá fora, tu... – E ficou-se a fitá-lo, meneando pausadamente a cabeça. – Ora vá você lá fora.
O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.
– Olá? – chamou zangado o senhor professor.
O outro assomou à porta, contrafeito.
– Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se percebes... Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça favor de esperar um pouco.
Pôs-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:
– Tu não... Tu não... Tu não... Tu, olá, venha cá!
Levantaram-se uns poucos; foi um barulho!
– Canalha! – gritou-lhes então, batendo o pé. – Corja de atrevidos! Sentados, já!
Grande silêncio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era ele, apontando para o peito.
– Sim, és tu, para que queres os olhos? Avance e perfile-se.
Mediu-o de alto a baixo. Depois:
– Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do regulamento, fora com ela. Agora, sim senhor. Ora vês além aquele sujeito? o tal das pressas?...
– Vejo, sim senhor.
– Bem sei que vês, se o não visses é porque eras cego; que tal está o palerma? Ora acompanhe-o; já sabe para quê. E sempre quero ver se tenho de vos ir lá buscar pelas orelhas.
Saíram. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o senhor professor:
– Olá?
Eles assomaram outra vez, atrapalhados.
– Então, seus cabeças de avelã, torres de vento, então não falta nada?
Os dois puseram-se a coçar a cabeça, muito comprometidos. Faltava com efeito alguma coisa...
– Então é aí?
Eles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro.
– Ora passa por esta vez, em atenção a estar aqui a senhora Helena. – E enrugando o sobrolho, comandou em tom mar¬cial: – Ordinário! marche!
Faltava aquilo. Em obediência aos velhos hábitos de militar, dava o senhor professor aquela voz, sempre que mandava algum aluno cumprir ordens suas:
– Ordinário! marche!
Sentou-me então no joelho e perguntou:
– Olha lá, Josézinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o senhor capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres?
– Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o senhor prior: dizer missas.
Riram-se. Quem sabia lá o que dali sairia? Mas o senhor professor fez notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendência qualquer. E pôs-se a puxar- -me o nariz, a dar-me palmadinhas nas bochechas.
– Corneta ou prior, hem? Pois isso é que é preciso escolher. – E para a Helena: – Pois olhe que os tenho conhecido, senhora Helena, que respondem a pés juntos que não querem ser nada! Mau sinal, péssimo, senhora Helena. Quando eles assim dizem, de ordinário assim fazem, depois. Nunca são gente. – E virando-se para mim: – Mas então, Josézinho, em que ficamos? Corneta ou prior?
Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente em dias de festa, com aquela capa toda dourada...
– Muito bem, escolheste bem. «Telha de igreja...
– ...sempre goteja» – concluiu a Helena que ainda hoje é forte em adágios.
O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.
– Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josézinho, para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é?
– É.
– Ah!... Não é assim que se diz. É, sim senhor – emendou a Helena.
O senhor professor teve um gesto de indulgência.
– Mas tu não sabes ainda, ora não?
– Não senhor.
Ele então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia na saca era um livro.
– Querem ver que é um livro?!...
– Diga – ensinou a Helena – é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá ao senhor professor, tome.
Houve na sala um murmúrio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do meu livro.
– Muito bem! muito bem! – aplaudiu o senhor professor. – Mas este livro é mesmo para aprender a prior... O menino já tinha dito lá em casa que queria ser prior, ora já?
Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquilo; mas como é que ele o sabia?
– Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar, não queres?
– Quero, sim senhor, – ensinou ainda a Helena e eu repeti. – O que eu quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.
– Primeiro do que aqueles? – perguntou voltando-me para as bancadas.
Então fui eu mesmo que respondi: – «Sim senhor!» – con¬tente com a lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos aqueles. Até podia acontecer que o Estêvão das caretas me ajudasse a alguma...
– Ora então está muito bem, estamos entendidos! – E com intenção, ferindo muito as palavras, para mas gravar no espírito: – A primeira coisa que é precisa para prior é saber bem isto, vês? – E punha-me diante dos olhos o livro, aberto na primeira página. – Isto aqui é já missa, chama-se o a b c, e é aquilo que os priores dizem quando vão para o altar.
– Ito? – inquiri curioso, furando a página com o dedo.
– Sim, isto. E amanhã já mo hás-de trazer sabido daqui até ali. Hem? Valeu?
– Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.
Eram as seis primeiras letras, ainda me lembro bem. A minha primeira lição!
A B C D E F.
A minha primeira lição!
– Ora sabe vossemecê o que isto é, senhora Helena, isto que eu tenho estado a fazer?
– Sim senhor, sei... É assim... como quem diz... É...
– Não sabe, não admira, – disse complacente o senhor profes¬sor. – Puxar o gosto, senhora Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vai estudar com mais gosto, digo-lho eu; olé se vai!
«Mas ele não a queria demorar mais; tinha lá em casa as suas obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.»
– Pois isso é verdade, senhor professor; mas não sei que é, custa-me a separar do menino... – disse a boa da Helena, quase a chorar.
– Foi ama, deu-lhe o leite, aí é que está a coisa. Pois tenha paciência. Aprender é tão preciso como mamar – concluiu numa prosa que é mesmo poesia.
– Pois é preciso, é!...
E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti na minha cara as lágrimas daquela boa amiga. Retirava-se, deixando-me ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:
– Senhora Helena?
– Meu senhor! – respondeu, levando aos olhos o avental.
– Já agora, espere mais um instante.
Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula. Depois, intimou:
– Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo um pouco. – E virando-se para a pobre mulher lacrimosa: – Ora é ali, senhora Helena ali é que é o lugar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe não deve pesar.
E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo, lágrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu lugar... – o meu primeiro posto na arris¬cada milícia das letras...
Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conver¬sar por acenos com a pessoa que estava de fora. Pequeno como era, percebi, no entanto. O mestre vinha a dizer na sua mímica:
– Bolos?!... Não?!... Perdoe a senhora Helena, mas isso, quando forem precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a mão?... Está bem... Descanse... Mesmo com a mão...
E ela devia sorrir por entre lágrimas, porque foi também por entre lágrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus...
*
…Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da via¬gem que principiei nesse dia. Não volto mais à escola! Venho hoje restituir-te, querida amiga, aquele beijo – dulcíssimo beijo aquele! – que tu então me deste. E afinal não fui prior, ora vê!... Mas ainda bem. Se o fosse, acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem que não fui prior, ainda bem... Não é verdade, Helena?
Em Coimbra,
no dia do meu acto de formatura.
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 111-120.
Prelúdios de Festa
A Alberto Braga
Esse ano, a festa da Senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito – abonados e decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscen¬tos diabos. Mas era obra de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a entender que traria mais animalejos, uma bicharada, – talvez um macaco, se tivesse tempo de o acabar.
– Homem de uma cana! – resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que «no seu ano» a coisa fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da Loja, que tinha sido juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: – Fff! Pum!
– Ora deixa estar que eu te arranjo! – murmurou com os seus botões o António Fagote. E sorria, satisfeito de se lembrar que na noite do arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém falava noutra coisa.
– Então você já sabe?
– Já sei. A cegonha.
– A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro...
– O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu?
– Pintado. No Monteverde, se me não engano. Logo adiante do Valente Rei Arauto Fiel.
Enganava-se.
O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves aferidor.
– Até que enfim, amigo Alves! Até que enfim vou ter o gosto de o ver arder.
O outro não percebeu: – «Que se explicasse...»
– Um urso, no arraial queima-se um urso.
– Então ardemos ambos, – redarguiu embezerrado o Alves. – Também se lá queima um burro.
Às duas por três, o António Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua predilecção.
O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por dentro.
– Põe a tranca, se for preciso!
Mas então era cá da rua:
– Ó senhor António!
E na porta as pancadas ferviam:
– Truz! truz! truz! Senhor António!
– Ena! c’um raio de diabos! – fazia lá de dentro o homem, furioso.
– O senhor faz favor? É só uma palavrinha!
À janela assomava então o António Fagote, com os óculos na ponta do nariz e a carta do fogueteiro na mão.
– O camelo? – perguntava zangado. – O urso?! Camelos me parecem vocês, ouviram? O que o homem diz é isto...
E lia a carta, rematando:
– Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... – Tirava os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos. – Irra!
E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não fosse ele burro... Mesmo porque cada um começou logo a inventar animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí tínhamos nós descontentes. E havendo desconten¬tes, quem lucrava era o José da Loja!
– Temos o caldo entornado! – pensava aflito o Fagote, ame¬drontado com aquele espectro do José da Loja, o seu rival! Demais a mais, já lhe tinha chegado aos ouvidos que o outro agourava mal do negócio...
– Farófias! – tinha dito o José da Loja. – Farófias!
– Pois se mo diz na cara, arrebento-o! – vociferava o Fagote, quando tal soube.
E arrebentava, que o Fagote era homem para isso; tinha pulso. Desde rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições. Depois, bom olho para a caçadeira. De uma ocasião que foi preciso dar montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou lendária:
– Como-te a alma se te mexes!
– E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! – comentavam convictos.
Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com 60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma largura de ombros que era o princi¬pal indício de força. Pescoço curto. Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força, conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido.
– Safa! que isso aí é de ferro! – diziam os rapazes. – Duma cana, hem?
Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, sim¬ples e afável. Para se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira, foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio, pacificadora:
«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau como o pintavam.»
– Ó mulher! Cala a caixa e não me defendas esse velhaco! – redarguiu o Fagote. – Do que ele é capaz sei eu.
Mas nessa ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás!
Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria feita a ele, que era juiz este ano.
– Pois tu que pensas? – dizia ele para a mulher. – Quem me meteu a festa em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz: «entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas...»
– Nome do Padre, do Filho... – A mulher benzia-se «das ideias do seu António».
– Sejam ideias que não sejam! – teimou o Fagote. – Isto foi tal e qual, assim me Deus salve!
– Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?
E então desabafou: – «que não pensasse, o José da Loja, que o havia de levar à parede. Agora levava! A festa há-de-se fazer, e festa de arromba; nanja como a dele que só levava seis anjos, e não sei quantos andores, acho que meia dúzia!»
– Ó mulher! Então é para que saibas onde chega o brio de um homem! Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do corpo! Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! – E espipava olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de ver assim o seu António.
E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava farta de ouvir. – «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao atar das sangrias!»
– Leitões, se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles, por esses povos à roda. Querem-se de quatro semanas, três pelo menos:
Leitão de mês,
Cabrito de três.
A mulher contraveio: – «dois seriam bastantes...»
– Mau, que aí principiamos nós! – E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé no soalho, arreliado. – Três é que hão-de ser! Não quero cá dois, porque dois eram os do outro, o ano passado!
A esta razão, a mulher calou-se. O António Fagote gostou do silêncio da mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o outro.
– Agora não fanfas tu... – insistiu ele, risonho. – É assim mesmo que eu gosto. Sinal é que tens vergonha. A outra tamém não é mais que a ti!
A outra era a mulher do José da Loja, está visto.
– Nem mais, nem tanto! – emendou a Luísa Fagote, abes¬pinhada.
– Isso mesmo! – abundou o juiz da festa. – Não me lem¬brava agora que antes de se casarem...
– E olha que depois de casada... – insinuou a Sr.ª Luísa, de venta no ar, enfiando a agulha. – Cala-te, boca!
Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou. Mas, neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da Loja. Há-de perdoar-me o António Fagote, mas nisto não lhe faço a vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas...
– É preciso vermos como há-de ser isso da vitela – disse o António Fagote. – Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.
Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. Demais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um pedaço de vitela assada.
– O pregador é que arrasta aí muita gente! – observou a Sr.ª Luísa. – Para um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode!
– A mim o devem, se cá vem! – disse orgulhoso o Fagote. – Que o homem não queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e 14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele.
– Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário...
Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela.
– ... Bem, muito obrigado. E a senhora Mestra? Estimo, estimo.
Era a criada da mestra régia, foram abrir.
– A senhora Mestra que manda muitos recadinhos, saber como está a Sr.ª Luísa, e este bilhetinho para o Sr. António.
Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o António Fagote foi acender uma luz.
«Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta».
– Muito calor – começou a Sr.ª Luísa.
– E então a casa da senhora Mestra que é mesmo um forno – disse por demais a criada.
E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.ª Luísa, ao ouvido, de que queria dar uma palavrinha.
Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.
– Está-se aqui bem! – exclamou consolada a Sr.ª Luísa.
– Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe um favor – disse atrapalhada a criada.
– Se estiver na minha mão...
A outra começou: – «A Sr.ª Luísa estava ao facto do que se dizia dela com o criado do inglês. Decerto estava ao facto. Mas era mentira. Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda mentira». – Estamos para casar! é o que estamos! – «Ele já mandara vir os papéis lá da terra, não podiam tardar». – Está claro que eu tenho afeição ao rapaz...
– Ele esteve aí doente uma temporada – interveio a Sr.ª Luísa para dizer alguma coisa.
– Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando! Mas é ai que eu quero chegar.
– Que experimente o limão azedo – aconselhou a Sr.ª Luísa. – É milagroso nas quartãs. Não se aflija, que não há-de ser nada. – E dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal.
– Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via disso que eu lhe quero pedir um favor.
Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou:
– Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira, qualquer noite! E ele vai, prometeu que sim! Mas veja, naquele estado! inda não há nada que saiu da cama!
– Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau! – disse com pompa a Sr.ª Luísa. – Muito longe!
– Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai para lá de clavina e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido!
Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que «lá onde eles iam pelo pau é que ela não sabia...»
– A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu António mais os mordomos. Não ouvi.
– Pois é lá! – exclamou a criada. – Mas o que eu queria, Sr.ª Luísa, é que o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta! – suplicou aflita a rapariga.
– Lá isso, esteja descansada, não vai! – prometeu com grande autoridade a Sr.ª Luísa. – Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada...
– Era só isto, muito agradecida à senhora.
Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os ócu¬los para a testa.
– Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a senhora Mestra que desculpe. Mas enfim que leia como puder.
– Então muita maçada com a festa? – inquiriu solícita a rapa¬riga.
– Muita. Faz lá ideia?! Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.
– Chh! – fez admirada a rapariga.
– Pois é verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! – E depois de uma pausa: – Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia uma horta, além no prado.
– Muita gente... – disse a rapariga.
– Muita! e depois de certa aquela... À mesa talvez vinte e quatro pessoas...
A rapariga benzeu-se!
– Vinte e quatro, para mais que não para menos, – insistiu o António Fagote. – Olhe: o pregador...
– Isso dizem que é coisa asseada! – interrompeu a rapariga.
– É. Não o há melhor. Missionário... – explicou o juiz. – Pois o pregador, um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre, os pequenos, dois, doze.
– A comadre não vem! que pena! – fez do lado a Sr.ª Luísa.
– Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Mor¬gado da Fonte e o António Capador, catorze. O Teles, é verdade, o Teles escrivão, quinze. (Pausa). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com mais de vinte e quatro pessoas à mesa. – E a rir-se: – Mas há-de sobrar muita coisa, graças a Deus... E depois os pobres?!
– Isso então é uma praga! – exclamou a Sr.ª Luísa. – Até parece que vêm do chão: assim... – E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas. – Assim...
Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se. – «Adeusinho! o que havia de estimar é que tudo corresse como desejavam.» – E se for preciso qualquer coisa... – ofereceu-se. – As minhas fracas posses...
– Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora Mestra...
– E que hei-de estimar que o mano chegue de saúde, – concluiu o António Fagote.
E então explicou à mulher: – «Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».
– «Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo no arraial, não tem mão em si que não venha». E Deus o queira, porque o ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco.
A Sr.ª Luísa quis saber a resposta que lhe mandara.
– Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é homem que sabe dar o merecimento às coisas... Mas o diabo agora é o macaco! – ponderou muito apreensivo. – Está para aí meio mundo à espera do macaco...
A Sr.ª Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o bicho não viesse.
– Tate! – fez o António Fagote, batendo uma palmada rija na testa. – Dá cá daí a minha véstia. Manda-se uma «parte» ao homem.
– Também pode ser – concordou a Sr.ª Luísa. – Mas hoje é que não, aquilo já está fechado, o fio.
– Vai amanhã: «Agradeço favores. Traga macaco sem falta.» Isto. Talvez acrescente: «Não se olha a dinheiro.» Mas é que acrescento, por via das dúvidas!
Então, a Sr.ª Luísa confidenciou, quase ao ouvido do homem:
– Ouves? Já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.
– Han? Qual pau?
– O da bandeira. Todo o mundo já sabe.
Ele riu-se.
– Todo o mundo, hem?... Melhor! Oh! oh! todo o mundo!...
E como ela ficasse estupefacta:
– Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o vinho noutra?
– Ah!...
– Mas são verdes. Pois aí é que vai a história! – E cantarolou, satisfeito:
O ladrão do negro melro
Onde foi fazer o ninho!
*
Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando, logo de manhãzinha, o António Fagote sentiu bater à porta, de rijo.
– Vai lá ver o que será, ó Luísa! – disse da cama o Fagote, sobressaltado.
Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.
– Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se!
– Há novidade?! – perguntou logo o Fagote, sobressaltado.
– Vista-se! com dez milhões de diabos! – insistiu o outro.
– Homessa! – fez espantado o Fagote. – Alguém à morte?!
– Pior do que isso! – resumiu o José Manco.
– Pior do que isso, então não sei...
– Não tardará que o saiba! Avie-se, que eu cá o espero na rua.
O António Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava chapéu.
– Pronto! cá estou!
– Venha comigo, avie-se! Abotoe as calças, se faz favor.
E rodaram, rua acima.
– Diabo! mas então...?! – ia perguntando o Fagote.
– Aguarde, que já vai saber! Não tarda!
De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.
– Roubaram Nosso Pai, aposto?
– Pior! – redarguiu o outro. – Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos e veja vossemecê isto, esta porcaria!
E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel pegada na torre, com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:–Farófias!
Por um pouco, António Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se, com os olhos fitos no papel.
E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa escamação, aos lábios do António Fagote aflorou apenas um sorriso.
– Hum! – resmungou. – Bem sei...
– Não tem que saber – fez o outro.
– O patife do José da Loja.
– Pois está visto.
– Bem, levará quatro lambadas – epilogou com grande sossego o Fagote. – Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver.
O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou pruden¬temente que era melhor botar o patife ao desprezo.
– Pois sim – disse o António Fagote, dobrando em quatro o papel e metendo-o na algibeira de dentro – Pois sim!
Mas o outro, que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos arrancados do código penal. – «Que não fosse agora pagar por bom semelhante estafermo! Como mordomo, também era com ele a ofensa, com ele José Manco. Mas fazia de conta… como o outro que diz, vozes de burro não chegam ao céu.»
– Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto – disse num grande ar de condescendência o Fagote. – E você vá lá regar a horta.
Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada. Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia daquela demora...
– Grande cão! Grande cão! – monologava.
Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o tendeiro em pessoa, de casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo António Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a porta.
– Ó senhor José.
– Dirá.
– Venho aqui saber dum caso.
– Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e, depois de lho pôr ao pé da cara:
– Foi o senhor José que fez isto?
O outro olhou-o, atónito.
– Sim! se foi o senhor José que fez isto?
– Nada, eu não senhor.
– Jura pela boa sorte dos seus filhos?
Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.
– Jura pela boa sorte dos seus filhos? – repetiu mais de rijo o Fagote.
O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:
– É porque se jura, muito bem. Se não jura, o caso é outro.
– É outro, que outro?! – disse arrogante o José da Loja, num ímpeto, barriga panda sob o casacório de lona.
– Isto! – E foi-lhe uma bofetada para a cara. – E muito caladinho, que eu também não digo nada. Agora o papel, olhe! – Fê-lo em pedaços, e atirou-lhe com eles à cara aparvalhada.
Saiu dali e foi matar o bicho, tranquilamente, como quem vem de cumprir uma obra de misericórdia.
*
Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar galhardamente.
– O fogueteiro! Chegou o fogueteiro!
Por toda a vila passou um longo frémito de entusiasmo quando se ouviu o foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas. O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro, a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o sr. fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o que queria para o jantar.
Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila, perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente um foguete.
– Foi foguete! pois que dúvida! – diziam-lhe radiantes. – Prometia, sim, senhor! prometia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum!
– Pra que saibam! – clamava o António Fagote. – E então isto? – e punha-se a girar de volta com o braço – o que é fogo do chão? – Mas tinha-se visto em calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro! O caso tinha estado sério!
Mentia.
– Hem? mas não o enganavam?
– Qual? era o fogueteiro, sem tirar nem pôr! Lá ia ele a atravessar as eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!
O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da rua:
– Senhor abade! Ó senhor abade!
– Que é lá?
– Chegue à janela, faz favor?
– Mas está muito sol, entre você se quer.
– Só duas palavras.
O abade, um rapaz novo, assomou à janela.
– Que é?
– Chegou o homem!
– O homem! que homem?
– O fogueteiro, quem há-de ser?
– Ah, sim – disse o abade a rir-se, velhaco. – E você vai ter com ele?
– De cara.
– Faz-me então um favor?
– Dirá.
– Dê-lhe recados meus.
E retirou-se da janela, a rir, enquanto o António Fagote prosseguia no seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente «se aquilo tinha sido o fogueteiro!»
– Grande homem! com seiscentos diabos!
Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao fogueteiro, com fúria:
– Esses ossos! – e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu amigo, seu grande amigo».
– Rapazes! – gritou ele então. – E tirou o chapéu da cabeça, muito solene. – Viva o senhor fogueteiro!
– Viva! …Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores que o António Fagote – chorou!...
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 53-70.
Sultão
Ao meu Henrique e a Beldemónio, seu amigo
I
Ao cair da tarde, o Tomé da Eira entrava em casa, cansado, esfalfado de andar um dia inteiro a mourejar no campo!
– Meus pecados, boa tarde! – dizia ele para a mulher, com um sorriso a afectar seriedade.
Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a bênção.
– Deus te abençoe.
– Pai, olhe que o Sultão... – ia a acusar o pequeno.
– Bem sei! – atalhava logo o Tomé. – O Sultão é um maroto e tu és outro.
E enquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bela navalha de meia-lua, que lhe custara um pinto havia bons quinze anos e abria a gaveta do pão, o Tomé punha-se a fazer de interesseiro consigo mesmo, resmungando alto para que a mulher o ouvisse.
– É que por este caminho não tenho um dia descansado! Nem uma hora!
Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.
– …Pois vamos lá que já era tempo! Porque para mim há-de chegar, e a modos que vou já cansando...
Mas o Tomé não era homem que dissesse estas coisas de coração. Pareciam-lhe longos, intermináveis, os aborrecidos domingos que passava sem ir campos fora, madrugador como um melro.
– Uma aquela como outra qualquer! – dizia o bom do Tomé encolhendo os ombros, como quem está desgostoso com um génio assim.
Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua cabrada, e veio sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra que dava para a rua, – arregaçado, em mangas de camisa, muito à vontade.
Costume velho do Tomé: – mal se sentava, mastigando o «bocado», dizia logo para o filho:
– Ouves, Manuel? Bota cá fora o Sultão.
O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de contente, dizendo cá da rua:
– Sultão! Sai cá para fora, Sultão!
No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em riste, grandes olhos de uma tristeza perpétua, num movimento moroso de pálpebras pestanudas...
E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas pernas delgadas, a olhar o Tomé que o chamava, – um grande riso de alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu Sultão.
Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o Tomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de quadrúpede de boa raça, alguém lhe poderia ler no olhar, mole e impassível, o frio, gelado desprezo a que parecia votar o dono...
Mas era àquilo mesmo que o bom do lavrador achava graça! E punha-se então a falar muito sério, entre resignado e cortês, para o pequeno e desdenhoso jumento – o pão e o queijo esquecidos numa das mãos, na outra a navalha de meia-lua:
– Então, Sultão?! Não vens?!
– Não! – parecia responder-lhe o animal. E abstracto, con¬tinuava a envolvê-lo no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia daquela imobilidade de estátua, apenas, de quando em quando, uma pequenina patada na soleira, zap!
– Zangado, Sultão?! – perguntava o lavrador. – De mal comigo?!
E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir à vontade... – não fosse vê- -lo o demónio do Sultão... Metia entre dentes um pedacito de queijo, logo uma côdea de pão, e fazendo umas grandes rugas na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito sério:
– Ficas aí, Sultão?! Já não és meu amigo?
O jerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que fazendo-se humilde...
– Então se és, anda daí! Olha... – E mostrava um pedacito de pão. – Para ti, se vieres...
O Sultão dava três passos, e ficava fora do cortelho. E por se vingar, o Tomé carregava o semblante numa seriedade muito pesada, e erguendo o rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, afirmando que já lhe não dava o pão! E desfechando- -lhe enfim a ameaça de o vender a um cigano, entrava a tratá-lo por senhor: – sor Sultão...
Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas baixas, pescoço caído, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão da arrelia.
Nervoso, sapateando, o Tomé voltava a cara para a outra banda – a rir como um perdido.
Diabo do jerico! Diabo do ratão! Capaz é ele de fazer rir as pedras, o mariola! – E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo entalada na goela.
No entanto, o Sultão ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador... O Tomé sacudia-o:
– Sai-te para lá! – dizia ele muito amuado, sem se voltar. – Cuidas talvez que te não conheço, cuidas?! Já te não quero, vai-te!
Mas, como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao focinho um pedacito do pão, que era sempre o melhor da fatia. O Sultão lançava um olhar oblíquo, entre sorrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço superior, a tremer, e roubava-lho da mão.
Pazes feitas! Era então rir a perder, numas casquinadas agu¬das, muito estrídulas.
– Credo, homem! Até pareces doido! – acudia da janela a Sr.ª Josefa.
– Você assim rouba seu dono?! Diga! Você assim rouba seu dono?! – perguntava o Tomé, nuns grandes gestos. – Vamos que eu lhe não queria dar da merenda?! Ladrão, de mais a mais!... Ora bem! Agora brinque!
Mas era precisamente o que ele queria: – ver o Sultão a brincar.
…Nada, com efeito, que mais divertisse o bom do lavrador, e melhor o indemnizasse daquelas fainas laboriosas que lhe consumiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob sóis causticantes e chuvas torrenciais!
Por isso, era de ver como ele ria, com uma boa vontade deliciosa, das «partidas» e «diabruras» do Sultão! Às vezes, o pequeno jumento, ferido não sei por que vespa invisível, despedia sem mais nem menos numa carreira aberta, focinho entre as pernas dianteiras, agitando a cauda, por aquela rua fora. Rompia de toda a banda num alarido o rancho pacífico das galinhas, que já no ar andavam como doidas, cacarejando, como se um pé de vento as levantasse. Acudia gente aos postigos, às portas, às janelas, a ver a polvorosa; e súbito se inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quase nus, correndo atrás do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o – como se o mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a própria rua... E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre todos voava o Sultão, apupado, perseguido, aclamado, na malta espavorida dos inimigos...
– Sultão! Eh lá, Sultão!
Súbito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de volta dele postava-se a rapaziada, mas num alor de nova fuga, não lhe desse na bolha atacá-los... E abriam alas de repente, quando ele, tomado de novo acesso, voava para as bandas do dono, que por se não deixar atropelar investia com o Sultão de braços abertos, o que era, já se vê, um modo de o abraçar fingindo medo. E vinham as gargalhadas estrídulas, os rogos para que pusesse tréguas, súplicas para que se acomodasse, recuando o lavrador até ao último degrau da escada, onde se deixava cair, – derreado!
– P’ra lá, Sultão! Pra lá! – fazia então o Tomé, opondo-lhe os pés, desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para trás, a rir como um perdido.
Então o pequeno jumento estacava, ofegante! Mas prestes rompia a girândola dos coices em que era exímio, sacudindo muito as patas, cauda no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Tomé solícito dava aos rapazes o aviso de se arredarem – «porque era doido, aquele demónio!...»
Outras vezes, parece que variando de táctica, entrava de seguir muito cauteloso, num ronceirismo pérfido, como um borrego ou como um cão, alguma mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes à surpresa da viandante.
– Dê, tia Luísa! Bata-me nesse maroto! – fazia de lá o Tomé, com ares de zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma verdasca: – Sultão! Venha já p’r’aqui! – intimava.
E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a ele, muito devagar, cauda caída, orelhas murchas, num cumprimento humilde de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça, preparando a sua dentada. Não dava o Sultão sinais de medo, e humilde prosseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido recuava um passo, espertando da sua indolência passiva; e de espinha arqueada ganhava o terreno perdido – fitando impassível o cão... O bruto formava então o salto, regougando forte, o pêlo eriçado; mas ao investir para a primeira dentada, salvava-o de um pulo o Sultão, evitando-o, até que por compaixão lhe dava um pequenino coice – «mais feitio que outra coisa», pondo em fuga o mastim corrido, ganindo, vencido!
– Eh! valente! – gritava-lhe então o lavrador.
E com duas palmadas na anca, espantava-o enfim para o cortelho, dizendo ao correr a caravelha:
– Não há dinheiro que te pague! Assim me Deus salve!
E comido o caldo verde da ceia, nunca o Tomé da Eira ia para a cama sem descer primeiro a ver o Sultão, – de candeia numa das mãos, e na outra, contra o sovaco, a bela quarta do grão, acogulada!
Muitas vezes acontecia esquecer-se o Tomé a vê-lo comer, de candeia atenta, encostado à manjedoura, sorrindo: e de cima, a Sr.ª Josefa tinha de intervir, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:
– Tomé! Vê se te vens deitar, meu pasmado! Olha que são horas!
E piamente, como fanático, achava verosímil a lenda da burra que falou, – história que uma tarde, passando, o abade lhe contara. Tanto que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, estranhou com certo desgosto que o Sultão lhe não respondesse:
– Boas noites!
*
Mas o demónio, que sempre as arma, armou-lha também um dia! Foi ao cortelho de manhã cedo, e não viu o burro. Ficou parvo! Pôs-se a mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de enorme – gelada!
– Ó Josefa! Josefa! – entrou logo a gritar da rua. – Ó Josefa!
A mulher assomou à janela, sobressaltada.
– Queres tu apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!
– Que te roubaram o quê? – fez a Sr.ª Josefa muito atónita.
– O burro! O Sultão! Vem cá ver que mo roubaram!
E como ao tempo já acudira o Manuel, descalço, e em camisa, romperam os três numa gritaria, defronte do cortelho vazio:
– Àq’ del-Rei! – Àq’ del-Rei! – Àq’ del-Rei!
Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremu¬nhado, pôs na peugada do burro, mais dos larápios, os cabos que compareceram.
…Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adiante, e desfechando ao peito abatido do Tomé a negra e vazia palavra:
– Nada!...
II
Dois anos depois. Tarde de Agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se numa sombra igual, e embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverizações douradas da última luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro, destacavam imóveis num fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja. Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e além, alegremente, a monotonia profunda do azul. Num deslado, sob os castanheiros próximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da igreja, as paredes caiadas da escola.
A vasta eira comum, levemente acidentada, apresentava àquela hora o aspecto tranquilo e de paz de uma grande oficina em repouso. Poucas «medas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas», ou ao sopé das «medas» altas, entre os utensílios da trilha e a criançada estrídula que brincava, os da lavoura descansavam – vermelhos da soalheira intensa de todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nu, arregaçados os braços musculosos, numa prostração regalada de matilha que alfim tem a sua hora de sossego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da fadiga os próprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali, dando uma sensação agradável de fartura, perfilam-se os altos sacos no meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa, ao redor de um grande montão de palha triturada, vai «limpando» – visto que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os «baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão, varrendo em roda num afã... Em certo ponto, carros vazios; um além, de altíssimas «angarelas», vai-se enchendo de palha: enquanto outros, atulhados de sacos, em rimas entre as cancelas mais baixas, estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois gigantes.
Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêlo. E lá vão encosta abaixo, roçando pelos troncos ásperos dos castanheiros a enorme corpulência, fartar o largo bandulho à serena água das ribeiras, sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente, monotonamente, parece que insaciáveis no meio da água em que se atolam, submissa...
Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o último grão da farta colheita do Tomé da Eira.
– Colheita rica, sim senhor! – vinham dizer-lhe os vizinhos. – A primeira da aldeia!
– Qual?! Isso sim! Vão vocês ver a tulha! Muita palha é que vocês hão-de dizer, muita palha e pouco grão...
E muito azafamado, sem prosápias de maioral nem jeitos de soberba, as mangas arregaçadas pelos cotovelos, o Tomé ia e vinha, dando ordens, repetindo avisos, distribuindo aqui e além as últimas tarefas.
– Aí vai um saco, ó tu! É p’r’as «rabeiras». Que não fique nem um grão, ouviram? E aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por aí alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso! Margarida! ó Margarida, que é da tua rasa? Deixa! se vai no carro está bem.
E era como um doido a meter-se no serviço de todos, muito expedito, loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora dormir...
– Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por aí alguma que eu depois te ensinarei, ouviste? – Que faz aí no chão esse «rasouro», ó coisa? – Olha pró que estás a fazer, tu: esses sacos que fiquem bem atados.
O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no ar, se era preciso mais alguma coisa.
– Não, podes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te. Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo, deixa ir os animais a passo. Vai-te.
Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:
– Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os bois para o lameiro.
Mas o Francisco apontou dois sacos que ficavam: – «seria preciso vir por eles?»
– Não vale a pena, lá irão.
E depois, para aquela gente, observou que bem sabia ele quem os levava, aqueles dois sacos...
– Com mil demónios! Apostar que vocês não adivinham?!
«Eles sabiam lá?... Quem quer podia levar os dois sacos, olhem agora!»
– O Sultão, sabem? o Sultão! Esse é que os levava. E digo-vos então que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!
Alguns riram da lembrança. – «Tinha graça que a cisma do animal não lhe passava nem à mão de Deus Padre!»
– A modos que isso é já mania, ó senhor Tomé?!
Nisto, porém, o lavrador soltou um «Oh!» de surpresa. Voltaram-se todos – «que era?» Na estrada, que a eira dominava, um homem ia passando, a cavalo.
– Vocês não querem ver, ó rapazes?! – perguntou o lavrador, fazendo-se pálido. – Aquele burro, hem? se não é o Sultão é o diabo por ele...
Recordaram: – «estrela malhada na testa, a mão direita branca»…
– É ele, com um milhão de diabos! Não há que ver! E aquele é o ladrão!
E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou, de um abanão, o cabo de uma «espalhadoura» e botou a fugir direito à estrada.
Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:
– Que o mata! – gritavam todas. – Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem a alma lhe deixa! Acudam!
Os homens deitaram a correr atrás dele, afluía gente de todas as bandas da eira, os cães ladravam.
– Então, senhor Tomé? olhe que se perde, senhor Tomé! – diziam-lhe, já agarrados a ele. – Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem, senhor Tomé, largue vossemecê o cabo!
– Qual bem nem qual diabo! Qual larga?! Arreda! Racho-lhe as costelas, mais a vocês, se me não largam! Arreda!
E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a ele mais ao cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.
– Vê, senhor Tomé?!
«Não via nada, não queria ver coisa nenhuma! Arreda!» – E num rompante de ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou à estrada, aos tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.
– Abaixo! – intimou. – Você é um ladrão!
– Um quê?
– Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matá-lo aqui, seu patife! Deixem-me! larguem-me! Há-de aí ficar estendido, como um cão!
E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda, e na direita o minacíssimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo raso – «com seiscentos milhões de diabos!»
Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.
– Já lhe disse que você é um ladrão!
– Ladrão será você! – tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos cerrados. – E não mo diga outra vez, que o racho!
Aflitas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a capelinha próxima, rogando o socorro da Virgem. O lavrador entrava de tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca bordejava-lhe os cantos da boca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um pedaço do ombro. Tinha, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas agora esbracejava, punhos no ar sobre aquelas cabeças em desordem.
Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava: – «tinha-o comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado...»
– Vê, senhor Tomé?! – acudiram logo uns poucos. – O homem não tem culpa! – E gritavam-lhe aos ouvidos: – Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé. Vês? aí está!
– Mente! – objectava incrédulo o Tomé, cada vez mais irado. – Mente!
– Mente?! – perguntou o outro de lá, assanhado.
– Como um judeu! – cuspia-lhe da outra banda o Tomé.
De modo que para o convencerem foi preciso afinal levá-lo quase à má cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Ele então, abrindo os braços como se fosse para nadar, sossegou um pouco, amainou, – prometeu levar aquilo com paciência, às
boas. Chegou quase a pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das camarinhas. – «Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?» Chegou-se por fim a um acordo. – «Sim, senhores, acomodava-se, mas punha uma condição: largasse ele o burro, e o burro é que havia de resolver...»
– Serve-lhe o contrato?!
– Qual contrato?!
– Mau! Larga-se o burro, você entende? Deixa-se o burro às soltas. Depois, é p’ra onde ele for. Se o burro larga para trás, lá para as bandas donde você vem... Você donde vem?
– Dos Casais.
– Pois aí está. Se o burro tomar p’r’ os Casais o burro fica seu...
– E tomando direito à aldeia, é do senhor Tomé – concluíram alguns do grupo, conciliadores.
– Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim!
Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia história que o burro tomasse para a aldeia... Vinha de tão má vontade, que até lhe custara tirá-lo de casa.
– Olhe que vai p’r’ os Casais! Digo-lhe então que vai p’r’ os Casais... – afirmou.
– Melhor p’ra você! Mas nós veremos p’ra onde vai. Você está pelo dito? – quis saber o Tomé.
– Sim senhor, estou! Pois que dúvida tem que estou? – disse-lhe o outro num rompante. – Olhe: uma, duas, três; às três largo-lhe a arreata.
Ia já a abrir a boca para dizer – «uma!»
– Alto! – fez o Tomé. – Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas festas ao animal.
E pôs-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um pouco a fitá--lo de frente – «para que o animal o conhecesse».
– Sultão! – gritou-lhe de repente. – Eh! Sultão!
O burro estremeceu... Dir-se-ia que, no fundo da sua memó¬ria, a lembrança porventura adormecida daquele nome despertara subita¬mente...
– Eh! Eh! – riu-se muito satisfeito o lavrador. – O burro agora vira-se p’r’ ali. Isso! Nem é p’r’ os Casais nem p’r’ o lugar. Assim. Eh! Eh!
E afastou-se para o lado, aguardando...
Uma ansiedade dominava naquele momento todos os do grupo; o Tomé pôs-se a roer as unhas, nervoso...
– Então você por que espera? – perguntou.
Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:
– À uma!...
O Tomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de esguelha, e entre os dentes, cerrados, o polegar da mão direita...
– ... às duas!
– Ih! c’um raio!... – dizia baixo o Tomé.
E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.
- ...às três!
Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e gargalhadas! O Tomé vencera:
corriam todos a abraçá-lo, afirmando que o caso era para foguetes.
– Viva o senhor Tomé! Viva o Sultão! Aquilo é que é burro!
– Aquilo é que é amigo, hão-de vocês dizer! – emendava o Tomé, a rir. – Tenho- -os com dois pés, que não valem metade...
– Oh senhor Tomé! – protestavam alguns.
– Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa... Está visto que não é com vocês!
E ria, ria como um perdido, enquanto, estrada fora, o Sultão corria que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao fundo, na poeirada imensa da estrada, como que nimbado num resplendor de apoteose! E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia agora o lavrador, após o fraternal abraço pregado no dos Casais…
Quando o Tomé chegou a casa, ofegante, a suar, cheio de gestos e de palavras entrecortadas de riso, já o Sultão, relinchando, pateava à porta do antigo cortelho, numa grande impa¬ciência, um «rap-rap» contínuo na soleira.
– Venham ver! Venham cá ver! – berrava o Tomé para a vizinhança. – Ó António! Ó compadre! Ó Maria Engrácia!
Às janelas assomava gente, perguntando se era algum fogo.
– Qual fogo, nem qual carapuça?! E o Sultão, mas é! Este inimigo! Ó Josefa, Josefa! Cá temos o burro, este demónio! Assoma! Ora imaginem agora, se podem, a efusão do lavrador. Abra¬ços? E até beijos! Aquilo era um tesouro perdido que reaparecia, alfim! A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu homem teria endoidecido...
– Palavra de rei, Sultão, palavra de rei! Anda daí pelos sacos! São só dois! Ó Josefa! Ouves? P’ra cá esse garrafão que está ao pé da arca, avia-te! A caneca também, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.
E atirando as mãos ambas para cima da albarda, montou muito regalado, de um pulo.
– Ah!
A Sr.ª Josefa assomava, ajoujada com o garrafão enorme.
– Anda, mulher, põe aqui diante de mim! Avia-te!
Ia a boa da Sr.ª Josefa arriscar uma observação, um conselho, qualquer coisa de tomo...
– Adeus, minhas encomendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes! Põe aqui, que mando eu, avia-te! Assim. Está bem!
– Nome do Padre…
– Então que lhe queres?! Deu-me agora para aqui!
– Nome do Padre, nome do Filho…
– A caneca! Venha lá agora a caneca!
– ...nome do Espírito Santo!
– Passa bem, ó mulher! – concluiu às gargalhadas, entre as gargalhadas dos demais. – Ouves? Quando o Manuel vier dos ninhos, esse maroto, manda-mo às eiras. A trote, Sultão! Eh! valente!
E lá parte, veloz como uma seta. Já de longe volta-se de repente:
– Josefa! ó Josefa! Nesse alguidar do meio umas sopas de vinho p’r’ o Sultão, ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno não presta. Ouves? mas quere-se coisa que farte, bem entendido!
E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, ele aí vai numa corrida, sumido numa onda de poeira, até chegar às primeiras «medas».
– Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por andarmos de mal há 15 anos, isso acabou-se!
E o Tomé atravessou a eira sempre a cavalo no Sultão – caneca de vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda!
*
Meia hora depois regressava, o Sultão pela arreata, o Manuel no meio dos sacos, e adiante do Manuel o belo garrafão – sem pinga!
Pelo caminho, a todos o Tomé contava a história, a rir como um perdido, num ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito íntimas e regaladas.
– Colheita rica, sim senhores, um colheitão!
E parando à porta de casa, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e remexendo o alguidar de barro:
– Nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo!
…Ao mesmo tempo que o Tomé, abrindo os braços, respondia reclamando as sopas:
– Amém!
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 23-40.
Terra Mater
hã de Julho.
Estrada fora, o destacamento seguia «à vontade» debaixo da soalheira intensa. Devido ao calor, devido a essa nostalgia dos campos, que pouco a pouco os amorrinhara, os soldados iam agora calados, tristonhos e de mau humor, – e só o trup- -trup da marcha, desigual e muito pesado, chegava, contínuo, aos ouvidos do ofi¬cial, que à frente seguia a cavalo.
– Eh, rapazes! – chamara ele já por duas vezes. – Vocês parece que vêm a dormir?!
Não iam a dormir, coitados. Mas eles próprios só agora é que reparavam também naquela modorra, e a espantavam pondo-se a conversar, ajeitando e ajeitando-se as mochilas uns aos outros:
– Chó, burro! – diziam alguns para os companheiros. – Pára aí, que te cai a carga!
Mas daí a pouco, insensivelmente, recaíam todos no mesmo silêncio – cada qual a pensar, outra vez, nas delícias do seu «torrão»...
Até que vinha de novo a voz do alferes:
– Vocês acordam, ou não acordam?!
Como se os vissem já com os olhos do corpo, lá estavam, diante de cada um, os campos da sua aldeia; as árvores que davam sombra a esses campos; as fontes e as ribeiras que os refrescavam; as casas, as capelas, os caminhos...
– Pequena e tão pobre! Mas vá lá saber a gente porque há-de gostar assim da sua terra!
E a lembrança de que tinham perdido tudo aquilo, de que os tinham apartado de tudo aquilo, mais viva lhes fazia, nesse instante, a saudade do que haviam sido...
– Ora aqui está para que um homem nasce! Mal se precata, vem a dar nisto, que pouco mais é que burro de carga!
Mas afinal, porque tinham vindo parar naquilo? Que mal tinham eles feito para semelhante castigo? Sim, que mal? Quando mais novos, lembravam-se que o pai os ameaçava, empregando sempre estas palavras:
– Anda lá que te ponho umas correias às costas! Ouves?! Ponho-te umas correias às costas, tão certo como haver uvas!
E a mãe, se estava presente, acudia logo como a esconjurar:
– Credo! Antes morte que tal sorte!
Mas, sem o merecerem, e até contra vontade desse mesmo pai, um dia a ameaça tinha-se cumprido, – tinha «pegado», como as pragas que o diabo escuta!
– Se não valia mais, mas é ter nascido cego ou aleijado!
E tacteando, medindo a passividade a que tinham descido, alguns desafiavam-se a eles mesmos com ironia, e como a vexarem-se com bofetadas:
– Vá! Sai lá agora daqui, se és capaz! Vá!
Ouviu-se outra vez a voz do oficial, agora já arrepiada:
– Então?! Bem digo eu! Vindes a dormir, ou que é que vindes?! – E arrostando com o destacamento, ameaçou de má catadura: – Ou vocês apertam, ou eu meto-os na forma em acelerado!
Houve outro sussurro, outro movimento vivo de despertar. Alguns cantarolavam:
Meu pai chora que se mata
Por eu chegar ao estalão:
Não chore, meu pai, não chore,
Que eu hei-de ter livração.
Mas, sobre a estrada que se desfazia em poeira, em breve recomeçaram os pés a mover-se maquinalmente, o braço a aguentar a espingarda com indiferença, o dorso a vergar sobre a mochila... A muitos já lhes escorria o suor pela cara abaixo, levavam a camisa pegada ao corpo, e iam, eles todos, vermelhos e afogueados. Entretanto, quase não pensavam nisso, com os olhos fitos na sua visão, longe... – como nalguma fada que lhes acenasse...
– Adeus! Adeus! Até quando?
– Adeus! Adeus! Quem sabe lá!
Persistentemente, vinha-lhes agora a lembrança do lar, – do pai, da mãe, dos irmãos, da família toda. Que estariam todos a fazer? Àquela hora, mourejavam os homens na faina das ceifas; amanhando o jantar, as mulheres labutavam nas casas; os pequeni¬tos estavam à sombra, à beira dos caminhos e por baixo das árvores, ou ao pé das fontes chapinhando nos charcos; e os maiorzitos, aforrados em cima dos trilhos, andavam já na faina das eiras:
– Eh, boi! Eh, Carriço!
As eiras! Também lá fazia sol, nessas eiras onde o pão se trilha. Mas não mordia como naquela estrada maldita, sem fim, que os levava não sabiam aonde! – As eiras! – Em mangas de camisa, embora puxando a um mangual, não há calma que se não aguente. Depois, o tratar cada um do que é seu, o recolher o «pãozinho» que Deus dá, e com que premeia o trabalho de todo o Inverno, em vez de cansar até dá saúde. Ri-se durante a trilha; molham-se as goelas com vinho fresco, e água fresca se não há para vinho; arrancha-se à sombra das árvores comendo a frugal refeição; vê-se quem passa e o que se passa; ouve-se e diz-se... – As eiras!
O trabalho é alegre e dá alegria. Quando cai a tarde, vem a fresca; e sobre a ramagem das árvores, onde a passarada começa a cantar, – no céu esverdeado, lá baixo, os poentes parecem de fogo... Depois, à noite, não falemos! Tudo aquilo anima-se de conversas e de danças, de descantes e de namoricos, à luz de um luar de prata. Ouve-se a viola até se pegar no sono, estirados em cima das «parvas»; e de manhã, ao acordar, o céu parece lavado... – Que diferença daquela vida, esta vida!
Mondando ou semeando; nas aradas ou nas sachas; nas ceifas, nas vindimas, nas apanhas; nos lagares de azeite no tempo do frio, ou nos do vinho no tempo da calma – se haveria vida melhor do que essa! Não, não havia; com certeza que não havia! E prò não chega, as festas do ano nos seus dias certos; as feiras e os mercados; os bailes se alguém casava; os serões pelo Inverno fora, – e aos domingos à tarde, no adro, o jogo da barra mailo do fito, enquanto em cima, no campanário, repicavam a algum baptizado...
E como se tudo isso fora ainda pouco, lá vinham as matanças no tempo devido; as descascas, as debulhas, as debagas e as car¬meadas; as janeiras à porta do ano, e os «Santos-Reis» logo ao pé; os «compadres» e as «comadres»; o entrudo com a festa do galo; a quaresma com as suas devoções, e para os rapazes com o jogo do pião; pelo S. João as grandes fogueiras; os magustos em «Todos-os-Santos»; no Natal as consoadas; – e uma vez por outra, ao ar livre no campo das trilhas, esses «autos» que têm tanta fama! Fora o mais! fora o mais!
Depois, como as aldeias são tão pequenas, cada qual decorara a sua. Vê a igreja onde foi baptizado e onde ia à missa todos os domingos; a casa onde nasceu; as dos vizinhos uma por uma; a «residência», a escola, o estanco e a taberna.
E dentro de cada casa, sabe de cor tudo o que lá está; vê cada coisa no seu lugar, escuta as vozes dos que lá falam – vai jurar o que estão a dizer... Pelas ruas, o que por lá há é como se o estivessem a ver: – em tal sítio está agora um carro; naqueloutro há porcos deitados; além, galinhas; vão a passar fulano e beltrano; – em tal janela, entre dois cacos de manjericos, um grande craveiro despejando cravos... E atrás dos cravos, ai, atrás dos cravos, Alguém!...
– Que saudades! Que saudades!
Contrastando com esses campos desconhecidos, por entre os quais a estrada coleia, cada um vai recordando agora, mentalmente, os chouços da sua terra; as hortas e os quintais, as cortinhas e os lameiros, em cada coisa notando, com a cor diferente do solo e a diversidade paralela da cultura, o tamanho e a forma das árvores, quase o seu número, sombras e clareiras dispersas, fugas de prados, pontos brancos de capelinhas – aqui, ali, além...
Agora, como ficava lá baixo um povoado, – entre a folhagem tenra dos legumes, nas hortas à beira da estrada, lobrigavam gente em mangas de camisa, regando.
– Boas-tardes! Boas-tardes!
Ai, que saudades! Quem pudera largar a espingarda, atirar ao chão a pesada mochila, aforrar-se; e botando a correr por ali abaixo, aos trancos e barrancos, fincar as unhas naquela enxada – regar, cavar, cantar!
– Boas-tardes! Boas-tardes!
E os que acorriam a vê-los passar, de pé ou debruçados pelas paredes, ficavam-se a olhá-los cheios de curiosidade – mas tomados de uma grande tristeza! E ouviam-se alguns dizer, – as mulheres principalmente:
– Coitados! Para que uma mãe cria um filho! Coitados!
*
Ademais, aquela vida do quartel parece que os definhava. Eram como pássaros em gaiola; e, às duas por três, deixavam de se parecer com o que eram dantes, com os irmãos que «lá» tinham ficado, com os pais, com os amigos – adquirindo essa fisionomia neutra, que nem era do campo nem da cidade.
Vista por dentro, aquilo era uma vida de submissões, em que o instinto de independência estava algemado.
Por qualquer coisa, um castigo, uma repreensão, um mau modo. E por maior que fosse entre todos a boa harmonia, esfriava sempre as relações aquela atmosfera ríspida do quartel, contrária a expansões, – em que se não podia rir nem falar alto, e em que a obediência passiva e sem réplica, obrigatória e contrafeita, parecia a muitos uma cobardia – uma abjecção e uma impostura...
Os graus de hierarquia, que fazem os homens inimigos, separando-os, tinham vindo conhecê-los ali, naquela vida. Como era diferente lá na aldeia – cada um na sua terra! Aí, sentiam-se iguais uns aos outros; e tirante o pai, a mãe, o cura, certas figuras de tios, e os padrinhos – todos esses que o próprio instinto colocava mais alto, mas, para compensar, parece que mais perto do coração – o resto não se diferençava em alturas, e apenas a diferença de idades, mais do que a dos teres, extremava, sem os separar, os grupos da freguesia.
Depois, a consciência instintiva de que para nada de útil serviam, fazia-os antipáticos a eles mesmos, deprimindo-os, rebaixando-os no seu valor. Para que serviam?! Cada qual, na sua aldeia e no seu ofício – uns no amanho das terras, outros na profissão que tinham escolhido, eram úteis: pouco ou muito, via-se o que faziam. E ali?! Tudo o que faziam era improdutivo, artificial, – irreal porque se não via...
Aguardavam qualquer coisa, pelos modos... – mas o quê? A guerra?! Mas guerras não as havia; e para cada um se defender, e defender os seus das mãos de inimigos, e as suas terras, e as suas casas, segredava-lhes o sangue que melhor o fariam livremente, por querer e não por serem mandados, – a um rebate do sino da aldeia, como ouviam dizer que se fazia dantes. E então sim, então é que era matar ou morrer!
– Ah, pimpões!
– Para frente é que é o caminho!
– Morra um homem, fique fama!
Oh, essa guerra sim; essa entendiam-na eles! Mas a outra, a que era feita porque os mandavam, sem eles mesmos saberem porquê, para quê nem para que não, essa era para eles antipática –antipática e repugnante como certas escaramuças a que os obrigavam às vezes, nos arraiais e nas eleições, e em que até desfechavam contra os pais, contra crianças e contra mulheres, só porque os mandavam dar ao gatilho, às vezes a um sinal da corneta: – «Fogo!»
Ah, tinham razão os que, por se livrarem de semelhante vida, cortavam dedos ou desertavam, fugiam para o Brasil ou se remiam! Os que tinham de a aturar, essa triste vida de soldado, não podiam ser mais desgraçados! Porque um número lhes tinha saído mais baixo que outro, ou, se mais alto, porque o de baixo tivera «padrinhos» e eles não, – uns poucos de anos naquele degredo, toda a sua liberdade caída num laço! Oh, as «sortes»! Se havia coisa mais desgraçada!
Depois, essa cumplicidade que cada um tivera, embora involuntária, no acaso que os sorteara, indispunha-os a muitos contra eles mesmos – e, o que era pior, agourava- -lhes a vida para todo o sempre:
– Assim com’assim, nasci para a desgraça! Hei-de ir assim até morrer!
Além de que, essa mesma infelicidade tinha de lhes pesar ao diante pela vida fora, quase como um opróbrio. Era duro, mas era verdade! Porque ter sido soldado, ter – «andado com as correias às costas» – era na tribo uma inferioridade, uma razão de desconfiança, uma agravante:
– Foi soldado, huum...
– Se ele foi soldado...
E por mais que fizessem, caso é que não tornavam a identificar-se com o meio inteiramente – marcados, assinalados no próprio rosto por qualquer coisa que parecia um estigma, e que em vão procuravam esconder:
– Pelas mentes, foste soldado! Huum... Vai-te que não podes ser bom!
Depois, aquela mesma ociosidade, travando-lhes, paralisando-lhes a vida na altura em que lhes iam florindo as energias, fazia-os, aos mais deles, inábeis para a vida do campo – quando um dia regressavam da «praça». Divorciavam-se desse modo do casal, e portanto da família, – ou eram, no meio dos outros, – pais, irmãos, amigos e conhecidos – instrumentos de trabalho muito imperfeitos:
– Tira-te pra lá! Já te não avezas! Numa enxada não é assim que se pega! Larga!
E porque se lhes fora embora a sobriedade, – o que bastava a alimentar os outros, em quantidade, em qualidade, em amanho, ou era já para eles insuficiente, ou era impróprio; – e tendo vivido tutelados, contando com o comer a horas certas, e sem a consciência de fazerem por ele, o granjear o sustento pelo trabalho, con¬forme manda a doutrina, parecia-lhes depois um sacrifício.
– Quem fez o trabalho está no inferno!
– Antes as «correias» do que esta vida!
E como se dava o mesmo no vestuário, revertendo, dificilmente e como que vexados, ao padrão de onde haviam saído, – ou sacrificavam a necessidades fictícias o produto do seu labor, mais se extremando dos outros num sentido que era a estes antipático, – ou, se não podiam fazê-lo, convenciam-se, erradamente, que a fortuna os atraiçoara:
– Ora aqui está! Andei pra trás com’ò caranguejo!
De um modo ou de outro – de todos os modos! – a vida pervertera-se-lhes; e até entre as próprias raparigas, entre essas mesmas, namorar um «soldado» era desprezo!
Ó Maria, tola, tola,
Olha o que foste fazer!
Foste casar c’um soldado,
Mais te valera morrer!
E respondiam algumas a um galanteio:
– Cruzes, canhoto! Arreda para lá, que me pegas a sarna!
…Pensavam assim os que iam pensando. E os outros, debaixo da mochila pesada, dentro da farda que os comprimia, dos butes que os molestavam, iam, sob o calor de rachar, numa tristeza que dizia aquilo...
*
Mas, agora, a estrada por onde seguia o destacamento, cortada, chanfrada a meio de uma encosta, abria, de um lado, sobre uma galeria de paisagem admirável, vista dali como de uma varanda. Toda repartida em hortas e pomares, de um verde húmido e tenro, a veiga, em baixo, e para além da veiga o pano da montanha, inteiramente coberto de árvores, lembravam, na harmonia vaga do seu conjunto, um largo, inspirado, soberbo trabalho de cenografia. Não se impunham à vista os pormenores; e a não serem, aqui e além, casas e grupos de casas que alvejavam no verde macio, tudo o mais, defronte, esbatia-se num tom homogéneo, que certas manchas de arvoredo, em pelotões, mosqueando-o de manchas escuras, tornavam, não obstante, variado.
Por não ser extenso nem remoto, esse quadro dava uma impressão profunda aos que o admiravam; e ao mesmo tempo que parecia, todo ele, a obra abstracta da natureza, adivinhava-se, na perfeição inteligente da sua arte, desde a veiga que decorria ubérrima, até à crista boleada da montanha, a acção do homem e do trabalho.
Demais, não vinha de lá o mínimo ruído; – e banhada de uma luz branca, debaixo do céu azul puríssimo, toda a paisagem como que se imobilizara num êxtase, – viva, espiritual, risonha...
Do destacamento, muitos pararam a contemplá-la, por suas vezes extasiados também. E alguns que já a conheciam, outros que eram dali, nomeavam-lhe os pormenores, apontando:
– Além, vês? Uma coisa branca... É uma capela! No fim do Verão, todos os anos, faz-se lá uma grande festa! À roda, e por ali abaixo, tudo aquilo são castanheiros! Cada um que o não abraçam três homens!
E designando as habitações, diziam nomes de casais e de proprietários.
Outros mostravam a veiga:
– Tudo por ali são meloais, repara! Melancias como a roda de um carro! Os pêssegos são como punhos! E nogueiras, e cerejeiras, e maçãs às carradas e peras de umas poucas de castas! Ali não falta nada! Olha essas hortas!
– E que lindo! E que bonito!
Acordados do êxtase, prosseguiram. Mas em muitos deles, sob o deslumbramento que lhes fizera a paisagem, a nostalgia do campo acentuara-se-lhes, e pareciam, agora, comovidos. Mais ou menos, voltara a cada um a saudade do seu recanto natal, a visão real de todas as coisas que o constituíam, a sua vida, – tudo isso, enfim, que tinham perdido...
Enternecidos, alguns tinham vontade de chorar. Mas noutros, de temperamento mais recalcitrante, a tristeza parece que tomava a feição de uma cólera surda, moendo neles e desgastando, – desgastando como se fora uma lima...
Iam agora calados; e como quer que um deles, estacando de repente, fizesse, num gesto de surpresa, um gesto de atenção, os mais pararam também, e puseram-se todos de ouvido à escuta... – «Que era?» – Da veiga, efectivamente, um coro de vozes ascendia... Eram raparigas a cantar, talvez nalgum lavadouro, lá baixo, ou nalguma apanha.
– Escuta...
Por vir de longe, por ascender não se sabia donde, e chegar ali quase diluído, o coro das vozes parecia de almas, emanado do seio da luz...
– Não se vê... Escuta...
– Ó rapazes! Parece mesmo a terra a cantar!
Este bocadinho de sobrenatural acabou de comover o destacamento, – que se quedou ali como encantado; e foi preciso que o oficial, que à frente continuava a cavalo, chamasse de longe pelos rapazes, para de novo se porem todos em marcha – atentos, ainda assim, ao coro que prosseguia...
Agora, parecia já adivinharem-lhe a letra:
– Escuta...
«O meu coração é terra,
Hei-de mandá-lo lavrar...»
Sorriam-se, fitando o ouvido...
«P’ra semear os desejos
Que tenho de te falar...»
*
Mas pouco adiante, um grande souto fazia sombra para dez regimentos, e o oficial mandou fazer alto e descansar. Esperou-se um bocado pelos retardatários, ou por algum que vinha cansado; mas quando se pensava estarem já todos, verificou-se que faltavam dois.
A não se ter dado algum acidente, era já tempo de estarem ali; e porque os tinham visto havia ainda pouco, entre os demais que escutavam o coro – o próprio oficial foi à cata deles, esporeando o cavalo ronceiro.
Momentos depois, entretanto, o alferes regressava a passo. E perante o destacamento formado, em que cada soldado parecia uma estátua, arremessou ao chão duas espingardas, e após as espingardas duas mochilas – que fizeram, caindo, o baque dos corpos mortos...
…Como um hino da Terra, trazido na asa da aragem, chegava agora até ali, mais vivo, o coro das raparigas...
«O meu coração é terra,
Hei-de mandá-lo lavrar.
P’ra semear os desejos
Que tenho de te falar...»
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 145-156.
Tipos da Terra
A Rafael Bordalo Pinheiro
Desembocaram num largo. Era o ponto mais central da terra, – a praça. – Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato, com casas em volta, – o que na vila havia de melhor em construções. Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de ferro ao meio, e uma argola pendente do anel. A coluna, que se elevava sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num grande X de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do X, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo, sem gosto, sem cal. Algumas pedras de armas em velhas paredes decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruínas. Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio, de uma arquitectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as sete: aquele – estafermo – é que não andava nunca direito. De dia ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar, alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado, ora adiantado, dando meia- -noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava o sol. Eram as sete. Àquela hora é que os – figuros – da terra, quase tudo empregados públicos, vinham para o largo, à fresca. Alguns passeavam, – seu fraque, sua bengala de cana com castão, chapelinho à banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados, outros do mesmo feitio cavaqueavam, – coletes desabotoados, perna cruzada, chapéu para a nuca, às três pancadas. Um de pêra comprida, no degrau superior, contava facécias. Os outros riam alarvemente, chamavam-lhe intrujão. Algumas – madamas – pelas janelas em volta, nostálgicas, anafadas, de claro. À porta do estanco, em cima, havia outra roda, – uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando cadeiras de pinho. Era a – roda mais forte, – quase tudo maiores burocratas: – o Melo da Administração, o Antunes da Câmara, o Escrivão de Fazenda, o Rodrigues do Real de Água. E outros. À porta, perfilado e muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexível, com a sua cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras feminis, uma falinha melíflua, cantante, viva, muito desempenado quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse levantar voo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia falar diante dele num rato morto, numa carocha. Aquilo «fazia-lhe nervoso», enojava-o, ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:
– Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não lanço fora!
E se riam, ele exasperava-se: não compreendia como pudessem falar em tais coisas! De resto, bom sujeito, finório para o seu negócio, – um poucochinho beato... – diziam-lhe.
– Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno, a arder! Leiam a Missão Abreviada, leiam esse rico livro!
E as palavras saíam-lhe a correr, espremidas nos seus lábios delgados, um poucochinho sibiladas nos ss.
– Cigarros, Ernestinho, um vintém deles. Querem-se dos de Lima, desses fortes.
Declarou que também havia dos «especiais». Algum senhor queria? Tinham chegado três maços, para ver. Oito por um vintém.
– Pois guarde-os! – disseram alguns, horrorizados com a ideia de dar um vintém por oito cigarros. – Guarde-os!
«O senhor engenheiro, quando vinha à vila, perguntava-lhe sem¬pre por eles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.»
– Olha o figurão! – disseram a rir. – Por esse mundo fora sempre há muito idiota! Forte cavalgadura!
O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. À porta, antes de os entregar, contou-os de novo. Doze. Estavam certos.
– Ó senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos outros.
Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um silêncio oprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo que num gesto acanhado, receoso, fazia menção de oferecer: – «alguém era servido?»
Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licor, e das botijas de genebra, Ernestinho somava a conta. Era já taluda. – «E vão dois e dois quatro e dois seis: seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os receberia!» – E suspirava, arrumando os maços encetados, sob o olhar tranquilo e indiferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao alto das estantes quase vazias, no seu nicho feito de um caixote forrado a verde, com flores artificiais muito sujas e duas velinhas dos lados. Mas resignava-se, que não tinha outro remé¬dio. Eram os ossos do ofício...
Cá fora tinham dado fé, acotovelavam-se chamando asno ao Ernestinho, – «um pulha a quem ajudavam a viver... Se hoje não há dinheiro, há-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, com os diabos! E pagava-se! Mas não senhor! aquela besta mostrava sempre má cara, o alarve! A culpa tinham-na eles, afinal, que o procuravam, que o preferiam! Tomaram os outros ter aquela freguesia...»
O dos cigarros fiados anuía, assobiando baixo o Água leva o regadinho. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfa¬do, um sorrisinho de despeito nos lábios, encolhendo os ombros.
– Estender as pernas – disse. – Quem vem daí?
Todos ficavam: «era uma estopada andar para trás e para diante, naquela sensaboria da praça».
– Até logo. Você aparece no sítio, à noite?
– Apareço, vou à desforra.
E cumprimentou em roda:
– Meus caros! Muito boa-tarde, senhor Ernesto.
Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.
– Que tal está o asno, hem? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe diga bem haja...
«Era um parvo». – «Era um tolo». – «Tinha dívidas nos outros estancos». – «Em toda a parte». – «Lá em casa a família passava fomes». – «Um batoteiro de marca».
Houve agitação, alguns puseram-se de pé, outros mudaram de lugares. Ia a passar um grande carro de palha, chiando muito. Ernestinho chegava-se de novo, muito ronceiro, roendo as unhas.
– Com que então... ponha lá ao pé dos outros? – disseram-lhe, para o lisonjear nos seus despeitos. – Bem bom freguês!
Ele encolheu os ombros e cerrou os olhos, beatificamente, num gesto de mártir resignado. E não disse palavra: – «para falar daquele tinha de falar também deles...»
Mandaram vir limonadas: – «três limonadas!»
– Aí vão trinta réis!
«Diabo! era preciso animar aquilo! Assim não tinha jeito!» – E puseram-se a falar do tempo, das moscas, daqueles idiotas que andavam na praça a dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar três limonadas, – e sentiam-se felizes, alegres, um tanto estróinas.
O Ernestinho deu dois passos fora da porta, e chamou para a varanda, onde grandes manjericões floriam:
– Ó Emília! Emilinha!
A mulher assomou, gorducha, muito mole.
– Três limonadas, ouves? Três limonadinhas depressa.
As conversas animavam-se. – «Pois senhores! havia de ser difícil encontrar uma colecção de asnos assim!» Falavam dos que passeavam na praça, aos grupos. – «Deus os faz. Deus os ajunta!» O palerma do Fernandinho dera-lhe agora para cantar! Lá andava ele. Volta, meia volta,
Vai alta a lua na mansão da morte
com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear! Estava antipático, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só tinha uma coisa boa – a caligrafia. – Um talhe de letra bonito, – confessavam. – E as calças, hem? reparem vocês naquelas calças: vai flamante! Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os do estanco, disse-lhes adeus com a mão, afável. Corresponderam todos muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes: – idiota, palerma, pechisbeque...
Sozinho, numa lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céu, o Teles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Às vezes quedava-se extático, suspenso, o polegar esquerdo entre os dentes, um olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em marcha, contrafeito.
– Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Teles, aquele telhudo? É isto: – e pôs-se a imitar o escrivão.
Riram. O Melo imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente! Mas aquilo era um logogrifo. Há uma semana às turras a um logogrifo em acróstico.
– Isso é o Teles! – fez um que vinha da praça. – Aquilo é um intrujão! Na rua não é que se adivinham logogrifos. Ó Ernestinho, você ainda tem daquilo que ferve?
O Ernestinho deixou descair o lábio, não percebia...
– Homem! daquilo que vinha numas garrafórias escuras, compridotas...
– Quer dizer gasosas. Uma rolha segura com guitas...
– Ora é isso mesmo, nem mais.
– Bem sei.
«Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, para quê? Achavam caro um tostão...»
– Eram aos três para beber uma garrafa...
– Pudera! Por um pataco, trinta réis levando o açúcar, fazia o Ervas uma soda, – objectaram alguns. – Ponha lá que em gosto é a mesma coisa!
– E aquela porcaria, ó Ernestinho, e aquela porcaria amarela que sujava tudo de escuma?
Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com seiscentos diabos!
– Cerveja! – disse o Ernestinho – cerveja! uma coisa que lá para baixo toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo!
E com um sorriso de desdém, exclamou:
– O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho...
Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distintamente a palavra – pulha – pronunciada com força. Saíram em tropel, ficaram só três. – O que pagava as limonadas exultou: – Homem! nem de propósito! Ficava exactamente quem ele queria, estava mesmo a ver que aquela súcia lhe chupava o refresco:
– Tó Ruça! Já lá vai esse tempo!
Precisamente, a Sr.ª Emília chegava, com os copos numa ban¬deja: – «Que provassem: diriam se precisava mais açúcar. Mas parecia-lhe que devia estar bom...»
Beberam de um trago, estava óptima! – «A senhora Emília tinha dedo para aquelas coisas».
– Obrigado, ó Melo!
– Obrigado, ó menino!
E os dois saíram de rompante, chamando pato ao Melo, rindo-se dele e limpando os beiços.
Quando o Melo ia a sair, – a ver o que ia na praça, – o Ernesti¬nho, muito cortês, objectou-lhe que faltavam trinta réis: – Se ali não tinha, depois. Isso era o mesmo...
– Mas trinta réis?!... De que são os trinta réis? – perguntou desconfiado o Melo.
– Do açúcar, foi do refinado, – explicou o Ernestinho. – O mascavado acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Melo desculpe.
«Não tinha que desculpar; somente notava que aquelas coisas diziam-se no princípio». – E saiu sem dar mais palavra, furioso: – «Uma ladroeira! Três vinténs não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco...».
Na praça tinha cessado a altercação; os grupos, reunidos, for¬mavam uma grande roda, comentava-se. O Melo quis informar-se: – que lhe contassem – o escândalo.
«Ora! não fora nada: o Veiga que se tinha lembrado que as correspondências na Voz do Distrito eram escritas pelo Albano. Disse-lho na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga, que é casmurro, teimou: – «que não acreditava, ainda assim!» – Vai o outro chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora ai está!».
– Mas afinal, quem diabo escreve aquilo? – quis saber o Melo. – Aquilo há-de ser escrito por alguém, está claro!
«Dez réis pela novidade! Que havia de ser escrito por alguém sabiam eles...»
– Quem, então?
Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro dava a sua palavra de honra que também não era ele, jurava-o! Houve um que se lembrou se aquilo seria do padre Mendonça...
– Qual?! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se metesse nisso. Olha o padre Mendonça, o da gibreira de Braga...
Mas o da ideia insistiu, renitente: – «havia ali duas coisas que o faziam lembrar, certas facécias, como a de chamar Frei Asneira ao Reitor e Cabeça de Comarca ao Felisberto».
– Pois se é ele, que se regale; pode limpar as mãos à parede! Mente como um alarve, mente da primeira linha até à última! – disse firmemente o verdadeiro autor das correspondências. Olhem o que ele diz do juiz de direito, só calúnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.
De resto, eram todos acordes em que as correspondências eram uma infâmia. O que se chama uma infâmia pegada! Mexericos e mais nada, uma coisa de soalheiro! E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura?!...
Houve um silêncio significativo, talvez de aprovação.
– Só de pulha! – rematou por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia as correspondências com o pseudónimo de Aramis. – Vejam vocês aquelas galegadas ao comendador! Aquilo chama-se lá fazer política?! Discuta-se o homem como presidente da Câmara, sim senhor; discuta-se o homem público, o funcionário; mas deixe-se-lhe em paz a marreca, os fundilhos das calças; ninguém quer saber se os criados lhe param em casa, ou se não! E depois, aquelas alusões à família, aquelas piadas à D. Engrácia, pobre velha...
– A quem? – interrogaram uns poucos. – A Dona quê?
– À D. Engrácia, está bem de ver. Aquela beata que fazia peúgas de lã aos missionários é ela. Presumo eu que é ela, – fazia o Nunes das correspondências com um grande ar de suposição. – Eu cá foi para onde deitei.
Os outros não. E como o das correspondências tinha prometido explorar a «crónica beata», aguardariam mais informações. Supunham, no entanto, ser com a D. Joana, a do – chá da erva cidreira. – Outra canalhice! A D. Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, lazarões e penicheiros, não fizera política. Depois foi aquela tareia que se viu: – que o chá era erva cidreira, que tinham bolor os doces de ovos, que ela parecia a quaresma e a filha o entrudo... Ora isto não se diz; a pobre mulher doeu-se! Citavam-se de cor frases inteiras da correspondência. Por exemplo: – «A deusa da festa dizem que recebeu telegramas de... amor.» – Uma facécia de mau gosto aludindo ao Proença telegrafista. Depois do que por aí se diz, é forte... Que afinal, quem sabe lá?! Entre os dois que diabo pode haver?! Namoro?!
No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:
– Não senhores! Isto agora alto lá! A Amélia é uma rapariga séria...
Riram às gargalhadas: foi um barulho com a tosse!
– Quando digo uma rapariga séria... Mau! Acomodem-se lá com o banzé, vocês deixem falar! – tornou o Nunes, formalizado. – Quando digo uma rapariga séria, quero dizer… sim… quero dizer... – e procurava a frase, entalado, – por exemplo, que ela não é capaz de receber ninguém, alta noite, lá pelos quintais, como o tal das correspondências quer fazer suspeitar.
Iam replicar-lhe, mas ele atalhou:
– Chama-se àquilo ser canalha às direitas, arre! Isto agora é falar franco.
Saltaram-lhe:
– E você jura, ó Nunes? Você jura? – perguntou, com gesto perfurante, o Alves dos Pesos e Medidas.
«Não... isso agora... Jurar, não jurava; mas, com os diabos! pelo que se via, pelo que se podia julgar...»
– Lérias! – disseram todos.
«O Nunes parece que estava com os beiços com que mamara! Com que então, para ele era tudo uma récua de santas?! Desenganasse-se, que era tudo uma canalha, uma corja de sonsas! Que diabo de ingenuidade!»
O Nunes observou modesto, quase agradecido:
– Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O que sou, é prudente. Desconto sempre noventa por cento àquilo que vocês dizem, aí é que está...
– «Vocês» é um modo de falar! – emendaram alguns.
– Vocês, digo eu, vocês… quando escrevem correspondências, – explicou sofisticamente o Nunes.
Calaram-se, disfarçaram. Próximo deles, a Amélia toda de verde, com guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solenemente. Tiraram todos o chapéu, cortejando risonhos, res¬peitosos. O Nunes foi cumprimentá-las, submisso.
– Dar o seu passeio, não é verdade? – E apertando-lhes a mão: – Vocelência como passou? A senhora D. Amélia? Obrigadíssimo. Assim... assim... «Então? que diziam àquele calor?»
– Abafava-se, ali pelas duas. Que forno!
– O Brasil tal qual – reforçou o Nunes.
«Mas que fora feito, que as não tornara a ver desde os anos? Uma noite de truz, aquilo sim!»
– Olhe, senhora D. Amélia, a flauta... a flauta é que nem por isso:
foi pena! O Abelzito andava constipado
A D. Amélia explicou: – «A mãe ficara doente, já não era para aquelas noitadas». – E em voz mais baixa, quase dolente:
– Depois, veio a Voz do Distrito: aquilo chocou-a muito.
– Não há tal! – fez a mãe. – Meteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a falar, senhor Nunes.
E por pouco não chorava ao dizer isto.
O Nunes afectou um sentimento profundo: – «Era melhor não falar nisso, não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham acabado de falar na tal correspondência, agora mesmo.» – Uma garotada! – resumiu o Nunes. – E em tom confidencial:
– Anda-se na pista do garoto. Ele há-de aparecer. E depois... e depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soará. É preciso dar um exemplo, – concluiu terminantemente. – Uma severa lição!
Despediram-se; elas agradeceram ao Nunes – «a parte que tomava no seu desgosto». – E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se vinham daí um bocadinho até à capela, espairecer.
As Silvas pediram que subissem. «Um bocadinho só. Ficava bem aquele vestido à Amélia.»
«Não podiam subir, talvez à volta.»
– Pois sim, hás-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quase pronto, que trabalhão!
«Estava na dúvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O risco era do Fernandinho. Já lhe fizera outro, talvez mais bonito.» Coisas de anjinhos:
– Verás.
Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que vinha do trabalho, da labuta áspera da eira, – homens com malhos, e mulheres de cestas à cabeça. A tarde descaía numa serenidade calma. No degrau de cima, o Paula, oficial da administração, com fama de tipo de chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas, zaranzando na barriga como se fosse numa guitarra. De volta, os outros formavam roda. Todos riam, pediam bis.
– Tu hás-de conhecer isto, ó Chico! – dizia o Paula para o Francisco Maria, um cabo que estava de licença. – Tu hás-de conhecer isto.
O administrador do concelho, um pobre-diabo desmazeladão e filósofo, afirmava «que lhe lembrava Coimbra, a pândega das vie¬las. Ao Paula valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o tinha demitido, às vezes que lhe entrava borra¬cho pela repartição.» – E pedia a rir, boçalmente:
– Ó Paula! Aquela do bate-bate, canta lá.
E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos. – Se era preciso, o Fernandinho ia pelo violão.
– É verdade, você que fez hoje que me não apareceu na repartição, ó Fernando?
– Dormi, está claro! Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo às vezes. Olhem que pergunta!
Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.
– Então, ó Paula... – suplicava o administrador.
– Está fechado o realejo! Depois.
Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sítio». Ou perder ou ganhar; tinha ali seis tostões que eram para um mico.
– Mas eu não lhe dizia, senhor doutor? eu não lhe dizia ontem que a dama se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo... Bem feito! «gramou» um entalão que se consolou.
– Quatro coroas. – Na véspera tinha ganho um quartinho.
Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o chapéu; ele passou gravemente, cortejando.
– Quem eu te quero à perna é o Aramis... – rosnou o Teles escrivão, que embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez. – E ainda ele não sabe tudo... – insinuava perfidamente.
– Pois o resto diga-lho você, diga-lho no Almanaque de Lem¬branças, em verso – fez de um lado o Rodrigues do Real de Água.
O Teles, com famas de literato, redarguiu que «não dava con¬fiança a analfabetos».
– E eu a brutos, sabe você?
Mau! que eles lá começavam! Oficiais do mesmo oficio... Ó senhores, lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com o outro. Pelo contrário.
O Teles, furioso, disse que não embirrava com o outro: que nem lhe dava essa importância, essa honra!
O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão nele. Mas jurou que de outra vez seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas tesas.
– Tesas, hem?! Olá! quatro bofetadas tesas!
Havia de dar-lhas, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras portuguesas – ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real de Água!
Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se.
– Não senhores! – dizia colérico o Rodrigues, com grandes gestos. – Bem sei que não valho nada! Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas não há-de ser aquele négalhé que o há-de dizer! Não o julgo habilitado. Lá porque tem soletrado dois
romances, não se segue. Mas o que mando para o público, sim, o que entrego aos prelos – é meu! – E batia no peito com a larga mão espalmada, furioso, numas raivas de orgulho triunfante. – Não roubo! nunca roubei! – afirmou mais alto o Rodrigues, para que o Teles, que se ia retirando, no meio de dois amigos, conciliadores, o ouvisse. – Repito: não roubo, não faço como ele! – E as palavras saíam-lhe salivadas, violentas por entre os lábios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas. Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria dizer.
– As provas... – e meteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com ímpeto: – as provas, elas aqui estão!
Mostrou no ar a brochura verde do Almanaque de Lembranças. – Era do ano que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do Correio que lho tinha entregado ele mesmo.
– Sou testemunha – confirmou do lado não sei quem. O Rodrigues, então, afirmou que era preciso «historiar»: contaria a coisa em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se um dia de ser escritor, de ser poeta! O alarve! Todos os anos – zás! versalhada para o Lembranças...
– Era colaborador! – disse o Antunes da Câmara que admirava o talento do Teles. – Era colaborador!
– Era quê?! – interrogou logo o Rodrigues, de mão atrás da orelha. – Maçador, maçador é que ele era! Nunca lhe admitiram as asneiras, se me faz favor, nunca! Na correspondência troçavam-no, chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não chamava Deus para as letras. Aquele – Serei ousado? – é ele, sei eu que é ele. Nunca o admitiram!
– Lembro-lhe a Flor do Campo, senhor Rodrigues, lembro-lhe esses versos! – insistiu o Antunes.
O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o escrivão da Câmara. Não lhe respondeu. Subiu os três degraus do Pelourinho, pausadamente, com pompa, e chamou a atenção dos amigos. Ia ler. Abriu o Almanaque de Lembranças, onde trazia um papel, e rompeu: – «Indignidade.»
– Em letras bem graúdas, queiram inspeccionar.
E colou ao peito o Almanaque, voltando para fora na página onde o seu dedo reboludo apontava a terrível palavra, – escrita ao alto em epígrafe.
Houve um sussurro, alguns pediram silêncio. O Rodrigues que lesse.
«Os versos intitulados Flor do Campo, que viram a luz no Almanaque de Lembranças do ano extinto, foram-nos remetidos pelo Sr. José Maria Teles, escrivão.»
– Copiados por mim, uma letra floreada – esclareceu o Fernandinho. – Ele depois assinou – e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma complicada do Teles.
Pediram silêncio outra vez. O Rodrigues continuou:
«Publicámo-los na convicção de que eram da lavra daquele senhor, pois que ele os assinava.»
– E então? – perguntaram uns poucos, sem compreender ainda.
– «Pura ilusão!» – continuou solenemente o Rodrigues. – «Escreve-nos o mimoso e assaz conhecido poeta Sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os versos lhe pertencem, e que o Sr. Teles os roubara (sic) do seu volume Lira Matutina.»
Foi uma estupefacção! O Rodrigues prosseguiu mais alto, fugindo aos comentários:
«Averiguámos, e disso alfim nos convencemos. Os leitores ava¬liarão a probidade do Sr. Teles, a quem mais de uma vez tínhamos fechado a nossa porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ela na cara – por indigno.»
E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a porta na cara do Teles escrivão; tomou praça fora, o livro debaixo do braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solene, – vingado!
Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados, porque além de sempre terem julgado o Teles muito superior ao Rodrigues – e o Rodrigues bem o sabia, olha ele!... – tinham dado uma sorte de mil demónios, agora é que eles viam! distribuindo no teatro, por ocasião da festa de Santa Bárbara, a Flor do Campo que eles tinham mandado imprimir avulso – para lisonjear o Teles, que tivera o trabalho de os ensaiar no Santo António. Hem? quem diabo havia de dizer que aqueles papelinhos de cor, uns verdes, outros amarelos, chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quase disputados a murro, num alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma insídia, – um logro à boa-fé, à incredulidade ingénua de «toda a comarca»!
E relembravam episódios, particularidades quase extintas: o Fernandinho vestido de menino de coro, batina vermelha e roquete de rendas, cobrindo-se de teias de aranha lá pelo forro do teatro, de gatinhas e com um «toco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser ele a despejar do óculo aquela papelada; o Melo da Administração, vestido de Frei António, sandálias e grande chinó de calva redonda, feita de uma bexiga de porco, com o Teles em triunfo por entre os bastidores, seguido pela turba¬multa dos companheiros, em hábitos de frade e fradetas de galuchos, dando vivas ao – Poeta! – ao grande Teles, «ensaiador da rapaziada!»
Que desastre! Afinal tinha-lhes saído um intrujão! E quase se regalavam da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito!
O Antunes da Câmara, sobretudo, estava furioso. Fora ele o da lembrança de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.º II, que mandava os impressos para a Câmara, e pedira-lhe aquilo como especial favor. O homem – pronto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que desembolsara ele só, afinal. Bem feito! ninguém o mandava ser burro. – Arre! cavalgadura!
E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopléctico.
– Mas a bem dizer, tudo isso é nada! – continuou comovido o Antunes. – Ó senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz naquele intervalo do drama para a farsa?!...
Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Ele sempre acontece cada uma! E relembravam – levantara-se o pano quando os ouvintes menos o esperavam. Os que tinham saído lá fora, às doceiras, voltavam apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um rebuliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam senhoras, gente fina, começavam a aparecer caras barbadas de sujeitos que iam saber – «que tal» – perguntar se ia uma pinguinha de licor, um docinho. Em cima, na galeria alta, criadas e raparigas do povo, debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, de olhar atónito:
– Ele que dianho é? – perguntavam.
De baixo, da plateia, todos faziam – chut! – voltados lá para cima:
– Caluda, sua gentalha!
No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da Recebedoria com o seu fato de Marco Aurélio; o Paula de cardeal, báculo em punho e a cara metida numa estriga; o Fernandinho de menino de coro, todo lépido; a Ana Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olívia; a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da Glória, em que ela subira num cesto vindimo à «região sidérea dos astros»; o pai de Santo António, em ceroulas e de saia branca pelo pescoço, lívido como saíra do túmulo; aquela canalha da tropa, – todos enfim!
Nisto, entra pelo fundo o Teles todo de preto, no meio do Melo vestido de Santo António e do Proença telegrafista que fazia de Frei Inácio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hino da Carta à meia dúzia de músicos que não entravam na peça. O hino rompeu com grande estampido de pratos, numa cadência fúnebre. No palco, tudo imóvel. Ninguém sabia o que era aquilo, não estava no cartaz. Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam.
Mas ao acabar o hino, o Antunes da Câmara, com farda de centurião, durindana e botas de água, irrompe furioso do buraco do ponto e prega um discurso na bochecha extática do Teles:
«Não era ele o mais competente, decerto, o mais... etc. Mas tinham-no encarregado, obedecia... e tal. Só sentia não ter frases, oratória, porque enfim estava falando a um poeta... – colaborador do Almanaque de Lembranças para Portugal e Brasil – acrescentou voltado para o público, esclarecendo. Enfim, final¬mente... vinha para aquilo: dar-lhe um abraço em nome de todos...» – e abraçou-o comovido, enquanto os espectadores ber¬ravam apoiados, dando palmas – «...e para isto» – acrescentou fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa.
Houve um sussurro de aplauso, dos camarotes crianças grita¬vam – «ó Emilinha!» – Era com efeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e Medidas, que saía também do buraco do ponto, ves¬tida de anjo, tules verdes e muita lentejoula a brilhar.
Ficou-se a olhar a plateia, imóvel, muito fria, ensaiada, enquanto o Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, num requebro doce da «melodia», ele fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu nuns guinchos, cantando a Flor do Campo, com música de Muchagateira, original do Peres do Correio.
O Teles sorria, entre glorioso e modesto, falando a Santo António e a Frei Inácio: – «Era de mais, era de mais, ele não merecia...» – «Ora essa!» pareciam dizer-lhe os outros – «seríamos ingratos se...»
A «cantoria» acabou, o teatro parecia desabar com palmas, tudo berrava, um ou outro cão latia. Senão quando, os do palco desataram a rir, cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas do tecto desabassem.
Todos olhavam, curiosos. E naquela expectação viram de repente descer do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da boca muito inchada saíam-lhe faúlhas, do algodão a arder que lá trazia dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanás nos ímpetos de cólera. O pano começou a descer, oblíquo, esfarrapado de uma banda. O Freixedas, suspenso, atirou fora o algodão e gritou, furibundo:
– Alto! suas bestas! Inda não!
Voltou-se de costas para o público, e um letreiro que trazia de ombro a ombro dizia em caracteres amarelos – C’est fini! – O pano desceu então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros, não tinham percebido... – Foi nesse momento que o Sr. Antoninho, que tinha estado em Braga, traduziu de um camarote, em voz alta:
– É findo!
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 71-91.
Última Dádiva
A Júlio Monteiro Aillaud
Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme, belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças, fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis aí quanto ao pobre homem restava dos seus antigos haveres: – o horto, a um canto a nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas janelitas laterais, mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras.
De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam sere¬namente os seus melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia toda se toucava de flores fazendo dossel à vivenda, aquele pequeno canto de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a feição ingénua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua simplicidade.
No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob o alpendre, braços nus e peito nu, o chapei¬rão de palha grossa resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.
– Ó tio José! – gritavam-lhe do caminho. – Tio José! Ó regalado!
Mas os que entendiam de lavoura, proprietários e maiorais, esses deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.
Ora na verdade!... Belo horto, sim senhores! Por aquelas redondezas não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua cultura – tão esmerada e tão completa, pois que demais a mais nem palmo de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com simetria agradável, verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as castas – desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda acaçapada no chão húmido das regas, até às trepadeiras das vagens que enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o esmero, formando maciços de verdura sombria que os casulos esguios dos feijões crivavam de alto a baixo. Árvores, apenas as precisas para aformo¬searem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de frutas nas estações competentes – cerejas, peras, maçãs, pêssegos mesmo.
Poucas flores: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as cultivar, e nos canteiros ainda devolutos tinha semeado repolhos, que por sinal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os goivos. Uma vez por ano, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e ia levá-los em braçado à sepultura rasa das suas defuntas.
Exactamente nessa tarde tinha ele ido ao cemitério fazer a fúnebre visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de chorar. Estava nas suas horas tristes, nes¬sas horas em que as energias todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagelo de uma dor violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lágrimas. De modo que, sem esse lenitivo, aquelas medonhas tempestades custavam o dobro a supor¬tar. Abstracto, numa espécie de entorpecimento idiota, percorria sem descanso todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autómato. Se por vezes parava, recolhendo-se numa quietação atenta, logo um gesto brusco desmanchava a sua imobilidade de estátua, soltava um fundo gemido, e punha-se de novo a andar.
– Vens ou não vens?! – perguntava ele, evocando com dorido esforço a imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando aparecia era como se fosse um relâmpago: apagava-se logo.
Nesta luta com a sua dor as horas iam passando longas. Era já tarde, talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrelas, pois que o luar nascia tarde. Pesava sobre toda a paisagem o largo silêncio da noite, apenas cortado, ao longe, pela melopeia sonolenta do rio.
Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosme e viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se num recanto, onde a sombra era mais densa.
– Temos história... – resmungou consigo o rapaz.
E, rente a uma árvore, quedou-se alapardado, à espreita. Não desconfiou que fosse o José Cosme: aquilo era mariola de larápio que vinha por ali fazer das suas. Agachou- -se então, e pôs-se a procurar uma pedra. Apanhou duas, para o caso de não acertar a pri¬meira.
– Cão do diabo! – exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a pedra. – Espera que eu te arranjo... – E já ia arremessá-la na direcção do canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao lugar onde o rapaz estava.
– Melhor! Mais a jeito ficas...
E debruçando-se um pouco na parede, pôs-se a fixar o vulto que avançava, para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os ombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo defronte dele, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme. O vulto parecia, com efeito, ser o dele; lembrava-se agora de ter ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aqueles carreiros por onde elas tinham andado.
Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensi¬velmente, deixou cair as pedras e perguntou:
– Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luís... Vossemecê que tem?
O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:
– Dói-lhe alguma coisa, ó tio José?!
– Não dói, não! Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes. Bem me bondam as minhas aflições. Vai com Deus, vai!
O rapaz ficou surpreendido, triste do tom de súplica dorida que o José Cosme dera àquelas palavras, e retirou-se silencioso, quase aterrado agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse a pedrada.
No entanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruído que não fosse o das águas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadário, ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um autómato ou um sonâmbulo. Às vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. Nisto, de uma vez que passava em frente do can¬celo, pareceu-lhe ouvir passos.
– Ó Tomás!...
– Senhor José! – respondeu o que entrava, numa voz que era mesmo voz de barqueiro.
O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontrá-lo a pé, ele então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.
– Como tinha de madrugar...
– Pois são horas de largar, senhor José; isto vai para as duas. Não tarda que comece a amanhecer. – E como estavam à porta de casa: – Será bom acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vai. – Iam à vela se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.
Mas à ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar violentamente.
O barqueiro tentou animá-lo, constrangido:
– Então, senhor José?... O chorar é lá para as mulheres! Olhem agora que homem! – E tentava levantá-lo, pô-lo de pé. – Limpe lá essas lágrimas, que vai afligir o pequeno! Ou quer que ele vá a chorar todo o caminho?
O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e pôs-se a enxugar os olhos com a manga da camisa.
– Pois então levante-se lá. – E segurou-o com força por baixo dos braços. – Assim! Lá porque o pequeno vai para o Brasil não fique vossemecê a pensar que o não torna a ver!
Mas era isso mesmo o que ele pensava...
– Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno! – concluiu a chorar o José Cosme.
– Cismas! lembranças que vêm à gente quando está aflita. Mas há-de vê-lo que o não há-de conhecer, digo-lho eu! Mais ano menos ano, aparece-lhe aí rico...
«Rico! bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico! O que desejava era que voltasse, e que ele ainda fosse vivo só para o abraçar.»
«Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciência: o José Cosme que se animasse para animar o pequeno» – recomendava o barqueiro.
– Sim... sim... – tartamudeava o Cosme. – Vamos lá com Deus! Com’assim...
E num profundo ai dolorosíssimo, foi-se direito à porta para chamar o pequeno. «Não havia remédio, tinha nascido em má hora, havia de ser desgraçado até que o levassem para a cova...» Sobre a estreita e humilde cama o filho dormia profundamente. Que dor, ter de o acordar! Vieram-lhe tentações de mandar embora o Tomás e deixar dormir a criança. Quem sabe se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade daquele sono! Não tinha coragem para o acordar, fazê-lo vestir: era quase um pecado quebrar aquele último sono dormido sob o tecto paterno... «O último sono! o último sono!»
– Ainda se o deixássemos acordar... – aventurou-se a dizer o triste.
Mas o Tomás, que estava com pressa, lembrou secamente que eram horas de pôr o barco a andar. O José Cosme acendeu então a candeia, receoso de que a luz o acordasse, e achegando-se do filho pôs-se a escutar-lhe a respira¬ção. Dormia... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobres¬saltado como se fosse praticar um grande crime:
– Filho, olha que são horas, meu filho...
Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o estonteamento do sono, cerrando os olhos àquela hostilidade viva da luz, o pai agarrou-se a ele num abraço, e ambos romperam a chorar.
– Adeus, pai!
– Adeus, filho!
Confrangido, o Tomás, que se deixara ficar à porta, avançou para desatar aquele abraço.
– Olhe que é tarde, senhor José! Perdoe, mas olhe que é tarde!
O pai vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e saíram. Debaixo do alpendre, o Joaquinzito ficou-se um instante a olhar o tecto.
– A andorinha, filho?! – perguntou o José Cosme. – Deixa que eu hei-de olhar por ela, mais pelos filhos quando os tiver! Vai sossegado!
Mas o pequeno quis vê-la, pediu ao pai que o erguesse, era só um instante. Lá estava ela, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe tocou com as pontas dos dedos... – Adeus! – disse-lhe o pequeno afagando-a.
A esta palavra, o pai retraiu os braços e tomando o filho ao colo seguiu. Atrás, o barqueiro levava ao ombro a mísera arca de pinho: toda a bagagem do Joaquim.
Ao transpor o cancelo o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou soluçando:
– Quando voltarás ao horto, meu filho?!
O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam de tudo o que adorava – a andorinha, depois da andorinha o horto, as árvores, a velha nora, o cancelo, tudo enfim!
Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o sentiram murmurar, apertaram mais o braço, deram-se um longo beijo, húmido das lágrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pai desejava que o rio ficasse mais longe, muito longe, que fugisse diante deles, de modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava, divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação falavam alto.
– Pronto? – perguntou ainda de longe o Tomás.
Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.
Chegaram enfim. Num leve silêncio de acaso ouviam-se os soluços dos dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de angústia, pelo deslizar monótono das águas... Aquilo confrangia o barqueiro, ele também era pai... Por isso, mal chega¬ram à beira do rio, apressou-se a dizer para o pequeno:
– Ora bem, Joaquinzinho, beija a mão a teu pai e diz-lhe adeus.
Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar o filho:
– Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu amor... Nossa Senhora te veja ir. – E fez-lhe prometer que havia de rezar sempre a Nossa Senhora: ele também lhe rezaria, pois era ela quem dava saúde, quem fazia a gente feliz...
– Não te esqueças dela, mais da alminha de tua mãe e de tua irmã!
Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pai, beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra. Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava desvairado:
– Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericórdia!
E o Joaquim, sempre agarrado a ele, beijava-o na cara, na cabeça, nas mãos. Até que o Tomás teve de intervir: era preciso despegar dali por uma vez.
– Com’assim, senhor José, isto tem de ser... – E seguran¬do o pequeno com força puxou-o para ele. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José Cosme, que suplicava de mãos pos¬tas:
– Só um instante, só um quase nadinha, Tomás! – E o pobre pai caía de joelhos na areia, numa atitude de súplica.
Mas nesse momento o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando ao colo a criança.
– Rema! – intimou em voz rápida.
O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram – plhau! – sobre a água.
Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violência desesperada, ao ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus – lá do barco. – Adeus, Joaquim, adeus!
– Adeus, pai!
– Adeus!
Mas, repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na direcção do barco:
– Tomás! ó Tomás! Por alma de teu pai faz lá alto um ins¬tante.
Acabou-se! custara-lhe tomar aquela resolução, mas já agora era melhor ficar sozinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto, arremessou a jaqueta ao areal e de um lance deitou-se a nado. O Tomás, que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme, velho nadador destemido, com meia dúzia de braçadas ganhou-lhe de pronto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ânsia de esperar o pai, de o ver ainda outra vez. Num movimento rápido, o José Cosme entregou ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:
– É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho! Reza-lhe, sim?!
E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao bar¬queiro que lhe chegasse o pequeno para o último beijo...
Dado o último beijo, o barco pôs-se de novo em marcha. Vinha a romper a lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue em região misteriosa de lágrimas... E no silêncio agoureiro da noite, apenas cortado pelo bater monótono dos remos e pelo bracejar desalentado do triste nadador, à voz do filho que chamava respondia cada vez de mais longe – longe como se fora do Infinito! – a voz lacrimosa do pai – com o seu fúnebre adeus! que ele bem sabia ser eterno...
*
...Só quando o eco do último adeus do Joaquim, perdido na distância, diluído no luar que surgia, desfeito no lugente murmúrio das águas, fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar à praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar, tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudíssimo do Pólo, na direcção do horto silencioso...
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 41-50
Vae Victis!
Não estava ninguém na fonte, quando a Luísa, de cântaro deitado sobre a cabeça, ali chegou. Ninguém. Debaixo do sol risonho, ao murmúrio da água da bica, derivando, viva e clara, de um pedaço de telha partida, naquele socalco de pequeno cabeço em cujo topo, à roda da igreja branca, a aldeia negrejava, parecia tudo adormecido. Verdegavam perto os lameiros; iam viçosos, nos quintais e hortejos, os renques dos legumes, e já nos ramos das árvores, inteiramente vestidos de folha, picavam as primeiras flores.
Quase sem horizonte, porque outros cabeços o fechavam perto, esse recanto onde borbulhava a fonte parecia ali como escondido. Próximo, um ribeiro passava, além de umas paredes baixas, onde as mulheres costumavam lavar.
Mas não vinha dessa banda, àquela hora, o mínimo rumor de vozes, nem se ouvia, como noutros dias, bater a roupa nos lava¬douros. Como nas doces aguarelas, uma atitude de êxtase imobilizava ali todas as coisas, tocando-as de uma pontinha de sono – e as coisas, como as crianças, pareciam, sorrindo, deixar-se adormecer...
Tomada do mesmo espasmo, a Luísa quedara-se abstracta junto da bica, esperando que se enchesse o cântaro; – mas agora, ao ruído monótono do fio de água, escoando-se, lentamente, no bojo do barro insaciável, como que lhe acordara nos ouvidos, onde lhe tinha ficado encantada, e com todo o relevo da voz do Tónio, essa pergunta que ele lhe fizera:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Estava mesmo a ver o rapaz quando lhe dirigira a inesperada pergunta. Fora no adro, um domingo de tarde. Os homens, em descanso, conversavam de lavouras, sentados por cima do muro; as mulheres tagarelavam em grupos, de cocarinhas no terreiro sagrado; e ela, com outras da sua igualha, chasqueava, à porta da igreja, dos moços que jogavam a barra.
Fingindo uma coisa séria, o Tónio, que entrava no jogo, viera para ela em mangas de camisa, o chapéu deitado para trás, num instante em que lhe não pertencia atirar o ferro. Da violência do exercício, trazia o sangue a espirrar-lhe da pele e muito vivos os olhos azuis.
– Ó Luísa! – dissera-lhe ele chamando-a de parte. – Fazes favor de uma palavra?
Ela fora, na boa fé, e quase sem o pensar. Senão quando, chegando-se como para um segredo, perguntara-lhe com a voz muito quente:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Não tivera tempo de lhe responder, nem saberia tampouco; e ele mesmo, chamado para o «tiro» que lhe competia, desandara lesto e sem se voltar, deixando-a, incoerente, a pensar na atrevida pergunta:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Já o cântaro ia quase cheio, mas ela nem dava fé. Sempre que podia fechar-se num pensamento, nas suas horas de suave remanso, era naquele pensamento que ela se fechava; e muitas vezes, ao adormecer, a esperança de o prolongar em sonhos fazia-a pegar no sono quase a sorrir. Viera-lhe daí o que parecia às outras melancolia, mas que era para ela um gozo suave – o prazer de estar sozinha, de não ver nem ouvir ninguém, de devanear, ela só, naquele tema sempre constante...
E de tanto que repetia a pergunta em pensamentos, chegara a recear repeti-la alto; e aos seus olhos era assim como um lindo quadro, cheio de luz e realidade, esse querido domingo de tarde, no adro, em que ele, o Tónio, lhe fizera ao ouvido aquela pergunta:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Parecia-lhe haver acordado então de um grande sono que durara toda a sua vida passada, de que mal se lembrava agora; e essa tarde no adro, que podia ter sido, para ela, tão indiferente como foram tantas, era agora como a sua primeira hora de existência, – essa tarde em que o Tónio, chegando-lhe os lábios quase ao ouvido, lhe perguntara numa voz muito quente:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Parecia-lhe mesmo estar a ouvi-lo: a sua voz como que ficara viva dentro dela, – e esse doce, misterioso ritmo em que se fun¬dira, causava-lhe, de cada vez que o escutava, um encanto novo...
Recolhida, suspensa como num voo, num êxtase de toda a sua vida, outras vezes era ela mesma que a invocava... E de ouvido muito fito, os olhos semicerrados, um arroubo todo espiritual elevando-lhe os seios da alma, aquela voz descia do céu:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Voavam-lhe as horas neste enlevo, entre as paredes do seu tear; e o mundo, a felicidade, a alegria, o próprio Deus, residia tudo dentro dela, – na doce, enternecida recordação daquela tarde, no adro, quando o Tónio, sem ela o esperar, lhe fizera ao ouvido essa pergunta:
– Dás-me um beijo, Luísa?
E no entanto, não lho dera então, nem lho daria ainda hoje, esse beijo que lhe pedira o Tónio. Porquê? Nem ela o sabia: mas só de o pensar, as faces purpurejavam- -lhe, e a luz que desde essa tarde a envolvia toda, parece que tinha, de repente, um espasmo de intermitência...
Isso, porém, acontecia muito raras vezes, e quando sucedia era passageiro; pois que, sondada bem no íntimo, dela se pode dizer que vivia apenas, extasiada, de um êxtase da sua memória, e que a sua memória, semelhante a um estado imóvel, nada mais podia reflectir do que a cena desse domingo de tarde, no adro, quando o Tónio, sem ela o esperar, viera segredar-lhe mesmo ao ouvido:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Tudo o mais era-lhe indiferente na vida, e como que o tinha esquecido; e para as coisas e factos de ocasião, em que não havia remédio senão reparar, tinha agora uma benevolência quase risonha que repartia também com os outros, e que se convertera, para com os pobres, numa caridade cheia de ternura. Como o tear ficava na casa térrea de entrada, os pedintes era a ela que se dirigiam, uns da porta, outros da janelinha, e alguns havia já a horas certas. Parava de tecer a Luísa, e elevando a voz chamava pela mãe:
– Ó minha mãe! Faça favor de trazer um bocadinho de pão, que está aqui um pobrezinho.
E se a mãe replicava com o perdão – «Dá-lhe o perdão, que não pode ser» – ela mesmo, dali a pouco, ia-se ao pão e cortava-lhe um pedaço, dizendo às vezes que era para ela.
A mãe, que percebera, dissera-lhe a rir de uma dessas vezes:
– Tanto pão! tanto pão, rapariga! Ora aí está porque tens essa cor, que é mesmo da cor do centeio!
Mas era uma esmolinha que dava, e um desejo que satisfazia; – e só ela, afinal, não tinha que pedir nem que desejar! Graças a Deus, o trabalho sobrava-lhe, e não tinha mãos a medir; e quanto a ambições, isso que ela ouvia que todos tinham, não as sentia de casta nenhuma. No entanto, essa mesma felicidade era para ela um facto inconsciente e derivava, sem dar fé, da obsessão deliciosa daquele domingo de tarde, no adro, em que o Tónio lhe dissera ao ouvido:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Depois dessa tarde, sem contar as vezes que se salvaram, apenas uma ocasião tinham falado. Quase sem intenção, o Tónio chegara-se à janelinha do tear, e, assomando a cabeça loira entre os dois cacos de manjericos, pusera-se a falar com ela. Tinham con¬versado um pouco de tudo; primeiro de coisas simples da vida, e por fim, sem bem saberem como, de casamentos: uns que tinham gorado, outros que prometiam fazer-se, a sorte doutros que se tinham feito...
Nesta parte da conversa ainda a viúva interviera, e os três tinham rido o seu bocado. O Tónio andava em dia com os amores de toda a aldeia, e tinha um modo de dizer as coisas, e principalmente de se referir a pessoas, que fazia rir a mãe e a filha.
– E tu, ó Tónio, – dissera a viúva em certo ponto, – diz’ lá tu quem é que derriças?
Como dois floretes muito subtis, que se cruzam sem se tocar, os olhares dos dois, da Luísa mais do Tónio, haviam-se cruzado repentinamente. Ambos notaram isso, e ambos, no íntimo, ficaram como surpreendidos…
– Ora, ti Ana! eu penso lá nessas coisas! – acudiu o rapaz.
E como a Luísa se pusesse a tecer, e o ruído do tear abafasse as palavras, levantou a voz para que o ouvissem:
– Nem quero!
Mas a viúva objectou:
– Olha quem! Não queres! Põe lá que se te saíres a teu pai... – E com intentos de lhe puxar pela língua, perguntou: – Seguro que não botaste no S. João os teus papelinhos, ó Tónio?...
– Ora! – fez logo o rapaz sem ligar importância. – Mas isso toda a gente! – E para arredar alguma pergunta indiscreta, acres¬centou: – Aposto que até vossemecê?!
Riu-se a viúva com muita vontade:
– Ai, filho, não! Olha eu! Algum tempo, algum tempo! Mas onde isso vai se bem correr!
E como uns laregos entrassem pela casa dentro, de focinho a rabuscarem o chão, correu a viúva a enxotá-los – «Coch'qui, inimigos! Coch’qui!» – enquanto os olhares do Tónio e da Luísa, rápidos como dois relâmpagos, segunda vez se cruzavam no ar...
– Vou-me que são horas, ti Ana! – disse logo o Tónio. – Até logo. – E não olhando já para a tecedeira, despediu-se também:
– Adeus, Luísa.
…Depois, mais nada. E aquilo mesmo, que podia ter sido, afinal, sem intenção, quase se lhe diluíra a ela da lembrança, – e aí persistira só, num fundo claro de madrepérola e num relevo cada vez mais vivo, aquela cena de domingo de tarde, no adro, quando o Tónio, sem ela o esperar, quebrara, nessa pergunta, o virginal encanto da sua adolescência, – fazendo-a acordar na puberdade:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Na fonte, enquanto o cântaro levou a encher-se, não surgira sombra de gente. A mesma sonolência morna adormentava à roda todas as coisas, e só no azul do ar, muito fino, que o brando sol da manhã diluía numa luz suave, passavam, tocados de opala, os pássaros chilreadores. Na superfície do pequeno tanque adjacente, forrado de musgo, onde os animais costumavam beber, o céu espelhava-se límpido, muito fundo, com o ligeiro algodão de uma nuvem quebrando-lhe a um canto a monotonia; e já a água borbu¬lhava do cântaro como em fervura, e a Luísa parecia esquecida, – quando um casal de borboletas brancas, interceptando, num voo sereno, a linha perdida do seu olhar, veio, imperceptivelmente, evocá-la de novo à realidade...
Reparou então que estava cheio o cântaro, e já a transbordar; mas indo a pegar-lhe para se ir embora, viu, de repente, assomar o Tónio num deslado, – como se o pensamento dela o evocara...
Tiveram ambos, naquele momento, o mesmo abalo de viva surpresa, durante o qual se fixaram muito um ao outro, a averiguar se lhes mentiam os olhos; – e com a certeza de que lhes não mentiam, adveio aos dois, no mesmo instante, a sensação entre perturbadora e deliciosa do isolamento em que se encontravam...
Sem reflectir, parece que cedendo a um impulso estranho, dirigiu-se o Tónio para a banda da fonte; mas adivinhando nos modos da Luísa a turbação que a enervava, sem também saber a razão os passos hesitaram-lhe...
De repente, como se a cumplicidade do lugar e do silêncio o estimulasse, – e ela, abandonada, parecesse agora provocá-lo – apertou-a nos braços o rapaz; – e colando-lhe na boca os lábios frementes, como se lhe fora a sorver a vida, beijou-a num frenesi.
Ao mesmo tempo, numa vibração de rumor que vai a apagar-se, aquela voz deliciosa do Tónio, tão viva, desde esse domingo, como um canto de rouxinol, parecia agora, quase extinta, fugir e despedir-se da sua memória:
– ...«Dás-me um beijo, Luísa?...»
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 219-225.
Vae Victoribus!
A Maria Lucília
Em Dezembro, às seis é noite cerrada. Mais bocado, menos bocado, a essa hora recolhia do monte o José Gaio, sozinho, sachola ao ombro, um pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima dele, o céu ia-se fazendo cada vez mais negro, dessa negrura espessa de tempestade que infunde pavor à gente, e da qual os próprios pássaros têm medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora, agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar não sei que estranha elegia... A um relâmpago mais vivo, o José Gaio apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a Magnificat. O trovão chegou depois, lúgubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude do céu. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento, encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não ficava longe. Depois, a ladeira, – e no meio da ladeira a casa.
– Vamo’ lá com Deus! – fazia ele animando-se.
Um clarão súbito de relâmpago deslumbrou-o.
Diante dele surgiu de repente a paisagem, e de repente desapareceu, magicamente iluminada. Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão, que ele instintivamente parou e levou ao céu as mãos aflitas, num gesto de quem implora misericórdia. Naquela iminência de perigos as próprias árvores lhe pareciam imobilizadas pelo terror, à beira do caminho. E através dos castanhais, o surdo rumor do vento era como a voz implorativa da natureza, unindo-se à voz dele num longo coro de súplicas...
O José Gaio ia transido. Mas pior ficou quando de repente, sem saber de onde, alguém chamou por ele, lugubremente:
– Ó José Gaio!
O homem parou. E como perto dele apenas enxergasse os braços da cruz negra, que era o sinal de ali terem matado o José Tendeiro, há anos, apertou o passo e tomou por um atalho, direito à ponte. Mas então a mesma voz tornou-lhe mais de perto:
– Ó José Gaio!
Quis fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. Nisto veio um relâmpago que iluminou a mil cores a paisagem. Ele cerrou os olhos com força, nervosamente, ferido por aquele deslumbramento que por milagre o não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma imobilidade de estátua prendia o camponês à terra. Foi então que veio de novo aquela voz, como um prolongamento do trovão:
– Ó José Gaio!
Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta, galgaria a ladeira num instante. Mas, involuntariamente, cedendo a uma força violentíssima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquele rugir da água que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monótono, infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Senão quando, estacou ouvindo a mesma voz:
– Ó José Gaio!
E logo atrás da voz, com um rastro, um intensíssimo relâmpago cor de sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquela cruz preta de longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a tempestade...
Aquela serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-ia que esse nobre exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os olhos e cerrou violentamente as pálpebras. Mas em vão! que fora tão vivo o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cérebro, que num fundo cor de sangue, como num transparente de mágica, ele via nitidamente desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então deram-lhe ímpetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o peito, impelindo-o. Precisamente nesse momento, a voz tornou a chamar:
– Ó José Gaio!
Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais íntimo do seu ser. Um longo desfalecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a última fibra de energia, como se quebra um vime seco. Aquela paralisia atacou-lhe também o cérebro: não formava um só raciocínio nem
elaborava sequer uma ideia, a mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo ele tremer, abalado como a própria terra. Depois, outro relâmpago fez reviver nele a vida do espírito; sentiu um grande pavor àquele aspecto súbito do campo que diante dele se perdia de vista, afogueado como se estivesse todo em chamas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda casais, surgiam de repente, nítidos nos seus contornos, definidos maravi¬lhosamente nas suas atitudes. As grandes árvores despidas, sobre¬tudo, tinham um ar fantástico, nessa pureza nítida de recorte que traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e rama¬rias. No meio deste cenário de mágica, a um tempo majestoso e tétrico, o triste camponês sentia-se apavorado, jactitante e quase inerte, ali chumbado à terra, hirto como a cruz que tinha diante. E nem um só gesto implorativo, e nem uma só palavra de súplica lhe saía dos lábios crispados. Porque uma vez que tentara uma pala¬vra, o mais formidável trovão cortara-lha na primeira sílaba. Depois, aquela voz não o largava, imperturbável e monótona: – Ó José Gaio!
E ele, não respondendo nem falando, pensava esconjurá-la, exorcismá-la como se fosse a voz de um duende. E para esta evocação do sobrenatural muito concorria, como os senhores compreendem, esse aspecto sereno da cruz negra, inabalável sob a asa agitada da procela.
Nisto veio a chuva, em grossas gotas a princípio, em cordas de água depois. Ela varejava-o inclemente, impelida agora por um vento sul furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer. Como todo ele ardia em febre, aquele dilúvio era quase um celeste beneficio para a sua cabeça num vulcão. Mas quando os relâmpagos vieram, aquela reverberação da luz nas cordas de água fez-lhe um deslumbramento mais forte. E caiu inerte sobre o caminho lamacento por onde a água escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume, sobrelevando o trovão, repetia ao lado da cruz:
– Ó José Gaio!
Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como caiu assim ficou: – de borco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quase tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relâmpago. Ela lá estava no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E pois que parara o dilúvio, dos seus braços abertos as gotas da chuva caíam, vermelhas à luz como grossas lágrimas de sangue...
Cobarde! Nenhuma comparação pode dar ideia do estado de prostração desse miserável, reduzido pelo terror a uma quase inacção de besta morta. Dir-se-ia um imundo trapo ali caído, abandonado ali na lama ignóbil de um caminho, à espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E enquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastelamento fantástico das grandes nuvens plúmbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com fúria o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso espírito pode conceber de mais grandioso e de mais sublime, épico e trágico a um tempo, – soberbo, majestoso, imponente.
Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões, aquela voz:
– Ó José Gaio!
Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio agravava-lhe o outro, o do medo. Parecia colado à lama, preso ao caminho como se fosse uma rocha. No entanto, a espaços, tinha a compreensão clara da sua posição e do seu estado. E então uma raiva súbita galvanizava-o: queria erguer-se, fugir, desaparecer – erguer-se como aquela cruz, fugir como aquele vento, desaparecer como esses relâmpagos, que nem deixam rastro na treva...
Tais rebates de coragem eram, porém, efémeros, impotentes para lhe provocarem um movimento. Aquele diabo tinha de morrer ali, miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as quatro pernas. E esta ideia, que o instinto de viver lhe sugeriu, apavorou-o ainda mais que a própria tempestade. Morrer ali! Mas que dúvida, se ninguém lhe vinha acudir, se não passava por ali vivalma, a tais desoras! Era horrível! No meio de um caminho, numa noite medonha de tempestade, ao pé daquela cruz negra de longos braços hirtos – morrer ali!... Eram então já por ele as lágrimas que essa cruz parecia chorar?!...
Estava nisto, quando num silêncio de acaso ouviu passos a distância. Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por ali, de tropeçar nele, talvez. Subitamente, sentiu--se reviver. Estava salvo. Em breve estaria de pé, – de pé como essa cruz que um relâmpago muito vivo acabava de lhe mostrar... No entanto, a voz é que se não importava:
– Ó José Gaio!
Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o calcassem, reuniu num supremo esforço as máximas energias, e rebolou-se para um lado, até ficar detrás de umas urzes. Coisa notável foi, senhores, que esse miserável em vez de gritar calou-se, e todo se recolheu numa absoluta quietação, com medo que o surpreendessem... E quem quer que era passou, cabeça nua, diante da cruz gotejante... Aos ouvidos do miserável chegou um como murmúrio de prece... Não ia só a rezar; ia também chorando, aquele homem...
... Quem seria?
Um clarão branco de relâmpago fez irromper da treva, lívido como um espectro, o filho do José Tendeiro...
O desgraçado ia a chorar pelo pai, ali assassinado havia anos, por uma noite como aquela...
Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquele cobarde não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quase arrumado à cruz.
E assim esteve horas e horas até que, noite velha, cessou a tempestade, perdida num murmúrio longínquo, lá na extrema fímbria do horizonte... Quando a lua rompeu, lívida num céu de anil, nem a grande sombra da cruz, incidindo sobre aquele corpo, como um beijo ou uma bênção, logrou reanimá-lo. Tinha morrido, o estafermo!
Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abade foi depois buscar o corpo. Os médicos nem lhe tinham mexido.
– Sangue pelos olhos, sangue pela boca, sangue pelo nariz, uma congestão muito linda – dissera um a rir.
– E muito mal empregada! – fizera o outro do lado, indiferente.
Mas quando os da maca disseram a um tempo – Upa! – esse bom velho do abade caiu de joelhos diante da cruz, numa convulsão agudíssima de choro. E elevando ao céu as mãos mirradas – ao céu que um divino azul fazia diáfano – ele exclamou, soluçando:
– Senhor! Senhor! A vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa misericórdia!
…Segredo de confissão... – mas o abade bem sabia quem tinha ali matado o José Tendeiro...
In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas, Lisboa, Portugália, s/ d, pp. 93-99.
|
|