Nada,
nada, nada.
A impaciência torna-nos imprudentes e pior:
incompetente, ele fora incompetente.
É impossível ser eficaz assim. Os
pacientes acertam no alvo porque só atiram
quando o alvo está perto, a um metro. Não
se trata de boa pontaria, é pura e simplesmente
paciência. Esperar que a presa se aproxime.
Se ela está lá ao fundo não
corras atrás, porque ela ouve os passos e
vê o teu ar apressado, a tua ânsia.
Nenhuma presa é estúpida, tudo o que
tem medo percebe; ter medo acelera o processo de
entender, e se a presa tem medo compreende, percebe
tudo. Se corres atrás dela, ela foge: já
ouviste falar deste fenómeno, não?
Espera, sim, no teu canto, se não correres
atrás a presa não foge. Se não
correres atrás a presa não tem medo,
e se não tem medo não percebe, se
não tem medo fica estúpida, não
trabalha, não se esforça, não
se esconde, entedia-se, senta-se, tenta uma sesta,
adormece. Aí, disparas.
Ah, mas ele não. Incompetente: não
se apaixonava, ou melhor: não conseguia manter
esse estado. Porquê tanta pressa? Tanta impaciência.
Lá estava ele de novo frente aquela mulher.
Sentados os dois. Apressara-se, estúpido,
a apaixonar-se, e agora aquilo: aquela mulher aborrecia-o.
Poucas semanas haviam passado. Fora incompetente
no acto de se apaixonar. Não faço
bem isto, pensava para si próprio, como alguém
que se recrimina por não estar apto a executar
determinada função técnica.
Como alguém que não sabe consertar
um rádio, que não percebe os mecanismos
de uma máquina.
Aproximou-se de um vaso. Cozinha estúpida,
casa estúpida, e as plantas, para que raio
quer ela uma planta?!
Agarrou com as duas mãos no pequeno tronco
que crescia no vaso e puxou. A princípio
alguma resistência, mas depois a planta saiu.
Atirou-a para um canto.
As raízes deixaram terra atrás de
si. Imaginou que aquele era o sangue da planta,
a terra; mas não se sentiu um criminoso,
sentiu-se um jogador, alguém que brinca.
- Sangue - gritou – a planta está a
deixar cair sangue na cozinha!
A mulher veio a correr, ficou parada junto à
porta. Ele escavava com as duas mãos e atirava
a terra para fora do vaso.
A rapariga começou a chorar, quase não
se ouvia; não se mexia.
Ele continuava a tirar terra. Depois pôs as
mãos dentro do vaso, no espaço agora
aberto.
Ela não se mexeu. Estava parada, à
entrada da cozinha.
- Estúpida. Põe terra por cima das
minhas mãos. Vá, estúpida.
Gostas de mim?
Ela aproximou-se e com as duas mãos pôs
terra de novo no vaso. Isso, disse ele.
As duas mãos agora cobertas de terra, já
escondidas. Para ela pôr mais terra em volta
dos punhos, gritava.
Os dois pararam. A mulher como que abrandou de chorar;
e ele calou-se.
As duas mãos enterradas por completo no vaso.
Ele perguntou: Já posso sair daqui?
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