Ha tempos, escrevia
Sabino de Sousa Pancada, commerciante de sêccos
e molhados no Pará, a seu unico sobrinho e futuro
herdeiro Alfredo Carvalhosa, já naquelle tempo
pai de dois pequenitos e esposo da boa Maria do
Resgate - "ha tempos que medito uma viagem á Europa,
com residencia demorada no meu paiz natal. Vai
em trinta annos que aqui estou, e nem uma só vez
tornei a vêr Lisboa. A velhice traz-me saúdades.
De fórma que por estes tres ou quatro mezes mais
proximos ahi me tens, prezado sobrinho. Arranja-me
quarto ao pé do dos teus pequenos, de quem me
lembro tanto como se os tivesse visto alguma vez.
O Arthur, principalmente, é a minha paixão. A
photographia que me mandastes ultimamente, pinta-m'o
como um cherubim, pobre criança!..."
   - Aquillo é homem d'ouro! ponderava
o Carvalhosa para a esposa, mignone sadia
e fresca, que tornava o ninho sonoro da musica
dos seus risos. Honrado a mais não! E homem intelligente!
Quando d'aqui sahiu não passava de um pobre rapaz
sem protecções e sem chelpa, infeliz no officio
de selleiro que lhe mandaram ensinar, e devorado
de febre e desgostos. Isto contava meu pai que
Deus tem. D'uma vez apparece-nos em casa, de chapéo
á brasileira e challe-manta, a pedir a benção
aos tios e declarando que se partia para o Pará,
na barca Ligeira, do Neves. Cada qual fez
por tirar-lhe semilhante mania dos cascos. - É
morte certa! dizia minha mãi. - É tolice de metter
os tampos dentro! ponderava meu pai, que fôra
da alfandega de consumo.
   Apesar de tudo, o tio Sabino abalou.
Quatro annos depois tinha o estabelecimento na
rua de Gonçalves Dias, e hoje é rico como os primeiros
negociantes do Pará, despacha gommas, ginguba
e oleo de palma, negoceia em velames e cabos,
tem fazendas no interior e dinheiro nos bancos,
subscreve com grandes quantias para os monumentos
e obras uteis do seu paiz, socorre os parentes,
estudou nas horas vagas, e sabe onde tem a cabeça,
coitado!
   - E homem de sessenta annos! juntou
Maria do Resgate, afagando os cabellos loiros
do Arthur.
   - Deus lhe acrescente a vida, que por
me julgar habilitado á herança me não esqueço
da amizade com que o bom velho me tem recebido.
   - Nem eu!
   - Nem eu! gritou o Arthur, que era
tido em casa como um precoce extraordinario, e
já tocava no piano pedacinhos da Madame Angot.
   - São horas, vou-me para o serviço,
disse o Carvalhosa dando nas testas da familia
os tres beijos sacramentaes.
   Era do correio havia dez annos, vida
trabalhosa mas soffrivelmente paga. Nessa noite
tinha de seguir para Elvas em commissão de serviço.
Estava-se em fevereiro, tempo humido e lamacento.
O Carvalhosa andava um pouco encatarrhoado. Á
porta do correio tirou o lenço para se assoar,
e á volta para casa, caminho do jantar, notou
que perdera a carta do tio Sabino. Não lhe deu
aquillo grande cuidado, a fallar a verdade. Tinha-a
mettido no bolso da ingleza provavelmente, e ao
sacar o lenço cahira-lhe. Nunca Deus lhe désse
maiores cuidados! Esteve até á noite com a familia,
rindo das doidices do Arthur e contemplando com
deliciosa emoção de pai, o soberbo grupo de Maria
do Resgate com o mais pequenino ao peito. Tivera
sempre pelo lar aquella adoração lyrica e sã,
que o devotava corpo e alma á familia, e o parecia
guiar no trabalho como essas grandes estrellas
cujo deslocamento conduz através do deserto as
pobres caravanas melancolicas. Era feliz, realmente.
Nunca passára os tempos maus de certos desgraçados
surprehendidos no berço, pela pobreza arida ou
pela desolada orphandade. Perdera o pai quando
o emprego lhe rendia quinhentos mil réis, já o
Arthur era nascido. Annualmente, nos meados de
julho, o tio Sabino presenteava o anniversario
do pequeno com uma inscripção de cem mil réis,
varias latas de dôce de tijolo, uma duzia de cuias
pintadas a escarlate e branco, e basta colecção
de plumas e cofres com embutidos indios.
   O aceio e o bom gosto de Maria do Resgate
rebrilhavam na disposição dos moveis, de uma conservação
viçosa, na symetria dos quadros de gravuras ou
oleographias, na brancura dos umbraes, na nitidez
dos papeis, na graça simples dos reposteiros de
cretone e das cortinas de cassa, na harmonia impagavel,
dos bouquets de rosas e dhalias cortadas
no quintal e radiantes á vista em jarras de porcelana
esmaltada, sobre a cimalha do velho aparador de
carvalho, a preciosidade da casa, que a esposa
trouxera.
   Desde os quinze annos que tinha sonhado
o futuro assim - uma casa limpa, uma mulher fresca
e risonha, bons dentes e halito suave, dois pequenos
fortes, braços brancos e olho ingenuo, em cujo
azul ceruleo revisse, como num espelho, a sua
ventura pacifica e dôce, de casado. E mais tarde
a riqueza bafejal-o-hia, trazida pelo tio Sabino,
bom velho cuja solicitude lhe dava uma commoção.
Poderia vêr o Arthur num palacete de jardins umbrosos
e rumores de cascata, medico ou engenheiro, e
de bigode, com um coupé bem polido e uma
parelha bem gorda. E o mais pequenino, tambem,
de militar, com premios e galões, atravessando
ao entardecer a Baixa sobre um cavallo branco,
no meio dos suspiros das herdeiras ricas. Por
esse tempo seria elle um velho e a Maria do Resgate
tambem. Vinha-lhe uma pena sincera de não ter
vinte annos quando os pequenos os fizessem, uma
especie de ciume da intimidade que elles viessem
a dispensar aos amigos, e do amor que prodigalisassem
infructifero a qualquer dos alegres peccados mortaes
de Hespanha que a matilha cérca de um prestigio
canaille de bacchantes.
   Ás quatro horas jantaram. Era uma quinta
feira fria, sol limpido e grande pureza de ares.
Ao largo o rio, visto d'aquella altura, tinha
um espanejamento de enseada, em leque. Um panno
de fundo, de cordilheiras e nuvens ás camadas,
cahia de cima fechando o horisonte. Os barcos
corriam á vela no rio, e o fumo dos vapores da
carreira ennodoava o azul placido. - Subia o pregão
das ovarinas descalças e o rumor dos trens, circulando.
Uma especie de bondade despregava bençãos, de
cima do azul em cupula, que as pombas cortavam
de adejos castos, como lenços saudosos que palpitam,
fazendo adeuses á terra.
   Abriram uma garrafa de Porto, á sobremesa.
O Carvalhosa quiz saber se estava o farnel aviado
- partia ás oito horas no comboio de Santa Apolónia,
e demorava-se tres dias. - Escusava de gastar
no bufete.
   - Tanto tempo! disse amuada Maria do
Resgate.
   - Mas era serviço- que remedio senão
obedecer...
   - E eu que fique sózinha para aqui!
   - Manda chamar a tia Prazeres, aconselhou
o marido. Já te fica companhia.
   - Não está em Lisboa. Foi acompanhar
o genro a Villa Franca.
   - Ora! tres dias correm num momento.
Deixa lá, filha.
   Bebiam a pequenos goles aquella alegria
côr de opala, que polvilhava carmins de vida nas
faces e reluzia nos olhos com uma scintilla garota.
   - Quando chegará o tio Sabino? perguntou
o Carvalhosa.
   - Tem tempo, respondeu a mulher.
   - Damos-lhe o nosso quarto, quando
elle vier. É o mais espaçoso e o que tem melhor
papel. Demais fica ao pé da sala...
   - Exacto. É preciso comprar dois metros
de alcatifa, que a nossa está velha. E outro candieiro,
de globo.
   - Isso depressa se faz. Estava-me agora
a lembrar d'uma cousa, que tinha immensa graça.
   - Que é?
   - Se elle chegava por ahi ámanhã ou
no outro dia; emfim, quando eu estivesse fóra.
   - Mas nunca o vi! disse Maria do Resgate.
   - Era por isso que tinha graça. As
duvidas em que havias de ficar!... Mas espera.
E o retrato que vinha dentro d'aquella maldita
carta, que perdi? Lá se foi tambem, com os demonios!
   - Deixa. Não se perca o tio, o mais
não faz transtorno.
   - Egoista!
   - Tens os olhos luzidios, agora reparo.
   - E tu as faces tão córadas, menina!
   O Carvalhosa tornou a encher os calices.
E tomando o seu, tocou-o com o de Maria do Resgate,
para uma saude.
   - Pela felicidade dos nossos pequenos!
disse o marido.
   - Vá lá, acrescentou Maria do Resgate,
pela felicidade dos nossos pequenos!
   Beberam. Então o Carvalhosa mudou de
lugar para vir sentar-se entre a mulher e o Arthur.
E baixando a voz disse:
   - Sabes que falta uma menina no nosso
rancho. Não gostavas?
   Ella córou toda, e baixou a vista rindo
com os seus dentinhos gulosos.
   - Toleirão! murmurou, torcendo-lhe
a orelha.
   - Arthur! disse o Carvalhosa.
   - Papá!
   - Ficavas muito contente se eu te désse
uma irmãzinha, meu filho?
   - Oh papá, eu antes queria um cavalinho.
Dê, papá, dê...
   - Que destempero! fez Maria do Resgate
com um riso dôce.
   Eram seis e meia da tarde, noite já.
   - Vou vestir-me, disse o Carvalhosa.
Pois não sabes? Tenho a cabeça leve.
   O corredor estava ás escuras, e os
passos do Carvalhosa soavam, já no quarto. Maria
do Resgate acendeu uma vela e entrou com o par-dessus
de viagem. O marido assoprou a luz, e ergueu-a
ao collo, vigorosamente.
   - Não faças bulha, que a rapariga está
na casa de jantar, segredou-lhe ella toda tremula.
   Ás sete horas, o Carvalhosa beijou
os pequenos e partiu.
   - Ó papá! gritou da janella o Arthur.
   - Que é isso?
   - Não se esqueça da manazinha, não?
   - Já a encommendei, descança.
   No dia seguinte, quasi duas horas da
tarde, bateram á porta e a criada veio dizer que
estava um senhor de idade. Maria do Resgate foi
vêr. Apenas ella appareceu, um homem já ruço depôz
no corredor uma pequena mala de coiro, e abrindo
os braços estreitou com a maior franqueza a pobre
rapariga, pespegando-lhe tres beijos muito repenicados
nas bochechas.
   - Querida sobrinha! querida sobrinha!
fazia elle repetindo os abraços, com uma ternura
que os seus cabellos brancos tornavam honesta.
E detendo-se a notar o embaraço e o rubor da pobre
mãi, observou:
   - Tu não me conheces, hein? E toda
espantada a olhares para mim? Eh! Sou o tio Sabino
Pancada, o do Pará, o que escreveu ha duas semanas.
Não te mandei um retrato? Vê lá se estava parecido,
olha bem.
   Mais risonha já, Maria do Resgate levou-o
para a saleta, bem ao pé da janella, e esteve
a miral-o. Era homem alto e magro, maçãs salientes
e enormes suiças em cypreste, oculos escuros e
cabello á escovinha. Tinha as grossas mãos d'um
trabalhador, dedos nodosos e unhas chatas, o olho
sereno dos fortes e a pelle requeimada.
   - Pois é o tio? disse ella adoravelmente.
Ah como estou contente em o vêr, não faz idéa.
Tanto que lhe devemos, tanto! Succedeu justamente
o que o Alfredo pensava... justamente! Uma cousa
assim, não.
   - Então que pensava meu sobrinho?
   - Hontem á noite, antes de partir...
   - Que? fez elle com espanto, penalisado;
partiu?
   - Ás oito da noite de hontem para Elvas,
em serviço do correio. Que elle é do correio,
ha mais de dez annos. O tio deve saber.
   - Sim, sim, é do correio. Mas que pensava
o excellente rapaz?
   - Disse-me assim; muito me havia de
rir se por estes dias, em quanto eu andava por
fóra, te apparecia ahi o tio Sabino.
   - A passagem tem graça; palavra que
tem!
   - E vai, disse-lhe - oh filho, mas
eu nunca o vi mais gordo - modos de dizer! - Pois
era por isso mesmo que tinha graça. A cara com
que tu ficavas!... Porque na verdade não o faziam
em Portugal tão cedo. A carta dizia por estes
mezes. Já o tio vê...
   - De certo, de certo. Mas uma pessoa
não faz sempre as cousas como as premedita, filha.
Ás vezes pensa-se assim, e sahe assado. Principalmente
no commercio. De modo que recebi um telegramma
do meu correspondente em Paris e tive de embarcar
no paquete mais proximo. Cheguei agora mesmo.
Venho enjoado do mar e aborrecido da vida a bordo.
Que massada, não imaginas! Vossês dão-me cá commodo
em casa, como eu lhes mandava pedir? Apesar de
viver só no Pará, tenho sempre pena de não haver
arranjado familia. É como um homem vive feliz.
Eu fico em qualquer canto, não se incomodem vossês.
   - Eu mando arranjar o quarto num momento.
E venha o tio vêr os pequenos, o seu afílhado
e a casa. E tomar alguma cousa, que deve trazer
vontade.
   - Não será mau, não será mau.
   - Arthur! chamou tôda radiante a Maria
do Resgate.
   Uma criança appareceu de bibe curto
ás preguinhas, todo garrido de rendas e entre-meios.
Era forte e vermelha, de grandes olhos e bocca
pequenina. Tinha uma barretina de cartão na cabeça
e uma espada na mão, meias de lã ás riscas, ares
de guerreiro victorioso.
   - Eh maroto! fez o tio Sabino com um
movimento para agarrar o pequeno.
   - Quem é, mamã?
   - O teu padrinho, pateta; pede-lhe
a benção e dá-lhe um beijo. - O pequeno obedeceu.
   - Gostas de mim, gostas! inquiria,
fazendo inflexões ternas de voz, o velho commerciante.
- E para o entreter promettia-lhe caixas e caixas
de bonitos que trouxera na bagagem, para elle
só. Cobria-lhe as faces de beijos, dizendo - pareces-te
com teu pai, tens o ar e os olhos da nossa gente,
marotinho. E loiro e valente, eh!... Maria do
Resgate dava ordens na casa de jantar, revolvia
as gavetas do linho rico para a cama do hospede;
ia-se estrear a colcha de damasco amarello, com
passaros, que o Carvalhosa adquirira, num leilão.
E dos guarda-louças sahia a melhor porcellana
ingleza, quasi transparente, com filetes delgados,
de caros esmaltes em mosaico. Quando tio Sabino
entrou na casa de jantar teve como um deslumbramento.
As crianças saltavam-lhe nos joelhos fazendo perguntas
sobre tudo; as cortinas de cassa afastadas para
a banda, deixavam entrar o sol tepido de inverno
e a pureza incomparavel do ar. Pelas janellas,
abrangia-se o panorama mais vasto e pittoresco
da cidade e do rio; os canarios cantavam celebrando
a alegria da hora e comendo a alface fresca e
tenra presa nos arames das gaiolas; no aparador
de carvalho de ferrarias cinzeladas, as frutas
e as passas, ás pinhas nos açafates das Caldas
e em fruteiras de vidro, sorriam em disposições
symetricas; tinham posto flôres frescas nas jarras
e descoberto a face de crystal polido do faqueiro
de prata em estojo de velludo cereja. Um gosto,
um conforto e um aceio aromaticos, pareciam crystallizar
naquelle interior a felicidade domestica, como
um diamante nos tres dentes de um engaste. Havia
um só talher, mas as crianças pediram mais lunch
e foi preciso para as atisfazer e agradar ao tio
Sabino, sental-as á mesa, aos lados do velho,
doido de alegria e cheio de commoções de ventura.
   - Vossês aqui devem ser muito felizes,
dizia elle mírando tudo. Vê-se de tudo isto que
devem ser bem felizes. Ah!... eu nunca tive familia,
senão criança. Que bem que isto faz!
   E dilatado referia a sua historia,
os contratempos dos primeiros annos, a avareza
febril com que são contadas, embrulhadas e adoradas,
as primeiras economias, a cidade de projectos
construida á medida que se avança no negocio,
a doida embriaguez com que se recebem as primeiras
felicitações quando nos presentem ricos. Que munda
de aéreas phantasias, que titilamentos de ambição
sem termo!...
   Por tres ou quatro felizes, sessenta
e mais partidos da patria com enthusiasmo, saude
e esperanças, e cedo entregues á miseria, ao envilecimento
e á morte. - E referia as casas de malta das cidades
americanas, onde numa promiscuidade ignobil apodrecem
dezenas e dezenas de pessoas; os miasmas das respirações
accumuladas e dos corpos sem hygiene; as asperas
fadigas sem paga, dos miseraveis sem protecção!
   O seu ideal fôra sempre um ninho como
aquelle de Maria do Resgate, no meio da familia
e entre crianças loiras. - Maria do Resgate sorria
ás expansões calorosas do velho, satisfeita de
o vêr contente e commovida da historia d'aquelle
trabalhador infatigavel, que só captára as sympathias
da riqueza ao cabo de trinta ou quarenta annos
de labuta. Sem querer, tinha reparado numa cousa
- o tio Sabino não offerecia na pronunciação o
menor resaibo brasileiro. O Alfredo apontára-lh'o
como homem intelligente e amigo de leituras; bem
podia ser por conseguinte, que aquella correcção
no dizer, um pouco lisboeta por ventura, fosse
esforço de estudo e evidente resultado da resistencia
ao contagio. Não pensou mais em tal, d'alli em
diante. O chapéo do Chili, as botas de larga tromba,
a pelle sêcca e trigueira, a longa barba corredia
e os dentes encravados em gengivas fofas de carie,
attestavam de sobejo o negociante do Pará, enriquecido
pelo trabalho de toda a ordem, e filtrado durante
longos annos, através as gradações, que vão da
miseria ao conforto. A refeição durou muito, porque
o tio Sabino era muito fallador, e a cada passo
interrompia a mastigação para fazer festa aos
pequenos ou dar palestra á Maria do Resgate. Quando
se ergueu da mesa, um rubor se lhe alastrára na
pelle. Pediu licença para accender o velho cachimbo
de cipó, representando um tigre cingido por uma
boa, cousa, segunda affirmava, sem que
não podia passar depois da comida. Foi até á janella,
e esteve largo tempo debruçado ante o panorama
magnifico da cidade cheia de sol. Tinha nos dedos
enormes aneis de hrilhantes, e um grosso cordão
de ouro lhe servia de corrente de relógio. Os
cabellos um tanto raros nas fontes, arripiavam-se-lhe
para traz, descobrindo os angulos de uma testa
abaúlada, de teimoso. O nariz astuto e cartilagineo
era movel nas asas, cahindo aduncamente em gancho.
Sorrindo, uma contracção franzia-lhe as commissuras
da bocca rôxa. Era antipathico á primeira vista,
mas a voz e a palestra insinuavam-se, agradando.
Maria do Resgate foi dar a ultima vista d'olhos
pelo quarto que a criada acabára de arranjar,
e voltou dizendo:
   - Que estava prompto e quando o tio
quizesse…
   O negociante não se fez demorar. Ia
mudar de roupa e sahia até ao jantar afim de conduzir
as bagagens, e encommendar camisas no Leão
da Europa, mais módernas.
   - Pois, vá, vá, dizia a Resgate, de
aventalinho branca. E tagarellando:
   - O tio desculpa-me a desordem que
vai por essas casas, sim? Como não esperavamos...
E demais tenho uns engommados.
   O quarto era a alcova do Carvalhosa,
forrada de branco, frisos de ouro aos cantos.
Ficava ao centro o leito de ferro fundido ornado
da colcha de damasco amarello e envolto nas amplas
asas de um docel de casquinha dourada onde dois
pombos trocavam beijos. Defronte da janella uma
console com pedra branca sustentava um grande
espelho oblongo, de moldura negra e serpentinas
aos lados. Do outro lado, sobre a banca de noite
havia um despertador de crystal e uma palmatoria
de prata dourada, com vela. O quarto era contiguo
ao toilette de Maria do Resgate, e a porta
aberta permittia observar a desordem d'aquelle
interior; frascos destapados, sabonetes humidos
diluindo na agua das bocetas de porcelana, agua
suja no lavatorio, uma caixa de prata fosca representando
um pecego, aberta com pó d'arroz á borda do tremó
em ferradura; ao canto a banheira tepida exhalando
perfumes de Agua Farina e vinagre de Lubin,
uma duzia de anneis sobre um cofre; escancarado
o guarda-vestidos, e uma gaveta aberta mostrando
um cofre de joias lapidado, em que as pulseiras,
as medalhas e os pingentes se enroscavam tremeluzindo,
em volutas de serpente phantastica. Justamente
por instincto de vaidade, Maria do Resgate não
fechou a porta que separava d'aquelles aposentos
o quarto do tio, querendo que elle visse a sua
riqueza, pudesse aspirar os perfumes de que ella
fazia uso, ficando sciente dos mil cuidados em
que envolvia o corpo branco, de burguezinha garrida.
Do toilette ia-se para a sala e para o
escriptorio do Carvalhosa. Havia no escriptorio
um contador de charão com ferrarias maltezas que
tinha abertas as portas e a chave na fechadura
- era onde se guardava o peculio adquirido e accumulado.
O tio Sabino percorreu rapidamente os tres compartimentos,
sala, escriptorio e toilette que communicavam
entre si, e por onde se podia entrar por duas
portas, pela da sala que dava para a escada, e
pela da alcova onde elle ia dormir. Bem! Lançou
ruidosamente a agua na bacia do lavatorio, tirou
o frack de cheviotte cinza, arregaçou as mangas
da camisa de chita e atirou com as botas. Lavava
as ventas, bufando de satisfação. Dobrou cuidadosamente
o fato que despira, e metteu-o na mala d'onde
já fizera sahir uma rica farpella de panno preto.
Pôz camisa lavada e envergou a farpella nova.
Diante do espelho apartou a guedelha, e sacudia
a poeira das botorras, cantarolando:
Ai-i-ó-ai!
Quem escorrega, tambem cai.
  E paramentado de rico,
fez ainda sahir da maleta de coiro uma especie
de sacco de lona com fechos de corrêas. Debaixo
da cama, por esquecimento, tinham ficado as alpargatas
do Carvalhosa. O tio Sabino calçou-as, as suas
narinas palpitavam. Correu o fecho da porta cautelosamente,
foi até ao escriptorio do Carvalhosa e saccou
da gaveta do contador uns rolinhos de libras;
de passagem pelo toilette arrecadou o cofre
de joias, os anneis e a caixa de pós d'arroz;
de cima da banquinha de noite desappareceu a palmatoria
de prata dourada e tudo foi arrecadado no sacco.
Ai-i-ó-ai!
Quem escorrega, tambem cai.
   Fechou destramente o
sacco, tendo-lhe mettido primeiro a camisa de
chita que despira, a fim de não tinirem dentro
os metaes. E de chapéo á banda e cachimbo na bocca
sahiu, o sacco pendente, fechando a porta e tirando-1he
a chave. Ninguem estava no corredor; Maria do
Resgate engommava na saleta; as crianças na cozinha
cortavam papagaios, chilreando.
   - Até logo, minha sobrinha, até logo.
   Ella veio correndo, com o seu riso
affectuoso.
   - O jantar é ás cinco, sim? Mas querendo
dá-se ordem para mais tarde.
   - Qual! Não temos precisão de incommodos.
Ás quatro e meia estou.
   Deu-lhe dois beijos na testa, levantou
ao collo os petizes dizendo-lhes calinices - a
moça abriu a cancella para elle sahir.
   - Tenho bem que dar ás pernas ainda
hoje, ia dizendo o tio Sabino. Ir á alfandega,
ir ao consul, ir á cámisaria, ir tomar
midida di roupa ao alfaiate... Até logo,
até logo...
   E com a mala pendente, o lenço escarlate
fóra do bolso do frack e a bengala debaixo do
braço, desceu a escada, cantarolando:
Ai-i-ó-ai!
   Eram seis horas da tarde
e nada de tio Sabino.
   - Talvez se demorasse na alfandega.
   Sete horas, e Maria do Resgate acaba
de notar a porta da alcova fechada. Diabo!...
   No dia seguinte a policia andava em
campo para descobrir o larapio, que com tamanha
pilheria roubara a familia do Carvalhosa. Nem
o habil Antunes, nem o sagaz Castello Branco,
nem o astuciosa Ferreira conseguiram cousa alguma.
   É necessario cuidado com os tios da
America.