Já totalmente impossibilitados
de trabalhar, os Elisiários, meus velhos
caseiros dos Pegos Verdes, tinham abandonado a
propriedade recolhendo-se a um casebre que possuíam
na povoação vizinha, a Figueira.
Mas como eu lhes desse uma pensão, que
embora insignificante os ajudava a viver, mostravam-se-me
gratos, e iam amiúde ao «Convento»
(era assim designada a propriedade, desde tempos
imemoriais, por encerrar o único convento
que existia léguas em redor), não
para fazer as suas devoções, mas
para observar o que lá se passava e dar-me
conta do que espiolhavam se alguma vez adregava
encontrarem--se comigo. Tinham sido eles que me
indicaram para sucessor o António Sagreira,
dono de duas courelas minhas estremenhas, rendeiro
de várias várzeas que me ficavam
fora de mão, e habitual e principal empreiteiro
do serviço das «belgas» que
transformam os matos em terras de semear.
A indicação surpreendera-me bastante,
porque havia entre eles uma antiga rixa que não
admitia tréguas, porém depressa
compreendi as razões que a motivaram: o
Sagreira era implicativo e pechoso, e tinha três
filhos valentões que lhe reforçavam
a argumentação, mesmo quando sofística;
assim os meus velhos caseiros se vingavam dos
vizinhos com quem haviam andado às bilhardas,
e ao mesmo tempo impingiam-me um sucessor que
pelas suas malas-artes me faria lamentar a ausência
dos reformados.
Com efeito a entrada em funções
do Sagreira iniciou uma era de revolução
a que nada escapava. Meteu no Convento, na qualidade
de quinteiro permanente, o filho mais velho, que
casara havia pouco, e tanto ele como a mulher
entendiam de hortejo; limpou de mato uns olivais
abandonados e que realmente mereciam melhor sorte;
tirou às árvores a lenha seca, o
que logo lhes deu melhor aspecto: tudo parecia
rejuvenescer, especialmente o pomar de laranjeiras,
que eu tinha e tenho em grande estimação
e andava bastante descurado (são magníficos
os frutos que dá, de duas qualidades, sangue
e umbigo); descobriu, desenterrou, patenteou os
mil marcos da propriedade que os meus inúmeros
vizinhos fingiam ignorar, para se apropriarem
de terrenos que me pertenciam; pôs cobro
ao roubo das estevas, que os forneiros mandavam
colher como se não tivessem dono, e expulsou
os pastores e seus rebanhos que pastavam livremente
por todos os cantos da herdade. Mas tudo isto
à custa de quantas coimas! Elas choviam,
e quando, ao domingo, o Sagreira vinha cobrar
a féria, e me trazia a relação
das coimas da semana eu punha as mãos na
cabeça, fingindo-me assustado, e exclamava:
- Tome cuidado, Sagreira; essa gente acaba por
lhe dar cabo da pele e de toda a sua família.
- Não tenha Vossenhoria medo que tudo é
gente pacífica; o que eles precisam é
sentir a mão do dono e ninguém há-de
tugir nem mugir.
Porém um dos acoimados era cabreiro do
Sr. Baltasar Ponciano, proprietário importante
e influente eleitoral da Mexilhoeira Grande, que
se não acomodou com o caso, e deu por paus
e por pedras para conseguir a anulação
da multa, a qual lhe abalava o prestígio.
Por fim veio ter comigo (as nossas relações
eram excelentes), mas eu não podia decentemente
exautorar o meu encarregado e recusei atendê-lo.
Então ele desabafou: não houve nome
feio que não chamasse ao Sagreira, e retirou-
-se vaticinando que eu me havia de arrepender
amargamente de lhe ter confiado a administração
da propriedade, e ao mesmo tempo jurava que se
havia de vingar.
As terras nos Pegos Verdes que pertenciam ao Sr.
Ponciano haviam sido mal e porcamente adquiridas,
por ocasião de umas partilhas judiciárias
entre menores de que fora nomeado tutor, e estavam
todas mais ou menos encravadas nas minhas, consistindo
a parte principal numa extensa mas estreitíssima
courela que dava passagem aos moradores do Convento,
encurtando-lhes consideravelmente o caminho. De
memória de homem nunca fora contestado
o direito a essa regalia. Ora dois dias depois
da visita do Sr. Ponciano apareceu-me no escritório
o Sagreira todo açodado e aflito a participar-me
que tinham cortado o caminho, cavando fossos à
entrada e à saída da courela.
- Aquele mariola do Ponciano... – ia ele
comentar em tom de funda indignação,
e não foi pequena a sua surpresa quando
eu, com perfeita calma, atalhei para lhe dizer
que mandasse atulhar os fossos, e continuassem
a servir-se do caminho como se nada houvesse ocorrido.
- Então Vossenhoria toma a responsabilidade...
- Não seja parvo, Sagreira, e faça
o que lhe digo.
- Vossenhoria é quem manda... – consentiu
ele despedindo-se, o rosto já iluminado
com a perspectiva da raiva do Ponciano, e a crescente
autoridade que o facto lhe acarretaria, a ele
Sagreira.
Mas logo ao domingo seguinte, de orelha caída,
veio comunicar-me que o Ponciano mandara levantar
paredes de taipa, de metro e meio de altura, no
sítio dos fossos.
- Agora é que a coisa não tem remédio
nenhum...
- Tem remédio, tem. Hoje mesmo, quando
chegar aos Pegos Verdes, mande deitar abaixo as
taipas, e passem pelo caminho como de costume.
- Essa agora... essa agora... – pôs-se
ele a ruminar, com os olhos esbugalhados direitos
a mim. – Mas Vossenhoria é quem manda,
e as pessoas aqui presentes – voltando-
-se para outros quinteiros que assistiam à
cena – servirão de testemunhas de
que eu não fiz mais que obedecer às
ordens que me deram...
E alegre e leve como um pássaro, saltou
em cima da mula que o esperava à porta
do escritório, e lá foi a galope
cumprir a grata missão.
Porém o Sr. Ponciano não era homem
para se acomodar com estes expedientes e logo
que o advogado, que foi sem demora consultar,
o desenganou, aconselhando-o a que estivesse quieto,
deixando a passagem livre, a não ser que
preferisse intentar uma acção judicial,
que seria longa, dispendiosa, e de resultados
incertos, o Sr. Ponciano recorreu à intimidação,
esboçando uma tragédia que apavorou
o Sagreira e a sua prole.
E no domingo, quando já o não esperava
e me encontrava conversando com vários
caseiros, ei-lo que me aparece, quase que amparado
pelos dois filhos mais velhos, o aspecto mais
morto do que vivo, e todos três com lenços
amarrados à roda da cabeça, como
é uso e costume nas crises sezonáticas.
Dados os bons-dias em voz sumida, sem levantar
os olhos do chão, e perguntando- -lhe eu,
realmente apreensivo de os ver assim amachucados,
se estavam doentes, o Sagreira, em tom dramático,
replicou:
- Prouvera a Deus que fosse doença e doença
mortal, pois tudo era melhor do que aquilo que
o velhaco do Ponciano imaginou para nos atormentar.
Do que é que aquele ladrão se havia
de lembrar?... Saiba Vossenhoria que arranjou
um malfeitor, um bandido, um assassino, saído
há poucos dias da cadeia de Lagos, e pô-lo
a guardar a courela, armado de uma escopeta de
dois canos, com ordem de dar um tiro em quem quer
que tente passar pelo caminho, e diz ele, alto
e bom som, que se Vossenhoria lá for é
o primeiro que o apanha...
- Ah! sim? – atalhei eu entre risonho e
agastado. – É só isso? Pois
vá-lhe já dizer que na quarta-feira,
às dez horas, eu lá estarei e veremos
então quem leva a melhor...
Com esta declaração peremptória
os Sagreiras pareciam ressuscitados, e sem mais
demora abalaram para os Pegos Verdes; eu é
que ainda bem não tinha proferido aquelas
palavras imprudentes já delas me arrependera,
e sentia-me como que atordoado com a ideia de
me ir defrontar com um malandrim da mais ínfima
espécie, capaz, provavelmente, de me desacatar
e insultar. E tudo isto por causa de um caminho
que só dava comodidade aos Sagreiras! Mas
não havia mais remédio senão
cumprir o que prometera...
José Cravo chamava-se o «assassino»
e como o Ponciano não possuísse
nos Pegos Verdes cabana ou «monte»
próprio para o albergar, metera-o em casa
de um vizinho meu, que era dos mais encarniçados
inimigos dos Sagreiras.
Sem perder tempo, nesse mesmo dia telegrafei a
um escrivão de Lagos, meu amigo, pedindo
informações pelo próximo
correio, as quais recebi logo na noite seguinte.
O José Cravo era enjeitado, alentejano,
e tinha o cadastro muito carregado com cenas de
tiros, escapando por milagre ao castigo até
que a última lhe valera seis meses de prisão,
pena que cumprira não havia ainda três
semanas. Cabreiro de profissão, fora empregado
do Ponciano numa herdade para os lados de Vila
do Bispo, e aí se desouvera com um companheiro,
mimoseando-o com uma chumbada nas pousadeiras.
Durante o processo queixara-se amargamente do
patrão, que, afirmava ele, fora a causa
de tudo e o abandonara. Tinha uma amante, «lindíssima
rapariga de costumes fáceis», mas
que lhe era dedicada e fiel embora ele a maltratasse.
Saído da cadeia, constava-lhe que partira
para a Mexilhoeira, onde o Ponciano o acolhera,
dando-lhe casa e cama, sem dúvida receoso
de algum atentado grave.
Má rês, o tal Zé Cravo...
Nada me sorria o inevitável encontro, e
matutando no partido que poderia tirar das informações
recebidas, me pus na quarta-feira a caminho dos
Pegos Velhos, de forma a chegar exactamente à
hora indicada. Conseguiria eu impor-me ao respeito
do «assassino», ou, adoptando melhor
política, compor-me com ele? Já
na pendente desta última solução,
lembra-me que para me justificar de antemão
eu pensava: a verdadeira definição
do «político» é um homem
que aprecia os factos pelo que eles realmente
são, e por eles regula a sua conduta...
Estaria eu também com medo? Felizmente
ninguém lia o que me ia na alma...
À entrada da herdade esperavam-me o António
Sagreira e os filhos (todos ainda de lenços
amarrados à volta da cabeça), e
logo me contaram as bravatas e ameaças
com que o Zé Cravo acolhera a notícia
da minha vinda, fanfarronadas ainda não
havia nada repetidas, em voz bem alta diante dos
numerosos vizinhos, reunidos à entrada
do caminho para assistir ao nosso encontro.
Quando lá cheguei o José Cravo estava
de costas, na extremidade oposta da passagem,
arengando, com grandes gestos, para um grupo de
curiosos, e de costas ficou, como se não
tivesse ouvido o trincolejar da «carrinha»
em que eu vinha, ou como se a minha presença
lhe não merecesse o mínimo cuidado,
de modo que me apeei, entrei na courela, e só
quando lhe bati com a mão no ombro é
que ele se voltou, encarando-me com um sorriso
escarninho.
- Então o senhor é que é
o assassino? – perguntei.
- O assassino?
- Sim, toda a gente sabe que o Ponciano o encarregou
de me matar.
- E o senhor quem é?
- Ó José Cravo, não te ponhas
com graças... Vamos conversar a sério
e acabemos com este entremês. Nós
podemos muito bem entender-nos. Sei que te encontras
num mau passo, e se estiver na minha mão
o tirar-te de apuros podes contar comigo. De que
é que tu mais precisas agora já?...
- Ora isso é que é falar direito...
Pois saiba Vossa Excelência...
E contou-me, sem entrar em pormenores, que o Ponciano
fora a origem da sua desgraça, mas, sem
mais ninguém a que se chegasse ao sair
da cadeia, a ele se acolhera, e aceitara o encargo
de impedir a passagem pela courela a qualquer
outra pessoa que não fosse eu, pois bem
sabia que era esse o meu direito; que o Ponciano
prometera dar-lhe ali mesmo um «monte»,
que ia construir, com rebanho de cabras e ovelhas
em que o interessaria, mas ele não acreditava
nas suas promessas, e se lhe dessem qualquer outro
emprego, fosse qual fosse, aceitava, pois o seu
maior desejo era trabalhar honradamente. Observou-me
que eu tinha na herdade vários «montes»
desabitados, e um deles com um aprisco ainda em
muito bom estado, e que seria uma grande esmola
dar-lhe guarida e tomá--lo para cabreiro...
Contente com o inesperado jeito que o caso tomava,
e sem mais reflexões, chamei pelo Sagreira,
participei-lhe que o José Cravo já
não estava ao serviço do Ponciano,
e subindo para a «carrinha» fomos
os três para o Convento, em boa camaradagem,
com visível estupefacção,
ou melhor, desapontamento dos espectadores.
Chegados ao Convento mandei servir o abundante
farnel que trouxera de casa, convidei-os para
almoçar, e durante a refeição
fomos combinando a melhor forma de instalar o
José Cravo no «monte» com redil,
que ficava para os lados da herdade chamados da
«Malhada Verde», deixando assente
que se compraria o primeiro gado no próximo
mercado de Portimão, que era daí
a oito dias.
O António Sagreira mal tocava na comida;
não levantava os olhos do prato e a custo
se lhe arrancavam as palavras em contraste com
o José Cravo que parecia ter duas bocas
(uma para falar e outra para comer) em plena actividade;
exultava, já entrado no sonho da futura
e infalível felicidade... O curioso, porém,
é que loquaz e expansivo como parecia,
sempre que eu tentava obter explicações
sobre a sua repetida afirmação de
que o Ponciano fora o «causador da sua desgraça»,
ele mudava de conversa.
Quando acabámos o almoço, e íamos
dar uma rápida volta pela horta (eu estava
com pressa de regressar a casa), reparei na espingarda
que ele punha a tiracolo, magnífica arma
de fabricação inglesa, que devia
ter custado bom dinheiro, e perguntei-lhe onde
a comprara.
- Não a comprei – explicou mastigando
as palavras –, pertencia ao Sr. Ponciano,
mas o diabo me leve se ela jamais lhe voltar às
mãos...
Findo o passeio pela horta, disse ao José
Cravo que fosse imediatamente ao «monte»,
ver as reparações de que necessitava,
e subi para a «carrinha» com o Sagreira,
a quem fui dando as últimas instruções
sobre o caso, mas ele parecia sucumbido; só
abria a boca para repetir: «Vossenhoria
é quem manda...» Ao separarmo-nos,
à saída da propriedade, reparei
que tinha as lágrimas nos olhos:
- Que é isso, Sagreira?
- Não é nada, não é
nada – e em voz cava: – Realmente
meter Vossenhoria debaixo das suas telhas um assassino
da força do Cravo!...
- Não seja tolo, Sagreira. Você cá
está para o pôr na ordem, se for
preciso...
Sozinho no carro, algo aturdido com a lembrança
do que sucedera, e tendo nos ouvidos as últimas
palavras do Sagreira: «meter um assassino
debaixo das minhas telhas», não conseguia
pensar noutros assuntos (alguns havia então
bem sérios na minha vida) e vi- -me constrangido
a fazer rigoroso exame de consciência. O
que me levara a proceder com tanta benignidade,
e em vez de buscar uma solução que
afastava para sempre o José Cravo, porque
fora que eu lhe proporcionara ensejo de ficar
ao meu serviço? A impressão que
o seu aspecto me causara tinha sido boníssima:
de estatura regular, admiravelmente proporcionado;
não sei que leveza e elasticidade nos movimentos
que surpreendiam; a pele fina (efeito dos meses
passados à sombra), e sem o encardido,
o queimado da gente do campo; elegante (não
é exagero) no seu traje de soriano; a cintura
estreita apertada na cinta preta, muito larga;
e nos olhos, que sorriam, uma expressão
de lealdade, de confiança quase infantil...
E o modo como ele dizia «Vossa Excelência»,
com a naturalidade de quem está habituado
a tratar com pessoas de boa sociedade. Mas tudo
isto não explicava coisa alguma. O seu
cadastro lá estava, para me indicar o perigo
das complicações que a sua estada
nos Pegos Verdes acarretaria, e certamente ele
teria aceitado qualquer soma razoável,
que eu lhe oferecesse, para abandonar o serviço
do Ponciano e voltar para o Alentejo.
Havia também o gosto de arreliar o Ponciano,
ao qual eu votara profunda aversão (com
o rancor do proprietário), desde que ele
me empalmara (por tão vis processos) as
courelas encravadas na minha herdade; mas isso,
tão-pouco era razão suficiente...
Perscrutando com insistência, ao fundo das
minhas reflexões perpassava, como fugidia
sombra, a frase da carta do escrivão de
Lagos, referente à amante do José
Cravo: «lindíssima rapariga de costumes
fáceis». Isto na boca (ou na pena)
de um velho e pacato pai de família, como
era o meu correspondente, indicava realmente que
a rapariga devia ser formosíssima. E era-lhe
fiel e dedicada apesar dos maus tratos... Uma
pérola! Seria para a conhecer, para a ver,
que eu procedera de maneira tão insensata?
Quando cheguei a esta hipótese, desatei
a rir, e o facto é que se me aplacou a
inquietação... «Ora seja o
que Deus quiser» – resumi, já
sereno e resignado.
Passaram duas semanas sem que me fosse possível
voltar aos Pegos Verdes; entretanto fez-se a compra
de gado, estipulando-se as condições
da criação em termos largos e generosos,
que mais encanzinaram os Sagreiras. O José
Cravo mostrava-se contente e grato, e mais satisfeito
ficou quando eu lhe disse que o negócio
de leite, com a fabricação de requeijões
e porventura de alguns queijos (se ele os soubesse
preparar) ficava para a mulher, que teria metade
no produto da venda, mas com a obrigação
de me trazer o que fosse necessário para
consumo da minha casa.
Durante esses quinze dias não consegui
avistar a «pérola»; ela foi
duas vezes à minha casa da Rua Direita,
em cujo quintal e cavalariça os quinteiros
abrigavam as bestas e juntavam as provisões,
mas desencontrámo-nos. À minha mulher,
porém, ou porque a notasse, ou mercê
de algum «espírito santo de orelha»,
não escapou a formosura da cabreira e com
acentuada ironia felicitou-me pela preciosa aquisição.
Isto surpreendeu-me porque na copiosa grinalda
dos seus defeitos era a ciumeira que menos brilhava,
e ainda mais me atiçou o desejo de contemplar
tão peregrina beldade.
Entrementes, a pretexto de agradecer (o que nunca
fazia) a minha habitual esmola, veio visitar-me
o velho Elisiário, caseiro reformado dos
Pegos Verdes, e depois das acostumadas lamentações,
que abrangiam sempre os sofrimentos hemorroidais
do casal (e não haver remédio nenhum
para semelhante praga! pois que Deus nosso Senhor
se compadeça da nossa desgraça!);
após as jeremiadas de natureza física
e espiritual, veio ao assunto exclusivo da sua
visita, pelo qual eu esperava logo que o vi aparecer.
Nos Pegos Verdes iam mosquitos por cordas: andava
o diabo solto. O José Cravo não
se entendia com os Sagreiras e recusava obedecer
às «ordes» que lhe davam; ele
é que queria a toda a força mandar,
etc. Mas se era grande a guerra entre os homens,
não andava menos acesa entre as mulheres,
por causa da tal «santinha» da amiga
do José Cravo, que a todos tratava como
se fosse ela a rainha e «a verdade manda
que se diga: rainha mais linda nunca ninguém
viu...»
- Você reparou bem nela, Elisiário?
- Se reparei! nela me ficaram os olhos. Ai, quem
tivesse trinta anos menos...
Pois também o Elisiário! Decididamente
era indispensável que eu visse quanto antes
aquela maravilha.
Ao almoço, minha mulher, a quem o Elisiário
fizera igual relato, aludiu à desordem,
ajuntando que urgia acabar com semelhante «escândalo».
- Não te aflijas com o que não é
da tua alçada – repliquei em tom
azedo. – Na próxima semana vou passar
uns dias aos Pegos Verdes e logo verei o que mais
convém fazer.
O meu escritório estava instalado numa
casa térrea, assaz vasta, à entrada
da vila, mesmo no ponto onde começava a
estrada da Rocha. Ali tinha os meus livros, que
constituíam já uma biblioteca respeitável,
e alguns quadros e objectos artísticos
da maior estimação, adquiridos durante
as minhas viagens, e ali passava quase os dias
inteiros, principiando logo de manhã, pois
era lá que eu ia tomar banho e mudar de
roupa. Tudo parecia preparado para a eventualidade
(que eu nem por sombras entrevia) de uma separação
conjugal: cozinha com todos os petrechos necessários;
casa de jantar, e quarto de cama arranjado com
certo gosto: um grande leito rococó de
pau-santo, coberto com colcha de damasco verde-mar,
guarda-roupa da mesma madeira e estilo, e um espelho
de balanço, para corpo inteiro, diante
do qual as raparigas do campo embasbacavam, se
por acaso eu lho mostrava. A cozinha dava para
um pátio ladrilhado com saída própria,
e como a casa fizesse esquina por ali se escapava
quem não quisesse ser visto pelas pessoas
que estivessem dentro de casa ou à entrada
principal. Tudo isto era favorável aos
encontros amorosos e para esse fim a aproveitava
com certa frequência; porém minha
mulher, que tinha, como já apontei, a qualidade
rara de não ser ciumenta, pouco implicava
com as perspectivas da minha infidelidade, e nesse
campo deixava-me inteiramente à vontade.
Aos domingos, a partir das onze horas, vinham
os caseiros cobrar a féria e dar conta
do que se passara nas suas respectivas fazendas,
ficando geralmente tudo despachado às duas
da tarde, salvo em dias de mercado em que as transacções
com o gado obrigavam a maiores demoras. Eu ia
a casa almoçar às nove e meia e
uma hora depois era certo encontrar-me no escritório.
Às oito horas do próximo domingo,
quando me preparava para sair, bateram-me à
porta de uma forma tão hesitante que julguei
ser brincadeira de moços e não acudi.
Logo repetiram os toques de aldrava, porém
ainda sem firmeza nem jeito próprio de
quem viesse em comissão de serviço;
e mais persuadido de que eram garotos da vizinhança
aproximei- -me pé ante pé, e de
mau talante abri subitamente a porta, para surpreender
e talvez castigar os importunos. No corredor reinava
completa escuridão, e pela porta que escancarei
rompeu, vivo como fogo, um quadro de sol sustendo
uma figura de rapariga, que aos meus olhos encandeados
mais pareceu visão sobrenatural. O choque
foi tremendo, baralhando-me totalmente as ideias.
Aqueles olhos, aquela boca, aquele sorriso...
Mas era ela, sem a menor dúvida...
- Júlia... és tu?... – exclamei,
puxando por ela e fechando a porta – Júlia,
como estás linda... – e sem mais
preâmbulos comecei a beijá-la, e
levei-a para o quarto de cama onde a luz era também
escassa, pois estavam corridas as cortinas da
janela.
No acesso de embriaguez que me tomara eu só
pensava em satisfazer os sentidos, e cheguei ao
final da minha desvairada investida sem quase
me aperceber da silenciosa passividade daquela
mulher, que se me não repelia tão-pouco
me retribuía as carícias, ou dava
a menor mostra de as apreciar ou saborear. Foi
somente num instante de acalmia, quando pela centésima
vez, entre beijos, eu repetia:
- Júlia, minha querida Júlia –
e ela de repente me perguntou: – Mas como
é que que sabe o meu nome? – foi
então, e só então, que eu
caí em mim, adquirindo a consciência
do que se passara. Ela era o retrato vivo e exactíssimo
de uma Júlia de quinze anos que eu, muito
em rapaz no Porto, amara e desejara ardentemente,
não lhe tendo alcançado as primícias
porque ela me as recusasse, mas porque as circunstâncias
o haviam impedido. A sua inesperada aparição,
no deslumbrante quadro de luz que a envolvia,
acendera essas recordações com vigor
que sem me aperceber do absurdo, ou eliminando-me
por gravoso, eu apertava nos braços a rapariga
como se fosse a mesma Júlia de vinte anos
atrás...
Viemos a explicações, mas apressadas
e confusas porque o tempo urgia: esperava- -me
o almoço em casa e podia sobrevir algum
importuno, como sucedia amiúde aos domingos,
àquela hora. Júlia era com efeito
o seu nome, mas no Algarve salvo o amante ninguém
mais o sabia. Chamava-se agora Marta, e havia
razões especiais que a impediam de usar
o outro nome. Ela era natural do Porto e fora,
novinha, atirada para a desgraça, de onde
o José Cravo a libertara, livrando-a ao
mesmo tempo dum mau passo em que involuntariamente
caíra, e a obrigara a mudar de nome. Ouvindo-me
chamar-lhe Júlia imaginou que eu a conhecera
nalguma casa mal afamada, e não se atrevera
a resistir, do que já estava arrependida,
pois sempre fora fiel ao amante, a quem devia
gratidão; além disso ele era capaz
de a matar, só que suspeitasse da traição.
Enquanto falava parecia estudar-me o rosto a preceito;
por fim o sorriso voltou-lhe aos lábios
e começou a olhar-me com simpatia. Disse-lhe
então que tencionava ir passar dois ou
três dias aos Pegos Verdes, na semana em
que entrávamos, e lá teríamos
ensejo de conversar largamente sobre o passado
e o presente, mas na certeza de que eu não
desistia, fosse qual fosse o risco de continuar
os deliciosos momentos daquela manhã, salvo
se ela sentisse por mim qualquer invencível
repugnância e se negasse terminantemente
a satisfazer o meu desejo. Protestou com veemência
contra a ideia da «invencível repugnância»
e para o provar beijou-me na boca, mas entrevia
tanto empeço para renovar os nossos encontros
que os julgava impossíveis.
- Mas tu podes voltar aqui ao escritório.
- Não sei; isto foi um acaso; e já
me ia esquecendo o motivo que cá me trouxe.
O meu homem aqui manda esta continha do pedreiro
que trabalhou no «monte» e que ele
não quis dar ao Sagreira porque não
se entendem...
- Já cá tinha a notícia de
que vocês andam todos a ferro e fogo.
- Todos? não senhor; é só
o meu marido e o velho Sagreira, com o qual os
próprios filhos andam às bulhas.
Eu cá por mim estou bem com todos, e a
Emília, a mulher do Luís que está
no Convento, é grande amiga minha.
- Sim? quanto estimo. Desse modo quando eu lá
estiver tu poderás conversar comigo as
vezes que quiseres...
- Talvez – atalhou ela –, mas deixe-me
ir embora que se faz tarde.
Os meus beijos de despedida foram de fogo, mas
ficou-me a impressão de que aqueles com
que ela correspondia não eram menos ardentes...
Antes de sair pediu para voltar ao quarto de cama,
e pôs-se diante do espelho a arranjar o
lenço e os cabelos; depois ficou-se quieta
e como que pasmada perante a sua própria
imagem; por fim atirou-lhe beijos, ao passo que
me dizia:
- Há tanto tempo que me não via
num espelho como este... É que eu realmente
sou bonita, não é verdade?...
Esta inesperada aventura deixou-me como que
assombrado e incapaz de desviar dela o pensamento,
fosse qual fosse o assunto que lhe solicitasse
a atenção. Minha mulher, que durante
o almoço não conseguira tirar-me
da modorra em que caíra (mal respondia
por monossílabos às suas insistentes
perguntas), aconselhou-me a que chamasse o médico:
eu parecia sonâmbulo e devia estar seriamente
doente.
Mas o caso é que se doença havia
era de contentamento, de exultação;
no meu espírito persistia a confusão
entre as duas Júlias: a virgem tão
almejada dos meus tempos de rapaz (deslumbrante
fruto em que não conseguira meter o dente)
e a mulher perfeita de que gozara sem resistências
as delícias, e que era apenas a outra desabrochada
e amadurecida.
Para explicar convenientemente este fenómeno,
seria necessário narrar o que haviam sido
aqueles amores baldados, as horas de luxúria
insatisfeita, os riscos de ser surpreendido e
trucidado. Um acontecimento capital da minha vida
ficara em suspenso, e de repente realizara-se
integralmente sem peias nem estorvos.
Agora o que importava era dar-lhe a digna e merecida
continuação, mas para isso tornava-se
indispensável estudar «in loco»
as disposições de todos os factores
adversos ou favoráveis, e foram de verdadeira
febre os três ou quatro dias que antecederam
a minha ida aos Pegos Verdes.
Os meus aposentos no Convento compunham-se de
três quartos, cozinha, e casa de jantar,
esta bastante vasta e com janela deitando para
a horta. Tanto a cozinha como os quartos eram
antigas celas dos frades e abriam para o claustro,
o qual tinha uma única entrada e estava
tupido de laranjeiras e nespereiras de proporções
colossais. A habitação dos quinteiros
compreendia o antigo refeitório, celeiros,
ramada, cavalariça e mais divisões
utilizadas na exploração agrícola;
com entrada independente, comunicava, no entanto,
com o claustro, por uma porta interior que só
servia quando eu lá estava.
No mesmo domingo em que a Júlia ou, melhor,
a Marta veio ao escritório, avisei o Sagreira
da minha próxima visita, para que a nora
procedesse à limpeza e arranjos indispensáveis
(era a primeira vez que eu lá ia dormir
depois da saída de Elisiário) mas
sem indicar dia certo, e quando lá cheguei
fiquei muito agradavelmente surpreendido com a
ordem e asseio em que encontrei tudo; porém
o que mais me impressionou foi a abundância
e arte da ornamentação floral, composta
de molhos de murta e rosmaninho, em púcaros
de barro, e grandes copos de vidro cheios de rosas,
jacintos e narcisos. Nem eu sabia que naquela
estação (íamos a meio do
Inverno) houvesse ali tanta flor, e festejei a
Emília pelo seu bom gosto, agradecendo
ao mesmo tempo os cuidados que lhe merecera. Mas
ela atalhou com vivacidade:
- Tudo isto é obra da menina Marta. Logo
que o meu sogro deu notícia da vinda de
Vossa Senhoria ela ofereceu-se para me ajudar,
e foi ela quem colheu e arranjou as flores, e
todas as manhãs vem ver se alguma está
murcha para mudar. Ainda hoje ela cá esteve...
- Então vocês são amigas?
- Muito... Ela é uma rapariga muito fina
e também muito dada; já me parece
que somos como irmãs.
Bravo! pensei eu com os meus botões. Isto
prova, pelo menos, que a linda Júlia consente
em continuar a deliciosa aventura começada
no domingo. E não cabia em mim de alegre
e satisfeito.
Ao meio-dia o José Cravo veio cumprimentar-me.
Ele fazia grande diferença da primeira
vez que o vira. Agora, tostado pelo sol, com o
fato usado, e os largos calções
de coiro próprios dos cabreiros, parecia
mais forte, mais viril. Oferece os seus serviços,
protestando novamente da gratidão que me
deve; declara-se contente com a sua situação
embora apreensivo com uns casos de morrinha aparecidos
nos cordeiros, e termina oferecendo também
os serviços da Marta, para tudo quanto
fosse necessário:
- Ela já cá veio ajudar a menina
Emília no arranjo da casa e está
às ordens de Vossa Excelência...
- Já o sabia e agradeço, sobretudo
se ela quiser tratar da comida, em que a Emília
não é muito forte...
- Ora essa. Considere-a Vossa Excelência
como criada sua.
Quando eu acabava de dormir a sesta senti passos
na cozinha, e como não tivesse ouvido ranger
a porta de entrada ao claustro, cujo ruído
era forte e característico, julguei ser
a Emília que houvesse passado pela porta
interior, e sem me levantar chamei por ela para
saber o que me daria para a ceia.
- Não é a Emília, sou eu...
– responde-me a Marta, irrompendo pelo quarto
dentro e vindo sentar-se-me à beira da
cama.
Mais linda do que nunca, tal qual a minha Júlia
do Porto...
Novo acesso de loucura amorosa, mas agora em comunhão
perfeita – até à medula –
com a minha adorada cúmplice.
De repente começou a tutear-me, como se
fôssemos velhos conhecidos, ou como se realmente
nos tivéssemos já encontrado nalguma
das casas de perdição por onde ela
passara. O tratamento «de tu», na
sua boca, era um encanto novo, mas depressa notei
que o usava somente quando eu a chamava Júlia;
se dizia Marta ela acudia logo com um «vossa
excelência». Observei-lho, mas ela
não sabia explicar por que o fazia, e entre
risos e beijos segredava-me:
- Eu sei lá porque é... Quando me
chamas Júlia o coração pula-me
de contente. Dá-me como que uma certeza
de que já te vira, que já te conhecera...
de que já te amara, a ti, e nunca amei
mais ninguém...
- E o José Cravo?... – interrompi
eu, estúpida e brutalmente.
Vieram-lhe as lágrimas aos olhos.
- Eu gosto dele apesar de me bater, e tenho pena
de o atraiçoar. Mas gosto de outra maneira...
e não me assusta o castigo que me espera
e há-de ser grande..., à sua sorte
ninguém escapa...
Com beijos lhe fechei a boca, pedindo-lhe perdão
de ter falado no amante.
O caso, porém, é que eu não
conseguia destrinçar as duas Júlias,
e por ter amado a outra julgava-me com direito
a ser amado agora por esta.
Curiosa confusão! E não seria esta
Júlia pelo menos filha da outra? Nas suas
reminiscências aparecia a madrinha, uma
virago a quem chamavam a «Siflóide»,
que tinha casa de hóspedes, especialmente
frequentada por estudantes, e cujos sinais correspondiam
aos da minha hospedeira do Porto.
Esses três dias nos Pegos Verdes foram
de completa embriaguez. Perfeita liberdade nos
encontros que, evidentemente, a Emília
favorecia; confiança absoluta por parte
do José Cravo; tempo divino, permitindo
os longos passeios solitários e sem destino,
por montes e vales, a que tão afeiçoado
sou. Até o António Sagreira parecia
entrado nos eixos; pelo menos abriu as tréguas
com o seu competidor, evitando discussões
e conflitos.
A estiagem fora grande durante o ano inteiro,
diminuindo muitíssimo a água da
nora. O Sagreira propunha que a refundassem, explorando
ao mesmo tempo uma fonte que lhe ficava perto,
e que se fizessem na horta vários trabalhos
de aterragem e canalização, no que
prontamente consenti, sob condição
de que tudo começaria daí a quinze
dias, que era quando eu poderia vir passar uma
semana aos Pegos Verdes, para dirigir e encaminhar
aqueles trabalhos.
Com Marta combinei até nos mínimos
detalhes a forma como nos havíamos de encontrar
no escritório, de modo a não inspirar
desconfiança à minha mulher, nem
ao José Cravo.
Bastante rogada contou-me o que se passara na
herdade da Vila do Bispo, aclarando o sentido
das palavras com que o José Cravo habitualmente
se referia ao Ponciano: «causador da minha
desgraça». O Ponciano assim que a
vira começou a namorá-la, mas tanto
nojo lhe causava que um dia ela cuspiu-lhe na
cara. Ele então induziu um rapaz, que também
era pastor e morava na herdade, a que a seduzisse,
prometendo-lhe dinheiro se o conseguisse. O rapaz,
apesar das suas repulsas e ameaças de o
denunciar ao amante, fez-se atrevido, e ao fim
de pouco tempo gabou-se ao Ponciano «de
a ter já apanhado», o que este foi
imediatamente contar ao José Cravo. Daí
a chumbada nas pousadeiras que, ajuntava ela,
mais do que ninguém o Ponciano merecia,
mas, para não complicar a situação,
nunca dera parte ao amante dos seus requebros.
– E nós agora – acrescentava
ela – precisamos ter muita conta connosco,
não vá ele desconfiar de alguma
coisa e armar-nos alguma ratoeira... Sabe o que
ele me disse da primeira vez que lhe vim arranjar
a ceia?: «toma cuidado com as brincadeiras
do patrão, e se algum dia me vires carregar
a espingarda com balas, podes ter a certeza de
que uma é para ti e a outra para ele».
E o José Cravo é homem para o fazer
e muito mais...
Pois seria, mas isso em nada perturbava a minha
felicidade, o meu embevecimento. Aquela aventura
era para mim como que a realização
de um sonho delicioso, e não encontrava
nas recordações do passado mulher
comparável à Júlia que nunca
possuíra e de que fruía agora a
acabada imagem. Tão satisfeito e alegre
andava que toda a gente notava a diferença;
até a minha mulher (que então estava
grávida e sempre macambúzia) me
repetia a miúdo: – Mas o que tens
tu que pareces outro: remoçaste de dez
anos... Isso é de me veres aflita...
Os trabalhos da horta, que propositadamente
ampliei, deram-me pretexto a voltar a miúdo
aos Pegos Verdes, sem que motivasse reparo, ou
suspeita da verdadeira razão que lá
me levava. A minha presença ali concorria
também para acalmar as rivalidades e invejas
que a situação do José Cravo
suscitava; a paz, aparentemente, tornou-se perfeita,
tendo acabado de todo os melindres e queixas de
que a princípio me chegava, por assim dizer,
notícia diária.
A disposição topográfica
do pequeno largo (para o qual convergiam cinco
ruas) onde estava o meu escritório, fazia-o
de muita passagem, porque dava saída à
vila e abria caminho para a praia; as horas escolhidas
para os nossos encontros, e a habilidade com que
a Marta se disfarçava, tapando a boca com
um lenço, como se tivesse dor de dentes,
ou cobrindo a cabeça com o xale, à
moda do campo, tudo parecia garantir a impunidade
aos nossos arriscados amores. Porém, ao
fim de algum tempo, como sucede sempre em casos
tais, foram diminuindo as cautelas, e a rapariga
permitia-se liberdades que podiam ser funestas.
Por exemplo: uma das coisas que mais a encantavam
(e a mim também) era contemplar-se nua,
ao espelho móvel do quarto de cama, com
risco de sobrevir alguém a que eu não
pudesse negar entrada. Pois sucedeu uma vez que
por um instante a minha mulher a não apanha
em trajes de Eva. Acabava de se vestir quando
batem à porta da rua de um modo que se
não prestava a dúvidas: era pessoa
muito familiar. A Marta mal teve tempo de se escamugir
pela porta do pátio. Era a minha mulher,
que nunca ali ia, mas por um capricho próprio
do estado em que se achava, coitada, resolvera
vir em pessoa informar-se da nevralgia que eu
simulara ao acordar para me pôr mais cedo
ao fresco...
Em frente ao escritório ficava a farmácia
de um velho boticário, que já nada
vendia e só aos domingos abria o estabelecimento;
mais de uma vez me parecera entrever, pela porta
envidraçada que dava para o largo, o vulto
do Baltasar Ponciano, e isso levara-me a aconselhar
mais prudência à Julia, porém,
com grande espanto meu ela replicou-me vivamente:
- Ah! sim? vem espreitar? pois inda bem, é
para que saiba. Acaba por estoirar de inveja...
Eu já não agoirava nada bom de tanta
imprudência, mas o amor, o desejo que ela
me inspirava cegava-me e os encontros multiplicavam-se
sem as necessárias precauções.
Íamos no fim de Abril; minha mulher tivera
o seu bom sucesso (um mocetão forte e vermelho
como um bezerro) mas ficara muito fraca, em consequência
da grande hemorrogia que sobreviera ao parto;
não se levantava, porém acalmara-se-lhe
a inquietação pechosa em que andava
nos últimos tempos, e toda ela parecia
ressumar condescendência e bondade. Foi
ela própria que me lembrou a festa do 1.°
de Maio, aconselhando-me a que a fosse passar
aos Pegos Verdes, no que eu concordei de bom grado.
A festa caía numa terça-feira. No
domingo que a precedeu eu esperava a Júlia
no escritório, vigiando o largo por uma
fresta da janela do quarto de cama, quando divisei
distintamente o Ponciano entrando na botica, e
depois o seu vulto postado à porta envidraçada.
Apressei-me a pôr na minha janela um grande
vaso vermelho, sinal convencionado para indicar
à Júlia que devia entrar pela porta
do pátio. Ela pouco tardou mas vinha tão
despreocupada que só deu pelo sinal muito
perto de casa, e hesitou ainda, antes de tomar
a outra rua.
- O que sucedeu? – perguntou-me a rir, apenas
entrou.
Expliquei.
- Pois o pior foi que ali na venda da outra rua
estava o Isidro, o pastor da Vila do Bispo que
levou a chumbada...
- E viu-te entrar?
- Com certeza.
- E não tens medo?
- Eu já não tenho medo de nada...
E agora sempre te quero dizer que ando desconfiada
de que o José Cravo não se importa
com isto e pensa em deixar-me...
- Sim? Isso é que era oiro sobre azul...
Participei-lhe a minha ida aos Pegos Verdes na
terça-feira e recomendei-lhe que arranjasse
uma «maia» bonita, com muitas flores.
- Olá; e eu, que pela primeira vez assisto
a essa função, hei-de mostrar que
ninguém me leva a palma nos enfeites da
boneca.
Quando o Sagreira chegou apressei-me a falar-lhe
na festa projectada, que desejava fosse de estrondo;
dei-lhe dinheiro bastante para as filhós,
ordem para matar dois carneiros gordos e meia
dúzia de galinhas, e chamei o feitor da
adega para lhe dizer que nesse mesmo dia mandasse
para os Pegos Verdes meia pipa de vinho tinto
e dois garrafões de vinho doce. O Sagreira
parecia assombrado.
- Ora ainda bem – observou. – Que
grande regabofe para a rapaziada, que bem o merece...,
e nada é de mais para festejar a vinda
do morgado com que a divina Providência
mimoseou Vossa Senhoria...
Era com efeito o primeiro filho do sexo masculino
que me aparecia (até ali só tivera
fêmeas), porém que longe eu estava
de pensar no caso, a que logo me agarrei.
- Sim senhor, sim senhor... – acudi pressuroso,
e voltando-me para o feitor: – Em vez de
meia pipa de vinho mande uma pipa cheia.
Combinou-se que a «maia» teria as
dimensões do corpo humano, e seria armada
na eira, onde logo ao começo da tarde havia
sombra e o piso era excelente para se dançar
à vontade. Ficou o Sagreira encarregado
de fazer os convites e de arranjar dois tocadores
de harmónica dos melhores que houvesse
nos povos da vizinhança.
Tudo isto em honra da minha Júlia, que
tão contente se mostrara com a ideia da
festa, e toda a minha pena era de a não
poder celebrar em salas de luxo, com banquetes
de iguarias raras, regadas a campanhe...
Na terça-feira pus-me a caminho antes
do nascer do Sol («fazes bem em ir cedo
para evitar o calor» – observou a
minha afectuosa esposa), e às 9 horas já
eu estava na eira, examinando a «maia»
e as ornamentações que me deixaram
bastante desapontado.
«Já vejo que a Júlia para
festas rústicas tem pouco jeito...»
pensei.
No Convento ia enorme azáfama, e não
eram menos de doze as raparigas que trabalhavam
na cozinha; mas debalde os meus olhos ávidos
procuravam entre elas o corpo airoso e o rosto
lindo da minha Júlia, o que não
passou despercebido à Emília, a
qual tão depressa eu cheguei ao meu quarto
correu a participar-me que ela viera da vila doente,
e não podia assistir à festa.
- Talvez lá para a tarde ela apareça,
mas será por pouco tempo, de fugida...
– e com ar misterioso: – Não
é só doença o que ela tem;
o José Cravo zangou-se com ela e deveras;
até me parece que lhe bateu e proibiu-lhe
de assistir à festa...
Pela volta do meio-dia apresentou-se-me o José
Cravo, dizendo que vinha cumprir a sua obrigação:
receber ordens. Pouco se demorou, e nem uma só
vez, durante a nossa conversa, consegui fixar-lhe
os olhos, que se desviavam tão depressa
percebiam que os meus os procuravam.
Fácil será imaginar a perturbação
que tudo isto me causou. Pretextando enxaqueca
não assisti ao jantar, conservando-me em
casa febril e ansioso, à espera de que
a Júlia viesse, e ao mesmo tempo rogando
aos meus deuses que se não arriscasse ao
perigo que a desobediência ao amante neste
caso lhe oferecia. Do seu monte ao Convento eram
pelo menos vinte minutos de caminho (e que caminho:
de cabras!) e seria impossível que ele
não desse pela sua ausência.
Mas ela sempre veio, ao cair da tarde e já
quando eu a não esperava. Que aspecto o
seu! Branca de cera; olheiras e lábios
roxos; as mãos geladas, e porventura mais
encantadora do que nunca.
O amante não lhe batera, mas no domingo
à noite, à volta da Figueira, onde
fora cobrar a importância de uns carneiros
que lá vendera, entrou em casa calado,
atirou-se vestido em cima da cama e pôs-se
a chorar. Ela, que estava preparando a ceia, ouviu-lhe
os soluços e, com verdadeiro dó,
pois nunca o tinha visto chorar acercou-se para
o amimar. Mas ele repeliu-a com tal força
que a fez cair no chão, e sentando-se à
beira da cama principiou a insultá-la.
Depois contou que o Isidro da Vila do Bispo (o
da chumbada) andara por todas as vendas do povo
a dizer que ela ia dar comigo ao escritório,
demorando- -se horas quando eu estava sozinho,
e nunca saindo pela mesma porta por onde entrava,
como quem queria escapar à curiosidade
da vizinhança, a qual, toda, sabia já
quem ela era e zombava das suas artimanhas. Se
eu vinha por alguns dias ao Convento era ela que
de mim tratava e comigo dormia. E, asseverava
o Isidro, o José Cravo era sabedor e consentidor
de tudo isto. Era esta parte que mais lhe doía,
e quanto repetia isso vinham-lhe ataques de ira
que o sufocavam e ficava quase sem sentidos. Em
suma ele proibira-a de voltar ao Convento, e ainda
nessa manhã lhe repetira que se ela se
atrevesse a vir enquanto eu cá estivesse,
a matava. Durante o dia mais de uma vez dependurara
e limpara a espingarda que o Ponciano, com ser
como é tão miserável e vilão
ruim, nunca mais reclamou... E por mais que ela
procurasse não conseguira encontrar as
cargas com bala, que ele habitualmente conservava
na arca da roupa metidas na algibeira do jaquetão
de ver a Deus. Apesar de tudo ela sempre viera
ao Convento, só para me pedir de joelhos
que me fosse já embora...
Adverti-lhe que seria a maior das vergonhas se
fugisse e isso nunca eu faria. Ela então,
lavada em lágrimas e cobrindo-me de beijos,
despediu-se soluçando:
- Se o vir carregar a espingarda com balas, ainda
que seja de rastos cá te venho dizer.
Eu não me lembro de ter, em toda a minha
vida, horas de tão cruciante angústia
como as que se seguiram a esta cena. A tensão
nervosa era tal que o corpo todo me doía.
E afligia-me, sobretudo, a impossibilidade de
tomar qualquer resolução definitiva.
Raptá-la? A atonia cerebral era completa:
na cabeça, mais vazia do que uma esfera
de vidro, perpassava em letras de fogo a mesma
frase obcecante: tudo menos perdê-la. E
com tudo isto a impertinente alegria da festa
que não acabava: a sanfoninada música
das harmónicas; os gritos das raparigas
extenuadas que os lapuzes arrastavam para a dança;
o falatório aldrabado dos velhos avinhados...
Tudo menos perdê-la!...
Já cerrara a noite quando aquela gente
se resolveu a dar fim à função,
apeando a «maia» do mastro a que a
haviam ligado de manhã; e em procissão
ma trouxeram. Recebi- -os à janela da casa
de jantar que tinha, da parte de fora, um banco
de alvenaria onde assentaram a boneca. Depois
dos vivas e agradecimentos do estilo lá
me deixaram só, ou, melhor, na companhia
da «maia», em cuja cabeça puseram
o meu chapéu, e que parecia estar descansando
das fadigas do dia, mas a máscara voltada
para dentro sem me perder de vista. O parapeito
da janela chegava-lhe aos ombros, de modo que
a luz do candeeiro lhe iluminava a cabeça.
Naquele mesmo banco, e naquela mesma posição,
costumava eu levar horas, dormitando ou lendo,
e a Emília, quando me veio trazer a ceia,
ainda se iludiu supondo que a «maia»
era eu. Ainda tentou falar a respeito da Marta,
mas eu despedi-a, recomendando-lhe que se fosse
deitar: no dia seguinte conversaríamos.
Sentei-me à mesa, mas sem tocar em prato
algum, e abri um livro com tão expressa
vontade de ler, para me distrair (para sair de
mim mesmo) que realmente consegui fazê-lo,
e ainda hoje recordo as páginas que li,
com frases que sou capaz de repetir. Porém
fez-se-me no pensamento um tão completo
desdobramento, que a leitura atenta o não
impedia de conjecturar o que sucederia a Júlia,
e o que me sucederia a mim mesmo, se persistisse
a loucura que me atacara. Não que eu acreditasse
em mortes, nem em tiros...
E justamente neste ponto do meu monólogo
ouvi um tiro. – Quem diabo se entreterá
a estas horas a dar tiros? – observei aborrecido
mas sem por sombras ligar o que ouvira com o caso
da Júlia. E continuei lendo e considerando:
– Raptá-la? E depois? Mas o José
Cravo não seria homem que por dinheiro
entrasse nalguma combinação amigável?...
– esta ideia como que me aliviou. –
Ele não há-de ser tão mau
como o pintam...
Outro tiro; este então já muito
próximo do Convento, e ao mesmo tempo a
cabeça da «maia» mexia, e a
bilha de água fresca, sobre o aparador,
tinia e esguichava água pelo bojo. A bala
atravessara a cabeça da boneca e a bilha...
Ao ruído do tiro acudiram logo os quinteiros
e mais pessoal que trabalhava no Convento, além
da outra gente que por habitar longe ali ficara
a passar a noite, e ao verem o furo na cabeça
da «maia» declararam unanimamente:
- Isto foi obra do José Cravo; ele julgou
que a «maia» era o patrão...
Espantosa, horrível, essa noite que me
pareceu infindável, da qual me não
posso lembrar sem pavor. E não enlouqueci.
Porém duvido que haja nervos que resistam
a duas noites como essa. Foi nos seus transes
que me apareceram nas fontes as primeiras cãs
– e numerosas.
Ainda não rompera a madrugada, e já
os moços do curral vinham anunciar que
o José Cravo desaparecera e a Marta jazia
morta num pequeno terreiro a meio caminho do Convento.
Faltou-me o ânimo para a ir ver, mas segundo
me contou a Emília o cadáver parecia
sorrir. Provavelmente ao ver José Cravo
carregar a espingarda com bala, levantara- -se
da cama, e sem mais roupa do que a camisa e um
xale sobre os ombros, deitara a correr para me
vir prevenir. Mas o amante seguira-a e logo que
a alcançou matou-a com um tiro no coração,
como se verificou pela autópsia. A morte
devia ter sido instantânea...
O lugar onde encontraram o cadáver passou
a ser conhecido pelo «Sítio da mulher
morta»; e o curioso é que, poucos
dias depois, todo o terreiro estava coberto desses
pequenos lírios roxos a que no Algarve
chamam flores de Maio, e que era raro ver naquela
região. Todos os anos o fenómeno
se repete.
Do José Cravo, até hoje, não
houve mais novas nem mandados.
Bougie, Maio, 1934.