ao Mário de Carvalho,
amigo e mestre
Cheguei-me junto dela e atirei: «Desculpe, mas você tem o meu romance aí ao pescoço». Olharam-se, ela e os quatro, como quem pondera o modo de fazer-me, logo ali, esfumar-me. Houve um remexer de correntes, as poupas enceradas pareceram vibrar com planos de precária gestão, o bâton preto nos lábios dos cinco jovens retorceu-se de indistintas fúrias. Decidi, portanto, não insistir, afastei-me, recolhi o jornal, paguei o café e saí. Bom, também não sou parvo nenhum. Admito que a coisa, relatada assim, não se perceba por aí além. Vou contar, então, tudo desde princípio.
Eu escrevi um romance. Acontece aos melhores. Andei meses magicando a trama, eu chamei-lhe logo ‘a trama’, ia tomando notas sem conto nem jeito, no meio dum jantar, na bicha do eléctrico, interrompendo a minha atenção aos putos na aula, deixando em meio esse espectáculo, oferecido a uma praia inteira, dum surfing em que sou mestre. E então anotava uma cena, um dizer, uma saída esperta, ou traçava esquemas que, de tão científicos, me exigiam, passado uma semana, ousadas interpretações. Guardava o caderninho como quem rouba um tesouro a olhares gulosos. Fazia fotocópias dele, guardadas em casa de três amigos, e nem assim andava tranquilo.
Tirei uma licença sem vencimento para escrever o livro. Era redondamente uma estupidez, atirava-me, sintética, a Lúcia. Era deitar a perder qualquer chance de chegar a vice-director da escola e, claro, de acabar um dia mandando em tudo. «Como um déspota iluminado», dizia ela, citando-me. A graça tinha surgido numa ceiazinha a dois, olhando relaxados as luzes da Outra Banda, era um dito reguila, era inofensiva, mas acabara tornando-se-me um programa de vida. Eu não era exactamente feito para o mando, isso até ela o sabia. Mas eu tinha em mim, desde sempre, o competir com o destino, e ali estava uma ocasião como poucas. Licença sem vencimento? Era, de facto, um destempero.
Tirei uma licença sem vencimento para escrever o livro. Era redondamente uma estupidez, atirava-me, sintética, a Lúcia. Era deitar a perder qualquer chance de chegar a vice-director da escola e, claro, de acabar um dia mandando em tudo. «Como um déspota iluminado», dizia ela, citando-me. A graça tinha surgido numa ceiazinha a dois, olhando relaxados as luzes da Outra Banda, era um dito reguila, era inofensiva, mas acabara tornando-se-me um programa de vida. Eu não era exactamente feito para o mando, isso até ela o sabia. Mas eu tinha em mim, desde sempre, o competir com o destino, e ali estava uma ocasião como poucas. Licença sem vencimento? Era, de facto, um destempero.
Mas, um dia, achei, com a singeleza em que as loucuras sempre vêm camufladas, que o desafio aos deuses era tomar o caminho que mais errado me surgisse. Pedi a licença, que pronto me foi dada, quase oferecida, a julgar pelo brilho que se soltou dos olhos da direcção. «Este já não chateia», gritavam com eloquência três pares de pupilas. Eu sei, um gajo não deve fazer-se feliz com a nojice alheia. Mas, que querem, ali ficara finalmente reconhecido o meu génio para o comando de almas.
Instalei-me na nossa casinha da Ericeira. Dizemos assim, Ericeira, por causa do cachet. Aqui entre nós, o casebre está (estava, mas já direi) perdido num pinhal, alguns quilómetros a norte, com má ligação a estradas, a praias, à civilização, e nunca levámos lá ninguém, tanta decepção supúnhamos ir trazer aos amigos. Mas foi aí que o romance tomou corpo.
Comecei traçando a marcador, na parede menos irregular da sala, um esquema agora definitivo. Por entre as setas, e os rectângulos, e as elipses, sorriam, mas só para mim, as minhas personagens, ricas de vida, espessas, abissais. Quanto mais as linhas se cruzavam, se enredavam, se iam perder fora do benemérito quadro, mais galhofeiras se me faziam as criaturas. Momentos houve, confesso, em que, vaidoso da charada que ali crescia, achei viável a publicação desse esquema tout court. Havia, ao fim e ao cabo, editados, e cobertos de prémios, romances ainda mais impenetráveis.
A Lúcia não me apareceu, durante esses meses, uma vez sequer. Não me acreditava, e era isso que me doía. Ela tinha-me por capaz de engendrar uma cena sucinta, um contito vamos lá, coisa de pálido brilho. Mas a garra de um romance, que vira, e torce, e escarafuncha, nunca seria para mim. E eu contava-lhe, nas raras vezes em que deixava o meu covil e ia passar um serão a casa, revelava-lhe o progresso da história, expunha lances, golpes, imprevistos, cultas alusões, imperceptíveis sátiras. «Dava uma telenovela», ainda foi o melhor que consegui.
Telenovela até nem dava. Tudo era, para tanto, demasiado, como direi, subtil. Legível era ele, o meu romance, de alto a baixo acessível. Mas subtil. Passava-se, em vasta extensão, numa editora de livros, e não é em sítios assim que vive, habitualmente, a imaginação das massas.
O herói... Bom, criei vários. Havia um revisor, velho na casa, por mãos de quem os livros passavam, e que, emendando-os, enobrecendo-os, reescrevendo-os por vezes, os tornava muito apresentáveis e, quando para aí virado, best sellers. Os autores calavam-se, ai não, faziam a sua parte, não raro rosnando, mas conquistados pela folha semestral de pagamento. Confiavam em que o revisor era suficientemente discreto, ou orgulhoso, ou tanso, para jamais elucidar a grei.
Tudo estaria, portanto, no melhor dos mundos, não fosse a existência do invejoso no local de trabalho. O invejoso é, em ficção, uma figura adorável, mas difícil de administrar. Não é um ser soturno, repelente. Ou não é só isso. É mais complexo, porque lastimável como nenhum outro, e ele sabe-o, com uma tragédia muito sua.
É por isso que, numa segunda parte do meu romance (ele tinha três), o invejoso ascende a protagonista. E o mundo passa a ser visto pelos seus atormentados olhos. E descobre-se quanto a genialidade do revisor, que escapa ao editor mas não ao colega de sala, é dia e noite uma acusação insuportável. Concedo que isto é espantoso, e por alguma coisa tinha ela, a Lúcia, aquela reserva mental.
O invejoso já armava a espera, e nem teve muito que esperar. Certo dia, o revisor, que recebia do colega os originais já limpos de acentos dispensáveis e de vírgulas entre sujeito e predicado, dá de caras com um livro de autor desconhecido, mas romance perfeito. Não excelente, não brilhante. Perfeito. O invejoso, que, lá está, não reparara no prodígio, descobre que o patrão e o colega das revisões se propõem avançar com a publicação do volume, preterindo antigas glórias da casa, logo por coincidência suas óptimas relações, dele, invejoso. E aí temos a coisa encravada. Como? A inveja inspira muito.
O invejoso descobre (e isto, juro, com a maior das naturalidades, e a minha mágoa é não poder já prová-lo), descobre que o filho do revisor, com quem até se deu sempre bem, se tomou de intimidades com o, afinal também jovem, autor da maravilha. Intimidades, bom, talvez já me faça entender. E é aqui que entra, radiosíssima, outra modalidade de convívio humano, a chantagem. Ou o livro é retirado da programação, assim maquina o invejoso, ou os factos serão conhecidos.
A chantagem sexual é, em sociedades avançadas, um fantasma ridículo. Mas outras há em que ela promete réditos. No ambiente em que a história se passa, ela prometia-os, e chorudos. Ora o invejoso hesita. Não por impertinências da moral, mas porque os ganhos nunca lhe parecem suficientes. Além disso, e isto revela a tremenda humanidade do concernido, ele gosta do rapaz, do filho do revisor, muito, e muito. Não se vai fazer mal, com essa facilidade, a quem se ama.
Tudo isto ia eu metendo, semana após semana, no meu portátil. Ao casinhoto não chegava a electricidade, mas o modelo tinha uma bateria potentíssima, e o dono do barracão onde, na Ericeira, eu almoçava deixava-me carregar quando preciso. Aí me abastecia também do mais banal: água, bolachas, fruta, iogurtes. As demais matérias úteis, dispensava-mas um vizinho, longínquo mas vizinho, que ia, duas, três vezes por mês, aos hipermercados.
Eu escrevo com facilidade. Não é mérito, e antes um incómodo. As coisas saem-me num enxurro de ideias, de sugestões sonoras, de desencontros do sentido, de malícias do discernimento, não, não exagero muito. Mesmo teclando como uma secretária diplomada, não dou recado. Tenho sempre, ao lado, um bloco, onde tomo uma nota apressada, aponto um termo-chave, e só assim, e nem assim sempre, seguro uma intuição, salvo do aniquilamento uma dádiva celeste. É assustador. Chego a invejar os mais demorados de espírito. Mas sei que sou injusto.
Em menos de quatro meses, uma primeira versão do romance tinha surgido, já muito aceitável, e há quem logo corra às editoras e abra champanhes. Eu só tirei uma semana, em Lisboa, precisado de desopilar, de esquecer, para rever a coisa com alguma candidez. Tive sempre comigo o portátil, deixei na palhoça só as cópias em cd. E exactamente essa estadia na cidade ia proporcionar-me uma descoberta.
Já vagamente ouvira falar do jump drive. Ficara impressionado, mas esquecera. Não me vi logo a adquirir o objecto, mais pequeno que um mindinho, que armazenava uma vertigem de dados e que permitia, diziam-me, trazer no porta-chaves a Enciclopédia Britânica.
Mas a graça toca-nos é quando desprevenidos. Certa tarde, fazia eu, numa grande loja de computadores, tempo para o cinema, quando a meu lado se falou no portento. Em termos técnicos, devo esclarecer. Ouvi capacidades, mencionaram-se preços. Pensei, então, como era bonito andar, eu também, com o meu livro no porta-chaves. E comprei um jump maneirinho, onde cabiam, ainda assim, vinte romances como o meu. Fui ao cinema. Chegado a casa, apressei-me a realizar o milagre.
Aproximara-se já o Verão, o do ano passado. Ia ter agora férias, que tão meigamente encaixavam na licença tomada. Aproveitei-as para a reescrita final, a quarta, ou quinta, perdi-lhes o conto. Ou nem o havia, tantas as vezes que, numa tarde calmosa, ou a meio duma insónia, revi uma página aqui, ajeitei um capítulo acolá.
A terceira parte acabaria por ser, para meu espanto, a mais trabalhosa. Eu tinha aí oportunidade de salvar os bons, punir os maus. Mas o mundo entrara em desordenar-se. Conhecido o mau por dentro, surgira um ser sensível, transtornado em grau aflitivo, e que eu não podia decentemente castigar. E o meu genial revisor, esse, acabara por mostrar imprevista vulnerabilidade à chantagem, hesitando longo tempo, longo de mais, entre o que chamava o seu «bom nome» e um singelo respeito pelo filho. Com isto, o tal livro perfeito, parado na gráfica, corria o risco de para sempre perder-se.
Tudo era, agora, percepcionado pelo olhar de alguém, até então, em razoável penumbra. Quem, a partir daqui, contava a história era a namorada do revisor, também ela de meia idade, também ela divorciada. Tinham uma relação intensa, mas gerida com racionalidade. Passavam juntos os fins de semana, numa casinha no Oeste, essa autêntica, não uma palhota. O restante tempo, vivia-o cada um em sua casa, cada um em seu emprego. Foi ela portanto quem, inteligente e observadora, deu testemunho dos sucessos finais. O desenlace era imprevisível.
Foi um Verão abrasador, esse, um dos mais torturantes de que resta memória. Os incendiários não se deram descanso e trouxeram regiões inteiras em aflição. Também o meu pinhal se foi, e com ele o modesto refúgio, andara eu a tarde entretido a surfar na Praia Grande. Não salvei nada. Nunca me passou pela cabeça que me calhasse a mim. De valioso, e para além do pardieiro em si, perdi o computador. O romance ficava a salvo, enroscado, nunca perceberei por que artes, num tubozinho, menor que o mais pequeno isqueiro, preso ao meu porta-chaves. Era de um vago cinzento, com uns mais vagos brilhos de arco-íris, que eu ainda mais acarinhava.
Mas a desgraça tinha-me na mira. Hoje pergunto-me como não me lembrei eu de recopiar o conteúdo do jump, de fazer um print à coisa.
Há-de haver uns quatro meses, regressava eu, já noite alta, das Docas, onde tinha jantado, bebido e ido dançar com colegas da escola, todos curiosos da minha sobrevivência, quando, já em Alcântara, me assaltaram dois malandrins de navalha. Levaram-me tudo, até o pulôver. Perdi a carteira, e os cartões, os passes, o b.i., a carta, o telemóvel, tudo. E as chaves. E o estremecido canudinho.
Ainda corri, ainda gritei, disse-lhes o pior às mães, pedi uma coruscante intervenção divina. Nada consegui, nada veio valer-me. Sentei-me na beira do passeio e chorei. Por mim, pela vida sacana, pela minha arruinada obra. Passou gente, talvez tenha tentado adivinhar a minha perda, e entendido que era grande.
Fiz aturdido os cinco minutos que me distava a casa, onde verifiquei, nos larápios, o bom senso de não se apresentarem. Corri os dois ferrolhos e fui meter-me na cama, sem me despir, sem acordar a Lúcia. Só sei que não fui eu quem, no dia seguinte, mandou mudar a fechadura e fez as participações que se aconselhavam.
Passei o último mês de férias entregue a uma depressão, conheci todos os cantos à vertigem. Não desejei morrer, mas andei por perto. A Lúcia desistiu de atingir os descaminhos que eu trilhava, e acredito que me leu nos olhos rondar o desastre. Mas lançou-me bóias, isso reconheço. Sugeriu que o computador, mesmo entortado no braseiro, poderia conservar um núcleo são, como a caixa negra dos aviões. Lembrou-me em Nova Iorque um laboratório que operava assombros. Falou ainda num programa, caro, mas baixável da rede, que relia o que julgáramos perdido definitivamente. Lembrei-lhe que, para isso, precisava o meu torrado aparelho de respirar algum ar digital, o que era muito, muito improvável. De resto, Nova Iorque levava uma fortuna, que eu bem podia empregar em escrever um romance melhor.
Um romance melhor... Ousar um igual já desafiava suficiente aos céus. É que, dizia-me eu, se os céus tinham decidido atingir-me com tamanha dureza, é porque os seus altos planos a meu respeito não passavam por aquele romance. Assim procurava eu pôr uma lógica pobre a cuidar da minha ferida. Facto é que ajudou. Não muito, mas ajudou. Certa manhã, descobri-me mais arejado dentro, e até fui capaz de um assobio. A Lúcia ouviu música angelical. Esperava alguma coisa, mas não tanto logo. Depois, chegou Setembro, vieram as aulas, pensei mais na química que na literatura, e disse para mim que estava curado. Até ontem, portanto.
Tinha eu bebido a bica, debicava no jornal, olhava pelas janelas do café um fim de tarde azul e ouro, quando entrou um grupo de juvenis punks, duas miúdas, três rapazes. Uns de negro mate, outros de brilhante, todos de correntes, piercings, lábios negros e um cabelo de formas sólidas. Digo punks mas com má consciência, podiam ser góticos, e a diferença não é especiosa.
Sentaram-se. Eu reparei neles, eles não repararam em mim. Tinha mesmo a sensação de que não estavam ali, e sim algures em eras tenebrosas, mais tenebrosas que a nossa, e ainda assim acolhedoras. Pediram bebidas, tiveram concisas trocas de impressões, se impressões eram, e não fórmulas de estabilizar o globo, entretiveram-se com tabaco de onça, entrecruzaram olhares que me pareceram ora fúteis ora de algum, parco, esoterismo, lançaram fumaradas distantes e pensativas.
E foi então que o olhar me caiu no pescoço, bem desenhado, duma das moças. Dum fio pardacento de razoável grossura, pendia certa forma oblonga, cinco, seis centímetros, também cor de cinza. Quando a imagem se me focou, descobri-lhe reflexos, cambiantes, coloridos. No meu cérebro, e antes que a consciência acordasse, foi uma explosão de luz. Era um jump. Era o meu jump. O meu romance.
Oh, longe de mim suspeitar da pacífica tribo. Aos meus ladrões, se já as chaves eram de duvidosa valia, menos ainda teria servido aquela bugiganga. O porta-chaves terá, no seu todo, ido parar a um passeio escalavrado, a um canteiro de praceta, onde, certo dia, caiu nas vistas de alguém. Daquela cachopa ali.
Nada disto, há-de compreender-se, pensei eu na altura. Só tinha mente e olhos para o meu jump adorado, e a intensidade desse olhar sobre o peitilho da rapariga não demorou a denunciar-se. Houve no grupo movimentos de difícil interpretação, e decidi agir antes que fosse tarde.
Levantei-me, dirigi-me ao grupo, e disse, perto da miúda, num impossível segredo: «Desculpe, mas você tem o meu romance aí ao pescoço». Olharam-se, ela e os quatro, como quem pondera o modo de fazer-me, logo ali, esfumar-me. Houve um remexer de correntes, as poupas enceradas pareceram vibrar com planos de precária gestão, o bâton preto nos lábios dos cinco jovens retorceu-se de indistintas fúrias. Decidi portanto não insistir, afastei-me, recolhi o jornal, paguei o café e saí.
Andei, andei, a cansar-me, para não pensar, até cair, já madrugada, neste banco do Campo Grande. Está um sol perturbantemente belo. Três crianças brincam, alvoroçadas, no escorrega, como se o mundo tivesse acabado de aparecer feito.
Dói-me o corpo, dói-me a alma. Há-de dizer-se que isto, tudo isto, foi o meu sonho desta noite. Sei que não. E essa será também, para já, a minha única certeza.
A esta hora, em certa escola de Alcântara, uma classe, já indisciplinada, espera pelo professor de química.