O senhor Professor Mário Delorme encontrava-se
a descansar sob o tecto patrimonial e era a hora
de sesta. Vilegiatura bem merecida, proclamara
o Estafeta Democrático no artigo turiferante
de boas-vindas ao egrégio luminar da cátedra e
das letras, honra da sua terra. Na casa dos setenta,
cabelos quase todos brancos, estadeava porém,
privilégio raro nos espíritos superiores superlotados
dos anos e de glória, apreciável robustez física
e mental.
   Nos meios universitários, ninguém contestava
que era um dos ínclitos mentores da inteligência
lusa, ouvido por gregos e troianos, requestado
a cada passo do vário quadrante, embora fosse
norma da sua modéstia cavidosa fugir a precipitar
a hora da consagração. Um zoilo, prevalecendo-se
do seu gosto pela medida e a cambiante, tinha-lhe
arremessado um zarguncho venenoso, destes que
ficam a vibrar presos ao alvo. E era que o seu
renome rolava todo sobre esferas de conjunções
adversativas: mas, todavia, no entanto, porém,
contudo, quiçá. Este quiçá, metido em chacota
como para ópera-bufa, vulnerara-o mais profundamente
que um dos pregos caibrais que cravaram as mãos
de Cristo. Lembrar-se, sequer, do comentário era
como sentir a pua nazarena. Com efeito, o quiçá,
como é próprio das naturezas abstractas que contraem
fúteis mas viciosas costumeiras - o Mata-borrão
com o fum, fum da venta asnal, o Romba
com o bem, ora bem, etc. etc. - tornara-se
o bordão da sua linguagem de lente e didacta.
Fora com o inveterado tic que o crítico
feroz rompera em chuchadeira, não se importando
de entornar-lhe na alma bondadosa, propensa ao
optimismo, o saco de lacraus da maldade humana.
   Ali, em estado de meia modorra, a tão
grande distância do espaço e da hora em que estas
coisas haviam tido o epicentro, fora o bastante
para o pungir e espertinar. É verdade que haviam
contribuído para isso de algum modo as moscas
transtaganas, que não são mais molestas que as
moscas do resto do mundo, mas são mais densas,
zumbindo, bailando a ribaldeira, descrevendo largos
orbes e picando sobre a respeitável testa dum
jubilado, apesar da penumbra da alcova.
   Tinha-lhe chegado ao feijão branco,
com chispe e salsichas, bem sazonado a pimenta
e colorau; o vinho de Fuseta era trepador; e na
calmaria de Setembro deixara-se tomar dum doce
letargo, que nem balouçado em hamac sobre
o rio Letes de virgiliana memória. Mas o danado
subconsciente entrara a trabalhar e do seu borbulhão
irreprimível surgira o peniculário maldito com
o quiçá em riste como um espeto de carnaval saloio!
Voltou-se e tornou a voltar-se na cama, mas já
não pôde conciliar aquela gratíssima soneca que
Homero celebrou como dos primeiros dons celestiais.
Desceu as pálpebras, abriu um olho para calcular
a sapatada na mosca que se lançara em raid
ao seu nariz, tornou a fechá-lo, mas apenas conseguiu
fazer noite artificial no firmamento ocular. A
vontade não operara o acto necessário de desandar
o comutador electrónico do pensamento. Incompreensível
insubordinação esta, como do som contra o objecto
sonador, do gato contra a casa que o alberga,
da luz contra o sol, da água contra o defluente
caudal. Ficou-se a contemplar na casa de jantar,
através da porta entreaberta, o arquibanco humilde
encostado à parede, e viu-se no princípio da carreira
de estudante ali sentado, de pernas curtas a bimbalhar
nas calças de cotim, batuca que batuca com os
calcanhares, enquanto não chegava a carrinha do
ti' Zé Aires, que havia de conduzi-lo ao Seminário
de Portalegre. Como era um magrizela, anegralhado
de tez, embora espertinho da massa fosfórica,
os rapazes, na escola, troçavam dele.
   Cresceu nesta psicose de menino mal
achamboado, com o respectivo rancor embrionário
por quem era bem-parecido. Por isso, talvez, aceitara
de coração jubiloso que o pai se propusesse ordená-lo
sacerdote. Bonito ou feio, como ministro do Altíssimo,
que importância tinha?!
   Recordando sempre, via-se chegar ao
Seminário, longa construção torva, de panos brancos,
flanqueados de janelas em granito com cimalhas
pontiagudas e em redondo como palas. Recebera-os
o vice-reitor, mal anunciaram ao que vinham. Entraram
para a sala e um belo homem, ainda que embainhado
na sotaina, pestanudo, rosadinho, não se fez esperar.
E logo os seus sete olhos se pregaram nele, tão
admirados como cativos, pois que na qualidade
de vice-reitor ia ser o seu soberano por largo
espaço de tempo.
   - O menino como se chama?
   - Chama-se Mário Delorme Dias...
   - Mário Delorme?
   - É um nome romântico, tirado das minhas
leituras - respondeu seu pai, que tinha algumas
letras, mal disfarçando o desvanecimento.
   - Ah, bem!...
   O vice-reitor quedara um momento silencioso
a saborear o enigma daquela delícia onomástica,
intrigado decerto, mas não querendo trair a perplexidade
da sua ignorância. O pai não estava no seu real
direito de extrair o seu nome de baptismo de Marion
Delorme, pois não estava?
   Ah! se era fusco de cor, sumido das
faces, ar de cabrito esfolado, o lindo nome o
resgatava de semelhantes geenas. Só ele lhe propiciara
a simpatia dos condiscípulos e mestres. Um talismã
que, mais tarde, completado o curso, exerceria
o mesmo efeito magnético em fregueses e colegas.
P.e Mário Delorme?!... O pai munira-o com uma
varinha de condão, e todo o problema, pela vida
fora, era saber usar dela.
   Mercê da boa memória, meio pensionista,
sempre a passo ginástico, mas sem entusiasmos,
um dois, um dois, fez os preparatórios, depois
a teologia até o subdiaconato. Nessa altura, porém,
explodiu a Monarquia como abóbora madura no meio
do milho, pisada pela pata duma vaca. Foi ao expirar
das férias, e em vez de regressar ao Seminário,
o que estava fixado para dali a dois dias, deixou-se
empolgar pelo movimento que subvertera a paz canónica
e real de tantos séculos.
   Ofereceu a roupeta à mulher do maioral
- que tivera com ele amáveis condescendências
e fez uma saia para a semana das endoenças e os
enterros chiques da vila - e safou as fivelas
dos sapatos. E com o boticário, que era meio acrata,
e dois caixeiros-viajantes, de passagem ocasional,
rompeu a dar vivas à Cristina, que desta feita
se chamava República. Daquele dia em diante botou
discursata que hoje taxava de pepineira dos verdes
anos.
   O pai ainda o admoestara:
   - Ó rapaz que te estampas! Olha que
isto pode ser bruega de pouca dura...
   - Pode. Alea jacta est. Também
me ensinou o cartapácio de latim a ser audaz.
   A cara, a má cara para santo, santo
sulpiciano, está bem de ver, a delatar a leiva
e o curtume, dificultava-lhe a ascensão. Havia
que suprir o não ser moço bonito que, no edifício
social, vale mais que uma escada rolante de andar
para andar. Mas era afável com aquele ar de cão
malhadiço, sempre a dar ao rabo, em que cristalizara
o seu perfil de chibo esfolado, e sabia cuspir
às unhas. Em particular, no silêncio do seu caritó,
cuspia mesmo. Tal expressão do esforço, para si,
significava melhor do que nenhuma outra agarrar-se
ao verbo, e à desvergonha - no bom sentido - além
de que convinha à sua fisionomia tão vincada de
vilão do tempo das sesmarias. Et gratias agimus.
Rijo das pernas, sólido dos braços, saltou no
trapézio volante que se oferecia aos trânsfugas
da clerezia, e ei-lo professor, catedrático, desobstruindo
caminho a poder de ralé e do lindo nome. Um Mário
Delorme tinha, nada mais que pela virtude da consonância
esquisita, obrigação de ganhar crédito especial
de cérebro bem formado, no género daqueles que
saíam da Sorbonne e das universidades germânicas,
de sílabas a tilintar sabedoria como Goettingen
e Heidelberg. A via latina foi-lhe fecunda e coalhada
de triunfos. Uma bem alcatroada rodovia de Damasco.
Finalmente, a jubilação fora o coroamento da sua
longa fama. De urbi et orbi acorreram os
evoés e louros em pessoa, em carta, em telegrama,
em veneras e tributos. E, uma vez de braços cruzados
para as nobres tarefas do ensino, como não havia
de entrar pelo templo de Minerva afoito e ousado
como sempre, estando a porta às escâncaras? Não
havia actividade mais imediata que as letras para
quem as fora exercendo, ao acaso da cátedra, sob
forma didascálica, na recta pronúncia de lentes.
E rompeu a virar todos os torrões da gleba clássica,
desde os épicos ensardinhados aos pregadores enxundiosos,
que os livreiros lhe atiravam às mãos ambas como
à sachola dum ganhão. Em realidade o traste de
cana ou bauxite, que é o cálamo, a molhar no tinteiro
ou de tinta permanente, ágil como instrumento
de prestidigitador, ajeitava-se-lhe mal aos dedos.
Bem o sentia, mas calava-se muito bem calado.
A gadanha de camponês ou a colher de surrador
haviam gerado no seu organismo uma predisposição
ancestral, nefasta contra o escriba público. Mas
o homem é produto da vontade. A vontade afeiçoa
a electrónica dos centros nervosos ao que se pretende.
Do burro pode tirar um decoroso intelectual, do
cobarde um herói. E não havia de resultar do calejado
mestre um escoliastes apreciável?
   Mário Delorme divagava em devaneios
altos e aéreos como os voos das moscas que via
zebrando a atmosfera semilunar do quarto com velocidades
de sputniks que entraram em órbita. Que
queriam dizer com translações tão mirabolantes
os infames dípteros? Zumbiam e julgava compreender:
serem tais volatas epitalâmios à reprodução no
dia quente de estio. E aqueles circuitos dumas
tantas através da opacidade do ambiente deviam
ser maratonas endiabradas que revelassem qual
delas era a mais apta e com direito a amar. Agora
lá fazerem alta na sua rica testa sapiente, tó
ruça! E foi-as enxotando à vassourada dos dedos
reboludos, que não haviam chegado à terra enxota-moscas
de plástico que, em forma de raquette,
manejados com certa destreza, as mandam infalivelmente
a Ptah, que é o seu deus oficial desde os Faraós.
   Sempre humanizando, levantou-se da
sesta. Durara menos de três quartos de hora aquela
meia sonolência, própria dos espíritos inquietos
e dos velhos. Porventura se houvesse prolongado
até a hora, a horinha benquista dos justos e dos
filósofos, se não fora o quiçá e as moscas.
*
   Depois de haver atravessado
a cozinha deserta e climatizar os olhos à luz
brava, que explodia nos velhos potes de cobre,
de soslaio nos pendurais dos muros, e no bojo
da grande talha da água, em grés, já do avô Dias,
rachada há que mundos e que agora melava um lagrimejadoiro
sem fim, desceu ao pátio. O sol da tarde, refinadamente
canicular, rechinava as pedras. A tia Alexandrina
devia ter ido lavar para o arroio. Viu as horas:
era mais que tempo de terem chegado da estação
as bolsas do correio. Compôs a gravata que, neste
século de socialismo, é um emblema que ainda impõe
ao respeito de rústicos e pés descalços um filho
de boa mãe, fechou a porta e despediu. As galinhas,
diante dele, ergueram-se no cisqueiro a cacarejar.
E ele, que se ufanava de haver adquirido faculdades
de observador arguto, ao estudar a fisionomia
dos alunos para bem lhes medir a competência,
estacou a contemplar, por vezo, a pita riça que
não se movera e de dedos abertos em carda coçava
o piolhinho. O piolhinho das aves, apterus
ischnocera ou...
   Neste momento os bácoros da recente
ninhada, iludidos pelo seu vulto, alvoroçaram-se
do chiqueiro e desataram na partitura: cué!
cué!
   O sustenido dos leitões acordou-lhe
na memória a forma feminina do relativo. Qui,
quae, quod. E gozou, grato à perdurante formação
latina o sentido poético da onomatopeia. Quem
poderá garantir que aquela voz elementar não tivesse
sido copiada pelo avô troglodita na selva romana
onde os cerdos tinham suas recolhas naturais e
soltavam grunhidos espontâneos? E deixou o pátio
meditando, como lhe era peculiar, em problema
tão original e gracioso. A certa altura esgotou-se-lhe
a corda da erudita fantasia e abriu o Século
da véspera que arpoara na sala de jantar, para
se não dizer que esperdiçava aquele espaço de
tempo sem cumprir a nobre missão para que nascera
fadado. E foi andando e lendo - atitude ambulatória
que sabia ficar bem ao seu prestígio de letrado
- com incerto passo, rua fora entre os casebres
abrasidos e velhas mulheres, que lhe fosforejavam
ao viés dos olhos e de quem não lhe interessava
dar conta. Mas breve estramontou, de tope para
um palmípede, que lhe cortava o caminho:
   - Trago aqui os jornais, uma carta
e o aviso dum registo para o senhor Professor...
   Era o Cangalhas carteiro, de bolsa
de coiro na barriga, com a petisca colada ao beiço
e a barretina empinada para a nuca.
   - Dá cá...
   A letra não lhe era estranha. Com as
duas unhas de polegar e indicador, conjugadas
em guilhotina, amputou um dos cantos e, introduzindo
o dedo, rasgou. Correu à assinatura: Luís Graziel.
   Olha, que petroleiro! Seu antigo discípulo
na Faculdade, tomara pelo caminho da Esquerda,
mau caminho, semeado sempre de escolhos presuntivos,
e que bastariam para lhe atrasar a carreira. Mas
aquele era naturalmente rebelde, soberbo, iconoclasta,
tornando-se tão insuportável, que até ele, o pai
da paciência e cordura, acabara por assinar com
outros colegas a medida que o excluía das escolas
superiores do Continente. Tratava-se dum destes
tipos de rapaz que se vão tornando comuns, bebido
nas auras moscovitas, paradoxal de todo, estoirado
do ânimo, doido, perfeitamente doido, zombador
e sarcástico, posto que dotado porventura de uma
incontrolável originalidade. Embora fosse uma
das primeiras verdades do seu carácter não gostar
de fazer sangue, não guardara remorso algum do
entrechoque a que se seguira o aniquilamento do
lapantim. Conjurava-se com este sentimento de
mestre intemerato a circunstância de estar em
crer que fora ele o autor do artigo pérfido em
que se chamava a atenção para o lente do quiçá.
Quanto ao mais, ter sido preso, porradeado, mantido
em cárcere sem julgamento meses e meses, daí lavava
as mãos.
   A carta vinha assinada de Granja do
Frade, povoação a uma légua dali, no cerne do
concelho, onde aquele seu antigo discípulo, para
apimentado do irrespeito, fora nado e o pai tinha
duas courelas e um velho sobradinho. Afinal que
lhe queria a peste do homem, que julgara de todo
debelada para longe da circulação pelos antipútridos
drásticos usados pelo Poder? Tornou a cavalgar
no nariz os grandes e amedrontadores quevedos
e leu:
   Honorabilíssimo Senhor Professor
e meu ilustre conterrâneo:
   Parto do princípio que não se esqueceu
totalmente ao antigo discípulo, posto tenham rolado
dez anos, de estrondosos triunfos para V. Ex.a,
de silêncio tumular para mim, e peço-lhe que parta
também do princípio que voltei definitivamente
a página sobre os sucessos, em que V. Ex.a tomou
para protótipo Caifás, e eu, como réu de feios
pecados de inteligência, apanhei, semelhante aos
faquinos dos autos que se representavam no pátio
das Fangas, um senhor pontapé na bunda.
   "- Ah! ah! cá está ele, escarradinho
no estilo arrevesado e pincha-no-crivo. Não se
curou o bonifrate". Depois desta breve interrupção
mental prosseguiu:
   Mas não me confunda V. Ex.a com
o Gil Barbosa, o Barbosão, que é também cá da
província, também expulso como anjo revel, esse
que lhe carreou materiais interessantes para a
biografia de Jacinto Freire de Andrade. Lembra-se
bem, pois não lembra! Foi ele que se botou a Chã
de Tavares, lá no calcanhar de Judas, onde fotografando
e medindo o presbitério, metendo o nariz nos potes
de azeite da sacristia, palpando os paramentos,
engarrafando os ares, por assim dizer, lhe trouxe
uma preciosa cabazada de factos e noções. O autor
da Vida de D. João de Castro só não ressurgiu
porque o meu querido mestre professa um respeito
imoderado pela intangibilidade dos mortos, mormente
quando envoltos em bandas de incenso e mirra.
Menos, de resto, por eles do que pelo justo receio
de que cheirem mal e empestem o conspícuo sinédrio
da Universidade. Não, eu sou o outro, o heresiarca,
que escreveu uma dissertação profusa sobre o humanismo
setecentista que V. Ex.a me deu a honra de disseminar,
a justo titulo de lição sabatinada e censurada
na aula, através da copiosa obra, de que é autor,
sobre o Padre Bemardes. V. Ex.a deve estar lembrado
que foi precisamente por eu ter comentado, em
termos curialíssimos aliás, o hábito jucundo de
mandar os alunos saltar à seara moabita apanhar
as espigas caídas das mãos dos ceifeiros, e com
elas erguer grossas medas panificáveis, que dei
no goto do Conselho. Suas Excelências viram nisso
um acinte, bem assim o meu querido mestre no que
respeita a Jacinto, et pour cause. A partir dessa
data o mestre de propedêutica literária passou
a tomar de ponta ao conterrâneo e humilde servidor.
Injustamente. "Aqui está como voltou a página
o grande sacripanta! - pensou Mário Delorme. -
Que descoco!" Prosseguindo: Um dos seus colegas
inventou mesmo um jack engraçado com que passou
a cobrir a manipulação da especiaria assim angariada:
trata-se de uma sorte de escote, ou imposto alfandegário,
que vertem os alunos à competência e discrime
dos mestres. Chamavam-lhe outrora portagem da
Ponte dos Asnos, porque aqueles os albardavam
e tangiam e ensinavam a pensar e discorrer - ornear,
dizia Petrus Ramus, o que eu omiti como irreverente.
Pois que o costume se arraigou nas Faculdades
e se prevalece de antecedentes consagrados pelo
uso nas letras e artes, o broyage das tintas nas
oficinas dos mestres, o aplainar das tábuas nos
marceneiros, o aprendizado do barbeirinho novo
na cara do tolo, ámen.
   Voltando à vaca-fria. V. Ex.a não está
a par de toda a minha odisseia, e é compreensível,
dado que ao Olimpo as nuvens escondem os baixos
da crosta terrestre. Saiba por isso V. Ex.a que,
depois de ter sido banido da Universidade, tentei
ensinar nos colégios particulares a cartilha do
P.e Inácio. Mas aí me perseguiu o anátema, convidados,
sob capa, os dignos directores a dispensar-me
por subversor e incompetente. Incompetente permiti-me
não me supor depois que o meu sapientíssimo mestre
um dia, na aula, me deu roda de alta inteligência
e poder de compreensão raro na filosofia e psicologia
da literatura nacional, do que me não desempavonei
ainda completamente. De modo que tive de ir acolher-me
à casa paterna, tragando o amargoso pão de meu
pai regado com o seu suor. Incapaz de secundá-lo
na lida agrícola, tive tempo de sobejo para me
entregar ao estudo e à poesia. Em matéria de crítica,
estou a acabar de compor um estudo, que terei
muito gosto em lhe mostrar logo que esteja suficientemente
corrigido e rectificado nesta e naquela passagem.
Para isso, leio, releio, volto do direito e do
avesso os livros do autor versado ou seja o ínclito
mestre Mário Delorme. Nele se apontarão as belas
qualidades de V. Ex.a e o seu critério tão selecto
de antepor o especioso ao trivialmente decorativo,
a espada de folha toledana ao chifarote, o cortesão
ao homem vulgar de Lineu, a glória épica à platitude
dos nossos dias. Como eu compreendo que de gorra
com o P.e Rodrigues tenha defendido a aristocratização
dum Camões, meio Bergerac, meio dourado parasita
da corte, colar de foles, chapéu de plumas, poeta
pela arte, arrastando no palácio da Ribeira uma
espada sem bocas, comendo cabritos sem cabras
ter, e para maior exalçamento amante abstracto
duma princesa. E que princesa!? Simultaneamente
protectora das artes e a mulher mais rica da Europa,
por morte legou tenças a leigo e frade, a ladrão
e a escravo, a preto e mouro, e não se lembrou
do seu louco e enamorado trovador! A propósito,
senhor Professor, sempre chegou a averiguar de
que olho é que o cantor da linda Inês era cego?
Aceitar que o era do olho esquerdo é pelo menos
presumir que fosse homem de voltar a cara, pois
que o movimento de cobardia é rodar da esquerda
para a direita, face ao adversário. Eu opinei
e opino pelo direito, como, quanto às edições
de Manuel Gonçalves, opino que a princeps é aquela
em que o pelicano olha para a direita, pois que
ostenta as gralhas que aparecem corrigidas na
edição em que o pelicano olha para a esquerda.
Mas isso que importa para a glória de Camões e
a felicidade do povo português!?
   Mas, vamos ao essencial, o que me traz,
já que não tenho o direito de roubar à análise
e apostila das nossas obras-primas o fugitivo
e precioso tempo. Como disse, trago em mãos um
livro de crítica e comento à obra do ilustre Mário
Delorme, e completei um outro de versos. Com ele
vou concorrer ao Prémio Royal Soconny Oil. Para
este peço desde já ao conterrâneo e mestre, que
durante algum tempo me concedeu a sua afeição
espiritual, o patrocínio depois do abalizado parecer.
Nesta nossa terra em que pululam os poetas, a
fim, providencialmente dir-se--ia, que se não
entredevorem como os memorados grilos do P.e Patagónia,
essa louvável instituição dum milionário instituiu
um prémio nada despiciendo à obra que obtenha
o palmarés. Ouvi dizer, e tenho-o por confirmado
nada mais que pela lógica imperiosa dos factos,
que V. Ex.a faz parte do júri e é o seu presidente
nato. Membros são os discípulos de V. Ex.a ou
cérebros formados nos seus juízos, gosto, sentido
que professa do fenómeno poético. Ora para que
V. Ex.a me patrocine com a convicção requerida,
mister se torna que conheça a mercadoria que concorre.
   Estou certo de que nenhuma regra da
deontologia proíbe tomar dela conhecimento antecipado.
Não lhe oculto, também, que professo uma entranhada
antecipação nesta sorte de certames contra os
conspícuos membros do júri que têm por hábito,
desde que se pronuncia o leader ou há que obedecer
a santo-e-senha, assinar de cruz, por comodidade
ou subserviência.
   Mas eu não desejo mais, por agora,
do que V. Ex.a aquilate dos meus versos. É proverbial
que o meu querido Mestre pega num soneto petrarquiano,
bocaciano, camoniano, bocagiano, acaciano e sabe
pesá-lo e submetê-lo ao punção como um ourives
a qualquer bugiganga de oiro. E é essa análise
espectral a que aspiro. Eis as várias e muitas
razões por que me permito enviar-lhe debaixo de
registo a Gaitinha do Capador. O título é corriqueiro,
tirado do lazareto do glossário, mas esclarece
do que é a minha lavra poética em gama de toadilha.
Com efeito, acontece-me muitas vezes ouvir pelas
ruas da aldeia um homem de chapéu braguês, faixa
vermelha de três voltas a deslaçar-se da cinta,
suíças, jaleco sobre camisa de pescador, a tocar
tal instrumento. Vira, vira-vi, castra leitões,
especialmente, embora seja competente para fazê-lo
a qualquer espécie de bichos, se na nossa capadócia
fosse necessário. Aqui está onde fui colher o
alamiré.
   Se não leva a mal, um dia destes, quando
a burra de meu pai, que anda manca, tiver sarado,
irei beber dos lábios de V. Ex.a a pura linfa
que mate a sede da minha ânsia.
   Antigo aluno, grato e admirador de
V. Ex.a
   Luís Graziel.
   Mas que grande mariola!
*
   Certa manhã, que o
ilustre professor havia terminado o petit déjeuner...
Esta expressão dum hábito civilizado, irradiante
como tanto pequeno nada que diz respeito à vida
francesa, agastava-o no seu orgulho nacional.
Mas ainda não topara substituto idóneo na língua
que considerava, ele e os mestres filólogos, como
a mais rica do Universo, salvo as hindus, intrincadas
como a selva e a alma asiática. Pois certa manhã
que já havia tomado o leitinho, no português portuguesíssimo
da tia Alexandrina, e se preparava para singrar,
de sonda na mão, no pélago coalhado de algas e
nenúfares em flor do grande padre Vieira, deu
fé que batiam à porta. A boa dona, que ele, nas
horas de ternura poética, chamava a sua santa
Catarina de Alexandria, dirigiu-se à porta, pois
que a paqueta pusera-a dias antes na rua por malcriada
e caqueira. O seu passinho era surdo e vagaroso
devido às pernas anquilosadas e não menos às chinelas
que calçava, a fugirem-lhe da ponta do pé. Não
havia feito singradura que se visse naquele Amazonas
da retórica, e já voltava a tia no seu andar opaco.
Ostentava duas perdizes, presas pelo bico a uma
vergontinha de giesta que lhe passava pelos opérculos
nasais, e um gigo de ovos.
   - Trazem-te aqui este presente...
   - Duas perdizes?!... Faltam quatro
para a clássica meia dúzia das peitas. Ovos, barata
feira...
   - Fazem cá bom jeito, sobrinho. As
nossas pitas estão todas chocas.
   - Deu o nome?
   - Que era um teu antigo discípulo...
   - Oh, com a breca! É o Graziel. A tia
disse-lhe que eu estava?
   - Olha, disse! Disse que o senhor Professor
acabava, na mesma da hora, de se sentar à banca
de estudo. Havia de despedi-lo? Se não se apresenta
como teu discípulo...
   - Está bem, mas eu não lhe ensinei,
tia, que começa sempre por dizer: não sei, vou
ver... O senhor Professor às vezes sai pela porta
travessa... O homem ficou à espera?
   - Está a prender o cavalo.
   - Só eu estou guardado para estas buchas!...
- exclamou bufando. - Nem aqui, a mais de cinquenta
léguas de Lisboa, me deixam em paz! - Deu um murro
na mesa, e aliviado, vendo conturbada a velha
senhora, suspendeu-se de dar segundo... Mande
lá entrar... Mande lá entrar o homem!...
   Entrou o autor da Gaitinha do Capador,
em que, só anunciado de antemão, podia reconhecer
o seu antigo discípulo da Faculdade de Letras,
indómito sacripanta e pintalegrete. Pareceu-lhe
escalavrado do físico, mal vestido e pior calçado,
em degradação manifesta. A cabeleira opulenta
cortada à escovinha. Só o olhinho guardava o lume
primevo, chispante e facecioso.
   - Viva o meu amigo! - exclamou, avançando
ao seu encontro, depois de poisar pressurosamente
no livro aberto, a marcar a página, a régua de
desenho.
   - O senhor Professor são como um pêro?
Nem os cabelos lhe distingiram mais. Óptimo! Óptimo!
Estimo para maior glória da nossa terra...
   - Não diga isso! Sinto-me velho, alquebrado...
A memória está-me um cesto roto. É o desgaste
natural de todo o extroverso, que ousou representar
no teatro do mundo...
   - Admirável conceito! Sim, extroverso...
Extroverso, que derrama por fora: o leite ao lume
que levanta com a fervura, o vinho mosto que salta
pelo batoque, a schwartz bier que trasborda
da caneca e o champagne bien sablé da taça,
os neomalthusianos... Metaforicamente falando,
os que se dão ao mundo, existem pelo mundo e no
mundo, não é?
   - Sim, pode ser isso e mais alguma
coisa. Mas adiante. Para que se esteve a incomodar?
Na vila também é fortuito arranjar perdizes...
   - Para o senhor Professor até faisões.
Que é o que V. Ex.a não é capaz de arranjar?!
Estas cacei-as eu próprio na tarde de ontem. Costumo
fazer melhor cinto, três, quatro, mesmo mais.
Mas fazia um vento levantisco, ácido como diabo,
e a esta altura, que já andam escarmentadas e
bravias de asa, levantam longe. Quando se mete
a espingarda à cara, estão fora de tiro a tanger
os tintinábulos. Perdoará a pouquidade. Por isso
minha mãe foi buscar os ovinhos frescos para o
almoço de V. Ex.a, os clássicos ovos provinciais
oferecidos do coração, que não os esgorjados da
Mofina Mendes.
   O senhor Professor deixava-o falar,
um pouco ofuscado, outro pouco a ver reemergir
daquele pseudo-campónio o petulantíssimo discípulo
de Letras.
   - Muito obrigado. Então o Sr. Graziel
vem saber a minha opinião sobre o seu livro, não
é ? A falar verdade, mal o pude folhear. Todo
o meu tempo é pouco. A Editorial, para que trabalho,
não deixa passar dia que me não pique para lhe
fornecer material de composição a tempo e horas.
Chega-se a perder o fôlego com empresas tão insaciáveis
e já tive de lhe dizer: não há mais escoliastes
na nossa terra?
   O senhor Professor ia-se auto-regalando
no seu estilo rigoroso de lente. Sem querer, deixava-o
transparecer como certas cocotes que mostram as
belas unhas pintadas.
   - Isso há! mas nenhum tão completo
como o meu antigo professor, exímio no jogo das
ideias e soberano da sua concreta realidade individual...
   - Ora, ora, há muitos e a lampar...
   O ilustre Dr. Mário Delorme, isto dito,
desatou a mexer na papelada com um intento bem
objectivo, enquanto Graziel pronunciava em oitava
baixa:
   - Lampar... lampeiro, lampião, lampadário,
lampanas, lampo, figo lampo... tudo, não é, senhor
Professor, do velho lampo, as, are?
   O Mestre sorriu, sem responder, àquela
curiosidade ambígua que lhe conhecia, não se via
bem se infantil, se desfrutadora, exumando da
mesa babélica um cademo em papel de 25 linhas
cosido com retrós vermelho.
   - Aqui está o manuscrito...
   - Estou a ver!
   - Que quer o meu antigo discípulo que
lhe diga?
   - Quanto à versalhada, pouca coisa,
pouca coisa. Tem ao menos algum interesse?
   - Vamos por partes. O senhor não podia
descobrir título mais... como hei-de eu expressar-me?...
Mais, quer dizer, menos obnóxio? Gaitinha do
Capador?!... Não lembrava ao Diabo!
   - Pois não lembraria, que o Diabo é
bota-de-elástico. Mas lembrou-me a mim que sou
criatura de Deus, baptizado, é certo que sem ninguém
me consultar nem até esta hora ter ganho nada
com pertencer ao Grémio de Igreja. Mas não vejo
qual a causa por que ficou tão assarapantado o
meu ilustre Mestre...
   - Homem, deve reconhecer que o título
não é decoroso. Pode supor-se uma menina, educadinha...
de boa família, hem, com um livro desses na mão!?
Ou mesmo uma estudantinha do Liceu ou das nossas
Faculdades a pedir numa Livraria do Chiado a Gaitinha
do Capador...?!
   - Justa, naturalíssima observação,
concedo. Mas é que eu pretendendo focar "a adequação
do momento em que vivemos à sua própria realização
em plenitude", para empregar os termos excelsos
do meu querido Mestre, utilizei os naipes fundamentalmente
etnológicos do folclore lusitano. Vejo-o com prazer
agora confirmado pela sua boca. A boa educação
vocabular não existe em termos de arte. O meu
Mestre é a ordem positiva em religião, política
do espírito e dicionário. Perfeitamente, eu continuo
a não ser previsto. Como é que a minha tese, aparentemente
tola e subversiva, de que a opinião comum em literatura
se formou sobre críticas e julgamentos de cretinos,
não havia de revoltá-lo?
   - Aconselhei-o, se bem me lembro, a
que substituísse cretinos por medíocres. O senhor,
na sua soberba, nem essa concessão quis fazer...
   - É facto. Mas cretinos era o termo
justo. Eu o que propugnava era por uma revisão
de valores...
   - Imagine onde isso levava, segundo
os corolários que o meu discípulo deduzia! Cancioneiros
ao ar, épicos, salvo Camões, ao ar, Bemardim,
Garrett, Castilho, Júlio Dinis, ao ar...
   - E então? Assim a minha tuba fosse
a de Jericó! Toda a nossa literatura pede um terramoto
como o de Lisboa em 1755.
   - Ah! ah! Eróstrato...?!
   - Com essas e outras é que V. Ex.a
me lixou...
   - Mas voltando ao nosso quid.
Condeno in limine o título Gaitinha
do Capador...
   - Ainda não compreendi porquê. Não
é assim que o nosso bom povo - como dizem os sábios
da Academia e os deputados de S. Bento - chama
ao instrumentinho de beiços, de tubos desiguais,
feito de lata ou de cana, com que são convidadas
as donas - vira-vira, vira-vira - a capar os animais,
favorecendo-lhes o crescimento, com preservá-los
das turbulências do vício sexual? Porque não hei-de
empregar o vocábulo, se é corrente, se é o único
corrente?
   - Está relegado ao lazareto!
   - Que critério de falsa decência, santo
Deus! Ainda nisto se vê a psicose da obscenidade
que atormentava os frades ou os pregadores, que
foram os primeiros a mexer no léxico. Sempre queria
que me dissessem se a imagem da realidade pode
limpar-se do que tem de sujo a própria realidade.
Se em vez de Gaitinha do Capador, empregasse
Gaitinha do Castrador, a operação ficava
em si mais ensaboada? Não vejo como a pudicícia
verbal possa expungir da ideia o que comporta
de torpe ou freudiano. Porque há-de ser nestes
actos da vida rural mais decente castrar do que
capar?
   - Convencionou-se... Há que respeitar
as convenções que encerram às vezes o mel venusino,
que adoça a vida, e têm a força estática de montanhas.
   - Pelo que me diz respeito, peço licença
para discordar... Gaitinha do Capador dá,
com a cromática verbal, a simplez e, acima de
tudo, a modulação rústica dos meus versos. Por
isso emprego a denominação, e por nada deste mundo
a modificarei. Nunca reparou para um capador a
tocar a sua gaitinha, por um dia de sol, em pleno
dédalo da aldeia? Realiza-se ali a anastomose
da natureza com a prática a efectuar que nem a
de Cristo com a Eucaristia.
   Mário Delorme riu do espalhafatoso
da comparação e pronunciou com plácida e contemporizante
doçura:
   - Sempre com ideias ímpares este Graziel!
   - Ímpares? E as pares? Que é isso,
senhor Professor? Ah, já sei, é um bill
ao Rodrigo das Abóboras. Foram colegas, compreende-se.
Ele é o autor dessas e doutras admiráveis fioritures
do estilo. Pois repare o meu querido Mestre, na
minha linguagem como nos meus escritos há tantas
ideias ímpares como pares. Mas V. Ex.a deu-se
ao incómodo da matutar sobre o título de Gaitinha
do Capador... noto-o com desvanecimento...
   - Não tinha que matutar. E com franqueza
lhe digo, o título provocou-me uma má disposição
que se não dissipou com a leitura. Porque não
lhe chamou antes Flautinha de Pã? Hem?
Repare que nome tão gracioso que me acudiu!...
Não gosta? E Siringe do Fauno? Não é mais
bonito?!
   - Confirma-se que esteve a meditar
no título e, por dedução, na minha ervilhaca...
Agradeço-lhe muito, mas crismá-lo nem a pedido
do Cerejeira. E que me diz dos versos?
   - Devo dizer-lhe, antes de ir mais
longe, que não me repugna a poesia moderna, mormente
a abstracta, para que se podem encontrar duas,
três, ou mais explicações subjectivas.
   - Ao gosto do freguês?
   - Ao gosto das almas poéticas, hipersensíveis.
Agora se o meu antigo discípulo, que eu tanto
aprecio pela inteligência aguda e original, embora
me tenha dado o grande desgosto de me obrigar
a tomar uma atitude severa, quis fazer livre-versismo,
porque conservou a rima?
   - Precisamente porque sou partidário
do livre-versismo. Se o não fosse, teria abstraído
da rima.
   - Não alcanço...
   - É fácil de alcançar. A ideia de liberdade
tanto implica saltar todas as barreiras convencionais,
como só duas, como só uma. Deitei todas ao vazadoiro,
menos a rima.
   - A odiosa rima?
   - Para não ficar a odiosa prosa. Eu
aspiro a que os meus versos soem como as campainhas
das vacas, as garridas das catedrais, como as
cortinas venezianas de tubos sonoros às portas
dos barbeiros.
   - E isso é poesia?
   - E é poesia essa especulação acefálica,
apodética, cata vêntica onde o estro super-realista
parece ter voltado ao caos do verbo?
   - Abre os horizontes da imaginação...
   - O meu ideal era não fazer mais que
virelais. Mas a simplicidade que exige
não é compatível com o nosso eu de complexos,
muito mais depois de roçar os calções nas bancadas
duma Faculdade portuguesa. Mas parto de duas ou
três ideias elementares, cândidas como a de Branca
Flor entre os anões, glosadas ao som da gaitinha
de beiços, tangida por um Sileno de aldeia.
   - Estou a redescobrir o meu antigo
aluno... Como a índole do homem é menos inflexa
que o aço!
   - Esse aluno que se aprouve reprovar,
hem?! Nada disso, nada disso. Por esse pode o
meu ilustre Mestre rezar-lhe o De profundis
no cantochão de subdiácono. Sucumbiu de morte
de macaca. O Graziel que aqui vê, caçador, a cheirar
ao terrunho - ainda ontem ajudei o abegão a regar
o meloal - é muito outro; o que pretende é resgatar-se.
Antes de mais nada, tenho em vista reembolsar
meu pai de cinquenta contos que gastou comigo
e pelos quais me pergunta de quando em quando.
Para lhe falar franco, o meu propósito básico
é governar-me. Foi por isso que me preparei para
o prémio de 50 contos da Soconny e tenho em mira
levantar o ramo. Este ano ganhou-o um poeta que
tem talento deveras, e eu, se o meu ilustre Mestre
entender, terei também talento, talento como burro,
o que baste para ganhar essa pequena taluda. Está
a adivinhar onde quero chegar?... O meu prezado
professor, repito, faz parte do júri, é o seu
presidente nato, e que não fosse, todos os membros
estão impregnados do seu espírito e, conformemente,
predispostos a pronunciar os seus juízos. Basta
que proclame urbi et orbi, numa daquelas
suas frases, que só de ouvi-la parece emprenharem
as sete musas: "a poesia pura, no conceito que
dela hoje fazemos, visão maravilhosa ou magnificente
da Vida, êxtase, perturbação interior da presença
do transcendente, dificilmente exprimível pelo
discurso lógico, sugestão mais que representação
do inefável, encontrou em Graziel", patati
patata...
   - Já sei, já sei...
   - A bela frase não acabava ali. Deixe-me
puxar pela memória... Ah, "essa poesia pura que
acorda no mais fundo e recôndito mundo interior
ecos reveladores das profundidades abissais, em
que o homem se desindividualiza no ser, e a música
verbal, dir-se-ia, fundir-se na harmonia das esferas,
essa, bem se compreende seja como ave melindrosa
afugentada por tal ruído". Uf, o meu caro Mestre
tem fôlego. Custou-me a fixar. É bem assim? Veja
como o admiro! Pois basta, torno a dizer, que
o meu querido Mestre entorne da sua cornucópia
preciosa sobre a minha cabeça de neófito semelhante
linfa lustral, e está resolvido o problema. Está
resolvido o problema - rematou em voz surda e
rebolando o olhinho fúlgido - e o meu querido
Mestre reabilitou-se da prepotência que cometeu
para com um discípulo que, na sua candidez, até
lhe forneceu especiaria para o sapientíssimo sarapatel...
   Mário Delorme viu-lhe fuzilar no olho
a terrível chispa dos loucos e iluminados e obtemperou
com circunspecção:
   - Mas o senhor pedia apenas a minha
opinião crítica...
   - A opinião crítica, sim, como base
desse movimento de generosidade e reparação, de
que julgo capaz uma consciência de lente que não
passou por Coimbra. Tenho uma necessidade imperiosa
de ganhar o concurso para tirar dois terços para
meu pai e com outro terço poder pisgar-me desta
capadócia sem igual.
   - Deixe lá que há pior. E capadócia
porquê?
   Graziel olhou para o Mestre e não respondeu.
O Mestre folheava o livro com mão meia desenfadada,
meia complacente. Graziel murmurou:
   - Os concorrentes caem de cu.
   - Há muito que se lhes diga nos seus
versos - proferiu ao cabo dum longo silêncio o
Mestre intemerato, e a sua voz soou como as badaladas
das Almas no crepúsculo dum ermo.
*
   Mário Delorme pôs-se
a ler alto numa voz rouca, encatarrada, horrível,
capaz de converter em chocalhada de bardo as estrofes
esfuziantes de António Feijó:
MORCEGO, MORCEGUINHO
Morcego, morcego,
vem à cana que tem sebo.
   Pequenina sombra gris,
   ambulatriz,
   saltatriz,
   de noite mal riscando o céu
   ao bateres o véu,
   cor de breu,
   das asas em membrana
   - leve tarlatana,
   macia camurça -
   montada em varetas
   como as cetinetas
   dos guarda-chuvas,
   à cana irás dar?
   Isso vais tu,
   que tens um radar
   para na noite de ébano ou acaju
   não errar!
   Todo às avessas,
   sem vagar nem pressas,
   volante,
   lactante,
   com os filhos nos flancos
   como os ciganos e saltimbancos,
   nem ave nem rato,
   até dormes de cabeça para baixo
   acrobata abstracto!
   Feio salta-pocinhas,
   perpassas de vasquinhas
   como as huris
   carregadas dos rubis
   que são as estrelinhas
   deslocando-se por cima de ti
   a observar-te na dança de alfaqui.
   Bichinho simpático,
   tão discreto na caça irreal,
   nada mais injusto
   que te darem foral
   de agoureiro e lunático!
   Graziel esteve tentado, várias vezes,
durante a leitura, a arrancar-lhe o original das
mãos e a fazer-Ihe ouvir os versos repassados
por voz decente. Mas limitou-se a soltar um grunhido
de cão pisado na cauda.
   - Aqui há certas imagens pretensamente
poéticas encaixilhadas em madeira de pinho com
a casca - exclamou com acrimonioso topete de lente.
- Que mau gosto em falar nas varetas dos guarda-chuvas
quando tem a linda e sugestiva palavra de umbela?
E aquele horríssono salta--pocinhas, corriqueiro
e mal-cheiroso? Só quero que me diga, o morcego
merece tais esmeros?
   - Realmente eu podia ocupar-me de preferência
com o flamingo ou o pavão. Puxou-me para ali.
Tenho uma dívida para com os morcegos. Na cadeia,
onde estive preso dois anos - veja o meu querido
mestre onde me conduziu, elo a elo, o estouvamento
de escolar - consegui domesticar um. Teria morrido
de tédio, se o pobre bichinho não me fizesse companhia
a certas horas, pendurando-se-me do dedo. Era
ele que me advertia, furando pelo ralo, da espionagem
dos guardas, tão importante para mim que eu andava
a preparar a fuga que, afinal, levei a cabo. Sabe
que fugi do calabouço, me exilei para Paris, arrastei
por lá muitos anos, sabe Deus como?
   - Sei muito bem e lamento que, mercê
de sua cabeça, só fosse restituído à sua portela
natal através de tão ínvios caminhos. Saiba que
eu, no fundo, estimo-o e admiro-o.
   - Muito obrigado. Por agora o que me
interessa é que me admire, não apenas in peto,
mas coram populo et senatu consulto.
   Mário Delorme esboçou muito ao de leve
um ar de impaciência, logo reprimido, que significava:
coragem, professor jubilado, tens de levar a cruz
ao Calvário. Mais uns minutos de longanimidade.
Abriu o caderno mais longe. Depois de uma breve
pausa, pôs-se a ler A Cana do Canavial.
Lia, decerto com acinte, tão torpemente que Graziel
teve a impressão de que era uma malhadeira mecânica
que estava a debulhar o seu verso como fazia às
fachas de trigo.
A CANA DO CANAVIAL
   Parei à beira do verde
canavial
   a olhar para a cana real das canas,
   com todas as oriflamas
   a adejar ao vento mistral.
   - Ó cana real, quem te mandou aqui
vir?!
   pergunta o cantador,
   como se fosses de carne e osso
   e viesses, afrontosa,
   lembrar algum moço
   que por teu amor
   tivesse fugido para Ofir
   ou terra assim tenebrosa.
   Nasces e vives à beira dos chafurdos,
   ó planta inspiradora de absurdos,
   e, como tal, és joguete da imaginação
   contra o bom senso e a luz da razão.
   Mas estás perdoada porque contigo fabricou
   a alegre gaitinha o deus Pã,
   e cansas o vento a bater o cancã.
   Viras, reviras, torces como as cobras,
   vai-se ele, tu a rir: não me dobras!
   Em vez de sombra, dás loucas ideias,
   ó mais esquisita das cananeias!
   Não saíram de canas as cananeias,
   lindas mulheres da Terra Santa,
   fáceis, segundo a Escritura, a pintar
a manta?
   Também da tua cabeleira de cigana,
   como levada nos frufrus da pavana,
   quem não há-de ouvir no sussurro
   o refrão: Príncipe com orelhas de burro!
   À força de andares em trabuzanas,
   ó cana, real, ó cana,
   deram contigo em pantanas
   convertida em zarabatana!
   Foi também a cavalo numa cana
   que aprendi a trotar ao redor da ama,
   e que as bruxas vão para o Sabá
   quando falta em casa o piaçá.
   Caninha de verdes galhardetes,
   quando subires ao ar em foguetes
   que, estoirando, divertem o orate,
   já que em ti tudo é disparate,
   eu te saudarei, cana, real cana,
   como à musa do marquês de Santilhana!
   Uma vez concluída a leitura, depondo
o manuscrito na mesa de cerejeira, disse para
Graziel, postado diante dele em atitude expectante:
   - Como apelou para a minha sinceridade...
   - Perdão - atalhou Graziel - não apelei
para a sinceridade de V. Ex.a. Tal estado de consciência
não tem nada que ver com um julgamento crítico.
Apelei para a boa vontade do meu antigo mestre.
   - Seja. Como apelou para o meu tribunal...
   - Tribunal, tribunal, é como quem diz.
Onde estão as testemunhas?
   - Como entendeu ouvir-me...
   - Sim, senhor. E então?
   - Como entendeu ouvir-me, devo confessar-lhe
que isto, o Morcego, a Cana, me
parece poesia feita a machado...
   - E eu estive a fazer cavacos... poéticos...?
   - Não é bem assim. Esteve a brincar
com a tropa.
   - A tropa lírica?
   - Sim, porque a outra, a que vive em
quartéis e constitui a ossatura da Nação, lê Os
Lusíadas, e não precisa de melhor inspirador
para cumprir o seu dever.
   - Que dever?
   - Defender a Pátria, a ordem, os legítimos
interesses criados...
   - Tinha-me esquecido que o meu mestre
foi primeiro-cabo na Grande Guerra...
   - Sargento... sargento, e até possuo
a Victoria Cross.
   - Lá que se havia comportado heroicamente
soube-se com a notícia de que trouxe o Rodrigo
às costas da terra de ninguém... siderado com
a frousse!
   - Que insídia!
   - Perdão, perdão, foi dos logradoiros
de Coimbra para os bas-fonds do Convento
de Jesus.
   Mário Delorme sorriu-se, mas a sua
tez anegralhada tornou-se verde. Era homem pacífico,
mas se impunemente, sem prejuízo da sua reputação
de íntegro cidadão, como na fabulada maneira de
matar o mandarim, pudesse liquidar aquele pantomineiro,
liquidava-o. Por isso com suavidade, um resto
das pipas de suavidade evangélica que lhe tinham
feito beber no Seminário, volveu:
   - Dizia eu que a sua poesia me parecia
feita a machado. Então, diga-me lá, pode tratar-se
assim uma velha canção nacional, do mais lídimo
folclore, provavelmente já cantada por D. Teresa
ou Tareja nos Paços de Guimarães?!
   - É verdade, é verdade! Eu devia ter
metido em nova rima o Bendito e louvado seja.
   O lente olhou muito para ele a assegurar-se
do quilate daquela condescendência e surpreendeu-lhe
fulgurante o corisco da pupila dementada. Pelo
que decidiu enveredar pelo caminho de Damasco:
   - A poesia tem salvo-conduto para todas
as regiões. Mas o amigo e senhor Graziel excedeu-se...
excedeu-se. Logo na 2.a estrofe faz da Cana
uma espécie de rameira, com o lenço a fugir para
as costas, chinela batente, que vem pedir satisfação
ao chulo. Aquilo de cansar o vento a bater o cancã
tresanda, por cima do estrambótico, a ritmos vedados
em casa das toleradas. E associar a Cana,
assim entrevista, à ideia das cananeias, as santas
mulheres que mataram a fome a Cristo e aos Apóstolos,
e que foram as primeiras, depois da Revelação,
a entrar no Reino dos Céus, passa as marcas. Aconselho-lhe
que elimine esta poesia do seu florilégio por
indecorosa e sacripanta. E uma pergunta: quem
é este marquês de Santilhana?
   - Eu lho farei saber por Lesage, meu
ilustre Mestre.
   Delorme tornou ao manuscrito e leu:
NO SÓTÃO DO VIGÁRIO
   Na residência, lá
para o sótão, do vigário,
   cheio de papéis, móveis cambados, um
armário,
   uma rata sábia teve a ninhada:
   quatro ratinhos, cedo mestres na alhada.
   Um deles, padre fora, foi-se ao queijo
   e deu-lhe um reverendíssimo varejo;
   outro, que nasceu sagaz do bestunto,
   teve artes de ir à selha e fartou-se
de unto;
   o terceiro, co'a fome, roeu o saiote
à ama,
   quando, a tremer de frio, se metera
numa cama.
   O quarto engoliu uma migalha de raticida,
   e acalentava-o a mãe entre a morte
e a vida.
   Nisto, pela tarde,
   no sótão do padre,
   quando o guloso cantava,
   ladrão fino ria e valsava,
   e o outro, com o pai ratão,
   aprendia violão,
   um morcego surge no ar
   de cá para lá a cirandar.
   Pôs-se a segui-lo o ratinho
   de olhos abertos, maravilhados -
   Delírio, sentidos espertos cem por
cem? -
   desatou a gritar: Senhora mãe!...
   Senhora mãe! Olhe um anjinho!
   Fitando-o com fisionomia sorridente
de magistrado que tem o juízo formado e a consciência
tranquila quanto à verdade verdadeira, emitiu
Mário Delorme:
   - Esta poesia ultrapassa, em topete,
as produções mais libertinas do Bocage. Se não
tivesse sido abrogado o Santo Ofício, o senhor
Graziel ia lá malhar com os ossos e a sua lira
ratazanal. Por muito menos figuraram nos autos-da-fé
os escritores taxados de heterodoxia. Concebe-se,
pode-se futurar nada mais voltairiano do que esta
comparação do anjo com o morcego...!?
   - Mau Maria! O meu querido Mestre está
a olhar pelos seus olhos de lente século xx, ou
pelos olhos vesgos dum inquisidor? Eu não comparei.
Diga-me, faça favor: na imaginação dum rato, supondo
que a tinha, que representação mítica eu lhe podia
atribuir de um morcego, a sarabandear por cima
dele, que não fosse a de ser alado, habitando
o mundo celestial, destes que vêm, de facto ou
em sonho, pouco importa, pairar sobre a terra
para êxtase dos mortais? A que título acha o meu
ilustre professor que, debaixo do ponto de vista
teológico, admitamos, a imagem que empreguei é
sacrílega?
   - Pois que o amigo é o próprio a fornecer
a classificação, eu abundo. Sacrilégio e digo
mais, irreverência com todas as letras. De resto,
o espírito sicofanta lá está a espreitar nestoutro
verso: o terceiro, com a fome, roeu o saiote
à ama...
   - Nego - prorrompeu Graziel com arrebatamento
- que a Censura, qualquer Censura, encontre aí
pretexto, sequer, para meter a faca. Eu não especifico
que natureza de ama é essa que está ao serviço
do vigário. Mas, o olho vesgo das pessoas de bem
e almas puras o que lobriga é uma Felícia à Eusébio
Macário, quando a verdade é que tanto se pode
supor essa como uma respeitável matrona, velha
como a Sé de Braga e que ainda tome esturrinho.
Acaso hão-de ser talhadas todas pelo padrão camiliano?!
   - Fica uma larga margem para a interpretação
malévola. Ama de vigário é sempre contrabando
para a nossa literatura de pé-fresco. Mas quero
crer que no engendramento dos seus versos lhe
ocorresse a ideia duma boa e inocente velhinha,
ah, ah, dessas que passavam o tempo, sentadas
ao borralho, ah! ah! a desfiar o rosário de Nossa
Senhora...
   - Nem mais. Ou das velhas que adormeciam,
depois de coçar as pulgas, no seio das Onze Mil
Virgens.
   - Adiante. Reputo inconciliável, salto
estapafúrdio de todo, essa passagem do fabuloso:
o ladrão fino ria e valsava para o realista
mais americanizado dos nossos hábitos: O quarto
engoliu uma migalha de raticida. Antipoética
a mais não poder! É como caldear o bronze com
o barro.
   - Assim reza a Bíblia da estátua de
Nabucodonosor. Mas, não reparou, senhor Professor,
que a ciência, hoje, executa toda a espécie de
soldaduras que possa necessitar o freguês...?
   - A imaginária humana parou nesse livro
e daí não deu passo...
   - Cristo pairava em helicóptero por
cima do lago de Tiberíade?!... Mas, para não nos
perdermos em divagações, qual é, em síntese, o
parecer do Mestre quanto à versalhada? Punha-a
no Índex?
   - Por amor de Deus, não se trata de
aprovar ou condenar o seu livro. Aponto-lhe as
malhas rotas ou mal urdidas, a meu ver, de que
enferma...
   - No júri, rejeitava-o?
   - Seria ilusório, não leve a mal que
lho diga, contar com o meu voto.
   - De modo que o meu fim irremediável
é soçobrar...?
   - O senhor é um homem novo... cheio
de vitalidade... Tomara-me eu nessa idade que
seria o rei do mundo!
   - Rei do mundo é muito cobiçar, mas
rei da madureza, com uma cana verde a fazer as
vezes de ceptro, porque não? Ao Mestre basta-lhe
ser príncipe do espírito com o sol a pino!
   Mário Delorme largou uma breve e convicta
risada. Foi a primeira vez que se não pôde coibir
de descerrar as mandíbulas de cabrito esfolado,
e os zigomáticos se lhe soltaram para deixar às
escâncaras a alma desvanecida.
   - Mas vamos a ver mais algumas composições...
Pode ser que o meu pessimismo se desvaneça!
*
   Mário Delorme tornou
a pegar do manuscrito e forçou-se a ler. Leu um
pouco melhor, enquanto o olhinho de Graziel luzia
como pedaço de vidro exposto ao sol no meio dum
campo:
   Era uma vez um velho orango na Madragoa
   que via o mundo ao avesso de qualquer
pessoa,
   e, porque tivesse olhos tortos e boca
de viés,
   tudo obrigava a és-não-és.
   Era deste jeito a sua fala,
   esquipática como o fogo de Bengala:
   Meus anjos, pouca bulha,
   os cegos enfiam a agulha.
   Os viúvos parem com a zanguizarra,
   que os surdos afinam a guitarra.
   Apuradas bem as contas,
   o boi de Muge tem duas pontas.
   Corra o coxo a chamar o médico,
   aleijou-se um ás do Atlético.
   Caluda! Está um padreca mudo
   a pregar o sermão do Entrudo!
   - Pode o direito ser tão recto
   como um homem parecer insecto ? -
   rosna, zangada, a bruxa vesga
   ao ir do Rossio para a Betesga.
   Ao ouvir-lhes a treta,
   como se fosse à letra,
   ri o do Porto
   para a patroa:
   - Lá por Lisboa
   tudo anda torto.
   Mário Delorme depôs o manuscrito e
proferiu, fitando-o muito nos olhos:
   - Palavra de honra que não compreendi.
Agradecia se me dissesse onde quer chegar. Quando
muito, transluz nestes versos - versos, é favor!
- uma intenção de malignidade que se não compadece
com um cérebro lógico e sem teias de aranha. Coisas
ao viés há-as em toda a parte, mais que na nossa
Lísbia amada, em que predomina a geometria e a
clareza debaixo do sol meridional. Para bem me
exprimir, o amigo recorre a pensamentos que não
são mais que salitrações... ou antes, helmintos
de cérebro rancoroso. Com muita pena, tenho de
fulminar; donec corrigatur.
   - Evidentemente. Não foi subdiácono,
antes de reger uma cadeira na Faculdade, o meu
ilustre Mestre?
   - Eu não lhe admito insinuações.
   - Nem eu ao senhor. Tudo se me pode
assacar, menos obliquidade no carácter. V. Ex.a
não percebeu que o meu intento foi rir-me dos
bilontras e de toda a cambada de nossas avós tortas
que andam a encalistar o mundo!?
   - Acha que são risíveis os nossos venerandos
progenitores?
   - Acho que eram supinamente idiotas...
Quer os meus... quer os de V. Ex.a...
   - O senhor está a delirar...
   - Admira que um espírito tão cosmológico,
entranhado de existencialismo, me não compreenda...
   - Não senhor, não compreendo, nem quero.
Se me pede uma opinião sincera sobre as suas produções,
particularmente sobre esta, condeno-as in limine
- completou com redobrada acrimónia.
   Graziel ficou a contemplá-lo com pasmo,
numa postura tão contendente de expectação, que
o mestre julgou a bem de possíveis percalços corrigir
o veredictum:
   - Parece impossível que, possuindo
o senhor Graziel real talento, não sirva as musas
de luva branca como Petrarca, como Camões, como
Nobre, como Pessoa, em vez de se revestir desse
balandrau, atirado fora, de Baudelaire. Ó senhor,
faça poesia poesia; por exemplo, poesia abstracta,
decompondo os sentimentos e as aspirações de hoje
em triangulações de psicologia espacial, binómios
de estética; faça metafísica oniromântica, em
vez de deixar ir a inspiração pelos trilhos triviais
como tesoiras que talham no papel e recortam rosáceas
patuscas, é questão de dobrá-lo muitas vezes em
sectores circulares sobrepostos... O conselho
de tolo ou de amigo que lhe dou é: atire-me fora
com esse cálamo satânico que escreveu a Gaitinha
do Capador. Tal género de lírica não o leva
à Academia.
   - Só quero que me leve à conquista
do velocino da Soconny.
   - Não pode levar. E, olhe lá, porque
não escreve romances... novelas...? É incomparavelmente
menos responsável.
   - Nasci poeta. Nasce-se poeta como
se nasce com uma geba. O canudo da fatalidade!
Pois não reparou o meu querido Mestre que toda
a minha vida é a ária da Gaitinha do Capador?
Falta-me puxar da lanceta...
   - Meu santo!... - e o Dr. Mário Delorme
abria os braços como no orate fratres.
   Graziel olhou-lhe muito fito para as
mãos patudas e sorriu. Aquele sorriso induziu
Delorme a que também olhasse. Viu-se os dedos
grossos, mas não tornos, as unhas cascudas, mas
longe de solipedais, evolução fisiológica de um
homem fugido à estirpe de húmus e fanga, no ponto
em que se pudera desemborralhar de tal servitude
para a ascensão. Mesmo assim tomou-se de grande
engulho contra o homem abusador e yoakanesco,
que não soubera grimpar ao mastro social, e chamava
os fantasmas. E com fastio ouviu que lhe lançava
em tom de achincalhe:
   - Dou conta que não posso contar com
a imparcialidade, quanto mais com a benévola atitude
do ilustre conterrâneo...?
   - Imparcialidade!? Fuja que ela deponha!
   - Ora, ora! Eu conheço os caminhos
sinuosos que costumam calcorrear, até alcançarem
os seus fins, os honestos pensadores da nossa
terra...
   - Que quer isso dizer...?
   - Quero dizer que me é indispensável
receber o prémio para poder deslizar en doux,
para longe da Capadócia. E não me resigno a que
o meu ilustre professor não tenha a cativante
bondade de ser o moderador plástico da minha modesta
pretensão. Parta do princípio que eu sou homem
de génio...
   Mário Delorme viu-lhe fulgurar a pupila.
Que espécie de génio? Estro ou ânimo colérico
e vingativo?
   - Mesmo que quisesse, não saberia como
lhe pudesse valer. Creia que a minha influência
não é tão grande como se apregoa... Por outra,
não é seguro que eu pertença ao júri...
   - Não encontram ninguém mais apto para
esses fretes honoríficos... embora tão disputados.
Tenha o meu querido Mestre empenho em me ser útil,
que há muitas formas. Estou a encarar outra solução
ao problema...
   - Sou todo ouvidos.
   - O meu preclaro Mestre, que, segundo
é corrente, está podre de rico, não me podia abonar
a importância referida?
   - Acuda Deus às faltas, senhor Graziel.
   - E abrir-me crédito?
   - Quem fia a um mestre-escola e homem
de letras em Portugal?
   - Ora, ora... Sabe-se que V. Ex.a ganha
a vários carrinhos. É económico - honra lhe seja.
- A economia, que é a mãe de todos os vícios,
podia faltar num protótipo da sapiência lusa como
é o grande Dr. Mário Delorme!?
   Perpassou uma larga pausa, enfadonha
e contraditória. Graziel ria ou falava sério.
O professor visivelmente contraído por um lado,
intimidado, por outro, com a ideia de desmerecer
da turiferação de Graziel, pôs-se a procurar a
decifração do quebra-cabeças no soalho mal lavado
da casa provincial. E, automaticamente, foi conduzido
a pegar de novo no manuscrito, curvando-o na mão
e proferindo a meio tom, tão aéreo que nem que
fosse o eco da voz íntima:
   - Era preciso mondá-lo, mondá-lo a
fundo. Também não exageremos. Algumas belezas
tem. Coisa alguma da Criação está desprovida da
graça... de Deus.
   - Mas o meu querido Mestre não leu
tudo. Leia ao menos a poesia final - proferiu
com voz aliciante.
   E, mais para ganhar tempo e robustecer
uma evasiva, começou a ler em tom de sarau, como
se tivesse damas postadas em roda a escutá-lo
para o aplaudir:
AS MINHAS DUAS SEVILHANAS
   Cobiçoso como era,
primo Zé Cunha
   tirou-ma e pôs-se a aspar na unha:
   - É boa para cortar - bem vedes
-
   requeijão e sombra de paredes...
   - Larga lá!... Fui ao amolador:
   - Afie-me esta navalha, tio Heitor...
   Ficou a cortar tão bem que primo Zé
   uivou, em risco de dar um talho: Ué!
   Escanhoou um migalho do braço...
   Apareceu mais nu que o cangaço.
   Deitada na palma da mão,
   o cabo a fugir para o canhão,
   jogava-a ao alvo como ninguém.
   A dez passos cravava-a num redondo
   que não seria maior que um vintém.
   E ficava a vibrar, sem estrondo,
   orgulhosa do seu fino aço
   e do mandante de certeiro braço,
   a minha sevilhana de ponta e mola,
   três estalos, pé-de-cabra, argola.
   Perdi-a, na sazão dos verdes anos,
   sol nascente, manhã com enganos.
   Comprei outra. Assim me pudesse ressarcir
   em força, sonho e sentir.
   Esta requer destreza de capador.
   Comigo para que pode ser boa,
   além de partir queijo e broa?
   Cortar uma orelha a um benzedor.
   Ao terminar a leitura, Graziel meteu
a mão na algibeira e puxou da navalha:
   - Quer ver?
   Com os seus vinte a trinta centímetros
de comprimento, cabo de falsa tartaruga, folha
lampejante, soltou os três estalos da lei. E,
deitando-a na mão, revestiu a forma caprichosa
da surucuá-de-barriga-amarela, alteando o colo
para ferrar.
   - Muito bem, muito bem. Em nome da
Pátria, poupe-se, tem obrigação de poupar-se.
Todo o seu sossego é ganho para a Nação.
   - Mas voltando ao nosso caso - tornou
Mário Delorme, visivelmente sensibilizado. - Quando
se propalou de que missão fui investido pelo presidente
Tchombé, deu-se uma corrida de cem cães a um osso...
ou melhor, dois ossos. Um dos lugares tem dono,
o meu discípulo amado, o Moreira Bamba.
   - O Moreira Bamba? Mas o Moreira Bamba
é um asno à espera da albarda...
   - Para o Catanga está muito bem. E
é meu amigo! Também lá asno chapado, chapado,
não me parece, senão não estava em vésperas de
receber capelo em Coimbra. O senhor aceita, está
bem de ver...
   Graziel abria e fechava a navalha,
dir-se-ia divertido a ouvir-lhe os estalos. E
pôs-se a bambalear a cabeça:
   - Não, não vou na fita. O meu querido
Mestre, com a sua boa vontade, o seu prestígio,
vai-me mas é ganhar o prémio da poesia. Prefiro.
A poesia é uma arte que suporta todas as opiniões,
louvores a Deus. Convença-se de que ressurgiu
o Bocage... o Villon. O senhor deve-me esta reparação...
O senhor Professor Mário Delorme deitou-me a perder...
   Os olhos saíam-lhe das órbitas. Espumava.
   - Ó homem, eu farei todo o possível
por que lhe dêem o prémio, está bem. Vá, comprometo-me!
Não quero que o patrício se queixe do patrício.
Mas aceite também o lugar em África, já que se
quer ver longe da piolheira... Não é como o senhor
lhe chamou, piolheira?
   - Não, senhor. Piolheira, chamava-lhe
D. Carlos. Mas, diga-me lá V. Ex.a, esse lugar
em África é coisa segura?
   - Seguríssima, senão vai ver. Eu passo-lhe
um cheque sobre o Credit Belgo-Katangais, onde
está depositada a quantia necessária para a operação,
e advirto para Elisabethville. Depois é só tomar
o avião...
   - Bem dizia o Mondonedo que o meu querido
professor era um homem de projecção intemacional...
   - Não senhor, não senhor. Isto é cá
uma maçonaria das pessoas de bem e de bom senso.
Mas vamos lá a ver, serve-lhe o Catanga?
   - Serve-me Catanga, serve-me Fidji,
serve-me qualquer casa do Catano, a questão é
ir-me embora... Venha o cheque...
   - Não pense mal da nossa terra...
   Mário Delorme foi ao casaco dos domingos
buscar o livro de cheques. Enquanto rabiscava
os dizeres no cheque barrado, Graziel, senhor
de todo o mecanismo daquela alma portuguesa da
era nova, veio-lhe dizer por detrás do ouvido:
   - Hem, fizemos a concordata sem fiadores.
Só nos ouviu esta sevilhana de maltês...
   Tinha na mão a sevilhana de linha recurva,
desdobrada como a cobra da selva brasílica. Concluída
a frase, placidamente como quem diz a uma testemunha
que se pode retirar, fechou a navalha com os três
estalos da lei, tau, tau, tau, para a meter na
algibeira.