Na comarca houve desinteligência, que
derivou em arruaça, quanto ao prócer que devia
representar em Cortes o Braço do Povo.
   - Vamos a votos! - gritou um, menos
sofredor. E os candidatos, que eram três, ao passo
que diziam remeter-se ao juízo do sufrágio, cada
um mais altaneiro que os outros, à socapa mandavam
os parciais escorvar os trabucos.
  Os quarenta maiores, recenseados em
geral na ralé da terra, lavradores, pequenos tendeiros,
marchantes, mesteirais, dois mestres-escola e
até um ferrador, instados por caciques opostos,
mal coçavam a nuca, que, para eles, mudar de compromisso
era mais fácil que de sapatos. Ainda no dia da
eleição, tendo abalado com as estrelas dos seus
eidos, já porque os dias eram ainda pequenos e
os caminhos pouco andamosos, alguns pareciam mais
oscilantes que o burro de Buridan. E como não?
Se o burro do bom dialecta devia com a fome logicamente
hesitar entre as duas gamelas de cevada, estes
tinham diante dos olhos três cartazes. Dispersos
e em pequenos grupos, montados e a cavalo, começaram
a chegar à vila já o sol ia alto naquela manhã
fria de Primavera.
   Com narizes de pingão, o cabelo churro
do cachaço a engraxar a gola da jaqueta, mãos
calosas, a tresandar ao fumo da lareira e à cebola,
davam-se a matar pelo ar de caso, a barba feita
de véspera e seu mal encartuchado no fato de ver
a Deus e na camisa de linho, cóscora da goma.
À porta do Nico, prendiam as bestas a uma
talada da parede pelo nó do cabresto ou da brida
e, onde lhes fosse a jeito, toca, de rópia, a
tomar o arrebenta-diabos. Dentro da tasca, cada
qual se chegava aos do seu pendão. E as vozes
que se cruzavam, de malícia ou desfrute, obedeciam
a estribilhos deste jeito: - A quem dás tu o voto,
ó Zé das Quintas? Eu cá sou do Cabeça Ancha. -
O quê, és do Barriga Ancha? E ainda lá cabes?
   - Olha, falai no mau…
   O Cabeça Ancha em pessoa atravessava
no cone visual da porta, a caminho por certo dos
Paços do Concelho, barrigana à frente, um largo
sorriso no seu mascarão de chafariz, a matraquear
para o séquito palavras ruidosas na dentuça amarela.
Licenciado in utroque jure, advogado há
vinte anos na comarca, a mais pendenciosa do Minho,
à força de entesourar estava rico como porco.
Além de herdeiro do vínculo de Feães, forte em
terras de semeadura e pastagem, diziam as más-línguas
que ganhara do bom a forjar, de gorra com o tabelião
da vila, escrituras e títulos de dívida com tal
primor e observância de quindins, que não lhes
meteria dente o síndico mais mitrado. Embora para
lá do equador da vida, tanto assim que lhe alcandorava
a fronte um penacho grisalho, onde aparecia, mostrava-se
buliçoso e entremetido. Davam-no como apaniguado
do visconde de V. N. de Cerveira, quando o mais
certo era pôr sempre as suas conveniências acima
de Deus e do rei. Todavia, onde chegasse, não
era peco em fazer campanha pelo altar e a monarquia
absoluta do senhor D. Miguel, rei e arcanjo.
   Mal ele tinha virado à esquina, ouviram-se
repicar no largo as ferraduras dum cavalo, batendo
trote largo. Tep, tep e estacou. Era o conde Piteira
que chegava no tilbury. Um postilhão, impecavelmente
hirto e de libré, tomava conta das rédeas. E,
ainda o cavalo fogoso estava a morder o freio,
já ele descia de um pulo lesto. O rancho dos quarenta
maiores atropelou-se contra o vão da porta a admirar
o graúdo. Cara deslavada, meio britânica, mão
direita encavada na luva cor de canário, seguiu
adiante, sem olhar sequer para a baiuca.
   Aquele nascera num sino. Seu avô, Desidério
Piteira, que passava por ter sido beleguim e alcaiote
do Pombal, montara por favor do amo, quando veio
a febre da renovação, um tear para picotilhos.
O filho, Leandro Piteira, ampliara a indústria,
que passou a produzir panos-crus e surrobecos.
E sob o impulso do neto, Salvador Marinho Piteira,
o actual conde Piteira, ainda antes de comprar
com bons dobrões, batidos no balcão da Rota, o
título de nobreza que lhe faltava para ser um
verdadeiro homem-lige, a fábrica tomara notável
incremento. Ao tempo, com os novos processos introduzidos,
passava por ser das primeiras na zona fabril de
Entre Douro e Minho. O Conde, além do património
assim melhorado, realizara avultada fortuna mediante
hipotecas sobre grandes casas decaídas e processadas
com êxito, fornecimentos ao exército e empréstimos
a S. A. o príncipe D. Miguel, por baixo de capa,
mas com todos os gatos de ferro da segurança divina
e humana. Os amigos de casca-grossa ou zoilos
continuavam a chamar-lhe o senhor Piteira. Mas
quem requeresse audiência, com mira a ser servido,
chamasse-lhe o senhor Conde e, mais urbanamente
ainda, o senhor Conde de Guilharil, portela donde
seu avô descera de fundilhos novos nas calças
velhas e alforge ao ombro a servir de abegão na
Quinta de Oeiras.
   O conde de Guilharil, aliás, conde
Piteira, aliás, Salvador Marinho Piteira, possuía,
depois de depurada a linhagem em três crisóis,
as maneiras senhoris e veludosas dum camerlengo.
Ouvi-lo discorrer em sua artificiosa fala era
como ouvir rasgar seda, tecido que começava a
urdir nos seus teares. Com efeito, era raro que
tivesse palavra mais alta ou mais áspera para
alguém. Era também hábito seu, filho da curialidade,
supunham uns, manha, criam outros, nunca erguer,
quando falava, os olhos para o interlocutor.
   Reparando bem na sua estrutura, aparentemente
sólida e maciça, só havia uma coisa que destoava
nele: as plantas dos pés, pequeninas em demasia
para suportarem a coluna avantajada do corpo.
O boticário da vila, malhado a pedir forca, com
alguma luz das Santas Escrituras, proclamava que
eram os baixos da estátua de Nabucodonosor.
   Na candidatura a deputado do Braço
do Povo, prevalecia-se declaradamente do patrocínio
de S. Ex.as Rev.as o arcebispo de Braga, o bispo
de Lamego e o bispo do Porto, três mitras, e do
coral polifónico do clero atento à batuta. E não
se fala nos zéfiros da Corte, que, por virem de
tão longe e balsamizados, é de crer que, se chegassem
a sobrepujar a serra da Arga, bafejassem a vontade
dos labreguíssimos quarenta maiores tanto como
o Setestrelo.
   Piteira era um realista calculador
que, ao preconizar a restauração da Monarquia
absoluta, nunca se esquecia de ajuntar as untuosas
palavras rituais: a bem da felicidade dos Portugueses
e glória de Deus. Nisto, apartava-se nitidamente
do Cabeça Ancha que, esse, fechava as arengas
com o inevitável arremate: queimem-se, esfolem-se,
enforquem-se os chamorros para haver paz na nossa
terra! Piteira era outra fazenda. Já no Porto,
ao ferirem a calçada as ferraduras dos seus urcos,
luzindo arreios de prata, cocheiro e trintanário
de libré debruada a cor de laranja, a tirar para
púrpura, voltavam-se de olhos arregalados os pelintras
e vinham à porta a morder-se de inveja os conceituados
comerciantes da praça, muitos dos quais acabavam
de trocar os tamancos pelos botins de pelica.
Ele, se eram conhecidos, não deixava de tocar
com a ponta dos dedos a aba do chapéu num sóbrio
cumprimento.
   Os aduladores pregoavam, com tuba sonorosa
aos quatro ventos, os actos de filantropia de
que a Nação lhe era devedora. Ao bravo general
Póvoas oferecera de seu bolsinho uma maca, vinte
enxadas, vinte pás, e dois ferros de monte para
que não voltasse a repetir-se o indecoroso e letal
espectáculo da Cruz de Marriços. Com efeito, os
cadáveres dos liberais que tinham caído na batalha,
insepultos por os camponeses, açulados pelos padres,
se terem recusado dar à terra seus ossos excomungados,
de si infectos, acabaram por empestar o mundo.
Geresceu-se a peste e muitas aldeias em redondo
foram tão ceifadas que não escapou casa que não
sofresse a nefanda provação. E o Conde invocava,
para que à sua dádiva não correspondesse sombra
de repulsa, os preceitos da higiene pública e
as obras de misericórdia que mandam sepultar os
mortos, em vez de os abandonar pelos cabeços a
pábulo dos lobos e aves de rapina.
   Todos os anos, também, a 26 de Outubro,
feliz data do aniversário natalício de S. A. o
Príncipe, mandava dar aos pobres um suculentíssimo
bodo, a que vinha presidir em pessoa S. Rev.ª
o prelado do Porto, ou o vigário-geral da diocese.
Depois da missa de pontifical, proferiam-se discursos
patrióticos e cristianíssimos, queimavam-se profusas
girândolas de foguetes, adquiridas por derrama
entre o pessoal da fábrica, e rematava a festa
por um lauto banquete às sumidades do Concelho,
na qual voltavam a fazer-se solenes afirmações
de fé monárquica e religiosa, com muitas saúdes
de vinhos velhos e generosos da garrafeira do
Conde.
   Demais disso, vestia pela Páscoa da
Ressurreição 12 necessitados de picotilho novo,
obrado nos seus teares, em memória dos trabalhos
que Jesus Cristo padeceu a caminho do Calvário.
   Podia perguntar-se, e não deixavam
de fazê-lo os sequazes: Tais actos de benemerência
não estavam mesmo a indigitá-lo ao terceiro Estado
para seu representante às Cortes, convocadas para
o próximo dia 28 de Junho?
   Na taverna do Nico, ainda alguns
quarenta maiores, com seus aderentes e familiares,
não tinham acabado de ingerir o viático, entrou
pela porta, a açoitar com a ponta do pingalim
o calção de cavaleiro, Albano de Carvalhais, morgado
de Fraião.
   Vestido de jaleco curto, à castelhana,
apeara dum famoso baio, "que fugia a uma bala".
Mal lançou as rédeas ao arrieiro, o Tomás Ruivo,
que antes dele pulara do cavalo morzelo, em que
sempre acompanhava o amo, pistolas nos coldres,
um côvado atrás sobre a esquerda, e já ele se
desfazia num grande sorriso de saudação, que distribuía
a quantos ali estavam como as pétalas dum ramo.
Pegou, também de luva, no primeiro copo que lhe
estendiam e fez menção de beber chegando o vinho
aos lábios. À sua volta os partidários enxameavam,
porque torna, porque deixa, efusivos e açambarcantes,
e ele sem saber para qual se havia de voltar.
Era um homem na força da vida, alto, sobre o louro,
possuindo mais que letras gordas, porque desde
menino tivera três frades a ensinar-lhe a gramática,
depois o latim, e a reger-lhe a criação. Aliado
pela mulher, D. Mécia Lima de Abarim, à Torre
da Silva, nada mais que pelo vulto desta casa
em foros, bens de renda, coutos, curas a apresentar,
se podia avaliar da vasta clientela de rendeiros
e traficantes que fervilhavam à sua sombra. Não
poucos eram também os amigalhaços e parasitas
a seguir-lhe o balsão. Albano de Carvalhais era
um impenitente esbanjador, mais que mãos-rotas,
posto lavrar já o descalabro, para não dizer ruína,
na sua Casa, que não tivera segunda na comarca.
Prodigalidades com a facção, jogo, mulheres, cavalos,
agiotas açaimados mediante a onzena crescente,
a bola de neve do desbarato viera rolando, engrossando,
e ameaçava subverter-lhe o património. O velho
padre capelão, que pegara de estaca na família,
Fr. Aniceto da Luz Perpétua, cujos olhos de picanço
devassavam todos os recessos, não viu melhor que
induzi-lo a pleitear a eleição do Braço do Povo,
no intuito de furtá-lo às más companhias e, na
esperança de que, junto do rei poderoso e coração
de pomba, encontrasse amparo contra a catástrofe
iminente.
   Bem certo que o bom beneditino conhecia
a corte joanina através dos escritos de Frei Fortunato
de S. Boaventura e por um autor não menos entusiasta
de realeza, que lhe era anterior, José Daniel.
Se tivesse lido ainda Alvito Buela, viria a reconhecer
que soltar um perdulário em Lisboa equivalia a
atirá-lo a um poço com uma pedra ao pescoço. Os
franceses tinham deixado o mau exemplo de suas
pessoas ímpias e viciosas para que desalmados
portugueses, mais atentos ao vil interesse do
que à salvação da alma, ousassem fundar botequins
como o Nicola, de negregada fama, onde se zombava
de Deus e do rei, e tavolagens em que se jogava
o seu e o alheio, bem como alfurjas de vária ordem
para gozos e deleites nunca até então sonhados
na velha terra das Cinco Chagas. Saberia um provinciano
bisonho evitar tais alçapões do Inferno? Fr. Aniceto
da Luz Perpétua tinha as suas dúvidas, e propunha-se
por isso mesmo acompanhar o incauto fidalgo, de
que fora mestre e guia quando menino e seria agora
anjo custódio, dado que recaísse nele a representação
do Braço do Povo. Mas obtemperaram-lhe que, se
já no Minho, não conseguia reter o morgado de
tantos passos funestos, que mais e mais lhe escancaravam
a voragem, que ia ele fazer à capital, trôpego,
jarreta e ignorante das avenidas por onde a mão
aliciadora da libertinagem conduz estroinas e
meninos bonitos?
   Para escarmento, vinha-lhe à memória
a última topetada de que tentara inutilmente acautelá-lo
com conselhos prudentes e lágrimas paternais,
topetada essa que dera que falar e estava para
dar, por mal dos seus pecados. Morava na vila
de Melgaço, passada para ali da terra de Verim
não se sabia em que barca, uma rapariga espanhola,
Cármen Salvatierra, espelho de salero e donaire,
que vivia com a mãe e o padrasto. Abrira este
ali uma quitanda, onde cambiava dinheiro e, a
meia porta, exercia o melhor contrabando daquela
raia, levando para Espanha e trazendo para Portugal
mercadoria a primor, com beneplácito manifesto
dos carabineros. Dizia- -se à boca pequena
que D. Jesus Martinez - que tal era o seu nome
- era agente secreto ao serviço de Calomarde e
dos Apostólicos. O certo, certo é que Carmencita
era uma lasca de arregalar o olho, em torno da
qual arrulhavam pombos mariolas de alto topete,
entre os quais contavam o morgado de Gondim, um
galo doido por mulheres, e o abade de Cerdal,
este um peneireiro de alto lá com ele para toda
a espécie de fêmea que mostrasse proa, bom peito
e anca. A moça ria, que nem de cócegas, ante os
devaneios dos galanteadores e recebia os cortejos
de uns e de outros com grandes alardes de virtude
e mesmo sobranceiros desdéns. Um dia, o morgado
de Fraião viu-a e ficou a morrer por ela. Tinha
mulher e filhos, embora, dava tudo, inclusive
a salvação, ele que batia o dente quando o frade
lhe pintava as profundas do Inferno, para cativar
a beldade. Não foi a ponto de inventar uma héctica
galopante para D. Mécia e prometer casamento à
franduna após o funeral da ilustre dama, que louvores
ao Senhor estava anafadinha e da melhor saúde?
A moça, rindo muito, respondeu:
   - Pues deje usted volar su mujer
al cielo de los gorriones y que todo el mundo
lo sepa.
   Perante semelhante obstinação, que
magicou Albano de Carvalhais? Preparou uma expedição
a Melgaço com seis dos seus bravos, capitaneada
pelo Tomás Ruivo, e raptaram a espanhola. Tinha-a
agora como uma rainha, sege, aias, su madre,
na casa de S. Pedro da Torre, com uma quantia
tão alta à sua ordem no Banco del Espírito Santo
de Vigo que bastaria para dotar meia dúzia de
burguesinhas honradas. Assim calou a pombinha,
garantidos fartamente os seus dias e de su
madre e um novio para quando batesse
asas. Mas a aventura deixou rescaldo. Uma noite
que Albano de Carvalhais saía do seu alcácer de
sultão sofreu a espera de quatro homens emboscados
que lhe mataram o cavalo com uma zagalotada e
deixaram por morto um dos homens da escolta. Quem
foi, quem não foi, assentou-se que a cilada partira
de Martinez, que jurara tirar-lhe a vida e continuava
a mostrar-se relutante a qualquer concordata.
   Porém, mediante inculcas daqui, indícios
dalém, ficou estabelecido que o autor da tranquibémia
tinha sido o abade do Cerdal, Joaquim da Cunha
Silvano, que com as dores de cotovelo dera urros
que se ouviram até no paço do arcebispo.
   A tonteira custara a Carvalhais muito
desassossego, sem falar no rombo incalafetável
na fortuna combalida. Segundo Fr. Aniceto, a quinta
de Agualonga ia-se à gaita, sendo milagre que
chegasse para metade das dívidas. Também lhe roubara
crédito entre a gente grada e de bons costumes,
como os velhos eclesiásticos e fidalgos de cãs
e de peso, e todos quanto tinham entrado para
o convento das Três Virtudes na velhice. O morgado,
em contrapartida das proezas de valdevinos, era
um homem insinuante, com amigos em toda a parte,
sem ser dos de mofo, capazes de dar a vida por
ele. Albano de Carvalhais, além de flagelo sempre
pronto a fustigar os cartistas, era um fanático
do príncipe e do altar. Neste capítulo, apenas
o Cabeça Ancha lhe levava a melhor em ter dado
alguns malhados à forca. Caseiros, para quem era
constante a lei da perdoança, e lhe não negariam
mulher ou filhas se lhas requeresse ao desfastio,
caloteiros de marca, dedicados filhos-família
que corriam as feiras a cavalo num garrano pimpão,
especuladores que andavam no seu séquito como
corvos onde sentem que poderão vir a encher o
papo, eram também os grandes sustentáculos da
sua eleição. Nas quintas, com todo o desmantelamento,
havia sempre gente homiziada, e não era por ter
ouvido duas missas nos domingos, comentava com
acidez reprobatória Fr. Aniceto. Estes, bem certo,
que meteriam as mãos no fogo por ele.
   Depois de sociarem no Nico,
de a grande maioria dos quarenta maiores esgotarem
um cântaro de vinho e duas almofias galegas atestadas
de torresmos, que o estalajadeiro liberalizara
sabendo que pagava a barba longa - Albano de Magalhães,
com evidente bom humor e um leve e sardónico sorriso
a arrepiar-lhe os lábios finos, deu sinal de partida:
   - Vamos lá que Suas Senhorias, o Dr.
Cabeça Ancha e o conde Piteira, estão fartos de
esperar. E, meus amigos, só vos digo uma coisa:
não levo a mal a quem quer que seja que não vote
no meu nome. E já agora sempre vos digo outra:
se me quiserdes para vosso deputado, eu perca
o nome que tenho se voltar da Corte do nosso magnânimo
monarca sem trazer uma lei. E é que, tirando-se
uma linha de Viana para a Ponte e da Ponte para
os Arcos, para a banda de cá as alçadas reais
não terão mais direito de pôr a pata. Se puserem,
responde-se-lhes a tiro. Correias às costas, portanto,
os nossos filhos não deitam. Há gente de sobra
nas cidades, em Trás-os-Montes... por esse Alentejo.
Morram eles, e fiquem cá os Minhotos em paz com
mulheres e filhos.
*
   Os quarenta maiores,
muito animados, a limpar às costas das mãos os
beiços gordurosos com a comezaina no Nico,
ocuparam os lugares que lhes estavam reservados
na sala de audiências dos Paços do Concelho. Na
mesa, à volta do pároco de S.to Estêvão, presidente
da Colegiada e da Câmara, assentavam-se os grandes
da comarca, Abel de Valadares, senhor de Cubalhão,
D. Inigo Soares, da Casa de Tangil, Suetónio Peres
Sândias, da Casa da Fumaça, Pedro Márulo, de Parada
do Monte, etc. etc.
   Ao Dr. Cabeça Ancha coube, primeiro
que os demais, como mais velho, apresentar e defender
a candidatura. Depois de ponderosas e várias considerações,
em forma de sarapatel, quanto ao cariz das culturas,
ao baixo preço do milho, ao estado deplorável
das igrejas, inclusive o santo da sua particular
devoção, S. Bento da Porta Aberta, ao malefício
dos liberais naquela vila e termo, às cortes de
Almacave e ao milagre de Ourique, atacou de peito
o assunto como na luta greco-romana:
   "Se me escolheis, a mim prestais-me
um péssimo serviço; pelo contrário, a vós, ao
príncipe, à Nação e a Deus, prestai-lo tão útil,
tão descomunal, que não lhe avaliais a grandeza.
E eu vos digo como e porquê. A representação,
descontando a parte de encargos que haja de assumir
o Tesouro, implica um dispêndio fabuloso. Indumentária,
viagem, estadia em Lisboa, roubalheira das estalagens
e de beleguins, só isso quanto não custa? Ponde
lá agora o que deixarei de ganhar como causídico,
e ainda o desconcerto que advém inevitavelmente
a uma casa de lavoura com o senhor a dormir ou
longe - amo fora, dia santo na loja - que vulto
não atingem tais minerações? Por outro lado, quanto
ao serviço que posso prestar com este desserviço
particular, eu vos digo: prezo-me de conhecer
as leis como poucos. António Ribeiro Saraiva foi
meu colega de bancada nas aulas de Prima e muitas
vezes estudámos juntos e lhe ensinei eu a interpretar
as Pandectas. Acúrsio das Neves, o grande
João das Regras da Monarquia absoluta, pode-se
dizer que andei com ele ao colo. Eu e o conde
de Basto somos tu cá, tu lá. E até o general Póvoas,
sempre que por sorte eu estava presente, me pedia
o parecer para os seus sapientíssimos planos de
batalha. Ora eu tenho a certeza que, se me vêem
na Corte, me hão-de chamar para o Conselho de
Estado, ou ocupar-me na redacção das leis. Estas
Cortes são mais que tudo um mostruário de narizes,
quer dizer, uma competição de talentos e de carácter,
e julgo que cá o velho Dr. Cabeça Ancha - dizendo
isto, espalmava a mão no peito e suspendia-se,
o rosto regado dum gordo sorriso, a boca aberta,
como mascarão de chafariz que está a deitar bom
jorro de água - há-de dar honra à sua terra. E
eu vos prometo que não voltarei com as mãos escorridas.
Pedirei que esta comarca, como pobre que é - e
consenti que lhe chame pobre para levar a minha
água ao moinho, embora tal não suceda, hem, embora
tal não suceda, que eu sei muito bem que cada
um de vós tem grão no sequeiro e meia dúzia de
libras ao canto da arca para uma aflição e para
o mais que for preciso, como pagar os honorários
ao vosso advogado, que vos livrou da armadilha
do vizinho, a côngrua do pároco, acudir a um amigo
numa pressa - seja desonerada de pagar dízimos
e gabelas e diminuídos os outros tributos. Demais
disso, se me passarem a pena que lavra as leis,
bem vai, se não, postar-me-ei atrás do legislador,
como um cão, para que não haja piedade com hereges,
maçónicos, pedreiros-livres e constitucionais.
A Carta é um acto revoltante, pelo que significa
em atropelo de princípios. É preciso demonstrar
que todo o poder é do rei e vem do rei, nosso
Senhor? A consciência diz-nos que a demonstração
está feita. Melhor, entra pelos olhos dentro do
entendimento. Ora, sendo Deus quem é, omnipotente,
o monarca, seu ungido, devia ser engasgalhado
entre varais como um cavalo, quer a mandar, quer
a gerir? (Aplausos.) Quero Deus livre nos altares;
quero livres, satisfeitos e considerados os ministros
que o servem; prestigiada e mais rigorosa a justiça;
limpos os caminhos de ladrões e os povos de malhados.
Aqui está em breves termos o programa do vosso
eleito se me derdes essa honra." (Rumores de vária
ordem.)
   Salvador Piteira falou na sua voz surda
e regular, olhos fitos no tampo da mesa.
   Também ele queria o altar prestigiado
e o trono enaltecido. Eram estas as duas pedras
em que repousavam os cunhais da grande casa que
é um reino. Que o príncipe mande, legisle, disponha
no domínio do material, e o padre no domínio do
espírito. Também desejaria ver a Nação rica e
próspera. Já que não valia a pena abrir estradas
porque mais depressa vinha por elas para as aldeias
o vício das cidades, tão-pouco que houvesse mais
que um mestrinho em cada terra grande para ler
os editais e alvarás, queria ver as igrejas limpas,
os sinos intactos nas torres, água abundante nas
fontes arcadas e, como o Dr. Cabeça Ancha, menos
dízimos, menos tributos, menos alcavalas. Particularmente
à sua parte, pediria mais três forcas, a distribuir,
com a já existente, aos quatro cantos da comarca,
magistrados íntegros e inflexíveis. Ouvia-se dizer
que os juízes se dobravam à peita e ao capricho
das camorras. Quem são eles? Onde estão? Ninguém
dizia. Donde era lícito concluir que a justiça
portuguesa honrava o Príncipe como o Príncipe
honrava a justiça. Mas lá aparar as unhas aos
escrivães e meirinhos, que as tinham aduncas,
era obra meritória e indispensável. Ali estava
em breves termos por que natureza de providências
terçaria armas nas cortes do nosso grande e clementíssimo
rei D. Miguel I. - E terminou, olhando pela primeira
vez para o auditório: - Viva a Monarquia absoluta!
Abaixo a ímpia Constituição! (Ovação.)
   Finalmente usou da palavra o morgado
de Fraião. Depois de desfolhar um sorriso ameno
pelos quarenta maiores, rompeu:
   "Meus amigos. Aconteceu-me no penúltimo
Verão percorrer, na comitiva de Sua Mercê o senhor
Visconde de Santarém, uma grande parte de França
e Áustria, países de hereges, hoje limpos desse
escorbuto. E eu vos digo o que vi e que gostaria
de ver na nossa terra. De norte a sul há estradas,
riscadas a cordel e a teodolito, de brita formando
concreto com a terra à força de cilindrada. Por
semelhantes estradas novas, a que dão o nome de
reais, onde não empoça a água das chuvas e se
não perde tempo em desvios e rodeios, passam magníficas
seges e malas-postas. Nas aldeias há um mestre
que ensina a ler gratuitamente quem queira e um
maire que administra a Comuna com vara
firme e segura. A água vem encanada das nascentes
e cai por uma bica para tanques e lavadoiros.
Fontes de chafurdo, não há. É falso que tenham
posto fogo às igrejas e assado os padres nos espetos.
Conversei com um e outro e, gordos e prósperos,
louvam a Deus e aos paroquianos, e estes os respeitam
e estipendiam. Outrossim vi belas casas a servir
de Paços de Concelho, tribunais e outros edifícios
de interesse público, cheios de imponência e da
melhor ordem. Nada vos digo sobre os costumes,
mas creio que neste capítulo nós ganhamos aos
Franceses. Não que amemos a Deus melhor do que
eles, mas em matéria de guardar o dia do Senhor,
eles lá só não trabalham ao domingo e não observam
mais nenhum dia santo, desdenhosos dos preceitos
da Santa Madre Igreja. Trabalham como moiros,
por isso estão ricos. É verdade! Mas como o trabalho
não é recomendação perante o Senhor e, sim, a
prece, eu quero que continuem a guardar-se no
Reino todos os dias santos que marca a folhinha,
e vêm a ser uns quarenta na roda do ano, permitindo
deste modo que o bom povo ouça a missa e a homilia,
sempre que se comemora um grande santo ou fasto
religioso. Não vos falo na superioridade dos Portugueses
sobre os Franceses em matéria de outros preceitos
do Decálogo. Se não fosse o abuso que os frades
mendicantes fazem das casas mal guardadas de homens,
dir-vos-ia que a nossa terra é na cristandade
um dos baluartes do sexto mandamento."
   "Mas, fora do domínio espiritual, eu
sou pelos caminhos limpos e rectos, onde possam
passar reses, carros de lavoira e seges, e onde
vacas e burras não enterrem o jarrete e partam
o pernil. Sou pela água a cair duma bica em cada
aldeia, embora ouça dizer que é mais saborosa
e fresca essa que repousa nos limos da madre e
entre merugens, e tirada por um cantarinho de
mergulho. Pelo menos, a dos canos é mais limpa.
Não entram para a fonte cobras nem lagartos, nem
moscas que gostam no pino do Verão de se acolher
à frescura que lhes oferece o sobrecéu de pedra
das fontes cobertas com uma laja ou abobadadas.
Sou por um mestre, já não digo em cada terra,
que seria ciência supérflua e perigosa, porquanto
os livros se propagam o bem também propagam o
mal, mas ao menos uma escola em cada vila onde
os senhores morgados, os fidalgos, e mesmo aqueles
que dispõem de alguns teres, vão aprender a ler,
escrever e a fazer as contas dos gastos e receitas
de suas casas. Gostaria mais de ver malas-postas
para cá e para lá, cruzando a nossa terra, carregando
abades, fidalgos e senhoras, já que a boa gente
pobre do povo não pode nem deve usar de tais luxos.
E, como Sua Senhoria o Dr. Cabeça Ancha, entendo
que hereges, franchutes, constitucionais devem
ser banidos do Reino para as Pedras Negras e expropriados
os seus bens em benefício de quem os der à dica
e desmascarar. E, sobretudo, porque hão-de as
alçadas reais vir cá tão longe fazer soldados
para a guerra? (Vibrantes aplausos.) Não, três
vezes não. Quero os nossos mancebos quites de
deitar correias às costas. Têm muita soma de gente,
de braços a abanar, lá pelo Sul, a quem custará
menos depois a voltar para suas casas, porque
estão perto. Deixem-nos, que nas nossas igrejas
rezaremos pela paz do rei e a vitória das suas
armas, e trabalharemos dobrado pelo engrandecimento
da Nação."
   "Agora, eu vos digo - e tenham-no em
vista para que não sofram decepções - representar
o Braço do Povo da nossa comarca não é legislar.
Isso virá em seguida à assembleia magna da Coroação
e Proposição do nosso dilecto monarca D. Miguel
I, em que vos representarei, se me derdes a honra
de me designar. Para essa conjuntura é que elaboro
a lista das aspirações da comarca que irei levar
à Secretaria do Reino a fim que sejam ponderadas
e atendidas, na medida em que o nosso real amo
assim o julgar e o favor que lhe merecer a minha
instância, que vos prometo aturada e infatigável.
Viva a Monarquia absoluta! Viva D. Miguel, rei
e arcanjo!" (Grandes e nutridas salvas de palmas.)
   Pediram a palavra muitos dos assistentes,
uns para aplaudir, outros para discordar, pois
que onde há dois portugueses há discrepância,
e onde há três, há partido. Outros reclamavam
providências urgentes, honra lhes seja, para seu
proveito e regalia. Viu-se entretanto crescer
na cadeira, a meio da sala, o Joaquim Guerrilhas,
de Romarigães, homem dos seus cinquenta, focinho
ensilvado de javali, atarracado. Olhando suspeitoso
à direita e à esquerda, desatou a falar com grande
mobilidade, como se espalhasse pelo auditório
um bolso de pedras.
   - Este é meu inimigo figadal - disse
o morgado de Fraião para António Maciel, chefe
político de Viana, que se sentara a seu lado e
lhe patrocinava o mandato.
   - Que lhe fez?
   - Que me fez? É o homem de mais tricas
que há no Alto Minho. Com ele, quando uma pessoa
se descuida, está roubada. Tudo lhe serve para
operar: caminhos, árvores de corte, águas, o diabo.
O meu procurador a cada passo tem de lhe mandar
o meirinho a chamá-lo à ordem...
   - Vamos lá a ouvir o facínora. Realmente
é um feio bicho.
   - Está feito com o Barriga Ancha…
   Dizia Joaquim Guerrilhas em voz tropeçante:
   "Ouvimos com sete ouvidos as palavras
dos três senhores, que se oferecem para nos ir
representar na Coroação do grande e imperial senhor
D. Miguel, que Deus guarde largos anos e bons.
Todos três, pelo que disseram e prometem, se podem
comparar a três patacos..."
   - Salvo seja... - corrigiu o presidente.
   "Salvo seja, repito eu, pois não quis
desfazer em ninguém. Se comparei, e no meu fraco
entender se podem comparar a três patacos os três
senhores pretendentes, é que tilintam todos três
pouco mais ou menos com o mesmo som. E já que
assim é, aqui declaro em voz alta, o meu voto
é para Sua Senhoria o morgado de Fraião, que viu
mundo e sabe o que é um pobre mudar de camisa.
O nosso Minho, senhores, precisa de mudar de camisa.
Também eu gosto que a estrada passe à minha porta
para ir mais depressa e não encharcar os pés.
E quanto a fontes, embora muitas vezes veja os
meninos com o sim-senhor virado para dentro do
chafurdo a fazer as suas necessidades, as mães
que lhes dêem a criação. Primeiro as igrejas,
as estradas, mais tarde as bicas. O que cai nas
fontes, vai ao fundo. À tona anda a água purinha."
(Apartes. Vozes entrecruzam-se.)
   "É assim mesmo, pois então! As fontes
de mergulho lá estão funcionando com a graça de
Deus. Quanto a correias às costas, bem pensado,
senhor Morgado, bem pensado! Que as deitem os
vadios das cidades, que não têm que fazer, e os
arruaceiros, perdidos e achados em festanças e
arraiais, Senhora dos Remédios, S. Torquato de
Guimarães, S. Bento da Torreira, círios da Arruda
e da Nazaré, onde vão para rachar a pinha do camarada
e voltam, por tabela, com a sua rachada. Nós somos
pacíficos e o nosso regalo é que nos deixem em
paz... e às moscas."
   "E sobretudo, eu quero a lei de Deus
e dos homens mais respeitada; os templos varridos
e caiados, e sinos nas torres. E estes sinos eu
os quero a dobrar noite e dia à morte dos malhados.
Tenho dito."
   - Homem, você estava a mangar comigo.
O homem é seu vassalo... - murmurou Maciel, na
voz a transparecer um certo despeito através do
sotaque de ironia.
   - Hum, ele me apresentará a conta!
Não é sujeitinho para dar ponto sem nó.
   Sucedeu-lhe o abade do Cerdal. Era
um belo pedaço de homem e apenas pelo escanhoado
da cara e o casaco à secular se reconhecia que
era um padre, e um padre mundano, pois que a tonsura,
ao que a trunfa era de alta, não se lhe via.
   "Senhores Quarenta Maiores, amigos
e senhores: Vossas Mercês já sabem muito bem qual
é o homem que lhes convém... Vossas Mercês já
o escolheram para que vos represente em Cortes..."
   Olhou em volta e viu todos suspensos
das suas palavras.
   - À missa deste masmarro é que eu nunca
fui - proferiu Albano de Carvalhais em voz baixa
para Maciel. - E então ele, à minha, nem que mandasse
o bispo. Andamos há muito de candeias às avessas.
   Depois daquela manha de pregador, afeito
ao púlpito, tomou o abade do Cerdal:
   "E eu já sabia quem nos convinha antes
de ouvirmos aos três candidatos desfolhar as flores
do seu programa. E digo mais, já o sabia antes
mesmo de vir a esta assembleia: O homem que nos
convém, que está ao corrente das nossas necessidades
e dos nossos costumes, que está mais a carácter
do pátrio Minho, que tem a vera acção do progresso..."
   - Hem? Hem? - sussurrou o morgado de
Fraião, perplexo.
   "...adquirida por experiência e a ver
mundo, é Sua Senhoria o senhor Albano de Carvalhais,
última e lídima vergôntea da gloriosa Casa de
Fraião."
   - O amigo tem-se farto de mangar comigo!
- pronunciou Maciel quase zangado.
   - Olhe que não. Mas tem graça! Este
padre ainda não há muito que pagou a uma roga
de sicários para me matar...
   - Essa é boa! Então recebeu ultimato
do arcebispo...
   - Pode ser, mas ponho-lhe muitas dúvidas.
   Prosseguia o abade de Cerdal em voz
bem timbrada e incisiva:
   "A nossa comarca estaria também honrosamente
representada tanto pelo ilustre Dr. Cabeça Ancha,
luminar do foro e mestre em leis, como pelo conde
Piteira, grande esmoler e prático na ciência dos
números e com altas relações na Banca e na Corte.
Mas, considero eu, e os senhores quarenta maiores
dirão se o meu raciocínio é justo, entrementes
que vão e vêm, que as Cortes reúnem e não reúnem,
que os Três Estados deliberem e não deliberem,
que se coroa o nosso grande rei e se vota o credo
da nova Monarquia, quem havia de destrinçar as
leis nas nossas comarcas, atalhar aos dissídios
para que os litigantes se não matem em desespero
de justiça? Quem havia de defender os bons das
tramóias dos perversos, e os pobres dos ricos
mal-intencionados, que em todas as classes os
há, como só o nosso grande Dr. Cabeça Ancha sói
fazê-lo paternalmente?! Por outro lado, quem havia
de vestir os nus, dar de comer aos famintos, atar
e desatar os altos negócios da Banca nas províncias
do Norte, em conformidade com os interesses da
indústria, da propriedade e de modo geral dos
povos? Não, nós não podemos de modo algum dispensar
as luzes e o bom conselho dos dois grandes homens
aqui presentes! Deixá-los partir para tão longe,
ainda que fossem apagar um incêndio que devorasse
meia Lisboa, não e não. Ficava sem remédio a nossa
inópia. O bom, o sábio, o equitativo Dr. Cabeça
Ancha e o generoso e previdente conde Piteira
não poderão desamarrar-se de nossos braços, que
nem é bom falar de nossos corações, que nós não
consentimos!"
   - De todo aquele chorrilho de amenidades
para os dois, não há uma só que não seja mais
falsa que Judas. Não sei que bicho mordeu a este
salafrário de reverendo! - segredou o morgado
para o seu amigo, no fundo exultante.
   - Mande-lhe um bom salmão... - gracejou
Maciel.
   - Não é o tempo deles.
   - A menos do dedo do Altíssimo, aqui
há gato...
   - Gatarrão...!
   "Convido - perorava o abade Silvano
- aos dois ilustres proponentes a declinarem no
ilustre morgado, homem lido, viajado, e sem compromissos,
e aos digníssimos quarenta maiores a votarem no
seu nome para a nobre missão de nos representar."
   E assim foi sagrado, por grande maioria,
deputado do Braço do Povo às Cortes o senhor de
Fraião.
*
   Chegaram os procuradores
do Alto Minho à capital, sem novidade de maior,
com as caravanas de outros que desciam de variadas
terras da província a representar em Cortes os
braços do povo e da nobreza. Em Carqueijo viera
alcançá-los a comitiva de Vila Real, com Colmieiro
de Morais, e mais adiante, na Venda do Cego, surpreenderam
a do barão de Tavarede, com o coche esbandalhado
e carpinteiros do lugar a atamancarem-lhe um eixo
novo.
   Aboletaram-se ao Corpo Santo em casa
duma senhora espanhola, tida como pessoa de recato,
muito cristã, e séria nas contas. Usava ainda
capa de merino com vidrilhos e perfumava-se com
alfazema. À noite, depois da ceia, vinha rezar
com eles o terço. Mas Albano de Carvalhais entrou
na cidade com pé esquerdo. Surgiram-lhe umas febres
terçãs, tão elevadas que teve, a instâncias dos
facultativos, de meter-se na cama e medicar-se.
O barbeiro aplicou-lhe uma sangria que teve a
propriedade de minorar-lhe as dores, mas deixou-o
muito enfraquecido.
   Chegou o dia 6 de Junho daquele fausto
ano da graça de 1828, dia para sempre festivo
na cartilha absolutista, do juramento de el-rei
fidelíssimo, o senhor D. Miguel, com a augusta
cerimónia de preito e menagem pelos Três Estados,
e ele, sem embargo do voto que fizera a S. Bento
da Porta Aberta de dar três voltas à ermida, no
dia da festa, descalço e de mortalha, e da sua
férrea vontade, não pôde segurar-se em pé.
   Duas semanas andadas, quando do auto
de abertura e proposição das Cortes, tão-pouco
se achava melhor. Ao cair da noite, o capitão-mor
de Barcelos entrou na estalagem a visitá-lo. Era
um homenzarrão, que vendia saúde, peludo que nem
um fauno, e só por isso Albano de Carvalhais o
recebeu de mau olhado. Estava sentado na cama,
mais branco que a camisa que vestia, lábios secos
e arregoados pela febre, magro, esquálido, capelas
dos olhos encovadas, a mão de dedos aduncos e
muito afilados a esbagoar o rosário. Depois de
trocarem as palavras consabidas de cumprimentos,
disse-lhe o enfermo em voz flébil e entrecortada:
   - Estou para aqui um canastrão. Acho-me
muito mal, muito mal! Vejo-me mais em termos de
me preparar a bem morrer do que ajudar o nosso
príncipe a firmar o trono!
   O capitão-mor não achou melhor que
dar-lhe uma gargalhada, o que acendeu um luaceiro
na face do senhor de Fraião. E soltou-lhe logo
por cima, falsas mas estralejadas como bátegas
de chuva que batem nas vidraças, estas palavras
categóricas:
   - Não diga asneiras, primo. Isso não
é nada! Vai ver. Eu até o acho muito melhor.
   - Não, não, custa-me a respirar. A
minha arca do peito é um fole roto. - E ao cabo
de uma pausa, de que o capitão-mor não soube como
varrer o vazio mortuário, tornou, alçando olhos
para os seus olhos:
   - Então como correu a função?
   O capitão-mor perfilou-se diante dele
numa atitude de tribuno ou do mensageiro, glorioso
consigo, que dá conta do recado. E proferiu de
olhos a chispar, a boca, como dizia Frei Luís
de Sousa dum personagem real, cheia de risos:
   - Estupendo, estupendo! Foi hoje um
dos maiores dias da minha vida...
   O que havia de egoísta prosápia naquela
postura não escapou ao enfermo que, antes de ele
ir mais longe, lhe observou:
   - Sim, eu calculava o que fosse! Para
que fomos nós chamados? Mas conte lá, primo, conte
lá... Que pena a minha não ter assistido!...
   - Vai assistir à abertura das Cortes,
que se anuncia para melhor. Daqui até lá, põe-se
rijo como um pêro. Está marcada para o dia 11
de Julho...
   Albano de Carvalhais torceu os lábios
num esgar de dúvida, e sussurrou em voz que parecia,
filtrada pela angústia ou pela glote entabuada,
o grasnido dum pássaro a morrer:
   - Deus é que manda. Deus é o Rei dos
reis. Mas conte lá, primo, conte lá...
   - Então eu lhe conto... Tinham fixado
para as três da tarde a hora da solenidade. Mas
já muito antes caíra em peso, na sala do trono,
toda a fidalgaria de Portugal, alto clero e Braço
do Povo. Só queria que visse, senhor primo, tanta
gente, vestidos todos ao antigo estilo da corte,
casaca e calção de seda preta, véstia e meias
de seda branca, capa de seda preta com bandas
brancas, volta, chapéu com uma das abas levantada
e plumas brancas...
   - Os alfaiates fartaram-se de ganhar
dinheiro...
   - Alfaiates e mercadores. Uma andaina
destas custa os olhos da cara. Onde faz a sua?
O melhor de todos é o Piranha, ali na Travessa
dos Calafates. As rabonas que ele faz assentam
como uma luva, mas é careiro. Careiro?! Ora, ora,
quem paga é o negro.
   - Vá contando. Foi então imponente...?
   - Magnífico. Nem a corte do roi
Soleil, dizia um tal pintalegrete que estivera
em França. Os ministros traziam toga e os eclesiásticos
vestidos talares. O patriarca de Lisboa, muito
encarniçado, cabelo ruivo, parecia mesmo um andor.
Passou por meio dos procuradores de mão erguida
a abençoar, que nem de hissope no aspersório dos
domingos terceiros. No topo da sala, ao lado de
duas tribunas, destinadas às sereníssimas infantas,
estava o trono...
   - Viu as infantas. Que tal?
   - Olhe, primo, eu já estou velhote
para apreciar tais melápios, mas aqui para nós,
que ninguém nos ouve, e salvo o respeito devido
às pessoas reais, pareceram-me uns camafeus...
Estavam a uns cinco ou seis côvados do meu banco,
e eu podia muito bem catrapiscá-las que várias
vezes me deitaram o olho...
   - Ouvi dizer que o trono era de metais
preciosos e pedras finas...
   - Se não era, reluzia como se fosse.
Mas nem um altar, primo, o altar-mor da Sé de
Braga em dia de exposição do Santíssimo!
   - Faço ideia... Diga lá como era, a
ver se me engano...
   - Imagine, primo, um estrado dos seus
quatro côvados de frente por outros tantos de
lado, ao qual formavam dois planos, ambos cobertos
de alcatifas, para o qual estrado tinha de se
subir por degraus com passadeira de carmesim a
toda a largura. Ponha-lhe em cima um rico e largo
cadeirão dourado, com almofadas do mesmo estilo,
as armas reais no espaldar, debaixo dum dossel
de oiro recamado de oiro, galões e franjas em
cachos também de oiro. Faça de conta, agora, que
está na feira de ano de Ponte de Lima, com todos
os alaridos, tons e modilhos da grei portuguesa.
De repente soaram as charamelas, trombetas e atabales
tá-trá-tá, trá-tá, e tocata foi essa que se nos
puseram os cabelos em pé e nos subiu o sangue
nas veias. Calou-se tudo. Era o nosso rei que
entrava na sala em traje imperial, carregado de
oiro e brilhantes, belo como um arcanjo que é.
Abriam marcha os arautos e passavantes, seguiam-se
os reis de armas, vestidos a rigor com as suas
cotas e uniformes, e os porteiros da cana com
as suas maças de prata. Vinha depois o duque de
Cadaval, condestável do Reino, de estoque empunhado
às mãos ambas, rotundo e opado, um alma de cântaro
que nos chama as mulas da província, e logo Sua
Alteza, acaudatado pelo conde de Belmonte, camarista
de semana, que servia de camareiro-mor. Seguiam-se
o marquês de Belas, guarda-mor de Sua Alteza,
o marquês de Torres Novas, mordomo-mor, com a
cana, e o conde de Redondo, meirinho-mor, com
a vara, e mais altos dignitários da Casa Real,
todos muito tafuis e ufanos. Sua Alteza atravessou
de chapéu na mão, mas firme e altivo, por entre
as duas alas dos procuradores, e dirigiu-se ao
trono. Que beleza de homem! Caramba, explico-me
agora que as mulheres desmaiem de amor só de pôr-lhe
os olhos em cima, sim, senhor! Quando se sentou,
sentámo-nos todos consoante o lugar que estava
destinado a cada um... No trono e degraus do trono
tomaram assento os camaristas, o ministro e o
secretário de Estado com a almofada dos selos
à frente; à banda deles, o cardeal-patriarca e
o duque de Lafões; depois, do lado direito, todos
os prelados em sitial alcatifado de verde; do
lado esquerdo, os marqueses em cadeiras rasas
com almofadinhas de veludo carmesim; os condes
em bancos cobertos de panos lavrados; os viscondes
e barões na ponta. Finalmente, tinham disposto
pela sala, em filas apertadas, bancos descobertos,
dezanove de cada lado da coxia, para os procuradores,
a começar pelos do Porto e Évora, e a acabar pelos
de Goa e Eixo. Barcelos tinha assento no banco
14, ao lado de Panóias e de Ourém.
   Albano de Carvalhais estava de olhos
fitos, boca meio descerrada, a rever mentalmente
o pitoresco panorama da abertura e proposição
das Cortes e reflectia. Porque o castigava Deus
tolhendo-o de representar o velho couto de Fraião?
Uma lágrima comiserada borbulhava nos seus olhos
vagos, fitos em abstracto, através da vidraça,
no horizonte sem fundo, e tudo ele agora considerava
punição divina. E, sentindo-se sob a garra duma
fatalidade inexpiável, algemado ao catre da hospedaria,
com a mágoa de não haver tomado parte no espectáculo
esplêndido, essa lágrima furtiva intumesceu e
rolou pela face até aos lábios, onde se evaporou
ao contacto do seu brasido. Mas o capitão-mor
não dera conta e prosseguia:
   - Tocaram as charamelas com o fôlego
todo, e o rei de armas de Portugal avançou para
o banco dos tonsurados e dobrou-se num grande
salamaleque diante do bispo de Viseu. Ergueu-se
de lá este bispo, pimpante que nem o valete de
oiros, Frei Fortunato de S. Boaventura. Apanhando
as abas da capa como uma madama, trepou ao estrado
real e, depois duma vénia a Sua Alteza, proferiu
o discurso da proposição das Cortes que foi uma
peça de estalo. Sim, senhor, chama-se um orador
de cara! Tenho ainda nos ouvidos aquele rufo de
tambor: "Uma voz unânime soa em todo o Reino:
que Sua Alteza se apresse a subir ao trono de
seus maiores... Não podia o Grande Príncipe desatender
a voz da Nação... Os Três Estados aqui convocados
que declarem se é conforme à letra e espírito
das leis fundamentais que se aplique na pessoa
de Sua Alteza o direito à sucessão do Trono da
Monarquia Fidelíssima." Os Três Estados bradaram
à uma, erguendo a mão: "Apoiado! Apoiado!"
   - Também que haviam eles de dizer?
- murmurou Carvalhais, novamente se utilizando
da verdade crua como revindicta contra a má sorte.
- Não tinham vindo para outra coisa... E acabou
ali?
   - Falou ainda o procurador por Lisboa,
um tal José Acúrsio das Neves, que deve ser um
melro de bico amarelo. Fala pelos cotovelos e
bem, mas o alma do diabo obrigou-nos a ouvi-lo
de pé.
   - De pé, é boa!
   - Sim, senhor. O rei de armas de Portugal,
depois que ele se ergueu para falar e mal se havia
inclinado diante de Sua Alteza, ordenou em voz
alta: "Levantem-se todos!" Assim se fez e logo
o figurão rompeu no rataplã: "Sereníssimo Senhor.
Depois de tão longas peregrinações e por entre
tantos perigos e trabalhos, a mão do Omnipotente
conduziu a Vossa Alteza Real, desde as margens
do Danúbio às do Tejo, para salvar o seu povo...
Aquela hidra que há cinco anos Vossa Alteza Real
esmagou tem sido a origem e causa de todas as
nossas desgraças. Mas ela fez--se morta, levantou
de novo o colo... Ora, vai fixar-se o trono na
base da verdadeira legitimidade: reunir toda a
grande família portuguesa debaixo de um governo
justo e fraternal; tranquilizar os bons, desenganar
os iludidos, e arrancar das mãos pérfidas e incorrigíveis
o punhal que pretenderam cravar no coração da
Pátria, para repartirem depois os seus ensanguentados
despojos... A Europa tem os olhos fixos sobre
Portugal e não pode deixar de aplaudir a sábia
e magnânima resolução que Vossa Alteza Real tomou
de firmar o ceptro português sobre as ruínas da
Revolução..."
   - Que pena eu tenho de lá não estar!
- gemia Albano de Carvalhais, rico-homem, católico
da velha guarda, azorrague dos pedreiros-livres
no seu plácido couto de Fraião, em doce e lamuriada
cegarrega. - Que pena tenho!
   O capitão-mor esquecera o motivo de
afecto e caridade com que começara a descrever
a cerimónia. Miguelista dos quatro costados, tomara
calor e, enfunado ao vento da própria retórica,
largara o pano todo.
   - Ah, reizinho duma cana, que desta
vez acabam de morte-macaca os inimigos do trono
e do altar! Acabam que lho digo eu, primo! O Acúrsio
cantou-lhas ali tesas. Algumas passagens valem
o padre José Agostinho. Ouça: "De todas as partes
se ouve um clamor geral contra os rebeldes, formam-se
batalhões de voluntários, pedem-se armas, e os
povos se levantam em massa e fazem uma montaria
geral não só contra os rebeldes armados, mas contra
todos aqueles que suspeitam de aderentes aos princípios
da Seita. Desgraçados deles se não achassem amparo
em S. A. Real e nas autoridades, a quem Vossa
Alteza Real tem encarregado de manter a ordem
pública!" E que me diz da gaitada final: "Firme-se
Vossa Alteza Real nesse trono excelso e faça feliz
a Nação que o adora. Generoso Príncipe, sic
itur ad astra!"
   - Que maravilhosa memória que o primo
tem! Até sabe latim...!
   - Arranho, arranho. Algum proveito
havia de tirar dos cascudos do padre-mestre.
   - O primo, assim, chega a ministro...
   - Não chego que me fazem guerra o Maciel
de Viana e o visconde de Vila Nova de Cerveira.
   - Deixe lá, atrás dos tempos, tempos
vêm. Ah!... que altos lugares lhe não estão reservados!?
E como rematou?...
   - Como havia de rematar: Palmas e mais
palmas, vítores por uma pá velha. "Viva o nosso
Rei! Viva o absoluto! Viva o pai da Pátria! Viva
o arcanjo S. Miguel!" Por outro lado, punhos no
ar e urros: "Morram os constitucionais! Morram
os cartistas! Morram os pedreiros-livres!"
   - Quem os mata?! São como o escalracho
- murmurou Albano de Carvalhais. - Quando abrem
as Cortes?
   - A abertura das Cortes está marcada
para quarta-feira, 25 do mês.
   - Não chego lá! - soluçou Albano de
Carvalhais. - Não chego!
   Estava meio reclinado sobre as almofadas,
as mãos estendidas sobre os lençóis, pálpebras
descidas. O capitão de Barcelos não sabia que
lhe havia de dizer. Tornou a abrir os olhos, torceu
os lábios exangues numa expressão de infinita
mágoa, e ciciou umas frases que envolviam por
certo todos os seus amores e desespero:
   - E eu que tanto queria beijar a mão
do nosso Príncipe!... Acabou-se! O meu Tomás,
por alcunha o Trinca-malhados, e os tesos da Labruja
podem rezar-me por alma... Carmencita!... Minha
mulherzinha!... Meus filhos!... Sinos da minha
igreja, dobrai a finados!
*
   Constou na Corte,
mediante a devassa que se abriu quanto ao lugar
vago no 10.° banco, que estava a dar as últimas
o deputado do Braço do Povo, Albano de Carvalhais,
morgado de Fraião. Pelo quê, a seguir a um confessor,
lhe mandaram do Paço o protomédico D. António
Salgadinho de Mulafarta e Rodes, que se notabilizara
no tratamento das almorreimas do senhor D. João
VI.
   Era um homem no pendor dos anos, gordinho,
de suíças, e com peruca tão engenhosa que lhe
escondia quase a calvície adiantada. Vestia com
esmero camisa de bofes, debruada a ponto de Alençon,
calção com rendas e meia esticada sabiamente sobre
as panturrilhas, sapatos de fivelas esculpidas
a primor. Ademanes, vestuário e ares majestosos
denunciavam à légua o refinado cortesão.
   Entrou D. António na hospedaria a cuspir,
posto fosse das mais recomendadas da Ribeira,
lenço com cheiros na mão esquerda e a fungar uma
pitada, espremida nos dois dedos da direita, contra
a fedorentina a amónio de gato e doutros bichos,
que saturava a escada. Com acento categórico bateu
à porta. Acudiu a abrir-lhe a própria D. Paca,
que ficou estarrecida e deslumbrada em face do
precioso visitante. E, adivinhando-lhe a alta
estirpe, conduziu-o com toda a solicitude e humildade
pelo corredor lôbrego ao quarto de Albano de Carvalhais,
mais lôbrego ainda.
   D. António Salgadinho, depois de correr
os reposteiros com certa brusqueria, como quem
se desforça de desatenções numa etiqueta preestabelecida,
inclinou-se para o enfermo. E de ricto depreciativo
nos lábios, que não escapou a Carvalhais, se quedou
a estudá-lo. Depois de o fixar mudo e teso um
bom espaço, com o dedo indicador, como quem dá
ao gatilho, fez-lhe sinal para deitar a língua
de fora. Viu-lha, tomou-lhe o pulso, e volvendo
a fixá-lo com certa demora, emitiu depois dum
breve questionário sintomatológico:
   - O que Vossa Mercê tem é uma febre
maligna. Ora diga-me cá: bebeu água impura em
algum lugar?
   - Sim... na jornada aconteceu-me beber
muitas vezes nas fontes que topava à beira dos
caminhos.
   - Pois uma delas estava inquinada.
   Como Albano de Carvalhais o fitasse
de olhos muito abertos, o que ele interpretou
como não tendo compreendido, explicou meio divertido:
   - Água choca. Vossa Mercê mete-se a
viajar sem borracha?
   - Trazia duas de três canadas cada
uma. Aliviaram-nos delas, à saída de Guimarães,
uns pobretões que se tinham plantado a poucos
passos de nós, a ver-nos merendar com olhos em
brasa. Matámos-lhes a fome e deram-nos o pago.
Bastou um momento de descuido e pilharam-nos os
alforges!
   - Pois teve uma febre maligna, mas,
dê graças, está a passar. Vamos enxotá-la à fina
força duma vez para sempre...
   Pôs-se a receitar, estacando por vezes
a redigir, de olhos abstractos para a janela,
na operação manifesta de puxar pela memória. Ao
fim, pronunciou:
   - Mande aviar e mande aviar já. No
Beco dos Remolares há um apoticário de confiança.
Toma três vezes ao dia, no intervalo das refeições,
uma colher de sopa...
   Como Albano de Carvalhais erguesse
de novo para ele olhos angustiados e inquiridores,
permitiu-se acrescentar por entre dentes:
   - É o medicamento mais selecto e eficaz
que se tem inventado para esta espécie de morbos.
Tive ocasião de receitá-lo a Sua Eminência Fr.
Patrício, cardeal-patriarca de Lisboa, e numa
só noite, depois de ensopar três ordens de lençóis,
ficou curado. Não há melhor para descoagular os
espíritos quando o sangue se deixa tomar pelos
gérmenes pestilentes. É remédio caro, mas Vossa
Mercê há-de ver que vale a pena. Eu volto amanhã.
   Retirou-se, havendo readquirido a sua
sobranceria e desdém de grande áulico, mal se
despedindo daquele deputado às Cortes, que não
se instalara num palácio à Junqueira com pajens
e um mordomo de rabona a recebê-lo.
   Quando D. Paca reapareceu, com estalidos
da língua a comentar o entono do magnate, que
trazia não apenas um rei, mas uma dinastia na
barriga, disse, após se haver inteirado da receita
que voejara pelo soalho com o pé-de-vento que
entrara com ela:
   - Eu dou um salto aos Remolares. Assim
haja droga manipulada.
   - Valerá a pena?! - murmurou Carvalhais.
- O físico disse que o mal está a passar, mas
eu já sinto a morte a tocar-me as fontes com as
asas de morcego...
   - Aí vem Vossa Mercê! Deus é que manda,
senhor Morgado de Fraião! Não duvide da sua infinita
misericórdia. Podia ter, que não tem, a morte
nos gorgomilos, e, à voz dele, rodar para outra
porta, e o senhor Morgado durar tantos anos que
acabem por lhe aborrecer. Reze Vossa Mercê, reze,
chame-se aos santos da sua devoção, enquanto vou
eu própria aviar a receita que a negra é capaz
de se perder pelo caminho ou beber a botijada.
   Pegou Carvalhais do rosário e veio
encontrá-lo o capitão-mor de Barcelos a engabelar
padre-nossos e ave-marias, vorazmente, uns atrás
de outros, na pressa de encher o bornal de santa
mercadoria para a grande viagem.
   - Acho-o melhor - disse-lhe o primo.
- Já lhe reluz a menina do olho. Temos homem!
   - Agora temos! Eu estava até com bem
pressa de o ver para o tornar depositário das
minhas derradeiras vontades...
   O capitão-mor pôs-se a chalacear, sem
grande convicção no que dizia. E foi-lhe prestando
ouvido. Queria Albano de Carvalhais que o seu
corpo fosse enterrado na capela do solar, ao lado
dos morgados de Fraião, ali sepultos desde há
nove centos de anos para cá. Como podia ser levarem
seus restos mortais para tão longe?
   - Não pense nisso. O primo há-de morrer
à lareira da sua casa, daqui a muitos anos e bons.
   - Vá tomando nota. A espanholita, sabe,
a Carmencita, que fui desinquietar a Melgaço,
que volte com a mãe para o padrasto. Está bem
convidada e recompensada do atraso que lhe causei.
Também não me trouxe nada por que tenha de me
responsabilizar perante Deus...
   O capitão-mor sorriu, mas não se permitiu
a mínima observação em assunto tão reservado.
   - À minha mulher, senhora D. Mécia,
de joelhos peço perdão de tantas loucuras que
me ditava o diabo da má cabeça, e que não veja
nelas desconsideração ao amor que sempre lhe tive
e ao respeito que devo ao nome ilustre que ligou
ao meu. Minha esposa que crie e eduque os filhos
na santa lei de Deus, na vénia e afecto do monarca
absoluto, senhor D. Miguel I, nosso rei e arcanjo.
Rogo-lhe também para suplicar a Fr. Aniceto, pela
salvação da sua alma, que vele por minha casa
e família como santo que é, que Deus lhe alongará
a existência, e em tudo seja paternal e protector.
E que me deite a sua bênção e se lembre sempre
da minha alma nas suas orações.
   Palavra puxa palavra, em despeito do
compungimento suscitado, recaíram a praticar -
sem grande enfado de Albano de Carvalhais, o que
a certa altura surpreendeu o capitão-mor, e em
contrário do amargor que lhe lia no íntimo - de
coisas, e loisas, a política sempre insegura,
os malhados que levantavam a grimpa, e que a repressão,
batendo forte e dura, não tinha jeitos de arrasar.
Albano de Carvalhais queixou-se de que os senhores
da Governança e da Corte só tivessem dado fé tão
tarde e a más horas de que faltava nos bancos
da representação, e apenas naquele dia, depois
de o deixarem andar por mãos de barbeiros, lhe
mandassem aquele arganaz de físico. A voz do morgado
era branda, todavia ressentida. E o capitão-mor
ergueu-se a varrer a parte de remoque que lhe
poderia ser dirigida:
   - Então eu lhe conto, primo... Ontem,
pela quinta vez, fiz saber na Secretaria do Reino
o estado em que se encontrava o deputado às Cortes,
Albano de Carvalhais, morgado de Fraião. Tinham-me
respondido: Temos mais que fazer do que pensar
na saúde dos fidalgotes que desabaram das falperras
sobre a Corte com as maleitas ou a sarna no pêlo.
Ele que chame um médico. Não tem por onde pague?
Afinal tanto insisti que veio este, que passa
por sabedor, mas é muito interesseiro, como se
viesse mandado pela Câmara Real. Ele lhe apresentará
a dolorosa...
   - A mim de sorte a apresentará... Tudo
o que aconteceu foi-me bem feito. Quem me mandou
ser asno! Para que me meti eu em cavalarias altas!?
   Estavam nisto, chegou D. Paca com a
botijada. Era um cozimento denso, gorduroso, de
aspecto nojento, sobre o verdonho. A boa mulher
trazia já uma colher de sopa, que se pôs a encher,
mas ele atalhou logo à primeira gota:
   - Deixe-me provar...
   Levou a mistela aos lábios, saboreou
e, fazendo uma careta sinistra, cuspiu para o
soalho.
   - Homem, não lhe havia de tomar o gosto!
- murmurou amicalmente o capitão-mor de Barcelos.
   - É uma beberagem nauseabunda, para
revessar a cama das tripas...
   - O primo bem sabe que os remédios
não são nenhum néctar. Deixe ver o récipe, D.
Paca...
   O capitão-mor pôs-se a soletrar em
voz alta, omitindo as palavras e sinais que expressavam
a dosagem da farmacopeia químico-galénica:
   - Raízes de escorcionária; mi... mi...
mitridato; diascórdio; água de cevada depurada;
raspas de ponta de veado e de marfim; sumo de
cherne... não, sumo de chermes e folhas de ouro...
   - Uma burundanga! - murmurou Albano
de Carvalhais em voz despiciente. - Para quê?
Para abreviar a vida e nos despejar o bolsinho!
Em quanto importou a potreia, D. Paca?
   - Está lá escrito. O senhor Capitão-Mor
leia...
   - Libra e meia.
   - Libra e meia - confirmou ela. - Disse
o boticário que havia de achar puxado, mas era
barato pelo efeito que ia produzir. As raspas
de marfim e as folhas de ouro custam os olhos
da cara. Isto é remédio só para ricos.
   - Irra, irrório, senhor Gregório! Peguem
dum bacamarte e vão roubar para uma encruzilhada!
Veja, primo, libra e meia, o preço duma burra
com o poldro... três a quatro pipas do vinho dos
Arcos!...
   - Carito! Carito!
   D. Paca, com a colher na mão, o frasco
noutra, dava o seu acordo por monossílabos e frases
soltas "sim, sim, um pobre não pode cair doente,
está tudo pela hora da morte", aguardando que
o enfermo se dignasse ingerir a poção.
   Nessa altura, a negra veio anunciar
que estava um homem à porta que dizia vir de rota
batida do Alto Minho para falar com Sua Mercê,
o senhor Morgado…
   - Ó D. Paca, vá ver quem é…
   - Que é o Tomás… - tornou a negra.
   - O Tomás… O Tomás Ruivo?... Temos
história. Mande já entrar.
   Pois era o seu fiel Ruivo, cara de
urso a quem cortaram uma orelha, esbaforido, intonso,
as rosetas a tilintar nas esporas ferrugentas
a cada passo que dava no sobrado.
   - Que há? Que há? - golfou o morgado,
de boca torcida, soerguendo-se na cama.
   Ruivo, num olhar, deu a entender que
havia ali orelhas que talvez não devessem ouvir.
Albano de Carvalhais pediu s D. Paca que o deixasse
por um momentinho que já a chamava para lhe aplicar
os sinapismos e que então tomaria o remédio. E
voltando-se para o criado:
   - Podes falar, Tomás. Aqui o senhor
Capitão-Mor de Barcelos é mais que meu quarto
primo por minha bisavó D. Escolástica da Abrunhosa;
é como se fosse meu mano. Dize lá o que traz…
   - O que me traz é bem mofino, meu senhor…
Saberá que os malhados já estão senhores da praça…
   - Essa agora! Como pôde isso ser?
   - Vieram em força da banda dos Arcos
e com outros de Monção abafaram as sentinelas.
Depois, de roldão, invadiram a casa da guarda,
desarmaram os soldados e lá estão. Agora são eles
que mandam e dão leis.
   - E os nossos?
   - Os nossos acudiram tarde e ainda
não passaram de meio caminho. Quando eu saí de
casa, havia tiroteio com os de Viana lá para Ganfei,
que é a linha avançada dos liberais.
   - Nunca imaginei! Que fez esse Cabeça
Ancha, que se gloriava de trazer Paredes atrás
de si à primeira voz?
   - O Barriga Ancha meteu-se em copas.
   - Que lagartão! E a joldra da Labruja?
   - Nas encolhas, também, meu senhor.
   - E o Joaquim Guerrilhas, de Romarigães?
   Tomás olhou por terra, torceu depois
os lábios.
   - Desembucha!?
   - Saberá Vossa Mercê, meu amo, que
o Guerrilhas é o melhor tratante que a rosa-do-sol
alumia. Estava à espera que Vossa Mercê se viesse
embora para lhe tirar com uma mina a água do Cerro
Gordo. Tinha mineiro rogado e tudo. Não lhe deixou
gotinha onde um pássaro refresque a goela! Eu
quis levar as coisas pelas boas e fui-me ter com
ele: Senhor Jaquim, vossemecê faz uma grande desfeita
a meu amo se lhe tira a água. E não pode fazê-lo,
que são vários os herdeiros da nascente, e vossemecê
é um deles! - "Qual desfeita ou qual carapuço!
- respondeu-me ele desabrido. - A água que anda
por debaixo da terra é de quem a explora. Fui
tirá-la no que é dele?" Mas o safado dos safados
fez mais. Na quinta do Laboreiro deitou uma parede
abaixo e fez caminho de carro por ela acima para
a sua fazendória. Apresentei queixa e lá está
a andar na Justiça. O alma de cão, vieram-me dizer,
já forjou três testemunhas falsas que vão jurar
sobre os santos Evangelhos em como o caminho foi
sempre por ali.
   - Que mariola! O mundo está perdido
com mariolas. Já não temem o Inferno. Cristo,
se não volta à terra, perde o seu reino.
   - Mas ainda não disse tudo. O Guerrilhas,
para cúmulo de desvergonhas, fez-se ou desconfia-se
ter-se feito com os malhados. Um grupo dos nossos
ia de volta por S. Martinho para tomar o inimigo
de revés, pois o malvado saiu-lhes à frente com
a matula e abriu fogo contra eles. Os nossos não
tiveram outro remédio senão tornar para trás.
   - Compreendo, compreendo agora porque
é que o ladrão sustentou a minha candidatura!
   - Deviam chamar a gente do visconde
- interveio o capitão-mor. - Se não bastasse,
apelavam para a milícia de Braga, que é testa.
   - E o abade do Cerdal? Esse tinha às
ordens, na freguesia, um punhado de lapuzes que
metiam respeito. Também se virou?
   O Ruivo voltara a embezerrar. O capitão-mor
assistia, com meio sorriso irónico a esvoaçar
nos lábios, ao desenrolar daquela cómica e desatinada
conferência.
   Albano de Carvalhais viu-se obrigado
a dar ao mensageiro nova sacada de freio. Mas
o servo fiel tinha um rolho na garganta que o
tolhia de explicar-se.
   - Tu falas ou queres que mande vir
um sacatrapo para te meter pela boca abaixo? -
e os olhos de Albano de Carvalhais fuzilavam,
com o que se acentuou o parecer satisfeito do
capitão-mor de Barcelos.
   - O abade, meu senhor, é o seu pior
inimigo. Eu até tenho vergonha de contar...
   - Raios te partam, excomungado! Conta
lá! Assim me julgas pele de galinha!
   - A negra disse-me que Vossa Mercê
estava no fim da vida e não se podia afligir...
   - Desata lá o saco. O que a negra te
disse não se escreve. Não, hoje já não dou contas
a Deus, fica adiado para amanhã. Vá, desata, não
me moas a paciência...
   - Pois então saberá que o abade, o
grande safardana, lá teve artes, por intermédio
duma alcoviteira, de introduzir-se na amizade
da espanholona...
   - Da espanholona...?
   - A mãe da Cármen. E esta induziu a
filha a passar-lhe as palhetas. Tem-na o maldito
padre para uma quinta abaixo de Monção. Já fizeram
as pazes com o Martinez, o contrabandista... e
todos os dias há grande rambóia entre eles.
   Albano de Carvalhais ficou amarelo,
como se houvesse perdido o sangue todo ou estivesse
a exalar o último suspiro. Depois fez-se verde,
verde como um pepino, e pouco a pouco foi recobrando
as cores e voltando à humanal figura. Viram-no
abrir os olhos, deitarem chispas, tornar a fechá-los,
abri-los como se tivesse apagado o lume interior,
e rompeu a gritar:
   - E tu não tinhas um trabuco para matar
esse malandro? Não tinhas, alma danada?... Que
instruções te dei eu? Oh, mil raios me abrasassem
e à comédia em que me meti! Não tenho amigos,
não tenho nada. Até este cachorro me negou...
   - Meu senhor, que havia eu de fazer?
   - Que havias tu de fazer? Ainda me
perguntas? Pois em vez de parlamentar com o Guerrilhas,
deitava-lo abaixo com uma tranca. E ao abade...
Diz lá, o masmarro não vai, pelo menos aos domingos,
dizer missa na igreja do Cerdal? Pois esperava-lo
por detrás da parede do adro e com um tiro mandava-lo
de presente ao Diabo, que já espera por ele. Fiei-me
em ti. Não és meu amigo... não és!
   - Quis matar o abade, quis, sim senhor!
Fr. Aniceto impediu-me: "Deixa lá, que o abade
prestou-nos um grandessíssimo serviço. A espanholita
era uma frieira e galdéria de alto lá com ela."
Assim mesmo. Por modos a Cármen veio corrida de
Redondela, onde esteve amigada com um homem casado,
depois de ter porta aberta lá para o Lugo. Não
tenha pena dela, meu senhor... que não o merece!
   O morgado ficou um migalho de olhos
fechados. Depois disse, e a voz era como se saísse
duma cuba:
   - Pois sim, mas seja ela lá a rês que
for, a desfeita é a mesma. Ele, por um lado, e
o Guerrilhas por outro têm de pagar-mas com língua
de palmo. Ah, Tomás, Tomás, quanto eu te agradecia
se me tivesses vingado! Depois davas às de vila-diogo
e vinhas ter comigo. O meu pão era o teu pão,
onde tu pateasses, pateava eu!
   O morgado esmagou duas lágrimas teimosas,
uma atrás da outra, com dedo frenético; o Ruivo
chorava e soluçava.
   - Escusavas de me trazer cá tais notícias.
Morria, acabou-se! Assim nem a terra me come;
assim não posso morrer!
   - Acalme-se, primo, que lhe pode fazer
mal - exorava o capitão-mor de Barcelos.
   Aos gritos e lamentos acudiu D. Paca.
Julgou, meio surda como era, que fosse a pedir
a droga, e já ela trazia, numa mão o frasco com
a colher, na outra as papas de linhaça. Carvalhais,
quando a enxergou diante de si, fez-lhe sinal
para que se aproximasse.
   - Deixe ver, D. Paca...
   Ela entregou-lhe a botija que ele com
mão expedita despejou no bacio. Pediu-lhe a cataplasma
e fez o mesmo. Depois exclamou:
   - D. Paca, a minha roupa... Está ela
limpa e escovada?... Dê-ma cá...
   Deu-lhe ela a roupa, assombrada. Olhava
para ele, não menos assombrado, o capitão-mor.
Albano de Carvalhais começou a vestir-se, primeiro
da cinta para cima. Depois, olhando para o chão,
proferiu em voz febril:
   - Não me trouxe as botas... as de montar...
E olhe, faça-me um favor: mande a negra com este
moço para que diga aos criados que se preparem.
Quero cavalos, pistolas, alforges... tudo em ablativo
de marcha. Se Deus quiser, partimos esta mesma
tarde com a fresca. Até à noite, tenho muito tempo
de pôr as coisas em ordem para a jornada.
   - Então vai-se embora, primo? - exprimiu
o capitão-mor em voz mista de espanto e reprovação.
   - Vou, pois então! Quer que me deixe
roubar? Não, de mim não zombam. O abade e o Guerrilhas
vão ver uma fona...
   - Mas estava ainda há pouco tão doente...
   - Não sei. Agora sinto-me rijo. De
resto só quero forças até chegar a Valença, e
uma moratória de dias... mais dois ou três dias
de vida... S. Bento da Porta Aberta, meu advogado
nas aflições, há-de-me ouvir e interceder por
mim junto do Altíssimo - e, dizendo isto, calçava,
sentado na cama, as botas de cano alto, levantando
a perna à altura da cabeça do capitão-mor, acaçapado
no tamborete.
   - E o nosso rei? Não há-de assistir
à abertura das Cortes? - interrogou o capitão-mor
de Barcelos com certa veemência e tom de acritude.
   - Em primeiro lugar estou eu. O príncipe
- sabe que mais, primo - que vá para o Diabo!