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  Naquela madrugada de Setembro, quando
o clarão do nascente começava já a pintar a encosta
do Buçaco e o rolão branco das névoas dormia ainda
no fundo do vale, uma patrulha portuguesa de dragões
ligeiros, que atravessava a serra a caminho de Coimbra,
parou na Moira à porta do ferrador e, como não lha
abrissem, seguiu para Sula com um soldado ferido
a sangrar da arreigada da orelha e a montada do
sargento manquejando porque se embaraçara no mato
e lhe saltara um cornozelo. Ao tropear dos cavalos,
o povo acudiu, mal estrovinhado ainda. A tenda e
a forja ficavam paredes-meias debaixo do mesmo telheiro,
donde pendia, aceso, um lampião de ferro. Os homens
beberam, trouxeram uma selha de água da fonte para
o soldado ferido lavar a orelha, os moços da forja
tomaram conta da besta desferrada e, daí a pouco,
toda a gente sabia que os franceses estavam em Tondela,
que houvera tiroteio em Mortágua entre as guardas-avançadas
de Massena e a divisão ligeira de Crowfurd, e que,
ou os invasores cortavam para Aveiro, marchando
daí sobre Lisboa - o que era menos provável -, ou
metiam pela serra, descendo, de um salto, até Coimbra.
O terror apossou-se do povo. Pois quê? Nem na serra,
junto de um mosteiro abençoado de Deus, os deixavam
tranquilos? As mulheres assomavam às portas, desgrenhadas,
com os filhos ao colo, gritando. Um pastor mocinho,
de cajado de zambujo e capucha de burel, que subia
com o gado, voltou com ele para o curral. Carros
de lavoura, jugos de bois atravancavam já o terreiro.
Fugir? Para onde? O sargento mandou recolher as
mulheres, falou à puridade aos homens. Que se deixassem
estar sossegados nas suas casas enquanto não recebessem
ordens das autoridades militares. Depois, a patrulha
picou de esporas e seguiu, montanha acima, já na
raçada do sol, pelo carreteiro, aberto no mato,
que tornejava os penedos e os moinhos de Sula.
   - E agora, pai? - perguntou a filha do
ferrador, espreitando à porta, pálida, a barriga
à boca, um rosário a tremer-lhe nas mãos.
   - Agora - respondeu o velho - será o
que Deus quiser.
   De Moira, onde chegara já a notícia,
vinha gente espavorida. Enxadas às costas, os homens
válidos do lugar, antes de seguirem para o trabalho,
paravam na tenda a pedir conselho aos velhos. Começavam
a avistar-se, para os lados de Santa Comba, nuvens
de fumo confundidas a princípio com a névoa que
boiava no vale, depois negras, espessas, picadas
de faúlhas batidas do vento. Não deviam ser ainda
os franceses. Eram os povos, que incendiavam casais,
celeiros, adegas, abegoarias, para que nada caísse
nas mãos dos invasores. Vozes de mulher entoavam
o Bendito. Uivavam cães, com fome. Foi então que
os homens de trabalho, sentados com o ferrador debaixo
do telheiro, viram assomar na estrada, subindo pacificamente
a encosta, sentado na alforjada de um jumento, um
homem gordo, chambão, risonho como umas Páscoas,
um lenço vermelho atado na cabeça, as pernas bamboando
apertadas numas polainas de saragoça de varas, o
capote pelos ombros, - tão salpicados de farinha,
o burro, os alforjes e o homem, como se viessem
debaixo de uma geada de Dezembro. Era o moleiro
de Sula, que trabalhava por conta do convento e
que seguia, com serenidade evangélica, o seu caminho.
   - Tio João Rana! - jogou-lhe, à passagem,
o ferrador. - Para onde vai vossemecê?
   - Para onde vou? Vou para o moinho.
   - Não vá, homem.
   - Tenho lá muito trigo para moer. Só
se vossemecê quer que o moinho venha ter comigo.
   - Não vá, que vêm aí os franceses.
   João Rana parou o burro, piscou os olhos,
esfregou o nariz às costas da mão lanzuda, sacudiu
uma risada e perguntou para a mafra do terreiro:
   - Então, onde é que eles vêm?
   - Não vê, além, o fumo?
   - Vossemecê cuida que eles botam cá ao
cimo da serra?
   - São como os milhafres.
   - Não têm barbas para isso. A serra é
alta, e há por aí cada S. Judas de cada penedo,
que em rebolando pela montanha abaixo acabam-se
os franceses todos. - Querem vossemecês alguma coisa
para o convento? Então, com sua licença, salve-os
Deus.
   Os trabalhadores foram pegando nas enxadas
e abalando para o campo, enquanto o moleiro seguia
o seu caminho, pachorrento, jovial e tão seguro
de si como se os franceses ainda lá viessem longe,
batendo as panelas velhas dos tambores pelas charnecas
de Espanha. Toda a serra resplandecia. Das moitas
de giesta levantavam-se revoadas de estorninhos.
Adiante do homem e do burro, batidos da luz rasa
do Sol nascente, alongavam--se pela montanha as
sombras de um burro e de um homem gigantescos que
marchavam, no seio da natureza, em plena paz e em
plena beatitude. Chegado ao alto de Sula, João Rana
contornou o cabeço, crista eriçada de tojo e de
penhascos, galgou o córrego estreitinho, - e ei-lo
na pequena chapada, varrida de vento e nua como
a palma da mão, donde se debruçava o seu moinho,
o seu querido moinho, que era a sua família e o
seu mundo. Dos três, que outrora ali velejavam à
chegada dos frades, um - mais ao norte - abatera-o
o raio; outro, o do Jerónimo, estava fechado por
morte do dono e abandono dos filhos; só aquele na
aba da serra se encontrava em laboração. O moleiro
desceu do burro, tirou do alforje uma manusca de
fava que o animal fraternalmente lambeu, travou
mão do chaveirão, que trazia na algibeira do ferragoulo,
e meteu-o à porta. O seu moinho! Trescalava a trigo,
a feno, a leite, à flor do tojo queimada do sol.
O roço, a mó, as cambeiras, os sacos de cereal para
moer, que pojavam no chão, tudo estava branco de
farinha, penetrado daquele bafo cheiroso de eucaristia,
daquela poeira lavada e alvíssima, que se sentia
na boca e que apetecia beijar. Havia qualquer coisa
de religioso nesse esconso rústico, nesse tosco
engenho - o mastro, o tegão, a entrosga - que um
sopro de aragem movia e de onde ia o pão levedar
nas masseiras do convento, encher os arções da cozinha,
aloirar nas escudelas de estanho do refeitório dos
frades. João Rana tirou o capote; veio fora; meteu-o
na alforjada do burro; prendeu o animal ao arganéu
de ferro chumbado na soleira da porta; alou as velas;
voltou ao moinho para deitar o grão na tremonha;
subiu a escaleira íngreme; jogou do sarilho para
regular o vento; o fuchal rangeu; chiou o mastro
no bácoro de bronze; e, daí a pouco, esticaram as
espias, bojaram as velas, as cantarinhas cantaram
e, no esplendor da manhã, esbelto e branco no alto
da serra, o moinho de João Rana pregava o seu sermão
da montanha estendendo humanamente os braços para
os homens e para Deus:
   - Passem de largo o ódio e a morte. Eu
sou o pão e a vida!
   Já o Sol declinava. O moleiro de Sula,
terminada a faina daquele dia, travou o engenho,
caçou as velas, ensacou a farinha, carregou o burro,
benzeu-se, fechou a porta, - e lá foram ambos, o
asno à frente, ele atrás, a caminho do convento.
Ia já ao pé da ermida das Almas quando ouviu toques
de clarim. Parou, para se orientar. Seriam os franceses?
Como, se eles, de manhã, ainda estavam em Tondela?
Pensou em voltar para o moinho. Mas os clarins soaram
de novo - desta vez, nitidamente, do lado da mata
- acompanhados de guinchos de gaitas-de-foles. Eram
os ingleses. João Rana, curioso, em vez de entrar
pela porta da cerca que dava para a cozinha, para
o quintalão e para o tinelo dos leigos, foi de volta,
e ia já a assomar ao terreirinho do mosteiro quando
uma vedeta portuguesa de dragões lhe atravessou
à frente o cavalo. Voltou para trás, tornejou o
muro, entrou, e ficou atónito perante o alvoroço
e a confusão que iam na cozinha dos frades. Quebrara-se
a clausura; vagueavam soldados pela assassaria pedindo
de comer; e aquele silêncio da cartuxa, cuja observância
era já fisicamente necessária aos padres carmelitas,
dera num vozeiro de estalagem, indigno de tão piedosa
casa. Todos os frades trabalhavam. Uns, remangados,
depenavam frangos; outros, de navalha nas unhas,
cortavam cebola; o leigarraço do forno, nu de peitos
e de braços, revolvia com a pá de ferro os toros
do brasido; frei José dos Arcanjos, donato velho,
amigo de João Rana, brunia e rebrunia o caldeirão
de cobre em que ia, naturalmente, adubar-se a ceia.
Da soleira da porta, o moleiro e o burro olhavam
espantados, encarando-se volta e meia, como se perguntassem
um ao outro que pouca-vergonha era aquela. Frei
José dos Arcanjos emborcou no escano o arame luzidio,
ajudou João Rana a apear a alforjada e disse-lhe
que o Diabo em pessoa ia chegar à casa de Deus.
O general Artur Wellesley - maioral inglês das tropas,
como lhe chamava o leigo -mandara aviso de que vinha
hospedar-se no convento; o largo estava já coalhado
de tropa; a Comunidade, havia duas horas fechada
na Casa do Capítulo, praticava ainda sobre a maneira
por que lhe cumpria receber o General, - no claustro
ou na portaria, com cruz alçada ou sem ela. Nisto,
quando o mulateiro levava a cavalgadura, ouviram-se
de novo os clarins; as garridas do convento responderam,
repicando; e todos os leigos da cozinha, sofraldando
os chiotes de estamenha, deitaram a correr para
a portaria.
   - Sempre quero ver a cara do homem, -
resmoneou o moleiro, seguindo, sem atrigar o passo,
na peugada dos frades.
   O conventinho da serra, da traça de Frei
Alberto da Virgem - pequena catedral de embrechado
construída para uma comunidade de ratos e de toupeiras
-, abria a sua escada e os seus três arcos de volta
redonda, sem sombra de silharia, para um vasto rossio,
roçado do mato, que por um lado ia até às brenhas
da floresta, incendiadas àquela hora pelo clarão
do poente, e por outro - a nunca; Roberto Crowfurd,
o comandante da Divisão ligeira, alto, hercúleo,
violento, pendurado no seu grande cachimbo; o valente
Spencer, sempre de capote branco para demonstrar
praticamente que as balas fugiam dele; Hill, calvo
e magríssimo; Colle, da 4.a Divisão; Leith, da 5.a;
o general da cavalaria, Cotton, ofuscantes nas suas
casacas vermelhas, os bicornes negros debaixo do
braço, generais moços para quem uma batalha era,
como um baile, uma lição de elegância. As últimas
notícias confirmavam a intenção dos franceses de
ganhar Coimbra atravessando o Buçaco. Tinha de reunir-se
o Conselho de guerra. Wellesley fez sinal aos generais
para o seguirem e dirigiu-se ao convento onde, no
alto da escada, o aguardava o Prior, acompanhado
apenas de dois padres discretos. Frei Manuel do
Sepulcro, pálido, balbuciou algumas palavras de
boas-vindas e ergueu as mãos trémulas num vago gesto
de bênção. Mas ninguém atentou nele. Wellesley entrou
pela portaria, de chapéu na cabeça; os generais
seguiram-no, de roldão; apenas Crowfurd, que falava
o português, se lembrou de perguntar ao Prelado,
atirando-lhe à cara baforadas de fumo, onde ficava
o quarto de Lord Wellington. Frei Manuel pediu licença
para os acompanhar, deteve-se diante da última porta
da direita antes de chegar ao claustro, e, baixando
os olhos, murmurou, confuso e humilde:
   - É a minha cela. Não temos outra menos
pobre para oferecer a Sua Ilustríssima.
   - His Excellency! - emendou Picton, franzindo
o sobrolho e enterrando o chapéu alto até às orelhas.
   Quando se abriu a porta do quarto que
a Comunidade destinara a Wellesley, os generais
entreolharam-se. Era um rebaixo de telha vã, cavado
na terra, que recebia luz de uma fresta de grades
e onde só se podia entrar dobrado pelos rins, lura
de coelhos ou toca de animal bravio que os servos
de Deus - desafeitos já a mimos na dureza e na miséria
do cenóbio - tinham entretanto alindado, estendendo
sobre o catre um pano de damasco vermelho trazido
do arcaz da sacristia, enchendo de água pura um
cantarinho de barro ressumante e deixando à vista
- porque era a mais rica alfaia do aposento - o
bispote de prata que as freiras de Lorvão lhes haviam
mandado de presente quando, em tempo, se esperara
no conventinho a visita da Rainha viúva de Inglaterra.
Wellesley gostou da novidade - "very well! very
well!" -, baixou a cabeça, entrou na cela onde dois
homens não caberiam e, com aquela ponta de humour
que caracteriza a história anedótica da bravura
inglesa, convidou os generais a entrar e a sentarem-se
para o Conselho. Todos se riram, - até os frades.
Wellesley saiu da toca, e, daí a pouco, no rossio
do convento, sob a fronde de uma velha oliveira,
os generais sentavam-se em redor de um mapa estendido
sobre dois tambores dos granadeiros de Wallace.
Foi resolvido que o exército se concentraria e tomaria
posições na serra, em toda a linha de alturas que
vai do Ninho de Águia, ao noroeste, até Nossa Senhora
do Monte Alto, nos contrafortes musculosos que se
debruçam sobre as águas do Mondego. Wellesley encarregou
desde logo o tenente-coronel Ricardo Fletcher de
proceder, com os sapadores e a brigada miliciana
de Trant, às obras de entrincheiramento possíveis
e a abertura de uma carreteira no alto da serra,
em toda a extensão da cumeada, a fim de assegurar
a mobilidade das tropas, em especial das brigadas
de artilharia, permitindo-lhes acudir com rapidez
aos postos mais ameaçados. Na Senhora do Monte Alto
tomariam posições a divisão do general Hill, a Leal
Legião Lusitana e uma brigada de artilharia portuguesa;
na Portela da Oliveira, a divisão de Leith e os
milicianos de Tomar; em Santo António do Cântaro,
a divisão de Picton e as três brigadas de artilharia
inglesa e alemã; na crista mais elevada da serra,
a divisão de Spencer e a brigada portuguesa independente
de Pack; em Sula, dominando a altura, a divisão
ligeira de Crowfurd e duas baterias de artilharia
apoiadas pela brigada portuguesa independente de
Coleman; depois, a legião alemã; a brigada portuguesa
independente de Campbell; por fim, até ao Ninho
de Águia, a divisão de Cole. A cavalaria divisionária
de Cotton deveria concentrar-se, parte ao centro
e à retaguarda da linha, parte no flanco direito,
além-Mondego, nas margens do Ave. Não havia tempo
a perder. Os generais Hill, Picton, Cole, Leith
e Cotton receberam perfilados as instruções de Wellesley,
montaram a cavalo com os seus ajudantes e, depois
de haverem expedido piquetes com ordens de marcha
para as suas tropas estacionadas em Coimbra e noutros
pontos da região, partiram, acompanhados de escoltas
de cavalaria inglesa, com o objectivo de reconhecer
as posições que lhes tinham sido designadas. Ficaram
apenas com Wellesley os generais Spencer e Crowfurd,
a cujas divisões, por se encontrarem mais perto
- a primeira na Mealhada, interceptando a estrada
de Aveiro, a segunda em Mortágua onde já travara
combates com as avançadas francesas - fora confiada
a defesa da linha de alturas dominada pelo mosteiro,
pelos moinhos e pela ermida das Almas do Encarnadouro.
Ordenanças de dragões levaram ordens dos dois generais
para que as suas tropas retirassem sobre a serra,
durante a noite, sem bater um tambor ou disparar
um tiro. Postaram-se vedetas em torno do convento.
Quando já se avistavam ao longe as fogueiras do
exército inimigo, Spencer, que se picava de falar
bem francês, apontou o clarão, num gesto de ameaça:
   - Nous lês aurons!
   - Yes! - rugiu Crowfurd, trovejante.
   Wellesley, cujos olhos frios luziam na
escuridão como pontas de lanças, tirou o seu chapéu
de aba larga e disse, cumprimentando de longe as
fogueiras que se acendiam, uma a uma, na linha do
horizonte:
   - My dear Massena, good night!
   Dois dias depois, na tarde de 26 de Setembro,
a concentração terminara e todas as tropas anglo-portuguesas
se encontravam já em posição no alto da serra, dissimuladas
em ondulações do terreno, abrigadas em trincheiras
onde fora possível cavá-las, ocultas nas rochas
e no mato, à espera do assalto do invasor, - que
se daria, porventura, na manhã seguinte. O exército
francês estava à vista no fundo do vale, movendo,
envoltas em poeira cintilante, as suas pesadas massas
humanas. Com excepção da artilharia, cuja marcha
fora lenta devido à falta de gado - não vira na
sua frente senão campos devastados e povoações desertas
-, os três corpos do exército de Massena tinham
já tomado posições: o 2.°, do comando de Reynier,
diante de Santo António do Cântaro; o 6.°, comandado
por Ney, em frente de Sula; o 8.°, que tinha à sua
testa Junot - ainda, havia pouco, coberto de glória
em Wagram - à retaguarda, como reserva dos dois
primeiros. No alto da serra, Wellesley, pelo seu
óculo de campanha, seguia o espectáculo deslumbrante
da manobra daquele exército de cerca de setenta
mil homens, admirável instrumento de poder ao serviço
do Petit corse aux cheveux tondus. Tudo parecia
indicar que o primeiro choque das colunas francesas
se daria com a divisão de Picton, em Santo António,
ou com a divisão ligeira de Crowfurd e a brigada
portuguesa independente de Coleman, aliás protegidas
pela ravina penhascosa que tinha a cavaleiro os
moinhos. Trazidas a galope da Portela da Oliveira,
duas baterias portuguesas comandadas pelo tenente-coronel
Sousa Prego vieram reforçar a artilharia inglesa,
tomando posição entre o moinho de João Rana e a
povoação de Sula, apoiadas por um batalhão de Caçadores
l. Quando a noite caiu, nem de um, nem de outro
lado se acenderam fogueiras. No campo francês, ouviram-se
ainda por algum tempo o rumor surdo das massas de
cavalaria que se deslocavam e o ferrolhar da artilharia
em marcha. Do nosso lado toda a serra estava mergulhada
em silêncio profundo. De bruços na terra, com as
armas à cara, ingleses e portugueses esperavam,
calados e imóveis, o salto do tigre. Wellesley,
acompanhado do seu Estado-Maior, percorreu o campo,
apertou a mão a Crowfurd e recolheu ao mosteiro.
Ainda mal andado o tempo de três padre-nossos, ouviu-se
ruído de vozes nos postos avançados, para além dos
moinhos. Uma vedeta apresentou-se ao tenente-coronel
Prego, comandante das baterias, participando-lhe
que lá em baixo, na volta da estrada que cabritava
entre os sargaçais da encosta, estavam um homem
e um burro que queriam passar.
   - Passe o burro; o homem, não.
   - O homem vem montado na almarrona da
besta, com licença de vossa senhoria. Diz que o
burro e ele é tudo um.
   - Então, não passam, nem o homem, nem
o burro.
   Ramalhavam as comas altas da mata. Num
veio de água próximo, roncarejavam os sapos. A vedeta
retirou-se. Daí a pouco, veio o oficial da ronda.
O homem não arredava pé. Teimava em que tinha ali
o seu ganha-pão e pedia que o deixassem passar.
   - Quem é ele?
   - Diz que é o moleiro que trabalha neste
moinho.
   - Mande-o cá. Se não falou verdade, amarra-se
ao rodado de uma peça e fuzila-se.
   Daí a pouco, perante a hilaridade e o
espanto dos artilheiros e dos jovens soldados de
caçadores - quase todos moços de dezoito a vinte
anos - João Rana assomou, no vago bruxuleio de uma
lanterna, risonho, tranquilo, bonacheirão, sentado
na alforjada do jumento, o ferragoulo de estamenha
pelas costas, o lenço encarnado atado na cabeça,
como se um moleiro castelhano da Mancha, tocado
do pincel de Goya, tivesse caído ali, em plena serra.
   - Ora, Deus seja com vossemecês. Jesus,
Maria, José.
   - Para onde vais? - inquiriu o comandante.
   - Para o moinho.
   - Que vais tu fazer ao moinho?
   - Sou o moleiro.
   - Pergunto-te o que vais fazer ao moinho.
   - Que vou fazer ao moinho? Vou bailar.
   - Levem este homem para o trem da artilharia
e dêem-lhe vinte varadas! - ordenou Sousa Prego.
   - Não se agaste vossemecê, valha-o Deus.
Que há-de um moleiro fazer no moinho, senão moer?
   - A estas horas?
   - Vou primeiro ao convento.
   - Vais-te confessar?
   - Tomara eu pecados, senhor, que confessores
não faltam. Sou o moleiro dos frades. Vou buscar
o trigo.
   - Acompanhem-no ao convento. Se os frades
o reconhecerem, tragam-no cá. Senão, encostem-no
a um muro e arcabuzem-no.
   - Então, Deus lhes dê saúde a vossemecês
todos e os livre de trabalhos esta noite.
   - Quando se agradece tira-se o chapéu,
entendes?
   - Só se vossemecê me emprestar o seu,
que eu não tenho, - ripostou o moleiro apontando
o bicorne do oficial.
   Num gesto, o sargento ordenou a João
Rana que seguisse na sua frente. O moleiro riu-se,
tocou o burro, e, chouteando à testa da patrulha,
lá foi a caminho do mosteiro, por entre as chufas
dos soldados portugueses e ingleses que, deitados
por terra, se soerguiam para ver passar, córrego
acima, aquela figura de presépio. Quando chegaram
ao convento, o quintalão de serviço, para onde davam
a cozinha, a abegoaria, a adega e o celeiro dos
frades, estava coalhado de carroças, de churriões,
de carrucas, de calejas, de carros de bois, de azêmolas
de carga, de trouxas, de fardos, de almofreixes
que os leigos e os moços de lavoura, na azáfama
da partida, carregavam à pressa, atirando-os para
os tendais dos carros e para os seirões das bestas.
Os padres iam fugir. Já estavam enterrados na horta
os tesouros da igreja. A comunidade esperava apenas
a resposta de Wellesley, a quem tinha mandado pedir
uma escolta para a acompanhar a Coimbra ou ao paço
manuelino das freiras bernardas, em Botão, que se
encontrava desabitado. O sargento levou o moleiro
ao comandante da guarda, que por seu turno o mandou,
acompanhado de um tenente, à presença do Prior.
Os frades, prontos já para a jornada, estavam reunidos
na Casa do Capítulo, os largos sombreiros na cabeça,
alguns deles com sacos às costas pojados de livros.
João Rana olhou-os, atónito. Previra tudo, menos
a abalada da comunidade, que era a alma e o coração
da serra.
   - As tropas do nosso general Crowfurd
mandam perguntar a Vossa Paternidade se conhece
este homem, - disse o oficial.
   - Conheço-o muito bem, - respondeu Frei
Manuel do Sepulcro. É o nosso moleiro. - Vens despedir-te
de nós, amigo?
   - Eu não sabia que Vossas Paternidades
deixavam o convento, - balbuciou João Rana, com
o travo da comoção a apertar-lhe a garganta.
   - É a vontade de Deus. Se queres, levamos-te
connosco.
   - Não, reverendo Padre. Eu vou para o
moinho.
   - O moinho está no meio das tropas. Vai
ser crivado de balas.    - Então Vossa Paternidade
quer que eu desampare o meu moinho? Mal comparado,
tirante o ser a casa de Deus, é como este conventinho
para Vossas Paternidades. É a minha família. É um
pai que ali tenho. Deu-me de comer toda a vida.
   - Está bem. Então que vieste cá fazer?
   - Pedir ao reverendo Padre chaveiro que
me mande carregar a cavalgadura, com o perdão de
Vossas Reverências, de mais três sacas de trigo,
que não tenho lá nenhum.    - Vais pôr o
moinho a trabalhar?    - Pois, para que
é ele? Os franceses não deitam cá acima, ao alto
da serra. E, se deitarem, acabou-se. Um homem é
um homem, entende Vossa Paternidade? Não volta as
costas ao perigo. Se morrer, morro abraçado ao meu
moinho. Coitado, ele já é mais velho do que eu.
Pois então, que Vossas Reverências tenham boa jornada
e vão com a graça de Deus. Ámen, Jesus.   
Os frades entreolharam-se, em silêncio. O moleiro
ajoelhou-se para beijar o hábito do Prior. Ouviu-se
a garrida do mosteiro tanger a matinas.   
- A que horas quer Vossa Paternidade a escolta,
para acompanhar a comunidade a Coimbra? - perguntou
o oficial da guarda.    O velho Prior baixou
a fronte e, com os olhos marejados de lágrimas,
respondeu:    - Ainda não sei ao certo se
partiremos, senhor tenente.    Pouco depois,
o burro, carregado com três sacas de trigo do celeiro
do convento; atrás dele, a pé, o moleiro, orgulhoso
do abraço e do salvo-conduto que lhe dera um dos
ajudantes de Wellesley; e, no couce, a patrulha,
puseram-se a caminho de Sula, onde tomara posição
a artilharia de Sousa Prego. Quando João Rana avistou
os moinhos - primeiro o do Jerónimo, abandonado,
depois o dele, torre negra erguida, com o seu capelo
e a sua aspa de varas, na majestade augusta da noite
- o coração bateu-lhe apressado. Ainda lá estava,
o seu velho amigo, que conhecia de cor as tempestades
da serra e que já tantas vezes - gigante resignado
- afrontara o vendaval e o raio para dar humildemente
pão aos homens e graças a Deus. Ao pé dos penedos,
a dois passos do moinho, o Estado-Maior de Crowfurd
observava atentamente o inimigo. João Rana foi levado
ao comandante das baterias. O tenente-coronel Prego
leu o salvo-conduto à luz da lanterna, atentou na
cara de Páscoa do moleiro, e resmungou:   
- Bom. Mas no moinho não podes entrar.   
- Saiba vossemecê que o moinho é meu.   
- Queres morrer debaixo dos escombros?   
- Quero.    - Não vês lá a sentinela? Deita-te
à porta, como os cães.    João Rana, quando
o viu pelas costas, tirou o chaveirão da bojarca
da cavalgadura e ia a encaminhar-se para o moinho;
mas estacou diante do granadeiro inglês que guardava
a porta e que lhe meteu a baioneta à cara. Nesse
momento, chegava um piquete de couraceiros, a toda
a brida, com uma mensagem urgente para Wellesley.
Começava a assinalar-se movimento de tropas francesas
em frente de Santo António do Cântaro; Picton considerava
iminente o ataque à sua posição. O comandante do
piquete meteu-se pelo mato, até aos penedos, para
apontar a Crowfurd e aos oficiais, ao longe, a névoa
que parecia subir pela montanha. Era o ataque do
corpo de exército de Reynier a Santo António. Troou
a artilharia - as baterias inglesas de campanha,
de Dickson - reboando nas corcovas e socavões da
serra. Respondeu uma salva da artilharia francesa,
que mal se ouvia a distância, mas cujos clarões
se adivinhavam no nevoeiro. Crowfurd, contando com
o ataque simultâneo da divisão de Ney, dera ordens,
distribuíra aguardente às tropas, mandara vedetas
e escutas descer o matagal da encosta e procurava,
de óculo em punho, surpreender os movimentos do
inimigo. Na frente de Sula, porém, tudo parecia
tranquilo. O piquete de couraceiros partiu, a galope,
a juntar-se à divisão Cotton, a que pertencia, e
a meio do caminho, quando já começava a clarear
a manhã, parou num cômoro a cavaleiro da estrada
de Santo António do Cântaro, donde se abrangia todo
o vasto panorama do ataque. Duas divisões do corpo
de exército de Reynier - a do general Houdelet e
a do general Merle - precedidas de uma extensa linha
de atiradores, trepavam pela serra para o assalto
da posição. Logo que os batalhões franceses chegaram
ao alcance do tiro da nossa infantaria, milhares
de espingardas ocultas nas moitas de tojo e nas
gargantas da rocha varejaram aquelas colunas rastejantes
de lagartos que, açapadas, dizimadas, agarradas
aos penhascos, ensanguentadas nas torgas e nos sarçais,
avançavam sempre. A testa da divisão Houdelet conseguiu
atingir a crista de Santo António; mas, carregada
à baioneta pelos granadeiros de Wallace e pelo 8
de Infantaria portuguesa, recuou. Novos batalhões
arrancaram, em massa, sob o comando do general Foy.
Tudo estaria perdido se o ilustre Leith, à frente
de duas brigadas portuguesas e da Leal Legião Lusitana
- os "lobos verdes", de Wilson - não corresse em
reforço das tropas de Picton, com tal ímpeto, que
os batalhões de assalto, na confusão e na desordem,
rolaram desamparadamente pelos barrancos. Quando
o piquete inglês desceu a galope a estrada, na embriaguez
de se lançar também no combate, apenas uma pequena
força de granadeiros franceses, emboscados num pinhal,
resistia ainda. Extenuados, negros de sangue e de
pólvora sob os ursões enormes, as bocas abertas,
os olhos esbugalhados, deixaram-se matar até ao
último homem, bradando:    - Vive l'Empereur!
   Logo que viu as tropas de Reynier chegar
às alturas de Santo António do Cântaro, Ney, cumprindo
as instruções que recebera de Massena, desencadeou
o ataque sobre Sula. A coberto do nevoeiro, a artilharia
francesa tomou posição numa ondulação de terreno
abaixo de Moira. Crowfurd surpreendeu a manobra
e mandou as baterias de Sousa Prego e a brigada
de artilharia britânica abrir fogo. Eram peças portuguesas
de bronze, invenção do dinamarquês Weinholtz, ao
nosso serviço - que podiam lançar dez a quinze bombas
por minuto -, e peças inglesas de montanha, cujo
projéctil - a bomba "shrapnel" - fez na Guerra Peninsular
a sua gloriosa experiência. O estrondo da salva
acordou os ecos da montanha, ribombou pelas quebradas,
como se um raio tivesse estalado todos os troncos
da floresta. Logo o outeiro onde se instalara a
artilharia de Ney se coroou de rápidos clarões.
As baterias francesas respondiam-nos. Um pelouro
de seis arráteis, alcançando em profundidade os
batalhões ingleses, matou três homens. Foi o baptismo
de fogo de Crowfurd na serra. Pouco depois, outro
pelouro atingia em cheio, a meia altura do roço,
o moinho do Jerónimo, que abateu com fragor na claridade
da antemanhã levantando nuvens de poeira. O esforço
das nossas baterias redobrou, enquanto uma voz rouca,
uma voz aflitiva, gritava:    - Quero morrer
no meu moinho! Deixem-me ir morrer no meu moinho!
   Era o moleiro João Rana. O pobre homem,
convencido de que o "seu moinho" - mais do que a
sua casa, a sua família e o seu pão - ia ser arrasado
também pela artilharia francesa, atirava-se como
possesso de encontro à porta, ajoelhava-se, implorava
que o deixassem entrar, e, repelido pela baioneta
lampejante da sentinela - um granadeiro do 52 britânico
-, batia com a cabeça pelas paredes, estendia os
braços convulsos como se quisesse abraçá-las, aguentá-las
de pé, soluçava - "o meu moinho, o meu rico moinho!"
- em uivos de animal ferido que procura a escuridão
do fojo para morrer.    - Go in! - rouquejou
o granadeiro, jogando um pontapé à porta, que se
abriu.    Nisto, as vigias e escutas regressaram
à posição. Os oficiais do Estado-Maior de Crowfurd
correram, dando ordens. Ouvira-se vozes abafadas
de comando. Duas divisões do corpo de exército de
Ney - a de Marchand e a de Loison (o Manela, de
sangrenta memória) - vinham já subindo a montanha
para o ataque à linha de posições de Sula, que,
na extensão de um quilómetro, desde os moinhos até
à ermida das Almas, se debruçava sobre o barranco
penhascoso. A divisão de Marchand avançou pela estrada;
a de Loison - formigueiro coruscante - metera-se
ao mato, de rastos, em silêncio, para colher de
surpresa o inimigo. A crista da serra coroou-se
de clarões de Inferno; sobre as tropas francesas
estoiraram as bombas da nossa artilharia de campanha;
e quando as primeiras colunas chegaram ao alcance
das carabinas raiadas dos caçadores portugueses,
que se estendiam em linha de atiradores de um extremo
ao outro da posição, a fuzilaria rompeu de súbito,
certeira e mortífera, como se a própria montanha,
desentranhando-se em fogo, expulsasse de si os invasores.
A divisão de Marchand, depois de um movimento de
hesitação, retirou, sentindo nos rins a ameaça dos
granadeiros ingleses e da brigada portuguesa independente
de Pack (Infantarias 1 e 16). A divisão de Loison,
porém, agarrou-se à terra, manteve-se firme, e,
embora duramente martelada pelo 95 inglês e pelos
nossos batalhões de Caçadores 3 e 4, continuou a
sua escalada heróica, tropeçando nos cadáveres,
escorregando na urze molhada, abraçando-se às rochas
e aos troncos dos pinheiros, mas avançando sem cessar,
a peito descoberto, como se para esses bravos estivesse
raiando de novo o sol de Iena e de Austerlitz. Encontravam-se
já os franceses a cem passos da crista, quando,
de repente, se ergueu dos penedos a figura gigantesca
de Crowfurd, o cachimbo aceso na boca, o sabre numa
das mãos, na outra o bicorne negro, e à frente dos
seus quatro regimentos ingleses - relâmpago de três
mil baionetas - se atirou de encontro às vagas de
assalto de Loison, que, extenuadas, fulminadas,
rolaram em cachos humanos pelo despenhadeiro. Novos
batalhões franceses surgiram ainda; voltaram a crepitar
as descargas, como pelames rebentados de centenas
de tambores; mas o 4 e o 19 portugueses carregaram
sobre eles, e toda aquela massa humana palpitante
cabriolou no precipício, por entre troncos de pinheiros
que estalavam e abatiam com estrondo. A derrota
converteu-se em fuga desordenada. A artilharia troou,
metralhando os fugitivos. Aqui e além, o matagal
ardia. Restava ainda, intacto, um corpo de exército:
o de Junot. Mas era inútil sacrificá-lo. Massena,
duque de Rivoli, príncipe de Esseling, marechal
de França, que, a cavalo, ao lado de uma linda mulher
fardada de tenente de lanceiros, seguia as operações
pelo seu óculo de campanha, deixara de ser, perante
aquela inexpugnável montanha de bronze, "l'enfant
cheri de la victoire".    O Sol erguia-se
já no horizonte, inundando de claridade o vale imenso.
Como se a serra tivesse voz, um hurrá! atroador
pareceu romper das goelas dos rochedos e dos barrocais.
Pífanos, clarins, tambores, timbales, sinos, gaitas-de-foles
vibravam no ar fresco, no ar luminoso da manhã.
Sentia-se a alma religiosa da floresta no rumorejo
dos cedros centenários. Os padres carmelitas - que
não tinham pensado mais em fugir - chegaram em procissão,
de cruz alçada, para ajudar a levantar os feridos.
De repente, todas as cabeças se ergueram, todos
os olhos se arrasaram de lágrimas. No alto de Sula,
as asas brancas do moinho de João Rana moviam-se,
serenas e resplandecentes, como se os braços de
Deus se erguessem para abençoar a montanha coberta
de mortos. Era a vida que continuava. Era de novo
o pão, o lar, o trabalho fraterno, a paz fecunda.
No meio da metralha, o moleiro regulara o vento,
alara as velas, caçara a travadora e pusera - herói
humilde! - com a tranquilidade de todos os dias,
o seu moinho a trabalhar. Quando os oficiais entraram
para lhe trazer um abraço do coronel Sousa Prego,
encontraram-no encostado às cambeiras, pálido, ferido
de raspão na cabeça por uma bala. João Rana olhou-os,
risonho, empertigou- -se a custo, e, tomando nas
mãos o cantil de aguardente que lhe estenderam,
jogou, com o orgulho de um general que acaba de
ganhar uma batalha:    - Eu não disse a
vossemecês que eles não botavam cá acima?
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