Apareceu um dia no monte, magro, escanzelado, consumido pelas febres, havia três meses a contas com umas quartãs que não o largavam nem à mão de Deus-Padre.
  - Queres-te consertar?
  Ele não queria outra coisa; mas sentia-se incapaz de mudar uma palha de um lado para o outro, de dois em dois dias abarracado com a quartã, para ali ficando num molho de manhã à noite, sem dar acordo de si.
  - Não faz mal, é para guardar porcos. Tenho ai um remédio que te há-de fazer bem.
O remédio era o sulfato de quinino, o bom sulfato inglês, que minha mãe comprava em frascos, dando-o a quem dele necessitava, à gente pobre que o pedia.
  Foi assim que o compadre Rabino entrou para minha casa, roido pelas febres, umas quartãs amaldiçoadas que o não deixavam ganhar a vida.
  Sucedeu o remédio fazer-lhe bem, de modo que ao fim de poucos dias estava são e rijo como um pêro verde, e comia com tal apetite que até parecia, diziam os outros criados, ter fome canina.
  Por qualquer motivo, o maioral dos porcos deu o ano por acabado antes de Santa Maria, e o compadre Rabino, que entrara como ajuda, passou logo a ser o maioral, subindo de categoria e melhorando de vencimentos.
  Minha mãe foi a madrinha da sua primeira filha, e assim o compadre Rabino passou a ser uma pessoa da nossa familia, compadre de águas bentas, o que representava naquele tempo uma estreita relação de parentesco, tão estreita que os compadres como tal se tratavam, mesmo que fossem irmãos.
  E que adorável, que santa rapariga era essa Maria Jacinta, que eu estou a ver, estudante de Medicina em fins do curso, pálida como se fosse modelada em cera branca com tonalidades amarelas, os olhos encovados, o peito deprimido, triste porque sentia a morte próxima, e ao mesmo tempo satisfeita porque me tinha ao pé de si.
  - Diga-me que não morro, que eu acredito...
  Pobre Maria Jacinta!
  No campo, pela Primavera, em plena Natureza encontram-se florinhas, cetinosas ou aveludadas, admiráveis pelo desenho, cativantes pela cor, de uma beleza tão rara que a gente pasma de as ver ali entre plantas grosseiras, ao lado de outras flores ordinárias, que mais fazem realçar pelo contraste o seu porte aristocrático. Dir-se-ia, não as vendo ao pé da esteva resinosa, da papoila branca, junto dos cardos espinhosos, armados para a resistência a toda a espécie de agressão, dir-se-ia, naturalmente, serem tais florinhas o produto de uma selecção inteligente, continuada ao longo de tempos infinitos, mimosas e delicadas flores que mãos finas de princesa fossem tratando e educando segundo os melhores preceitos dessa arte essencialmente fidalga, como lhe chamou o Fialho, que é a floricultura.
  Pois aparecem também semelhantemente, na familia plebeia dos camponeses, criaturinhas de graça perturbante, como se dentro da frágil beleza de uma tanagra habitasse o espirito sonhador de uma castelã, tão nobres de sentimentos, tão fidalgas de maneiras, que a gente fica a pensar, olhando-as com enternecida curiosidade, se não coincide a repetição de certas formas com a transmigração de certas almas.
*
  A vida do maioral de porcos é relativamente descansada, pelo menos durante uma boa parte do ano, de modo que ao compadre Rabino sobejava-lhe o tempo para me aturar, dias inteiros por lá com ele, sobretudo na época das túberas, que os porcos são uns artistas para as encontrarem e dão o cavaquinho por elas, como excelentes
gourmets. Não me recordo de ter ouvido ao compadre Rabino uma palavra obscena, e ia jurar sobre umas Horas que jamais ele contou uma história picaresca. Era um homem austero nos seus costumes e de uma grande compostura na sua linguagem. É regra invariável dos homens que guardam animais, sejam eles quais forem - ovelhas, cabras, bois ou porcos -, envolverem nas suas pragas, que são exclamações de cólera passageira, os patrões, donos do gado, e não se dispensam inteiramente de o fazer, mesmo na presença deles. Às vezes, iamos de carro para qualquer parte, eu e meu pai, e o almocreve, farto de brigar com uma das mulas, que não queria puxar certo, desatava a bater-lhe furiosamente com o chicote, e cada chicotada tinha o reforço de uma injúria grave -
Ah!, mula de um filho da… como se a minha avó fosse a mãe dele.
  Tinha a religiosidade dos homens da sua condição, o compadre Rabino, mas não era fanático nem supersticioso; acreditava nos santos, e não tinha medo das bruxas.
  Do que ele tinha medo, um medo apavorante, era das trovoadas, a tal ponto que em ouvindo um trovão já não sabia onde havia de meter-se... Andava com o gado longe do monte, e o céu entrava a toldar-se, grandes nuvens correndo ao encontro umas das outras, formando esponjas do tamanho de montanhas. Dai a pouco chovia torrencialmente, e o compadre Rabino, enrolado na sua manta de riscas pretas e brancas, procurava um abrigo, se o havia ali perto, uma árvore ou uma barreira, e aguentava, ao pé da sua obrigação, o dilúvio que sobre ele caia. Mas ouvia-se um trovão, ainda surdo, muito distante, o compadre Rabino tratava de enrolar o gado -
ó rapaz, acareia para cá aqueles porcos - e punha-se a caminho do monte. Se a trovoada o surpreendia, e no mês de Maio as trovoadas no Alentejo armam-se de um momento para o outro, o compadre Rabino largava o gado, carregava-se de trovisco, se por ali o havia, e pernas para que vos quero, até se apanhar debaixo de telha - como se o perigo, abrangendo muitos, fosse menor para cada um. Chegava, esbaforido, a manta pela cabeça, o chapéu debaixo do braço, e o seu primeiro cuidado era entregar o trovisco a uma criada, que tratava de o espalhar por todas as casas, ramo aqui, ramo além, não esquecendo nunca um raminho a tapar o buraco da fechadura na porta da rua. Já minha mãe, também medrosa dos trovões, tinha feito reunir a familia num quarto onde não houvesse cobre ou estanho, porque estes metais atraem o raio, de modo que a sua presença, quando troveja, é perigosa para as pessoas. É como se estivesse a ouvi- -lo, o pequeno coro de vozes súplices, erguendo-se numa toada plangente, e os trovões ribombando numa orquestração diabólica, terrificante - como se o Deus biblico desencadeasse as suas cóleras por sobre as nossas cabeças.
  - Porque é que o trovisco livra a gente de perigos, ó compadre João?
  - Não lhe sei dizer, Sr. Compadre, mas sempre ouvi contar que Nossa Senhora, indo para o deserto na companhia de seu esposo e do seu bendito filho, uma trovoada apanhou-a num descampado, e ela então acolheu-se ao pé de uma trovisqueira, rezando as suas orações. Vai então Nosso Senhor abençoou o trovisco em honra da Virgem Santa.
  Também eu rezava
a magnificat e
cantava o
bendito-louvado; mas não tinha
medo dos trovões e gostava de ver os relâmpagos,
como faiscas, riscando a atmosfera espessa, e seguia
com a maior curiosidade, como se quisesse penetrar
um mistério, toda a evolução do estrondo atmosférico,
desde o estampido inicial, como um estalo de madeira
seca, até ao sussurro longinquo, quase apagado,
como o de um vagalhão que morre na areia.
*
  As porcas afilhadas era o compadre Rabino quem tratava delas - delas e dos filhos. A cortelhada, graças aos seus cuidados, parecia uma creche em que as crianças fossem bacorinhos.
  Andava tudo num brinco, o corredor, ao centro, varrido duas vezes ao dia, e as camas de junco, nos cortelhos, renovadas amiúde para que não estivessem sujas.
  - O porco é o animal mais asseado que há, Sr. Compadre.
  Porventura o burro será o mais estúpido animal de quantos existem?
  É preciso conhecer muito pouco o homem para sustentar uma opinião semelhante. Certo é que de um indivíduo muito estúpido se diz que é muito burro; mas não é menos certo dizer-se que tem talento como um burro um indivíduo que é muito inteligente.
  Os porcos não bebem a água suja do maceirão, e quando dormem no pocilgo, não urinam na cama, se a hora certa, pela noite adiante, o maioral tem o cuidado de os fazer sair - procedendo como as mães solícitas com os filhos pequeninos.
  Porcas havia - grandíssimas porcas - que não faziam caso das crias, e então o compadre Rabino moía a paciência a demovê-las dos seus ruins propósitos, fazendo-lhes todas as gatimanhas que podem enternecer... um suíno. Dava-lhes palmadinhas na testa e no lombo, fazia-lhes cócegas muito levemente na barriga, e com muita arteirice ia pondo os bacorinhos a mamar, mais conhecedor da psicologia das fêmeas, sejam porcas, sejam mulheres, que muitos psicólogos de carreira. O leite é uma secreção que precisa de ser exaurida para que as fêmeas que o produzem tenham saúde.
  Com muita arte, o compadre Rabino fazia adoptar por uma porca os filhos de uma outra, e as porcas, honra lhes seja, prestavam-se complacentemente a esta manobra, dando assim aos humanos um grande exemplo de abnegação.
  Às vezes, o compadre Rabino aparecia de semblante carregado, o ar triste de um homem que passou por uma grande contrariedade ou sofreu um grande desgosto.
  - Há alguma novidade, compadre João?
  - Novidade!... Esta noite pariu aquela marrã que ficou mal capada e comeu os bacorinhos. A minha vontade foi dar cabo dela! Eram cinco bacorinhos tão perfeitos! Não torna a fazer outra, isso lhe juro eu. Por minha vontade, já ela cá não estava há muito tempo... Parecia que me adivinhava o coração!...
  As porcas não são as únicas fêmeas que comem os filhos num acesso de loucura puerperal; mas entre elas o facto dá-se com relativa frequência. Os que ignoram a sua razão científica atribuem-no a uma perversão de instintos, a uma ferocidade canibalesca, que é a negação do que há de fundamental na psicologia das mães. Nunca pude compreender a razão por que o Cristo, fazendo sair os diabos do corpo de certas pessoas, os autorizou a meterem-se no corpo de uns suínos que andavam ali perto foçando e logo desataram a correr para o mar, afogando-se em tropel. Eles não eram escribas nem fariseus - filósofos de tromba rectilínea, alheios a toda a especulação religiosa.
  O compadre Rabino!
  Como não havia de querer-lhe muito se ele, incapaz de mentir em seu proveito, mentia para me livrar de uma sova, e Deus sabe de quantas me livrou a sua complacência na mentira! Pelas debulhas, à hora de maior calor, no giro do meio-dia, apanhando meu pai deitado e minha mãe entretida a repartir o jantar da ganharia, eu abalava com outros moços e íamos nadar num dos pegos do barranco, a que se chamava o Burdo. Mesmo suando, atirávamo-nos à água, e ali andávamos, os que sabiam nadar, serigaitando dentro do pego na desenvoltura de golfinhos. Durava a folia uma meia hora, porque eu precisava de chegar ao monte com o compadre Rabino, que me serviria de testemunha abonatória, caso minha mãe tivesse dado pela minha escapulida.
  - Tu foste nadar?...
  - Nadar, Sr.a Comadre, não foi. Esteve
com a gente à sombra, debaixo de uma oliveira.
*
  Pouco dado a especulações metafisicas, o compadre Rabino nunca inquirira das razões por que Deus criara os animais daninhos e toda a bicharada inútil. Mas não se conformava com a criação dos ciganos, gente incapaz de trabalhar, vivendo só do roubo e da burla.
  - Com ciganos nem para o céu.
  Ora sucedeu que uma vez, pela Feira de Garvão, em princípios de Maio, um bando de ciganos chegou ao monte, já quase noite, e pediu agasalho.
  - Fiquem para aí.
  Apeteceu ao compadre Rabino, depois da ceia, visitar o arraial dos ciganos, e travou-se de conversa com um deles, já velho, mais bem encarado que os outros.
  - Não vai à feira, maioral?
  - Não vou. Tenho aí uma burrita para vender, mas fica para a Feira de Santo António.
  - Eu compro-lhe a burra.
  No dia seguinte, logo pela manhã, lá estava o cigano ao pé dos porcos, decidido a comprar a burra.
  A primeira ideia do compadre Rabino foi não vender a burra ao cigano, nem que ele lhe desse por ela um conto de réis. Mas entrou a conversar, a discutir, e daí a pouco estavam encalhados no preço, o cigano a dizer que não podia dar mais de seis mil e quinhentos, e o compadre Rabino jurando que lha não dava por menos de duas libras -
tão certo como estar-nos Deus ouvindo!
  A burra não era grande coisa, já velha, parida umas poucas de vezes, mas não tinha as mazelas que o cigano lhe atribuía. Pois se ele até fez com que o compadre Rabino lhe visse uma névoa no olho esquerdo!
  O caso é que a burra foi vendida pelos 6$500, e ainda a corja não tinha saído da herdade, já o compadre Rabino clamava que o cigano o tinha roubado porque a burra valia muito mais.
  Passados uns quinze dias, os mesmos ciganos apareceram, bivacaram no mesmo lugar, mandando dizer ao monte que ali estavam, para efeitos da ceia.
  O compadre Rabino não se conteve que não fosse de visita ao arraial dos ciganos, disfarçadamente, como quem não quer a coisa, a ver se eles ainda se não tinham desfeito da burra.
  - Vossemecê arranjou-me bem, maioral. A burra tinha alifafes nas duas mãos, e em andando meia légua entrava numa ofegância que parecia querer deitar os bofes pela boca.
  - Então vendeu-a?
  - Qual vendi! Entreguei-a pelo primeiro dinheiro que me ofereceram por ela, sempre a ver quando caía para nunca mais se levantar. Olhe que sempre foi uma partida!...
  - Pois se você ainda a tivesse, desfazia-se o negócio, e eu dava-lhe pela burra o mesmo por que lha vendi.
  Conversa para aqui, conversa para além, uma cigarrada, acabando o cigano por lhe perguntar se já estava governado com respeito a jumenta.
  - Não estou. Já agora espero a Feira de Santo António.
  - Pois eu trago aí um animalzinho que lhe deve servir.
  Sem esperar resposta, foi buscar a burra, bateu-lhe duas palmadas na anca e disse ao compadre Rabino que a montasse e visse o belo cómodo que dava.
  Embora resolvido a não fazer negócio, o compadre Rabino pôs-se a mirar a burra, abriu-lhe a boca, examinou-lhe os dentes, curvou-se para lhe examinar os cascos, deu-lhe palmadinhas na barriga.
  - O raio da burra - murmurou por entredentes - , é a outra por uma pena.
  Saltou o cigano para as ancas da burra e, excitando-a com uma dupla chicotada nas ilhargas, obrigou-a a correr na extensão de alguns metros, voltando na mesma corremaça ao ponto de partida.
  - Isto vale quanto pesa, maioral. E então mansinha como uma borrega.
  Fechou-se o negócio - doze mil réis.
  No outro dia, quando o compadre João Rabino apareceu no monte, todo ancho, montado na sua jumenta, os outros criados gritaram, em coro, mal o viram:
  - Olha a burra do tio João Rabino! Como é que ela lhe veio parar de novo às mãos, ó tio João?
  O compadre Rabino sorriu-se, desdenhoso, e disse-lhes, como para dispensar outros argumentos:
  - Vocês até se esqueceram de que a minha burra era bragada na barriga. Acudiu logo o Manuel André, que por ter sido almocreve toda a vida conhecia bem as traças dos ciganos:
  - Lá isso, tio João, não quer dizer nada. Ora espere aí que eu já lhe conto um conto...
  Daí a pouco, estava o Sr. Manuel André, armado de uma luva e ferro de limpar as mulas, a esfregar a barriga da burra como se fosse um sobrado. A água e o sabão fizeram o milagre, pondo a descoberto, na barriga
desta burra, a mancha branca que tinha a outra no mesmo lugar! Um bocado de cortiça queimada, humedecida com azeite, fizera desaparecer a mancha branca, que era, para o compadre Rabino, a característica inconfundível da sua burra - inconfundível e inapagável.
  Os ciganos!
  Rebeldes a toda a disciplina, incapazes de qualquer trabalho honesto e aturado que lhes garanta os meios de subsistência, os ciganos vivem do roubo, e nada mais; é, bem consideradas as coisas, o comércio que eles fazem com bestas. Nas mãos de tal gente não há cavalgadura molengona, e apresentado por um cigano numa feira, qualquer vil pileco tem ares de um cavalo de cem moedas. Comprar, vender e trocar bestas é o único ofício que exercem, o único comércio que praticam, e cada uma destas operações nada mais é do que uma modalidade do roubo, o roubo quase sempre astucioso, algumas vezes, não podendo ser de outra maneira, violento.
  - Dá-me licença que monte o cavalo? Aqui tem o sinal, para o caso do negócio me convir.
  Escarranchado na sela, o cigano mete o cavalo num trote discreto, e quando se apanha fora da corredoira, por aqui me sirvo, numa correria doida, como se fosse tirar o pai da forca. Grande banzé, um levantamento geral contra os ciganos, que são obrigados a abandonar a feira, mas que na confusão sempre larapiam qualquer coisa, retirando alguns com a cabeça rachada.
  É má gente, dizia meu pai. Mas corredoira em que não haja ciganos, não presta.
  Estou a vê-los no arraial que eles faziam ao pé do monte, por ocasião das feiras no distrito de Beja para baixo! Era um acampamento de gente imunda, esfarrapada, dormindo ao relento, sobre enxergas, numa promiscuidade bestial. São muito prolíficos os ciganos, e isso explica porque a raça subsiste, a despeito de todos os baldões da sorte. Casam segundo o seu rito, e diz-se que as mulheres, por via da regra, são de uma grande fidelidade conjugal. Envelhecem muito cedo, as ciganas, principalmente quando têm filhos, e como velhas são de uma fealdade execrável.
  As raparigas têm uma singular predilecção pelas cores vistosas, berrantes, e eu gostava muito de as ver, carregadas de saias, quer fizesse frio, quer fizesse calor, saias de barra vermelha, cobrindo-as um vestido de folhos, em jeitos de balão policrómico. O seu penteado - uma garridice - era bizantino, de risco ao meio, e fazia-me desagradável impressão, quase de nojo, o lustro do cabelo, quase a escorrer banha de porco.
  Os rapazes, altos e magros, olhos negros, a face macilenta, os dentes muito brancos, os lábios descorados, uma barbinha rala salpicando-lhes a cara, encantavam-me pela sua agilidade, sobretudo quando jogavam o pau, dando saltos prodigiosos.
  Em se dizendo "Aí vêm os ciganos!", minha mãe dava logo ordem para se meter em casa tudo aquilo, fosse o que fosse, a que eles poderiam deitar a mão, e mais cedo que de costume, antes do sol-posto, recolhia a criação - as galinhas e os perus, indo o moço da água passar vistoria às serras de palha e ao monturo da lenha, delgada e grossa, em demanda de algum ovo que por lá houvesse.
  Pediam tudo, os ciganos, e não havia recusa que os desanimasse. "Uma gotinha de azeite, Sr.a Lavradora! Um bocadinho de toucinho, por alma de quem lá tem no outro mundo! Umas ceroulas que o Sr. Lavrador já não queira! Uma camisinha para o meu menino, que não tem que vestir! Uma chávena de mel para um xarope! Uns sapatos que a Sr.a Lavradora já não use! Uma gorpelha de palha para os nossos burrinhos! Uma esmolinha em dinheiro para ajuda de uma missa à Senhora da Cola!"
  Os ciganos!
  Singular raça a desses boémios, incapazes
de se fixarem em qualquer parte, e na sua eterna
peregrinação, hoje aqui, amanhã além, praticando
o roubo como um modo de vida, talvez honestos adentro
de uma moral que as gentes civilizadas ignoram!
*
  Velho de mais de 80 anos, mas ainda rijo, andando sem arrastar os pés, o compadre Rabino, sabendo que eu estava em Aljustrel, foi visitar-me.
  - Acho o Sr. Compadre estragado.
  - São os anos, compadre João.
  - Os anos! Parece-me que ainda me doem os braços de o trazer ao colo.
  Morreu em terça-feira de Entrudo e deve ter ido direitinho ao céu, alojando-se na mansão destinada aos bons - se é que não se pratica lá uma injustiça igual à da Terra.