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Maria Velho da Costa

 
O AMANTE DO CRATO
 
 
 
 
Não estou nada certa que isto tenha acontecido, excepção feita à pequena válvula tricúspide a abrir e a fechar, a defender o que era seu, o pascigo de presas rabiadoras, o buraco de frescor debaixo da pedra morna.
São olhos brancos que me vêem, azul aguado. Não conta o seu conto? Prossiga. Não oiça, prossiga. Veja.
Por que hei-de eu contar uma história a um morto?
Morta és tu.
Por acaso ia sendo. Essa é que foi essa.
Não lhe parece estranho que certas memórias de infância estejam assim coalhadas em luz, encapsuladas como aquelas esferas de vidro que ao virar-se cintilam de neve ou de partículas doiradas sobre uma paisagem em miniatura? Podia ser o Escorial, a Torre de Londres, os Montes Apalaches. Um par que dança de pernas para o ar na concha da mão cheia de vidro grosso, dentro do qual paira depois, em descida mansa, uma poalha de estrelas cadentes. Pode ser o Taj Mahal, feito para alumbrar porque navega nos ares à hora da bruma arfante do calor. Isso eu vi. Ou talvez estivesse marejada de choro. Jazigo raro, onde quem sabe só restam que résteas de ossos.
Está-se lá dentro, nas esferas vivas, sem saber para onde se ia, nem de onde se vinha. Para sempre, o que não é exagero nenhum, enquanto a memória veja. Mas suponho que são estas bagas translúcidas que atravessam de sorrisos o cochilar dos velhos e dos meninos que hão-de voltar a ser. Se voltarem. Ele há tanto sítio e lugar e ser de que se está tão certo e seguro em sonhos, que é bem possível que para lá se vá ou de lá se venha. A alma é imortal mas não nos é dado saber aonde se demora.
Pois direi eu que na casa de minha avó Assunta, no Crato, se deu um caso desses cintilantes a que só posso apor o antes e o depois com algum dobar de conjecturas foscas no tempo, que nem lhe tiram, nem lhe acrescentam.
Também é por gentileza que se esquece. Que a vítima se adia. Eu era uma criança gentil. Não partia nada, não mexia em nada. A minha gentileza sempre foi a prevenção dos gritos, dos vergões nas pernas quando regurgitava a sopa. Era habilidade de macaco antes ou depois de saber morder. Como aquele que estava preso pela cinta em Moçambique e a quem tinham tirado os dentes todos com um alicate e não tinha morrido.
Não há ideia que me comova mais que a de voltar a casa e não sei onde fica. Tratam-me bem, isso tratam. Tenho papel e uma caneta sem bico e encorajam-me muito. Não há ideia que te comova, tu não tens ideias, dizias tu quando estavas vivo e não podias parar de respeitar o teu pensamento. Não me interrompas, dizias tu, estou a reflectir. Tal e qual como ela que me mandava lá para dentro para se rir com aqueles dentes todos da minha aflição de estar suja. Eu reflectia se as ervilhas estufadas com ovos escalfados podiam levar bacon porque me tinha esquecido do toucinho, e se seria o mesmo e partia daí para a condição dos porcos. Que é um animal que nunca me deixaram ter, nem sei se pode ser tido com normalidade, porque é supérfluo estimar, de estimação, um animal de abate. Supérfluo, dizias tu. Anormal, dizia ela, tarada, esta criança é tarada. É assim misturado e informe, o que os meus piores seres me vão dizendo. Cala-te. Agora não sais daí até eu abrir. Abrir quem, abrir o quê? Depois abriram-me e foi bem feito. Tenho a certeza que vi as minhas entranhas nas mãos antes de aprender a morder. E a ler a da princesa que não suportava uma ervilha no colchão. Sinal de sangue frio, azul.
Agora lembro-me. Não me escutavam porque eu era impaciente com o prosseguimento das ideias e então não escutava o que devia fazer: comer, conter-me, escutar naquele momento. Resistia e só acordava para o castigo. Ou seria o contrário. A avó Assunta deixava-me pegar nos leitões de leite, castanhos, e eles encostavam o focinho molhado à cova do meu pescoço. Tinham dois buracos no nariz e uns olhos pequenos e muito amoráveis. Tudo isto são pontos, não são as esferas translúcidas que eu quero escrever.
No Crato era, mas no desvio, que quintal de milho e couves altas a perder de vista, tempo das rosas da alface verde que espantavam do chão, e o cheiro agri-doce da capoeira com os ovos na palha, das coelheiras com as luras de barro onde eu metia a mão sem risco. Que estrada, que arrabalde do Crato? Não sei, nem sei saber.
A casa era muito escura e fresca no andar térreo. Ou escurece-me porque eu só a frequentava no Verão e tão raras vezes e então semicerravam as gelosias e batentes, à maneira do Sul. Cobres brilhavam na sombra, tripeças, esmaltes. Por que não oiço um som?
Eu estava separada do céu e da terra pelas botas de atacador e pela boina de feltro que era obrigada a usar todo o ano, embora não lhe pudesse tocar por minha mão. Havia sempre uma bacia para eu lavar as mãos de tudo, mesmo engelhadas do frio dos córregos, dos baldes de lavadura; tudo imensidões proibidas, puníveis com o assento num banco de buraco, imóvel, ao canto da cozinha. Horas a não ser, até minha avó Assunta me tirar dali, que estava em sua casa. E não eram as fazendas do Grandella e açúcar mascavado racionado que lhe iam comprar os modos da casa. Criança que não mexe fermenta doença. Minha mãe entrombava e falava do marido que a todos valia. Chorava. Eu gostava de ver avó Assunta rir sem ruído e pôr-lhe um prato de pés de coentrada diante. Ela comia e esquecia-se de mim.
Em feltro e nas cascas dos pêssegos nem eu queria tocar. Ficava convulsa, a dar de ombros e pés. Havia gritos. Não me lembro de ver. Eu era uma criança enfermiça.
Tu bem sabias que eu fora uma criança enfermiça. E às vezes fazia-te pena a minha fadiga com coisas simples como vestir-me, que vestir, pentear-me, comer até ao fim pela minha mão. E rias-te. Como ela, quando eu não podia levantar a criança, o gato pelo rabo. Que mulher doente é mulher para sempre. Que eu não tinha temperamento nem para birras, só ataques.
O ódio onde eu vivia era fervente, mas não se me dava a conhecer. Então queimava-os na vossa vergonha de mim. Tanta maldade que eu chamei. Mas foram vocês que foram primeiro e eu vim para este lugar. Digo sempre aturadamente este lugar e abano a cabeça, o que ninguém gosta. Deixo de poder apontar o que faz corpo no papel. Evito, porque depois transtorna-se-me a letra e é aí que acham que está o meu remédio verdadeiro, neste lugar, no corpo das letras.
Coitadinha da menina, que é que estás a desancar? Houve um ano de que um ano para o outro a avó Assunta me deixou uma criação de bichos de seda dentro de uma caixa de sapatos. Os ovos eram como cabeças de alfinete sem brilho, de um lindo cinzento, e eles depois cabeceavam, cabeceavam, rilhando as folhas de amoreira sempre com o mesmo tino simétrico. Faziam uma meia lua perfeita, sempre de cima para baixo. Uma meia lua que ia deixando de estar lá.
Como é que eles sabem, Tino? perguntei ao meu primo que era quem estava encarregue de trazer as folhas de amoreira. Peguei num que já se babava e foi atirado para o lume porque eu era porca. Mãos sujas.
É uma fadiga tão grande, estas cápsulas. Põem-me inerme. Inerme. Sempre tive amor, mesmo, às palavras raras.
Um travo a pevides salgadas no forno ou bolos de areia, camarões frescos, conforme. Comidas de alegria, não de força. Festins.
Nesse tempo já juntaria letras? Quem guiava a mão, o dedo encardido, a unha rente aos dentes? Isso podia, e lê-las, tudo para estar quieta.
É sempre a mesma coisa.
Essa criança que não fala. Chora ou tagarela demais, a despropósito.
Eu era já semi-viva, a filha desses seres, mas não dá pena. A mim não dá. Vão chorar em cima de mim. Chorar fora. Uma boa maldade.
Deixa a menina. Tu é que a fazes nervosa. Vem cá, Anica. E eu apanhava mais por conta da humilhação dela diante da mãe. De limpar os pingos, as poças do mijo, o sangue do nariz, o leite azedo no chão.
Deixa-a como, se eu devia ser o seu lustro? O rabo da raposa que ela levava às costas como um cordeiro exausto para escárnio das seis irmãs, mesmo da demente e da morta. Não estou a falar do que vejo, mas do que oiço. A destituição dela, a visível, era eu.
Há dez meses que trago este caderno para a convivência. Também o uso quando as imagens ou as visitas me fazem tanto medo. Pergunto por ti, quando quero afugentá-las. Ou afugentar as perguntas. Não é difícil, nunca foi difícil afugentar com a anomalia dos gestos, de alguns ditos.
Disse que estavas muito lindo dentro do caixão e todos tomaram à conta de pioras do que havia de vir. Tomaram por desvario do desgosto o que era medo e alegria da leveza. Mas os mortos flutuam de uns para os outros. Os maus mortos. E era bem verdade que eu não podia amanhecer sem o joelho da filha de Assunta sobre a arcada do meu peito. A escarnecer de eu não a ter honrado. De eu lhe querer mal por me roubar a alegria do movimento dos dias. A filha ignóbil que ela fez valer. Escuto:
E que mais fazes, Anica?
Escuto as gotas da chuva, minha avó, e tenho medo da mudança do tempo, de tudo o que muda. Medo da maldade dela com a carne, a cria.
Deixa. Não era a mais malvada das sete que eu criei. Era tão esperta e bronca que mordia os dentes com a própria língua. Não vais ficar assim. Sem alma e com as pernas secas. Não a chores do escuro, olha o quintal, a bola de oiro dos lugares vibrantes. Deixa. Deixa a menina. Ser mexida. Minha avó Assunta era muito suportativa. Tinha um jeito de franzir o nariz quando queria ouvir ou entender melhor que era tal e qual o meu a arreganhar-me ao sol forte e aos números. Tua mãe já nasceu com zelos e debaixo da cama os tinha. Até dos ditos da tolinha e do atavio que a madrinha deu à defunta. Era briosa na escola, chegava lá a pé à bela aurora. Mas não era amor ao conhecer. Era cobiça de mandar. Ela mói para ser boa e só chora de raiva. Tu não me escutas, Anica?
A casa de todo o ano era muito longe. Quando tinha fome comia-me a mim mesma. Unhas, pelinhas das mãos e dos pés. Chagava-me. Tinha luvas de lã pela noite dentro até meu pai saber e gritar mais. Mas disso não oiço nem falo. É a porta do outro lado e não está certa.
Minha avó Assunta tirava a tira de tripa e as partes gordas da rodela de chouriço para eu não vomitar, não mijar quieta, não chorar mais. Não ter diarreia. Uma criança é um saco de fluxos. Um manancial. Algumas são. Como animais sem cólera, de abate, só medo e olhos de água. Balem, chiam, borram-se. Mas não mordem, não rosnam. Não lhes ocorre vencer. Não são predadores.
Vai Anica, vai lá fora com o teu primo reinar. O teu mal é seres bem mandada.
E por que é que a senhora avó tem o coelho preso debaixo do poial da pia?
Estás como tua mãe. Dá-se-te confiança e ficas metediça como um furão dentudo. Não sabes que os dentes deles vão sempre avante da cabeça? Hás-de ir para professora, que é para o que ela nasceu, a massacrar tudo e todos. Vai reinar à beira da mina de água com teu primo. Tua mãe foi à missa de chapéu para se fazer fidalga e nem sabe o que a chufam. Vai Anica, fidalgo é quem mata para comer e sai mudo e entra calado.
Era assim? Tão diferente da outra senhora, a avó dona, que essa sim, vivia para ser servida na miséria. A que me estendia as costas da mão a beijar sem me dar palavra que eu oiça. Lá eu tinha outro nome, tenho. A neta da senhora. Anica nunca mais fui.
As duas velhas em sombras. A do frescor do alpendre de vinha de enforcado e a do dia em sempre noite das más memórias, do perdido. Um mesmo ensejo, me parece. Que eu não fale deste lugar, que eu reine. Sobre a intrusa que cevou nas minhas estações, no sem tempo sem viagem às avós. Invejo aqueles enlevados com a própria infância. Para mim não era a minha que decorria mas a de uma outra criança, pálida, pasmada e trémula de tanta ira e segredo.
Vai ao quintal, vai para lá da horta, Anica, até aos sobreiros. Tino, leva a menina pela mão e não corram, a ver se não esfola os joelhos.
A boina, senhora avó? Deixa a boina e leva o chapéu de palha contigo, o de trazeres ovos na copa.
Bate-me na cara o rasgão do dia enrubescido. As canas cruzadas do feijão alto coalham a luz em verdes. Filtram em rosa a bela aurora da manhã já levantada. Meu primo é um vulto do lado esquerdo, só sombra e o coração nas mãos, que me puxam, um pouco na minha dianteira, entre os trilhos cerrados das hastes e corolas do ar morno. Não sei se o voltei a ver, nem se o reconheceria.
Está ali tão inteiro, compenetrado a segurar-me da mão. A água corre de uma boca de mina, negra e límpida. Límpida onde faz fio, negra a toalha do tanque dos fundos de musgo. Pernilongos patinam na água lisa, andorinhas rasam-na sem tombar. Os pardais gorgolejam da outra margem e as borboletas corropiam onde os limoeiros estão em folha, fruto e flor. Ao lado do muro do tanque onde nos assentámos para vaguear as mãos, em cima de um cômoro, está uma pedra lisa, malhada de líquen, granitosa. Dá para levantar com a minha mão, com as duas. Vejo-me. O rapazinho é um pouco maior que eu. Por que não mexe, não impede, se lhe estou confiada? Não dou tempo, é um impulso de malícia. Debaixo da pedra um súbito desatino de vidas a buscar refúgio da luz. Centopeias, larvas, anelídeos em rosca preta, bichos de conta fecham-se em si, minhocas. Não largo a pedra, não a deixo cair nas botas. Vejo. Oiço como um sussurro sem som a vida exposta. Do lado direito da concavidade descoberta da pedra surde súbita uma cabeça triangular escamada e escura, muito veloz. Não recua, lança-se para a minha mão direita que ainda segura o rebordo seco e húmido do seixo que levantei. A mão de meu primo interpõe-se e a criatura está ali inteira, fixa, um apêndice medonho que desaparece num ápice, sem rumor. Duas perfurações na mão de Tino escorrem sangue. Dentro desta redoma quieta rebrilha um canivete de cabo. Um lanho na mão e cuspo de sangue que se imbebe no chão. Meu primo é muito branco, só tem olhos quase pretos e senta-se no tojo a garrotar o pulso com a mão que me dera e a sugar-se e cuspir. Não grita, não chora. Ainda estou ali à sua beira a limpá-lo da lama com o bibe.
Não digas nada, Anica, diz que foi nas silvas a buscar-te um melro. Diz que foi culpa minha.
 
     
 

In Ficções nº. 2

 
     
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