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Armando Silva Carvalho

 
NOME DE FLOR
 
 
 
 

O homem fixara o olhar nos lavabos do café. E conseguia ver.
Na entrada da porta masculina, nítida, e a preto e branco, uma cabeça coberta de chapéu à d’Artagnan, com bigode e pêra. Não vivera ele em tempo algum, o século desses homens de farta cabeleira, chapeirão de foles e pluma alçada, bigode descaído sobre o pelame em bico que descia do queixo. Mas o homem sabia: D’Artagnan, o grande sedutor.
Na porta ao lado, o recato das damas era sinalizado num perfil de caracóis enfunados, os lábios gordos e de perversas formas, feitos para ciciar à beira da carne e da cama. Exemplar de cabeça que deixa marca no lençol, carne em ombros de cobre claro e deixa marca nos dedos de quem os apalpa: Antonietas.
Ele olhava as portas dos lavabos e remexia, sem baixar a vista, os dois pacotes de açúcar na chaveninha branca com o preto do café a transbordar para o pires. Um bica bem cheia, foi sempre o seu pedido.
Seriam, e ele que tão pouco tempo demorou na vida a contar o tempo, umas duas e pouco de uma tarde de outono.
Três domésticas, eram o seu pano de fundo.
Crocheteavam numa dobadoira da língua, e olhavam-no num tiro incerto de mistério que lhe chegava ao peito como uma medalha póstuma.
Açúcar, muito açúcar. Dois refinados pacotes para os amargos de boca dos seus noventa anos.
O homem tinha a unha comprida, como a do Minotauro do Sena, mas não lucubrava com ela o seu destino naquele líquido. Não descolava um selo, não rasgava nunca um envelope. Unha assim, só para coceira; nunca para futurar coisa com coisa, pobreza com riqueza. Ou outras fantasias.
O homem solta por fim os olhos das portas dos lavabos, e vê-se de través no espelho na parede que parece falar-lhe de banda.
Tenho o consolo dos filhos, pensou, que a fala é cada vez mais parca e caseira, e está num lugar público.
Filhos criados, recriados, mordomos do seu estar. Um estar, podia-se dizer, que tem o seu acordo já assinado pela mão da morte, benza-a Deus, mas que lhe dá margem para contabilidades.
Porque, para ele, a memória são contas. Só que os filhos, agora, rasga-vam-lhe essas facturas. E vinham junto dele com um processo novo de somar sentimentos. E ele, no seu cadeirão de couro, da salão do aparta-mento da praia, via a sua vida escrita num papel timbrado e não reconhecia nele a sua letra.
Sempre foste um homem de mulheres, dizia-lhe a finada a qualquer hora do dia, em arrufos fungados de choro e de outras eras. E também às freguesas, que recebiam o seu desabafo à medida que o rol dos seus fiados ia subindo.
Mas ele nunca soube se esse regougo de velha pomba de asa bamba era um trunfo ou uma carta de azar em cima do balcão.
A defunta, uma doente do útero. E está tudo dito.
Não durma tanto, pai. Sonha de mais. Diz-lhe agora o filho.
Sou um homem de mulheres, meu rapaz. Ainda to direi, antes de me partir de vez para o quintal do padre. O prazo de validade para mim já acabou , e eu ando por aqui como um perigo para a saúde dos outros. Noventa anos é tempo de velho bíblico; e faz-me enganar nas contas. Não me dês mais mimos, meiguices de perdão e ralhos de patrão.
Um homem de mulheres.
Mulheres, mulheres sem fala, cabisbaixas, de lenço entrouxado na cabeça e meias de cordão por causa dos venenos que lhes rondavam as pernas. Vinham a mim, transidas, com a língua presa à navalha dos maridos. Mulheres da vindima ou da apanha da batata. Com os seus braços maciços, de boa madeira de trabalho, à volta do meu pescoço. Com os seus cus de banha branca a caírem-me no colo, debaixo do laranjal. Os cães, à vezes, eram os maiores inimigos. Tinham um ladrar de malícia e punham-se à nossa volta, mirones infantis, e chegavam a estender as patas para os lugares mais secretos. Eram animais de caça, e não sei que cheiro as mulheres deixavam no ar que os punham a salivar e de língua caída sobre os beiços de pêlo ralo. Eu fazia-lhes os sinais do costume, mas eles não obedeciam. E as boas das raparigas largavam a fugir, de saia à banda e blusa descosida por alguma investida canina, amuadas. E as cadelas eram sempre as piores. Que eu tinha um rancho de animais que metia respeito.
Andavam perto de uma légua, as belas criaturas, a encurtar caminho, para virem ter comigo a esse bonito laranjal que espanejava a verdura cúmplice por cima das alfaces e dos feijoeiros de cana engrinaldada. Era uma rica fazenda, essa Lagoa Chã de nome, esse pedaço de amanho que me dava prazer maior que um corpo fêmeo. Um brinco - que a água molhava de luz como a uma pedra de se trazer no dedo. E eu, puxando o cambão pelo seu bico grosso de palmípede, trazia-a cá para cima e deixava-a correr num esbanjo de vida líquida por cima do chão fechado e sedento.
Tremiam, tremiam tanto, as boas das raparigas.
As mamas delas fugiam-me das mãos, escondidas, envergonhadas, nos seus coletes de pano cru. Mas com as pernas, bastava-me uma arremesso de mão, e elas abriam-se, como um caminho de cabras em grotas de urze donde vinha o leitoso e sensual odor dos eucaliptos.
Gostavam do loiro do meu cabelo e do azul dos meus olhos. Eu era como os estrangeiros dos cinemas, galã no meio de gado macho escuro e sempre a escumar para o chão, bodes forçados à pequenez do cortelho.
Légua ou légua e meia até ao povo, que eu não atino já com tais lonjuras. Pinhais de areia e cascalho miúdo, ou algum canavial mal rebentado a demarcar extremas, cobriam-lhes a culpa quando se faziam ao caminho. Mas podia haver sempre um olhar maligno, uma má língua escondida por trás dessas janelas de cortinas de renda rala, nesses casais espalhados entre o campo e o povoado, cogumelos de veneno, capões de carne tenra, vaginas engelhadas pelo ciúme. Cios.
Aqui neste Café para onde me trazem para fingir que vivo, eu posso ouvir o mar para além das dunas. Mas é a voz do campo que se alteia nas minhas velhas contas. Eu não gosto do mar.
Dessa água sem fim, que parece que não corre mas mata. Como dessa vez em que ela me quis levar consigo, num dia de verão de São Martinho. Que o verão de São Martinho eram as férias da gente do campo, antiga-mente. As mulheres traziam a roupa de chita colada ao corpo e os homens, de ceroulas, escondiam as canelas ao entrarem no gelo das ondas. E eu vi-me obrigado a agarrar-me a uma rocha como à barriga de mulher prenha-da. Salvei-me. Mas fiquei-lhe ainda com mais ódio. A essa água do mar, salgada, sem princípio nem fim.
Porque à outra, à doce, eu sempre soube tirar a minha boina basca com respeito. Ao mais feliz olho de nascente eu rezava, à minha maneira, para que ele que brotasse com uma força traquina, a gorgolejar, e se tornasse depois água menina, a descer a brincar das pedras, para depois crescer, já mulher feita, até chegar aos brejos de repolho lombardo e às camas de feijoais anões e de batata raiz de cana, a mais saborosa.
Olha para estas mãos, meu filho, que posso eu ver nelas?
O espelho de água doce que fazia arrebitar o viçoso e dava um verde transparente aos pés de morangueiros, o maior luxo da minha Lagoa Chã.
Aqui, neste Café ao pé do mar, não me deixo dormir.
Contabilizo o passado, já disse.
De parcela em parcela, somo o que a vida me trouxe e me levou. São contas entre mim e ela, que eu sempre fui avesso a fazer recados ou que mos fizessem. Nada de gente de permeio. E muito menos a família. Perder ou ganhar tudo era desporto, mas era só eu o jogador. Na camioneta de ir a Lisboa todas as semanas, levava, além da carga para a praça, sempre que podia, uma boa peça de carne viva. Se era casada, tinha o homem no hospital com alguma cirrose ou um mal nas partes baixas. Se era noiva de interesse ou solteira prendada, ia à prima a Lisboa em busca de enxoval da moda nas grandes lojas da Baixa.
Eu sabia arremedar mentiras de transportador com bom comportamen-to. Era um homem seguro, de vida bem amanhada. E a defunta, a coitada, a própria me ensinava a mentir para não me perder na cama quando eu regressava, saciado.
Nesses tempos, ir a Lisboa era um luxo, era um luto, ou uma doença grave. Dizem que tudo se sabe nas aldeias. E que até os cães cheiram o mênstruo. Talvez isso assim fosse. E assim se visse.
Mas hoje e agora, o que eu vejo ao levantar os olhos para a televisão, pendurada do tecto como uma catatua, é uma fulana a apregoar os modos de cobrição, a mostrar a boa perfomança de um catraio de músculos desmaiados, ou a gritar que o sexo é uma droga benigna e bem acondi-cionada em camisas de vénus, com perfumes que ela faz correr pela assistência para lhes sentir o cheiro.
Caraças. Eu contabilizo à minha moda.
Sempre tive uma bonita letra de empregado da Câmara e um papel escrito pela minha mão era um contrato aceite sem regateio que eu deixava no avental dalguma mais esquiva.
- O pai disse alguma coisa? Ou sou eu que oiço o que não devo?
Digo tanto para mim, que para ti já nada chega.
Que eu não esqueço a cara do doutor, depois de me apalpar, de ver e rever as chapas. Quando acabou a consulta levou-me para um casinhoto para eu me abotoar mais à-vontade, disse, e fechou a porta. Mas eu estava de orelha alçada e abri devagar uma greta no cacifo. Fiz-me surdo e mudo, mas ele falava de um tio dele de Coimbra, um femeeiro com guita e quintas em Condeixa e a quem puseram o maldito açaimo. O doutor ria e dizia que o fidalgo do tio começou a murchar por todas as bandas do corpo e da alma e que não quis esperar pela morte naquele preparo. Obrigou-a ela a chegar quando lhe apeteceu a ele, e chamou-a com um tiro debaixo da queixada.
Querido filho. Eu não tenho à mão a caçadeira que ficou na outra casa à espera de óleo, como tu me disseste. E aqui não há perdizes, só as malditas das gaivotas. E eu não me vou atirar à rua de um primeiro andar numa casa na praia, com gente toda em cuecas e de peito ao léu a sorrir para o céu empanado à espera que o sol chegue. Seria mariquice: duas costelas partidas ou mais uma manqueira a somar à outra.
- O pai já não quer ouvir a rádio?
Queria, filho, queria. Mas só se fosse essa cassete da cantadeira moira que o árabe te deu quando foste a Atenas por causa da política. Já não há gargantas assim, depois da Amália. São vozes de mulheres, não são bonecas de som. Ao ouvi-las, a gente vê. Vê a vida, o sangue todo da vida, as tripas todas do medo, os braços da nossa cruz.
- O pai não quer ir molhar os pés à praia?
Obrigado, filho. Vai tu, não percas este sol que acabou por meter medo ao nevoeiro que andava por aí a cobrir o céu da tarde. Vai trabalhar o teu bronze. Assim to lambam à noite, com a língua da cor das rosas. Que eu não tenho já bocas à mão para nada. Nem mão para bocas nenhumas. Nem mão, nem coisa nenhuma para as bocas do corpo.
Mas o homem fecha o olho direito, aquele que vê. O outro, sem retina e glauco, perdera a visão num acidente absurdo, de encontro a um semáforo. Mas o homem não dorme, deixa subir essa espécie de asma que lhe vem da alma e lhe faz companhia. E abre a boca. O café está às moscas, que não são nenhumas nesta altura do ano. Foram-se as alcoviteiras, levando consigo o mal dentro das alcofas. Só ficou lá em cima, numa palestra obscena, a catatua.
E a dona do café vem junto dele, nos seus pés de silêncio, coloca-lhe na boca um pastel de feijão, daqueles que ele gosta. E o homem sorri manso e a mulher ri devagar e alto. Deuses.
Ele há formas de amor que devem ser cantadas por fadistas menores ou por gente da escrita que tenha emoções fora de moda. Esdrúxulas.
Algália podia ser o nome desta prosa florida.


 
     
  In Ficções nº. 4  
     
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