Ao Senhor Conde de Arnoso
  Passava pouco do meio-dia, quando o
Manuel Maçores, que andara a lavrar toda a manhã,
seguia com os bois para um lameiro do amo, numa
encosta que ia dar ao rio.
   Entre choupos, lá baixo, o rio ia azul,
- daquele azul vivo do céu, que nem uma só nuvem,
ao alto, maculava. Atrás dos bois, arranjando
de seu vagar uma esparrela, o Maçores ia agora
muito absorvido, - pensando nessa tragédia da
véspera, a morte do velho cabreiro da casa, o
José Candana, assassinado misteriosamente na sua
cabana de colmo, bem perto dali, amanhecendo para
o dia anterior.
   - Tinha fígados de lobo - pensava o
Maçores - o ladrão que matara o velho! - E no
espírito do rapaz, habituado a coisas simples,
aquela visão do pobre pastor, estirado de borco
em cima da palha, com a cabeça branca quase desfeita,
hiperbolizara-se, horrorizando-o, como uma visão
de pesadelo...
   - Quem seria o malvado?! Quem seria?!
- pensava o rapaz. - Coitado do tio Candana!
   - Para lhe roubarem o pouco que possuía,
no bornal que aparecera vazio, aquela cobardia
de matarem um velho! - lastimava o rapaz. E sendo
como era amigo dele, como afinal a aldeia toda,
o assassino, quem quer que fora, roubara-os também
a eles na amizade do velho, nas histórias com
que só ele os sabia entreter, nos conselhos da
sua experiência: - e nunca mais, à missa dos domingos,
se tornaria a ouvir a sua voz trémula, tão conhecida
de todos, e tão querida, romper a "Santos" o hino
sagrado, que, propagando-se em coro geral, como
onda de luz, enchia de música a igreja toda!
   - Lembrava-se, lembrava-se... - Uma
vez que o velho estivera doente, a missa fora
sem ele uma tristeza; e até os próprios santos,
no altar, pareceram estranhar aquele silêncio:
- "Ele o José Candana estará doente?" - "Ele porque
não viria o José Candana?"
   - Lembrava-se, lembrava-se...
   E mais que tudo, certa conversa que
tivera com o velho, poucos dias antes, quando
o topara com a cabrada à borda do rio, de manta
ao ombro como sempre, o seu cajado, o seu bornal
e a sua marmita, parecendo um peregrino de barbas
brancas, e nos olhos azuis, muito doces, uma bondade
que parecia de santo - mais que tudo, sim, essa
conversa ocorria-lhe agora:
   - Pois é o que eu te digo, rapaz! -
admoestara-o o velho.
   - Foge de tentações! O melhor, se tem
de ser, é casares-te.
   - Isso tomara eu, tio José! - lembrava-se
ele de lhe ter respondido. - Mas vá lá eu falar-lhe
nisso, ao pai...
   - Manda-lhe falar, - tornara-lhe o
velho - se não queres tu ir. Então para que são
os amigos?
   - Ora! - tornara-lhe ele. - O pai é
rico e eu sou pobre!
   Respondera o pastor:
   - Qual rico! Rico é cada um da graça
de Deus, mas é! Deixa lá: anda-me tu com honra
e vergonha, que não há pai que te negue uma filha.
   - Ora!
   - Desora! É assim mesmo como eu te
digo!
   E agora, lembrava-se bem daquele risinho
do velho pastor, perguntando-lhe como em segredo:
   - E ele quem é a moça, ó Manuel?
   Tinha-lhe respondido:
   - Não digo, tio José! Perdoe vossemecê,
mas isso não digo...
   - Bem. Fazem bem - tornara-lhe o velho.
- Assim mesmo é que é. Há muita gente que bota
logo maldade, e as mulheres, coitadas, são como
um espelho: qualquer bafo parece que as suja...
   Ainda lhe confessara:
   - Isto já vem de pequeno, tio José,
esta tineta! Mas agora, há uma temporada, ando
mesmo com a cabeça perdida.
   - É da idade - explicara o pastor.
- E ela?
   - Inda pior, tio José!
   - Pior?! - admirava-se o velho com
muita graça.
   - Sim. Se vossemecê soubesse...
   Tinham sido essas as últimas palavras
que dera ao velho, porque nunca mais o havia encontrado;
- e já distante, lembrava-se de ter ouvido ainda
a sua voz carinhosa, dizendo-lhe:
   - Foge de tentações, Manuel! Livra-te
de tentações!
   - Bom remédio, esse de fugir de tentações!
- dizia agora o Manuel Maçores, seguindo atrás
dos bois caminho do lameiro. - A boas horas!
   Houve uma intercadência no pensar do
rapaz. Um mendigo estava deitado à borda da rodeira,
à sombra de um grande carvalho.
   - Está cansado, irmãozinho! Vossemecê
de onde é?
   - Longe. De além-Douro. É que sou aleijado
- explicou o mendigo - e ainda hoje não comi senão
uma côdea.
   - Pois olhe lá que lhe não aconteça
como ao José Candana, que o mataram amanhecendo
pra ontem.
   - Já ouvi. E ele quem seria?
   Não reparou o Maçores que o mendigo
se fizera lívido, e só respondeu:
   - Não sei. Quem sabe lá?! Mas quem
quer que foi só arrancando-lhe a alma, e depois
atirando-a aos cães!
   E andando o seu caminho, o rapaz ainda
disse consigo:
   - Que feio, este diabo! Má cara pra
santo, Deus me perdoe!
   …Sem o desconfiar nem sequer por sombras,
acabava de passar, o Maçores, pelo assassino do
José Candana...
   Mas a cismar na sua aventura, ao passo
dos bois muito vagaroso, não tardou a esquecer
o mendigo: - "Ora mas como fora aquilo com a Maria
Rosa, mas como fora?!"
   Não sabia, não atinava. E o ser filha
do seu amo a rapariga, filha única, de mais a
mais, guardada pelo pai como se fosse um tesouro,
parece que lhe fazia da aventura uma traição,
- e tinha remorsos... Demais, nunca chegaria a
casar com ela, decerto, ao menos em vida do pai,
porque ele mesmo, ríspido de mais para a rapariga,
estava-lhe sempre com o mesmo sermão:
   - "Tento na bola, ouves? E casamento,
isso há-de ser com quem eu mandar".
   Como fora então que ela se lhe entregara,
-a ele?! Tão de manso, pelo tempo longo, correra
entre os dois aquilo do namoro, - quase não se
conversando senão com os olhos, e falando só,
quando se falavam, em coisas do serviço da casa,
- que vê-la uma noite nos seus braços, agarrados
como no regresso de uma longa viagem, ainda agora
lhe parecia um sonho, e a ela também... - "Mas
como foi isto?!" - dissera-lhe então a rapariga.
   - Não sei, não sei! Foi Deus! - respondera-lhe
ele.
   Um descuido, depois, pusera no segredo
dos dois a velha Maria Teresa, que a amava a ela
como se fosse mãe, que a criara desde pequena,
- que era também para ele, órfão, quase uma segunda
mãe...
   Angústias que ela tinha passado, a
pobre mulher, ao vir a saber o pecado dos dois!
E por fim, agora, também a ela a enganavam, -
persuadida, por um conluio, de que esses amores
tinham acabado...
   - Ó Manuel! pela alminha da tua mãe?!...
- perguntara-lhe ela inda na véspera.
   - Sossegue, tia Maria, isso passou
- respondera-lhe ele.
   …Mas não passara, não, nem pelos modos
tinha de passar. E o último conselho do pobre
Jose Candana - "Foge de tentações, Manuel, livra-te
de tentações!" - atraía-o como um aviso prudente,
sim, mas não lograra emendar-lhe o porte...
   - Seja o que Deus quiser, acabou-se!
   Amando-o como doida, a Maria Rosa,
maiores perigos corria a rapariga, afinal! E ainda
na antevéspera, - nessa noite, precisamente, em
que fora morto o José Candana, e à mesma hora,
talvez, a que o pobre velho, na choça, erguia
para o assassino mãos suplicantes, - ela lhe repetira
aludindo ao pai:
   - "Deixá-lo! Se me matar, morro por
ti!"
*
   Horas antes, na manhã desse mesmo
dia, o João Ferrador tinha-se encontrado com o
pai de Rosa, e os dois, muito chegados, haviam
estado de conversa à borda de um caminho, - debaixo
de uma figueira.
   O João Ferrador fora o encarregado
pelo lavrador de espreitar quem lhe namorava a
filha, - seguro de que uma noite, chegando de
uma feira de madrugada, vira alguém saltar para
o quintal, da janela da rapariga...
   Não tornara a dormir sossegado, desde
então, o José Tomás; e ele mesmo, algumas noites,
fizera rondas até desoras, a espreitar, com a
clavina aperrada, algum vulto que por ali surdisse.
Mas como a vida dele era por fora, hoje numa feira,
amanhã noutra, deixara o ferrador na cola do "melro",
- ameaçando-o, se desse pio, de lhe fazer o que
faria ao outro...
   - Ouviste? - dissera-lhe ele. - Sabe-me
tu quem ele é, que para a vindima depois cá estou
eu.
   - Sossegue! - tornara-lhe o João. -
Não me espante vossemecê a caça, com algum destampatório
lá por casa, e o resto deixe-mo cá. O mal já se
não remedeia, e o ponto agora é apanhar o "melro".
   - Bem. Combinados! - fechara o lavrador.
   E avistando-se os dois, o João Ferrador
fora para o compadre com cara de alvíssaras, e
desfechara-lhe a novidade:
   - Até que já sei quem é o "melro",
senhor compadre! É o Manuel!
   - O Manuel, que Manuel? - interrogou
o lavrador.
   - O seu, o de lá de casa: o filho da
Maria Maçores.
   - O Manuel Maçores?! - tornou o outro
estranhando a nova.
   - Esse mesmo. Vi-o eu entrar depois
da ceia.
   - Pelo quintal?
   - Pois?! E quando saiu era manhãzinha.
   - O malandro! - remordeu-se de ira
o lavrador. E isso hoje?
   - Não senhor, amanhecendo para ontem.
Na noite do José Candana. E agora é dar-lhe cabo
da pele, se vossemecê quer.
   Queria...
   Mas recolhido um instante com o seu
ódio, quando tornou a si disse ao ferrador:
   - Tenho uma ideia, ó compadre!
   Trocaram os dois um lance de olhos,
e o João Ferrador ficou-se à espera...
   - Empurrar-lhe a morte do José Candana,
que dizes? - aventou o lavrador. - A justiça depois
que se avenha com ele.
   Contrapôs o João Ferrador:
   - Mas testemunhas, ó compadre?
   - Testemunhas, ninguém vai matar um
homem diante de gente, p'r' o roubar!
   Ia pôr alguma objecção o João Ferrador.
   - Homem! - cortou-lha o outro - ele
essa noite dormiu no palheiro?!
   - Não, isso não podia.
   - Então aí está! E os outros moços
não o hão-de saber? Se não dormiu no palheiro,
onde é que dormiu?...
   - Ah! - fez admirado o João Ferrador.
   - E tu não vais jurar também que o
viste pra esses lados, de manhã cedo?
   - E é que não juro falso - anuiu o
outro.
   - Então que mais queres?
   …Queria - hesitava ainda o João Ferrador.
- É que o rapaz, de mais a mais, assistira à autópsia
do Candana, de princípio a fim... - Por sinal
- pormenorizou - que até o sangue se lhe soltou
do nariz. Todos viram. Parecia uma goteira quando
está a chover.
   - Deixa - desdenhou do pormenor o lavrador.
- Que demónio tem isso? - E já com pressa: - Está
decidido! Larga-me mas é, tu, a espalhar a nova:
"que quem matou o Candana foi o rapaz."
   O ferrador ia abalar...
   - Mas as provas, ó compadre, se mas
perguntam? - voltou ele a interrogar.
   - Que to disseram - resolveu o lavrador.
   - Quem? - tornou o outro.
   O José Tomás ia-se enfurecendo.
   - Que te não lembras! Que o ouviste!
Que já o ouviste a mais de cem pessoas! Arre!
Larga, avia-te!
   E como o outro largasse a correr:
   - Ouves? Ó João? - chamou ele pelo
ferrador - espalha-me tu isso pelas mulheres,
principalmente, e verás depois se não pegam as
bichas! Pelas mulheres. Anda, avia-te! E aí pela
tarde, ouves? - tornou a chamar - aparece, que
hás-de ser preciso.
   Acenou-lhe o outro que sim. - Que lá
iria.
   Logo adiante, num caminho estreito,
entre paredes atufadas de silvas o ferrador encontrou
uma mulher, carregada com um feixe de lenha.
   - Ó Maria Perpétua! Pois sempre te
eu digo que tens um afilhado!...
   - Um afilhado, que afilhado, ó João?
- perguntou a velha.
   - O Manuel! Lá o filho da tua comadre!
   - O da Maçores?
   - Esse!
   - Então que é que tem o rapaz? - perguntou
a mulher ainda muito estranha, parada agora para
ouvir a resposta.
   - Que é que tem?!... Ora faze-te de
novas, anda. Bem me finto eu que inda o não saibas?...
   E desfechou, sem parar:
   - Quem matou o José Candana foi ele!
Ele é que matou o José Candana! Seguro que ainda
o não sabias.
   A mulher arreou o feixe, caindo a chorar
em cima da lenha.
   - Mas ele como é que se soube, ó João?!
Mas então que desgraça foi essa?! Jesus! Ai Jesus!
   - Soube-se! Tudo se sabe! - dizia o
ferrador já de longe. - Ele não dormiu no palheiro,
essa noite!
   Um pastor que ouvira a conversa, de
uma riba próxima, largou a correr a espalhar a
nova; - e no alarido que fazia a velha, gritando
como se a matassem, o rebate espalhou-se logo
pelas hortas à roda, pela ribeira onde se levava
o pão, e quando chegou ao moinho já se lá sabia...
   - Já se cá sabe! Já se cá sabe! - dissera
o moleiro ao da novidade. - Diz que até o viram
sair da cabana, e que passou além à boca do prado,
inda com estrelas!
   - Vi-o eu! Isso vi-o eu! - afirmou
um rapaz que vinha chegando.
   - Mas viste o quê?! - estranharam os
do moinho. - Sabes lá tu do que se está a falar?!
   - Do Maçores! Toda a gente já o sabe!
Vi-o eu com estes dois olhos!
   - Oh! - ficaram todos muito admirados.
- E conheceste-o?!
   - Com' as minhas mãos! E disse-me ainda
agora o José Felício, que dorme também no mesmo
palheiro, que ele essa noite não ficou lá!
   - Ó diabo! - exclamou o moleiro. -
Então o rapaz está apanhado!
   - Apanhado e bem apanhado! - acudiu
a Ana Pratas que chegava a correr. - Mas a mim,
ouvis? a mim é que me não enganou!
   Sentara-se, esbaforida - "capaz de
arrebentar!"
   - Mas então? Mas porquê? - rodearam-na
todos.
   - Quando vi ontem soltar-se-lhe o sangue,
- tate! - disse logo comigo: aqui está quem matou
o Candana! Não to disse eu logo, ó Regina?!
   - Credo, mulher! Vossemecê disse-me
lá isso?!
   Largou a gritar a Pratas:
   - Ai a porca! Ai a desavergonhada!
- E correu para a outra de punhos cerrados: -
Nega-mo aqui na cara, se és capaz! - desafiava
ela esbofeteando-se.
   …Mas ao tempo a que isto se passava,
o Manuel Maçores, lá baixo, era procurado no lameiro
por uma mulher.
   - Estás perdido, ouves?! Estás perdido!
- gritava a mulher, que era a Maria Teresa.
   - Mas que é?! Perdido porquê?! Mas
que foi?! - dizia o Maçores correndo para ela.
   - Foge! Some-te! Uma grande desgraça!
"A minha menina que te diz que fujas!"
   - Mas o quê?! Mas porquê?!
   - O pai que te bota as culpas do José
Candana! Que quem matou o pastor que foste tu!
   - O quê?! Mas o quê?!
   - Que fujas! Que te sumas! Que o pai
que te desgraça! Fechou-se com ela no quarto do
forro, mais de uma hora! Chamou-me: entregou-ma!
Estava no chão, que parecia morta!
   - Morreu?! Mas então morreu?!
   - Não! Mas antes morresse! Quando veio
a si parecia doida! Morre! Endoidece! O pai mata-a!
Capaz é ele de a matar!
   E caindo de joelhos diante do rapaz,
imprecava-lhe de mãos levantadas:
   - Não me descubras, Manuel! Por alma
de tua mãe não me descubras! Manuel! Manuel! -
gritava ela enclavinhando as mãos. - Pelas tuas
alminhas não me descubras!
   - Mas então?! Mas agora?! - clamava
o rapaz numa aflição.
   - Foge! Ela quer que fujas! Que passes
o rio e que te sumas! Foge, esconde-te, some-te!
   - Mas eu que fiz para fugir, tia Maria?!
Mas eu que fiz?! - gritava o rapaz estorcegando
os braços. - Tia Maria! Tia Maria! Não sabe vossemecê
onde estive essa noite?!
   - Sei, sei, cala-te! Mas viram-te!
Espreitavam-te! Tinha-te já visto uma noite e
não te conheceu! Mandou-te espreitar!
   - E agora?! Mas então agora?! - dizia
o Maçores imprecando o céu.
   - Foge! Desaparece! Bota-te as culpas
para se vingar!
   - E ela?! Então ela?!
   - Endoidece! Dá em doida! Ficou fechada
no quarto do forro, a pão e água! Não torna a
ver a luz do dia! - Vou lá baixo tirar a barrela:
a correr passei por aqui. Foge, esconde-te, some-te!
   E a Maria Teresa desapareceu.
   Medira o Maçores todo o abismo, num
lance. Mas entre sacrificá-la a ela no conceito
dos outros, onde o pai a queria proteger, e sacrificar-se
ele diante do mundo até se cobrir de infâmia e
de maldição, não hesitou nem trepidou. - "Fora
então ele que matara o Candana, acabou-se! Que
matara o Candana e o roubara! Fora ele!"
   - Olha a vida! - resumia o Maçores
correndo já. - Como isto é!...
   Quando daí a pouco, desaustinado, o
rapaz vadeava o rio, os do moinho ainda o conheceram:
   - Lá vai ele! Olha! Ou é o diabo por
ele! - Lá vai ele! - É ele!
   E de pé num morro de fraga, uns poucos
inda gritaram, acenando-lhe com os chapéus e atirando-lhe
pedras:
   - Ó Manuel! - Ó grande malvado! - Não
fujas, ó grande malvado!
   …Bem calculado, àquela hora já o João
Ferrador estava da outra banda do rio, com os
cabos e o regedor, alapardados num monte de silvas.
Num atalho saíram-lhe todos à frente, apontando-lhe
ao peito as caçadeiras:
   - Faz lá alto, ó tu! Estás preso!
   - Já sabia! - foi a resposta do Manuel
Maçores. - Ponham-me as algemas e vamos lá.
   A esse tempo, já a loucura irremediável
resgatara do conhecimento do lance a rapariga;
- e passado um mês, à justa, a mísera despenava,
expirando também de dor, não tardou, a velha Maria
Teresa.
   Depois, sem defesa possível, e não
a aceitando de casta nenhuma, o Maçores deixou-se
condenar; - e quando se viu enfim na sua pequena
cela, e um número, que era agora todo o seu nome,
resumindo-lhe no peito toda a tragédia, - represando
as lágrimas com violência, perguntou "como se
lia aquilo". Quando lhe fecharam a porta responderam-lhe:
   - "455".