Via-se, de repente, simpática para tudo o que era solitário e desengraçado na Natureza. Uma palmeira de viés, na sua cabeleira grotesca, batida pelo vento ao meio de uma campina. Um cágado a querer nascer, contra todas as hipóteses, num filme sobre a vida selvagem. Apanhava do chão inutilidades, restos de coisas, o papel que embrulhara a pastilha elástica, um botão forrado, e hesitava antes de deitar fora. Os amigos andavam à roda dos assuntos. Entregavam-se, diante dela, a acintosas demonstrações de afecto conjugal, principalmente os maridos, que diziam às mulheres terem sentido a falta delas durante o dia, ou as tratavam fora de contexto por "querida". Havia nesses casais o frio terror perante a catástrofe do divórcio, ali presente na pessoa física e moral de Alda.
Sozinha em Lisboa, ia acertando aos poucos os seus novos horários. Nos restaurantes, comia pelas sete e meia na sala vazia, antes dos pares, das famílias e das comemorações, o empregado feito enfermeiro, tratando-a como uma criança a quem é preciso despachar a tempo de não interromper o jantar dos grandes. Olhava a televisão onde jovens se enlaçavam, na novela de intriga sentimental, olhos nos olhos, música, o beijo apoteótico e dava uma volta no centro comercial a fazer horas para o cinema, e no filme havia um homem e uma mulher que se apaixonavam e ele não podia viver sem ela e assim por diante . Mesmo escolhendo os filmes de guerra, Alda tinha de presenciar, impotente, a paixão o mais das vezes épica da recruta pelo seu colega, quando não o assédio todo sexual do sargento ajudante. Amor, amor, amor, por todo o lado, amor, amor, amor.
Dada a inacreditável longevidade das mulheres da sua família, que chegavam à centena com uma perna às costas, lúcidas e gulosas, Alda calculava ter à sua frente uns bons milhares destes jantares precoces, seguidos de fitas românticas após infinitas milhas de piso suave de centro comercial. Era considerando um crepúsculo sobredramático na Caparica, protagonizado por cirros gigantescos que trabalhavam as intensidades com virtuosismo luminotécnico, que ela via pela frente cinquenta anos de prazeres assim solitários, cinemas, teatros, viagens, lanches, vernissages, inaugurações, estreias, aniversários, festividades familiares, comemorações de toda a ordem. Para estas haveria a preparação momentosa do corpo, ou pelo menos do corpo visível, cremosado e empoado, e apareceria pontual bem trajada e maquilhada como mulher que se respeita.
O marido deixara-lhe a casa e levara o recheio, por uma questão de justiça distributiva. A nova mulher atirou com os sofás para Emaús, comprou design, instalaram-se. A nuvem de desgraça assombrava exclusivamente Alda, que não tinha saudades do casamento, nem pena de que tivesse acabado, mas se via subitamente com tempo a mais, relegada para uma estranha franja cinzenta social, obrigada a rasar as paredes, embrulhada até aos pés num velho casaco de pêlo de camelo, cabeça em baixo, olhos no chão, pária no império do amor. Se erguia, um pouco que fosse, os olhos, era para dar com um cartaz em que dois jovens em traje de praia a convidavam para umas férias estupendas. E tudo lhe gritava, pelas galerias, nos cafés, nas ruas ventosas, num eco imenso, apontando-lhe o dedo, morre!, morre! , desaparece!, aberração da Natureza, ó mulher de meia idade!
Tinha duas amigas, a Alda. Uma antiga, conhecida no Liceu, perdida de vista e reencontrada algumas vezes, que dava sobretudo conselhos. Uma mais recente, inteligente e sóbria, com talento para o lapidar, que ouvia até ao fim e rematava numa frase, normalmente de carácter jurídico, tudo o que de peso acontecera naquela interacção. Telefonou-lhes, uma após outra, no domingo de Páscoa. Ana constipara-se na cozinha, embora admitisse que parecia impossível. Insistia que o vírus fora trazido pelo borrego, como forma de vingança. E aconselhava Alda a não deixar entrar em casa, sob forma alguma que fosse, carne de borrego infectada. Marisa estava numa crise e sentara-se na quinta-feira santa a conversar com o marido. Domingo de Páscoa fizeram um intervalo para almoço e pensavam continuar, até se encontrarem esclarecidas todas as questões que os preocupavam enquanto parceiros de um mesmo empreendimento sentimental. Marisa considerava, dado o grau de seriedade da crise - que não era elevado -, que talvez em Agosto, por altura das férias marcadas de ambos, se pudessem levantar por fim da mesa de conversações quanto mais não fosse para desentorpecer as pernas. Os pais de Alda, octogenários, tinham tirado a semana santa para esquiar nos Alpes e lançavam às urtigas as obrigações. Correndo acima e abaixo as pistas de neve de X. com um grupo de amigos sexagenários, acompanhados casualmente de um médico para ossos quebrados e ataques cardíacos, o casal de advogados divertia-se e fazia, simultaneamente, bom exercício. Tinha sido esta feliz composição num prazer afinal de contas inocente que os decidira - a ambos, boémios cumpridores - a fazer as malas para X. A mãe mandara a Alda o programa das festas por e-mail para o emprego, numa mensagem cheia de pontos de exclamação e erros ortográficos devidos à pressa ou à falta de paciência. Sentada na cadeira de palhinha, dedilhando com indolência a muito emendada agenda dos telefones, Alda sorria à lembrança da mãe, que não a olhava nos olhos ia para trinta anos. Quando Alda lhe aparecia em casa a cumprir os deveres filiais, a mãe punha-lhe as mãos nos ombros, virava a cara para receber o beijo e dizia, normalmente para umas túlipas amarelas que decoravam a jarra da mesa da entrada:
- Estás óptima!
E contava-lhe com pormenores, cirandando pela casa, arrumando livros, fazendo chás, arranjando vasos, limpando nódoas de mesas, tilintando para cá e para lá nas inúmeras pulseiras e colares , as últimas férias e os planos das próximas; depois vinham as novidades da sua geração, quem morrera, quem se livrara do mal, novidades da segunda geração, quem se divorciara, quem se voltara a casar, novidades da terceira geração, quem se drogava, quem acabara cursos, quem se casara pela primeira vez, quem se divorciara pela primeira vez. De toda esta multidão, Alda conhecia de vista uns quantos, outros não fazia ideia quem fossem.
Quem sabe se do seu inconsciente não a espicaçasse o mito do cordeiro sacrificial da Páscoa quando se lembrou de Anabela. Anabela fora, ou assim Alda queria recordá-la, o cordeiro excelentíssimo , maltratada pelo destino com persistência e até distracção na persistência, como quem se esquece, ao fim de um certo tempo, de que está a carregar num botão de campainha. Filha não se sabia de quem, desleixada por tios e tias, perseguida por colegas de internato, enganada até pelos amigos, seduzida e abandonada aos dezasseis anos, obrigada a dar a filha para adopção, começando aí uma vida de errância e trabalhos duros, pequenos negócios que corriam mal, abandonos, vigarices de que sempre era vítima, intrigas que a levavam à grade da prisão, inocente cumprindo penas que lhe não competiam, tudo isto até à idade de vinte e cinco anos, altura em que Alda, provavelmente mais indignada com o destino de Anabela do que a própria, se afastara, desistindo de presenciar tanta obstinação.
Agora, sozinha no mundo e com a tal simpatia por palmeiras solitárias e cágados, começava a desenhar-se com Anabela uma nova relação. Com Anabela não corria o risco da humilhação de mendigar companhia. Se ainda fosse viva, fariam uma parelha razoavelmente equilibrada nos passeios de domingo. Procurou o seu último número de telefone, que datava de um encontro fortuito na Baixa, muito de raspão, "Estás óptima!" , "Telefona!", "Adeus!, escrito na agenda por cima de outros três riscados. Mas o número mudara. Precipitou-se Alda às informações, na vertigem própria da pesquisa, mas as informações naturalmente ignoravam, cobrindo essa ignorância com o pretexto de que o número teria passado a confidencial. Com característica minúcia, Alda pôs-se a fazer combinações. Sabendo à partida as leis gerais da transformação dos números de telefone em outros mais modernos, a manha com que um 37 passa a 347 e um 70 a 760 e daí, por prefixação, a 21760, acabou por ouvir a voz única de Anabela, nasalada, ronronada, sem alterações de emoção ou de sentido, manivela infinita . Mas era a voz de Anabela em gravação, que reenviava para um segundo telefone, este móvel, de cujo número Alda, secretarial, tomou nota . Marcando-o, foi atendida por nova gravação que a mandava para outro telefone, desta feita um fixo, e Alda hesitou entre desistir e continuar, mas era domingo de Páscoa, não havia muito mais a fazer do que ser indulgente para com a sua própria curiosidade - e discou o número.
Anabela atendeu sem fôlego. Levou um certo tempo a perceber quem era esta Alda, de quem não tinha notícia há mais de vinte anos, e com aquela mesma voz nasalada e indolente que Alda lhe conhecia de desculpar quem a atraiçoava, convidou-a para casa, deu-lhe a morada e ficou à espera.
Encontrada Anabela, Alda perdeu naturalmente a vontade de sair. Chuviscava, ventava, deprimia. Uma tarde passada na sala de Anabela a ouvir-lhe o catálogo das misérias e, se bem a conhecia, seria um catálogo dos mais completos, parecia-lhe agora tortura bem inútil a acrescentar ao seu isolamento. Mas estava combinado e assim foi. Anabela passara do apartamento da Póvoa de Santo Adrião para as Laranjeiras, um décimo andar com vista sobre o eixo norte-sul e Alda entrou fatalista e sem apreensões, enquanto Anabela, do fundo da casa, dizia:
- Senta, que eu já vou, estava a tomar banho.
Era uma sala toda cor-de-salmão. Haviam de discutir mais tarde se seria salmão ou pêssego (Alda, num assomo de invulgar humor, para esconder o embaraço, havia de lhe chamar em certa altura "truta salmonada") . Por ora, no entanto, Alda tentava apenas manter o equilíbrio psíquico no meio de cómodas e louceiros, candeeiros de pé e de tecto, alcatifas e carpetes, cortinas e reposteiros, sofás e tamboretes, todos cor-de-salmão , decorados com motivos da hortofloricultura universal. Interiorizada, portanto, a sala, e para se esquivar ao imenso império depressor que tinha sobre ela, Alda deitou a unha ao comando e acendeu a televisão. E enquanto se lembrava, porque a memória tem os seus truques, de outras horas, há muitos anos, em que esperara Anabela por salas e saletas - Anabela estava sempre a tomar o banho ou ainda tinha de ir secar o cabelo ou arrumar a cozinha ou remediar uma desgraça qualquer - e procurando não se submeter, ao menos, à fúria de que se tomava sempre nessas esperas, Alda não reparou bem no que se passava à sua frente. Começou, no entanto, pouco a pouco, a realizar que não era um programa normal de televisão. Nele, os actores, homens e mulheres, estavam nus e encontravam-se de tal modo acoplados uns aos outros, que Alda demorou o seu tempo a compreender o funcionamento daquela grande máquina pornográfica. Percebeu que pusera inadvertidamente em marcha o vídeo e que estava a ver uma cassette. Depois de um primeiro movimento para o comando , que o trouxe ao aconchego da sua mão, pôs a orelha à escuta dos passos de Anabela e deixou-se ficar a ver. Uma das mulheres estava de frente para a câmara, suspirando em grande alarido erótico e um homem ruivo bigodudo e muito à vontade na sua imensa barriga de cerveja, esperava pacientemente que alguém tivesse tempo para ele.
Alda ouviu, enfim, Anabela chinelar pelo corredor a pedir desculpa da demora e apagou a televisão precipitadamente. Notou que o vídeo continuava aceso e a cassete a rodar e procurou desesperada, carregando em todos os botões, forma de fazer parar a sua própria ignomínia. Lançou para longe o comando e levantou-se.
Anabela apresentava-se vestida de salmão dos pés à cabeça, cabeleira furta-cores de madeixas acobreadas, camisa transparente sobre wonderbra , silicones, calças justas de licra, cinto de verniz, sandálias de muito salto - e Alda reconheceu nela a actriz principal do filme que estivera a ver.
- Estás óptima! - disse.
Anabela agradeceu e ficou a sorrir-lhe, com uma carinha doce, de menina velha. Paralisara o músculo da testa com uma injecção para tirar as rugas, enchera com gordura dos lados, pusera o Paris-Lip, operara os papos dos olhos , o duplo queixo, o peito, a barriga, o rabo e as pernas. Disse tudo isto num tom factual, como quem apresentasse uma lista de compras para a casa, itens necessários à sobrevivência. Depois tiveram a tal pequena escaramuça sobre a cor da sala e Anabela propôs saírem assim que chegasse o Roberto, que fora beber um café.
- Esta é que é a Aldita - disse ela - este é o Roberto, o meu manager.
*
Pedindo o café ao empregado, Alda percebeu que já não falava desde sexta-feira às sete da tarde, quando dissera boa-noite por engano a uma que subia no mesmo elevador; depois percebera que aquela era a vizinha do conflito, a que não pagava o condomínio, a que reclamava, a que fazia barulho pela noite fora e arrependeu-se de a ter cumprimentado com uma tão simpática distracção. A voz, domingo pelas duas e meia , ao fim de quarenta e três horas e meia de silêncio, saía-lhe fosca, cheia de impurezas. Sentada à mesa, virada para a porta, reparou a certa altura num homem de gabardine que a olhava fixamente, o maxilar preso numa expressão dura , a testa enrugada, movendo ao mesmo tempo a colher com pertinácia dentro da chávena. Intimidada, Alda sorriu-lhe. O homem tomou notas num guardanapo de papel, guardou a caneta, acendeu um cigarro e saíu. Alda reconheceu do passado o seu próprio sorriso automático que respondera à expressão fixa e ausente do homem, que fora em tudo semelhante à do seu próprio ex-marido. Estranhos a duas mesas de café, voltavam a representar, como velhos autómatos da mesma família, a cena primitiva conjugal.
Alda caminhava para a matinée e para a sua hora de passeio pelo centro comercial, onde travaria de novo conhecimento com carteiras de pele e sapatos artisticamente desemparelhados nas montras. Ouviu um grito com o seu nome, trazido pelo vento seco e sujo da Fontes Pereira de Melo:
- Aldita!
O Roberto beijou-lhe as duas faces com imenso carinho. Tratava-a como a uma tia velha e muito querida, de quem se tem só recordações boas, bolos e conchegos. Segurava-lhe nas mãos e olhava-a fundo nos olhos, sorrindo, enlevado. Tudo o que ela lhe dizia era interessante e diferente. Não a largou mais. Levou-a ao cinema e no salão-de-chá repetiu os scones e louvou a Câmara de Lisboa pela manutenção de parques e jardins onde se podia passear à vontade acompanhado por uma mulher adorável. Alda começava por recusar cada novo convite, inventando uma desculpa para fugir e aceitava pouco mais tarde, contrariada e mal-disposta com a insistência meiga de Roberto, que a olhava tímido e como vítima de uma grande injustiça:
- A Aldita não gosta mesmo nada de mim...
Havia ainda uma vaidade natural em ser vista, ainda que por desconhecidos, com um homem que lhe pegava reverentemente pelo cotovelo e lhe amparava a zona lombar quando entravam na escada rolante. Ao contacto da mão dele nas costas, Alda tinha um repelão na boca do estômago e sentia-se velha, encolhia a barriga, levantava o queixo para esticar a pele do pescoço. Ninguém ia saber que ele se dedicava ao "imobiliário" e que geria a carreira de uma actriz de cinema pornográfico a quem tratava por Belinha. Podia perfeitamente ser um jornalista desportivo, um apresentador de programas de televisão, um cantor de boys band um tanto serôdio, um professor de educação física.
À meia-noite, de pé à porta do prédio onde Alda se habituara a morar, Roberto não queria despedir-se. Teimava em conhecer o quarto dela, queria ver onde ela dormia, porque era um pouco psicólogo, dizia, e podia-se saber muito de uma pessoa observando o ambiente que ela escolhera para descansar. Nesse momento, Alda teve um último escrúpulo que, como último, levou a bom termo. Cansada de andar e de falar, ainda por cima de si própria, da sua vida, das suas experiências recentes, cansada de falar a um ouvidor atento e compreensivo cuja empatia rondava o impossível, Alda negou-lhe duramente a entrada. Fechou a porta atrás de si, vendo-o ainda num relance a sorrir e a dizer adeus como um gigantesco boneco de peluche.
Espreitando da janela do quarto para o passeio, para verificar se Roberto ainda lá estava, Alda percebeu que respirava depressa, apavorada. Rememorando algumas das confidências que lhe fizera, e que lhe davam a ele um poder imenso, abria-se diante dela um mundo negro, cru, sórdido, perigoso, de mercados inimagináveis, redes de traficantes, armas, drogas, orgãos humanos, mulheres perdidas, expoliadas, desaparecidas, crianças levadas - e esse abismo olhava para ela agora, olhava de frente para ela. Em camisa de noite ao meio da cozinha, o copo de leite na mão direita, a pastilha para dormir na esquerda, Alda teve pela primeira vez medo de estar sozinha.
Roberto insistia. Telefonou e ela desligou o telefone. Mas quando lhe apareceu , dois dias mais tarde, com aquele sorriso de actor americano, um sorriso de dentes de tal maneira regulares que não se admitia serem obra da Natureza falível, Alda abriu-lhe a porta preparada para tudo. Ele vinha explicar-se. Apresentava-se calmo, e a timidez inicial dera lugar a uma segurança de amigo da casa, com direitos adquiridos. Compreendera, dizia, a sua relutância. Mas tinha de acreditar que a relação com a Bela era puramente profissional. Também percebia a relutância de Alda , uma senhora de bem, com tanta classe, tanta ilustração, em relação à profissão da Bela. Mas garantia-lhe que a indústria tinha melhorado muito os seus padrões de qualidade, que era um bom negócio, bastante limpo, sendo a Bela uma mulher esplêndida, respeitadíssima no meio. Por último, não julgasse Alda que Anabela fazia qualquer porcaria de filme. Liam em conjunto os guiões com atenção e escolhiam os papéis de acordo com uma estratégia. Fazer certas coisas descredibiliza a actriz e uma actriz descredibilizada acaba por não arranjar trabalho. Trata-se de uma questão de imagem, como Alda podia compreender, e era para cuidar exactamente da imagem de Bela que Roberto vivia. Mas por Aldita nascera outra espécie de afeição, a que ele chamava uma amizade profunda de duas almas que andam perdidas no mundo e que de repente se encontram e fazem clic. E, dizendo-o, afagava-lhe a mão com a sua, mostrando a pulseira prateada com o nome gravado, a espreitar, canalha, por baixo do punho da camisa.
Alda, como mulher sozinha, não se julgava com muitos direitos. Sabia teoricamente que poderia recusar, insultar Roberto de aldrabão e chulo, e pô-lo na rua. Mas pensava e fazia contas e não chegava a conclusões sobre o que podia ele querer. Para não ter de decidir, adiou e a forma do adiamento foi uma aposta consigo mesma: se ele usasse um fiozinho de ouro ao pescoço com uma medalha de santa, nunca mais o veria. Para o descobrir, teria de esperar.
Acabaram, portanto, a jantar na marisqueira, onde Roberto era cumprimentado quase em sentido por empregados e clientes que ela julgou habituais, homens na sua maioria de idade e untuosos, que olhavam através dela, mesmo quando Roberto a apresentava.
- É a senhora doutora Alda, o senhor Pitões.
E o homem limpava a beiça, estendia a mão e desinteressava-se. Ela não era mercadoria. E Alda ficava, de casaco até aos pés, olhos perdidos num mural que representava um pôr-do-sol sobre lagostins de grandes olhos de espião, a fingir que não ouvia uma conversa toda feita em código, sobre ofertas e procuras e entregas de produtos. Mais à vontade com ela, depois de esclarecidas as dúvidas sobre Bela e o império pornográfico de que era, na opinião de Roberto, rainha incontestada, o gestor de "imobiliário" anunciou-lhe a chegada de um novo guião, de enredo curioso:
- É a história de uma mulher que acaba de se divorciar, trinta e muitos, e fica de coração despedaçado, porque é ele que se vai embora com outra mais nova. Então ela vai e entra para um convento porque se quer refugiar em Deus e ter alguma paz espiritual. Aí encontra uma freira, a irmã Maria do Rosário, que a seduz...
O empregado chegava com os crustáceos e Alda conseguiu interromper e falaram de outra coisa. Mas Roberto queria muito a opinião dela sobre a questão do filme. Tinha um pormenor curioso, que era terem de ir rodar a Espanha e ainda outro pormenor curioso, que era o produtor dar a escolher a forma de pagamento. Podiam receber em dinheiro ou em operações plásticas numa clínica de Pamplona.
- Que bom - disse Alda.
Teve uma necessidade bronca de mousse de chocolate, que comeu em colheradas sem intervalo. Rapando a tigela, pareceu-lhe vislumbrar, quando Roberto se debruçava para ela com a expressão séria e atenta nos olhos claros, um brilho de fio de ouro pela camisa entreaberta. Ele puxou do guardanapo e delicado limpou-lhe um resto de mousse plantado, todo desconcertante, junto ao lóbulo da orelha esquerda. Retrospectivamente, Alda envergonhou-se daquela voracidade, pensou que assim revelara algo indecente de si própria.
Acordou pelas sete e meia da manhã esmagada por uma culpa que a deixava sem fôlego. Correu à janela para aspirar os fumos da estrada onde o trânsito, renascido das cinzas pouco antes , parecia sempre o mesmo, criado por Deus, os mesmos automóveis circulando eternamente na mesma ordem descolorida e infeliz.
Vestiu-se a correr para ir comprar o Diário de Notícias. Teve a imensa urgência de encontrar, como esses que agora se sentavam no engarrafamento, uma ocupação, um objectivo honesto. Queria um emprego, naquele dia, a começar ali mesmo. O tempo livre por que lutara uns anos antes, assoberbada de prazos e obrigações, parecia-lhe agora anátema e cruz. O sentar-se na pastelaria foi já integrado num novo projecto de vida : agora lia o jornal de propósito, procurava, rejeitava, de unha no índice corria colunas, deliberava, incluía, excluía. A oferta não era muita e não era muito interessante. Formada em Matemática e votando ódio mortal ao ensino, Alda não tinha aptidões nem possibilidades. Aos cinquenta anos via-se rejeitada, por formação e experiência, para essa proibida zona humana em que se faz o bem por exclusão de partes.
Caíram-lhe finalmente os olhos sobre um anúncio discreto, quase mesquinho, que pedia acompanhante para senhora de idade. Não pagavam muito e Alda não precisava do dinheiro. Exigiam currículo e fotografia. Ela correu para casa num entusiasmo. Procurou o melhor papel, a fotografia mais reveladora. Antes de se sentar, disse :" Meu Deus, é isto ou comprar um gato".
*
A fotografia não colocou nenhum problema, Alda estava muito bem posta no casamento duma sobrinha, com um saia-e-casaco discretíssimo de shantung cor-de-vinho e o cabelo apanhado numa banana que lhe valera inúmeras corridas aos espelhos para prender cabelos que se revoltavam contra a armadilha do penteado. Tinha o ar inócuo e reservado dos convidados casados nos casamentos de outrem e a expressão dela dizia que, embora possuísse a experiência, não ia estragar a festa com comentários que pudessem lançar a sombra da transitividade e da contingência sobre uma cerimónia que aspirava ao transcendente.
Alda não contava era com a dificuldade curricular. Que tempos de caneta na mão, o olhar perdido pela janela a bater na fachada muda do prédio da frente, a chávena de chicória com a patine escura, resfriada, e ela à espera de uma frase inicial. Depois escreveu lentamente o nome na folha pronta há muito para o receber, o nome que para ela era estranho e novo, sem o apêndice de família do marido. Já não era Mascarenhas, fora e já não era. Agora chamava-se outra vez Almeida, como o pai. Como o avô Almeida. Ficara Alda, por causa da madrinha e irmã da mãe, Fernanda, como a irmã morta do pai, Ramos e Mullet da mãe, Melo e Almeida do pai. Mascarenhas é que ela já não era. Mas agradou-lhe Alda Mullet de Almeida, achou eufónico e profético, porque fazia um certo eco, e algo interrompido, que o serenava. Em resumo, não seria mais que Alda Almeida, quase cacofónico, mas com inegável encanto mediático. Escreveu, portanto, o seu nome antigo, curiosamente igual e diferente do novo, que tinha pelo meio vinte e cinco anos de Mascarenhas, nome felizmente orfão agora de pai e mãe. Uma cunhada, Helena, ainda telefonava nas ocasiões e deprimidamente lhe contava as intrigas. Alda tinha uma visão mais desafogada da família Mascarenhas que das suas próprias Mullet e Almeida. Os Mascarenhas viviam sob o jugo de uma tia nonagenária, que ditava as leis de um casarão perdido para lá dos montes, onde cada membro do clã era chamado à vez, como ao tribunal supremo, para ser admoestado ou prestar contas. Helena tinha o pavor da tia, que a usava como olhos e ouvidos do rei. E enquanto o clã reunia em chás conspirativos no intuito de internar a senhora, Helena torcia-se, dividida, entre duas lealdades. É que o plácido campo de outrora se transformara , por oblíquos entrosamentos de causalidades sociais, num fojo de drogados , ladrões de necessidade e plaisir, que assaltavam uma vez por semana mecanicamente o casarão, enquanto a tia dormitava sobre um volume de Montaigne. E Helena pendia para o internamento, com intenção salvadora. Pedia conselho, retoricamente, a Alda, que mantinha o silêncio sem compromisso e suspirava por se ter visto enfim livre de tal imbroglio.
"Não conheci muitos homens,"- escreveu- "e uma coisa acho estranha (e acho estranho que ache estranha) nenhum dos homens que conheci fazia festas em pessoas. Um amigo tinha cães e fazia festas nos cães. Mas nem nas mulheres, nem nas crianças - os homens que conheci não faziam festas no ser humano. É um bocado ridículo uma mulher adulta dizer tal coisa. Tive azar, talvez . O único homem que me fez festas foi o meu primo António, tinha eu sete anos ; tinha chegado de Angola, estava exausta. Deixei-me cair no chão, pus a cabeça no lombo do Monstro que nem se mexeu. O António foi conversando e passava-me a mão na cabeça. Lembro-me de ter pensado que não ia dormir, queria ouvi-lo, mas dormi logo".
Não era curricular, mas achava uma boa descrição da sua vida amorosa. Nada de muito negativo, uma concepção que reenviava para um destino misto, coisas boas que tinham acontecido e se tinham perdido, normalmente por mera questão de bad timing.
"Nasci -escreveu ainda - numa altura que não deu muito jeito a minha mãe". Ela contara-lhe que tinham programado uma grande aventura, viver na Côte d`Azur com o pai um romance de fatos-de-linho brancos e cocktails nos terraços ao fim da tarde ; o pai herdara e tinha o projecto de fazer da sua vida uma obra de arte. Alda extrapolava a falta de oportunidade do seu nascimento para outros aspectos da sua vida. Tinha acontecido tudo fora de tempo, quando já não tinha razão de ser - um grande desgosto de amor prematuro que a tornara tímida, um curso imposto por um fracasso noutro curso que, esse, já fora escolhido por exclusão de partes, um namoro prolongado e desfeito, um casamento precipitado e prolongado para além do razoável . Era um nunca mais acabar de oportunidades perdidas, um contínuo descolamento, uma coisa fora da sua pele.
"Tudo nas nossas vidas é dádiva e desperdício", escreveu no currículo e ficou cheia de dúvidas sobre aquele plural que lhe pareceu ambicioso e fruto mais da ignorância e do ressentimento que de uma boa e ampla visão das coisas. Achava-se amarga e pessimista, mas não era amarga e pessimista. As circunstâncias é que não seriam as melhores.
E a desesperança anátema pior, nos dias que corriam, que bastardia nos de sua avó.
Limitou-se, enfim, aos dados facilmente confirmáveis, nascida em Carcavelos, 1950, formada em Matemática em Lisboa, casada, sem filhos, divorciada de um estomatologista, residente nas Picoas . Procurara dar aulas num Liceu, há muitos anos, mas fugira espavorida à primeira falta de educação de um aluno. Fizera traduções do espanhol para entreter as tardes, histórias de cow-boys e detectives, mas enfadara-se com os prazos apertados e com uma obrigação que dependia só do tédio. Os factos, no final, eram poucos, enchiam meia página e as linhas eram curtas. Procurou o que dizer em revelações sintéticas e morais sobre si própria. Que espécie de pessoa era? Achou verosímil dizer-se sóbria em tudo, no vestir e no pisar, no ser e no haver, e ainda razoavelmente culta e dedicada. Hesitou no momento de escrever que tinha uma vida estável e alguns bons amigos e que não se importava de acompanhar idosos. Não encontrava nada de verdadeiramente importante que desse imagem mais aproximada.
Roberto e Anabela, à mesa posta de porcelana azul e rosa da sala de jantar, indignaram-se extremamente contra ela. A actriz chegara devagar, arrastando as chinelas de salto, atrasada três quartos de hora - embora, para estar atrasada fosse necessário que se sentisse atrasada, o que jamais acontecia - e enlanguescia no sofá enquanto Roberto, de avental, cozinhava uma paella que parecia sempre precisar de mais um mimo. Alda, sentada a beber cerveja, interessava-se por um coffee table que mostrava as grandes mansões portuguesas doutros tempos.
- Olha que não é que me roubaram a carteira com tudo lá dentro, tinha os cartões, tinha o bilhete de identidade, tinha tudo e o dinheiro, nunca mais o vejo.
- Deixa - disse Roberto - que eu compro-te outra. Não te vais agora preocupar com isso.
- Isso é uma chatice - disse Alda , passando a página.
- O Roberto trata - disse o Roberto. - Não achas que é de ligar o ar condicionado?
- Tens calor? - perguntou Anabela. - Tens calor porque estás a cozinhar. Eu nem tenho fome, porque não te sentas aqui ao pé de nós?
- A Aldita o que é que acha?
- É-me indiferente. Façam como se estivessem em vossa casa.
- Mas não te dás bem com o ar condicionado, é? - perguntou Anabela.
- Se está frio demais, fico com dores de garganta, mas isso é assim com toda a gente.
- Não, eu não fico. Tu ficas com dores de garganta, Roberto?
- Se estiver muito frio, mas pode-se regular.
- Isso não sei. E a quantos graus é que vais pôr?
- A quantos é que a Aldita acha?
- Nem muitos, nem muito poucos - disse Alda, distraída por um solar do século XVI.
- Se ficar muito frio, põe-se mais quente.
- Parece uma solução razoável.
- E se ela nos fica com dores de garganta?
- Ponho no mínimo. Pode ser, Aldita?
Diante da paella cozinhada com todos os matadores, os três amigos, singularmente morosos, deitavam de vez em quando o olho ao écran onde passavam cenas escolhidas das "Íntimas Suculências", adaptação do livro homónimo. Roberto quis fazer as honras da casa, abriu o vinho e com Anabela continuou a debater os prós e os contras do ar condicionado e o que dizia a opinião corrente e o que acontecera com Fulana. Anabela queixava-se da pouca escolha de partenaires no filme que haviam de rodar em Espanha, e recusava-se a filmar com um tipo que a namoriscava também fora do enredo. Detestava outro, que Roberto com algum empenho lhe recomendava como simpático e bem equipado, porque tinha a mania de lhe fazer festas na cabeça e de lhe mexer no cabelo, o que a actriz não podia de maneira nenhuma sofrer. Alda seguia a conversa sem curiosidade, e perguntava-se intimamente o que fazia ali de frente para o eixo Norte-Sul, sob um céu de chumbo e o constante ronco dos automóveis, que disparavam em velocidade à descida para Alcântara.
- Sabem que encontrei um emprego? - perguntou Alda.
A princípio, reagiram bem, pensaram talvez nalgum trabalho nobre, pedagógico, ou num programa de televisão que a tornaria em vedeta. Quando lhes disse que ia ser au pair duma Dona Mafalda que morava no Estoril, indignaram-se.
- Servir uma velha? Uma mulher com a tua classe, Aldita?
Roberto era, obviamente, o mais ferido. Parou de comer, pousou os talheres, remexeu a pulseira. Se precisa de dinheiro, perguntou por fim, numa voz embargada pela rejeição, porque não veio ter comigo? Serei assim tão má pessoa que a Aldita não considere pedir a minha ajuda? Acha que não mereço a sua confiança?
A estas três perguntas graves, Alda respondeu em fuga para a frente, lamentando a inutilidade dos seus tempos livres, a solidão e o silêncio da sua vida, o facto de não ter a quem se dedicar, gabando ao mesmo tempo a dignidade social do acompanhamento de crianças e de idosos - e gaguejava à procura da sua própria legitimidade para ter também tarefas e objectivos. Roberto baixara os olhos sobre o dorso de uma gamba e ouvia consternado. A cada novo argumento dela, abanava a cabeça como se estivesse a tentar sair de um pesadelo.
- Se ela quer, deixa - concluíu Anabela - é um entretém como outro qualquer. Eu nem morta ia servir uma velha que se calhar é maluca. Mas eu sempre tive sorte na vida, tive sempre gente que me ajudou quando eu precisei.
- Sorte na vida? - perguntou Alda, incrédula.
- Sempre. Então desde que conheci o Roberto, tem sido sempre a subir. Não é, amor?
E o Roberto levantou-se para a abraçar por trás, no que se desfez o segundo botão da camisa, soltando-se-lhe do peito um fio de ouro donde pendia grossa medalha santíssima. Alda, de olhos postos nela, quis saber quem era a entidade que o protegia.
- Belinha querida - murmurou ele, beijando com devoção o pescoço da actriz - a nossa vida é tão perfeita.
*
De tal maneira que tinha as palmas das mãos suadas quando cumprimentou a senhora altíssima e muito magra que era a viva imagem do decoro e da contenção. Do curto cabelo argênteo penteado nitidamente para trás ao sapato raso que ressumava paris e preço exorbitante, Maria de Magalhães toda ela dizia abastança, abastança de nascença, sete gerações de incontáveis riquezas acumuladas por incontáveis riquezas acumuladas.
Alda sentira-se surpresa e revoltada à resposta que ela lhe dera ao currículo-e-fotografia. Em quatro folhas dactilografadas A4, a filha e secretária de D. Mafalda perguntava tudo, incluindo existência de doenças físicas/mentais/outras na família, causas de divórcio e presente situação psicológica, rigor e frequência dos hábitos de higiene, habilitações específicas para o convívio social (tímida, reservada, silente?), tópicos em que se sentia mais à vontade na conversação (política internacional e diplomacia, fiscalidade, viagens?), conhecimento das regras do protocolo, treino e nível da performance atlética e resistência física, distúrbios do sono e da digestão, e fora sobretudo minuciosa em questões de moralidade patronal, chegando a incluir a áspera menção à ausência/existência de registo criminal.
Alda, passado um primeiro momento de revolta natural de quem se vê tratado com injustificada injustiça, acabara por responder a três quartos do questionário da toleirona, enchendo com "esta é uma questão do foro íntimo" todos os espaços em que lhe parecera abusiva a pergunta.
De seguida, Maria enviara-lhe um sóbrio cartão de agradecimento e calara-se, com indescritível alívio de Alda, que voltara com gosto e denodo às suas rotinas, inaugurações e matinées, achando graça e leveza na solidão que lhe trazia à boca, inesperadamente, sorrisos e trejeitos de alegria. Entretanto, Roberto dera-se ao silêncio e telefonava todo lacónico para se inteirar da saúde de Aldita e de pouco mais. Era uma estranha ocorrência quotidiana, o telefonema de Roberto, a cujos trâmites ela acabara por se habituar. Perguntava ele primeiro se estava tudo bem, ao que ela respondia óptimo, ele perguntava se recebera alguma resposta do "emprego" (havia uma pausa antes de "emprego", significando que ele o estava colocar entre aspas) e quando ela dizia que não, Roberto dava outra pausa, e Alda via-o a abanar a cabeça na sala cor-de-salmão, com o fio da medalha pendurado ao pescoço, depois dizia:
- Então, boa noite.
E desligava. Às vezes Alda antecipava-se um segundo, não ouvia a última parte da "noite", porque andava contente na faina do jantar ou interessada a ver algum programa sobre koalas, a vida deles por cima de árvores remotas.
Estranhou, portanto, o telefonema de Maria de Magalhães que numa voz sem mácula na pronúncia, lhe pediu uma entrevista em pessoa para o dia seguinte, na casa do Estoril. E agora, bebericando a limonada, no terraço sobre o mar, Alda sentia-se a entrar na personagem da jovem licenciada em Matemática para se opôr às características da situação, que a rebaixavam a serviçal de cima. Maria dera logo a entender que toda a negociação se faria não só na ausência como contra a vontade de sua mãe. Referia-se-lhe numa cadeia de eufemismos cuja verdadeira natureza Alda não tardaria em conhecer, pois muito breve se lhe apresentou a famosa D. Mafalda que, trazendo por um braço encolhida uma chorosa rapariga fardada de criada, e atirando-a para a frente , gritou à filha:
- Apanhei esta puta a remexer-me nas gavetas, ó minha grandessíssima cabra. Foste tu que a mandaste, nem é preciso perguntar. As gavetas estão vazias. São quatro gavetas vazias.
- A senhora bateu-me - disse a rapariga, de joelhos diante de Maria - e eu quero-me ir embora.
Dona Mafalda andava, contrariada, pelos setenta e cinco anos. O vestido cor-de-rosa chocante deixava livres as coxas tisnadas, esqueléticas, onde a pele caía em pregas à volta dos ossos ; o decote pronunciado repuxava por via do wonderbra, empinando à frente o vestido. Deixou-se ficar, altiva, diante da filha, em silêncio, oscilando nos prateados saltos agulha e afastando de vez em quando da testa a franja da cabeleira loura cendré que lhe chegava aos ombros. Só pelo olhar fixo, o constante remexer da boca em seco, molhando os lábios com a língua é que Alda deduziu que a criatura estava totalmente embriagada.
- Alda Mullet de Almeida - disse Maria - a minha mãe, Mafalda Ortega Magalhães.
A mulher deu um passo atrás, enquanto a criadita se esgueirava como podia, encarou Alda que se levantara para a cumprimentar :
- Mas que vem a ser isto agora?
E olhando para além de Alda o azul do mar, pregando os olhos de falcão no horizonte, localizou e focou um veleiro que passava ao largo, enfunado e feliz.
- Filha da mãe... - disse. E estugando o passo para a varanda, debruçou-se para o horizonte. Depois correu à sala, aos tropeções, abriu a gaveta de um imenso contador de embutidos, sacou um par de binóculos e apressou-se de novo para a varanda.
- Mas que belo torso! Magnífico torso! Já me viu aquele torso, Maria?
A filha encostara-se à antiga balaustrada de pedra, assestara os binóculos, levara o seu tempo, calçando e descalçando o calcanhar do pé direito, que deslizava quase líquido na meia de seda :
- Então? - perguntara a mãe.
E Maria, neutra:
- Tem razão, mamã. É soberbo.
*
Começou então o verdadeiro idílio com Roberto. Livres do hipotético "emprego", foram idas à praia e fins de semana a dois, viagens por montes e vales, touradas e festas e romarias e peregrinações espirituais aos lugares dele e aos lugares dela . Roberto dava-lhe uma atenção empenhadíssima e Alda, por seu lado, não conseguia deixar de sentir uma reserva, que escondia por polidez e algum receio . Anabela ficava entregue ao que Roberto chamava "meditação" e que Alda achava corresponder ao estado naturalmente inerte da actriz, a única pessoa que ela conhecia capaz do feito circense de não pensar nada de nada.
- Meditação é fácil - dizia Anabela. - Já estive uma hora sem pensar em nada. Só de vez em quando sentia um bocado de fome, mas controlava.
Voltando de três dias no Gerês com um Roberto que se revelara amante também da Natureza, e amante preocupado com a extinção de espécies que lhe faziam falta, defendendo biodiversidades em discursos a subir montanhas, Alda abriu a porta com precipitação, ouvindo dentro o telefone tocar. Era D. Mafalda que lhe perguntava de chofre se não queria apostar nos cavalos.
- É garantido - dizia. - Tenho um bookie honestíssimo, é um homem de uma óptima família de Brooklyn, de mãe italiana, trabalho com ele há imensos anos. Podemos começar com cem mil dólares, a meias, cinquenta para cada uma, o que é que acha? Eu não tenho o dinheiro agora disponível, ainda não vieram os juros, só no final do mês, mas a Alda emprestava-me os cinquenta mil e eu pagava-lhe com os lucros, pode ser assim?
E quando Alda, encorajada pelo insólito da proposta, lhe disse que não jogava em corridas de cavalos, Mafalda propôs-lhe uma partida de bridge nessa mesma tarde de domingo. Acrescentou que a parada era muito baixa e que se poderia sempre pagar em cheque pré-datado, se não lhe desse jeito dispôr da quantia que perdesse. Alda, infelizmente, tinha muito que fazer e estaria ocupada até ao final da semana seguinte. Os insultos que se seguiram foram todos, curiosamente, destinados a Maria de Magalhães, a cuja vigilância e mão de ferro Mafalda achava difícil escapar.
- E ameaça-me com o pai ! Que me corta o subsídio! O pai? Sei lá quem é o pai dela! Ela está convencida de que é o meu marido e se calhar ele também e pensam que eu estou senil por dizer coisas destas. Mas eles são tantos, tenho uma vida cheia, não sou uma seresma, não sou uma cadeira, não sou uma pata-choca, não sou uma delambida, não sou uma cabra. Tem-me aqui fechada neste mausoléu , já viu o que isto é? Quando eu morrer é só atirarem-me da janela, fazem-me um burial at sea.
Alda demorou a perceber a expressão, porque ela a dizia com pronúncia muito espanholada. Escusou-se gentilíssima com o monte de coisas que ainda tinha para arrumar em casa e ouviu de Dona Mafalda uma cadeia de imprecações, ofensas directas e comentários abusivos que a fizeram pousar o auscultador como se, de motu proprio, fosse ele a querer deitar-se e descansar de tanto disparate. E estava a abrir a mala para a desfazer, quando ouviu as pancadinhas de Roberto na porta e , não muito feliz por mais uma interrupção, foi abrir e enfrentou Marisa, que trazia os olhos vermelhos de chorar.
Alda não se cansava de admirar a habilidade com que Marisa conseguia deixar correr as lágrimas sem se descompôr. Abriam muito rectas o seu caminho nas faces, sulcando o creme que brilhava e a base que disfarçava e o pó que tudo cobria. Ficavam a tremer gota a gota de um lado e do outro do queixo e Alda recolhia-as num par de kleenex, que cedo se mostrou insuficiente. Reparou, por antítese, que nunca vira Anabela chorar. Vira-a traída e espoliada, assistira a logros e abandonos, e os olhos bovinos persistiam a incluir tudo isso na mesma paisagem inóspita interior de onde nem sequer se exalava um encolher de ombros. E Alda, vendo Marisa chorar e lamentar-se, já sentia mais afinidade com Anabela , assumida na forma de uma recusa em dar conselhos, em adiantar ideias gerais. Marisa admitia enfim, muito abatida, que a conversação só era útil nos conflitos menores, epidérmicos, em que a confiança mútua fundamental não fora ainda posta em causa.
- Como acreditar em alguém que mente sempre?
Alda fez um chá, perguntou se ela queria um calmante, mas Marisa estava calma , até demasiado, estava triste, um pouco fora de si, que a fé na conversação não se perde sem abalar fundações de outras crenças pouco ou nada relacionadas. Do modo como falava, Alda depreendeu que Marisa deixara de acreditar na fecundidade do diálogo, mas acreditava ainda no que dizia, nas suas explicações, no que achava que o passado fora e o presente estava a ser. A dúvida central sobre si própria não lhe ocorrera ainda, e provavelmente, dada a sua estrutura molecular, não lhe ocorreria nunca. Estava a aparar as lágrimas da amiga quando tocou de novo o telefone e ouviu a voz nasalada de D. Mafalda:
- E cães, joga?
Queria convencê-la de que não havia maneira de perder nas corridas de cães, e lançou-se numa deambulação histórica sobre galgos , derivando para o combate de galos, daí para armações de alces, árvores de fruto, subsídios agrícolas, modos inimagináveis de apostar sem risco. Alda pôs o auscultador ao ar no sofá entre ela e Marisa, a amiga debruçou-se um pouco para ouvir melhor e deixaram-se ficar diante daquele chorrilho sem nexo, trocando olhares e gestos de impaciência. Tapando o bucal, Alda explicou , na medida das suas capacidades, quem era D. Mafalda, omitindo com naturalidade o motivo que a levara a procurá-la. E Marisa, por fim:
- Os malucos safam-se sempre. Ser fores maluca, estás safa, ninguém te pode chegar.
*
Deitada na areia, lutando sem sucesso contra a imagem de Roberto nessa noite de pousada, em que lhe dissera, acolhendo misticamente a respiração dela na boca :" Sou tão feliz consigo, Aldita!", procurava no mesmo passo esquecer a carta formal que recebera dele, uma carta comercial em papel timbrado, cujo sentido estrito lhe escapava. Alda julgava compreender, no entanto, o significado geral do acontecimento, embora se mantivesse ainda céptica sobre o significado que ele teria para si mesma. Agora padecia apenas de choque e humilhação, mas quem sabe no que tudo isso se poderia transformar depois das insistentes explicações do amante? "Temos o grato prazer de informar Vossa Excelência ", dizia o papel da Robimota Import/Export , " de que foi depositado na sua conta o cheque no valor total de cinquenta milhões de escudos. Muito penhorados pela gentileza e espírito humanitário de Vossa Excelência, colocamos à disposição dez por cento deste valor, símbolo da nossa gratidão e honorário de Seus serviços". E assinavam : Roberto Imperioso e Arnaldo Mota, e Alda não pôde deixar de se enternecer com as rubricas deles, tão semelhantes e desajeitadas que eram obviamente feitas pela mesma pessoa, uma pessoa que não se esforçava muito por esconder o embuste.
Alda subiu ao pontão para se dar ao meticuloso trabalho. Desde menina que se livrava, naquele mesmo banco, de todos os grãos de areia, antes de começar o difícil caminho para casa. Tirava do saco o colar e o relógio, prendia o cabelo, vaporizava a cara com água mineral. Estava nisto quando reparou que o velho ao lado de quem se sentara por distracção, se lamentava baixinho e chorava. Alda manteve-se entretida a limpar a areia dos pés, fingiu que não ouvia, mas o velho chegou-se mais a ela, determinado a contar-lhe . Chorava por causa da Menina, a cadela que morrera atropelada. Tirou do bolso interior do casaco uma polaroid que mostrava um retriever dourado, meigo e reinadio, sentado num sofá de orelhas, o focinho apoiado no braço de couro escuro, olhando ternamente o mesmo velho que, descontraído se sentava no chão aos seus pés. Alda não teve pena, não soube sequer o que dizer. Despediu-se, levantou-se com o trabalho infinito de se escovar ainda inacabado. Ia procurar um banco com menos sofrimento. Sentados nas pedras do molhe, banhistas de todos os feitios olhavam para o mar. E mais à frente viu, nos degraus da escada de pedra, um casal de obesos, ela de cabeça encostada na montanha do ombro dele, ele de braço passado sobre a montanha do ombro dela, contemplando o seu crepúsculo. No carro, finalizando os seus arranjos, expulsando o último grão de areia renitente, ainda viu um par de jovens namorados a brincar em contraluz. Primeiro foi a menina a correr atrás dele, para lhe dar uma palmada forte na cabeça, depois o púbere lançou-se na corrida atrás dela, para a manietar e lhe dar um beijo no pescoço, a que ela se esquivava, correndo logo atrás dele para lhe bater mais uma vez e se deixar agarrar. Mas num instante, se liberta a ninfa, inesperadamente levanta os braços e dança, vulto escuro , esguio, cabelos compridos, e Alda repara que o ritmo dela é exactamente o que ela ouve tocar no rádio do seu carro. Sorrindo , a chave na ignição, imersa de novo, levada levada sim, flui na inevitável enxurrada do amor.