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José Régio

 

HISTÓRIA DE ROSA BRAVA

 
     
 


I

Isabel se chamou a primeira filha do casal. Passados dois anos, nasceu a Rosa da nossa história. Veio depois um rapaz: o Chico. Depois, outro – o Quim-Quinzito; mas este morreu de ano e meio, por isso nunca chegou a ter outro apelativo na sua breve passagem pelo Mundo. Finalmente, nasceu Marília, a deliciosa Marília.
Marília! Até o seu nome era idílico e raro. Dera-lho tia Glória, sua madrinha. Achara-o cantado num livro de versos, pois tia Glória era o membro de mais letras da família. Porventura nem será grande favor – declarar que mais letras tinha tia Glória do que toda a restante família junta.
Flor mimosa, Marília

(Flor mimosa,
fresca rosa,

versejara em seu louvor tia Glória, pois tia Glória até fazia versos), flor mimosa, Marília manifestou-se de uma saúde extremamente susceptível: Não comia, debicava como um passarinho. Qualquer correntezinha de ar a ofendia. As mudanças de estação davam-lhe febres, tremuras, enxaquecas. E um raio de sol mais forte, lá estava a nossa Marília prostrada! Pena – porque era linda. Com razão gostava sua madrinha tia Glória de a contemplar, cantarolando com melodias da sua invenção quer os versos que lhe fizera, quer os do livro onde achara o seu nome:

Vou retratar a Marília,
A Marília, meus amores;
Porém como, se eu não vejo
Quem me empreste as finas cores?
Dar-mas a terra não pode;

Não, que a sua cor mimosa
Vence o lírio, vence a rosa,
O jasmim e as outras flores.


Desde muito nova, demais, se recomendou Marília por seus modos muito afáveis, seus gestos mesurados e macios, seus movimentos de cisne, e um sorriso e um meio baixar de pálpebras tão doces, tão discretos, que eram a sedução de toda a gente. Beleza um pouco frágil, no sentir de seu primo Rogério. (Adiante falaremos do primo Rogério, tenha paciência a leitora.) Mas sem dúvida encantadora, sem dúvida, a nossa flor de estufa da Marília! Tanto que algumas vezes tia Glória se espantara consigo – e não vou jurar que o não chegasse a expressar em voz alta – de terem podido gerar tal prenda a triste da irmã e o bruto do cunhado. Se fora sua filha dela, tia Glória, sim: já houvera mais explicação! E por tudo isto e por ser a mais nova, desde logo se tornara Marília o ai-jesus da casa.
Também por outra razão: umas dessas razões que, mexendo com interesses menos nobres, quantas vezes encafuados no secreto das pessoas!, nem sempre se torna conveniente que o narrador traga a lume. Era o caso que não só alardeava sua madrinha as mais belas letras da família, senão que também as mais belas notas em herdades e outros bens. Compreenda o leitor que a palavra nota vai aqui tomada no sentido que lhe dão as boas gentes de Castelo de Vide, fresca vilazinha alentejana em cujos arredores viviam os heróis desta bem singela história. Claro que tia Glória também tinha prédio no próprio coração da vila, onde passava largas temporadas.
Quanto a Margarida e Rodrigo, os progenitores, nem sempre viviam desafogados. Margarida trouxera em dote uma boa lavoura. Por seu turno, Rodrigo fora criado com mimos de filho único. Talvez por isso, era um homem mandrião, exigente, caprichoso, com raivas tempestuosas se o contrariavam; e que ora abandonava as terras aos rendeiros, entregando-se à caça e aos cavalos, ora as submetia a pretensos novos métodos que, mal compreendidos, mal assimilados, tentados sem continuidade, só depauperavam o solo. Um fraco, mas violento; um autoritário frívolo.
    Sua mulher Margarida nunca sonhara opor-se-lhe. Casara por paixão; e com a mesma doentia chama ardia tal paixão ao cabo de muitos anos de matrimónio – retraída pelo respeitoso temor que lhe inspirava a irritabilidade do marido. Tão respeitoso era, aliás, esse temor, como gostoso: Nele e na submissão que o provocava achava Margarida um soturno prazer. E só perdia a cabeça, chegando, então, a decompor-se de gestos e palavras, quando lhe iam meter nos ouvidos algum novo capricho amoroso do consorte. Quer isto dizer que o tempo que lhe sobrava da caça, dos cavalos, das experiências agrícolas, o empregava Rodrigo cortejando (claro que não sem proveito) as campestres belezas vizinhas; às vezes até as raparigas da apanha da azeitona, ou as que eram chamadas para a chacina. Sem dúvida os justificados ciúmes ajudavam a manter, exacerbando-a, a paixão de Margarida.
   Mas o seu homem voltava-lhe; e não voltava sem intuitos muito reservados: porque já Margarida assinava quantos papéis lhe ele apresentasse, tonta de o ter de novo. Assim haviam abalado algumas das suas melhores terras. Outras iam abalando. Espertalhões (aliás laboriosos) que tinham sido seus rendeiros, já, paredes meias com a sua mal disfarçada decadência, e sobretudo à custa dela, patenteavam uma suspeita prosperidade crescente.
   Muitas vezes, em tais condições, valera tia Glória ao extravagante casal. Mais velha que sua irmã Margarida, recebera Glória luzes de instrução com que seduzira o médico do sítio. Além de médico, o médico era aliteratado. Rico, mais velho que a mulher, cercou-a de conforto e em larga medida completou a sua educação. As horas que não passava no jardim cultivando os seus cactos, as suas hortênsias, os seus crisântemos, a sua colecção de roseiras (breve o jardim da Senhora Dona Glorinha ganhou fama até para além de Castelo de Vide), passava-as Glória folheando novelas, livros de versos, revistas, almanaques literários. Dadas as predilecções e a biblioteca do marido, talvez essa cultura não estivesse muito em dia. Não impediu que Glória se tornasse a maior doutora de Castelo de Vide e seu alfoz.
   Perfeitos dez anos de casada, fora Deus servido deixar Glória sem o marido e com um filho, o Rogério: aquele em cujo espontâneo sentir, quando já Rogério podia ter opinião sobre o assunto, a beleza de Marília era um pouco frágil.
   Ora fora tia Glória quem, de iniciativa própria, se oferecera para madrinha de Marília. Decerto queria alguém a quem desse este pastoralesco nome.

Vou retratar a Marília,
A Marília, meus amores;
Porém como, se eu não vejo
Quem me empreste as finas cores?
Dar-mas a terra não pode; etc.

Por suas letras, por seu dinheiro, por suas flores, por sua independência de opiniões e maneiras, se tornara tia Glória um caso tão respeitado como excêntrico no burgo. Personalidade que até a Rodrigo se impunha (daí, talvez, que também ela manifestasse uma estranha benevolência – não obstante muitas palavras ásperas – pelas doidices e prodigalidades do cunhado), não parecerá muito inverosímil que, perante os próprios pais, se revestisse de mais um prestígio a afilhada de tia Glória: da ilustrada e rica tia Glória, que já várias vezes lhes valera.
   Aos olhos da mãe tinha também Marília um particular mérito: De todos os filhos, só ela conseguia reter visivelmente o carinho do pai. Decerto, como homem, com superior condescendência acolhera ele o nascimento do primeiro filho varão. Para Marília, porém, era outra coisa. Só esta, com as suas graças e denguices, a sua delicada frescura de rosa, os seus movimentos de ave, o acalmava um pouco nos acessos de irritável melancolia. Por ela se entretinha ele mais tempo em casa.

 

II

 

Se Marília fruía, em parte, os privilégios de ser a última, em parte fruía Isabel os de ser a primeira. Como todas as mulheres demasiado amantes (e de um marido volúvel e cruel), Margarida era fraca mãe: A verdade é que quase não procurava os filhos senão por ataques. Mal se lembrava deles senão para os lembrar ao pai, como pretexto a retê-lo ou motivo a incriminá-lo. Também, às vezes, para se esquecer ela própria dos seus desesperos de amante menosprezada. Claro que a pobre mulher não descia a tais minudências dos seus sentimentos. Tão-pouco os que a rodeavam – excepção feita, em parte, para sua irmã Glória. Margarida julgava-se mãe excelente porque abandonava os filhos aos seus caprichos próprios, sem energia nem gosto para os contrariar; ou tinha por eles crises de tempestuosa ternura, tão despropositadas como efémeras.
   Eis porque Isabel – a boa, a activa, a discreta, a circunspecta Isabel – é que viera a ser verdadeira mãe dos irmãos mais novos: Ela quem tinha por eles a continuidade de atenções necessária; ela quem os lavava, os asseava, lhes engomava e ponteava as roupas, resolvia as suas pendências, os castigava, até, quando fosse muito preciso. Aliás não passavam tais castigos de lhes dirigir a censura merecida, ou simplesmente os tratar com um modo repreensivo e magoado. E tudo fazia com tão natural autoridade, que, posto nem sempre quisessem mostrá-lo, a respeitavam eles mais do que à mãe. Não só eles, demais: também dos pais, dos criados, de toda a vizinhança se fizera Isabel respeitar. Várias mães abastadas de filhos que principiavam namoriscando – muito intencionalmente declaravam diante deles: «Rapariga de juízo... aquela! Mais três ou quatro anos, fará uma bela nora. Cá por mim, não se me dava...»
   E passaram os três, quatro, cinco anos. A tal ponto, entretanto, se confirmaram e desenvolveram as virtudes domésticas da excelente Isabel, que a mãe lhe abandonou por inteiro o governo da casa. Então se deu o que nem sempre se dá: A virtude foi recompensada. Um óptimo partido se apresentou a Isabel na simpática figura do Bernardo Painho, jovem herdeiro de largas propriedades lá para bandas de Póvoa e Meadas. Bastante nova – Isabel ficou noiva. Oh, mas o noivo teria de ter paciência! Com vagar queria ela preparar o enxoval, e se preparar a si própria. O amor de Isabel era leal e constante, mas tranquilo.

III

   E o Chico? A grande vantagem do Chico era ser rapaz – entre raparigas. Não raro sucede, por tais sítios, sacrificarem-se as raparigas aos irmãos: quer nas atenções devidas, quer nos próprios bens. Se, como no presente caso, o varão é único no meio de irmãs, a quase toda a gente se afigura isso naturalíssimo.
   Pouco rogado se fazia o nosso Chico para impor os seus direitos de elemento másculo. Desde novito se mostrara indolente e autoritário, com perrices, caprichos e obstinações que faziam murmurar muita gente: «A culpa não é do garoto! Lá tem a quem saia.» E o caso é que, a não ser quando se chocassem, o pai lhe manifestava uma inesperada tolerância. «Rapazes querem-se bravos!», dizia nas costas dele. Com o pai, sempre Chico se encolhia um pouco. De modo que o pai não achava inteiramente mal que o rapaz desafogasse perante as mulheres os seus instintos de superioridade viril.
   Aos doze anos, largou Chico a sua primeira sentença irónica sobre as mulheres. Nunca mais, daí por diante, as poupou o seu espírito cáustico. Estas mulheres eram muito particularmente a mãe e as irmãs. Sob condição, porém, de o servirem com pressurosa solicitude, Chico tolerava-as. Digamos que podia ir ao ponto de ter por elas uma espécie de condescendência compassiva, desdenhosa, com uma réstia de sentimentalidade, como de um protector pelos seres inferiores que lhe estão submissos. A idade não fez senão cimentar esta noção de que a condição da mulher (ou fêmea) é ser uma serva dócil do homem (ou macho). Era desses egoístas cuja melhor forma de amizade ainda é uma quase gratidão por quem lhes acarinha o egoísmo. Tal género de amizade, devemos confessá-lo, tinha-o Chico, às vezes, por Isabel e a mãe. A Marília, que era extremamente coquette com ele, tratava-a por gatinha ou boneca. Às vezes, peguilhava.
   Aliás, bem Isabel e a mãe lhe mereciam tal condescendência! Na sua rústica e bondosa simplicidade, não estava Isabel muito longe de em verdade ver no irmão um ente superior. Assim se afadigava a adivinhá-lo, a tratá-lo, a servi-lo – com a mesma instintiva noção de que mais ou menos nasceram as mulheres para escravas dos homens; principalmente, as irmãs do irmão único; e ainda muito particularmente, ela do Chico. Chico não deixava de se lhe mostrar reconhecido: Regra geral, punha um tom de excepcional benevolência nos epigramas que lhe dirigia.
   Quanto à mãe, breve se reconheceu sem autoridade nem vontade para o educar. De uma vez, era ele criançola, fizera qualquer maldade, ela dera-lhe dois sopapos. Ficou assustada com a reacção do pequeno! Como o pai viesse entrando, e o casal atravessasse um dos seus frequentes períodos tempestuosos, Margarida apontou o garoto que esperneava no chão:
   – Vê de que raça é o teu filho! Mas a culpa não é dele, não. Tem a quem sair. Ainda assim, sempre espero que saia melhor.
   E pôs-se a aplacar o filho castigado.
   Sem tirar o chapéu, o marido deu-lhe um pequeno piparote na aba. Chasqueou, de má sombra:
   – Eu também não tive a quem sair...?
   – Lá isso, tiveste: o teu pai dizem que arrastava a tua mãe pelos cabelos!
   Ele fez um gesto, com a mão fechada, como para a socar.
   Durante as suas negras crises de ciúme (recebera, há dias, participação de uma nova mancebia de Rodrigo), a submissa Margarida ousava falar-lhe assim. O desespero lhe dava coragem para o afrontar. Chegava a provocá-lo, como se desejasse vê-lo descer aos últimos excessos. Mas eram as únicas ocasiões em que, talvez por se reconhecer culpado, o seu senhor lhe toleraria tais insolências. Desta vez, porém, o que a salvou foi um dito do Chico. Despegando-se dos braços da mãe, o garoto saiu-se com esta:
    – Então, a culpa também não é do paizinho...
    Rodrigo deu-lhe para achar graça à intervenção do filho, cuja reputação de inteligente desde logo ficou afiançada. Olhando a mulher de certo modo – aquele modo que ao mesmo tempo a excitava e aterrava –, contentou-se com observar-lhe:
   – Tem ao menos vergonha do teu filho, que já entende o que dizes. E se tornares a bater-lhe, não lhe dês beijos depois.
   – Mal lhe toquei: fez um alarido!...
   – Nisso de alarido, também tem a quem sair.
   – Tocou, sim, pai – desmentiu o petiz –, bateu-me! Mas já disse que não torna...
   Como, no seu ódio, nem se resguardavam das filhas, algumas vezes assistiam elas a tais cenas. Marília, ainda criança, já os seguia com uma espécie de ávida curiosidade nos lindos olhos abertos. Isabel era quem mais se consternava, procurando meio de os distrair da contenda. Quanto a Rosa... Mas já falaremos de Rosa.
   E Margarida não tornou a dar sopapos no filho. Não ousaria tornar. Tanto mais que bem percebera: Rodrigo não gostara. «Se tornares a bater-lhe», dissera ele, «não lhe dês beijos depois.» Mas acentuara aquele «se tornares a bater-lhe».
   Fisicamente parecido com o pai ia o rapaz crescendo, talvez menos violento – quanto ao moral – mas ainda mais egoísta;
   de modo que não só cria Rodrigo reconhecer-lhe saudáveis propensões para dominador, senão que também se revia na sua figura como num espelho que o devolvesse à juventude. Com um misto de orgulho e despeito pensava, lá consigo, que breve se lhe atravessaria ele no campo das proezas amorosas, tornando-se um concorrente perigoso: Pouco tardariam a preferir o patrãozinho novo as criaditas galantes, as mulheres da apanha da azeitona, as raparigas que vinham para a chacina, e até qualquer caça mais fina das vizinhanças. Sempre haveria sustento para ambos – consolava-se. Avaro de exteriorizações sentimentais, mal conseguia disfarçar o seu crescente fraco pelo rapaz. Comprara-lhe um cavalo. Intimamente, gostava de o ver também amar os cavalos e preferir a caça aos estudos. Nem os estudos eram muito pesados na Escola Agrícola, onde o pusera. E para que precisaria o moço de grandes letras? Precisava, sim, como todo o herdeiro de terras, de vir a saber governá-las. Era o que esperava lhe ensinassem lá na Escola de Évora.
   Em tais circunstâncias, como pudera ter Margarida senão veleidades sobre a educação do filho? Não só chegara a temê-lo, achando-o parecido com o pai, como a admirá-lo, e, numa certa medida, a querer-lhe. O filho acabara por lhe perdoar aquele abuso, que uma vez praticara, de uma autoridade materna muito discutível.

 

IV

 

Ora quando pensava nas suas terras (e algumas vezes lhe era isso forçoso), o pensamento de Rodrigo ensombrava-se: Estarem desaproveitadas, depois que mais ou menos fora ele desistindo dos seus caprichos de lavoura moderna, ainda não era o pior. Decerto poderiam render o triplo do que, na sua curteza de vistas, escassez de meios e parcimónia de esforços, lhe sugavam, arruinando-as por não saberem nem poderem tratá- -las, os filhos da ti Ana Cuca, o Julião Panasco ou a família do Zé Lixa. Rodrigo já não tinha decisão para pôr com outro dono estes rendeiros antigos. O rapaz, um dia, tomaria na mão a rédea de tudo aquilo! Pior que estarem desaproveitadas era já estarem reduzidas a pouco (a melhor propriedade hipotecada) e os filhos serem quatro, com as raparigas... Sem ainda haver pensado, a sério, se e como o poderia fazer legalmente, sonhava Rodrigo reuni--las na posse do Chico. Coisas de lavoura, são com homens; pelo menos, as da direcção. Além de que as mulheres sempre se encostam mais facilmente. O noivo de Isabel era rico e galhardo: não faria questão do dote. Bom dote levava – levando mulher activa, dócil, ajuizada e afectuosa como poucas! Não tendo, embora, pela excelente Isabel nenhuma afeição particular, o pai não deixava de lhe prestar justiça: mormente quando assim servia os seus intuitos. Era como um comerciante pronto a vender, a entregar – mas que sabe o valor da mercadoria. Marília..., então não tinha a madrinha? E, com a sua lindeza e a sua afabilidade, não era de esperar, não se poderia crer que o primo Rogério... O quê?! Pois mostrar-se-ia o auspicioso primo Rogério insensível ao brilho daquela jóia?... E não seria tia Glória a primeira a abrir os olhos ao filho, no caso de andar ele cego? Sobre tal assunto se tinham muito bem entendido Rodrigo e a mulher.
Restava a outra. Sim, ficava a outra de lado, Rosa; Rosa, a brava...

V


   Pois restava a outra. Não sem um íntimo impulso de hostilidade era o pai forçado a pensar na outra. Aliás, não sem o mesmo sentimento pensavam, geralmente, na outra quaisquer parentes.
   O caso é que desde tenra idade se revelara Rosa, a filha segunda, uma espécie de monstro na família: um ser anormal, uma criatura incompreensível e agreste, um bicho maligno ou espírito ruim. Quando, na verdade, já alguns membros da família não pareciam muito sensatos aos olhos alheios, imagine-se o que seria Rosa para a terem esses mesmos por desorientada.
   Com três ou quatro anos, já tinha birras e teimosias indomáveis; no que poderia parecer-se com Chico, é certo. Mas o Chico era rapaz, que diabo! Ou, então, chorava, chorava, chorava horas esquecidas sem motivo justificado ou visível – chorava pertinazmente como em certos dias chove. E debalde lhe perguntariam que tinha, que lhe doía, por que chorava. Era de fazer perder a cabeça! Obrigada a lembrar-se dela à custa de a ouvir, a mãe acabava por se desesperar. Batia-lhe e gritava: «Ora agora berra pr’aí, diabo!» Mas, como ficava descontente, incomodada por ter de a tratar pior do que às outras, guardava-lhe uma espécie de rancor. Não a fazia ela soltar impropérios que não estavam no seu feitio? Por seu turno, o pai resmoneava entredentes: «Não haver um raio que parta este estafermo!» E quando menos se esperasse, a pequena Rosa calava-se. Parecia não ter chorado senão para fazer as pessoas sair de si. Conseguido o seu diabólico fito (mas seria isso crível numa criança?, uma criança de quatro anos?), sim, calava-se.
   Com mais uns três anos, porém, começou de ter sombrios períodos de silêncio e soturnidade. Refugiava-se num retraimento cheio de revolta surda, com olhares de lado, ou por baixo, que pareciam espiar, perseguir, denunciar toda a gente, e por fim olhavam de chofre, duros, como a pedir contas a todos, não se sabia de quê. Oh, era de desesperar!
   A velha Gertrudes chegara a levá-la à Tresa Mulata, que viera do Norte e vivia num casinhoto à entrada da vila. Tresa Mulata fazia e desfazia bruxedos, talhava o ar, expelia os demónios dos corpos, deitava cartas, lia nas mãos da gente o que está para vir... Embora vivendo miseravelmente, era muito procurada e governava-se bem. Devia de ter dinheiro escondido. Esperneando e berrando, Rosa fora balanceada, em cruz, por cima de um fogareiro em que ardiam ervas misteriosas, ao som de uma cantilena que a Mulata ia responsando entredentes, num tom compenetrado e nocturno, com latins mascavados, nomes de bichos peçonhentos, palavras a modo de feias, apelos aos santos e aos diabos. Pois, senhores, a pequena padecente chegara a morder a Mulata nas mãos! Como o fumo das ervas a engasgava, não cessara de rouquejar e torcer-se. Fora necessária a força da bruxa para a dominar. Mas nisso vira esta um bom sinal: Escorraçados desse pequeno corpo danado, que já tinham por seu, os mafarricos não se iriam sem o atanazarem...
   Gertrudes retirara-se toda esperançada: A fama da Tresa Mulata já se estendia até Portalegre, ou mais longe; contavam-se muitos casos; sem dúvida a Tresa Mulata sabia do seu mister. Pois mal que chegara a casa, logo Rosa pusera tudo em pratos limpos! Isto só para comprometer a velha Gertrudes, que tanto lhe pedira silêncio, e não dera tal passo senão por lhe querer muito. Fossem lá crer que a tinham deixado os demónios! Claro: tal passo também Margarida o pudera ter dado. Mas Rodrigo blasonava de incrédulo nessas coisas, e não apoiava tais superstições. A velha criada fora desfeiteada à conta do que só fizera por bem – tendo gastado das suas parcas economias para pagar à Tresa Mulata.
   E os dias, os meses, os anos foram passando, sem que, desta vez, as malas-artes da Tresa Mulata houvessem surtido efeito. «Não sei que rapariga é esta!», mortificava-se a mãe. «Por que há-de esta rapariga ser diferente de todas?» O pai sentia e pensava o mesmo; se não pior.
   Com os anos, porém, foi Isabel quem ganhou dobrada razão para o sentir e pensar. Como, na realidade, a Isabel ficara pertencendo o governo da casa, sobre ela recaíam particularmente as excentricidades ou perversidades de Rosa. Posto ainda escorregando, longe em longe, aos antigos acessos de soturnidade, o mais comum era manifestar-se actualmente em Rosa uma espécie de energia desenfreada. E então, não era só ter maneiras impróprias de menina decente; pular para cima de cavalos e mulas como um cigano; desaparecer de casa, irem pilhá-la entre penhascos, ou encolhida nas xaras, como numa toca; assaltar as tapadas; vagabundear por campos e quelhas como um maltês! Sobre tudo isto, fazia de fel e vinagre a pobre Isabel com a mania de pregar partidas. Pregar partidas resumia-se a cometer maldades. Parece que tal era o seu estilo de se divertir, ou expandir o bom ou mau humor, ou manifestar a sua juventude; quem sabe?, talvez até de exprimir a sua afeição ou simpatia pelas pessoas... Mas de que modo, Jesus! Se Isabel acabara de arrumar um quarto, que estava rebrilhando de asseio e ordem, vinha Rosa: e logo tudo ficava de pernas para o ar; os sapatos da maluca andavam sempre cheios de pó e deixavam terra no solho; as suas roupas apareciam de rastos por toda a parte; e nenhuma gaveta podia, sequer, estar fechada com ela – que tinha chaves para todas as gavetas; ninguém sabia onde as ia desencantar!
   Decerto, algumas vezes se mostrava Rosa como penalizada pelos desgostos que dava à irmã. Então se abraçava nela, pretendendo ajudá-la e remediar o mal feito. Mas até nos seus braços havia um exaspero frenético; e quem não teria medo das suas ajudas? «Não faças! não faças nada!», gritava-lhe a circunspecta Isabel, de cabeça perdida. «Antes quero que não bulas em nada! Não fazes nada em termos...» E quase chorando, recomeçava as suas arrumações.
   «Só mesmo a paciência de Isabel!», comentavam todos os frequentadores da casa; e com sinceríssima convicção, porquanto nem as visitas escapavam às disparatadas brincadeiras de Rosa: principalmente, ora vejam isto!, as de mais representação e cerimónia. Embora muito modesta e sofredora, a própria Isabel corroborava: «Só a minha paciência!» Que não ficavam por aqui as singularidades de Rosa: Ela metia em casa toda a sorte de gatos sem pêlo para os tratar da doença; ou – pior – lhes dar a beber o leite reservado às irmãs. Ela furtava dos armários os restos da comida (nunca Isabel podia contar ao certo com nada!), atraindo às portas uma praga de andrajosos e piolhosos. Ora não é certo que até o bem-fazer deve ser moderado, dirigido? Em vão marcava Isabel os dias para as suas esmolas (mas não era a própria Isabel extremamente caritativa?), escolhendo, como é de justiça, os pobres que lhe pareciam menos desaforados; porque há pobres muito sem vergonha, e até com dinheiro escondido! – toda a gente o sabe. Pois com o sistema de Rosa, que só era uma falta de sistema, sempre lhes andava rondando o quintal uma chusma de mendigos, tanto velhos como garototes ou matulões, e qual deles mais mal-encarado, mais malcheiroso. Que intenções teriam? Era ver a catadura de alguns! Qualquer dia se lhes metiam de portas adentro, faziam um roubo, de quem era a culpa? Rosa até parecia convidá-los a isso! Outras vezes, de seu livre alvedrio, marcava trabalho aos ganhões desempregados; e tornava-se necessário pagar-lhes, despedi-los, alguns abalavam de má sombra e resmungando, tudo eram fezes e despesas.
    Claro que ainda se poderia atribuir tais extravagâncias a uma caridade mal entendida. Mas então, como desculpar as roupas que apareciam cosidas, e nos sítios menos próprios!, quando, aos domingos, saíam dos gavetões e arcas? Os galhos de carqueja que as irmãs, ao deitar, achavam entre os lençóis? Os súbitos estrondos, guinchos terríficos, tombos nas portas, se atravessavam um aposento escuro? Com tudo isto Rosa se escangalhava a rir, indiferente ao que fazia sofrer as pessoas.
   E agora teremos de confessar uma fraqueza da sensata Isabel: que era, até quando já tinha noivo à espera, ainda tremer de andar às escuras! Na delicada e tímida Marília, já se não estranharia tanto... Mas com os gatos lazarentos ou os infectos mendigos de má cara – é que Rosa ainda mais torturava a susceptível Marília. Conhecendo o pavor e a invencível repugnância que inspiravam à pobre pequena, chegava a preparar-lhe encontros assim: Descia Marília ao quintal, toda mimosa nos seus vestidos frescos, no seu chapéu de palha a defender-lhe a preciosa tez. Logo, ao dobrar um carreiro entre os arbustos, dava de chofre com um matulão hirsuto, de olhos sanguíneos e pasmados, que a ficava olhando como no ferino desejo de trincar essa carne macia e tenra, mais cor-de-rosa do que as rosas... Está-se a ver que Marília ficava toda em tremuras, sem pinta de sangue nem fala. Já tinha dor de cabeça para todo o dia! Então, saindo de trás dos arbustos, Rosa desfazia-se em gargalhadas diabólicas. Mau grado o seu meigo coração, já Marília chegara a pensar (e mais que uma vez!) na conveniência que para todos haveria em não ter Rosa nascido; mesmo, talvez, para a própria. Vejam que até a doce Marília chegara a pensar isto – esquecida de que, ao vir ela ao Mundo, já Rosa cá estava!
   Como não se perceber que tais façanhas de Rosa só tinham por fim arreliar, perturbar, inquietar? Tanto mais que, nessas conjunturas, nem ao menos ocultava uma satisfação verdadeiramente cínica! (Assim a qualificara Chico.) As suas risadas revoltariam um santo. E até nos incidentes mais graves achava motivo para galhofa, como quando, no passeio às Carreiras, tia Glória caíra do burrico. Tia Glória a coxear e a gemer – ia partindo uma perna –, toda a gente consternada, Marília desfalecida num desmaio, o passeio estragado, a bela merenda perdida, e ela sem poder conter a sua vontade de rir. Também, nunca tia Glória lho perdoara de todo. Quando, um pouco envergonhada, Rosa lhe pedira perdão, tia Glória dissera-lhe não sem dureza: «Foram os teus pais que te mandaram, não é verdade? Deus te perdoe o que és de má, rapariga!»
   Não tinham sido os pais que a haviam mandado. Mas é que não era fácil crer nos tumultuosos arrependimentos que às vezes manifestava, quando o que ficava nos ouvidos era o seu riso luciferino (esta qualificação pertencia a tia Glória), aquele seu riso de contentamento e zombaria por ver as pessoas vexadas, magoadas...
   Resta-nos citar uma sua última prenda: a de pôr alcunhas. Eis a principal razão por que, geralmente, bem pouco morriam de amores por ela quaisquer familiares ou visitantes da casa. Tirante o velho Dr. Simão ou a velha Gertrudes, que a estes poupava Rosa um pouco, todos tinham sido baptizados. Assim a D. Laurentina era a Pata Choca; sua filha Matilde, a Tem-te não caias; amigo senhor Fernandes, o Clarinete; Dr. Rovisco, o Barriga de Borracha – tudo por aí fora em termos assim. Até o pelém do primo Rogério – Rogério Luís – desde pequenino era o Lu-Lu.
   Eis um pitoresco dom, o de crismar as pessoas, que nem a suave Marília podia perdoar facilmente à irmã. «Ai o meu ai-jesus, o meu biquinho de pomba, o meu torrãozinho branco, o meu pezinho de salsa!», preludiava ela com uma ternura sarcástica, agarrando-se a Marília. Ora atrás destes maviosos atributivos, que já não enganavam ninguém, vinham outros, e outras graças, que breve punham a tenra Marília toda orvalhada de lágrimas. E não raro passava Marília desse endolorido pranto aos gritos estrídulos: É que, tendo-a irritado a excessiva susceptibilidade da menina – acabava Rosa por lhe dar beliscões à socapa. Isto lhe valeria a ela própria algum sopapo e as amargas recriminações dos pais no tempo em que ainda eram de sopapos. Em mais nenhuma o pai ou a mãe batiam – coisa que sobretudo a mãe lhe não podia perdoar. Já ficou dito que preferiria a pobre criatura nem àquela bater. Mas, saciada pelos beliscões na macia carne da menina (era como, ironicamente, tratava a mais nova) por bem compensada se tinha Rosa.
   Dado tudo isto, quem pudera crer que amasse as irmãs? Ou que espécie de amor, que modo de amar seria o seu?
   Com o Chico, de modo nenhum era a coisa menos visível: Não o suportava. Raro ousava provocá-lo directamente, como às irmãs. Ou talvez nem fosse falta de ousio; mas, precisamente, excesso de antipatia. Não será possível aventar-se que, nas partidas e arrelias pregadas às irmãs, ainda se manifestasse uma certa afectividade a seu modo? Ao Chico, infatigavelmente o crivava de epigramas indirectos e sangrentos. Isto sem o fitar, sem se lhe dirigir, sem parecer falar dele, sem dar mostras de sequer verificar a sua presença. De tal sorte, porém, que, não sendo de uma grande superioridade intelectual (mau grado as ilusões paternas), acabara Chico por melhor ou pior decifrar as segundas intenções de todas as suas frases enigmáticas. E as reacções dele, Chico, nada tinham de indirectas: Chamava-lhe escabreada, preta, gata assanhada, invejosa, e, em virtude de alguns rudimentos de história adquiridos, padeira de Aljubarrota. Um pouco mais tarde, quando se lhe desenvolvera a consciência da sua dignidade viril, algumas vezes Chico avançara para ela com intuitos violentos. Ela plantava-se-lhe diante, os olhos negros arregalados para os dele:
   – Anda!, bate! Mas atreve-te! Bate!
   Os seus olhos tinham então um estrabismo em que geralmente mal se reparava. Não obstante, eram esplêndidos. E ele encolhia-se; mas não lhe perdoava essa espécie de temor, ou respeito, que a sua expressão então lhe impunha: mais a ficava odiando.
   Dir-se-ia que, em tais momentos, preferiria ela que lhe batessem – tal a espécie de ansiedade com que desafiava. Quem sabe? Talvez nisso achasse uma justificação, talvez um castigo secretamente desejado, para a sua maldade.
   – Eh, brava! – gritava-lhe o pai, como falando a uma vaca aluada. Era quando, a ele próprio, ela parecia fazer frente, varando-o com esses olhos que fuzilavam de provocação. – Eh, brava!
   Neste grito punha um misto de espanto e repugnância. Era muito difícil a Rodrigo compreender tal temperamento numa rapariga.
   E por tal ficou sendo conhecida em casa, na vizinhança, em todo o lugar, até em Castelo de Vide: a Rosa brava. Simplesmente, não se imagine que neste apelido havia qualquer tom poético ou intenção madrigalesca! Só havia aquele misto de espanto e repugnância que ao próprio pai inspirava Rosa, como se nela fermentassem forças desconhecidas, temíveis, odiosas, que a tornassem um perigoso mistério vivo... Tia Glória também a qualificara de «um Roberto do Diabo de saias».

 

VI

 

   Ora um dia chegou em que esse apelido de Rosa brava foi pronunciado sem a expressão que tinha na boca do comum das pessoas. Pelo contrário: Quando, numas férias, o primo Rogério lhe disse, pela primeira vez, «ah, Rosa brava!», os seus olhos e o tom da sua voz tinham uma censura meiga, dorida, como de namorado que se queixa.
   Antes, porém, de amiudarmos o caso, digamos as prometidas palavras sobre o primo Rogério: filho único, órfão de pai muito novo, Rogério Luís fora criado nas saias da mãe. Era um rapazito indolente, sensível, sonhador, fino de mãos, de pele, de cabelos, de braços, e tão habituado a obedecer à mãe no que exigisse qualquer iniciativa ou decisão importantes, como, por sua vez, a ser obedecido nos seus caprichos sem consequência séria.
   Fora um grande sacrifício para tia Glória apartar-se dele! Mas, terminado o curso do liceu à custa de professores particulares (passara, no Liceu de Portalegre, com uma notazinha decente e a boa vontade dos examinadores), Rogério houvera de partir para Coimbra. Tia Glória queria que o filho tirasse um curso; ainda que, depois, não precisasse de seguir carreira. Afora quaisquer excentricidades, tia Glória era mulher de bom senso:
   – Tem para ele, graças a Deus. Mas a instrução vale mais que tudo! Um rapaz de hoje não lhe basta ser rico para fazer figura. E depois, ninguém sabe o que pode vir a acontecer... Que ele nem rico é – ajuntava modestamente tia Glória –, é remediado.
   E as pessoas sorriam-se com ar agradado e entendido, aprovando maliciosamente a modéstia de tia Glória.
   Eis, pois, Rogério abalando para Coimbra. E Coimbra não lhe fez mal. Deu-lhe, pelo menos, uma aparência de vontade, um desembaraço de maneiras e uma facilidade de linguagem que lhe iam bem. Se lhe não deu mais sabedoria – é que também não era preciso. Para quê gastar-se em aprofundar aquelas secas ou pesadas ciências jurídicas (pois Rogério se matriculara em Direito) quem sabe não vir a ter precisão delas? Tanto mais que as distracções, as tentações e as companhias não faltavam àquele rapaz tão bem-parecido, tão bem-educado e com tão boa mesada.
   Mais de gosto lia Rogério os novelistas e poetas, que declamava a primor. Não chegara a pensar em se mudar para a Faculdade de Letras? E também sabia dizer coisas bonitas a respeito dos livros que lia – o que bastava a plenamente satisfazer sua mãe. Quando Rogério vinha a férias, tia Glória andava em êxtase! Ele pegava no seu livro favorito, dela, e com suave e longínqua ironia declamava:

Vou retratar a Marília,
A Marília, meus amores;
Porém como, se eu não vejo
Quem me empreste as finas cores?

ou

São estes os sítios?
São estes; mas eu
O mesmo não sou.
Marília, tu chamas?
Espera, que eu vou
.

   E tia Glória derretida! A verdade é que toda a melhor sociedade de Castelo de Vide mais ou menos admirava Rogério.
   Para os tios, tornara-se ele a grande esperança do genro ideal: Tão rico, tão instruído, tão delicado e afável de feitio, impossível era que não fizesse feliz a mimosa Marília. Só faltava que abertamente se declarasse. Embora, claro, com a devida discrição (muito convencida ficara ela de ter sido extremamente discreta), já Margarida sondara sua irmã Glória sobre o assunto. O resultado da sondagem fora inteiramente satisfatório. Como pudera não sê-lo? Como pudera não gostar tia Glória de ver unidos os dois seres que mais amava no Mundo? Simplesmente, de modo nenhum quereria tia Glória forçar ou constranger a vontade do filho. Falasse ele primeiro, escolhesse livremente, fosse o primeiro a declarar a sua escolha.
   Estava-se neste pé. Dadas, porém, as galantarias que o loiro Rogério dispensava à loira e deliciosa prima, toda a gente esperava que, nestas férias, ficasse arrumada a questão. Bastava olhá-los quando ele recitava aqueles versos em que aparecia o nome dela, e ela meigamente inclinava a cabeça, de olhos baixos, purpureada como uma rosa, para se não ter dúvidas sobre a profunda corrente de simpatia que os ligava...
   Sim, para a loira e deliciosa prima, era ele o verdadeiro príncipe encantador. Tendo feito os dezoito anos, brilhava Marília mais linda que nunca! Até dos seus achaques passava muito melhor. E toda ela era uma brandura de modos, um enlevo de sorrisos, uma igualdade de humor e uma subtileza de falas – que bem davam a perceber já andar antegozando a felicidade que Deus lhe destinava. No consenso de todos, onde achar o jovem Rogério melhor esposa? E, depois, juntavam-se as duas casas, tudo ficava sendo de uma só família... Os próprios pais de Marília se embalavam no sonho de ventura em que se embalava a filha – e até Rodrigo, nos últimos tempos, dava muito melhor vida à mulher.

 

VII

 

   Claro que só Rosa, a brava… Claro que só Rosa brava se comprazia empanando a auréola que circundava o primo Rogério. Os seus remoques não o poupavam. De sorte que já, por vezes, doendo-se pelo noivo, repetia Marília de si consigo: «Desmancba-prazeres! Desmancha-prazeres!» Ou ainda mais no segredo da sua consciência: «Invejosa! O que te dói sei eu...» Eis como pode a maldade alheia provocar maus pensamentos até nos temperamentos mais doces. Mas tais movimentos, de aliás justa indignação, não chegava Marília a exteriorizá-los. Só Rosa surpreendia o rápido olhar duro, provocante, que, sem querer, lhe atirava a irmã – logo baixando, entanto, as langues pálpebras lilases sobre a face fina. Rosa apanhava-o no ar – e ria-se. A face de Marília incendiava-se de uma raiva que só as duas saberiam interpretar.
   O caso é que não fora Rosa quem era – já conhecida de todos pela sua singularidade ou aspereza – e seria absolutamente imprópria quer da sua idade, quer do seu sexo, a audácia com que perseguia o primo, o criticava, o desafiava... Não fora Rosa quem era, que até se pudera supor coisa aparentemente bem contraditória! Ora tanto mais condenável se tornava a sua atitude porquanto Rogério, actualmente tão desembaraçado noutros passos, com outras pessoas, parecia ficar magoado, inibido, sob as pesadas graças de Rosa. Assim criava ela situações difíceis, uma atmosfera de penoso constrangimento, que parecia impossível não a incomodarem a ela própria!
   Mas quem sabe se não? Em tais naturezas, de modo muito ambíguo se manifestam os sentimentos. Seria impossível que o primo Rogério lhe não fosse tão antipático como as aparências mostravam? Seria impossível que, sendo ela rapariga não obstante a sua braveza – afinal se sentisse inclinada para o brando Rogério pela própria conhecida atracção dos contrários?
   Felizmente, ou não havia nas relações da família quem entendesse destas subtilezas, ou ninguém prestava a Rosa brava devida atenção para perscrutar os possíveis ressentimentos de um coração tão selvagem, tão fechado. Quer dizer, havia: havia tia Glória, havia Marília, havia o próprio Rogério. Mas estaria a ilustrada tia Glória no caso de prestar atenção a tal sobrinha? Uma sobrinha que rira, luciferinamente, quando ela estivera a ponto de partir uma perna no passeio às Carreiras! Marília, essa, ocultava o que sentia ou pressentia sob a sua inatacável compostura. Só a própria Rosa lhe apanhava no ar aqueles olhares secos, reveladores, que fuzilavam e logo se extinguiam como relâmpagos. Quanto a Rogério..., não teria posto a si mesmo qualquer daquelas hipóteses?
   Fosse como fosse, o caso é que sobre ele tecia o destino algo de muito inesperado.
   – Ah, Rosa brava!... – exclamou um dia, quando acabara ela de lhe jogar qualquer dos seus motejos.
   Estavam ao fundo do quintal, sob as nespereiras, contra o muro que fazia varanda para uns terrenos penhascosos de onde espirravam giestas. Houvera muito calor durante o dia. O ar continuava morno, estático. Lá longe, nos confins do horizonte, as serras azuis esbatiam-se numa névoa. E a tarde ia declinando arrastada, perdida numa grande tranquilidade, com uns últimos raios do Sol estirando desmesuradamente, nos montados, as sombras dos sobreiros e azinheiras.
   – Ah, Rosa brava! – exclamara ele.
   Rosa olhou-o com surpresa e curiosidade, um meio sorriso de troça na boca. A verdade é que já doutras vezes lhe sentira na expressão, na voz, qualquer ar como de quem ao mesmo tempo se queixa e cala. Agora, não havia dúvida.
   – Porque és assim tão má? – tornou ele, fitando os olhos nela. E esses olhos eram tão expressivos, que, contra seu costume, Rosa brava ficou embaraçada.
   – Talvez não seja tão má como dizem.
   – Sim, eu sei.
   – Que é que sabes, Lu-Lu?
   – Não me chames Lu-Lu. Estou a falar contigo a sério.
   – A sério?..., tu? Comigo? De quê?
   Fazia esforços para manter o tom com que habitualmente o tratava. Mas esse tom soava agora falso, e Rosa não conseguia esconder um certo mal-estar.
   – Sim, a sério. Não me julgas capaz de falar a sério? Queria dizer-te... há já tempos… que te não julgo como os outros. Para mim... és diferente: uma Rosa brava que eles não entendem, porque só lhe vêem os espinhos. E custa-me que antipatizes comigo, quando eu... quando eu... gosto de ti.
   – Não antipatizo contigo. Só brinco um pouco – disse ela num tom mais quebrado. –    Também não desgosto de ti, no fim de contas!, bem sabes.
   E ainda tentou gracejar:
   – Só não gosto de ver um homem assim a pedir tréguas – É que eu gosto de ti doutra forma, não me entendes? Gosto de ti a valer. Mais que de ninguém... pois é com paixão. Rosa brava, estou doido por ti!
   – O quê?! – gaguejou ela. – Que dizes?... Tu... noivo da Marília...
   Os seus esplêndidos olhos negros, olhos cuja sombria beleza só primo Rogério até então soubera ver, estavam redondos, fitos nele quase com pavor. Isso lhes acentuava o ligeiro estrabismo.
   – Nunca disse nada a Marília que me comprometesse com ela; nem a ninguém. Não tenho culpa dos projectos que façam sobre a minha pessoa. Eu é em ti que penso quando falo com outras. E é contigo que hei-de casar, se me quiseres...
   Bem certo que Rosa brava tentava responder-lhe. Mas a boca pôs-se-lhe branca e a tremer – não conseguia dizer nada. Sob a palidez que a invadira, a sua pele morena parecia verde e tornara-se desagradável. Rogério, que não esperara tal reacção, olhava-a como assustado.
   – Oh! – fez ela com um breve riso quase escarninho, quase pungente. Posto o que, fugiu sem outra explicação nem resposta.

 

VIII

 

   E nessa noite, entre as quatro paredes do seu quarto de rapariga, Rosa brava sustentou uma grande luta. Pela primeira vez se via ao espelho reparando em si, nos seus traços e feições, comparando-os mentalmente com os das irmãs, interrogando-os, interrogando-se. Era feia? Não era feia! Magra e um pouco desajeitada, sim; sobretudo porque bem pouco tratava de se ajeitar. Mas, não obstante a sua expressão agreste e o leve estrabismo que só em certas ocasiões se acentuava, longe estavam os seus grandes olhos negros de serem sem encanto. Seriam mais belos os das irmãs? E não poderia, até, esse leve estrabismo ser tido por uma nova e esquisita sedução? O nariz, tinha-o direito, palpitante; e a boca um pouco grande mas fina e extraordinariamente expressiva. A sua pele, de um moreno-baço, não dizia mal com os espessos cabelos pretos, revoltos, cheios de ondulações e reflexos. Ao fim e ao cabo, até o buçozinho lhe ia a matar – para quem fosse capaz de apreciar o seu género de beleza.
   Ora não haveria quem? Havia – havia o primo Rogério. Rosa brava fremia do seu triunfo! Ela, a brava, a antipática, a impertinente, a posta à margem – a indesejável, em suma –, conquistara um dos melhores partidos das redondezas; se não o melhor: um perfeito rapaz, e rico, inteligente, delicado, admirado..., aquele de quem ninguém supunha haver mulher digna senão a linda Marília, a jóia da casa! Esse a escolhera a ela – preferira Rosa brava. Esse queria casar com a cigana da Rosa: «E é contigo que hei-de casar, se me quiseres...» «E é contigo que hei-de casar, se me quiseres...»
   Seria de ver a cara de Marília, dos pais, da tia Glória, da vizinhança em peso! E que mudança quando ela estivesse instalada na sua posição! Quando pudesse e quisesse vestir- -se bem, aproveitar as suas vantagens, aparecer interessante, manifestar o que nela havia de bom e raro, auxiliar os que sempre a tinham hostilizado, mostrar-se cheia de generosidades e caprichos! Mas caprichos que todos, então, respeitariam...
   Assim o demónio lhe falava pela noite fora, tentando-a. A vela ardia no castiçal de latão. E Rosa não podia sossegar nem deitar-se, não poderia dormir. Andava à roda do quarto, abafando os passos. Surpreendia-se a gesticular diante do espelho e a falar à própria imagem. E dir-se-ia multiplicarem-se os demónios que lhe falavam ao ouvido, cada vez mais cruéis e brutais, e – o que era pior! – falando como se já instalados dentro dela mesma. Sim, tornara-se má? Haviam-lhe criado fama de má? Pois bem, aí tinham uma ocasião de expandir a sua maldade! E a culpa, de quem era? Porque sempre seria ela a má, ela a brava, ela a vergonha – e Marília o ai-jesus da casa, o Chico o menino-bonito e Isabel (mesmo já casada e vivendo fora) a providência de todos? A ela, quem alguma vez fizera o que quer que fosse para a melhorar?, para a entender? Tinham-lhe batido, tinham-na tratado com aversão, tinham-na posto de lado... Mas seria tão ruim – e não conhecia ela a bondade dos outros? Chico não pensava senão em si; aplaudiam-no por isso. Marília na mesma: a sua doçura não passava de um fácil efeito de a trazerem todos nas palminhas. Contrariassem-na um migalho! Talvez nos seus lábios se mantivesse o encantador sorriso, talvez as suas palavras se tornassem ainda mais brandas, mais sensatas, mais condescendentes... porque Marília era inteligente, calculista, bem sabia que por fim venceria. Mas ela, Rosa, que via mais longe – que via! Que via mais longe! –, quantas vezes não apanhara a súbita crueldade, aliás logo extinta, que à menor oposição turvava aqueles bonitos olhos de esmalte? Quanto a Isabel, era bondosa e activa; mas quão limitada de vistas! Pois que sabia Isabel, por exemplo, das coisas admiráveis que só sabe quem anda por fora, vadiando, e observa os céus e as ervas, os animais e as árvores, os horizontes...? E é capaz de arreliar os pais, as irmãs, as senhoras vizinhas ou visitas – mas se levanta de noite para regar uma planta que deixara esquecida; ou não pode deixar de recolher um gato doente que mia à porta da cozinha; ou tira da boca o pão que ia comer para o dar a uma criança de olhos famintos. Isabel... que sabia a pobre Isabel destas coisas? Ela sabia-as: estas, outras. Conhecia a Natureza. E também conhecia as pessoas! Por isso não resistia a implicar com elas. Conhecia o pai... conhecia a mãe. Arreliar as pessoas nem sempre quer dizer que se não seja sua amiga, de um certo modo, ou se não possa ter dó delas. Talvez, depois, até se tenha dó mais à vontade; mais do fundo! Algumas vezes se chegara à mãe, condoída, pois compreendia a sua miséria melhor que a própria; mas sempre se vira repelida com as mesmas palavras estúpidas: «Tu... nem da tua mãe és amiga! Não és capaz de ser amiga de ninguém...» E talvez a mãe nem entendesse que a repelia com estas palavras!
   Capaz de amar e condoer-se, também ela o era. Só lhe não pedissem beijos, lágrimas, festas, carinhos..., nada disso lhe sairia natural; mormente depois de todos a julgarem cerrada a essas branduras femininas. Por igual verificava que na sua compaixão e no seu amor se misturava ódio – o ódio que tinha à comum falta de entendimento. Pois não sabia que toda a gente compreendia muito pouco, principalmente por toda a gente só pensar em si? E tudo isto a consumia a ponto de ter, por força, de ferir as pessoas e lhes dizer coisas duras e trocistas... Não seria a única maneira de lhes perdoar? De as não ficar detestando? Nunca ninguém a compreendera e desculpara. Pois bem, eis uma ocasião de se vingar! Simultaneamente se poderia vingar e fazer bem às pessoas de quem se vingava, porque ia ser rica!, ia ser feliz! Embora nunca o pudesse ter por seu verdadeiro senhor, Rogério não lhe desagradava. Antes seria ela que o dominaria (eis, talvez, a razão por que se sentia inclinada para ele), mas com reconhecimento: Não era ele a única pessoa que parecia adivinhá-la?, que lhe queria?, que sofria por ela? Recusaria a única mão que se lhe oferecia no Mundo? Repeliria esta oportunidade de fazer feliz um ser humano? E porquê? Porque os pais haviam sonhado essa mão para o ai-jesus da Marília?, ou a própria Marília já a tinha por sua?
   Apesar da luz frouxa e trémula, a vela no castiçal de latão acabou por chamar a atenção de Marília, que dormia ao lado. Só um tabique separava os dois quartos, com uma porta de vidros mal tapados por uma cassa. Ou talvez fossem os passos de Rosa que, embora abafados, acabaram por acordar Marília. Marília tinha um sono tão leve!, um soninho de ave.
   – Rosa!... – chamou Marília do outro lado; mas timidamente, porque sabia ser prudente com Rosa.
   – Que é?
   – Ainda tens a vela acesa? Estás doente?
   – Não.
   – Perdeste o sono?
   – Deixa-me cá! Dorme tu.
   «Fala uma pessoa por bem ...», pensou Marília, indignada. Dando muito valor, ela própria, a tudo quanto fizesse ou dissesse em favor de outrem, nada a indignava tanto como ver essa afabilidade mal retribuída. Claro que ou se abstinha de exteriorizar a sua indignação, ou não a exteriorizava senão mansamente. Assim desta vez:
   – Falei-te porque podias precisar de alguma coisa. Não foi para te incomodar.
   – Bem sei. Mas não preciso de nada. Dorme tu em sossego.
   A ironia vibrava na sua voz, e Marília sentiu-a. Voltando-se na cama, como se voltasse costas à irmã, não pôde Marília deixar de ajuntar consigo: «Sempre a mesma! Pois lá te avenhas.»
   Quando Rosa apagou a luz, já um primeiro alvor do dia como que se adivinhava no céu, onde o luar era ainda claro. Noite de Lua! – nunca Rosa brava esqueceria essa noite.    Deixou-se ficar olhando o horizonte, que principiava a tingir-se de um rubor muito diluído. Tamancos sonoros matracavam na estrada, começava a circular gente. Foi, depois, a camioneta de Portalegre que passou, resfolegando, a caminho da estação. E como soprava, a espaços, uma aurazinha gélida, que arrepiava e tinha qualquer coisa do ar que vem de uma gruta, o cantar dos galos ao longe tornava-se misterioso e dilacerante.
Rosa fechou a janela, as portadas. Sem chegar a despir-se de todo, encolheu-se num cobertor. Tentava não pensar mais naquilo... dormir… desaparecer... Apesar de assim a terem perseguido os seus demónios (mas quantas vezes mal sabia ela distinguir os seus demónios dos seus anjos!), qualquer voz muito íntima lhe repetia: «Sabes, sabes qual é o teu destino.» Quando, a meio da noite, a irmã lhe falara, não era o Destino que lhe mandava um dos seus avisos?

 

IX

 

   Três dias andou Rosa brava com os olhos como espantados (era então que o seu estrabismo se chegava a tornar desagradável) e uma ardência de febre em volta das olheiras bistre. Ah, não lhe falassem, nesses dias! Não a provocassem. Bastava ela rir para uma pessoa ficar inquieta: Qualquer coisa ao fundo do seu riso soava a falso e triste. E depois, quando não opunha a quaisquer tentativas de conversa uma cara de bronze, um silêncio pesado de soturnidade feroz – eram escárnios que atingiam como navalhadas pérfidas, zombarias que revoltavam, respostas que se pressentia quererem dizer muito mais do que as palavras... mas o quê? Uf!, só apetecia fugir dela em tais dias.
   Não obstante, alguém, durante esses três dias, lhe procurou falar a sós; sempre sem o conseguir. Sim, bem ela lhe sentia os olhos suplicantes que a interrogavam; ou lhe adivinhava os passos que a perseguiam; por isso lhe trocava os olhares e os passos.
   Ao quarto dia, houve de ser a explicação: Quando Rosa, à tarde, julgando-se livre, descerrou a cancela do jardim para o olival, deu com Rogério, que a esperava meio escondido contra o muro. Teve um inútil movimento de recuo.
   – Foges de mim?... – tentou ele gracejar com um pobre sorriso.
   – Eu?! Não tenho medo de ti.
   – Bem sei. Infelizmente.
   Ficaram uns momentos em silêncio. Ela deu dois passos.
   – Então?... – volveu Rogério, detendo-a –, tens pensado no que te disse?
   – O que foi?
   – Já não te lembras?
   – Não.
   – Fazes-te pior do que és, Rosa brava! Lembras-te perfeitamente. Disse-te que gostava de ti, a valer...
   – Ah, continuamos a brincar?
   – Bem sabes que não estou a brincar.
   – Deu-te agora para boa.
   – Rosa! – disse ele com uma violência que a surpreendeu – não me fales nesse tom! Não se trata de uma brincadeira; nem de um capricho. Quero casar contigo, não posso ser feliz com nenhuma outra...
   – Pois então, nem contes isso a ninguém.
   – Porquê?!
   – Ora...! Riam-se de ti e de mim.
   – Riam-se?! Não sei porquê.
   Ela ficou um instante calada. Como lhe perscrutava o rosto de perto, com avidez, Rogério compreendeu que também para Rosa brava era aquilo mais sério do que ela fingia; e raiou-lhe um clarão de esperança. Procurou-lhe as mãos, que estavam frias, e apertou-as apaixonadamente nas suas. Ela deixara cair o pequeno ramo de madressilvas que viera colhendo ao longo do muro.
   – Ouve, Rosa brava! Isto já não é de agora; mas nunca chegara a compreender tão bem.
   Rosa retirou-lhe as mãos quase brutalmente, encarando-o lívida e com tal furor, tal desespero, que ele ficou estarrecido.
   – Ouve tu também, antes que digas mais tolices. Queres que te explique por que se ririam?
   Os lábios do Rogério tentaram dizer quero com certa firmeza. Porém a palavra mal se lhe ouviu.
   – É porque toda a gente vê que não somos um para o ouro. Eu não sou mulher que te sirva, Lu-Lu; nem tu és homem para mim. Sou uma rapariga ainda mais esquisita do que pensas. Poucos homens me conviriam..., desconfio até que nenhum. Mas então tu... Desculpa, nunca poderia conceber o Lu-Lu meu marido!
   – Oh! – fez ele, sufocado de revolta. Uma onda de vergonha lhe incendiou todo o rosto.    Os seus olhos brilharam como de lágrimas reprimidas... Não! Estavam secos e devoravam Rosa brava como se quisessem penetrá-la, trespassá-la.
– Perdoa! – balbuciou ela um pouco trémula. – Obrigaste-me a explicar-te... Exagerei um pouco!, mas o que arde cura.
   Todavia, lá dentro dela crescia um impulso que mal saberia definir, pois a sua experiência era muito escassa em tal campo. Seria ternura?, piedade?, reconhecimento? Seria o gesto de quem se agarra a uma tábua de salvação? A verdade é que de bom grado lhe deitaria os braços ao pescoço, lhe beijaria a boca e esses olhos febris que a interrogavam, a procuravam conhecer para lá das aparências.
   – Não quero crer que sejas cruel como te mostras! – disse ele por fim. – Nem posso crer que sejas inteiramente sincera no que dizes. Mas cada um tem o seu orgulho. Podias rejeitar-me doutro modo. Também tu estás um pouco enganada a meu respeito. Enfim... não voltarei a importunar-te, descansa. E não falarei disto a ninguém... para que se não riam das minhas pretensões!
   Tinha dado alguns passos, querendo afastar-se mas sem poder decidir-se, quando a prima o chamou:
   – Rogério... porque havemos de ficar mal? Fui grosseira... perdoa. As minhas palavras não diziam o que penso de ti. Sei que és um excelente rapaz, eu é que não te mereço. Não precisas ir muito longe para encontrares quem te mereça... bem sabes. O que desejo é que sejas feliz! E pela minha parte... podes crer... fico-te muito grata... para sempre...
   Pareceu-lhe que se ia enternecer, calou-se, indignada consigo mesma; e estendeu-lhe a mão como a um camarada.
   Então, qualquer coisa julgou ele sentir no tom da sua voz, na expressão do seu rosto, que de novo o atirou para ela num ímpeto de desesperada esperança.
   – Ah, Rosa brava! Se tu quisesses! Ambos melhoraríamos um com o outro. Contigo, com o teu amor, eu poderia ir longe. E verias... verás… que saberei fazer-te feliz...
   Teve um movimento verdadeiramente viril: e, atraindo-a pelo busto, apertou-a furiosamente contra o peito, com a boca de repente colada à sua. Quando veio a si deste impulso, pensou que ela o ia esbofetear. Não: Rosa estava pálida, trémula, e repelia-o sem aspereza.
   – Sim?... aceitas...? – exclamou ele, triturando-lhe as mãos nas suas.
Com todo o rosto iluminado pelo entusiasmo, ela achou-o na verdade belo. Todavia, respondeu:
   – Não... não teimes. Tudo é inútil! Não podes compreender... é impossível.
   A sua voz era cansada; ao mesmo tempo, toda a sua expressão tão definitiva – tão fatal – que ele não insistiu. Olhou-a ainda em silêncio, com uns olhos já desesperados que ela não podia suportar nele (no brilhante e fútil Rogério), e disse:
   – Impossível...? Tu lá sabes.
   O rosto dela fechara-se como o de uma estátua. Rogério apertou-lhe a mão. E Rosa brava viu-o afastar-se um pouco vergado, rápido, procurando a penumbra do muro, como se tivera pressa de se esquivar aos olhos dela e desaparecer.
   Quando deixou de o ver, Rosa abriu de novo a cancela e entrou no jardim. Logo se encostou à grade, a olhar sem saber o quê. A tarde caía sobre o olival, sobre a charneca lá longe, sobre as serras mais além – uma dessas tardes lentas, estagnadas, em que a luz do dia parece demorar-se indefinidamente no céu, pegar-se no ar, e tudo fica imóvel, atónito, suspenso como na expectativa de um crime sagrado ou de um milagre. Só uma voz um pouco áspera, de alguém que se não via, ergueu uma cantiga mais gritada que entoada; e isto pareceu despertar Rosa. Deu alguns passos no carreiro. Súbito, caiu numa espécie de alheamento ainda mais completo: Só agora compreendia o que fizera. Renunciara a vingar-se, renunciara ao amor, renunciara à riqueza, renunciara a ter um lar ou um fim na vida..., mas o que era tudo isso? Só agora via bem ao que verdadeiramente renunciava e o que ganhava em troca – posto lhe fosse inteiramente impossível explicá-lo por palavras. Também só agora compreendia que, na sua noite de tentação e angústia, já pressentira isto que de momento se lhe abria por uma espécie de iluminação. E tudo... porquê? Porque renunciara tanto? Por amor de Marília? Por causa dos pais? Não só por eles, com certeza. Talvez por um destino... por uma imposição de conduta mal conhecida... por uma loucura ou uma crueldade contra si mesma... Seguramente, não podia saber porquê.
   Daí a uns momentos, voltou à realidade. Estivera parada a meio do carreiro, e, decerto, gesticulando e monologando.
   – Pronto! – disse em voz alta. E recomeçou a andar. Mas, na curva do carreiro, deu com Marília que, toda fresca, de tesoura e cestinha, cortava rosas. Olhou-a de modo que logo Marília se encolheu um pouco, receosa... – Ai o meu ai-jesus!, a minha princesa!, o meu torrãozinho branco!, o meu pezinho de salsa! – bradou Rosa brava com uma expressão feroz, agarrando-se violentamente à irmã.
   Marília soltou altos gritos! É que, naquele despautério de se atirar a ela, abraçando-a como se tentasse afogá-la, Rosa brava lhe pisara contra os braços nus as rosas que a pobre tão delicadamente andara escolhendo. Dos espinhos das rosas, já gotas de sangue afloravam como rubis na branca e acetinada pele de Marília. Mas seriam só os espinhos das rosas? Não seriam também as afiadas unhas de Rosa brava?
   Marília tinha as suas razões para ficar na dúvida.

X

   Claro que, passado algum tempo, Rogério e Marília casaram. Realizou-se a cerimónia na igreja de Castelo de Vide. Tanto os pais da noiva como a mãe do noivo tinham querido atribuir ao acto uma certa pompa – que várias meninas casadoiras da vila acharam de mau gosto. Mas a noivazinha parecia uma pomba num escrínio de véus! Todas as pessoas não cegas pelo despeito sinceramente gabaram a beleza do par.
   Antes de um ano, a jovem esposa deu à luz um menino que era um amor. E não se mostrou das menos animosas, vamos lá!
Está-se a ver que o pequenino Rogério (teimara a terna esposa e mãe que ele havia de ter o nome do pai) se tornou a luz dos olhos da avó Glória.
   Isabel já por esse tempo tinha um ranchinho de filhos. Era feliz, bem o merecia. O marido sabia estimá-la, a casa prosperava com o trabalho dele e a economia dela.
   Bem casadas as duas filhas (que se mostravam boas filhas), Rodrigo e Margarida passaram a viver sem preocupações; tanto mais que, com a idade, Rodrigo se ia fazendo menos valdevinos, mais caseiro, não dando já tanto azo aos ciúmes da mulher. O Dr. Rovisco e amigo Sr. Fernandes vinham agora mais vezes, depois do jantar, fazer com ele uma partidinha de jogo. Rodrigo ia beberricando cálices de licor. Geralmente, continuava depois de eles saírem. Muitas vezes era preciso Margarida ajudá-lo a deitar-se. Ela preferia isso, porque tinha junto de si o seu homem. Isso, porém, o atirou mais cedo para a sepultura, com o fígado esfacelado.
   A viúva o chorou levantando gritos, praticando extremos, que ainda conseguiram espantar; posto já conhecesse toda a gente a sua dedicação pelo marido. Para arrancá-la, um pouco, ao excesso da sua dor e às suas dolorosas meditações, Isabel levou-a para casa. Depois disso propalou Marília que já tivera precisamente a mesma lembrança. E tão fervorosamente oferecia, também, o seu palacete (aliás pertencente ainda a tia Glória – mas se nele havia acomodações para tantos!) que a mãe prometeu ir passar com ela umas temporadas. Foi; mas gostava mais de estar em casa de Isabel. Assim a velhice acabou por ser a época mais feliz, pelo menos mais pacífica, da vida de Margarida.
   Por essas alturas se deu a última extravagância que temos a contar de Rosa brava. Tanto mais provocou a censura de toda a gente, porquanto, nos últimos tempos, parecia Rosa ter melhorado, chegando a tratar os pais com relativo carinho. Foi o caso que terminantemente se negou a acompanhar a mãe para casa fosse de quem fosse! Em vão Isabel insistiu, magoada. Em vão procurou mostrar-lhe toda a gente o desconforto e a estranheza de ficar vivendo sozinha nesse casarão que, demais, poderia ser alugado se ela saísse... A este derradeiro argumento, Rosa brava pôs-se às altas. Vá lá que as outras tivessem riquezas, marido, filhos, felicidade, reputação de bondade! Vá lá que o Chico (também já comodamente casado) recolhesse em seu exclusivo proveito o rendimento de bens que lhe não pertenciam só a ele! Também ela, Rosa brava, queria ter alguma coisa: queria a sua independência. Deixassem-na!, mas deixassem-na!, que ali ficaria, sob aquelas telhas, na simples companhia de qualquer moça, a tratar do seu quintal e dos seus gatos, a sair e entrar quando quisesse, a viver consigo mesma à sua vontade... e sem ninguém a quem fizesse sofrer ou a fizesse sofrer a ela.
   Daqui, não arredou pé. Visitaria a mãe e as irmãs quando lhe aprouvesse. E toda a gente suspeitou, ou compreendeu, que por tal género de vida suspirava ela há tempos.
   Comentando esta nova manifestação do feitio rebelde da irmã, dissera Marília:
   – Aquela rapariga chega a fazer-me aflição! Parecia mudada... e vejam lá! Sempre a mesma! Incapaz de se afeiçoar verdadeiramente às pessoas; incapaz de atender às conveniências, ou de ouvir os conselhos seja de quem for. Deus me perdoe, teve sempre essa coisa ruim com ela...
   Mais ou menos continuava neste teor.
   – Cala-te! – acabou por lhe responder o marido. – É tua irmã. Basta que os outros a critiquem. Demais, convém não falarmos do que não chegamos a compreender. Sabe-se lá, às vezes, quem é melhor ou pior...
   – Ora! – tornou Marília um pouco seca. – Eu não sou inteligente como tu... não sei ver assim as coisas. Mas logo sinto quem tem coração, logo sinto.
   E ficou amuada, com o rosto numa brasa que só a fazia mais linda. Parecia-lhe que as palavras de Rogério em defesa de Rosa brava alguma coisa lhe furtavam, a ela, da sua justíssima reputação de virtudes. Já não era, demais, a primeira vez que sentia no tom do marido uma espécie de impaciência que a magoava. Somente, com o seu excelente e hábil feitio, sempre saberia afastar quaisquer ligeiras nuvens do céu azul da sua felicidade.

 
  In RÉGIO, José. Histórias de mulheres , Porto, Portugália, 1946, pp. 200-225.  
 

 

 
 
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