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Biblioteca online do conto |
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D.
JOAQUINA EUSTÁQUIA SIMÕES D'ALJEZUR
(HISTORIETA QUASE ROMÂNTICA) |
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a Carlos Malheiro Dias
  O refúgio, o bucólico sanatório indispensável
às minhas crises de melancolia, era então a horta
dos Pegos Verdes, oásis de laranjeiras sepultado
num vale da serra, entre estevais sem fim. Ali
haviam demorado por vários séculos alguns monges
autênticos, de cuja pobreza os restos do convento
- acanhadíssima construção térrea de pedra e barro
- perpetuavam o atestado suficiente.
   Eu ia para lá a pé, de espingarda a
tiracolo, calculando a hora da partida de modo
que chegasse ao nascer do Sol, quando o hortelão,
o Sr. Elisiário, já andava nas leiras, com a enxada,
a abrir caminho à água.
   A levada de alvenaria passava ao portão;
sentava-me, descansando um instante a escutar
o murmúrio da água, e logo, numa dessas frequentes
e profundas acalmias da madrugada na serra, que
um trilo de rouxinol perturba e magoa, eu cortava
subitamente o silêncio com o meu grito:
   - Elisiário!...
   Da obscuridade rescendente onde o pomar
tufava acudia sem demora a voz do velho, tenebrosa,
ao rés-do-chão:
   - Ora muito bons dias a vossenhoria...
- E em seguida, mais aguda e livre: - Ó Custódia,
ó Custódia... cá temos o patrão...
   Era o sossego de duas vidas consagradas
ao amanho da leiva generosa que perfazia a paz
solene daquele ambiente de solidão, e eu entrava
nela tão naturalmente que nunca a trilhava...
   A minha presença em nada alterava a
norma de existência ao casal de velhos que para
ali viera pouco depois da voda, quarenta anos
atrás. Não tinham filhos nem os haviam desejado
e, encantados no egoísmo daquela quietação cobiçada
e realizada imperturbavelmente, as minhas poucas
palavras eram-lhes indício de uma velhice precoce
por onde nos emparelhávamos, e assim conseguia
eu vencer a sua hostilidade latente, mas sempre
alerta, por tudo quanto revelasse tumultos e petulâncias
da mocidade.
   A minha cama e o meu quarto arranjavam-se
todos os dias, que eu lá estivesse ou não, e esses
cuidados conservavam-lhes na memória a minha lembrança;
quando eu chegava recebiam-me singelamente, como
a alguém que se espera depois de curta ausência,
embora sucedesse passarem-se às vezes anos inteiros
sem que me vissem aparecer. Do que eles comiam
comia eu também, de sorte que nem mesmo o lado
material da sua vida sofria modificação.
   O velho era malicioso, com grande queda
para a zombaria cujo exercício a surdez da mulher
baldava naquele escampado e sobre mim gostosamente
incidia, mais ou menos velada, enquanto por lá
me tinha. A velha, verdadeira pobre de Cristo,
calada e obediente, ia-se dobrando para o chão
como um compasso que se fecha pouco a pouco, emperra
e já não abre; parecia feita de barro amarelecido
e gretado, com duas inextinguíveis pinceladas
de carmim nas faces. O pretexto à minha demora
dava-o a caça, e de espingarda ao ombro subia
eu todas as manhãs muito cedo à cumeada das serras
por onde me deixava ficar horas esquecidas, mas
a caçar de preferência ou exclusivamente, perspectivas
e horizontes... A espingarda, no entanto, escudava-me
a reputação já abalada e que fatalmente se faria
de doido varrido ao vincar a suspeita de que não
era pela caça que eu levava os dias inteiros a
bater mato.
   Umas vezes por outras disparava a espingarda
para o ar ou atirava ao alvo; os tiros ecoavam
pelas quebradas dos montes e ouviam-se no convento,
provocando, ao regresso, grande cópia de perguntas
irónicas e sorrisos de mal disfarçada mofa no
meu caseiro, que me via voltar de mãos vazias,
e cujo auxílio e companhia nas minhas inocentes
explorações campestres eu terminantemente recusava.
As alusões, pouco respeitosas, do socarrão à minha
má estrela venatória - ele não me punha em dúvida
a perícia - eram invariáveis, sem nunca falharem
e divertindo-me sempre. Depois, como se isso lhe
fosse indispensável e seguro intróito à exposição
das suas habilidades e façanhas - para fixar o
contraste entre a minha impotência e o seu valor
-, com bastante pitoresco, embora muito sóbrio
de gestos, descrevia as manhas dos coelhos assustadiços
e os variados voos com que perdizes e rolas se
levantavam fugindo ao caçador inexperiente. "Tricas
de escapar" - chamavam-lhes, mas ajuntando logo:
- Comigo não brincam os passarinhos e se vossenhoria
aqui viesse no tempo da caça proibida, que é quando
vale a pena dar um tiro, ou nos meses em que eu
posso largar a rega, veria então... Que eu bem
sei que vossenhoria no parado acerta como ninguém...
   - Pois, tio Elisiário, amanhã trago-lhe
a bolsa cheia...
   - Vossenhoria anda com pouca sorte.
Aos tiros que lhe tenho ouvido já não devia haver
bicho com vida numa légua em redor...
   E o caso era que os bichos tão-pouco
pareciam acatar-me a destreza. Os coelhos miravam-me,
com aprazível e tranquila curiosidade, da entrada
das suas luras, e uma vez que eu esquecera a espingarda
sobre umas pedras fui encontrá-la feita poleiro,
donde uma perdiz vigiava a ninhada.
   Mas atirar a uma ave, símbolo da graça
inofensiva e da elegância mimosa!... Vê-las voar,
tão leves, e vê-las poisar, num declive tão doce,
como que no ponto certo onde a curva do seu voo
encontra a imaginária tangente...
   Na liberdade daquela solidão tudo era
gozo para os meus sentidos, sempre despertos e
ávidos: o ar impregnado pelas exaltações resinosas
das estevas; o pesado, quase palpável perfume
das moitas de rosmaninho; os gorjeios que a passarinhada
solta como isolados fios de pérolas cristalinas;
o ruído, o remurmúrio de colmeia de que a vida
dos insectos repassa o mato espesso; as borboletas
ardendo na luz intensa, como pequeninas chamas
verdes que se perseguem, e caindo nas sombras
com a opacidade das flores de enxofre... E os
vastos horizontes, familiares, mas duma tão perpétua
novidade, abrangendo no mar faiscante o recorte
sinuoso da costa, lá da Ponta do Altar às rochas
do Cabo, com os estuários do arade e das rias
de Alvor, e, a norte, a perspectiva circular das
serras que fecham o Algarve, imponentes, e até
importunas, quase, nas altíssimas ondulações da
Fóia e da picota, mas morrendo em linhas azuladas,
como que esvaídas, direito ao mar e acamando,
a levante, em aveludadas ondas de musselina...
   Singular e pacificador panorama por
onde, com a alma, a vista se me alongava infinitamente
apaziguada!
   Não, não era para verter sangue que
eu ia aos Pegos Verdes, pois logo me penetrava
a clemência duma grande harmonia idílica, mas
tão-pouco estranhava a ferocidade instintiva e
cultivada do tio Elisiário, que bem lhe correspondia
à expressão macabra do rosto: em pequeno tivera
a desgraça de esborrachar o nariz, ficando-lhe
essa feição estampada ao meio da cara como um
ás de paus...
   As minhas belas sestas dormidas no
terreiro da igreja, debaixo duma copadíssima alfarrobeira,
que ali imperava escoltada por oliveiras! A agitação
de umas tantas vides, soltas e reverdecidas em
pleno sol, hipnotizava-me; o sussurro da aragem
nas ramadas da imensa árvore, embalava-me; outras
vezes o vento dava com força nas altas oliveiras
com o ruído sinuoso e ecoado duma grande vaga
a rebentar na areia da praia e os meus sonos ali
eram prolongados, reparadores e deliciosíssimos.
   Os dias corriam-me tão serenos, tão
iguais, naquele ermo dos Pegos Verdes, que pouco
a pouco o espírito se me tranquilizava e como
um líquido repousado que deposita, por fim, no
fundo do vaso, todas as impurezas que o embaciavam,
passadas algumas semanas fazia-se-me no cérebro
a limpidez necessária. Calmo e indulgente, pois
é o veneno da própria atrabílis que nos intoxica
a visão do próximo, voltava à convivência dos
povoados...
   Em uma dessas temporadas de purificação,
já quando pensava em a dar por finda para voltar
às obrigações da vida social, uma tarde que o
calor me levara ao preferido retiro da alfarrobeira,
veio-me o tio Elisiário dizer que chegara ao convento
uma senhora em minha busca.
   - É uma verdadeira madama!...
   Não seria fácil pintar a expressão
de assombro e malícia quase obscena com que o
velhaco sublinhava a designação de madama.
   - E como se chama essa madama? - inquiri
sonolento, e mais aborrecido do que surpreendido.
   - Não sei, nem ela quis dizer o nome,
porque o patrão também a não conhece... Metia-a
na casa onde vossenhoria come. Vem esbofada com
o calor e em trajes de viúva...
   - Você nunca a viu, Elisiário?
   - Eu nunca, mas a minha mulher diz
que aquela cara não lhe é de todo estranha e que
já uma vez na feira de Lagos a encontrou passeando
sozinha na Rua dos Ourives...
   Fui. À sombra das parreiras, cuja latada
separa o convento da horta, descansava um mocetão
espadaúdo e hercúleo, vestido de soriano escuro,
encostado à albarda de uma estafadíssima égua
que arreganhava os dentes direito à rama viçosa
do batatal.
   - É o pajem... - segredou-me o Elisiário,
piscando o olho.
   Entrei no convento. Na casa de jantar
pouca luz havia e essa mesma quase não alcançava
o recanto ao qual a misteriosa visita se acolhera
e que eu, ainda encandeado, a princípio mal divisei
na cadeira onde o seu vulto negro foi pouco a
pouco tomando forma.
   Dei as boas-tardes, abri a janela e
de relance, enquanto buscava assento, examinei
a desconhecida que, muito naturalmente, sem se
levantar, me estendeu a mão descarnada e fina.
   Devia ser mulher de quarenta anos.
Alta, delgada, envolta nas pregas dum grande xale
de caxemira preta, que a saia de merino prolongava
no mesmo tom tenebroso até ao chão, sustinha o
corpo num conjunto elegante e digno; as feições
regulares e emaciadas, cuja palidez ebúrnea se
acentuava sob o alpendre da mantilha negra e lisa,
e as pálpebras vermelhas do carmim vivo que o
costumado choro parece destilar...
   Silenciosa, apertou-me a mão, deixando,
logo, cair a sua, pesadamente, nas sombras do
regaço, ao passo que a mão esquerda, espalmada
sobre o peito, aí desenhava a fragilidade dos
seus longos dedos, como que a aguentar baldamente
as palpitações dolorosas de um coração martirizado.
   Instintivamente a comparei à "Mater"
do Germano Pilon, obra-prima de expressão dolorosa
- embora um quase nada declamatória - com a qual
o museu do Louvre se orgulha e de que a misteriosa
senhora parecia haver copiado a atitude sofredora.
   - V. Ex.a o que deseja deste seu criado?
- disse eu a meia voz, realmente impressionado
pela trágica nobreza do seu aspecto.
   Antes de me responder ergueu vagarosamente
os olhos ao céu com o semblante de quem implora
a inspiração divina, depois, ainda mais vagarosamente,
poisou-os em mim e, com a voz funda onde persistia
a dorida rouquidão dos soluços abafados, exclamou:
   - Eu sou Dona Joaquina Eustáquia Simões
d'Aljezur...
   - De Aljezur!... E veio V. Ex.a de
tão longe a cavalo, com este calor tremendo. Mas
deve estar muito cansada! Não deseja tomar alguma
coisa? Suplico-lhe que mande sem cerimónia, como
se estivesse na sua própria casa...
   - Aljezur é o meu nome de família;
de Aljezur foram os meus antepassados que, sem
jactância, poderei aquilatar de nobres... Eu,
hoje, moro em Bensafrim; pela estrada velha, tomando
os atalhos, não chega a duas léguas de caminho...
Agradeço a V. Ex.a o seu cuidado, mas não estou
cansada nem preciso de tomar coisa alguma...
   Após demorada pausa continuou:
   - Não admira que nunca ouvisse falar
no meu nome e que até o ignore por completo: V.
Ex.a é muito novo; nem mesmo poderia lembrar-se
da época do verdadeiro esplendor da minha família:
eu própria dele só conheço os decadentes vestígios...
Nasci sob a influência duma funestíssima estrela
e até desses vestígios me desapossaram...
   Aqui as suas mãos de marfim, soltas,
agitaram-se à altura do rosto para logo se enclavinharem
na negridão das roupagens, enquanto um grande
soluço lhe estrangulava aflitivamente a voz...
   A piedade irrebatível perante espectáculo
de tão patente infortúnio, aflorou-me aos lábios
em palavras de conforto; animei-a como a criança
desvalida, no transe da orfandade, e escutei-lhe
a pungente história, preso duma comoção que não
esmereceu até final.
   Sem protecção de ninguém, viúva de
um oficial que provara em combates coloniais o
seu arrojo - digno também da nobilíssima estirpe
donde provinha -, reduzida à miséria, escorraçada
de quantos lhe deviam respeito e amparo, abandonada
no isolamento de uma insignificante propriedade
já roída de hipotecas, via-se esbulhada do grande
património, que legitimamente lhe pertencia, cuja
importância despertara a avidez de parentes poderosos
e activos, os quais, vivendo na capital, conseguiam
inutilizar quantos esforços ela empregasse para
entrar judicialmente na posse do que era seu.
   Aos descoráveis algozes fora-lhes fácil
apoderar-se e talvez destruir os principais documentos
em que baseava os seus direitos, documentos confiados
ao célebre advogado Rodrigues de Moura, que preparara
a acção judicial. Desgraçadamente, depois da morte
daquele homem generoso, de cujo desinteressado
patrocínio ela recebera provas inúmeras, o seu
sucessor, o Dr. Claro Fernandes, ou por sugestão
dos seus implacáveis inimigos ou porque realmente
não possuísse já os elementos suficientes à continuação
do pleito - este alvitre repugnava menos à natural
delicadeza dos seus sentimentos -, recusava dar-lhe
andamento, deixando sem resposta todas as suas
cartas, e sabendo a minha intimidade com o Dr.
Claro - com efeito havíamos sido camaradas em
Coimbra - atrevera-se a vir suplicar--me que interviesse,
escrevendo-lhe.
   Tal o resumo de quanto a ilustre "dolorosa"
me expôs, mas sem tentar, nem de leve, reproduzir
o tom digno, o entranhado sentido, a substância
trágica das suas lamentações e ainda menos o colorido,
a veemência com que narrava, exaltando-se até
aos mais levantados raptos de emocionante eloquência,
com os quais, decerto, encobria ou transpunha
passagens melindrosas de cuja elucidação claramente
se pejava, sobretudo nas imprescindíveis e rápidas
alusões às peripécias do seu casamento, que fora
também singularmente infeliz.
   Prometi - e tão sincero quanto o confrangimento
verdadeiro por calamidades alheias pode mover
um homem de brios - senão fazer-me seu paladino,
pelo menos insistir, apertar com o meu amigo Claro
Fernandes para que lhe prestasse o auxílio devido.
Eu fiava do fundo cavalheiroso do seu carácter
a mais pronta solicitude por aliviar tão peregrina
como injustificada desventura, quando esta lhe
fosse bem patente, e de antemão garantia à pobre
senhora que encontrava no fogoso e moço advogado
auxiliar não menos prestável do que lhe fora o
seu antecessor, e, felicitando-me pelo feliz acaso,
mercê do qual eu interviria em assunto assim sugestivo
de generosos impulsos, lisonjeava-me profundamente
que me houvesse escolhido para seu intermediário.
   A cada uma das minhas palavras as feições
de D. Joaquina Eustáquia pareciam desanuviar-se,
refundindo-se em calma tranquilidade, em quase
alegre confiança.
   Secaram-se-lhe os olhos, sorriu, apertou
de novo o coração, certamente já menos oprimido,
com uma das mãos, estendendo-me, num gesto de
confiado abandono, a outra mão, que eu beijei,
respeitoso.
   Protestou o seu eterno reconhecimento,
como cumpria, mas ainda em termos levantados,
com a espontaneidade de uma alma que se expande
livremente ao calor de outra alma cuja rara generosidade
a não frustrara na sua esperança até ali tanta
vez desiludida, e assim se despediu.
   Ao transpor a porta do claustro uma
revoada de pombos mansos poisou-nos em volta com
o ruído de água lançada de alto, aos baldes. D.
Joaquina deteve-se um instante, como que embevecida
na graça das aves irrequietas, mas quando se inclinava
para as amimar, o tio Elisiário acudiu, solícito,
a enxotá-las. O bando levantou voo, passando quase
ao de cima das nossas cabeças com o rumor isócrono
do arfar de um cão cansado, e D. Joaquina ficou-se
ainda um momento, extática, feminilmente, quase
infantilmente graciosa, com as mãos estendidas
direito ao céu onde os pombos se perdiam.
   - Pois haverá no mundo nada mais lindo,
mais elegante, mais livre do que uma ave! - observou-me.
   Foi realmente espectáculo para ser
olhado, a agilidade juvenil, junta ao desembaraço
de consumada cavaleira, com que ela, estribando-se
na mão que o pajem lhe oferecia, saltou sobre
a albarda da égua e a meteu pelo caminho da serra
num chouto rápido, seguida a custo do companheiro.
Ao longe a égua tomou feição de palafrém caminhando,
ligeiro, sob o peso de alguma desditosa princesa
de balada...
   Mas a voz do tio Elisiário soou inesperada
e zombeteira a meu lado:
   - O pajem é forto moço... mas tem o
nariz vermelho e roído... Aquilo deve ser formigo...
   - Não fale em narizes, Elisiário, porque
o seu também é bonito... - atalhei, severa e secamente.
   E recolhi-me a cismar na história de
D. Joaquina Eustáquia, vulgar, talvez, nos seus
pormenores mas tão fantástica pela incontestável
estranheza da sua dramática heroína...
   O meu primeiro cuidado, quando regressei
a casa, foi escrever ao Dr. Claro expondo o caso,
instando por imediata resposta e instigando-o
a que, embora as aparências fossem desfavoráveis
a D. Joaquina, concedesse ao seu pleito a atenção
que, a meu ver, ele merecia.
   A resposta não se fez esperar. O meu
amigo prometia tomar o assunto a peito, ajuntando
que os empregados do escritório, contemporâneos
do seu predecessor, se lembravam ainda de D. Joaquina
como de alguém que consubstanciasse, não as calamidades
do destino adverso, mas os predicados mais ridículos
que possível fosse imaginar - sem poderem no entanto
explicar o motivo de semelhante impressão, de
resto frequente em subalternos perante o infortúnio
desamparado e importuno. Isso por modo algum o
desviaria de se ocupar seriamente da questão,
esperando, para muito em breve, dar- -me notícias
mais minuciosas e animadoras.
   Ao mesmo tempo, encontrando-me com
pessoa de Lagos, sempre bem informada e discreta,
perguntei se alguma coisa sabia acerca de D. Joaquina
Eustáquia e por ser negativa a sua resposta instei
a que inquirisse o necessário da própria gente
de Bensafrim.
   Passaram meses sem que me chegassem
novas directas ou indirectas da desventurada,
e quando justamente me dispunha a visitar o cabo
de S. Vicente, fazendo caminho por Bensafrim,
recebi carta do Dr. Claro atestando formalissimamente
que D. Joaquina Eustáquia Simões d'Aljezur era
o tipo acabado da histérica mentirosa e trapaceira,
desvairada por fantásticos sonhos de grandeza
e vesânicos terrores de perseguições; que tais
documentos jamais haviam existido fora da sua
imaginação prevertida, e os seus parentes eram-no
apenas por afinidade, mas pessoas de comprovada
e indubitável honradez, para quem toda e qualquer
alusão à triste heroína doía como afronta directa
e imerecida.
   Em Lagos, de passagem para o Cabo,
o informador cujas luzes solicitara corroborou
a opinião do advogado com a do povo de Bensafrim
onde ela era tida e havida por louca e alcunhada
ridiculamente de "Princesa de..."; o informador
não conseguira averiguar com exactidão o nome
do escarninho principado...
   Que mais poderia eu fazer a bem de
D. Joaquina? Em meu próprio bem resolvi abandoná-la
e remeter-me ao silêncio tenaz das almas limpas
de remorso.
   Demorei-me três dias na região do Cabo.
O sítio onde se levanta a torre do farol, nas
ruínas anexas ao velho mosteiro, é soberbo de
trágico, orgulhoso isolamento, que tudo em volta
acentua e harmoniza.
   A monstruosa penedia mociça de Sagres
aguenta as investidas do mar do sul e de encontro
ao esporão rochoso do Cabo se pulverizam os raivosos
vagalhões que o vento norte atira pela costa de
Portugal abaixo. Toda a paisagem se repassa da
heróica tristeza daquelas incessantes lutas e
na charneca vizinha ao mar as raríssimas árvores
que medraram vivem quase rentes com a terra, dobradas
para levante, fugindo, desgrenhadas, aos arremessos
da tormenta.
   Mas a lembrança de D. Joaquina, evocada,
involuntária e fugitivamente, naquele cenário,
perseguia-me ainda mais dolorosa e dramatizada,
como se o seu vulto negro por ali errasse açoitado
dos elementos...
   E, com efeito, era ali que conviria
juntar aos uivos da procela os clamores lamentosos
de uma alma torturada, no desamparo!
   Mesmo em frente ao Cabo levanta-se
um leixão de que o mar padece há séculos e a mais
e mais se empenha em desfazer. Ali tudo ferve
em cachões de espuma e é temeroso de ver como
o mar se lhe cava em roda para lhe dar assalto
e o sepulta nas ruínas dos altíssimos castelos
que levanta e, bramindo, cai de novo e se cava
mais fundo e logo se ergue mais alto para de novo
o envolver nos concêntricos turbilhões das catadupas
de um feroz remoinho, ao concertado esforço de
o arrancar!
   Mas o rochedo deve ter as raízes no
coração da terra, pois nada o abala!
   E também é curioso de ver em dias amenos,
quando ele se reflecte na água espelhada, como
se estria de gumes e parece abrolhado de navalhas.
   Quem pudesse atirar sobre ele, ao sabor
do mar enfurecido, as nossas mágoas, os nossos
remorsos, os nossos vícios. Como tudo sairia dali
retalhado, sangrando, disforme, inútil e com que
delícia não seria então recebida a morte que nos
nivelasse a dor pela alegria, e nos obsorvesse
as cruéis claridades da alma por onde se desdobram
tão angustiosas tragédias!
   Era ainda a imagem lutuosa de D. Joaquina
que tais lamentações me sugeria, mas a imagem
que se movia e trabalhava pelo inconsciente, pois
se acaso eu a apercebia, logo tratava de a rebater
como a espectro importuno e vexatório. Para que
agravar a minha própria tragédia enxertando-lhe
o drama de uma existência onde a irremediável
loucura fazia a cada instante novos e insanáveis
destroços... Loucura!... É tão falível o conceito
não só do vulgo mas dos que se equilibram tranquilos
na gloriosa plenitude de uma vida desembaraçada,
quando se trata de algum ser anormal que as vicissitudes
arrastam por sendas inexploradas ou desconhecidas!
   Mas o egoísmo sempre triunfava à ideia
de alijar do espírito semelhante obsessão e foi
inabalavelmente decidido a não me ocupar mais
de tal criatura que eu regressei a casa.
   Outra carta do Dr. Claro, que chegara
durante a minha curta ausência, ateou o interesse,
que parecia de todo extinto, em exultantes labaredas.
   O meu amigo penitenciava-se da leviandade
com que tentara justiçar a pobre vítima à falta
do fio encontrado, agora, casualmente, para fácil
penetração ao labirinto que devia ser a vida de
D. Joaquina Eustáquia Simões d'Aljezur. Houvera
processo por ocasião do seu divórcio e o marido
não só lhe negara o valiosíssimo dote, que por
contrato antenupcial lhe devia, mas até os alimentos
lhe recusara. A virtuosa família do marido - cuja
morte pouco tardou após a separação - abafara
o processo e ele pedia-me que obtivesse, quanto
antes, de D. Joaquina certos esclarecimentos de
que mandava nota, jurando que, a realizarem-se
as suas previsões, tomaria à sua conta levar o
pleito a final e por todas as instâncias, ainda
que nisso empenhasse a posição que ocupava no
foro e alguns bens que possuía.
   Cavalheiroso amigo!
   D. Joaquina, é certo, não aludira durante
a nossa entrevista dos Pegos Verdes à circunstância
do divórcio, nem explicara a razão por que não
usava o nome do marido, o que era, pelo menos,
singular. Mas isso o que importava!
   A esperança, a quase certeza de que
havia realidade nas suas queixas e justiça nas
suas pretensões, e a convicção de que ela era
a vítima imbele da cupidez e da maldade de uns
hipócritas mascarados de generosos sentimentos
mas seguramente de tigrino coração e catadura
feroz - como convém à falsa virtude - apoleavam-me
de remorsos, exacerbados ainda por haver, tão
facilmente, dado crédito às atordoadas do vulgo
celerado e estúpido.
   Eu desejaria voar até Bensafrim e descendo-lhe
ao humilde tugúrio, qual enviado celestial, depor-lhe
no regaço a palma do martírio e na fronte a imarcessível
coroa de rosas da inocência resgatada.
   Estávamos no começo de Março, num período
de dias aprazíveis. Parti na manhã seguinte, às
9 horas, com um sol de Inverno radiante.
   Parti, mais serenado já, mas com a
iluminação do triunfo a ampliar-me a alma e em
plena comunhão com a natureza que se expandia
luxuriante.
   A estrada sai da vila por entre hortejos
e pomares com as pereiras e os pessegueiros então
floridos. Pelos espaldares dos outeiros viam-se
jeiras lavradas de fresco, onde as amendoeiras,
já tupidas em folhagem tenra, se enovelavam em
manchas de mimoso verde-claro. Era milagrosa a
transparência da atmosfera nas várzeas da Torre,
com os salgados dos Montes, à esquerda, listrados
de água espelhada nas valas cheias e a seguir,
a Abicada reverdecida em searas espessas, até
perder de vista, dando, a sul, nas linhas virgilianas
da barra de Alvor. Logo passámos à extensa área
pedregosa que antecede as terras do Diaxere, de
uma larguíssima ondulação melancólica. À entrada
de Lagos a surpresa sempre alacre da ria lavada
de toda a fresquidão do mar, o hálito da preiamar
em aragens leves e penetrantes, cheirando a melancia;
e o mar, uma linha azulada onde se balouçava um
grande patacho branco. Depois, subindo, esse aberto
mar azul engastado na curva puríssima do areal
da Meia-Praia e para oeste a Ponta da Piedade,
rochas de uma solidez duvidosa, todas comidas
ou mordidas da vivíssima luz que a água reflecte;
e a caminho de Bensafrim as várzeas de esmeralda
do Paul, de onde se levantam, como nas margens
de um lago italiano, agudos serros pedregosos.
   Bensafrim, caída no fundo de um vale
entre duas serras íngremes, assenta na faixa de
grés que atravessa o Algarve e ali serpeia numa
inundação de águas ruivas petrificadas, com ruas
pelos alastramentos laminados de onda que se fossilizou
ao espraiar.
   A norte, o serro coberto de estevais
coroa-se de um moinho de imensas asas sempre furiosamente
batidas pelo vento, como se Notus lá desembocasse;
a sul, o outro serro, mais sobranceiro, mais íngreme,
fazendo sombra à estrada e ao povoado, fortifica-se
naturalmente a blocos de calcário jurássico, que
o amuralham até ao cume, dentando-o de formidáveis
ameias.
   Pedi informações, numa venda ao pé
da estrada, acerca do paradeiro de D. Joaquina.
O taberneiro vem em pessoa cumprimentar-me, empunhando
um copázio de vinho já meio vazio que solta dos
lábios horrorosamente cancerados, instando, com
enfadonha insistência, por que eu beba o resto...
   Apeio-me. O homem da venda, mau grado
a minha formal recusa de lhe beber as sobras,
condescende em indicar o caminho ao meu cocheiro,
e um garoto dos seus doze anos salta para a boleia
a fim de nos guiar.
   Ou seguindo de trem, pela estrada que
rodeia o serro do moinho, ou subindo a pé ao moinho
e descendo a outra vertente, dá-se no fundo do
vale com a casa de D. Joaquina. Eu prefiro ir
só, pelo moinho.
   Atravessando a ribeira a vau subo ao
serro pelos estevais; comigo vai subindo o vento
que no topo assopra em furacão as velas do moinho
e as faz rodar loucamente. Mas, daí, o espectáculo
é soberbo, com a perspectiva de serras que se
desdobram até ao cabo, azuis, violetas, e lá muito
ao fim, esfumadas, no contraste das linhas de
Sagres, que se apercebem recortadas na rocha aos
entalhes, com ásperos escuros cavados entre arestas
vivas e luminosas. A norte as serras de Monchique
aparecem inteiramente outras, separadas, com um
mamelão isolado entre a Fóia e a Picota...
   A vegetação lanceolada que acompanha
os sinuosos ribeiros cristalinos vai correndo
pela base do serro e passa a poente, junto a uma
casa abarracada; na ponte, em frente a essa casa,
parou o meu trem: é sem dúvida ali que mora D.
Joaquina.
   Desço por altos estevais espessíssimos
que me fustigam a cara e me untam o fato de resina.
A casa é um pequeno e pobre monte algarvio, com
porta e janela, que foi pintado a cor-de-rosa
e agora mostra por entre grandes côdeas de reboco
já caído as talhadas da taipa, como um bolo que
perdeu parte da sua capa de açúcar.
   Aproximo-me da entrada que tem a porta
aberta: ninguém.
   Entro a uma casa ladrilhada e miseravelmente
mobilada com desmanteladas cadeiras e mesa de
castanho. Dentro, no quarto, ouvem-se vozes em
contenda. Uma dessas vozes, que amolecia por vezes,
silvava, a largos intervalos, no tom, que logo
reconheci, da fala de D. Joaquina quando estrugia
a sua indignação de vítima recriminadora. A outra
voz, em tom igual, acompanhada por baques surdos,
assim de golpes feridos em corpo flácido, dizia
vitupérios.
   - Ah! porca, ah! velhaca, assim é que
tu poupas o dinheiro, bebendo logo duma vez toda
a aguardente... Ah! safada! Toma, toma, toma...
que não deixaste nem uma pinga...
   Após muito breve hesitação passei à
outra casa. D. Joaquina, sobre um capacho roto,
em pernas que se escanifravam descarnadas e negras,
estorcia-se nas mãos do pajem, o qual, ajoelhado,
a zurzia metodicamente, e antes de fugir ainda
a ouvi murmurando, já rendida:
   - Ah!... filho... não me batas tanto...
que me dói muito amanhã...
   Fui para o trem, não horrorizado nem
ofendido, mas triste... O cocheiro olhava-me com
escárnio e o moço ria à socapa. Antes de me meter
na carruagem, perguntei ao garoto:
   - Então tu conheces aquela senhora?
   - Que senhora?...
   - A que mora ali, naquela casa...
   - Aquela... senhora... É a Princesa
Venérea...
   - Princesa Venérea?!...
   - Assim lhe chamam aqui todos...
   - Porquê?...
   - Não sei... Aquilo é uma refinadíssima
bêbeda, que tem deitado a perder toda a rapaziada
do povo...
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In GOMES, Manuel Teixeira. Gente singular, prefácio de Urbano Tavares Rodrigues,
notas de Urbano Tavares Rodrigues, Helena Carvalhão Buescu e
Vitor Wladimiro Ferreira, Lisboa, Bertrand, 1988, pp. 11-31.
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