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Camilo Castelo Branco

 
 
O DEGREDADO
 
 
 

 
... Por se não perderem da memória dos

homens que escreverem depois de nós,

                                                                                 tão gloriosos feitos.

 

João de Barros, Década I, Prólogo

 

 

Aos Senhores Fidalgos da Casa Real e

Cavaleiros Professos da Ordem de Cristo

 

 

Ofereço a Vossas Excelências por dois tostões esta biografia de um seu confrade. Vão as suas pes­soas, senhores fidalgos e cavaleiros professos, ufanar-se do irmão d’armas que tiveram na sua cavalaria.

Deus guarde a Vossas Excelências para confusão de Bonança, de Latino Coelho, de Oliveira Marreca e das outras cabeças da hidra.

De S. Miguel de Seide, aos 20 de Novembro de 1876.

 

 

Advertência preambular

 

 

Este opúsculo é um fragmento do meu Nobiliário. Quando a obra completa vier a lume, terei esboçado o perfil do meu país neste quartel do século XIX . No ano 3000, a história das actuais traças e manhas portuguesas será estudada no meu Nobiliário. Se houver lacunas e imperfeições neste livro, serão preenchidas e sanadas pelos anúncios eróticos e fesceninos dos jornais medianeiros nas coisas mais secretas e delicadas do peito humano: – completa madureza da civilização pela imprensa. Se o Jornal de Notícias me consente a presunção, afoito-me a vaticinar que na podridão do fidalgo de ruim casta há-de tresandar mais a etnografia do século XIX do que no alcaiotismo dos amorios estampados e atirados nas asas dos quatro ventos a milhares de leitores (Tiragem: 25.500 exemplares). Estudiosos que patinhem no marnel dos meus comendadores hão-de ser em maior número, se não me engano, que os curiosos em descobrir quem fosse a senhora do anúncio – chapéu verde, luneta de tartaruga – a qual bem pode ser que fosse uma tartaruga de luneta.
Seja como for, lá vamos todos para a posteridade.

 

O DEGREDADO

 

 

Tem Portugal uns povoados sertanejos que os políticos e os literatos exploram, metendo a riso as coisas e as pessoas de lá. Aqui há trinta anos, os folhetinistas deitaram a garra a Fi­gueiró dos Vinhos e Freixo de Espada à Cinta. Mal diriam eles que deste velho burgo acastelado havia de sair o fulminador de Jeová e do diabo, o sr. Guerra Junqueiro, o mais bizarro pin­tor de uma sociedade morfética, e o mais canoro secretário-geral que ainda ouviram ministros do reino e governadores civis! Eis o ponto culminante onde pode trepar um aedo português – falando à grega como eles – se cavalga péga­so sem esparavões. Poeta que, hoje em dia, com os seus cantares, apanhe emprego de lotação de 400$000 rs. afora emolumentos, corresponde ao grego Simónides que, em concursos poéticos, ganhou 56 bois. Bons tempos! Um hino grego rendia uma manada de reses pesando pouco mais ou menos 32.000 quilogra­mas; hoje, e aqui no pais da madressilva e da laranjeira, não há quem abra concurso de sonetos a meio bife.
A omnipotência do plectro, ainda assim! No período te­nebroso dos Cabrais, quando o poeta era um hilota que queimava as asas do génio em meios-ponches fiados no Marrare das Sete-Portas, o sr. Guerra Junqueiro, se flores­cesse então, vingaria enternecer ministérios em peso, para demonstrar que na Trácia e em Portugal aparecem Orfeus, quando é necessário mover ursos ao som da lira1.
Ali, em Freixo de Espada à Cinta, nasceu também o pri­meiro jesuíta português, o padre Gonçalo de Medeiros. Dois filhos que não parecem da mesma mãe. Compensações. O mal que fez o jesuíta anda o poeta a remediá-lo.
Depois, chegou a vez à Aldeia de Paio Pires, a Maçãs de D. Maria, a Cucujães e Ranhados. A ironia fez destas povoa­ções uns símbolos de morgados lorpas, de morgadas nutridas, de deputados parranamente beldroegas e de trovistas ainda is­cados de romântico solau. Ninguém já ousava dizer que nas­ceu ali. Muita gente não se baptizava para não haver docu­mento de haver nascido. As famílias decentes emigraram, fal­sificando os passaportes. É que a ironia dos noticiaristas pas­sara por ali assoladora como as patas dos cavalos númidas e a cimitarra dos filhos do crescente.
Há-de haver um século que a aldeia mais chasqueada era a Samardã2. Filinto Elísio valeu-se daquela aldeia todas as ve­zes que necessitou naturalizar um patola. Entre vários lanços das suas obras, escolho o seguinte:

Saiu da Samardã certo pedreiro
Faminto de ouro, em busca da fortuna;
Embarca, vai-se ao Rio, deita às Minas,
E lida, e foça, e sua, arranca à Terra
O luzente metal, que o vulgo adora.
Vem rico a Samardã; vinhas, searas,
Casas, móveis, baixela compra fofo:
Brocados veste, vai-se nos domingos
Espanejar à Igreja, acompanhado
De lacaios esbeltos; vem o Cura,
Saudá-lo com água benta; os mais graúdos
Do lugarejo a visitá-lo acorrem;
Para ele os rapapés, as barretadas
Se apostavam de longe a qual mais prestes.
Falavam-lhe os vizinhos e a gazeta
Na célebre Paris, cidade guapa
Onde todo o estrangeiro nobre ou rico
Vai fazer seu papel. Ei-lo azoado
Que deixa a Samardã, que se apresenta
Na capital francesa; roda em coche,
Alardeia librés; passeia Louvres,
Versalhes, Trianões. Volta enfadado
À sua Samardã. – «Gabam tal gente
«De polida! Oh! mal haja quem tal disse!
«Corri casas, palácios, corri ruas;
«Não vi um só, nem grande nem plebeu,
«Que, ao passar, me corteje c’o chapéu».

O padre Francisco Manuel, se em vez da Samardã, – ser­rana e fragosa aldeia, que não tem igreja nem cura – esco­lhesse para terra natal do seu rico parvajola alguma das ci­dades notáveis do reino, teria escrito um conto verosímil.
Do Porto da minha mocidade, abalavam às vezes para a Europa, diziam eles, uns moços dinheirosos que não tinham perfeita certeza se a rua da Sovela ou da Reboleira, onde haviam nascido, estavam dentro da Europa. Cada um levava quatro malas inglesas, como quem ia para os confins da alta Ásia. Mandava inscrever o seu itinerário no Periódico dos Po­bres, e gastava quinze dias a despedir-se de parentes e amigos com o ar pensativo de quem ia fazer uma viagem de circunva­lação.
Estes Franklins e Cooks de cabotagem deixavam as ama­das com ataques histéricos, nervosas de ciúmes das dançarinas de Paris, das grandes lorettes ou loureiras, portuguesmente falando, da Cora Pearl, de mad. Paiva, que tinha palácio com escadaria de ónix, e era esposa daquele galhardo moço português-macaense, que lá se matou há seis anos, cerrando com o suicídio a meda dos desatinos. As princesas da Nova Babilónia de Eugéne Pelletan eram conhecidas até à Porta de Carros. Vogava então o chic em Paris, – o chic nacionalizado em Portugal trinta anos depois, quando lá em França já diziam Zing3.
Da parte das damas zelosas, diga-se verdade, era isto um luxo de ciúmes. Aqueles mancebos entravam em Paris, sérios e sornas como o nosso Padre Simão Rodrigues quando ia ao Colégio de Santa Bárbara conferenciar coisas do céu com o seu amigo Inácio de Loiola.
Escolhiam aposentos em bairro de celebrada gravidade, no Saint-Germain: hotel de Londres, ou hotel des Ministres. A barba britânica do viajante, a sua taciturnidade de inglês em jejum, o ar recolhido de quem está ruminando a Guia de con­versação, requeriam casa pacata, vedada a estroinas metediços com quem está calado, e a mulheres que viajam cheias de um cosmopolitismo palavroso e comprometedor para sujeitos que não aprenderam, de transfusão, as línguas como os apóstolos. Pegavam logo de estar tristes, e a sentirem saudades da Porta-Moré, do Café-Guichard e da Assembleia da Trindade. Quando ouviam sinos em dia santificado, o coração voava- -lhes para a missa do meio dia nos Congregados a igreja do tom onde a Fé, que manca, entra sempre encostada ao ombro do deus de Gnido.
Passeavam nostálgicos as suas indigestões de trufas pelos boulevards. À noite, esporeados pelo tédio, entravam em Ma­bille, e respiravam um ar saturado de anisette, de patchouly, de marrasquino e almíscar – o bafio das carnes nuas besuntadas e sacudidas pelo regambolear do cancan et demi4. Saíam da­li, todavia, frios e impolutos como os sacerdotes de Cibele; e, ao outro dia, afivelam as malas, e regressavam da Europa, cheios de cansaço e com mais alguns galicismos, a restaurar-se no jardim de S. Lázaro e nas Fontaínhas.
O padre Nascimento não iria à penhascosa Samardã procu­rar personagens, se houvesse florescido nestes tempos moder­nos em que o dinheiro abriu caixas filiais da Samardã nos centros das grandes cidades.

*

Eu é que conheço a Samardã, desde os meus onze anos. Está situada na província Transmontana, entre as serras do Mé­sio e do Alvão. Nas noites nevadas, as alcateias dos lobos descem à aldeia e cevam a sua fome nos rebanhos, se vingam descancelar as portas dos currais; à míngua de ovelhas, co­mem um burro vadio ou dois, consoante a necessidade. Se não topam alimária, uivam lugubremente, e embrenham-se nas gargantas da serra, iludindo a fome com raposas ou gatos bra­vos marasmados pelo frio. Foi ali que eu me familiarizei com as bestas-feras; ainda assim, topei-as depois, cá em baixo, nos matagais das cidades, tais e tantas que me eriçaram os ca­belos.
Na vertente da montanha que dominava a Samardã, havia um fojo – uma cerca de muro tosco de calhaus a esmo onde se expunha à voracidade do lobo uma ovelha tinhosa. O lobo, engodado pelos balidos da ovelha, vinha de longe, derreado, rente com os fraguedos, de orelha fita e o focinho a farejar. Assim que dava tento da presa, arrojava-se de um pincho para o cerrado. A rês expedia os derradeiros berros fugindo e fur­tando as voltas ao lobo que, ao terceiro pulo, lhe cravava os dentes no pescoço, e atirava com ela escabujando sobre o espi­nhaço; porém, transpor de salto o muro era-lhe impossível, porque a altura interior fazia o dobro da externa. A fera pro­vavelmente compreendia então que fora lograda; mas em vez de largar a presa, e aliviar-se a carga, para tentar mais esco­teira o salto, a estúpida sentava-se sobre a ovelha e, depois de a esfolar, comia-a. Presenciei duas vezes esta carnagem em que eu animal racional levava vantagem ao lobo tão-somente em comer a ovelha assada no forno com arroz.
De uma dessas vezes, pus sobre uns sargaços a Arte do padre António Pereira, da qual eu andava decorando todo o latim que esqueci; marinhei com a minha clavina pela parede por onde saltara a fera, e, posto às cavaleiras do muro, gastei a pólvora e chumbo que levava granizando o lobo, que raivava dentro do fojo atirando-se contra os ângulos aspérrimos do muro. Desci para deixar morrer o lobo sossegadamente e livre da minha presença odiosa. Antes de me retirar, espreitei-o por entre a juntura de duas pedras. Andava ele passeando na cir­cunferência do fojo com uns ares burgueses e sadios de um sujeito que faz o quilo de meia ovelha. Depois, sentou-se à beira da restante metade da rês; e, quando eu cuidava que ele ia morrer ao pé da vítima, acabou de a comer.
É forçoso que eu não tenha algum amor-próprio para con­fessar que lhe não meti um só graeiro de cinco tiros que lhe desfechei. As minhas balas de chumbo naquele tempo eram inofensivas como as balas de papel com que hoje assanho os colmilhos de outras bestas-feras.
Este conto veio a propósito da Samardã, que distava um quarto de légua da aldeia onde passei os primeiros e únicos felizes anos da minha mocidade.

*

Conheci na Samardã um padre Francisco Vieira, bom sa­cerdote, amigo de ler, e que sabia de cor as Viagens de Ana­cársis; e, como desejasse possuir uma erudição completa, pediu-me que lhe ensinasse a conta de repartir por quatro le­tras, segundo o sistema do sr. Emílio Aquiles Monteverde. Ele estava munido do Manual Enciclopédico; mas não perce­bia nitidamente o que fosse dividendo, divisor e quociente; todavia, como era bastante subtil, padre Francisco, com assíduo estudo e três meses de exercícios, conseguiu repartir por quatro letras, e tirar a prova pela regra dos noves. Este padre morreu novo; se continuasse a estudar, talvez viesse a respon­der com acerto a este problema do Manual Enciclopédico, pág. 178, ediç. de 1870: Pergunta-se: quando é que uma pessoa nascida em 1864 terá completado 25 anos?
Que recordações! e que saudades!
Nas tardes de estio, íamos nadar a uma levada de um cór­rego que se despenhava da serra. A água era frigidíssima, lo­dosa e impenetrável ao sol. A ramaria entrelaçada dos freixos e amieiros fazia daquele poço um banho ajeitado à castidade de Susana e à nossa. Padre Francisco, a última vez que lá entrou comigo, saiu gelado e sem sentidos como Frederico Barba-Roxa de certo rio da Arménia. Estou-me a ver derreado com o padre às costas, sem atentar, no auge da minha aflição, que eu o levava como se fugisse do Paraíso com meu avô Adão cloroformizado. Acudiram-me os camponeses, depois de me contemplarem de longe e espavoridos como os saloios de Tróia quando viram sair Eneias da cidade com o pai às cava­leiras. As mulheres não ultrapassaram as fronteiras de uma honesta curiosidade assim que viram aquela nudeza grega e antiga demais para a Samardã; e os homens, com o meu exemplo, começaram a friccioná-lo com as suas mãos de cortiça tão eficazmente que o padre veio a si, dando os gri­tos agudos de um esfolado. Estava salvo. Fizeram ressumar à pele o sangue congestionado. Se morresse naquela oca­sião, ia sem saber o que era o quociente.
Às vezes, depois de jantar, saíamos pela aldeia a esmoer a galinha e o presunto. A sr.ª Luísa, esbelta e farta irmã do clérigo, dava-nos em cada jantar uma galinha loura reclinada sobre um escabelo de presunto com travesseiros de chouriço.
Havia um grande dividendo de aves na capoeira daquela casa; os divisores éramos nós; o quociente era metade das ga­linhas para cada um. Fiz-lhe compreender ao padre com este símile de cozinha os mistérios da aritmética.
E eu saía impando por aquelas barrocas da Samardã, medi­tando e dizendo com o meu Horácio:
Ibam forte Via Sacra, sicut meus est mos, etc.
Às pessoas esquecidas do seu latim não se figure que padre Francisco ia fazer Via Sacra. Não lhe faltaria vontade e devo­ção; mas Samardã não tem calvário nem igreja senão a que Filinto Elísio lhe fantasiou nas citadas trovas.

*

Uma vez, em um desses passeios, ao cerrar da noite, fiz reparo num grande pardieiro descolmado com dous descance­lados portais que roçavam pelo beiral do tecto.
– Aqui vive gente, padre Francisco? – perguntei.
– Não. Este casarão era a corte da arreata do João do Couto. Mal o conheci, mas ainda me lembro de o ver à frente de vinte machos deste tamanho.
E, dizendo, levantava o braço três palmos acima da pró­pria cabeça.
Continuou:
– Os machos traziam chocalhos grandes como sinetas que se ouviam badalar a meia légua. Quando João do Couto en­trava por aqui dentro com a sua récua, vinha toda a gente às portas cumprimentá-lo. O seu negócio era lá para o sul. Ia a Lisboa todos os meses levar presuntos de Lamego e salpicões de Chaves. Ganhava muito dinheiro, chegou a ter seis mil cru­zados em peças; mas, afinal, gastou tudo, arruinou a casinha dos pais, vendeu os machos, fugiu da terra, e tais proezas fez no Alentejo que foi degredado para África por toda a vida – há-de haver quinze ou vinte anos. Por aqui há homens da sua criação que podem contar-lhe as extravagâncias do João do Couto. Era um rapaz mal encarado, e valente com as ar­mas. Jogava o pau por tal feitio que, em romaria onde ele fosse, as baionetas dos soldados voavam das espingardas; e, sendo preciso, saltava por cima de um homem, e ficava em guarda com o pau atravessado. A justiça perseguiu-o por pan­cadas que deu; gastou com isso dinheiro grosso; mas quem no arruinou foram as mulheres.
Neste ponto da narrativa, o padre fez um parêntesis, e re­velou conhecimentos não vulgares, citando filósofos e santos padres mui apropositadamente. Disse que Platão duvidara se ajuntaria as mulheres com os homens, se com os brutos. Quantas conhece o leitor unidas aos últimos para realizarem a hipótese do divino Platão! Acrescentou que lera em certo autor antigo que a cabeça do homem tem três miolos e a mulher um.
Padre Francisco não me pareceu que tivesse os três perfei­tos, teimando em dar crédito ao seu autor, depois que eu lhe mostrei anatomicamente o cérebro de uma galinha igual na estrutura e na forma ao de um capão que se comeu por amor da ciência. A instrução deste homem saiu-lhe toda da ca­poeira.
Não obstante, desfazendo sempre nas mulheres, contou-me o caso trágico donde se motivou a ruína do frascário almo­creve.

*

 

Havia nos arrabaldes de Vila Real, em uma aldeia cha­mada Borbelinha, um cirurgião, casado com uma rapariga bo­nita5.
João do Couto, se varria uma feira, nem sempre saía com a cabeça ilesa. Quando lha quebravam, ia curar-se a Borbeli­nha, e presenteava bizarramente o facultativo. Desde que lhe viu a consorte, deixou-se avassalar da tentação. Quando estava em casa descansando ou arranjando frete para Lisboa, ia aos domingos no seu mais nédio macho, com gualdrapa e cobrejão escarlate de borlas, e testeira de chapas amarelas, visitar o cirurgião e brindá-lo com algum mimo da corte. A esposa deste sujeito, era algum tanto ligeira, e daquelas que autoriza­ram o sábio antigo a assinar-lhes um só miolo. O marido, não estranho à frenologia, descobriu-lhe a bossa, e começou a espreitá-la pé ante pé como quem traz pedra no sapato; e, além da pedra, trazia um par de pistolas reiúnas nos coldres da égua6. O valentão da Samardã não lhe metia medo com a sua chibantice. Aprendera o cirurgião de Borbelinha a arte nas ambulâncias do exército anglo-luso. As amputações sanguino­sas, o estertor dos agonizantes e o tráfego com a morte levaram-no a dar à vida humana importância insignificante. Ganhara fama de bravo no exército, porque nunca o viram nas bagagens. O seu posto voluntário era onde as fileiras metra­lhadas rareavam. Às vezes, tirava a espingarda da mão ainda quente de um cadáver, mordia o cartucho e punha o fito com tal olho e firmeza que não perdia uma bala. «Vou logo procurá-la, entre a quarta e quinta costela daquele francês», dizia ele.
Quando recolheu da guerra, casou com a filha de um la­vrador, sua parenta. Granjeou merecida fama, e em poucos anos adquiriu bastantes bens. A mulher, criada na liberdade do campo, nas romarias, nas funçanatas das esfolhadas, estranhou o resguardo que lhe impunha a sua qualidade de esposa de cirurgião. Verdade é que ela o tinha conversado de amores noutro tempo; mas então era ele simplesmente sangrador e dentista de boticão; foliava nas estúrdias, nas mascaradas, e tocava requinta. Agora, porém, achava-o mudado. A casaca de briche, o chapéu de felpo, os berloques, o tom sentencioso dos dizeres, a secura de marido que dá à esposa a honra de lhe tratar das peúgas, desconvinham ao génio trêfego da moça.
Ora João do Couto era a encarnação do ideal de Rosa de Borbelinha. Quando ela o viu, teve uns assomos de doidice franca e lorpa como só nas aldeias ainda se encontra. Vira a forma palpável do seu sonho. Depois, o juízo reagiu à explo­são da sua inconsciente e selvagem alegria. Tornou-se por isso sombria e velhaca, olhando de esguelha para o almocreve. Foi então que Manuel Baptista, o cirurgião, suspeitou e disse de si consigo, olhando para João do Couto: «Estás bem aviado...»
O da Samardã temia-o; havia uma força grande que o aco­vardava: era o amor, ou talvez que fosse o involuntário acata­mento que lhe impunha o direito irrefragável dos maridos. O certo é que o almocreve não deu aos seus desonestos propósi­tos o desenvolvimento que habitualmente coroava as suas em­presas da mesma laia. Como o cirurgião o recebesse de má catadura, absteve-se de ir a Borbelinha; mas, intermetendo uma alcofa bem remunerada nos seus planos, Rosa estava a pique de perder-se, passando-se do esposo para o amante.
Entretanto, Manuel Baptista soube que D. João VI dava no Rio de Janeiro liberalmente hábitos de Cristo a quem lá ia felicitá-lo pelo triunfo alcançado sobre Napoleão. Justamente indignado, viu condecorados uns sujeitos sem serviço algum; e resolveu por isso atravessar os mares e ir à corte apresentar os documentos da sua bravura nas batalhas, e perícia nos hospitais de sangue. Queria o hábito de Cristo para inaugurar em Borbe­linha a entrada daquela ordem na sua pessoa, e também para humilhar em Vila Real uns bacharéis em medicina que o não tratavam de colega nem admitiam a votar nas consultas.
Rosa viu com satisfação preparar-se o marido para a longa viagem; mas, chegado o tempo da partida, esmoreceu, quando Manuel Baptista lhe disse que ela ficaria no convento de Santa Clara em Vila Real enquanto ele andasse ausente. E, sem intermissão de dias, conduziu-a ao seu destino, dizendo-lhe que dava aquele passo para amordaçar as más-línguas, visto que, na ausência dos maridos, as mais castas esposas se expunham a juízos temerários.
Volvidos dias, na feira de Gravelos, João do Couto, que esbravejava em abafados rancores a sua paixão, passando rente pelo marido de Rosa, não o cortejou; e pouco depois encontrando um seu íntimo de Adoufe, façanhudo marchante que fora dos dragões de Chaves, convidou-o a beber jeropiga, e tão copiosamente o fizeram, que ali se trocaram recíprocas e íntimas confidências.
– Por uma pouca de má vergonha – disse o almocreve – é que eu não atiro ao inferno a alma do Manuel Baptista.
– Eu cá disse o Joaquim Roxo de Adoufe – se a história fosse comigo, já o tinha posto a escutar a cavalaria.
– Homem – observou modestamente João do Couto – olha que ele é teso.
– A quem tu o dizes! Vi-o eu no meio do fogo bater-se como um soldado raso, e cortava pelos franceses como um porco-espinho no mato; mas um homem desfaz-se de outro, quando é preciso, sem lhe dizer que se ponha em guarda.
– Eu cá não – redarguiu o da Samardã; – à traição não sou capaz de bater num homem. Já bati em seis de cara a cara; tenho espalhado com a ponta do pau romarias em peso; vou aí para a boca dum bacamarte como quem bebe este copo; mas palavra de honra, cato respeito ao Manuel Baptista. Ai! e arrancou dos seios da alma um convulso arranco. – Eu tenho uma paixão de matar pela Rosa! Antes de a ver, era eu um rapaz alegre, afoito, que me não trocava por ninguém. Agora não durmo, não como, não trato de nada, os machos lá estão na estrebaria sem sair, morreram-me dois que me custaram trinta moedas de oiro, e eu fiquei como se não fosse nada comigo. E então, depois que a Rosa está no convento, e eu não sei dela nada, dão-me guinas de meter uma navalha no coração! Foi o diabo que me apareceu, aquela mulher! O que eu devia ter feito era vir a Borbelinha, atirá-la para ci­ma dum macho, e fugir com ela por esse mundo além... Sa­bes tu que mais? – bradou ele, esmurraçando o balcão da taverna – eu sou homem para atacar o convento com mais uma dúzia de homens de pêlo na venta, e raios me partam se a não tirar de lá!
– Estás pronto, João do Couto! – atalhou o Roxo – mete-te nisso que ficas estirado à porta do convento. Cada freira de Santa Clara tem um oficial de milícias a rondar-lhe o convento por fora, quando lá não está dentro. Se tu deres o ataque, tens de te bater com o regimento inteiro. Olha, João – prosseguiu falando-lhe ao ouvido – só te vejo um remé­dio: quando ela ficar viúva, casa com ela. Sabes como se faz viúva uma mulher casada? Não te digo mais nada. Lá vai o último copo à saúde da tua Rosa. Vá a virar!
– Abaixo! – exclamou João do Couto.
E despejaram o último quartilho.
Depois, montaram nas suas possantes mulas, e saíram da feira pela entrada de Vila Real.
A poucos passos, viram Manuel Baptista que levava a passo o seu cavalo adiante deles.
– Ele lá vai – disse o Roxo.
– Já o vi; deixá-lo ir.
– Tens-lhe medo a valer, ó João!
– Tenho medo mas é duma pinga a maior que me vai cá por dentro a queimar o coração. Eu não quero matá-lo, já to disse.
– Mas deixa andar o macho, não lhe puxes a rédea. O homem se dá fé que vamos ficando, cuida que tens medo. Eu cá à minha beira não quero cobardes. Caía-me a cara, se um dragão de Chaves ficava à retaguarda do cirurgião de Bor­belinha.
E, dizendo, meteu as rosetas das esporas nos ilhais da mu­la, que rompeu a galope. João do Couto trotava rente dele, resmoneando:
Qual medo nem qual diabo!
O cirurgião ouvindo a tropeada das cavalgaduras, olhou para trás; e, como reconhecesse os cavaleiros, desacolchetou os coldres, sofreou com firmeza e resguardo a rédea do potro alfario, e deu-lhe de esporas quando ele se descompunha corve­teando e rinchando ao aproximarem-se as mulas.
Joaquim Roxo, com o chapéu caído sobre a nuca, pau de choupa debaixo da perna esquerda, e braço pendido segundo a estardiota dos de sua laia, ia do lado do cirurgião. A estrada era larga; mas quer fosse propósito, quer a embriaguez desgo­vernasse o freio da mula, o pau ferrado do marchante roçou rijamente na perna do facultativo.
– A estrada é larga, seu bêbado! – disse Manuel Bap­tista.
O Roxo sofreou a mula; e, quase deitado na anca, deu um piparote na aba do chapéu, e perguntou:
– A quem é que chama bêbado?
– A você – respondeu lealmente Manuel Baptista.
– Anda daí! – bradou João do Couto puxando-o pelo braço.
– Larga-me, João – disse o Roxo atravessando-se na es­trada, e endireitando-se sobre o albardão com as dificuldades contingentes ao desequilíbrio da cabeça com a cintura. – Larga-me, já te disse! E, voltando-se para o cirurgião: – Conhece-me, ó patrãozinho?
Conheço; mas não quero relações com tal conhecido. Desempache-me o caminho, quanto antes, é o que tenho a dizer-lhe.
O marchante, arrancando o pau, desenroscou um canudo de cobre que escondia uma choupa de aço de mais de palmo. Manuel Baptista sacou de um dos coldres uma pistola, e espe­rou sem lhe erguer o cão; o destemido ébrio floreando o longo pau de lódão fez-lhe uma pontoada ao peito, da qual o salvou o cavalo empinando-se. O cirurgião engatilhou e dispa­rou à cabeça de Joaquim Roxo, que instantaneamente caiu de borco sobre o pescoço da mula.
Neste conflito, João do Couto apeou dum salto, abriu uma navalha espanhola, e cresceu sobre o cirurgião, exclamando:
– Você mata-me o meu amigo, ó su’alma do diabo?
O agredido respondeu com segundo tiro; mas as upas do potro não lhe consentiram aproveitar a bala com o seu costu­mado escrúpulo. O almocreve caiu sobre o joelho direito, por onde a bala superficialmente resvalara.
Havia já ao pé dos lutadores muito povo que vinha da fei­ra, e entre a turba estavam alguns que conheciam o marchante, e por isso gritaram à del-rei contra o cirurgião, agarrando-lhe as rédeas do cavalo, e dando-lhe voz de preso.

*

Todas as testemunhas uniformemente depuseram que vi­ram Manuel Baptista disparar dois tiros, matando Joaquim Roxo e ferindo João do Couto. O cirurgião alegava que em justa defesa matara e ferira; mas a lei, aguilhoada pela impla­cável vingança do almocreve, e obrigada a ser severa, respon­deu que só se dava morte em justa defesa quando o atacado não podia fugir. Ora as testemunhas depuseram que ele, se quisesse, podia fugir para trás. Foi Manuel Baptista senten­ciado a degredo perpétuo para a África Oriental. Dizia João do Couto, gabando a justiça, que lhe custara dois mil cruzados aquela sentença.
Quando o condenado saiu da cadeia de Vila Real para a Relação do Porto, sua mulher acompanhou-o voluntariamente, e contra a expectativa do perseguidor do marido. Não foi o amor que a moveu a seguir o condenado; mas, na desgraça de Manuel Baptista, havia a coragem que é simpática, se a não enegrece a maldade. Rosa respeitava o marido, e acusava-se de ter sido causa do seu infortúnio, posto que ele a não arguis­se, nem ela se supusesse suspeita de haver pensado em desonrá-lo. Em 1820 saiu Manuel Baptista com sua mulher para Moçambique.

*

João do Couto nunca mais curou de restaurar com o traba­lho os haveres desbaratados. Seu pai, António Alves, que pos­suíra uma pequena lavoira granjeada no fabrico do carvão de urze, morreu quando o filho vendeu os últimos machos; e sua mãe, a tia Maria Florência, perdeu o juízo, e andava a enco­mendar as almas, por noite morta, trepando-se aos cabeços da serra. Entretanto, João do Couto, reduzido à pobreza do jogo, e perseguido pelos credores, fugiu da sua província e pas­sou ao Alentejo, onde, para amparar a vida, se fez jornaleiro em carvoarias de S. Tiago de Cacém, e com o vigor de alma de um penitente se entregou a esse áspero trabalho, fazendo-se estimar de seus patrões. Para se distrair de lembranças doloro­sas da sua alegre e abastada mocidade, jogava a esquineta com os seus companheiros, logrando-os, ou lhes ensinava o jogo do pau por um pequeno estipêndio, moendo-os. Corridos dois anos de vida bem comportada, foi admitido em uma sociedade de carvoaria de sobro, por onde lhe seria possível readquirir os bens esbanjados; mas, apenas a fortuna lhe sorriu, a sua índole brava, sopeada pela pobreza, partiu as algemas, e tornou às antigas proezas e ribaldarias com o femeaço.
A biografia de certos personagens que floresceram antes da liberdade da imprensa está sumida nos cartórios dos antigos escrivães dos juízes-de-fora e corregedores. De 1833 em diante as pessoas extraordinárias têm os seus anais nas partes de polícia, no noticiário do jornalismo e na Gazeta dos Tribu­nais. A idade média portuguesa, pelo que respeita à obscuri­dade da vida social, terminou há quarenta anos, com a pri­meira local de gazeta em que se contou a história de duas facadas na Madragoa. Antes disso, encontrava a gente na rua dos Capelistas um homem no meio da escolta que o levava ali à forca do Cais do Sodré; perguntava-se que mal tinha feito o homem: ninguém sabia responder. Lá o esganavam depressa ou devagar segundo a agilidade do carrasco, e assim acabava com o padecente o segredo de um romance, em que decerto se confundiria a perversidade ingénita do homem e a estúpida rasoira da lei com admiráveis lances de paixões nobres.
Nesta espessa treva se escondem os pormenores da vida de João do Couto no Alentejo. Sabe-se positivamente que ele ma­tara dois homens a pau e faca; disse-me alguém que os mortos foram três; quatro parece-me exageração. À justiça bastaram dois para o agarrar, não sem grandes perigos, e o meter no Limoeiro, onde esteve desde 1824 até 1827, suspenso entre o patíbulo e o degredo perpétuo com trabalhos forçados.
Nestes três anos foi socorrido pelos seus patrícios. Conheci em Vilarinho, aldeia da mesma freguesia de João do Couto, um velho de nome João Claro, almocreve, que todos os meses saía a mendigar para o seu camarada preso, e lhe levava ao Limoeiro as esmolas. Tenho saudades deste jovial ancião que nunca me chamou pelo meu nome; tratava-me sempre pelo sr. Rei Teles: não sei como ele descobriu em mim aquela dinastia dos Teles. Havia nisto fundo mistério que João Claro levou consigo aos abismos insondáveis da morte.

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Coube a João do Couto degredo perpétuo para Moçambi­que. Tinha predestinação auspiciosa. Todos lhe agouravam pena última. Ninguém se empenhara a favor do homicida; salvara-o talvez dizerem as testemunhas que ele prestara bom serviço à sociedade matando os dois facinorosos.
Esta nova alegrou-o duplicadamente. Ia para Moçambique onde estava Rosa, a perturbadora da sua vida, a única mulher que ele amara deveras, a causa adorada das suas desgraças.
Alguns degredados, cumprida sentença, voltavam da Áfri­ca, e iam ao Limoeiro procurar os seus amigos: não os acha­vam noutra parte; e procediam discretamente não exorbitando da sua roda, porque diz um provérbio inglês que não tem es­fera nenhuma quem sai da sua.
João do Couto perguntava pelo cirurgião Manuel Baptista aos repatriados que vinham da África Oriental. Todos lhe di­ziam que o cirurgião estava a enriquecer, que tinha a principal freguesia da cidade, que era o médico do capitão general e do bispo, e que já havia comprado uma quinta em Mossuril; acrescentavam os informadores que a mulher do cirurgião abrira uma grande padaria na rua de Bancanes, de que tirava muito dinheiro, com o qual mandara fazer muitos casebres na Missanga, que alugava aos negros.
João do Couto de si para si reflexionava que Manuel Bap­tista, se lá o visse, o mandaria matar por um cafre ou por algum português degredado – pior casta de inimigo.
Não obstante, como adquirira o hábito de matar, dis­punha-se a não perder esse costume em Moçambique, visto que é bom adoptar os usos de cada terra. Ia portanto resolvido a vender cara a vida, se o não deixassem vivê-la com sosse­gada honra – outra excelente disposição que ele levava – viver honradamente em Moçambique, e implantar ali os cos­tumes inocentes da Samardã.
Revirara-se a má cara da fortuna seis anos adversa ao de­gredado. Quando chegou a Moçambique, e perguntou novas de Rosa, disseram-lhe que o cirurgião era falecido recente­mente na Baía de Lourenço Marques, onde havia ido por or­dem do governador geral visitar o governador enfermo.
Alargou-se-lhe o vasto peito para abranger os borbotões de esperança que lhe golfavam do coração. Foi à rua de Banca­nes, e parou defronte de uma grande padaria servida por mesti­ços. Não viu Rosa. Perguntou por ela com a voz trémula de amor, de receio e de esperança. Apenas proferira as primeiras palavras, assomou, por entre duas cortinas de chita vermelha, a viúva com o semblante espavorido de quem se ouvisse cha­mar do fundo de um sepulcro. Reconhece-o, hesita, avança, recua, e faz aqueles trejeitos próprios e já tão nossos conheci­dos do proscénio que hoje em dia todos estamos habilitados a receber artisticamente a aparição dum pai que não conhecía­mos; e de muito vermos essas mímicas, já quando topamos um sujeito que não vimos desde a semana passada, abrimos a boca e os braços como se se encontrassem Castor e Pólux nascidos no mesmo ovo, depois de uma ausência de quatro lustros!
Lá estava, pois, a imagem do galhardo almocreve, indelé­vel e aberta a fogo de saudade, no seio de Rosa de Borbelinha. Levou-o consigo a mostrar-lhe os seus aposentos, o seu di­nheiro, tudo que valia menos que o seu amor. Ofereceu-lhe com honesta franqueza a sua casa, a sua mesa e as suas rou­pas. Não lhe oferecia a sua mão, porque ainda não sabia e tremia de lhe perguntar se era solteiro.
O cadáver de Manuel Baptista ainda não estava delido na lama paludosa da Baía de Lourenço Marques, e já a sua viúva conjugalmente reaquecia o tálamo, como quem quer dizer que casara com João do Couto.
Ninguém nos soube dizer por que motivo o segundo marido de Rosa começou então a assinar-se João Evangelista Vila Real. O sobrenome adoptado do apóstolo querido, Evange­lista, seria para que a mulher, primeiro ligada a um Baptis­ta, estivesse sempre em relações indirectas com S. João? Mais um enigma indecifrável nesta biografia. Quanto ao apelido Vila Real, provavelmente adoptou-o da comarca onde nascera.
Prosperou a olhos vistos o comércio de João Evangelista em todos os efeitos negociáveis na colónia. A felicidade íntima correspondia à boa sorte das empresas. Amavam-se doidamen­te. João abençoava os desastres que o arrojaram ao degredo, abençoava a memória e rezava talvez pela alma dos dois alen­tejanos que ele matara à paulada; quatro que houvesse desca­deirado, abençoá-los-ia também o ditoso João Evangelista. A felicidade tem generosidades quase absurdas!
A importância política do marido de Rosa – que já não traficava em padarias – principiou em 1835 quando os ca­fres landins fizeram provocada carnagem nos colonos de Inhambane. A sublevação dos cafres convizinhos daquela vila já a tinha previsto o governador Sebastião Xavier Botelho, quando assim descrevia Inhambane: « ...Povoada de degredados facinorosos e asiáticos aventureiros que ajuntam à desmesurada cobiça, aqueles a maldade em que têm jubilado, e estes uma refinada preguiça que os desvia do mais leve trabalho…»7.
A guarnição da feitoria foi espostejada pela vingan­ça dos negros; a tropa enviada em socorro dos fugiti­vos pelo capitão-general fugiu diante da nuvem negra dos cafres, que excedia em disciplina e ferocidade a horda de degredados enviados de Moçambique. Aque­les aguerridos selvagens, «se os acometem, não voltam rosto, jogando adargas e azagaias com alaridos, cora­gem e ligeireza. Enquanto as armas são de arremesso, não há dobrá-los, nem vencê-los: pelejam como leões; mas como ouçam tiros de arcabuzes, cosem-se com o chão, embrenham-se, e desaparecem na espessura dos bosques, que rompem e trilham melhor descalços que os seus inimigos calçados e armados»8.
Sabida na capital a derrota da tropa às mãos dos negros, João Evangelista Vila Real, que era português semelhante aos do século XV e XVI , que por ali andaram a erguer padrões de civilizadores, sentiu-se arder em patriotismo, como há poucos anos, na África Ocidental, ardeu outro mais celebrado aventu­reiro, José Teixeira do Telhado. Em patriotismo não há como portugueses! Um grande patife lá fora, nunca deixa de ser um grande patriota.
Dirigiu-se ao capitão-general, pediu-lhe cinquenta homens escolhidos entre os degredados, e estipulou que os vestiria e alimentaria à sua custa, contanto que se lhe desse patente de alferes. Não se consultaram Regimentos militares nem pundo­nores de dragonas. João Evangelista cingiu a banda, discipli­nou e vestiu cinquenta homens, e, arrancando-se aos braços da esposa chorosa, foi para a feitoria de Inhambane, com um fre­nesi de acutilar cafres como se fosse vingar os manes insepul­tos de Manuel de Sousa de Sepúlveda. Rebentavam dentro do ricaço mercador umas excrescências dos fígados do carvoeiro alentejano. Foi um raio que se espargiu em coriscos por so­bre aquela cafraria. Arcabuzou nas brenhas os que não reta­lhou no campo, e recolheu a Moçambique com duas alcofas cheias de cabeças de sovas. O capitão-general abraçou- -o, e disse-lhe que ainda havia portugueses de lei. Os seus solda­dos, erguendo-o nos braços, conclamavam que iriam conquistar a Inglaterra, se ele os comandasse. É que João Evangelista, esbrasiado e ébrio pelo cheiro do sangue, parecia o Lúcifer de Milton despenhado no meio duns pretos que não soubessem fazer o sinal da cruz, como de facto não sabiam aqueles.
Aumentava cada dia a consideração do alferes de milícias. A gente mais qualificada honrava-se com a sua estima, e de­plorava que cidadão por tanta maneira egrégio não pudesse voltar à pátria, nem com serviços tão relevantes conseguisse suavizar a desesperada sentença de degredo perpétuo.
Sete anos decorridos, em 1842, revoltou-se o presídio da Baía de Lourenço Marques. O governador e os principais pro­prietários haviam sido assassinados. A plebe oprimida e con­jurada com os degredados que vestiam a farda de soldados portugueses, vingara os vexames que sofrera até perder a espe­rança dos recursos levados ao governador geral. « Não há coisa que sirva de barreira – escrevia o enér­gico par do reino Sebastião Xavier Botelho – a certos governadores e feitores para se contentarem com grosso cabedal granjeado boamente, deixando ao mesmo tempo viver os pobres, senão que alguns querem abarcar tudo para si com absoluta exclusão dos outros, atraiçoando, roubando e matando: que de tudo isto aqui há exemplos; o ponto é enriquecerem-se no prazo mais curto, e para este efeito empregam a perfídia e a força… Tem ali havido uma série de governadores a qual deles mais ava­ro, ambicioso... Cifro-me em dizer que todas as tor­pezas e devassidões têm ali andado não só desenfrea­das, mas autorizadas...»9.
Quem autorizava as devassidões autorizou João Evange­lista Vila Real a organizar o seu terço de aventureiros, e, já com a patente de capitão de milícias, ir castigar os revoltosos à Baía de Lourenço Marques.
A luta foi carniceira e longa. O gentio dos reinos de Inhaca e de Manhiça, os vermes e os anzotes desceram das serranias, pensando que era chegada a hora de lavar com o sangue por­tuguês as afrontas de três séculos. O bravo da Samardã entrara nesta segunda campanha com a vida entalada no dilema de morrer ou conquistar a liberdade pelo indulto. Neste propósi­to, os seus atrevimentos eram o espanto dos próprios soldados e o terror do inimigo. Eu, que conheci na paz a cara sinistra deste capitão de milícias, imagino o que ela seria na guerra.
Ao cabo de dezoito meses de carnificina, João Evangelista Vila Real recolheu a Moçambique, onde foi recebido em triun­fo. Repicaram todos os sinos desde o bairro de S. Domingos até ao da Marangonha. A guarnição apresentou-lhe as armas, e o capitão- -general brindou-o à sua mesa, fazendo votos por que o governo de S.M.F. recompensasse os serviços de tão bravo português, restituindo-o à pátria, pela mesma razão que um monarca lusitano restituíra à liberdade Geraldo Sem-Pavor – o conquistador de Évora, ladrão de seu ofício.
Estava presente neste jantar um cirurgião-mor de apelido Miranda, o qual, brindando à saúde do ministro do ultramar, disse que a estrela do digno e ditoso ministro lhe propiciara a vinda de João Evangelista Vila Real para Moçambique durante o seu governo. Historiando a defesa do território português na África Oriental, comparou João Evangelista a D. Estêvão de Ataíde que desarvorara as caravelas dos holandeses. Depois, em vibrações de entusiasmo aquecido pelos clamores dos convivas, disse que iria ele a Lisboa solicitar o indulto de João Evangelista; e, quando os bravos e os hurras o deixaram con­cluir, exclamou:
– E, se eu não obtiver o indulto em Portugal,
Acabe-se esta luz ali comigo.
É inexprimível o efeito desta feliz reminiscência dos Lu­síadas!
Eu também conheci este Miranda, cirurgião-mor de caçadores 3, em Vila Real, quando ele veio negociar o indulto do capitão de milícias. Em casa estava sempre meio vestido de turco, com turban­te, casacão de seda amarela, chinelas carmesins e refestelado sobre um coxim azul-ferrete, a fumar por cachimbo de porce­lana. Era um pouco raquítico, pouquíssimo muçulmano de sua figura; mas em verdade parecia um sátrapa em uso dos caldos peitorais ferruginosos da farmácia Franco. Recitava-me as suas «Africanas», umas poesias que tinham da África somente serem versejadas em Moçambique, e pelo seu contexto e lín­gua não desdiziam de moiras.
Foi este pois o encarregado de promover o indulto, munindo-se dos atestados do capitão-general, de uma baixela de ouro enviada por João Evangelista à casa real portuguesa, dizem uns, ao ministro competente, modificam outros, respei­tando, como eu, os altos personagens. Miranda é que sabia ao certo, e também o sabe o possuidor da baixela.
Como quer que fosse, o indulto foi obtido; abriram-se as portas da pátria ao capitão de milícias do presídio de Moçam­bique, assim denominado no decreto e nos subsequentes alva­rás nobiliários que o esperavam na pátria.
Devia ser imenso o júbilo do cirurgião-mor Miranda porta­dor do indulto; mas, no mar alto, morreu abrasado no incêndio do navio em que partira. Deu-se o desastre em 1851, se bem me recordo. Quem tiver curiosidade ou memória pode esclare­cer a data e as miudezas do sinistro em que pereceu, na flor dos anos, o vate Miranda e, por boa sorte das letras pátrias, o manuscrito inédito das suas Africanas. Recordo-me que, estando eu hospedado em Lisboa num hotel – onde também se hospedara um velho cirurgião militar vindo de África, e inimigo de Miranda – aquele, ao dar-me a notícia do naufrágio com ares dolentes, acrescentou: «O mar e o fogo disputaram entre si a ver qual dos dois havia de matar aquele desmedido bruto.» Em África aprende-se esta caridade.

*

João Evangelista, o bravo, que nunca mudara de cor quando as azagaias ervadas lhe ziniam nas orelhas, chorou e desmaiou ao receber a nova de que estava perdoado. A alegria poderia enlouquecê-lo, se não se desse nos mesmos centros nervosos a repercussão de uma penetrante angústia. Rosa, quando tratava de enfardelar as suas riquezas, imaginando-se coberta de seda e recamada de ouro em Borbelinha, foi ata­cada de uma perniciosa, e morreu ao cabo de algumas horas de agonia.
O viúvo caiu de cama e desejou acabar. Rodearam-no, po­rém, as gerais simpatias da gente da terra, insinuando-lhe apego à vida para poder na sua pátria fazer brilhante figura. Quando ele ia cedendo aos rogos e à natureza, agravou-se-lhe a enfermidade, bojando-lhe na espinha cervical um antraz da pior casta. Mandaram-no confessar, e ele teve medo a Deus naquela hora, primeira vez na sua vida em que sentiu a vai­dade de se julgar tão duradoiro, espiritualmente eterno como o próprio Criador. Antes, porém, de se confessar, quis ver se negociava a vida, comprometendo-se com a Divindade pelo mais extravagante voto de que tenho notícia: Casar com a pri­meira mulher perdida que encontrasse, assim que pusesse o pé no chão da pátria. Ao cabo de quarenta e oito horas, a gangrena parou, a escara do carbúnculo despegou-se, e João Evangelista Vila Real estava salvo.
Em 1852, liquidados os bens e os escravos que perfizeram centena e meia de contos, veio para Portugal. Desembarcou no cais das Colunas às dez horas da manhã, e foi direito à Ribeira Velha, em busca de uma estalagem onde costumava pousar com a recova dos seus machos, quando era o famoso almo­creve transmontano. Lá estava ainda a estalagem. Os antigos donos eram já mortos. À porta da taberna estava frigindo pescadinhas marmotas uma raparigaça arremangada, de braços vermelhos, roliços e brunidos das unções do azeite que espir­rava da frigideira. Era a primeira mulher com quem falava o João Evangelista do voto.
– Há quarto onde se durma? – perguntou ele.
A taverneira mediu-o da cabeça aos pés, e pausou a sua observação no grosso grilhão e no alfinete de esmeraldas ruti­lantes que destacava da gravata escura de cetim.
– O senhor quer cá ficar?! – perguntou ela maravilhada de hóspede tão limpo.
– Quero, sim, menina.
Olhe que isto aqui é estalagem de almocreves e de la­vradores do Ribatejo... Eu logo lho digo.
– Bem sei. Dê-me o quarto das duas janelas.
– Ah! o senhor já conhece a casa...
– Há mais de trinta anos.
– Então suba, que lá está o patrão no primeiro andar.
– A menina não é a patroa?
– Nada, eu sou criada. Patroa! tó-carocha! quem dera disso...
E dizia estas coisas com trejeitos muito desnalgados e frandunos.
A mocetona ainda não tinha visto a bagagem do hóspede: eram oito baús, afora malas e maletas, um casal de pretos carregados de viuvinhas, de papagaios, periquitos, um sagui, um terra-nova, tudo recordações vivas da sua defunta.
Recolhido ao seu quarto, conversou com o estalajadeiro assombrado da bagagem.
– V. S. a – disse o homem – não sei como não quis ir para as hospedarias dos brasileiros, para o Alexan­drino ou...
– Estou aqui à minha vontade. Já dormi neste quarto mui­tas noites... Deus me dê os regalados sonos que eu dormi nesta cama... Ainda a conheço... estou mais acabado que ela...
– Então V. S. a é cá do Ribatejo? No meu tempo não me lembro de o cá ver; e mais já aqui estou há vinte e dois anos.
– Eu tenho cinquenta e seis, e a última vez que aqui dormi tinha vinte e quatro...
O estalajadeiro fez a conta e disse:
– Isso então foi no tempo do Damião Cambado. Esse homem é que ganhou dinheirama! No tempo dele havia almo­creves de rópia, que se acabava o mundo quando eles entra­vam com arreatas de vinte machos por essa Lisboa dentro. Eu ainda fui curador do Damião. Vinham aqui pousar o Machado de Carção e o João do Couto, lá de Trás-os-Montes, e outros que jogavam aí a ronda a moeda e mais. V. S. a há-de querer almoçar, ou já almoçou? A cozinheira não é de todo peste.
– É a rapariga que estava a frigir?
– É, sim, senhor. Boa cozinheira é ela; mas doida de pe­dras. Está sempre com a tacha arreganhada a quem lhe diz graçolas, e deixa esturrar os tachos. Agora deu-lhe a telha de querer casar com um anspeçada de artilharia. Leva boa peça, não tem dúvida...
– Mande-me o almoço – disse João Evangelista a pensar no voto.
Quem pôs a toalha na mesa foi a Clemência. Chamava-se Clemência. Vinha muito rosada do lume, e sorria com um es­malte de dentes irrepreensíveis. Fazia uns gestos de quadris e movimentos largos enfunando a saia cor-de-rosa, e apertando o balão de junco na estreiteza da porta por onde servia o al­moço. Tinha que ver então.
Findo o almoço, disse João Evangelista:
– Há muito que não comi com tanto apetite, palavra de honra!
– Que lhe preste, meu senhor.
Tirou ele do dedo um argolão de ouro, deu-lho e disse:
– Desde hoje em diante pense em mim, se quiser ser rica.
Clemência, moderadamente espantada, pegou do anel, remirou-o, e balbuciou:
– V. S. a dá-mo?... Está a mangar, acho eu!
– Dou. Ouvi dizer que a menina ia casar. Não case, sem que eu lhe faça uma pergunta.
– Está o amo a chamar-me – disse ela pressurosa para esquivar-se a suspeitas malévolas.
– Vá; que poucos dias há-de ser criada de servir.

*

A mudança de clima adoentou-o e produziu-lhe sezões diá­rias. Clemência abandonou a cozinha, tanto que João Evange­lista avisou o estalajadeiro que desde aquela hora em diante considerasse a rapariga uma hóspeda, porque precisava dela para sua enfermeira. É inexcedível o carinho e zelo com que ela velava as noites, adivinhando-lhe as vontades, à cabeceira do leito. As carícias saíam-lhe tão espontâneas que não pare­ciam interesseiras.
Ao cabo de três meses, João Evangelista Vila Real erguia-se restabelecido, e cumpria o voto repetido nesta se­gunda enfermidade: casava com D. Clemência, que é hoje uma senhora a quem a minha pena não ousa adjudicar as con­dições estipuladas no voto. As reticências são pontos sem forma literal porque só com elas se consegue não dizer nada, ao passo que todas as indelicadezas se acham contidas no A-b-c-; por mais que a gente se canse em inverter a verdade com o artifício das sílabas, quando se evita a ofensa ressalta sempre a ironia. Portanto...
.........

*

João Evangelista apresentou-se a dois ministros com as cartas de recomendação do capitão-general. O dos negócios do ultramar gostou de conhecer pessoalmente o herói de Lou­renço Marques. O sol da África bronzeara-lhe um simpático semblante de beduíno. Usava bigode espesso e grisalho. Os cabelos eram ainda bastos, negros e lustrosos. Espáduas lar­gas, bem conformado, mas extremamente descarnado no ros­to, em que mais por isso realçava o coriscar sinistro dos olhos. Na testa serpeavam-lhe veias pretas, e tinha um nariz move­diço e adunco. Contou modestamente ao ministro as suas fa­çanhas atribuindo-as à valentia dos seus soldados. Deu conse­lhos, propôs alvitres e pintou com acerto o estado das colónias e o modo de as conservar com utilidade. Quanto às suas libe­ralidades na sustentação de um troço de homens, nada disse; mas o ministro sabia que João Evangelista desembolsara vinte contos na guerra de 1842. Ao despedir-se, o secretário de es­tado perguntou-lhe se pretendia alguma cousa, alguma mercê. João Evangelista respondeu que se considerava que farte re­munerado com o indulto. Não obstante, dias depois era agra­ciado com o hábito de Cristo.
Deliberou residir na capital da sua província, em Vila Real. Transferiu-se para lá; e, sem dizer quem era, foi à Sa­mardã. No caminho, perto de Gravelos, viu uma cruz de pau sob um dossel pintado de vermelho, um vermelho que parecia sangue. Na peanha tosca da cruz lia-se o nome de Joaquim Roxo, o assassinado pelo cirurgião de Borbelinha. Descobriu-se e rezou-lhe um Padre-Nosso por alma. Dali em diante, pelo caminho fora, apossou-se do cavaleiro professo da Ordem de Cristo grande melancolia. Via em si o alegre almocreve de trinta e cinco anos antes, e tinha saudades da sua vida de en­tão. Parecia-lhe ver a seu lado a sombra de Manuel Baptista e olhava sobre a esquerda onde, por entre os castanhais, alvejava a torre da igreja de Borbelinha. O pensamento ia dali a Moçambique, via o rosto cadavérico de Rosa, e demorava-se a imaginar-lhe os ossos ainda vestidos de carne sob a terra gre­tada pela chuva.
Chegou à Samardã ao lusco-fusco. Bateu à porta dos Viei­rãs, e pediu gasalhado por uma noite. Já não vivia o padre que me mostrara o pardieiro de João do Couto. Disse que ia para Trás da Serra, e receava meter-se ao caminho. Com grande pasmo da família hospedeira, saiu noite alta, e andou percor­rendo a aldeia. Sentou-se à porta da casa onde nascera, curva­do, com a cabeça entre as mãos, e chorou! Chorou, senhores, aquele homem que só devia chorar quando não teve mais pretos que matar, assim à maneira de Alexandre quando viu que se lhe acabava mundo que avassalar! Ah! naquela hora, se os cafres tivessem alma, e as crianças dos cafres tivessem o di­reito humano de se queixarem orfanados de pais e mães, que legiões de fantasmas não volteariam em redor daquele cava­leiro de Cristo!
Ao outro dia, ao despedir-se da família que lhe dera hos­pedagem, revelou quem era, e pediu que se avisassem os seus parentes pobres e os seus credores, ou os herdeiros deles.
Confluíram a Vila Real tantos primos que o homem antes se quisera ver a contas com os pretos da terra dos Fumos. Como ele era Alves e Gonçalves por pais e avós, todos os Alves e Gonçalves d’aquém e d’além Córrego entraram às chusmas em Vila Real. Às cavaleiras dos pais iam as crianças, e escarranchados nas albardas dos jumentos cabeceavam os macróbios. A estalagem do Ferro-Velho onde pousara João Evangelista parecia a Kaaba. As caravanas disputavam-se graus de parentesco no pátio da estalagem.
Distribuiu João Evangelista liberalmente os seus donativos pelos parentes; mas fugiu de Vila Real quando alguns vadios, que não eram seus primos, lhe enviaram cartas anónimas desi­gnando as quantias que necessitavam e indicando os lugares em que ele, se queria viver, devia depositá-las. O capitão de milícias de África fez então o elogio da civilização dos negros, e evadiu-se para o Porto, visto que não lhe era permitido chamar do presídio de Moçambique a sua ala, e implantar em Vila Real alguns exórdios de justiça.
Estabeleceu-se no Porto em 1853, e começou a edificar uma corrente de elegantes casas na rua Bela da Princesa. João Evangelista Vila Real montava sempre um cavalo preto de boa estampa; seguia-o um preto a pé, e precedia-o um cão da Terra Nova. Nos dias santificados, passeava sua esposa, uma senhora dotada de gorduras carminadas, e arquejante debaixo do peso dos grilhões de ouro que lhe bamboavam sobre o promontório dos seios. Adivinhava-se ali um passado de fressuras e mãozi­nhas de carneiro ricas de açafrão.

*

Tinha este homem no seu foro íntimo as seguintes cousas:
Primeira. Pancadaria à mão tente na primeira mocidade; navalha espanhola na boca, e pau de choupa em riste, nas feiras e romarias.
Segunda. As raparigas da Samardã, e as circunjacentes per­didas de modo que nem o céu lhes podia valer; porque diz Santo Agostinho que nem Deus pode restituir a virgindade perdida.
Terceira. O pomo da discórdia atirado ao seio da família de Manuel Baptista; o amigo assassinado por amor dele; o cirur­gião sentenciado a perpétuo desterro, e morto das febres pútri­das do presídio de Lourenço Marques.
Quarta. O assassínio dos dois alentejanos que eram maus, mas tinham direito à vida que representava o pão de muitas crianças.
Quinta. A torpe ficção de patriotismo com que se investiu para indultar-se de matador de dois brancos, espedaçando cen­tenas de negros que haviam estrebuchado sob o pé de ferro que os esmagava no chão onde o missionário implantara a cruz.
Por sobre estas cousas do foro de dentro, queria ter por fora o foro de fidalgo da casa real.
Isto seria absurdo, se uma fatalidade geográfica não pu­sesse João do Couto entre o rio Minho e o Cabo da Roca. Se ele não visse duas comendas da Conceição apresilhadas nas lapelas de dois seus vizinhos apanhados em flagrante assalto de quadrilha em Ponte Ferreira; se não visse a farda escarlate num réu convicto de testamenteiro falso – ousaria pedir bra­são de armas a el-rei seu amo? Se então não coroassem de barão português um corretor de meretrizes no Rio de Janeiro, João do Couto, o homicida lavado na sangueira dos cafres, pediria a el-rei a faculdade de ir saborear um refresco nas salas da Ajuda? Ele não pensava nisso. João Evangelista Vila Real, se aceitou o hábito de Cristo, foi porque soube que Vasco da Gama o tinha aceitado; e, quando pediu o foro de fidalgo, atendeu a que Afonso de Albuquerque e Pedro Álvares Cabral o não tinham rejeitado.
Requereu, pois, brasão de armas para encimar o portal do palacete que tencionava construir. O real pulso rubricava o título de nobreza deste homicida reabilitado pela carniceria de África, ao mesmo passo que a indigência ralava na obscuri­dade os voluntários de D. Maria II nas pocilgas da cidade heróica, onde João Evangelista fabricava palácios.
O brasão é passado a 2 de Junho de 1861, e registado no Cartório da Nobreza destes reinos, no Livro IX , folha 42 v. O sr. visconde de Sanches de Baena, traslada-o assim no seu Arquivo heráldico-genealógico, pág. 286.
João Evangelista Vila Real, cavaleiro professo na ordem de Cristo, capitão de milícias da província de Moçambique; filho de António Alves, negociante, e de sua mulher D. Maria Florência Alves; neto paterno de Manuel Alves, proprietário, e materno de José Caetano Gonçalves, proprietário, e de sua mulher D. Maria Gonçalves. Um escudo com as armas dos Gonçalves.
O escudo dos Gonçalves é em campo verde uma banda de prata carregada de dois leões vermelhos rompentes. Timbre: um dos leões10. Este é o escudo de armas passado a Antão Gonçalves que devia de ser tronco daquelas vergônteas que florejaram na Samardã.
Darei sucinta notícia de algumas famílias Gonçalves, ex­tintas e redivivas na pessoa de João do Couto. No Nobiliário do conde D. Pedro, tit. 22, pág. 134, D. Egas Gomes de Sousa, senhor da Honra de Novelas, casou com D. Gontinha Gon­çalves, filha de Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador; querem outros que D. Gontinha Gonçalves fosse terceira neta de D. Ramiro II, rei de Leão. Lá como quiserem: João do Couto não discutia isso, nem lhe importava que o genealó­gico Manuel de Sousa Moreira pusesse aquele D. Egas na li­nhagem da casa de Lafões11.
Temos outra vez nesta família dos Gonçalves da Samardã, D. Mor Gonçalves, casada com Afonso Lopes de Baião. Por este ponto os leões de João do Couto encontram-se com as águias da Honra de Azevedo, pela aliança de um neto de D. Álvaro de Baião com a supradita Gonçalves12. Giravam ou­trossim nas artérias de João do Couto alguns glóbulos do san­gue do rico-homem de Castela D. Gomes Gonçalves Girão, irmão do senhor da casa de Girões. Consulte-se Gludiel, «Compendio de los Girones», pág. 48.
Desastres, transformações, mudanças de tempos, quedas e renovações de nobreza, em tempos de Afonso III, de D. João I, de D. João II, dos Filipes, de D. João IV fizeram que os Gonçalves avós de João Evangelista vivessem de fazer carvão nas serras da Samardã; todavia, o lavrante do alvará, repondo os prenomes de Dona na tia Maria Florência e na tia Maria Gonçalves, mãe e avó de João do Couto, endireitou esta linhagem que andava torta, e limpou-a do pó das carvoarias.

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João Evangelista Vila Real, cavaleiro professo na Ordem de Cristo e fidalgo com exercício, viveu a longa vida dos an­ciãos que encaneceram com a serena consciência dos patriar­cas, e em provectos anos se mantiveram para exemplo da mo­cidade. Devia de orçar pelos setenta e sete, quando há quatro anos adormeceu no infinito sono dos cavaleiros professos, en­volto no manto da ordem com o seu largo peito ornado da cruz vermelha. Ali, no jazigo do último descendente bem aprovei­tado dos Gonçalves, apodrece o primeiro fidalgo e porventura o derradeiro da Samardã.
Não deixou descendência, porque tinha de menos na arte de fazer homens o que lhe sobrava no engenho de os desfazer. A sua viúva passou a segundas núpcias com um sobrinho re­moto do defunto. Não sei se há raça de Gonçalves nesta enxer­tia: mas D. Clemência entrou segunda vez na corrente de D. Gontinha.

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Nesta novela-biografia ou biografia-enovelada, não a quis fazer chorar, minha senhora. Vossa Excelência já sabe que eu – o derradeiro cultor do romance plangente neste país onde a literatura se está refazendo com fermentações de cores várias e jogralidades vasconças – premindo com o dedo umas certas molas do mecanismo da sentimentalidade, faço tremeluzir no cetim de suas pestanas umas camarinhas de preciosas lágri­mas. Também não quis que vossa excelência se risse. Este livrinho tem intuitos graves, e encerra uma ideia encoberta, porque ideias descobertas já raramente aparece uma. Tenho o desvanecimento de conjecturar que a filosofia deste opúsculo há--de dar de si. Pretendo aniquilar a fidalguia destes reinos movendo vossas excelências a não consentirem que seus esposos, afidalgando-se como João do Couto, concorram juridicamente aos bailes do Paço com facinorosos de torna-viagem.

1 Quem quiser saber o que eram os Cabrais e a Poesia, há trinta anos, em Portugal, medite neste trecho de um folhetim de Brás Tisana, «Periódico dos Pobres» de 14 de Março de 1845:
A srª D. Antónia Gertrudes Pusich acaba de enriquecer o Parnaso lusi­tano com uns lindos versos sobre o Judeu Errante... Esta senhora é tanto mais digna de elogios quanto por vergonha nossa vemos a Poesia dada em droga na pátria de Camões, de Ferreira, de Bocage, e de Filinto Elísio... Parece que a Política é inimiga da Poesia.
Estas seis linhas pintam o ciclo negro das letras pátrias com tal precisão e relevo que parecem de Cornélio Tácito.

2 Samardã é de raiz persa. O sucessor de Cambizes e predecessor de Dario chamava-se Samardous. Estes meus processos etimológicos são da es­cola do Amador Patrício, das «Antiguidades de Évora». Que Samardou viesse e desse nome à Samardã, é hipótese melhor de aceitar que a outra de ter vindo o herói de Homero fundar Lisboa; porque chamando-se o herói Odisseus, não é crível que em Lisboa se crismasse em Ulisses.

3 On ne dit plus chic. C’est recoco. C’est bourgeois. Et quando une femme a du genre et de l’élégance, on dit qu’elle a du Zing. «Diccion. de l’argot» 1872. Paris. Há 40 anos que Th. Gauthier escrevia chic. A brilhante escritora, a senhora D. Guiomar Torresão aplica em vez do chic o moderno du chien – (Almanaque). Já não é bem moderno. C HIEN . Flamme artistique, feu sacré. Abreviation de sacré chien (aguardente) pris dans une acception figurée Elle a réellement du chien, cette femme-là. (Droz) etc. Também se liga o Zing com o chien. Exemplo: Une toilette pourrie de Zing et persillée de chien. (Vie Parisienne, 1866). Isto era há nove anos. Bem pode ser que hoje o vasconso dos estaminets e das boulevardières não diga chic, nem zing nem chien.

4 Nous avons le cancan gracieux, la Sainte-Vemonienne, le demi-cancan, le cancan, le cancan et demi, et le chant. Cette dernière danse est la seule prohibée. Alph. Karr.

5 A novela tem a liberdade de alargar as fronteiras das províncias quando lhe convém. Estou historiando factos ocorridos na província transmon­tana; porém, como o remate desta biografia há-de passar-se no Minho, espero que os geógrafos se não aproveitem disto para me vedarem o acesso ao templo dos imortais, onde há lugar para todos.

6 Os dicionários decerto desconhecem o adjectivo reiúnas. Nas provín­cias do norte, espingarda ou pistola reiúna são as dadas pelo rei à infantaria ou cavalaria. Agora, depois que por um milagre de esforço e contensão de espírito se descobriu que não é o rei, mas sim o povo que paga as armas com que a linha vertical do mesmo povo se mantém entre a ponta da baioneta e a parede, as armas não são reiúnas, são do Estado.

7 Memória estatística dos domínios portugueses na África Oriental , Lisboa, 1835, pág. 104.

8 Ibid. , pág. 102.

9 Obr. cit. , pág. 91 e 92 e segs.

10 Tesouro da Nobreza de Portugal, por fr. Manuel de Santo António, reformado do Cartório da Nobreza.

11 Theatro historico-genealogico y Panegirico de la excelentissima casa de Sousa, pág. 94. Nestas matérias graves a exactidão das citações é cousa capitalíssima.

12 História Genealógica da Casa Real, tomo XII , parte I, pág. 237.

 
     
     
     
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