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Teresa Veiga

 
CONFIDÊNCIA BARREIRENSE
 
     
 
“ Não é verdade que a vida é formada quase
unicamente por detalhes excepcionais?”

Confidência Africana
Roger Martin Du Gard
1931
 
 
 
 

Cara amiga
Pede-me um conto para incluir na revista “Ficções” e a minha primeira reacção é dizer que sim, para quando, quantas páginas, apesar de não andar de boas relações com a escrita, sobretudo desde que voltei a esta terra de São Bartolomeu de Messines e mudei de vida e de hábitos a ponto de me atribuírem um espírito prático e empreendedor que é coisa que nunca tive.
Podia, é certo, ir buscar à gaveta umas páginas inéditas, maquilhá-las, rejuvenescê-las, tirar de um lado e acrescentar noutro, recorrer enfim àquelas operações habituais quando se pretende fazer passar por nova mercadoria fora do prazo de validade.
Acontece que este trabalho nem sempre compensa em termos de tempo e resultado final e na minha disposição actual me parece um expediente enfadonho, embora ás vezes também possa ser excitante.
Assim, como não há nada mais fácil de contar do que aquilo de que tivemos conhecimento directo, lembrei-me de trazer para as páginas da sua revista a história da família Martinó, a qual, como se verá, teve e talvez mantenha ainda alguns ténues elos de ligação com a minha própria história.
Já passou quase meio século desde o dia em que fui tomar posse do lugar de Conservadora do Registo Civil do Barreiro. Era o meu primeiro emprego e sentia-me dividida entre um sentimento de entusiasmo pueril e um certo receio pelas responsabilidades que ia ter que enfrentar aos vinte e três anos. Tinha projectado uma viagem de reconhecimento antes de me instalar de armas e bagagens no Barreiro, mas de adiamento em adiamento acabei por me despedir da família na estação de Tunes na madrugada do próprio dia em que devia iniciar funções.
Até então a vila do Barreiro não existia para mim senão como o lugar a que pertencia aquela estação onde se cruzavam os passageiros em trânsito entre o sul do país e Lisboa. Mesmo a estação em si não chegava a ser uma referência. Nítida, só a imagem dos magotes de pessoas, carregadas de malas e sacos, que se fintavam habilmente na ânsia de alcançar primeiro o ferry-boat para conseguir um lugar sentado e o atropelo final no cais de tábuas movediças, cercada do ruído de correntes e chapadas de água, a que se seguia um momento libertador depois de transpor o estribo metálico do portaló e entrar no ventre quente a cheirar a óleo da baleia- embarcação que nos acolhia.
Nesse dia descobri que a saída pelo interior da estação conduzia a uma extensa e larga avenida marginal saturada de sol, ao fundo da qual se avistava o casario da vila cravado de altas chaminés de fábricas como canos de espingardas apontados ao céu, empenachadas de grossos rolos de fumo que ao dissolverem-se na atmosfera absorviam a claridade e davam ao ar uma densidade estranha, amarelada e eléctrica.
Vi uma paragem de camionetas e juntei-me ao grupo de pessoas que iam formando uma fila, tendo ficado entalada entre duas mulheres que, percebendo que eu era uma intrusa, se esforçaram por me demonstrar que, lá por estar bem vestida e arranjada, não pensasse que podia esmagar a gente humilde do alto da minha pretensa superioridade.
Pela minha parte remeti-me a uma atitude plena de discrição, o que teve o efeito contrário de provocar uma situação desagradável.
O autocarro encheu-se completamente e eu, na tentativa de ocupar o mínimo de espaço possível, apertei contra mim a pasta de documentos e a bolsa do dinheiro ( (conseguira encostar a mala a um canto), para facilitar a vida às pessoas que eram obrigadas a abrir passagem no estreito corredor apinhado de gente.
Isto não foi bem entendido por uma mulher de aparência grosseira que se pôs a macaquear o meu gesto e a discorrer sobre a afronta que representava o medo que eu tinha de ser roubada, deixando-me na posição desconfortável de ter de ouvir e calar para não atrair sobre mim as atenções num dia que devia ficar na minha memória por outros motivos. Felizmente o centro da vila ficava a pequena distância e, mesmo sem nunca lá ter estado percebi que tinha chegado ao meu destino quando o autocarro entrou numa rua que era sem sombra de dúvida a mais animada e concorrida rua do Barreiro.
Esta rua, que atravessava a vila desde os baldios dos subúrbios até à luminosa marginal, era a espinha dorsal da vila e ponto de encontro obrigatório para quem quisesse comprar, vender, tratar de assuntos que envolvessem tinta e papel selado ou simplesmente assistir como num fórum ao tumultuoso fervilhar da existência.
A Conservatória, o Cartório, a Câmara, o Tribunal e a Repartição de Finanças funcionavam num grande edifício amarelo, os Paços do Concelho, cuja posição no topo da rua correspondia à sua função de cabeça da vila e centro do poder.
O coração da vila, os seus pulmões, as veias e as artérias onde se envenenava e purificava o sangue desse corpo em luta constante para se manter vivo, ficavam porém mais longe, passado o limite da via férrea, na zona onde a vila semi burguesa dava lugar à vila operária, lá onde eu avistara á distância os pescoços altivos das fábricas desenrolando os seus cachecóis de fumo.
Os habitantes desta zona eram uns privilegiados porque tinham trabalho certo e praticamente nem precisavam de se expor à maçada de frequentar a rua principal, com o seu trânsito intenso, o cheiro a comida e o engodo das lojas, terríveis máquinas de triturar dinheiro.
É certo que isso não impedia essa gente de vir para a rua aos Domingos com a sua melhor camisa lavada e fazer vida de ricos numa taberna em frente de um pires de tremoços e um copo de tinto e também eram vistos a passear no parque e a tomar banho na praia, mas percebia-se que a sua verdadeira vida se desenrolava noutra esfera, sobre a qual os não iniciados conjecturavam com alguma curiosidade mas que preferiam afinal não conhecer.
Eu vinha, com toda a pompa interior, instalar-me na cabeça da vila, e que assim fosse parecia-me certo e natural e de acordo com a lógica das coisas.
Fui recebida com todas as honras devidas, como um membro mais da camarilha, e o notário agraciou-me com um discurso em que vinha à baila a minha juventude, o respeito pelas hierarquias e o perigo dos vermelhos.
Contaram-me que o anterior Conservador exercera funções durante vinte anos, os últimos em condições atribuladas devido à doença de que viera a falecer, de forma que se tinha criado um vazio de poder para o qual tinha contribuído a personalidade do primeiro ajudante, homem já entrado em anos e de uma educação a toda a prova mas demasiado comprometido com a realidade social do Barreiro para exercer o cargo com total isenção. Os outros funcionários eram três mulheres, uma competente, a segunda semi competente, a terceira só habilitada para tarefas menores.
Devo dizer que de uma maneira geral estes juízos não se revelaram desacertados.
O primeiro ajudante, o senhor Lousada, tinha a aparência e os modos de um fidalgo de província arruinado e regia-se em tudo por normas caucionadas pela experiência ou por qualquer fonte de autoridade.
A sua primeira preocupação foi entregar-me as chaves da repartição, dos armários, dos cacifos, do cofre-forte e, tendo-se despojado das insígnias do poder, perguntou-me com a sua voz de asmático, trémula e ligeiramente ofegante, se pretendia ser eu a abrir doravante a correspondência, tarefa em que gastava diariamente quase uma hora. Percebi que para ele era quase uma questão de vida ou de morte e depois de breve hesitação disse-lhe que provisoriamente ficava tudo na mesma. Ele fez um gesto de assentimento que mais parecia uma vénia e eu considerei que obtivera a minha primeira vitória ao comprar-lhe por pouco a sua dedicação..
Em relação às três mulheres a amabilidade e a colaboração foram as notas dominantes desde o primeiro dia. Desabituadas de desobedecer a um chefe e achando-me desprovida de tudo a não ser de uma vaga ciência, procuravam alijar-me a carga dos ombros e fazer-me entrar num círculo de conformismo e rotina que perpetuasse o reinado de paz em que viviam.
Por sua vontade, eu não teria precisado de tratar pessoalmente de quase todos os meus assuntos. Encarregavam-se das minhas compras no mercado, na farmácia, nos correios, forneciam-me receitas e conselhos práticos que eram a melhor parte do seu capital de saber a meio da vida. Tendo desistido de me convencer de que eu ficava melhor num quarto alugado do que em casa arrendada, recorreram à sua rede de contactos para me encontrar a casa ideal, pequena e barata, numa rua tranquila a dois passos da Conservatória, que era como morar na aldeia mas estar perto de tudo. Os meus fins de semana solitários despertavam-lhes uma curiosidade mórbida mas respeitosa. Admiravam-se de que eu não fosse mais vezes passá-los “à terra”. Se eu lhes dizia que precisava de aproveitar o tempo livre para estudar olhavam-me com espanto e inquietação. Pois se tudo funcionava perfeitamente... Claro que eu não podia explicar-me melhor nem me convinha desmerecer do seu trabalho. Queria assimilar rapidamente a legislação e as ordens de serviço para depois poder questionar certas práticas que me pareciam erradas ou improdutivas. Era este o plano ambicioso que me prendia à mesa de trabalho pela noite fora e que se fosse conhecido provavelmente faria apagar os sorrisos que agora esvoaçavam à minha volta. Porém estava escrito que eu não seria a Grande Reformadora do Registo Civil do Barreiro. Para ser mais precisa, a ilusão durou exactamente três meses.
Num Sábado de madrugada acordei com o barulho de um punho a bater na vidraça do meu quarto.
A casa era térrea e além dessa janela só tinha uma porta que dava directamente para a entrada, de modo que era quase como se o intruso estivesse a ver-me e a respirar sobre a minha cama. À quarta ou quinta vez arranjei coragem para me levantar e fui pé ante pé espreitar por uma fenda das portadas. Devo dizer que logo que comecei a agir deixei de ter medo e senti nascer em mim a alma de um aventureiro para quem não há experiência comparável à de vencer os seus próprios demónios.
Era ainda noite cerrada e um espesso nevoeiro amarelo ocultava toda a perspectiva da rua deixando apenas visível o espaço banhado pela luz dos faróis de um automóvel e abafava todos os ruídos além do discreto reboar do motor.
Um homem de samarra e boné, com uma expressão atenta e compenetrada, nos antípodas de um vagabundo, olhava fixamente para a janela do meu quarto, não para ver para dentro mas para ser visto.
Antes de lhe perguntar o que queria já sabia que me vinha buscar, a Conservadora do Registo Civil, para um desses actos urgentes que na chateza da profissão surgem como um momento de alto risco, esperado e odiado, coberto pela lei e no entanto quase clandestino.
Tratava-se de um casamento na iminência de parto entre o jovem filho do seu patrão e uma rapariga ainda mais nova. Disse-me que primeiro fora a casa do velho Lousada que o informara de que já tinham um novo chefe e portanto perdera a legitimidade para celebrar casamentos, urgentes ou não.
Minutos depois estava na rua e entrava com ar decidido para o banco traseiro do automóvel, como quem está habituada de longa data a enfrentar situações inesperadas e ainda mais estranhas.
O nevoeiro não me deixava ver bem o caminho que seguíamos mas dei-me conta de que íamos na direcção oposta ao rio e que a avenida principal ficava para trás, sinal de que nos aproximávamos da zona industrial da vila.
O automóvel parou junto a um gradeamento que atravessava a estrada de lado a lado e o motorista fez um sinal de luzes que parecia transmitir uma mensagem em código. De uma espécie de guarita saiu então um homem, com o foco de uma lanterna apontado ao carro, que fez deslizar o gradeamento para um lado. Julguei que íamos entrar numa propriedade particular mas quando os faróis resvalavam sobre as bermas descobriam as fachadas lívidas de casas e mais casas, de uma uniformidade intrigante e sem uma única luz acesa.
Finalmente uma curva aparatosa e uma travagem firme advertiram-me de que tínhamos chegado. Olhei para cima e vi uma casa estreita como as outras mas consideravelmente mais alta e com um alpendre sustentado por colunas ao cimo de meia dúzia de degraus, tudo em tijolo e pedra escura e sem nenhuma beleza arquitectónica. Entrámos para um vestíbulo acanhado mobilado com um bengaleiro onde se amontoavam capotes, sobretudos e capas de oleado. Noutra parede uma reprodução das “Mãos” de Dürer confirmava que entrávamos numa casa de vocação ascética e austera.
Uma rapariga de olhos baixos, embrulhada num xaile, fez menção de me ajudar a despir o casaco. Em resposta aconcheguei mais ao pescoço a gola de pele – não se imagina o que uma gola de pele e um cinto de falso crocodilo podem fazer para elevar o nível de um casaco modesto até ao momento de testar o efeito ao espelho e nos olhos de quem nos vê – e murmurei qualquer coisa sobre o perigo das mudanças de temperatura, já que não podia explicar-lhe que o ar afirmativo, simultaneamente afável e distante, solene e caloroso, com que eu presidia aos casamentos, me advinha em boa parte por influência da minha indumentária.
O quarto da parturiente ficava no primeiro andar e era o clássico quarto de casal vocacionado para o sexo legítimo, com a sua atmosfera melada, a claridade envergonhada das lâmpadas de cabeceira e as litografias piedosas cercando o leito como esconjuro contra a devassidão.
Apercebi-me da presença de várias pessoas além da noiva, aliás mais mártir que noiva, amparada a almofadas, de longos cabelos escuros enquadrando o rosto cor de terra e camisa branca virginal, mas não tive tempo de organizar as imagens na minha cabeça pois logo que entrei no quarto um homem veio direito a mim, aos sacões, manejando com destreza duas bengalas, e a sua forte presença reduziu os outros à condição de meros figurantes ou ainda menos que isso, simples adereços de uma cena que ele ocupava por inteiro.
Este homem não se parecia com ninguém nem era fácil calcular que idade tinha pois todas as hipóteses eram igualmente admissíveis e inviáveis.
De velho tinha a pele distendida sobre os ossos, rugas concêntricas à volta da boca, fundos sulcos verticais junto às orelhas e cabelos finos e grisalhos, mas o nariz proeminente e a boca forte e bem desenhada davam uma impressão de vigor e os olhos lançavam bruscos clarões, alertando para o facto de que ainda eram capazes de amor, raiva e concupiscência.
Apresentou-se dizendo que era Eduardo Martinó, o pai do noivo, e pediu desculpa de me ter feito levantar a meio da noite para casar o filho e a futura nora, mas a jovem tivera uma hemorragia súbita e o médico receava um parto prematuro de consequências imprevisíveis. Naquele momento ela estava calma e sem dores, até se mostrara preocupada com a sua aparência e dissera que não queria casar de cabelo desgrenhado, infelizmente logo que passasse o efeito dos sedativos tinha uma longa noite à sua frente.
Disse-lhe que ia tentar ser o mais breve possível e que só precisava do canto de uma mesa ou cómoda para escrever. Nem quis ouvir falar em tal e conduziu-me a uma saleta contígua com uma grande secretária preparada para a ocasião. Enquanto eu escrevia o registo voltou para o quarto e as vozes baixaram ainda mais de tom, por respeito pela minha concentração, suponho, embora nada me oprimisse mais do que o peso do silêncio cortado de raros suspiros e cochichos de vozes. Porém, logo que eu pousei a caneta, voltou para junto de mim e acompanhou-me de novo até ao quarto, balançando-se nas bengalas, infatigável de cortesia e solicitude, se bem que se eu fosse capaz ter-lhe-ia pedido que se afastasse porque a sua proximidade dava-me falta de ar e ocupava todo o meu campo de visão.
Havia no entanto uma outra razão para eu me sentir tão perturbada. A fotografia do noivo, colada no bilhete de identidade, não coincidia com a imagem de um rapaz de dezasseis anos. Luís Martinó, um metro e sessenta e cinco de altura, olhos e cabelos castanhos, tinha as feições espessas e sobressalientes que se vêem nos bustos dos heróis da antiguidade, a mesma ambiguidade no olhar atormentado, linhas onduladas a sulcar-lhe a testa desde a linha de implantação do cabelo até à nascença do nariz, a parte inferior do rosto semeada de vincos e sombras improváveis como os que se sobrepõem numa obra ainda em esboço. Estava ansiosa por o ver, confirmar se era possível aos dezasseis anos ter a beleza de um adolescente e o acréscimo de sedução de um homem experiente e envelhecido. Não pensava na noiva, apesar da sua juventude, catorze anos, o que, sendo a idade mínima para casar, não fazia dela nenhuma raridade. Em três meses já tinha casado outras da mesma idade e aprendera que as gravidezes precoces no Barreiro, detectadas tardiamente, resolviam-se com um casamento fantasma em que muitas vezes o noivo, paga a dívida, desaparecia depois da boda para não tornar a aparecer.
E foi isto que eu vi numa fracção de segundos: um rosto fugidio que alguém afagava passando-lhe repetidamente a mão pela testa e os cabelos e debruçado sobre ele um outro rosto, crispado e sombrio, zangado e implorativo, uma bela máscara viril sem idade.
Mas já o motorista erguia sobre a minha cabeça um candelabro, aprisionando-me e ao livro dos registos num casulo luminoso que pelo contraste tornava a obscuridade circundante ainda mais opaca.
Comecei a ler, com a dicção perfeita e o registo neutro apropriado à matéria que cultivara para essas ocasiões, e só quando perguntei a Luís Martinó se era da sua livre vontade casar com Adelina Maria é que não pude evitar um ligeiro tremor em que ninguém reparou por certo mas teve o efeito de me atormentar até ao fim do acto e desviar-me a atenção da assistência para mim própria.
Assinado o registo por todos os intervenientes, com excepção da noiva por não estar em condições de assinar, fiz questão de me despedir imediatamente. Sentia-me aturdida, com a sensação desagradável de que não estivera à altura da situação, apesar do aspecto impecável da folha manuscrita, sem uma emenda, sem uma rasura.
Tinha passado pouco mais de uma hora e a vila continuava imersa numa atmosfera de vapores amarelados, a famosa combinação de gases e nevoeiro.
Pensei que o motorista não parecia tão franco e amável como quando me viera buscar. Tentei dormir e a excitação mantinha-se, agora sob a forma de uma agonia lenta e triste.
Os rostos do pai e do filho ora me apareciam destacados ora confundidos num único rosto mas mais sob a forma de estátuas de pedra do que de criaturas vivas.
Colada ao fundo da cama era como se estivesse num sarcófago. Acalmei quando as lágrimas romperam o manto de chumbo que me envolvia e pouco depois já eram as mãos que se me abriam e fechavam ensaiando gestos vagos e imperfeitos como os fetos girinos na barriga das mães.
Mais refeita, deixei que a minha memória regressasse às primeiras impressões quando entrara no quarto fatídico. Porquê fatídico? Porque é que me lembrava dele assim? Pelos seis ou sete espantalhos chorosos que rodeavam a mártir prontos a mergulhar as mãos nas quentes golfadas de sangue que de um momento para o outro podiam jorrar-lhe das coxas e tingir os lençóis? Prontos a esquartejá-la se fosse preciso para lhe arrancar do ventre a criança e oferecê-la de bandeja ao pai embrulhada numa colcha branca? Porque naquele quarto eu falhara a primeira grande prova e dera provas de incompetência e egoísmo? Nunca chegara a olhar bem para a noiva e tive que admitir que o desprezo a que a votara talvez tivesse origem no ciúme. Então pensei nela para a lamentar, para a embalar de encontro ao meu coração pesaroso, e de repente senti que também ela era de pedra, pesada e fria. Foi como se um raio me caísse em cima. Estremeci violentamente e sentei-me na cama de supetão ficando imóvel logo tempo como se tivesse o pescoço encostado ao gume de uma faca. A casa dos Martinó despiu-se das suas roupagens delirantes e os actores reentraram no seu estatuto de gente vulgar. Eu própria voltei a ser a Conservadora do Registo Civil do Barreiro. O dia ao amanhecer sepultara sombras e nevoeiros. Eram horas de ir para a Conservatória. E eu tinha que fingir que não sabia que acabava de casar uma morta.
Nascimentos, casamentos, mortes. Fiz centenas e centenas de registos até deixar de sofrer com a lembrança do meu erro. Foram precisos também muitos anos para poder pensar no velho Lousada, provavelmente já morto, e nas três prestáveis funcionárias, sem lhes desejar as maiores calamidades pela sua silenciosa cumplicidade nesta história.
A verdade é que logo naquele dia confirmei o que já sabia, que todos estavam cientes do embuste, vendo como desviavam os olhos e suspiravam ao lamentar a má sorte que perseguia aquela desditosa família e que recaíra sobre mim de modo injusto, ao que parecia, estragando-me a noite.
Fiquei a saber que nos Martinó uma doença rara e gravíssima transmitia-se de pai para filho, diminuindo a esperança de vida que nunca ia além dos trinta e poucos anos. Mesmo assim ainda acreditavam em milagres. Agora toda a esperança estava depositada no menino que nascera de sete meses algumas horas depois do casamento, sem que fosse possível salvar a mãe.
O meu silêncio desencorajou-os de continuar. Nunca mais me falaram da família Martinó.
Pouco tempo depois, quando surgiu a hipótese de me candidatar a um lugar mais próximo das minhas origens algarvias, não deixei fugir a oportunidade e tive a satisfação de ver que reagiam com surpresa e pena. Depois mudaram para uma atitude correcta mas fria e quando nos despedimos só faltou dizerem-me que eles é que se deviam sentir traídos e vítimas de incompreensão.
Morando a três minutos a pé da estação do caminho de ferro, privilégio a que sou muito sensível, habituei-me desde sempre a viajar de comboio. A viagem, aliás, era sempre a mesma, entre Tunes e Lisboa, mas foi durante muito tempo uma ocasião privilegiada para aceder ao luxo de estar sozinha e livre como em mais nenhum outro lugar durante as cinco ou seis horas que durava. Em todas essas viagens nunca aconteceu nada de verdadeiramente extraordinário e no entanto tenho ideia de que nenhuma deixou de me oferecer qualquer coisa que guardei comigo embora hoje já não saiba muito bem o quê. A excepção foi o momento em que, da janela do comboio, avistei o homem na estação de Garvão, concelho de Ourique
Reconheci imediatamente o pai do noivo no indivíduo, elegantemente enroupado num sobretudo que disfarçava mal a sua extrema magreza, que se ergueu do banco de azulejos e avançou aos sacões, amparado a duas bengalas, para a porta da carruagem onde eu seguia. Escolheu um lugar vago junto a uma janela – era um dia de semana e o comboio ia quase vazio – de frente para mim, tirou o chapéu e as luvas e pousou-os, assim como as duas bengalas, no banco ao seu lado. Reparei que a mão que efectuava estes gestos lentos e meticulosos era trémula e descarnada, um feixe de ossos a sair de um punho imaculado. Baixou-se para pegar numa maleta de contabilista, a única bagagem que transportava, e pô-la sobre os joelhos, mas logo a seguir pareceu esquecer-se dela e distraiu-se a olhar para um ponto além do vidro onde o seu reflexo se misturava com o da paisagem.
Ele vai ter que virar a cabeça, pensava eu, e então logo verei se finge não me reconhecer e até que ponto está disposto a lembrar-se.
Em Alvalade mergulhou na leitura de um caderno dactilografado. Vendo o tempo passar reuni toda a minha coragem e abordei-o com uma frase longamente estudada.
A facilidade com que ele se dispôs ao diálogo fizeram-me sentir envergonhada dos meus cálculos. Ele, Luís Martinó, o “noivo”, não me reconhecera porque no dia do casamento nem olhara para mim, ou antes, emendo, olhara sem ver como um sonâmbulo. Eu é que estava a confundi-lo com o pai, confusão natural dada a grande semelhança entre ambos.
Tive que fazer um esforço para não pensar no que isso significava. Se era esta a sua aparência aos trinta e quatro anos, queria dizer que a doença da família não o poupara e ele não podia ter quaisquer ilusões sobre o tempo que lhe restava para viver. Justificação mais do que suficiente, a meus olhos, para se refugiar na solidão e no alheamento. Puro engano. Luís Martinó não era um solitário nem um deprimido, tinha uma vida activa em contacto com centenas de pessoas e enquanto olhava através dos vidros é possível que estivesse a trabalhar mentalmente nos dossiers que carregava consigo para toda a parte. Durante a nossa conversa que durou mais de três horas apercebi-me de como o estimulava falar das fábricas e do que significavam em termos de empregos para a gente do Barreiro. Sobre ele e a família falou como quem não tem nada a esconder, de uma maneira simples, directa e concisa. Oxalá eu consiga manter o distanciamento necessário para me cingir às suas palavras, sem deixar interferir o meu pendor para filtrar toda a realidade através da emoção.
“Nasci no Barreiro, na casa onde me foi casar, filho de barreirenses e neto de um engenheiro químico francês, Edgard Martinot, e de uma alemã que foi no seu tempo notável maestrina.
O meu avô viera para Portugal muito jovem, em 1917, como colaborador de Alfredo da Silva, o fundador da CUF. Trabalhou incansavelmente e quando morreu, em 1935, era um homem rico, influente e respeitado.
Pouco depois o meu pai formava-se também como engenheiro químico e sucedeu-lhe como responsável máximo das fábricas de adubos e de ácidos que eram a “zona” mais importante do complexo industrial. Ainda muito jovem casou com uma rapariga da alta burguesia afecta ao regime e mudou-se para a casa que mandou construir numa rua do bairro destinado aos trabalhadores da fábrica de superfosfatos, chamada Rua do Ácido Sulfúrico.
Eu nasci em 1936 e quando chegou a altura de escolher um curso limitei-me a entrar naquele que me estava naturalmente destinado, o mesmo do meu pai e do meu avô, sem me interrogar sequer sobre se teria preferido escolher um outro rumo para a minha vida.
Três gerações de engenheiros químicos à frente da mesma empresa não é nada de surpreendente a não ser quando se repara na rapidez com que sucedem uns aos outros. É este o lado negro da história dos Martinó, que se não fosse isso seria simplesmente uma história de sucesso.
Não se sabe ao certo quando é que ocorreu o primeiro caso de degenerescência na nossa família. Os Martinot, antes de trabalharem na indústria, eram comerciantes, e ainda no século passado o avô do meu avô tinha entrada na Cidade Proibida para negociar objectos de arte. Morreu na China, não se sabe de quê nem quando, mas ao compulsar os registos verificou-se que o pai dele falecera aos trinta e cinco anos de doença desconhecida, e o pai do pai aos vinte e nove, de fraqueza geral. Por outro lado o estudo dos registos confirmou que, tal como sucede hoje, os Martinot só tinham filhos varões e eram pais muito cedo. Em cem anos quantas gerações costuma haver? Umas três ou quatro. Pois na nossa família chegámos a contar sete. Dir-se-ia que, conscientes de que morriam cedo, se apressavam a lançar a sua semente ao mundo. Isso é verdade mas a explicação fica incompleta se não acrescentarmos o seguinte: os Martinó não morrem jovens, entram em declínio por volta dos vinte anos e a partir dos trinta estão maduros para morrer. A morte não os vem buscar a meio da vida, simplesmente ardem demasiado depressa como fósforos de má qualidade. Entretanto passaram por todas as etapas da vida e mesmo à pressa tentaram desfrutar de tudo o que ela tinha para lhes oferecer. Trabalharam como forçados para atingir em meses resultados que pedem anos de esforços e tiveram que reduzir as distracções ao mínimo, em contrapartida qualquer erro que cometiam tornava-se mais grave por falta de tempo para o esquecer e pela urgência em o corrigir. Gostavam de mulheres e despertavam para o sexo logo ao sair da infância, mas a pressa de viver obrigava-os a contrair obrigações familiares muito cedo. E chegamos a um outro aspecto que, parecendo uma compensação para a injustiça que os feriu, também pode ser apreendido como um castigo. Tal como são, os Martinó foram sempre muito amados pelas mulheres. Se eu lhe lesse fragmentos de cartas que me chegaram às mãos compreenderia até que ponto é verdade o que lhe digo. A razão deve-se sem dúvida a múltiplos factores mas fundamentalmente a dois: a beleza sui generis dos Martinó, o seu tipo físico que mistura genes da raça asiática e caucasiana; a identificação de toda a mulher com a figura de Maria, a mãe de Cristo.
Mas basta de considerações de ordem geral quando afinal o que lhe quero contar só diz respeito a mim e ao que realmente se passou naquela noite em que a chamaram a nossa casa.
Vou recuar uns anos, a um período que foi dos mais felizes da minha vida. Tinha uns onze anos, era forte e saudável, tudo me corria bem em casa e na escola e a vila do Barreiro oferecia-me prazeres de sobra para não ter nada a desejar que não estivesse ao meu alcance imediato.
Um dia ao chegar a casa tinha o alfaiate à espera para me tirar as medidas para um fato de calças compridas de fazenda e um casaco a condizer. Logo que ficou pronto os meus pais anunciaram-me que íamos fazer uma visita de cerimónia, a casa do novo director da fábrica de sabões, e que naturalmente esperavam de mim um comportamento exemplar.
Não me disseram que ia conhecer uma rapariguinha pouco mais velha do que eu e que se tudo corresse bem seria a minha noiva antes de se tornar minha esposa, mas acho que no íntimo eu já estava preparado para uma surpresa desse género.
Nessa primeira visita aborreci-me de morte. Leonor quase não olhou para mim, limitando-se a desempenhar na perfeição o seu papel de menina dócil e bem educada. Se lhe falavam respondia numa voz vibrante e quase alegre, caso contrário seguia a conversa numa imobilidade de cego. Os meus pais acharam-na encantadora. Até o seu pequeno defeito, uma anquilose que não a deixava rodar o pescoço, contribuía para lhe dar um porte de princesa. Aí está, pensei aliviado, a explicação de não ter olhado para mim.
Já vê como os Martinó eram precoces e convencidos em relação às mulheres.
Na segunda visita sentei-me de frente para ela e trespassámo-nos com olhares até ao fundo das pupilas. Depois do lanche a mãe de Leonor sugeriu que fôssemos jogar pingue-pongue no salão de jogos instalado na cave. Fiz tudo para a vencer mas o estilo dela, dançante e fluido, quase um número de ballet, revelou-se mais eficaz que o meu jogo tecnicamente perfeito, todo em força e velocidade.
Marcámos a desforra para minha casa e aí, já mais consciente dos seus pontos fracos, consegui ganhar. Extenuado, estendi-me de bruços sobre a mesa. Ela imitou-me e compartilhámos a sensação de navegar sobre um mar encapelado abraçados aos destroços de uma jangada. Perguntei-lhe se era verdade que queria casar comigo. Disse que sim e rastejou até ficar com a cabeça encostada à minha. Os nossos lábios tocaram-se através da rede. É neste momento que me ocorre pensar quando se fala no nosso casamento.
As visitas, ora em casa dela ora na minha, continuaram nos anos seguintes, programadas de forma a que não se tornassem um hábito nem interferissem nos meus estudos. Leonor fez-se uma mulher e eu adquiri rapidamente a aparência de um adulto, apesar de por vezes as pessoas ficarem perplexas sem saber muito bem como lidar comigo e definir-me.
Oficialmente estávamos noivos. As famílias só esperavam que eu fizesse dezasseis anos para tratar dos preparativos para o casamento. No entanto, à medida que este se aproximava e o amor de Leonor por mim multiplicava os sinais, se tornava mais obsessivo e absorvente, comecei a sentir-me angustiado e a ter dificuldade em corresponder-lhe como faria um homem apaixonado.
A praia, com os seus dois quilómetros de extensão, com os acessos dificultados pelas barreiras de arame farpado que protegiam as fábricas, era o território privilegiado para todos os que queriam esconder-se ou isolar-se e para lá nos dirigíamos sempre que nos deixavam mais à-vontade. Às vezes encontrávamos amantes escondidos nas depressões das dunas ou nas velhas barracas dos pescadores e tornava-se embaraçoso fingir que não tínhamos visto. Eu sabia que Leonor estava amarrada à promessa solene que fizera aos pais de observar os princípios da moral cristã e que no meu caso havia uma espécie de tradição de os Martinó respeitarem as noivas até ao casamento mas também não podia ignorar a força do desejo que a fazia violenta querendo ser meiga. Como dizer a uma noiva que os seus abraços não deixam respirar e dão uma sensação desagradável de punição? Ao princípio lembro-me de lhe ter perguntado “por que é que me apertas?” e de ela ter respondido num sussurro inflamado “porque te adoro”. Esta pequena cicatriz junto à sobrancelha é a marca que ficou de uma vulgar explosão de carinho. Estava há muito tempo a acariciar-me o rosto na sua maneira lenta, compenetrada, como se quisesse aprendê-lo de cor pelo tacto (na verdade fazia-o com uma volúpia indescritível e tinha consciência disso a ponto de dizer que se eu morresse deixava enterrar o corpo mas guardava a cabeça) quando o anel de prata que eu lhe oferecera se partiu em dois e sob a pressão dos seus dedos se enterrou profundamente na minha testa. Vendo o sangue correr tentou estancá-lo com os lábios e só lhe digo que, mais do que a dor causada pelo ferimento, me custou suportar a sua expressão de desvario e a proximidade da boca ensanguentada.
Dito assim até se pode pensar que eu já não amava Leonor, se é que alguma vez a tinha amado. Não é verdade. O que acontecia é que, egoistamente, eu não queria suportar o fardo de ser um deus para alguém, talvez pressentindo que era o caminho mais curto para me tornar escravo. Por outro lado a ideia de que a minha aura se devesse em parte à doença e tanto amor tivesse uma parte de necrolatria, fazia-me desejar às vezes, com igual dose de ironia e sinceridade, que me detestassem, pois só quem me detestasse me faria sentir-me seu igual. Afinal encontrei o justo equilíbrio entre sentimentos extremos sem ter de me esforçar muito. Estava, desde sempre, ao alcance da minha mão, na minha própria casa..
Em nossa casa morava uma criada que um dia aparecera grávida e tivera uma filha. Era uma mulher promíscua e não foi possível arranjar pai para a criança. Os meus pais cederam-lhe um quarto na cave onde dormia e cozinhava para ela e para a filha e passava a ferro a roupa dos patrões.
A garota, logo que soube subir escadas, transportava os tabuleiros dos engomados e nesta actividade de subir e descer foi passando mais tempo em nossa casa do que na cave mas quando já andava na escola a professora queixou-se aos meus pais do seu comportamento e o resultado foi recambiarem-na para a cave. Este foi o terceiro azar de Adelina. O primeiro tinha sido nascer daquela mãe e o segundo parecer-se tanto com ela, pequena, magra, escura, sempre com um sorriso atrevido que não encorajava os bons sentimentos. Apesar disso e tendo em conta os bons serviços da mãe, Adelina podia contar com um lugar na fábrica de tecelagem logo que tivesse idade para entrar como aprendiza.
Sendo filho único eu habituara-me à presença de Adelina e deixara que preenchesse o papel de irmã. Claro que estava consciente de que uma relação de irmãos em princípio não pode assentar numa base de desigualdade mas as crianças têm uma grande capacidade de adaptar a realidade aos seus desejos e durante muito tempo quase que acreditei que a única razão de ela morar na cave era ser mal comportada e ter de ser castigada.
Os meus pais nunca se tinham oposto a que brincássemos juntos e provavelmente até pensavam que ela era útil como complemento da nossa vida de família e também para ser vir de contrapeso ao meu feitio pouco expansivo.
Quando me ofereci para a ajudar a preparar-se para o exame da quarta classe acharam que era um gesto nobre e altruísta e que ficava bem numa família com preocupações sociais como a nossa. Isso fez abrandar as regras que na verdade também nunca tinham sido muito rígidas e Adelina voltou a circular com mais à-vontade entre o seu reduto na cave e o resto da casa.
Estava com treze anos e de criança feia passara a metro e meio de mulher mais esqueleto que carne mas sem ter um aspecto franzino, antes daquela solidez de ossos brunida e elegante das ciganas. Aliás não era de excluir que a mãe dela a tivesse concebido na carroça de um cigano.
Continuava vivíssima e descarada, interpelava toda a gente dum modo desabrido e se a provocavam respondia com obscenidades. Comigo não abria excepção a não ser quando fazíamos o papel de professor e aluna. Então reconhecia em mim uma superioridade face à qual todos os seus ardis eram vãos, mas só nessa altura, o que poderá parecer pouco lisonjeiro mas no trato diário permitia um equilíbrio de forças que me agradava.
Adelina desconhecia a doçura dos afectos e os sentimentos delicados e toda a sua energia parecia canalizada para os banir da sua vida. Um dia em que conseguíramos conversar um pouco mais a sério no ambiente propiciatório das ruínas do convento da Verderena, um sítio que considerava como seu desde que o descobrira nas suas deambulações de desocupada, dei-lhe um beijo no magro ombro no sítio onde a pele estava esfolada por a ter roçado contra um muro. Seguiu-se uma breve escaramuça, um corpo a corpo desajeitado com risos e insultos pelo meio, e quando eu julgava que o meu atrevimento me tinha valido alguma coisa, atirou com a porta do quartinho esburacado onde nos refugiáramos entalando-me um dedo de propósito e fazendo do meu azar pretexto para mais gracejos e gargalhadas. No entanto eu sabia que não havia razão para se fazer de espirituosa e inacessível. Não era tão ingénuo que não tivesse reparado no cumprimento entre dentes que não tinha maneira de evitar quando um homem a reconhecia na rua e se atrasava a perceber que não devia dizer nada. E será que ela pensava que eu acreditava que no café da Boleira se encontravam às vezes notas amassadas entre as pontas de cigarros e os desperdícios?
Este tempo de enganos e discussões pueris tinha os dias contados e eu sabia-o e ela também.
Além disso no meu caso havia a pressa que sabe que tem muito a ver com o facto de medirmos o tempo não em anos mas em dias. Um belo dia de praia em que Leonor fora a Lisboa para uma jornada de compras ofereceu-nos a ocasião ideal.
Devo dizer que não tinha em mente forçá-la a nada nem imaginara nenhum processo de sedução. Lembro-me de que até estava um pouco triste, o que era habitual quando o excesso de luz, a vitalidade triunfante do maravilhoso Verão, me lembrava que não ia ter muito tempo para participar daquela fantasia. Se Adelina se tivesse apiedado de mim, se tivesse tentado alisar-me as rugas da testa, estou certo de que teríamos passado uma tarde em provocações e em jogos e apostas mas mais nada. Felizmente que isso não aconteceu. Os meus estados de alma não interessavam a Adelina. Bastava-lhe saber decifrar palavras e comportamentos. O resto pertencia a cada um, tal como as suas vísceras, e teria tido a maior das vergonhas em se aventurar por terreno tão escandaloso.
Quer acreditar que depois deste dia memorável ela não se mostrou mais íntima nem mais amável para comigo nem tão pouco me deu a entender que compartilhávamos um segredo? Pois é verdade. Foi sempre exactamente a mesma, atrevida, colérica, às vezes grosseira, sádica por orgulho, por desafio, por incapacidade de se afirmar de outra maneira. E eu também nunca desejei que ela mudasse. E também nunca perdi tempo a pensar se o amor dela valia mais ou menos do que o de Leonor. Só sabia que me fazia sentir vivo e forte ao passo que os beijos ardentes da minha noiva me deixavam num estado de submissão animal, entre a languidez e o fastio.
Aproximava-se a altura do casamento. Eu tentava não pensar nisso e imaginava vagamente que arranjaria maneira de continuar com os nossos encontros num refúgio algures, uma vez que ia ter alguma independência financeira como homem casado. Entretanto, consoante o estado do tempo, assim escolhíamos as ruínas do convento ou a praia para estarmos juntos..
Um dia estávamos a descansar numa cama improvisada com tábuas e coberta de sacas, num ambiente de paz doméstica a que nem faltava o choro manso da chuva, quando Adelina se levantou, toda nua, e eu vi que estava grávida.
Não tentou negar e ainda teve disposição para rir e sossegar-me. O que estava feito estava feito e, como dizia a mãe, havia sempre uma primeira vez para tudo. Pensara em livrar-se do bebé mas dois casos recentes de mortes às mãos de abortadeiras tinham-na feito recuar e entretanto passara o tempo. Portanto, se os chás de ervas que andava a beber não dessem efeito, iria ter a criança na praia junto ao canal da barra para que fosse levada por um braço do oceano. Vendo-me incrédulo e horrorizado disse que também havia a hipótese de abandonar a criança à porta de uma igreja ou de uma casa de gente rica. Acrescentou que seria bom que eu pudesse ajudá-la na altura do parto mas se não pudesse achava-se capaz de fazer tudo sozinha.
Tentei dissuadi-la, sem grande convicção pois esse dia ainda vinha longe e até lá tudo podia acontecer. Infelizmente todas as soluções me pareciam más sobretudo quando analisadas do meu ponto de vista. Adelina tinha pouco a perder mas eu ia ser culpado de abalar os alicerces de duas famílias. Nem sequer conseguia imaginar a reacção de Leonor. E, pior que tudo, a tradição de probidade dos Martinó interrompia-se em mim e para esse mal não havia remédio.
Passei dois meses terríveis em que à incerteza sobre o que se ia passar se acrescentava a necessidade de confortar Adelina e fazê-la compreender como o seu plano era desumano e insensato. Ela talvez já estivesse menos persuadida mas continuava a teimar que não via outra solução . No fundo acho que esperávamos e continuámos a esperar sempre, até ao último dia, que os chás abortivos e o jejum obstinado de Adelina, a quem toda a comida dava vómitos, se encarregasse de resolver o nosso problema de uma forma natural. Quando chegou a altura, porém, deu-se uma transformação em mim que ainda hoje não sei de devo lamentar quando penso nos resultados. Vendo Adelina torcer-se de dores deixei de ser um garoto cobarde e assustado e enfrentei a situação como um homem. Levei-a para casa e chamou-se o nosso médico de há muitos anos, grande amigo do meu pai, a quem se podia confiar qualquer segredo. Pois esta decisão de chamar o médico, que se impunha perante a feição que as coisas estavam a tomar, custou-me a amizade de Adelina e tornou as suas últimas horas num inferno. Eu sabia que ela tinha medo dos médicos e que associava a sua presença a um mau presságio, por influência das histórias que a mãe contava baseadas nas suas miseráveis experiências pessoais, mas não calculava que lhe provocasse uma reacção de terror tão intenso. Debatia-se, gritava, enquanto teve voz atirou-lhe os piores insultos. Para mim não tinha palavras mas, se interpretei bem o seu olhar, morreu a detestar-me.
Não sei se foi a minha mãe ou o meu pai que teve a ideia do casamento póstumo ou se foi concertada entre ambos. Eu não estava em estado de pensar nem de lhes opor resistência.
Era evidente que tudo se tornava efectivamente mais simples. Uns papéis assinados na intimidade da nossa casa e casamento, nascimento e morte sucediam-se na engrenagem dos registos, respeitando a ordem de prioridades. Depois algum tempo de recolhimento, o silêncio condoído dos outros e a entrega total à fábrica, logo que acabasse os estudos. Leonor não entrava neste esquema. Alguma vez podia perdoar o meu procedimento indigno?
Um ano depois casávamos, na mesma casa, uma cerimónia simples, a que assistiu o nosso filho, conduzida sob o olhar enternecido do velho senhor Lousada. Digo o nosso filho porque se fosse dos dois não podia ter encontrado uma mãe mais dedicada. Quinze anos depois sou tão feliz quanto pode ser um homem com a doença que tenho. Talvez isso a ajude a perdoar a facilidade com que foi enganada”.
Não fui capaz de lhe dizer que sim, que estava tudo esquecido e perdoado. Não porque fosse mentira mas por me parecer um medíocre happy-end para o nosso encontro.
Ora conversando, ora guardando um silêncio sem constrangimentos, chegámos finalmente à vista do Barreiro, de onde eu prosseguiria viagem para Lisboa. O comboio foi perdendo velocidade e nas últimas centenas de metros deslocava-se tão devagar que parecia um capricho do maquinista, sem nenhuma fundamentação técnica. Tive tempo de ver os bairros novos que começavam a surgir um pouco por toda a parte, a avenida marginal recentemente arborizada, a floresta dos alicerces do novo hospital e, sempre omnipresente, a cidadela das fábricas que davam de comer à vila, o complexo da CUF, a sombra tutelar dos barreirenses para o bem e para o mal.
Voltei-me para Luís Martinó e disse-lhe: a minha primeira impressão quando cheguei ao Barreiro foi: isto é o Far West. E agora...
Não completei o meu pensamento porque o vi entretido a reunir a bagagem e percebi que não estava a ouvir-me. O que eu ia dizer, e calei a tempo, era que sentia que aquela terra, recuperada pela memória, voltava a ser minha, ou outra frase parecida que desse conta da minha vontade de voltar para ela, sem me importar com o estilo pomposo porque o estilo tem de estar de acordo com a matéria e já sentia as lágrimas a subir, a emoção a empolgar-me, e não estava longe de achar que a minha entrega ao Barreiro era um acto de suprema generosidade.
– Lá estão eles, o meu filho e a namorada. Tiveram a simpatia de vir esperar-me. Já agora apresento-lhos, se tiver um minuto.
Apertámos as mãos, dissemos umas palavras de circunstância. Tudo ao ritmo apressado dos encontros nas gares, tanto mais que eu tinha de apanhar o barco.
Não voltei ao Barreiro.
Sei que continuou a crescer, que é hoje uma cidade, e se lá aterrasse de improviso havia de dizer: isto é uma Babilónia. Os bairros novos e o trânsito intenso que avisto da janela do comboio ainda me atraem a atenção, mas já não imagino que aquela mulher discretamente vestida podia ser eu a andar por ali. Para voltar a gostar do Barreiro precisava de tornar a ver os Martinó, o pai e o filho ou só um deles, e dizer-lhe abertamente: deixa-me olhar para a tua cara, tocar com as mãos no teu maravilhoso rosto envelhecido. Deves-me isso em troca da vergonha que me fizeste passar.
Mas isso já não faz parte da história da família Martinó (a história deles terminou onde os vi juntos pela última vez, na estação do caminho de ferro do Barreiro) e não é absolutamente certo que faça parte da minha.

 
     
  In Ficções nº. 2  
     
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