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Amadeu Lopes Sabino

 

CLARA EUGÉNIA E AS METÁFORAS

 
 
 
 
Cansada de guerra, de guerre lasse, como ela própria dizia, Clara Eugénia impôs-se uma disciplina rigorosa. Fez ginástica, tornou-se abstémia e aplicou-se a estudar a abolição das formalidades fronteiriças entre os países membros das Comunidades Europeias. Acompanhava mensalmente em Estrasburgo a sessão plenária do Parlamento Europeu. Exceptuando essa deslocação, raramente saía de Bruxelas. Aos fins de semana lia Simenon e ia ao cinema. Escrevia longas cartas ao pai e recebeu respostas breves. Num postal remetido de Zurique, o pai falava-lhe de um macaco que fora o companheiro da infância de Clara Eugénia; ela recordou com saudade esse amigo fidelíssimo de olhar pícaro, que a vigiava com a solicitude de um irmão mais velho. Nessa noite sonhou com o pequeno símio a quem, em criança, chamava Mono. Via-o sentado aos pés da cama, fumando charuto, a perna traçada e o sorriso zombeteiro. Sentiu-se acompanhada.
A partir desse reencontro, o Mono voltou a ser o seu anjo da guarda, a segui-la sempre, a diverti-la por vezes, a consolá-la quando necessário. Graham, o marido de Clara Eugénia, um diplomata britânico dotado de condescendência filosófica, aceitou que o macaco adquirisse a dignidade de membro da família. Considerava-se o Mono o autor de façanhas mais ou menos fabulosas; responsabilizava-se o Mono pelos pequenos fracassos domésticos; atribuíam-se-lhe tanto a aquisição de um candeeiro art déco num antiquário de Antuérpia como a desastrosa execução de um prato. Era o guarda da casa e o motorista do casal. Conduzia com perícia, mas a atracção das velocidades dava-lhe volta a cabeça. Ao contrário de Clara Eugénia, amava intensamente a vida, que partilhava com amigos e conhecidos alardeando uma fraternidade não isenta de bonomia.
As conversas acerca do Mono, das suas múltiplas vidas e gloriosas aventuras, tornaram-se a forma privilegiada de contacto entre Clara Eugénia e Graham. A polida frieza que nos últimos tempos caracterizava o trato de ambos foi pois substituída por uma relação triangular, superficial mas lúdica. Paralelamente à acrescida importância na vida do casal, o macaco adquiriu uma biografia pormenorizada. Policarpo de nome próprio, era de ascendência cigana e, por assumida convicção, boémio e andarilho. De idade indefinida (suspeitavam-no eterno), vivia de vagos rendimentos e múltiplos talentos de artista de circo, toureiro e especulador na bolsa. Mais tarde, e à medida que ia servindo de pretexto para satirizar costumes e atitudes, o Mono foi banqueiro, escritor, político e, é claro, diplomata. Esta última qualidade tornou-se uma constante: o Mono acompanhava Clara Eugénia e Graham a recepções e jantares, tratando toda a gente com desconcertante à-vontade. Beijava a mão às senhoras com vénias excessivas, próprias de uma personagem da commedia del arte. Bebia bastante, falava demasiado e, às vezes, partia copos e pratos. Pronunciava-se acerca de política e arte, história e ciência, vinhos e culinária. Revelava segredos de estado e estratégias internacionais, dizia disparates com evidente convicção. Estava apto a brilhar, resumia Graham, no mais exigente dos salões.
Uma noite acompanhou Clara Eugénia e o marido a casa do conselheiro de imprensa da embaixada de França, que homenageava um Português recentemente agraciado com a Legião de Honra. O serão decorreu às mil maravilhas. O condecorado arrazoou sobre a cultura portuguesa desde a época dos Descobrimentos até aos nossos dias, citando Camões, Pessoa e meia dúzia de poetas seus conhecidos que considerava de mérito idêntico. Era baixo, gordo, comia com apetite devorador, bebia a condizer. A meio do jantar engasgou-se. Policarpo correu em seu socorro e recitou de cor várias estrofes de Os Lusíadas. Depois, como fosse necessário passar aos contemporâneos, leu um extenso poema da sua autoria, esforçadamente elogiado pelo condecorado e por uma senhora que, conhecendo o castelhano, se propunha compreender o português. Clara Eugénia e Graham consideraram o poema de Policarpo, um soneto em verso branco, apenas sofrível na primeira estrofe, de um insuportável academismo modernista na segunda e da mais rematada insensatez na terceira e na quarta. Mas ninguém, entre o resto da assistência, partilhou tal opinião.
Senhor do terreno a partir desse dia, Policarpo entendeu dever passar a dar abrigo permanente ou ocasional a uma pequena legião de outros animais. Primeiro recebeu um jovem macaco de nome Pantagruel, de quem fez secretário, motorista, confidente e cozinheiro. Chegou depois o Lili, um suíno originário do Porto, que entrou de imediato na carreira diplomática, vindo a casar com uma flamenga da sua raça, de nome Mimi, numa cerimónia na igreja do Sablon presenciada por todo o jet set europeu. Posteriormente apareceu o Pirolito, irmão da Mimi, um especialista em literatura portuguesa que se correspondia com os mais ilustres lusófonos do universo. Mas os grandes favoritos de Clara Eugénia eram, sem sombra de dúvida, os macacos sem fronteiras, Pantaleão, Cipião, Cipriano e Tibério, símios licenciados em medicina, eternamente a caminho da Etiópia e de Moçambique em missões humanitárias; como nessas terras não há pão para as bocas, os macacos viam-se obrigados a comer caviar e a beber champanhe, dizia Graham.
A vida quotidiana dos hóspedes tornou-se o tema das preocupações diárias de Clara Eugénia e do marido. Convencionaram que os animais o eram apenas aos seus olhos, passando por digníssimos representantes do género humano perante os cidadãos desprevenidos. Esta asserção permitiu formular uma teoria geral: muitas pessoas com quem diariamente nos cruzamos na rua são apenas animais disfarçados, assumindo forma humana para singrarem nas florestas da vida; raros mortais possuem o dom de as identificar como animais, com frequência selvagens, que efectivamente são.
Quando, em Lisboa, por ocasião do centenário do nascimento de Pessoa, o celebérrimo baú dos inéditos foi revolvido e um investigador inspirado descobriu que o poeta assinara textos com o heterónimo de Pantaleão, o Mono viu desenhar-se a grande oportunidade da sua vida. Na qualidade de chefe da tribo, fez regressar da Etiópia o médico Pantaleão e acompanhou-o a Portugal, onde o apresentou como a reencarnação do poeta. Segundo o Pirolito, Pantaleão, que aceitou o desafio, acreditou na fábula: foi recebido e condecorado pelas mais altas autoridades do estado, visitou instituições culturais, proferiu conferências, deu autógrafos e entrevistas, animou recitais, percorreu o país na companhia de presidentes de câmaras, governadores civis e ranchos folclóricos. No termo da estadia, o Presidente da República, lamentando que a Academia Sueca ainda não tivesse distinguido o lusitaníssimo Pantaleão com o Nobel da Literatura, atribuiu-lhe uma tença vitalícia igual ao ordenado mínimo nacional. O Mono espumou de raiva, no que foi acompanhado por todo o clã. Portugal, declararam, continuava a pagar miseravelmente aos seus poetas; ia repetir-se, uma vez mais, o trágico destino de Camões. Pantaleão regressou desiludidíssimo à Etiópia: o ordenado mínimo português não lhe chegava sequer para o caviar.
- Meu Deus! - exclamou Clara Eugénia ao saber do infausto acontecimento. - Portugal transformou-se num local péssimo. Perdeu o império para sempre e pretende restaura-lo através de um pirosíssimo respeito por uma cultura totalmente desconhecida a partir de Badajoz! Portugal degradou-se ao nível da Bechuanalândia. Delendus est!
Tratou pois de eliminar Portugal de todos os mapas que encontrou em casa. Recortava com cuidado o rectângulo português (era dotada para os trabalhos manuais) e substituía-o por papel azul marinho. Portugal mergulhava, assim, no fundo dos mares. No Outono visitou o país africano onde nascera. O mundo colonial e as suas injustiças tinham desaparecido para sempre, substituídos por fanatismos medíocres e novas desigualdades sociais que tornavam impossível qualquer esperança. De regresso à Europa, passou pelo colégio de Genebra onde estudara. Distribuiu chocolates e flores, mas compreendeu que professores e funcionários a tinham já esquecido completamente.
- Não tenho pátria, não há duvida - comentou Clara Eugénia, após esta interessantíssima série de experiências. - Aceitarei ser europeia.
- Take it easy! Calma! - respondeu-lhe Graham, regressando à leitura de Yeats, nos últimos tempos o seu poeta favorito.
Quando, dois anos antes, em Janeiro de 1986, a bandeira portuguesa fora hasteada na rue de la Loi, em Bruxelas, Clara Eugénia saboreou uma tranquilizadora sensação de vingança. De ascendência brasileira e suíça, nascera numa ex-colónia africana e vivera desde os dez anos entre Londres e Lisboa, razão por que considerava o seu passaporte português um mero acidente. Conservadora por educação, reconhecer-se-ia de direita se a direita portuguesa não fosse uma mera sucessão de equívocos nacionalistas. "O patriotismo", dizia ela, "esse então é a pornografia de que o nacionalismo é o erotismo".
Aceitara por acaso um emprego de administradora no Parlamento Europeu; mas, a pouco e pouco, admitiu que a unificação europeia a interessava apesar de a não apaixonar. Quando casou com Graham, que conhecera no mês anterior, mostrou-lhe Portugal como quem cumpre um rito. Não deixou, porém, de o avisar que se tratava de uma simples digressão litúrgica. Não amava o seu país, disse-lhe, ou, pelo menos, não o amava especialmente. O marido respondeu-lhe:
- Oh!, mas isso acontece sempre aos seres cuja relação com a mãe é problemática. Sobretudo mulheres, está bem de ver. A pátria é a mãe e, se tu não amas a tua mãe, como poderias amar a tua pátria? É provável que queiras abandoná-la, esquecê-la, traí-la, etc... Não se trata de propósitos muito graves no fim do século XX..
Clara Eugénia dizia alto e bom som que escolhera Graham apenas pelo nome. Quem a conhecia sabia que ela falava verdade: amava ou odiava as palavras, como uma criança à medida que as descobre. Rejeitava umas e coleccionava outras; inventava incessantemente fonemas que repetia em voz baixa ao espelho, enquanto se pintava. Se fosse homem, apaixonar-se-ia como Fabricio del Dongo por uma mulher de nome Clélia; e não necessitaria de lhe ver o rosto para a identificar no meio de exércitos de espectros.
- Não quero reproduzir a imagem da minha mãe - confessava ao marido. - Não esperes isso de mim: o corpo deformado, as dores do parto, o enfado provocado pelas crianças, as medíocres relações entre progenitores e descendentes... Tudo isso me horroriza. Tudo. Não terei filhos. Sou peremptória.
- Peremptória! Que bela palavra! - respondeu Graham, que aprendia o português. - Sei bem que és peremptória sempre que falas. Nem que seja por poucas horas.
Em 1986, quando Portugal se tornou um entre os vários estados das Comunidades Europeias, Clara Eugénia admitiu que a relação conflitual que mantinha com o seu país iria começar a banalizar-se. Os Portugueses seriam cada vez mais Europeus, e a identidade nacional (expressão cuja simples fonética abominava) passaria a definir-se como um mero provincianismo paroquial, tão ridículo quanto irrelevante. "Limitada, quando muito, aos vinhos e à culinária", acrescentava.
Ora aconteceu que, poucos dias depois, ao acordar, se sentiu como uma planta sem raízes. Em toda a parte se considerava uma estrangeira - pensou. Casara com um homem por quem exercitava um amor assente na curiosidade mas que, em relação a ela, continuava a ser um estrangeiro. Olhou em volta e pareceram-lhe estrangeiros os objectos em que tocava, a cama em que dormia, o homem que nessa cama continuava deitado, a casa onde ambos viviam. Ela própria era uma estrangeira. Fechou os olhos, tentando reconstituir a imagem do seu rosto: contornos, volumes e dimensões esfumavam-se; sentiu dificuldade em respirar. Correu para a cozinha e bebeu duas chávenas de café.
A partir desse dia, decidiu criar vínculos. Empenhou-se em amar o marido, tarefa que lhe pareceu demasiado fácil e, por isso, monótona. Disse-lho. Graham achou que ela desafiava os deuses, interrogando-os em vão. Em lugar de vínculos aconselhou-a a criar centros de interesse, simples alibis para a vida cuja eficácia depende do facto de quebrarem a monotonia sem afectarem a tranquilidade dos hábitos.
Clara Eugénia renovou o guarda-fato, mudou de penteado e escreveu poemas na agenda do escritório. No mês seguinte propôs-se a si própria uma paixão por um colega de trabalho, um motorista de táxi (teimava em não conduzir e evitava os transportes colectivos), ou um espião soviético. Graham percebeu que ela esgotara as três hipoteses, praticando-as sucessiva e freneticamente. Abriu os seus belos olhos azul-turquesa num esforço de severidade desajeitada e aconselhou moderação:
- Não perca o norte, pelo menos faça por isso. A nossa casa parece o palácio presidencial de Manila após a queda da ditadura. Os pares de sapatos e os fatos da mulher do presidente Marcos foram, como sabe, pretexto para educativas visitas das criancinhas das escolas. Mais dia menos dia, organizam-se visitas de estudo para admirar os seus guarda-fatos. Você - ele tratava-a por você em português quando passava da serenidade à irritação - você pode perder-se no meio de tanta roupa e de tanto sapato. Já pensou nisso?
Nessa noite, numa recepção, Clara Eugénia conheceu alguém dado ao cinismo e que lhe pareceu sedutor. Tratava-se de um diplomata israelita quase sexagenário, cujo sorriso funcionava à maneira de elixir da longa vida. Clara Eugénia narrou-lhe como os seus antepassados portugueses, de origem judaica, tinham iludido o exílio e as fogueiras da Inquisição tornando-se cristãos-novos nos princípios do século XVII. Confortada pelo álcool, admitiu dever retomar ela própria a tradição bíblica e aí lançar raízes, construir pontes para o passado, edificar uma história pessoal coerente. Contou depois que a mãe a abandonara ainda criança, perseguindo miragens personificadas num cantor de ópera ou num pianista de nightclub (jamais o soubera ao certo); o pai achara preferível entregá-la aos cuidados de sucessivos colégios; não tinha irmãos e mal conhecia os avós; considerava por isso a família uma convenção ou, pior ainda, um preconceito; dispunha-se, talvez, a inventar uma a título de divertimento. E assim por diante.
Shalam (era o nome do Israelita) aproveitou a ocasião para, em tom ligeiro, lhe falar do seu próprio passado. O pai e a mãe haviam desaparecido nas câmaras de gás de Treblinka, mas ele vingara-os anos depois nas margens do Jordão. Amava a guerra, só suportando a diplomacia porque a praticava com o rigor do estratega e a veemência do desportista, manejando uma espécie de mastermind à escala planetária.
Clara Eugénia sentiu-se atraída por esse despudor repleto de sageza, misto explosivo de proselitismo e descrença, de empenhamento no destino da Humanidade e de misantropia.
À despedida, o Israelita disse-lhe:
- Se me deixar confessar-lhe que um dia virei a amá-la, a minha vida pode adquirir um sentido. Pode, está a ouvir-me?
Clara Eugénia deu-lhe um rápido beijo na face:
- Meu caro amigo, desse modo a sua vida perderia todo o sentido. - Tentou aparentar ligeireza, mas foi com amargura que concluiu: - Estaria perdido e, pior do que isso, o seu bom humor naufragaria...
- Naufragar, naufragar... - resmungou Shalam. - E você, já alguma vez naufragou?
- Sim, já - respondeu ela com a mesma amargura.
- Em Londres. Naufraguei numa cidade, veja lá!

Anos antes, em Londres, onde concluía os estudos, Clara Eugénia conhecera a solidão absoluta.
Terminava um doutoramento na London School of Economics. Após as aulas estudava na biblioteca da escola e à noite bebia whisky após whisky até adormecer. As suas inclinações narcisistas aproximavam-na dos espelhos; por vezes beijava a sua própria imagem. Mas um desgosto crescente levara-a a abolir à sua volta todas essas terríveis máquinas de destruição que, desde os tempos remotos em que a madrasta da Branca de Neve foi rainha, inquietam os seres humanos, sobretudo os do sexo feminino. Durante o fim de semana ouvia discos de manhã à noite. As suas preferências iam de início para os Beatles e para Mahler. Depois reduziram-se ao rock.
Mantinha ligações com homens mais velhos; essas ligações começaram por ser irregulares e transformaram-se em episódicas. Num longo e duro Inverno chegara a aceitar o convite de um desconhecido. Nada disso a tranquilizava. As coisas complicavam-se ainda mais porque Clara Eugénia, que desconhecia o prazer, considerava seu dever proporcioná-lo exemplarmente a um homem com quem passasse umas horas. A insegurança conduzia-a à competitividade; a competitividade ao desânimo.
Os três últimos anos da estadia de Clara Eugénia em Londres foram marcados por aquilo a que ela chamou, mais tarde, "o ciclo de Nick", uma relação tumultuosa com um jovem actor de teatro. Nicolas North, orfão desde os quatro anos, vivia com os avós numa vivenda em Chelsea, dividido entre a paixão pelo teatro e o gosto pelos desportos mecânicos. Quando conheceu Clara Eugénia, abandonara os estudos e representava o papel de Puck num Midsummer's Night Dream encenado por Victor Garcia. Após os ensaios reunia-se a um grupo de jovens sem ocupação que queimava as noites de clube nocturno em clube nocturno ou em corridas de motorizada pelas estradas dos arredores.
Nick era talentoso, arrogante, excessivo. Recorria a todo o género de experiências. Utilizava o álcool, a droga e a velocidade como formas de um conhecimento em relação ao qual era capaz de compromissos radicais. Numa noite de estreia agrediu um polícia numa estação de metro, esperando divertido que o director do teatro movesse meio mundo para o libertar minutos antes do início do espectáculo. Comportava-se como um profeta agnóstico. Propôs-se fixar uma ética a Clara Eugénia, que a viveu como tirania: não amava o companheiro, limitando-se a cumprir o cerimonial entediante do masoquismo.
As sucessivas efabulações de Nick reforçaram o carácter desconfiado de Clara Eugénia. A partir dessa época, passou a exigir a verdade absoluta nas relações com os outros. Preocupava-a sobretudo a verdade factual, e essa preocupação foi adquirindo nela as características de um tormento. "As árvores dos factos escondem quase sempre a floresta dos sentimentos", dir-lhe-ia Graham anos depois. "E se te preocupasses um pouco mais com a serenidade e um pouco menos com esse detectivesco culto da verdade a todo o preço?".
- Há uma consciência de culpa exacerbada e mortificante que é tipicamente judaica - disse-lhe Shalam. - Você possui-a, não há dúvida.
- Claro, claro - respondeu ela rindo. - Desde Eva que todas as mulheres são judaicas, está bem de ver! Vamos arrastando o pesado fardo da culpa. O século XX e a emancipação feminina complicaram ainda mais as coisas.
Aceitara o convite do Israelita para uma peregrinação às marcas da presença dos Judeus portugueses na Holanda. Passaram o dia entre os túmulos de Oudekerke e a sinagoga de Amesterdão. Shalam dizia-se descendente de lapidadores de diamantes sefarditas que tinham vivido em Arnheim até à invasão hitleriana. Clara Eugénia encontrou na sinagoga uma placa com o apelido da família da mãe. O Judeu, bom narrador de histórias, contou-lhe como um seu antepassado lapidara o diamante Sanay, perdido por Carlos, o Temerário, na batalha de Morat; misteriosamente recuperado, o diamante pertencera depois a Henrique VIII de Inglaterra e a Maria Tudor, eclipsando-se no século passado. Mas ele, Shalam, propunha-se descobri-lo.
Essa sucessão de informações excitou a imaginação de Clara Eugénia e predispô-la para um acto romanesco. Passou a noite com Shalam num hotel pouco recomendável, onde havia grandes janelas com pseudo-vitrais e gravuras eróticas nas paredes recobertas de seda adamascada. Nesse cenário de opereta, ela oscilou entre a curiosidade perante um sexo masculino circuncisado e a irritação provocada pela ejaculação precoce do companheiro, que a impediu de realçar os seus dotes de amorosa.
Regressou a Bruxelas em silêncio, e foi em silêncio que se manteve encerrada em casa durante uma semana. Fechou-se no quarto, deitada sobre a cama por abrir. A chuva e o vento fustigavam as janelas, desenhando nas vidraças figuras que, na imaginação perturbada de Clara Eugénia, se assemelhavam a monstros disformes. No jardim, uma araucária possuía olhos de dinossauro e uma magnólia abria grandes braços tentaculares; no telhado da garagem reunia uma assembleia de tigres, discutindo em grande algazarra a estratégia do ataque aos humanos. O rosto da madrasta da Branca de Neve, emergindo de uma coifa vermelha e negra, desenhava sorrisos de mofa no espelho do guarda-fato. À noite a chuva cessava, e as rosas brilhavam na muda escuridão do jardim.
No termo de uma semana de pesadelos, Clara Eugénia decidiu retomar o fio do quotidiano. Graham disse-lhe:
- Tenho um parente mormon. Sabes qual é a pedra basilar dessa doutrina? Deus ordena aos homens que sejam felizes. Vê lá! Ando a pensar abraçar essa religião e em dedicar-me de vez a um hedonismo anímico. Mas começo a duvidar da possibilidade de o fazer na tua santa companhia, minha querida e amada esposa. Possuis uma desmedida atracção pela infelicidade, princípio oposto ao da religião que me interessa. Voilà! Não era Proust quem dizia que a única maneira de a mulher se ir embora é fugir? Tu foges constantemente, através de comportamentos que te vão permitindo coleccionar infelicidades e depressões. Sendo egocêntrica, não sabes ser egoísta. Fazes o mundo inteiro girar à tua volta, mas não te move qualquer princípio de prazer. E é pena!
- Que queres? - perguntou Clara Eugénia, à beira do choro. - Que queres? Não pretendo ser mulher, mas ser humano... É difícil, difícil! Ser mulher é estar metida em casa, tratar da cozinha e dos filhos. Ou então, o que é bem pior, deambular entre as redacções dos jornais e os cinemas ditos de qualidade, teorizando lugares-comuns sobre a escrita feminina. Queres que me conforme?
Graham não respondeu. Esvaziou o seu Porto e passou as mãos pela melena loura que disfarçava uma careca precoce. Vestia um fato azul claro contrastado por uma gravata de caxemira em tons vermelhos. Mantinha nos lábios o sorriso cândido de um súbdito de Sua Majestade Britânica; natural de uma das ilhas do Canal, considerava-se, contudo, quase um homem do Sul, capaz de compreender os actos mais desrazoáveis. Deu a conversa por concluída e, junto à lareira, dedicou-se a estudar o cerimonial de entrega das credenciais do novo embaixador britânico ao rei da Bélgica: "No dia fixado para a audiência real, um ajudante de campo do rei vai, com automóveis da corte, buscar o embaixador à sua residência para o conduzir ao palácio. O embaixador pode fazer-se acompanhar por um número limitado de diplomatas da sua missão".
Entre Clara Eugénia e o marido cavara-se um fosso apenas ocasionalmente transposto por aquilo a que ambos chamavam "les métaphores animalières". Graham não se fizera mormon, mas, entre o ténis e o squash, seguia cursos de sofrologia, técnica que, de acordo com os especialistas, ensina a tranquilidade. Interessava-se também pelas filosofias orientais. Dotado de espírito metódico, coleccionava relógios que ele próprio consertava. "Como Luís XVI", dizia de si para si, "vou descurando a minha Maria Antonieta. Acabarei no cadafalso".
Clara Eugénia, mulher radical, julgava-se infeliz. E era-o. Trabalhava até à exaustão, redigindo pareceres e discursos cujo destino final lhe era indiferente. Entre Bruxelas e Estrasburgo, ia comandando batalhões de secretárias que tratava com efusividade excessiva, fazendo por não esquecer os respectivos nomes. Tentava aparentar um domínio de si própria que caía como uma máscara cada vez mais vetusta quando ficava sozinha. Um cansaço agónico apossava-se-lhe então do corpo e da alma. Organizava reuniões, colóquios e debates, ouvindo os oradores sem lhes prestar a mínima atenção, fazendo sinais de assentimento ou dúvida, esboçando sorrisos de concordância. Embora a tivessem por competentíssima e imprescindível, passava os dias à espera de um louvor, trabalhando mais do que lhe era pedido, espiando as reacções de quantos a rodeavam, duvidando que a apreciassem convenientemente.
No fim de um dia de trabalho, só, no seu gabinete do Parlamento, apagava as luzes e olhava, absorta, as filas de trânsito que desciam a rue Belliard. Os automóveis, pensava, transportavam gente para quem a vida possuía um significado. "Pobre gente, destituída de lucidez", murmurava, encolhendo os ombros num gesto de desdém. Os seus olhos concentravam-se nas matrículas dos carros. Esgotada, nervosa, perdia-se em sucessivas adições de algarismos, tirando-lhes os noves e concluindo pelas propriedades fastas ou nefastas dos resultados. Depois, ao longo de horas, decifrava os códigos das letras das matrículas: GCY - Grupo de Católicos Yrreflectidos; FHR - Federação de Hipócritas Reaccionários; MAS - Movimento de Aspirantes a Sacanas; LHC - Liga de Homossexuais Comunistas; APE - Associação de Pindéricos Ediotas; SVT - Sociedade de Veterinários Trogloditas; CVG - Crápulas, Vigaristas e Graxistas; EEX - Escola de Elefantes Xintoístas ...
Chegava a casa cada vez mais tarde. Dormia só, de portas e janelas abertas porque era claustrófoba e temia a escuridão. Pela noite adiante, assaltavam-na imagens do passado: o dia em que a mãe desaparecera de casa, a atenção cerimoniosa que o pai sempre lhe dispensara, a solidão disciplinada dos colégios em que vivera a infância e a adolescência. Suportava como uma doença incurável a insignificância da existência humana: admitia, admitiria para sempre, tratar-se de algo universal e não de uma marca da sua própria história. Recordava-se então de uma professora de dança que conhecera na colónia africana onde nascera, uma mulher que vivia entre um marido brutal e um regimento de filhos. Um dia, num acto de desafio, essa mãe de famflia aparentemente conformada utilizara uma garrafa partida para se ferir na vagina e nas pernas. "Para sempre, para sempre", murmurava ao entrar no helicóptero que a conduziu à capital da colónia.
Na grande cama que fora a do casal, Clara Eugénia chorava em silêncio. Engolia um sonífero e caía num sono agitado. Sonhava com uma ilha tropical rodeada pelo mar sereno. Sucediam-se imagens pacificadoras; pescadores que, entoando cânticos, empurravam os barcos ao longo da praia, crianças que erguiam construções na areia. Depois, o mar cordato revelava-se uma armadilha, devorando gentes e barcos que nele se aventuravam. Clara Eugénia acordava em pânico e corria para junto do marido.
- Calma! Calma! - dizia Graham. - Vamos pedir ajuda ao Mono. Ele embala-te até adormeceres, ador... me... ce... res...
Assim que o deputado britânico com quem trabalhava renunciou ao mandato europeu e regressou aos Comuns, Clara Eugénia propôs-se de imediato acompanhá-lo. Ocupar-se da cultura da batata no Sussex ou da decadência da indústria carbonífera no País de Gales pareceu-lhe o corolário lógico do seu europeísmo. Graham partiria para a África ou para a Ásia no ano seguinte, esperando ser nomeado embaixador num país esquecido onde se dedicaria à leitura e à meditação. Quando Clara Eugénia lhe comunicou a decisão de se radicar em Londres, o marido limitou-se a citar San Juan de la Cruz, nos últimos tempos o seu poeta favorito:

- Con esta buena esperanza
que de arriba les venía
el tedio de sus trabajos
mas leve se les hacia ...

Clara Eugénia disse-lhe com um entusiasmo de que não estava ausente alguma dissimulação:
- Durante a semana trabalharei como uma louca. No fim de semana acompanho o meu deputado e a família até uma quintinha perto de Oxford, e vamos fazer remo no Tamisa. Quando vieres a Londres exploramos os restaurantes indianos, turcos, afegãos, etc, etc...
- Hum! Hum! - murmurou Graham. - Agora preocupo-me sobretudo com o budismo. Aceitar a vida e a morte com hospitalidade. Com alegria, mesmo. - Mudando de tom acrescentou: - Mas toma conta de ti. Vê se dormes… Não trabalhes de mais... Descansa... Não fumes tanto…
- Bom, bom - atalhou Clara Eugénia. - Não te preocupes. Hei-de habituar-me a viver só. Ou melhor, com as minhas...
- Diz, diz!
- Com as minhas metáforas.
No dia da partida, Graham acompanhou Clara Eugénia à Gare du Midi. Ela entrou para o comboio sem vacilar e, depois de arrumar as malas na bagageira, veio até à porta para um último adeus.
- O Mono já se foi sentar no lugar ao lado do teu - disse Graham.
- Esse nunca me abandona - respondeu Clara Eugénia com um sorriso distraído.
- Já puxou de um Davidoff. Espero que tenham escolhido uma carruagem para fumadores.
- Como sempre. Nunca me engano.
Um apito. Os murmúrios das últimas despedidas. O comboio começou a deslizar suavemente na plataforma.
- Encontramo-nos no mês que vem em Londres - disse Graham, elevando a voz e dissimulando uma lágrima. - Ou daqui a cinco semanas em Brighton, no congresso do teu partido. Ou...
Mas as palavras dele perderam-se entre os ruídos da gare. Clara Eugénia já não o ouvia: voltara ao compartimento e mergulhara na leitura de um livro de Chandler. Queria saber a identidade do assassino antes de chegar a Ostende.

 
  In Novelas Imperfeitas,
Lisboa, Quetzal Editores, 1991.
 
 


 
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