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Cansada de guerra,
de guerre lasse, como ela própria dizia,
Clara Eugénia impôs-se uma disciplina rigorosa.
Fez ginástica, tornou-se abstémia e aplicou-se a
estudar a abolição das formalidades fronteiriças
entre os países membros das Comunidades Europeias.
Acompanhava mensalmente em Estrasburgo a sessão
plenária do Parlamento Europeu. Exceptuando essa
deslocação, raramente saía de Bruxelas. Aos fins
de semana lia Simenon e ia ao cinema. Escrevia longas
cartas ao pai e recebeu respostas breves. Num postal
remetido de Zurique, o pai falava-lhe de um macaco
que fora o companheiro da infância de Clara Eugénia;
ela recordou com saudade esse amigo fidelíssimo
de olhar pícaro, que a vigiava com a solicitude
de um irmão mais velho. Nessa noite sonhou com o
pequeno símio a quem, em criança, chamava Mono.
Via-o sentado aos pés da cama, fumando charuto,
a perna traçada e o sorriso zombeteiro. Sentiu-se
acompanhada.
A partir desse reencontro, o Mono voltou a ser o
seu anjo da guarda, a segui-la sempre, a diverti-la
por vezes, a consolá-la quando necessário. Graham,
o marido de Clara Eugénia, um diplomata britânico
dotado de condescendência filosófica, aceitou que
o macaco adquirisse a dignidade de membro da família.
Considerava-se o Mono o autor de façanhas mais ou
menos fabulosas; responsabilizava-se o Mono pelos
pequenos fracassos domésticos; atribuíam-se-lhe
tanto a aquisição de um candeeiro art déco
num antiquário de Antuérpia como a desastrosa execução
de um prato. Era o guarda da casa e o motorista
do casal. Conduzia com perícia, mas a atracção das
velocidades dava-lhe volta a cabeça. Ao contrário
de Clara Eugénia, amava intensamente a vida, que
partilhava com amigos e conhecidos alardeando uma
fraternidade não isenta de bonomia.
As conversas acerca do Mono, das suas múltiplas
vidas e gloriosas aventuras, tornaram-se a forma
privilegiada de contacto entre Clara Eugénia e Graham.
A polida frieza que nos últimos tempos caracterizava
o trato de ambos foi pois substituída por uma relação
triangular, superficial mas lúdica. Paralelamente
à acrescida importância na vida do casal, o macaco
adquiriu uma biografia pormenorizada. Policarpo
de nome próprio, era de ascendência cigana e, por
assumida convicção, boémio e andarilho. De idade
indefinida (suspeitavam-no eterno), vivia de vagos
rendimentos e múltiplos talentos de artista de circo,
toureiro e especulador na bolsa. Mais tarde, e à
medida que ia servindo de pretexto para satirizar
costumes e atitudes, o Mono foi banqueiro, escritor,
político e, é claro, diplomata. Esta última qualidade
tornou-se uma constante: o Mono acompanhava Clara
Eugénia e Graham a recepções e jantares, tratando
toda a gente com desconcertante à-vontade. Beijava
a mão às senhoras com vénias excessivas, próprias
de uma personagem da commedia del arte. Bebia
bastante, falava demasiado e, às vezes, partia copos
e pratos. Pronunciava-se acerca de política e arte,
história e ciência, vinhos e culinária. Revelava
segredos de estado e estratégias internacionais,
dizia disparates com evidente convicção. Estava
apto a brilhar, resumia Graham, no mais exigente
dos salões.
Uma noite acompanhou Clara Eugénia e o marido a
casa do conselheiro de imprensa da embaixada de
França, que homenageava um Português recentemente
agraciado com a Legião de Honra. O serão decorreu
às mil maravilhas. O condecorado arrazoou sobre
a cultura portuguesa desde a época dos Descobrimentos
até aos nossos dias, citando Camões, Pessoa e meia
dúzia de poetas seus conhecidos que considerava
de mérito idêntico. Era baixo, gordo, comia com
apetite devorador, bebia a condizer. A meio do jantar
engasgou-se. Policarpo correu em seu socorro e recitou
de cor várias estrofes de Os Lusíadas. Depois,
como fosse necessário passar aos contemporâneos,
leu um extenso poema da sua autoria, esforçadamente
elogiado pelo condecorado e por uma senhora que,
conhecendo o castelhano, se propunha compreender
o português. Clara Eugénia e Graham consideraram
o poema de Policarpo, um soneto em verso branco,
apenas sofrível na primeira estrofe, de um insuportável
academismo modernista na segunda e da mais rematada
insensatez na terceira e na quarta. Mas ninguém,
entre o resto da assistência, partilhou tal opinião.
Senhor do terreno a partir desse dia, Policarpo
entendeu dever passar a dar abrigo permanente ou
ocasional a uma pequena legião de outros animais.
Primeiro recebeu um jovem macaco de nome Pantagruel,
de quem fez secretário, motorista, confidente e
cozinheiro. Chegou depois o Lili, um suíno originário
do Porto, que entrou de imediato na carreira diplomática,
vindo a casar com uma flamenga da sua raça, de nome
Mimi, numa cerimónia na igreja do Sablon presenciada
por todo o jet set europeu. Posteriormente
apareceu o Pirolito, irmão da Mimi, um especialista
em literatura portuguesa que se correspondia com
os mais ilustres lusófonos do universo. Mas os grandes
favoritos de Clara Eugénia eram, sem sombra de dúvida,
os macacos sem fronteiras, Pantaleão, Cipião,
Cipriano e Tibério, símios licenciados em medicina,
eternamente a caminho da Etiópia e de Moçambique
em missões humanitárias; como nessas terras não
há pão para as bocas, os macacos viam-se obrigados
a comer caviar e a beber champanhe, dizia Graham.
A vida quotidiana dos hóspedes tornou-se o tema
das preocupações diárias de Clara Eugénia e do marido.
Convencionaram que os animais o eram apenas aos
seus olhos, passando por digníssimos representantes
do género humano perante os cidadãos desprevenidos.
Esta asserção permitiu formular uma teoria geral:
muitas pessoas com quem diariamente nos cruzamos
na rua são apenas animais disfarçados, assumindo
forma humana para singrarem nas florestas da vida;
raros mortais possuem o dom de as identificar como
animais, com frequência selvagens, que efectivamente
são.
Quando, em Lisboa, por ocasião do centenário do
nascimento de Pessoa, o celebérrimo baú dos inéditos
foi revolvido e um investigador inspirado descobriu
que o poeta assinara textos com o heterónimo de
Pantaleão, o Mono viu desenhar-se a grande oportunidade
da sua vida. Na qualidade de chefe da tribo, fez
regressar da Etiópia o médico Pantaleão e acompanhou-o
a Portugal, onde o apresentou como a reencarnação
do poeta. Segundo o Pirolito, Pantaleão, que aceitou
o desafio, acreditou na fábula: foi recebido e condecorado
pelas mais altas autoridades do estado, visitou
instituições culturais, proferiu conferências, deu
autógrafos e entrevistas, animou recitais, percorreu
o país na companhia de presidentes de câmaras, governadores
civis e ranchos folclóricos. No termo da estadia,
o Presidente da República, lamentando que a Academia
Sueca ainda não tivesse distinguido o lusitaníssimo
Pantaleão com o Nobel da Literatura, atribuiu-lhe
uma tença vitalícia igual ao ordenado mínimo nacional.
O Mono espumou de raiva, no que foi acompanhado
por todo o clã. Portugal, declararam, continuava
a pagar miseravelmente aos seus poetas; ia repetir-se,
uma vez mais, o trágico destino de Camões. Pantaleão
regressou desiludidíssimo à Etiópia: o ordenado
mínimo português não lhe chegava sequer para o caviar.
- Meu Deus! - exclamou Clara Eugénia ao saber do
infausto acontecimento. - Portugal transformou-se
num local péssimo. Perdeu o império para sempre
e pretende restaura-lo através de um pirosíssimo
respeito por uma cultura totalmente desconhecida
a partir de Badajoz! Portugal degradou-se ao nível
da Bechuanalândia. Delendus est!
Tratou pois de eliminar Portugal de todos os mapas
que encontrou em casa. Recortava com cuidado o rectângulo
português (era dotada para os trabalhos manuais)
e substituía-o por papel azul marinho. Portugal
mergulhava, assim, no fundo dos mares. No Outono
visitou o país africano onde nascera. O mundo colonial
e as suas injustiças tinham desaparecido para sempre,
substituídos por fanatismos medíocres e novas desigualdades
sociais que tornavam impossível qualquer esperança.
De regresso à Europa, passou pelo colégio de Genebra
onde estudara. Distribuiu chocolates e flores, mas
compreendeu que professores e funcionários a tinham
já esquecido completamente.
- Não tenho pátria, não há duvida - comentou Clara
Eugénia, após esta interessantíssima série de experiências.
- Aceitarei ser europeia.
- Take it easy! Calma! - respondeu-lhe Graham,
regressando à leitura de Yeats, nos últimos tempos
o seu poeta favorito.
Quando, dois anos antes, em Janeiro de 1986, a bandeira
portuguesa fora hasteada na rue de la Loi, em Bruxelas,
Clara Eugénia saboreou uma tranquilizadora sensação
de vingança. De ascendência brasileira e suíça,
nascera numa ex-colónia africana e vivera desde
os dez anos entre Londres e Lisboa, razão por que
considerava o seu passaporte português um mero acidente.
Conservadora por educação, reconhecer-se-ia de direita
se a direita portuguesa não fosse uma mera sucessão
de equívocos nacionalistas. "O patriotismo", dizia
ela, "esse então é a pornografia de que o nacionalismo
é o erotismo".
Aceitara por acaso um emprego de administradora
no Parlamento Europeu; mas, a pouco e pouco, admitiu
que a unificação europeia a interessava apesar de
a não apaixonar. Quando casou com Graham, que conhecera
no mês anterior, mostrou-lhe Portugal como quem
cumpre um rito. Não deixou, porém, de o avisar que
se tratava de uma simples digressão litúrgica. Não
amava o seu país, disse-lhe, ou, pelo menos, não
o amava especialmente. O marido respondeu-lhe:
- Oh!, mas isso acontece sempre aos seres cuja relação
com a mãe é problemática. Sobretudo mulheres, está
bem de ver. A pátria é a mãe e, se tu não amas a
tua mãe, como poderias amar a tua pátria? É provável
que queiras abandoná-la, esquecê-la, traí-la, etc...
Não se trata de propósitos muito graves no fim do
século XX..
Clara Eugénia dizia alto e bom som que escolhera
Graham apenas pelo nome. Quem a conhecia sabia que
ela falava verdade: amava ou odiava as palavras,
como uma criança à medida que as descobre. Rejeitava
umas e coleccionava outras; inventava incessantemente
fonemas que repetia em voz baixa ao espelho, enquanto
se pintava. Se fosse homem, apaixonar-se-ia como
Fabricio del Dongo por uma mulher de nome Clélia;
e não necessitaria de lhe ver o rosto para a identificar
no meio de exércitos de espectros.
- Não quero reproduzir a imagem da minha mãe - confessava
ao marido. - Não esperes isso de mim: o corpo deformado,
as dores do parto, o enfado provocado pelas crianças,
as medíocres relações entre progenitores e descendentes...
Tudo isso me horroriza. Tudo. Não terei filhos.
Sou peremptória.
- Peremptória! Que bela palavra! - respondeu Graham,
que aprendia o português. - Sei bem que és peremptória
sempre que falas. Nem que seja por poucas horas.
Em 1986, quando Portugal se tornou um entre os vários
estados das Comunidades Europeias, Clara Eugénia
admitiu que a relação conflitual que mantinha com
o seu país iria começar a banalizar-se. Os Portugueses
seriam cada vez mais Europeus, e a identidade nacional
(expressão cuja simples fonética abominava) passaria
a definir-se como um mero provincianismo paroquial,
tão ridículo quanto irrelevante. "Limitada, quando
muito, aos vinhos e à culinária", acrescentava.
Ora aconteceu que, poucos dias depois, ao acordar,
se sentiu como uma planta sem raízes. Em toda a
parte se considerava uma estrangeira - pensou. Casara
com um homem por quem exercitava um amor assente
na curiosidade mas que, em relação a ela, continuava
a ser um estrangeiro. Olhou em volta e pareceram-lhe
estrangeiros os objectos em que tocava, a cama em
que dormia, o homem que nessa cama continuava deitado,
a casa onde ambos viviam. Ela própria era uma estrangeira.
Fechou os olhos, tentando reconstituir a imagem
do seu rosto: contornos, volumes e dimensões esfumavam-se;
sentiu dificuldade em respirar. Correu para a cozinha
e bebeu duas chávenas de café.
A partir desse dia, decidiu criar vínculos. Empenhou-se
em amar o marido, tarefa que lhe pareceu demasiado
fácil e, por isso, monótona. Disse-lho. Graham achou
que ela desafiava os deuses, interrogando-os em
vão. Em lugar de vínculos aconselhou-a a criar centros
de interesse, simples alibis para a vida cuja eficácia
depende do facto de quebrarem a monotonia sem afectarem
a tranquilidade dos hábitos.
Clara Eugénia renovou o guarda-fato, mudou de penteado
e escreveu poemas na agenda do escritório. No mês
seguinte propôs-se a si própria uma paixão por um
colega de trabalho, um motorista de táxi (teimava
em não conduzir e evitava os transportes colectivos),
ou um espião soviético. Graham percebeu que ela
esgotara as três hipoteses, praticando-as sucessiva
e freneticamente. Abriu os seus belos olhos azul-turquesa
num esforço de severidade desajeitada e aconselhou
moderação:
- Não perca o norte, pelo menos faça por isso. A
nossa casa parece o palácio presidencial de Manila
após a queda da ditadura. Os pares de sapatos e
os fatos da mulher do presidente Marcos foram, como
sabe, pretexto para educativas visitas das criancinhas
das escolas. Mais dia menos dia, organizam-se visitas
de estudo para admirar os seus guarda-fatos. Você
- ele tratava-a por você em português quando passava
da serenidade à irritação - você pode perder-se
no meio de tanta roupa e de tanto sapato. Já pensou
nisso?
Nessa noite, numa recepção, Clara Eugénia conheceu
alguém dado ao cinismo e que lhe pareceu sedutor.
Tratava-se de um diplomata israelita quase sexagenário,
cujo sorriso funcionava à maneira de elixir da longa
vida. Clara Eugénia narrou-lhe como os seus antepassados
portugueses, de origem judaica, tinham iludido o
exílio e as fogueiras da Inquisição tornando-se
cristãos-novos nos princípios do século XVII. Confortada
pelo álcool, admitiu dever retomar ela própria a
tradição bíblica e aí lançar raízes, construir pontes
para o passado, edificar uma história pessoal coerente.
Contou depois que a mãe a abandonara ainda criança,
perseguindo miragens personificadas num cantor de
ópera ou num pianista de nightclub (jamais
o soubera ao certo); o pai achara preferível entregá-la
aos cuidados de sucessivos colégios; não tinha irmãos
e mal conhecia os avós; considerava por isso a família
uma convenção ou, pior ainda, um preconceito; dispunha-se,
talvez, a inventar uma a título de divertimento.
E assim por diante.
Shalam (era o nome do Israelita) aproveitou a ocasião
para, em tom ligeiro, lhe falar do seu próprio passado.
O pai e a mãe haviam desaparecido nas câmaras de
gás de Treblinka, mas ele vingara-os anos depois
nas margens do Jordão. Amava a guerra, só suportando
a diplomacia porque a praticava com o rigor do estratega
e a veemência do desportista, manejando uma espécie
de mastermind à escala planetária.
Clara Eugénia sentiu-se atraída por esse despudor
repleto de sageza, misto explosivo de proselitismo
e descrença, de empenhamento no destino da Humanidade
e de misantropia.
À despedida, o Israelita disse-lhe:
- Se me deixar confessar-lhe que um dia virei a
amá-la, a minha vida pode adquirir um sentido. Pode,
está a ouvir-me?
Clara Eugénia deu-lhe um rápido beijo na face:
- Meu caro amigo, desse modo a sua vida perderia
todo o sentido. - Tentou aparentar ligeireza, mas
foi com amargura que concluiu: - Estaria perdido
e, pior do que isso, o seu bom humor naufragaria...
- Naufragar, naufragar... - resmungou Shalam. -
E você, já alguma vez naufragou?
- Sim, já - respondeu ela com a mesma amargura.
- Em Londres. Naufraguei numa cidade, veja lá!
Anos antes, em Londres, onde concluía os estudos,
Clara Eugénia conhecera a solidão absoluta.
Terminava um doutoramento na London School of Economics.
Após as aulas estudava na biblioteca da escola e
à noite bebia whisky após whisky até
adormecer. As suas inclinações narcisistas aproximavam-na
dos espelhos; por vezes beijava a sua própria imagem.
Mas um desgosto crescente levara-a a abolir à sua
volta todas essas terríveis máquinas de destruição
que, desde os tempos remotos em que a madrasta da
Branca de Neve foi rainha, inquietam os seres humanos,
sobretudo os do sexo feminino. Durante o fim de
semana ouvia discos de manhã à noite. As suas preferências
iam de início para os Beatles e para Mahler. Depois
reduziram-se ao rock.
Mantinha ligações com homens mais velhos; essas
ligações começaram por ser irregulares e transformaram-se
em episódicas. Num longo e duro Inverno chegara
a aceitar o convite de um desconhecido. Nada disso
a tranquilizava. As coisas complicavam-se ainda
mais porque Clara Eugénia, que desconhecia o prazer,
considerava seu dever proporcioná-lo exemplarmente
a um homem com quem passasse umas horas. A insegurança
conduzia-a à competitividade; a competitividade
ao desânimo.
Os três últimos anos da estadia de Clara Eugénia
em Londres foram marcados por aquilo a que ela chamou,
mais tarde, "o ciclo de Nick", uma relação tumultuosa
com um jovem actor de teatro. Nicolas North, orfão
desde os quatro anos, vivia com os avós numa vivenda
em Chelsea, dividido entre a paixão pelo teatro
e o gosto pelos desportos mecânicos. Quando conheceu
Clara Eugénia, abandonara os estudos e representava
o papel de Puck num Midsummer's Night Dream
encenado por Victor Garcia. Após os ensaios reunia-se
a um grupo de jovens sem ocupação que queimava as
noites de clube nocturno em clube nocturno ou em
corridas de motorizada pelas estradas dos arredores.
Nick era talentoso, arrogante, excessivo. Recorria
a todo o género de experiências. Utilizava o álcool,
a droga e a velocidade como formas de um conhecimento
em relação ao qual era capaz de compromissos radicais.
Numa noite de estreia agrediu um polícia numa estação
de metro, esperando divertido que o director do
teatro movesse meio mundo para o libertar minutos
antes do início do espectáculo. Comportava-se como
um profeta agnóstico. Propôs-se fixar uma ética
a Clara Eugénia, que a viveu como tirania: não amava
o companheiro, limitando-se a cumprir o cerimonial
entediante do masoquismo.
As sucessivas efabulações de Nick reforçaram o carácter
desconfiado de Clara Eugénia. A partir dessa época,
passou a exigir a verdade absoluta nas relações
com os outros. Preocupava-a sobretudo a verdade
factual, e essa preocupação foi adquirindo nela
as características de um tormento. "As árvores dos
factos escondem quase sempre a floresta dos sentimentos",
dir-lhe-ia Graham anos depois. "E se te preocupasses
um pouco mais com a serenidade e um pouco menos
com esse detectivesco culto da verdade a todo o
preço?".
- Há uma consciência de culpa exacerbada e mortificante
que é tipicamente judaica - disse-lhe Shalam. -
Você possui-a, não há dúvida.
- Claro, claro - respondeu ela rindo. - Desde Eva
que todas as mulheres são judaicas, está bem de
ver! Vamos arrastando o pesado fardo da culpa. O
século XX e a emancipação feminina complicaram ainda
mais as coisas.
Aceitara o convite do Israelita para uma peregrinação
às marcas da presença dos Judeus portugueses na
Holanda. Passaram o dia entre os túmulos de Oudekerke
e a sinagoga de Amesterdão. Shalam dizia-se descendente
de lapidadores de diamantes sefarditas que tinham
vivido em Arnheim até à invasão hitleriana. Clara
Eugénia encontrou na sinagoga uma placa com o apelido
da família da mãe. O Judeu, bom narrador de histórias,
contou-lhe como um seu antepassado lapidara o diamante
Sanay, perdido por Carlos, o Temerário, na batalha
de Morat; misteriosamente recuperado, o diamante
pertencera depois a Henrique VIII de Inglaterra
e a Maria Tudor, eclipsando-se no século passado.
Mas ele, Shalam, propunha-se descobri-lo.
Essa sucessão de informações excitou a imaginação
de Clara Eugénia e predispô-la para um acto romanesco.
Passou a noite com Shalam num hotel pouco recomendável,
onde havia grandes janelas com pseudo-vitrais e
gravuras eróticas nas paredes recobertas de seda
adamascada. Nesse cenário de opereta, ela oscilou
entre a curiosidade perante um sexo masculino circuncisado
e a irritação provocada pela ejaculação precoce
do companheiro, que a impediu de realçar os seus
dotes de amorosa.
Regressou a Bruxelas em silêncio, e foi em silêncio
que se manteve encerrada em casa durante uma semana.
Fechou-se no quarto, deitada sobre a cama por abrir.
A chuva e o vento fustigavam as janelas, desenhando
nas vidraças figuras que, na imaginação perturbada
de Clara Eugénia, se assemelhavam a monstros disformes.
No jardim, uma araucária possuía olhos de dinossauro
e uma magnólia abria grandes braços tentaculares;
no telhado da garagem reunia uma assembleia de tigres,
discutindo em grande algazarra a estratégia do ataque
aos humanos. O rosto da madrasta da Branca de Neve,
emergindo de uma coifa vermelha e negra, desenhava
sorrisos de mofa no espelho do guarda-fato. À noite
a chuva cessava, e as rosas brilhavam na muda escuridão
do jardim.
No termo de uma semana de pesadelos, Clara Eugénia
decidiu retomar o fio do quotidiano. Graham disse-lhe:
- Tenho um parente mormon. Sabes qual é a pedra
basilar dessa doutrina? Deus ordena aos homens
que sejam felizes. Vê lá! Ando a pensar abraçar
essa religião e em dedicar-me de vez a um hedonismo
anímico. Mas começo a duvidar da possibilidade de
o fazer na tua santa companhia, minha querida e
amada esposa. Possuis uma desmedida atracção pela
infelicidade, princípio oposto ao da religião que
me interessa. Voilà! Não era Proust quem
dizia que a única maneira de a mulher se ir embora
é fugir? Tu foges constantemente, através de comportamentos
que te vão permitindo coleccionar infelicidades
e depressões. Sendo egocêntrica, não sabes ser egoísta.
Fazes o mundo inteiro girar à tua volta, mas não
te move qualquer princípio de prazer. E é pena!
- Que queres? - perguntou Clara Eugénia, à beira
do choro. - Que queres? Não pretendo ser mulher,
mas ser humano... É difícil, difícil! Ser mulher
é estar metida em casa, tratar da cozinha e dos
filhos. Ou então, o que é bem pior, deambular entre
as redacções dos jornais e os cinemas ditos de qualidade,
teorizando lugares-comuns sobre a escrita feminina.
Queres que me conforme?
Graham não respondeu. Esvaziou o seu Porto
e passou as mãos pela melena loura que disfarçava
uma careca precoce. Vestia um fato azul claro contrastado
por uma gravata de caxemira em tons vermelhos. Mantinha
nos lábios o sorriso cândido de um súbdito de Sua
Majestade Britânica; natural de uma das ilhas do
Canal, considerava-se, contudo, quase um homem do
Sul, capaz de compreender os actos mais desrazoáveis.
Deu a conversa por concluída e, junto à lareira,
dedicou-se a estudar o cerimonial de entrega das
credenciais do novo embaixador britânico ao rei
da Bélgica: "No dia fixado para a audiência real,
um ajudante de campo do rei vai, com automóveis
da corte, buscar o embaixador à sua residência para
o conduzir ao palácio. O embaixador pode fazer-se
acompanhar por um número limitado de diplomatas
da sua missão".
Entre Clara Eugénia e o marido cavara-se um fosso
apenas ocasionalmente transposto por aquilo a que
ambos chamavam "les métaphores animalières". Graham
não se fizera mormon, mas, entre o ténis e o squash,
seguia cursos de sofrologia, técnica que, de acordo
com os especialistas, ensina a tranquilidade. Interessava-se
também pelas filosofias orientais. Dotado de espírito
metódico, coleccionava relógios que ele próprio
consertava. "Como Luís XVI", dizia de si para si,
"vou descurando a minha Maria Antonieta. Acabarei
no cadafalso".
Clara Eugénia, mulher radical, julgava-se infeliz.
E era-o. Trabalhava até à exaustão, redigindo pareceres
e discursos cujo destino final lhe era indiferente.
Entre Bruxelas e Estrasburgo, ia comandando batalhões
de secretárias que tratava com efusividade excessiva,
fazendo por não esquecer os respectivos nomes. Tentava
aparentar um domínio de si própria que caía como
uma máscara cada vez mais vetusta quando ficava
sozinha. Um cansaço agónico apossava-se-lhe então
do corpo e da alma. Organizava reuniões, colóquios
e debates, ouvindo os oradores sem lhes prestar
a mínima atenção, fazendo sinais de assentimento
ou dúvida, esboçando sorrisos de concordância. Embora
a tivessem por competentíssima e imprescindível,
passava os dias à espera de um louvor, trabalhando
mais do que lhe era pedido, espiando as reacções
de quantos a rodeavam, duvidando que a apreciassem
convenientemente.
No fim de um dia de trabalho, só, no seu gabinete
do Parlamento, apagava as luzes e olhava, absorta,
as filas de trânsito que desciam a rue Belliard.
Os automóveis, pensava, transportavam gente para
quem a vida possuía um significado. "Pobre gente,
destituída de lucidez", murmurava, encolhendo os
ombros num gesto de desdém. Os seus olhos concentravam-se
nas matrículas dos carros. Esgotada, nervosa, perdia-se
em sucessivas adições de algarismos, tirando-lhes
os noves e concluindo pelas propriedades fastas
ou nefastas dos resultados. Depois, ao longo de
horas, decifrava os códigos das letras das matrículas:
GCY - Grupo de Católicos Yrreflectidos; FHR - Federação
de Hipócritas Reaccionários; MAS - Movimento de
Aspirantes a Sacanas; LHC - Liga de Homossexuais
Comunistas; APE - Associação de Pindéricos Ediotas;
SVT - Sociedade de Veterinários Trogloditas; CVG
- Crápulas, Vigaristas e Graxistas; EEX - Escola
de Elefantes Xintoístas ...
Chegava a casa cada vez mais tarde. Dormia só, de
portas e janelas abertas porque era claustrófoba
e temia a escuridão. Pela noite adiante, assaltavam-na
imagens do passado: o dia em que a mãe desaparecera
de casa, a atenção cerimoniosa que o pai sempre
lhe dispensara, a solidão disciplinada dos colégios
em que vivera a infância e a adolescência. Suportava
como uma doença incurável a insignificância da existência
humana: admitia, admitiria para sempre, tratar-se
de algo universal e não de uma marca da sua própria
história. Recordava-se então de uma professora de
dança que conhecera na colónia africana onde nascera,
uma mulher que vivia entre um marido brutal e um
regimento de filhos. Um dia, num acto de desafio,
essa mãe de famflia aparentemente conformada utilizara
uma garrafa partida para se ferir na vagina e nas
pernas. "Para sempre, para sempre", murmurava ao
entrar no helicóptero que a conduziu à capital da
colónia.
Na grande cama que fora a do casal, Clara Eugénia
chorava em silêncio. Engolia um sonífero e caía
num sono agitado. Sonhava com uma ilha tropical
rodeada pelo mar sereno. Sucediam-se imagens pacificadoras;
pescadores que, entoando cânticos, empurravam os
barcos ao longo da praia, crianças que erguiam construções
na areia. Depois, o mar cordato revelava-se uma
armadilha, devorando gentes e barcos que nele se
aventuravam. Clara Eugénia acordava em pânico e
corria para junto do marido.
- Calma! Calma! - dizia Graham. - Vamos pedir ajuda
ao Mono. Ele embala-te até adormeceres, ador...
me... ce... res...
Assim que o deputado britânico com quem trabalhava
renunciou ao mandato europeu e regressou aos Comuns,
Clara Eugénia propôs-se de imediato acompanhá-lo.
Ocupar-se da cultura da batata no Sussex ou da decadência
da indústria carbonífera no País de Gales pareceu-lhe
o corolário lógico do seu europeísmo. Graham partiria
para a África ou para a Ásia no ano seguinte, esperando
ser nomeado embaixador num país esquecido onde se
dedicaria à leitura e à meditação. Quando Clara
Eugénia lhe comunicou a decisão de se radicar em
Londres, o marido limitou-se a citar San Juan de
la Cruz, nos últimos tempos o seu poeta favorito:
- Con esta buena esperanza
que de arriba les venía
el tedio de sus trabajos
mas leve se les hacia ...
Clara Eugénia disse-lhe com um entusiasmo de que
não estava ausente alguma dissimulação:
- Durante a semana trabalharei como uma louca. No
fim de semana acompanho o meu deputado e a família
até uma quintinha perto de Oxford, e vamos fazer
remo no Tamisa. Quando vieres a Londres exploramos
os restaurantes indianos, turcos, afegãos, etc,
etc...
- Hum! Hum! - murmurou Graham. - Agora preocupo-me
sobretudo com o budismo. Aceitar a vida e a morte
com hospitalidade. Com alegria, mesmo. - Mudando
de tom acrescentou: - Mas toma conta de ti. Vê se
dormes… Não trabalhes de mais... Descansa... Não
fumes tanto…
- Bom, bom - atalhou Clara Eugénia. - Não te preocupes.
Hei-de habituar-me a viver só. Ou melhor, com as
minhas...
- Diz, diz!
- Com as minhas metáforas.
No dia da partida, Graham acompanhou Clara Eugénia
à Gare du Midi. Ela entrou para o comboio sem vacilar
e, depois de arrumar as malas na bagageira, veio
até à porta para um último adeus.
- O Mono já se foi sentar no lugar ao lado do teu
- disse Graham.
- Esse nunca me abandona - respondeu Clara Eugénia
com um sorriso distraído.
- Já puxou de um Davidoff. Espero que tenham
escolhido uma carruagem para fumadores.
- Como sempre. Nunca me engano.
Um apito. Os murmúrios das últimas despedidas. O
comboio começou a deslizar suavemente na plataforma.
- Encontramo-nos no mês que vem em Londres - disse
Graham, elevando a voz e dissimulando uma lágrima.
- Ou daqui a cinco semanas em Brighton, no congresso
do teu partido. Ou...
Mas as palavras dele perderam-se entre os ruídos
da gare. Clara Eugénia já não o ouvia: voltara ao
compartimento e mergulhara na leitura de um livro
de Chandler. Queria saber a identidade do assassino
antes de chegar a Ostende.
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