It is in their Power to hinder
Instruction but not to Instruct, just as
it is in their power to Murder a Man
but not to make a Man.
(Está no poder deles prejudicar a
Instrução mas não o Instruir, tal
como está no poder deles o Matar
um Homem, mas não o fazer um Homem.)
William Blake - Poetry and Prose,
Nonesuch Press, p. 626.
E não há ninguém mais no mundo a
não ser esse menino chorando.
Carlos Drummond de Andrade -
"Menino chorando na noite"
(Sentimento do Mundo, 1940).
"Porto, 1942"
  Na noite circulavam, como claros
cones de projectores varrendo-a, fogachos fuliginosos.
A rua descia, larga, escura, abrupta, de pedras
irregulares, brilhantes de humidade fosca. Como
que ao fundo dela, um navio apitava. As árvores,
momento a momento, eram sacudidas por um vento
que se não sentia, e que saltava de umas para
as outras, estremecendo-lhes algumas folhas só.
De uma casa oculta na sombra, ou de trás de um
muro, ou da rua mesma onde não havia ninguém,
veio um choro de criança. Quase não era um choro,
mas um gemido estertorado e lamentoso, lamúria
sonolenta e triste, teimosa, uivada, exausta De
criança. Criancinha. Menino? Menina? Aonde? Quando
o navio ou lancha apitou de novo, o relógio da
torre deu lentamente badaladas secas que ecoavam
brônzeas só depois, como se o eco sonoro e límpido
não fosse o da secura rachada do primeiro som.
A madrugada não tardaria a romper? E o apito fino,
estrilado, era de um comboio de mercadorias, muito
longínquo, cujas ferragens sem molas chocalhavam,
tunca- -tum-tchá-tchá-tum, nas sucessivas juntas
dos carris. No negrume do fundo da rua, alvejava
um banco de pedra, que parecia amarelo, um dente
cariado e sujo, pousado apenas, e com nódoas pardas.
Dos passos que chiavam na descida, as nódoas foram
pouco a pouco emergindo como alheias ao banco,
dois vultos acochados, cada um na sua ponta, e
ao pé de cada um sacos de trapos, de cujos puídos
rasgões brotavam, rígidos, não trapos, mas papéis.
Quando os passos pararam, e o chape-chape invisível
das águas na muralha, do outro lado da avenida
escura, pareceu que os prolongava, os dois vultos
agitaram-se num acomodamento em que, de costas
um para o outro, como que dormiam suspensos no
gesto de catarem-se. Não se distinguia no escuro,
e dos farrapos que enroladamente os encobriam,
a idade que teriam, se é que a idade contava naqueles
novelos ressequidos, cheirando tenuemente a palha
podre, e cuja carne perdera a natureza nas crostas
sem suor das noites frias. A lamúria, o gemido,
o choro, vinha viscoso pela rua abaixo, atravessava
como um cheiro até ao banco e, rodeando-o, ia
sumir-se escorrido na muralha do cais. Foi então
que, parado entre as dois vultos, aquele que viera
vindo reparou que eles falavam, num ciciar roufenho
que o gemida fazia límpido. No entanto, eram grasnidos
o que ouvia, um restolhar de goelas sem governo
e sem força, como o do vento na folhagem das árvores.
Sentado à beira do banco, entre grasnidos que
se não cruzavam, o que chegara descalçou os sapatos,
para esfregar de leve, com a perna traçada, ora
uma, ora outra, os pés doridos. Um frio maior,
e a carícia dos dedos cuidadosos, afagavam lentamente
os calos desconformes que se erguiam duros, repregados,
firmes. Tentou, das dores como aguilhões ou como
queimaduras, e dos grasnidos, e do chape-chape
na muralha onde escorria o estertor infantil,
recordar o que andara, as horas que ouvira; e
os ecos dos seus próprios passos, ressoando-lhe
ainda nas têmporas, também não se lembravam.
   À tarde, enquanto o sol dourava de
um vasto nevoeiro de púrpura a curva larga do
rio, as grades do cemitério, pontiagudas e ferrugentas,
lanceolavam a derrocada encosta até à linha que
surgia e fugia, entre dois túneis negros. Além,
no fundo da restante encosta, onde havia árvores
despidas e telhados em ruína, o rio estreitava-se,
já sombra sem nevoeiro nem púrpura. Gritos vinham
soltos da outra margem, onde, nas escarpas de
que irrompia a ponte com o seu arco frágil, vagueavam
vultos que ora se abaixavam e sumiam, ora se recortavam
no azul tão pálido que pontos brancos circulavam
nele, do olhar cansado. No recôncavo de água parda
alastrava dos bosques verde-negros uma praia vazia,
que apenas crianças como insectos percorriam.
E, mais além ainda, além do rio que na curva se
escondia, os montes azulavam-se num sibilo de
nuvens baixas que o poente chapeava de laivos
dardejantes, sobrepostos a um negrume compacto
que resistia a colorir-se deles. Um cheiro de
lama, de escórias de comboio, de lixo podre, pairava-lhe
em frente das narinas. E, na tarde que esfriava,
o cheiro subia bem visível, como tremulina de
crepúsculo, entre ele e a mole gorda e amarela
de um casarão de asilo, sobranceiro ao túnel cuja
boca negra parecia, em baixo, o esgoto mais recôndito,
mais secreto que o verdadeiro, das vidas que haveria
atrás de tais vidraças refulgindo baças. Mas,
mais recôndito do que esse esgoto imaginado que
o fez sorrir, outro havia, lá em cima da encosta,
no sopé do muro baixo do cemitério. Era uma boca
redonda e negra, de pequeno diâmetro, e dela escorria,
regando os papéis, a palha, o lixo indistinguível
despejado ali, uma baba escura, um pingue-pingue
tranquilo. Estremecera fascinado pelo licor da
morte, e desviara os olhos que, na tremulina,
agora cheiravam satoposto outro cheiro subtil
e adocicado: um cheiro de amarguras, um cheiro
de vidas cortadas, um cheiro de esperanças traídas,
um cheiro de promessas não cumpridas, um cheiro
de carne saudosa, de posses que não houvera, adiadas,
recusadas, ou não conseguidas. De súbito, ao lado
do cano hiante, um monte de lixo movera-se e levantara-se
vermelho à luz do sol. Era um mirrado, hirsuto,
ossudo corpo de homem, cujas pernas bambas se
enterravam num molho de trapagens. Abrindo os
braços, o homem espreguiçou-se nu, e coçou-se
nos sovacos, na cabeça, no peito, na flacidez
do sexo, e, escondendo-se-lhe as mãos, no desvão
das nádegas. E com aplicação arrancava dos pêlos
algo que contemplava adiante dos olhos, quase
com o braço estendido, e largava invisível, abrindo
os dedos, na encosta fétida. Estava assim ocupado,
ignorando deliberadamente a presença de espectadores,
quando as trapagens junto dele e aos pés dele
se agitaram, e delas emergiu uma sarapilheira
informe de cabelos longos e grisalhos, que era
uma velha de nariz adunco, e de dedos longuíssimos
que avançaram para as pernas do homem. E os dedos
começaram a catar nos desvãos dele, que lhe ficavam
à altura do nariz, alguma coisa que levavam à
loca e ela cuspia depois. O homem deixou de catar-se
nessas partes, para confinar-se ao peito, aos
sovacos, à cabeça. E, num movimento brusco, agarrara
então os cabelos da velha, e torcera-lhe o rosto
para o espectador. A velha delirou: metia o nariz
por baixo dele, que alargava as pernas, e parecia
catar com o nariz, e mostrava as dedos unidos
sobre a caça ao espectador atónito. Escorregando
no carreiro íngreme, voltara-se para afastar-se;
e, quando uma corcova enrelvada do terreno lha
encobria, viu, num último relance, que a catação
prosseguia metódica, com as vítimas lançadas,
como oferendas, ao modesto abismo em que pingava
o cano. Sentia terríveis comichões nas pernas.
E o fumo estridente de um comboio, saindo de um
túnel para entrar no outro, envolvera-o quente
e fuliginoso.
   Num estrilo demorado e ondulante, um
apito de comboio, de barco, ou do cansaço que
era agulhas nos pés, ficou pendente, sem varar
a noite, e misturava-se, entre os olhos e os dedos,
ao grasnar dos vultos a cada ponta do banco. Seriam
homens, mulheres, homem e mulher? Grasnavam. E
um deles, estendendo um braço longo e nu, porque
tal como o estendia a manga fugia pelo braço acima
que parecia crescer de umas costas curvadas, tinha
nos dedos um pedaço de pão. Sentado entre os dois
vultos, não soube ansiado que fazer. Levantar-se?
Curvar-se? Inclinar-se para trás? Para que o pão
passasse de um para o outro. Mas o pão parara
em frente dele, e fazia movimentos leves e bruscos,
de quem acena, oferecendo-se. Levantando uma das
mãos que haviam ficado perplexas nos dedos do
pé alçado na perna cruzada, aceitou a côdea dura
e crespa como um calo. E, logo depois, pousou
o pão no banco (e o braço desaparecera, recolhendo-se
aos trapos obscuros), calçou--se precipitadamente,
levantou-se, e seguiu pela avenida adiante. Os
grasnidos, muito agudos, casquinavam. Qualquer
coisa rolou com violência aos seus pés que escolhiam
as pedras menos pontiagudas em que pousarem. Era
o pedaço de pão, que ficou brilhando na treva.
   Depois de deambular o fim do dia, tinha
entrado no quarto já de noite, sentindo, no estômago
sem senhas para a cantina, um enjoo que não consentiria
comida. Deitara-se sobre a cama. Ficara a olhar
a porta envidraçada, com os vidros foscadas de
papéis colados, que separava do seu o quarto interior,
onde dormiam as criadas da pensão. Rente à porta
envidraçada estava, a colcha branquejando, a cama
do companheiro de quarto. De vez em quando, a
grande porta do prédio rangia nos gonzos - iiiim
- para abrir-se, e - ôoom - fechar-se num estrondo
cauteloso que não menos estremecia o prédio. As
escadas estalavam degrau a degrau, e uma porta,
noutro andar, abria-se e fechava-se. Num som surdo,
arrastado, de chinelos velhos, as criadas haviam
acabado por descer a escada, e acenderam a luz
no quarto ao lado. Ficavam sempre a cochichar
interminavelmente, com risinhos e gritos abafados
de quem recebe cócegas e se torce agradadamente
nelas. Uma claridade esbranquiçada pairava nas
papéis iluminados das vidraças, desenhando a escuro
os rasgões recolados. Os risos envolviam-no de
tepidez, amaciando a sua agonia; e pouco a pouco
os arrancos desciam do estômago para o sexo. Nenhuna
delas viria, à noite nunca vinha porque fingiam
esconder-se uma da outra, mas só à tarde, quando
a pensão parecia dormir numa poalha sombria do
sol que entrava mal nos corredores tão altos,
e se podia ficar em casa, dentro do quarto, como
que esquecido, e expectante nas teias acumuladas
nos cantos. Abriu os olhos. O companheiro estava
no meio do quarto, com a luz acesa, e despia-se,
com gestos e expressões que o distendiam de sensualidade
dedicada às criadas vizinhas que não se rendiam
à sua extrema juvenilidade. Ia representar-se
o espectáculo do costume. Deitada em cima da cama,
o rapaz excitava-se, estorcia-se, dava pancadas
nas vidraças, e gritava para o quarto ao lado:
- Ai, olhem só para isto, filhas, acudam que pega
fogo! -. Ao lado, os risos e a agitação, abafados,
recrudesciam. E aquilo durava uma boa meia hora,
antes de o rapaz ou elas apagarem primeiro a respectiva
luz. Ou até ele mesmo, irritado, se levantar e
apagá-la. Mas foi diferente. Quando elas apagaram
a luz, o rapaz, de joelhos em cima da cama, roçava-se
pela porta envidraçada, batia com o membro nos
vidros, punha-se de perfil, e os risos, ao lado,
quase se não ouviam.
   - Vejam, vejam, que vale a pena! -.
E, com o sexo na mão, parecia querer forçar a
virgindade de um dos quadriculados que era só
de papel. Semivoltou-se: - Vou meter-lhe os tampos
dentro -. E meteu. Ele levantara-se da cama, vestira-se,
e saíra para a noite.
   A avenida serpeava ao longo do rio
que se não via senão pelos reflexos, balanceantes
na água, de luzes esparsas na outra margem. As
pedras do calcetamento da avenida corcovavam-se
de gastas e polidas, brilhando mais redondas e
maiores no húmido reverberar dos candeeiros espaçados.
Ele ia seguindo os carris do eléctrico, que só
se iluminavam de uma claridade que à frente dos
passos se esgueirava em fímbrias paralelas. Nem
vozes da outra margem, nem apitos, nem o choro
da criança escorrendo na muralha ali se ouviam
já. Entre o negrurne que era o rio, e os altos
prédios arruinados, atrás dos quais as rochas
eram mais altas e se acinzentavam de um livor
que vinha, flutuante e mole, sem origem, deslizar
por elas, também os passos dele se não ouviam.
Uma calçada breve, que parecia escavada na rocha,
subia para um portão de ferro, meio aberto. Subindo-a,
para esconder-se do alinhamento curvo da avenida,
começava a urinar contra o recanto, quando escassos
e contidos ruídos, atrás do chapeado do portão,
fizeram suspender-se o fervilhar do líquido nas
ervas incrustadas rentes. Mas os ruídos suspenderam-se
também. Ajeitando novamente as pernas, recomeçou.
E, quando acabava, um ruído metálico de fivela
e um chiu surdo sucederam-se rápidos atrás do
portão. Desceu rapidamente, batendo os pés com
força que lhe doía na nuca; e, contornando para
a avenida a rampa, ficou encostado a ela, onde
afinal o muro de suporte, de pedras sobrepostas
e musguentas, estava, junto ao cunhal do portão,
ao nível da sua cabeça. Um chiar de saibro pisado
soou ao pé dos seus ouvidos. Levantando a cabeça
e os olhos, viu dois homens, quase um rapazinho
um deles, que se inclinavam a espreitar a avenida.
De baixo para cima, havia as calças deles e, ao
cimo das calças, um colarinho, ombros de casaco,
e rostos que, na sombra, não tinham olhos. O mais
velho sumiu para trás, e logo lhe viu as solas
branquejando nos movimentos altos da corrida em
que fugia pela avenida fora. No mesmo instante,
o outro estava ao pé dele, quase da sua altura
mas mais magro, e, estendendo-lhe para a cara
um cigarro, pedia numa voz de desafio: - Dá-me
lume? -. Tirou do bolso os fósforos e deu-lhos.
Atrás do recôncavo das mãos, o fósforo acendeu-se,
iluminando uma cara ossuda e macilenta, em que
a distância entre os olhos e a boca era muito
extensa, ocupada pela cana de um nariz longo e
achatado. Restituindo-lhe a caixa, o outro disse:
- Então? Qu'é que há? Passeando a estas horas?
-. Era uma voz muito jovem, mas cansada, que o
tinha fitado do fundo dos olhos duros, quando
o fósforo se apagava. Não respondeu, e afastou-se.
Os passos do outro patinharam nas pedras da avenida,
e vieram, como viu de esguelha, acertar pelos
dele. Foi a sua vez de, parando, perguntar: -
Que é que você quer? -. A hostilidade raivosa
da voz fez recuar o outro que parara mas perguntou:
- E que é que você queria quando parou a espreitar
? -. - Eu? -. - Sim, o senhor escondeu-se na rampa
para nos ver sair. E, quando a gente passámos
no largo, estava sentado num banco e veio atrás
de nós -. - Não queria nada. Nem sabia que estavam
ali -. Novamente um comboio distante, sem apitar
porém, tum-cá-tchum-tá-tum-cá-tchum-tá-tum, matraqueou
nos carris. - Mas ficou encostado à rampa -. -
Fiquei -. - Porquê? -. - Não sei porque -. - Não
sabe? Quer que eu lhe ensine? -. A mão estava
parada contra a cara do outro: dera-lhe uma bofetada.
O outro acertou-lhe um pontapé nas canelas, e
voltava-se para fugir, quando ele o agarrou pelos
ombros e o derrubou a murros. O outro debatia-se,
rolaram. Ele nem sentia senão como choques surdos
as pancadas que recebia. Mas o outro, mais fraco,
torcia-se e resistia por baixo dele, sem conseguir
já atingi-lo. Sentado quase no peito do outro,
segurava-lhe agora os punhos. - Larga-me, filho
da puta - rosnava o outro; e pouco a pouco foi
dizendo: - Larga-me... Largue-me... Deixe-me...
Deixe-me -. Não o deixou sem apalpar-lhe os bolsos,
sem estar certo de que ele não trazia navalha.
Levantou-se, ajudou o outro a levantar-se. O outro,
porém, desabou na rua, acocorado, gemendo baixinho,
em soluços engasgados: - Viu-me com aquele tipo...
Deu-me uma carga de porrada... Mas eu sou um homem...
Juro que sou um homem -. E, depois, de joelhos,
abraçando-se-lhe às pernas, sacudindo-o, com as
lágrimas brilhando pela cara abaixo, era apenas
um menino desesperado: - Eu sou um homem... Acredite
que eu sou um homem...
   Na claridade crua do quarto em que
vivia sozinho o seu colega Amaral, este, sentado
ao pé da janela de enormes portadas, dizia-lhe:
- Mas que hei-de fazer? Estou perdido. Vou matar-me.
Estou impotente. Não consigo.
   Olhando-o pequenino e vigoroso, com
um ar atlético desmentido apenas pelas pupilas
trémulas atrás dos óculos grossos, rira-lhe na
cara: - O que estás é maluco. Isso trata-se. E
pode ser ocasional. Não sejas criança.
   O Amaral levantou-se da cadeira, encostou-se
à portada da janela, uma portada antiga que, aberta,
avançava alta e larga pelo quarto dentro: - Jura
que não dizes nada a ninguém. Não é ocasional.
Há muito tempo que não consigo. Por mais que queira.
   - Não digo, claro que não digo. Mas
deixa-te de tolices. Tens de ir ao médico.
   - E se o médico conta? E se alguém
desconfia?
   - Não conta. E quem vai desconfiar
e como? A única pessoa desconfiada és tu.
   - Mas eu quero, eu não penso noutra
coisa.
   - É o que tu julgas. Mas lá no fundo,
bem no fundo, alguma coisa te aconteceu que te
faz não querer.
   - Eu tenho tomado tudo quanto há, fugido
de uma farmácia para outra, e não dá resultado.
   - Porque não é de remédios que tu precisas.
   - Então de que é que eu preciso? -
e viera sentar-se, com a cara entre as mãos, de
costas para ele, na beira da cama estreita que
parecia minúscula no quarto enorme.
   Ficara olhando os livros dele, empilhados
em cima da mesa, para sobre a qual uma lâmpada
era puxada por uma corda presa à parede. E fixara
os olhos, depois, nas costas largas, cuja musculatura
se desenhava seca sob a camisa esticada. Dentro
daquele corpo, atrás daquela nuca curvada, ele
sabia o que havia: a imagem de um pai semilouco
e tirânico, da mãe pretensiosamente intelectual,
de ambos como professores pedantes, do irmão muito
mais velho que o tiranizava também, e a timidez
agressiva que se gastara rapidamente em orgias
exibicionistas, de preço módico. Sentiu-se muito
mais velho, que não era, ante aqueles terrores
infantis. Deu a volta à cana, aproximou-se.
   - Olha, Amaral.. e foi para me dizeres
isso que tu me chamaste?
   O outro levantou para ele o rosto afogueado,
os olhos brilhantes: - Juras que não dizes nada
a ninguém? Aconteça o que acontecer? Tu não me
tomaste a sério, nunca tomaste.
   Sentara-se ao lado dele: - Sabes bem
que sou teu amigo, e que não posso, portanto,
queira ou não queira, deixar de tomar-te a sério.
E já te disse que não direi nada a ninguém. De
resto, quem sabe, agora que falaste, experimenta
outra vez... Quem sabe se já consegues.
   - Achas que sim? Que eu não tenho sequer
coragem de olhar para a mulher que fica feita
parva ao pé de mim, farta de puxar por um mangalho
murcho.
   - Isso é o menos. A qualquer delas,
quantas vezes já isso aconteceu, com este e com
aquele! Mas experimenta outra vez.
   - E se não consigo?
   - Olha, se não conseguires, arranjas
por aí uma pequena séria, começas a namorá-la,
e esfrega-te bem nela.
   - Mas isso é o que eu faço com a minha
pequena.
   - Qual?
   - A que tenho lá na minha terra.
   - Pois será. Mas guardas os colhões
cheios para vir despejá-los aqui. E entopes tudo.
   - E tu queres que eu lhe ponha o caralho
nas mãos?
   - Eu não quero nada. Ao menos, pensa
nisso - e deu-lhe uma palmada nas costas.
   O Amaral sorriu: - Tu não sabes o que
é a minha vida, tu não fazes ideia do que é a
minha vida. Do que eu tenha passado, sozinho no
meio de todos. Nunca tive ninguém, e agora até
o caralho me deixou. Vai-te embora.
   - Queres mesmo que eu me vá embora?
   - Quero. Mas não digas nada a ninguém.
   - Vais tentar autra vez?
   O Amaral levantou-se, foi até à janela,
e ergueu o braço ao longo da imensa portada, e
ficou a olhar a mão espalmada lá em cima.
   - Sabes? Não imaginas o horror que
é para mim morar neste quarto - e voltara da janela,
e ficara parado diante dele, com as mãos afundadas
no bolso das calças, remexendo nervosamente. Mas
os olhos passeavam no ar.
   - Porquê?
   - Porque aqui no quarto ao lado moram
um rapazinho e uma rapariguinha... Já os vi...
São quase crianças... Ele não é maior do que eu.
Fugiram os dois, são operários, vivem aqui escondidos.
Não imaginas o inferno que é. Durante a noite
inteira, e à tarde, e aos domingos, parece que
deitam a cama abaixo, e a casa abaixo -. Aproximou-se
da parede em que estava o prego com o cordel da
lâmpada, e bateu-lhe com os nós dos dedos: - É
um tabique. Ouve-se tudo. Como é que ele aguenta?
Como?
   Não respondera, e o Amaral continuara:
- Eu sei porquê. Puta de vida. Eu ouço-os. Parecem
doidos. Até choram.
   Levantara-se. O Amaral logo se afastara
dele, como sempre, para não sentir a diferença
de altura. E voltara à janela, quando ele saiu
para a tarde lá fora.
   Com a cabeça do rapazinho contra os
joelhos, sentiu que a fome o entontecia. Teve
uma vontade súbita de comer, uma dor lancinante
que mordia no fundo do estômago, rente às costas,
e que se distribuía, irradiada, em dores surdas
pelo corpo, onde deviam estar a doer-lhe as pancadas
que recebera. Pegou no rapaz pelos sovacos, e
ergueu-o. Como era leve! Pô-lo de pé.
   - Está bem, acredito que você é um
homem. Então, dê-me de comer.
   - Ahn? - e os olhos arregalavam-se
encovados, e um hálito de pasmo vinha da boca
aberta.
   - Tenho fome, dê-me de comer.
   - Fome?
   - Sim. Você sabe o que é fome? Eu também
tenho fome.
   - O senhor?... Você?
   - Eu. Venha daí.
   Foram andando pela avenida, seguindo
com ela o curso sinuoso da margem, até que, de
repente, um grande edifício a afastava e encobria.
No largo ensombrado ainda mais pelo edifício imenso,
e em que a claridade era, baça e parda, neblina
pairando acima do chão em novelos lentos, havia
ao fundo, no quiosque, luz, uma luz amarelada
e fumarenta, cujos novelos próprios passavam esguios
por entre os da neblina. Agarrando o rapaz por
um braço, arrastou-o para lá: - Você vai pagar-me
uma sande com o dinheiro que recebeu -. Sentiu
a reacção no braço, dentro dos dedos com que o
apertava, e acrescentou: - Você come também.
   Quando chegavam ao pé do quiosque,
vultos a ele encostados, e que a luz recortava,
como que rolaram na superfície do cilindro que
ele era, e ficaram na sombra dele que a luz fumarenta
fazia mais espessa. Lá dentro, uma mulher gorda,
com um xale preto pela cabeça, deu a cada um,
em movimentos lentos de torcer-se para o lado
em que os pãezinhos estavam, a sande pedida, e
a mão, após a última, demorou-se aberta e estendida,
aguardando o dinheiro. Sem olhar para ele que
comia fitando-o, o rapaz meteu a outra mão ao
bolso interior do casaco, e, relanceando em torno
os olhos baixos, tirou uma nota que a mão gorda
agarrou. O troco interminável que a mulher rebuscava
sob saias e xales, e numa gavetinha debaixo de
onde estavam os pãezinhos, quase deu tempo a que
ele, na sofreguidão da fome, acabasse de comer
o seu. O rapaz, de olhos pregados nos movimentos
da mulher, cujas mãos quase se não viam nunca,
segurava na mão direita o pão que não trincara,
enquanto a segunda continuava na ar, à altura
do bolso de dentro do casaco. Por fim, o troco
veio. Para contá-lo, o rapaz pousou o pão no balcãozinho
do quiosque, e conferiu atentamente as moedas.
Entretanto, ele acabara de comer. - Paga um bagaço,
anda -. O rapaz semivoltou a cabeça, hesitou com
o troco nas mãos, e escalheu das moedas o necessário:
- Dois bagaços -. A mulher espetou obliquamente
o queixo para uma enfiada de garrafas sujas que
estavam do lado oposto aos pãezinhos, por cima
de uma bacia de água escura. Tirou da água dois
copinhos que pousou no balcão; e, inclinando-se
para a frente, medindo com o nariz o líquido que
ia vasando, encheu-os com cuidado. O rapaz, que
guardara o troco no bolso das calças, pegou num
dos copos, e esboçou um sorriso: - À sua... -.
Emborcou-o e engasgou- -se. Ele bebeu devagar,
desviando os olhos do congestionamento que, no
rosto magro, era mais vexame que asfixia. Os vultos
que rondavam na sombra do quiosque, deslizantes,
enchumaçados em capotes, saiões negros, bamboleavam-se
à beira da claridade. O rapaz começara a comer
o seu pão. Agarrou-a outra vez pelo braço: - Vamos
-.
   Tinham andado uns passos, e o quiosque,
na curva que os prédios esguios faziam, era já
só a luz amarelada e fumarenta, agora cortada
outra vez de vultos. O rapaz parou, sacudindo
o braço num gesto brusco: - Onde é que a gente
vamos?
   - Você vem comigo.
   - Ah.
   Deu-lhe um abanão violento: - Estás
enganado. Mas vens comigo.
   O outro tentou frouxamente escapar-se,
numa lamúria: - O senhor é um bufo. Eu bem sabia.
Vai levar-me para o Governo Civil. Não me prenda,
eu nunca fui preso. Eu não tive a culpa. Eu não
fiz nada. Foi aquele gajo que...
   - Cale-se. Não vou prender nada.
   A sanduíche, no estômago, parecia uma
pedra rolando a cada passo. E, em volta da pedra,
as dores dos pés vinham concentrar-se, ao calor
do bagaço, pondo-lhe formigueiros nos dedos que
apertavam o braço do outro. A pedra rolou a um
lado e outro pela calçada íngreme, em que portas
se entreabriam sobre corredores negros e sem fundo.
Depois, ao cimo da outra rua larga, em que os
passos deles ressoavam, os janelões turvamente
envidraçados da Estação ferroviária fizeram com
que a pedra se aquietasse no estômago, flutuante
e tépida, num cheiro de fuligem suspensa. Atravessaram
a praça em diagonal, contornando a estátua. Nos
candeeiros altos, a luz sumia-se piscante no alvor
da madrugada. Os florões e as figuras de pedra
dos prédios perdiam o relevo da iluminação nocturna,
ganhavam uma lividez hialina e matinal. O rapaz
disse: - Eu ia para o trabalho, entrar no meu
turno... -. Ele não respondeu. Continuaram a subir
pela rua estreita, e a cada passo se desviavam
de caixotes de lixo voltados, que um ou outro
cão farejava desiludido. Águas escorriam de portas
para a rua. Meteram à travessa; e, quando chegaram
ao pequeno largo no fim dela, entraram nas escadinhas
cujos degraus, ondulados de gastos, pareciam ser
de visgo. À luz da manhã que rompia, dois enormes
sacos de lixo estavam num dos patins da escada,
encostados ao gradeamento. Debruçado das grades,
e cuspindo para baixo como uma criança, havia
um velho cujos pés se embrulhavam de trapos enrolados,
atados com cordéis. O velho voltou-se e disse:
- Isso é que foi pândega, ó canalha -. Foram pela
ruela estreita, e, no impulso que os levava, o
rapaz parecia saber o caminho. Mas, na esquina,
foi preciso arrastá-lo para a outra rua que, sinuosa
e já clara, se encurvava adiante. Na porta do
casarão, entreaberta, estava o latão a transbordar
de lixo. Ao entrar, o rapaz tropeçou nele, voltou-o,
e o passeio ficou cheio de papéis, cascas, restos
de comida. Do portal próximo, levantou-se um monte
de trapos, que veio remexer neles. Enfiou o rapaz
para o corredor sombrio da entrada, empurrou-o
pela escada acima, meteu a mão por entre as grades
da porta que separava a escada e o corredor do
andar, abriu o fecho, e entraram. Dando socos
na porta logo à esquerda, chamou: - Amaral! Amaral!
Abre, sou eu -. A porta, que era dupla, cedeu
e escancarou-se. Com o rapaz na frente, disse:
- Olha, trago-te aqui outro que também julga que
não é um homem. E está tão aflito como tu -. Um
uivo soluçado do rapaz, que melhor sentiu na mão
com que o empurrava para dentro do que ouviu,
fê-lo afastar-se e olhar. A cama estava vazia.
Da portada imensa da janela, e recortada a cabeça
descaída de melenas negras, e iluminados o casaco
azul do pijama e o resto do corpo nu, pela madrugada
que entrava, o Amaral pendia. Olhos esbugalhados,
os óculos presos de uma orelha, a boca escancarada
e com a língua tesa, e quase sentado no chão que
as mãos roçavam ossudas, as pernas de pés descalços
dobrada uma e esticada, a outra, o sexo como a
língua entumescido. A corda fininha começava a
dourar-se à luz do reflexo do sol nas vidraças
do outro lado da rua. Entre a cama e a mesa, solta
do prego, a lâmpada balouçava ainda, imperceptivelmente.
   Quando voltou ao seu quarto - na manhã
seguinte? -, abriu devagarinho a porta, entrou,
sentou-se na cama. No alarido que haviam feito,
e a que se juntara gente da casa (não havia, entre
ela, um casal muito jovem, esbaforido e seminu?),
o rapaz desaparecera. E depois começara a interminável
série de gestos e passadas do ritual que levara
o corpo para o necrotério, embrulhado num lençol
da cama, de que um joelho e o sexo se obstinavam
em espreitar, cor de vinho. Levantou os olhos.
O companheiro de quarto dormia serenanente. Não
só serenamente. Havia nos cabelos alourados, e
caídos sobre a testa e as pálpebras fechadas,
no nariz que o ténue respirar afilava a espaços,
no ligeiro recurvar dos lábios entreabertos em
sorriso, no braço e na mão que se alongavam atravessados
sobre o corpo, nos dedos semicurvados como de
quem se esquecera, ao adormecer, de segurar um
brinquedo, ou se lembrara, dormindo, de pegar
em algum, a distensa e prolongada moleza, o repousar
tranquilo da criança que dorme. Como que sentindo-se
olhado, o companheiro suspirou fundo, torceu-se
num espreguiço de que a mão se agitou e, contraída,
esboçou fugidiamente a forma de uma garra adulta.
Mas, difusa, vinda da janela aberta que dava para
o balcão envidraçado, a claridade enchia suavemente
o quarto. Descalçou os sapatos, apalpou os pés
que lhe doíam agora de quanto não haviam doído
nas últimas horas. Numa corrente de ar levíssima,
que era mais frescor da manhã que propriamente
aragem, o papel rasgado na quadrícula da porta
interior, acima da cama, adejava compassadamente,
como que ao ritmo do respirar do companheiro de
quarto.
Araraquara, 20-22 de Maio de 1962.