Era verde e velho. Pelo menos, antigo. E ocupa na
minha memória – junto com uma galeria indistinta e
confusa de gatos tigrados e “preparados” pelo amola-tesouras-e-navalhas (mais tarde, esse primeiro mistério
da minha infância passou a ser celebrado na Escola de
Medicina Veterinária, já com os requintes da assepsia),
e todos chamados “Mimosos” tão onomasticamente
como os papas são Pios – o mais arcaico lugar reservado
a uma personalidade animal. Digo personalidade, e
bem, porque ele a tinha, e porque foi mesmo, para lá
das surpresas contraditórias das “pessoas grandes”, tão
caprichosas e volúveis, tão imprevisíveis, tão ilógicas,
tão hipocritamente cruéis, a revelação de um carácter.
Não tinha nome: era o Papagaio, e parecia-me, porque
falava, um ser maravilhoso. Depois, e a chegada desse
outro eu recordo, meu pai trouxe das Áfricas um
papagaio cinzento. O papagaio por excelência passou
a chamar-se o Papagaio Verde, e vivia de gaiola pendurada numa das varandas em que, por um tapume
de madeira, estava dividida a varanda das traseiras da
minha casa, cabendo uma parte à cozinha e outra à
sala de jantar. Uma das reivindicações políticas da minha
infância foi a troca de uma situação injusta que confinava
o Papagaio Verde à “varanda da cozinha”. Na da sala
de jantar, a que era mais próxima da rua, vivia o
Papagaio Cinzento. Este, menos esplendoroso e menos
corpulento, menos vaidoso também das suas cores baças,
morreu depois do Verde, ave grande, vistosa, transbordante
de presunção e dignidade; e, apesar de ter tido
muito mais do que o Verde o dom da palavra (usando-o,
todavia, com menos humor involuntário), não o recordo
tão distintamente como a imagem do outro, à qual a
sua viera sobrepor-se à maneira de um negativo, uma
sombra, um apagado duplo, na imprecisão focal da
memória a desfocar-se por ele. De resto, o Cinzento era
sujeito retraído e friorento, que ficava encolhido a
resmonear o reportório variado, sem manifestar por
alguém qualquer predilecção afectiva;tinha apenas de
simpático o olhar nostálgico, melancólico, e a mansidão
muito dócil do resignado e acorrentado escravo. O Verde,
pelo contrário, era exuberante, de amizades apaixonadas
e de ódios vesgos, sem continuidade nem obstinação.
Minto: essas amizades e ódios, não continuados nem
firmes, faziam parte do seu carácter expansivo e
espectacular. Mas, com o andar do tempo, começaram
a refinar numa aversão colectiva, azeda e ruidosa, ou
concretizada num bico de respeito, que, traiçoeiramente,
na frente de uma adejada revoada verde, se apoderava
cerce de um dedo, uma canela, uma madeixa de cabelo.
A contrapartida deste crescente pessimismo em relaçãoao género humano (no qual ele incluía, comum desprezo
que raiava o absurdo, o Cinzento) foi uma dedicada e
veemente amizade por mim. No mundo hostil dos
adultos que me cercavam de solicitude e clausura, o
Papagaio Verde, afinal, não me revelou apenas o que
era carácter: ensinou-me também o que a amizade é.
Que o Papagaio Verde era brasileiro, como angolano
o Cinzento, foi dos primeiros axiomas de biologia, que
aprendi. Era sempre repetido, categórica e sacramentalmente,
por meu pai ou por minha mãe, quando, em
jantares de família, se discutiam as graças relativas dos
dois bichos, e havia sempre um tio meu para condenar,
em nome dos perigos da psitacose, a posse de seres tão
exóticos, portadores prováveis e espontâneos de uma
doença estranha, mortalíssima, que eu, criança à espera
de vez para a carne assada, imaginava como a instalação
crónica, no organismo dos adultos, daquela tendência
manifesta para falarem de cor e a despropósito, coisa
que os papagaios quase não faziam. Mas o caso é que,
verdes e papagaios, só no Brasil; papagaios e cinzentos,
só na África, e ainda hoje não sei se isto é verdade ou
mentira. Outro axioma era que os papagaios comiam
milho, do que eu concluía (e creio que o meu
subconsciente ainda guarda essa conclusão) que a
ingestão de milho era um sinal dos infalíveis para
distinguir as pessoas e os papagaios.
No começo das minhas memórias de infância, o
Papagaio Verde era um animal fabuloso que me recebia
aos gritos, enquanto dava voltas no poleiro, trocando
os pés, e me olhava de alto com um olho superciliar, e
de bico entreaberto. Quando comecei a vê-lo, via-o
muito pouco, já que ele vivia na “varanda da cozinha”,que me era proibida por causa das torneiras, como a
cozinha o era por causa do lume. Ficávamos, quando
eu conseguia iludir as vigilâncias, ou subornar o cordão
sanitário, os dois numa contemplação embebida: eu,
de mãos nos bolsos do bibe de quadradinhos azuis e
brancos (que era o uniforme do meu presídio), e ele,
com a gaiola pendurada alta, entreabrindo as asas para
um voo um tanto ameaçador, com a cabeça de banda, e
soltando uma espécie de grunhido que culminava num
arrepio que o eriçava todo. Que era brasileiro e fora
trazido do Brasil, eu sabia. Mas, antes de ser posto
naquela varanda, onde parecia, numa casa triste e
soturna, uma nódoa insólita, obscenamente garrida,
viajara muito. Vivera a bordo de navios, cheirara
longamente o mar, não a maresia ribeirinha, mas os
ventos do largo, prenhes de fina espuma e de um ardor
de andanças. Algo disso ficaria nele, e era um jeito de
balancear-se no poleiro sem levantar nenhuma das patas,
sem alterná-las como o Cinzento fazia. E também uma
bonomia astuciosa, egoísta, irónica, subjacente ao ímpeto altivo do seu pescoço amarelo e da sua poupa
azul. Ficara-lhe, além disso, um reportório bravo,
truculento, metaforicamente expressivo, que era o
principal motivo do confinamento discreto à varanda
da cozinha. Ele, pouco a pouco, ia esquecendo aqueles
horrores que minha mãe não queria que eu ouvisse, e só
os recordava em catadupa, nas suas horas de tédio mais
sonhador, em que os dizia entrebico, ou nos momentos
de furiosa irritação, em que, parecendo uma águia
(achava eu) imponentíssima, vomitava impropérios que
escandalizavam a vizinhança e dobravam de riso as
criadas, o que o irritava mais. Não foi assim, na escolaou na rua, que eu aprendi os nobres palavrões essenciais à vida, embora me ficasse, para aprender depois, algum
sentido deles. Aliás, este sentido eu ia aprendendo
adivinhadamente nas discussões domésticas, à porta
fechada, entre minha mãe e meu pai, quando ele, do
outro lado da porta, os bradava, e muito explicados em
frases elucidativas.
Meu pai era uma personagem mítica que eu quase
só via à hora de jantar, durante uns quinze dias, de três
em três meses. A sua chegada era prenunciada por um
cheiro a encerados e a pó espanejado, que se espalhava
pela casa toda, cujas portadas de janela se semicerravam
como para conservar, em estado de graça e de jazigo de
família, aquele ambiente de silêncio e treva premonitória.
Não se sabia nunca ao certo essa chegada. Ele não
escrevia senão de raro em raro, e minha mãe, para
calcular a demora da viagem, ia de vez em quando,
comigo pela mão, aos portais da Companhia de
Navegação ver, no quadro onde registavam o
movimento dos barcos, em que porto das Áfricas o navio
de meu pai saíra ou entrara. Quando eu já sabia ler,
mandava-me lá dentro a mim, e ficava-se meia oculta
na esquina da rua, creio que para, aos empregados que
a conheciam, não mostrar que não sabia mesmo onde o
marido andava. Telefonar, e não tínhamos telefone, não
lhe ocorria; apresentar-se de cabeça erguida fosse onde
fosse era contra os seus princípios. E, muito provavelmente,
nem os empregados se lembrariam de achar
estranho que ela, ainda que muitas cartas recebesse
naquele tempo sem aviões, fosse ver a rota do navio.
Eu, a quem tantos compartimentos da casa eram defesos,
ficava durante e após as limpezas, e até ao dia dachegada, encurralado de todo, e sem nada que sujasse
ou me sujasse. E odiava aquela expectativa, ao mesmo
tempo que esperava curiosamente o que meu pai traria:
caixotes de vinho da Madeira, cachos de bananas, frutas
várias em cestas, às vezes manipansos dos pretos, que
me eram dados para eu brincar. Um dia, era o
movimento na escada da casa, que, chefiados pelo criado
de meu pai, o criado encasacado de branco e privativo
do comandante, vários homens subiam ajoujados,
entalando na porta, resfolegantes e trôpegos, os malões
enormes, os caixotes, e as cestas, que ficavam no corredor
e atravancavam tudo. Ao cheiro dos encerados e das
solarinas, sobrepunha-se então o das frutas exóticas, o
da palha dos caixotes, o do bafio dos malões, que tudo,
apesar de sempre igual, eu queria abrir, tocar e ver. Nunca
me deixaram abrir, tocar ou ver coisa nenhuma; e eu
ficava entreportas, olhando o avolumar das palhas de
que emergiam frutos e baratas saltavam, às corridas
logo pelo corredor fora, perseguidas pelos gritos de
minha mãe e das criadas, atarantadamente todas
esgrimindo vassouras e dando com elas pancadas
desatinadas. Em geral, para gosto meu, as baratas
escapavam-se. Depois, era uma expectativa meio
nervosa, com muitos “o papá está a chegar” e muitas
espreitadelas para a rua, a vermos se ele assomava ao
virar a esquina. Até que, com o seu andar balanceado,
a estatura corpulenta aparecia atravessando a rua,
chapéu de feltro de aba revirada e debruada a seda,
bengala com aplicações de prata, charuto havano
empinado na boca. Minha mãe, sem dizer da janela
um adeuzinho prévio, ia logo abrir do patamar a porta
da rua, puxando – e eu queria sempre puxar – atransmissão metálica e primitiva que levantava o trinco.
E ficava perfilada, segurando-me a curiosidade
indiferente com que eu queria debruçar-me do corrimão,
e largando-me só quando meu pai já vinha no último
lanço da escada. Então, subitamente intimidado, eu
descia dois ou três degraus; meu pai – “Então como vai
o nosso homem?” – roçava-me na testa uns lábios frios
e o bigode esverdinhado, farto e retorcido nas pontas
que ele frisava, e parava ao pé da minha mãe, sem jeito
de abraçá-la. Ficavam assim diante um do outro, a
olharem-se, e eu erguendo os olhos por entre eles, até
que meu pai a agarrava pela cintura, o espaço entre
ambos desaparecia, e minha mãe deixava-se pousar a
cabeça no ombro dele. Davam-se então um beijo logo
fugidio – “Olha o pequeno”, dizia minha mãe – e
entravam para o corredor, ambos muito comprometidos,
sem se olharem nem me olharem a mim. As criadas
apareciam à porta da cozinha, num arquejar de peitos
excitados e de olhares risonhos, a que meu pai atirava
um sobranceiro “olá”, e entrávamos para a sala, com o
sofá e as poltronas baixas de bolinhas que os “Mimosos”
arrancavam uma a uma, eu ficava no meio da casa, ora
num pé ora noutro, com uma vontade imensa de fazer “chichi”, e meu pai sentava-se na borda do sofá,
enquanto minha mãe se sentava na borda de uma das
poltronas. Trocavam então algumas informações: quem
desta vez aparecera em Luanda ou no Lobito,
recomendações acerca das fardas brancas, que tinham
de ser todas lavadas e engomadas, enumeração de quem
oferecera os caixotes, as frutas, os cachos de bananas.
Minha mãe contava, por alíneas, sem explicações nem
comentários, os acontecimentos da família, as doençasque eu tivera, queixava-se de como passara desta vez,
tão mal do coração. Ele ouvia distraidamente, como
uma visita de cerimónia, mas ainda de chapéu na cabeça,
e com as mãos na curva da bengala. Ás vezes uma das
mãos levantava-se para cofiar e retorcer uma das pontas
do bigode. Minha mãe, então, levantava-se, como se
fosse para despedi-lo, e tirava-lhe da cabeça o chapéu, e
das mãos a bengala. A careca dele, pontuda e luzidia,
brilhava. Ele levantava-se também, vinham até ao
corredor, e observavam ambos as cestas e os malões.
Novamente meu pai enumerava os obséquios que
recebera, e aproveitava para informar de qualquer
pedido que lhe fora feito pela parentela africana de
minha mãe, uma passagem gratuita, de um porto para
outro, ou de como haviam ido a bordo para comer-lhe o
almoço. Demoras nas falas e nos gestos de ambos
prolongavam um mal-estar que se transmitia. Meu pai,
agarrando minha mãe, começava a arrastá-la para o
quarto deles. Minha mãe esquivava-se, ele tirava-lhe
das mãos o chapéu e a bengala, que pendurava no
bengaleiro, e ia para o quarto pôr-se à vontade. Ela ia à
cozinha extremamente embaraçada, e cada vez mais o
ficava por ele a chamar lá de dentro, com insistência.
Ele a chamar, ela a repetir pela centésima vez naquele
dia as instruções para o jantar. Viriam meus tios, como
sempre; e os cristais e os talheres, saídos já do guarda-prata e do aparador, apinhavam-se no mármore desses
dois móveis, na sala de jantar; era outra das ritualísticas
decisões que se tomavam de três em três meses. A voz
do meu pai vinha insistente, cada vez mais berrada.
Cabisbaixa, minha mãe interrompia as observações, e
ia pelo corredor fora em direcção ao quarto. À porta,meu pai em ceroulas de fitas e em fralda esperava, e
tinha de puxá-la para dentro. A chave rangia e estalava
na fechadura. As criadas trocavam olhares, levavam-me para a varanda, onde o Papagaio Verde, na sua
gaiola, subia e descia afanosamente do poleiro,
segurando-se com o bico e alçando a perna. Não estava
em causa que ele desse o pé a ninguém, a não ser a uma
ponta de pau de vassoura, que eu lhe apresentava.
Olhando-me de revés, condescendia em pousar de leve
um pé trémulo na ponta do pau, enquanto eu repetia: “Papagaio Real, quem passa?” – para ele se dignar dizer: “É o Rei... É o Rei ...”, como se não soubesse o resto. E,
de súbito, casquinava estrondosamente, sacudia-se, e
cantava desaforadamente uma das cantigas em voga.
Mal as criadas vinham, rindo, acompanhá-lo, calava-
-se logo, quieto e sério, fitando-as de bico entreaberto.
Foi por essa altura que a nossa amizade se
estabeleceu. As luas-de-mel de meus pais duravam
poucos dias, pelo menos com aquela atmosfera de porta
e janela fechada em pleno sol e de passos leves das
criadas, durante a vigência da qual eu – esquecido, ou
mais distantemente tratado, porque minha mãe, quando
saía lá de dentro, andava chorosa pelos cantos e não me
chamava muito – eu ficava mais livre, entretidas as
criadas numa escuta maliciosa ou no “far niente” das
tarefas inacabadas. Mas duravam, com efeito, pouco, e
logo, quase sem transição, passavam à violência do
temporal desfeito, para o que também a porta se fechava, às vezes com safanões à porta e competições pela posse
da chave, e lá dentro do quarto havia gritos de ambos,
frases sibiladas raivosamente, soluços e ais de minha
mãe, até que, num repente, a porta abria-se para ascriadas, já a postos, acudirem, com a água de flor de
laranja, à minha mãe que, estendida na cama, muito
pálida, soltava leves ais de mão no coração. Eu
esgueirava-me pelo meio do tumulto, sem que ninguém
reparasse em mim, e era em geral minha mãe, abrindo
os olhos, quem me enxergava, suspirava mais
soluçadamente, e estendia para mim mãos trémulas e
dramáticas que solicitavam a minha conivência, a minha
aliança, e das quais eu recuava tonto, com repugnância.
E era meu pai quem me empurrava para elas, como
uma espécie de plenipotenciário encarregado de negociar
a paz de uma guerra cujas causas eu não entendia, mas
de que me sentia, sem o saber, o campónio que vê os
exércitos inimigos devastarem-lhe a seara, uma pequena
horta, um pobre jardim. Aliás, por isso, a situação de
plenipotenciário tinha, pela jogada impotência e pela
passividade disputada, muito mais de um refém que de
um embaixador. Ninguém me perguntava ou me
ensinava a perguntar o que eu queria ou o que eu
pensava; e ambos, como os aliados, e os pacificadores,
as terceiras forças de “cruz vermelha” e neutralismo, que às vezes eram invocadas (quando não eram arrastadas
nos acontecimentos), afinal me ignoravam. E, tão
depressa quanto era empurrado para os braços trémulos,
era retirado deles e posto de lado, fora da porta, como a
bandeira branca que, depois de brandida e de surtir
efeito, fica no chão, entre os cadáveres, as cápsulas, o
lixo das guerras modestas e localizadas.
Eu ia para a varanda conversar com o Papagaio
Verde, não para lhe contar desditas que claramente não
entrevia, mas para comungar numa idêntica solidão
acorrentada. Eu saía muito pouco, a rua era-meproibida, primos meus vinham às vezes brincar comigo.
As brincadeiras, porém, constantemente interrompidas
por minha mãe, a quem era preciso pedir licença para
ir buscar ao “quarto escuro” o caixote dos brinquedos (o “quarto escuro” era, também, o misterioso reduto-alcova
das criadas, cuja intimidade constituía outro mistério
estranho), não tinham graça nem entusiasmo, e
degeneravam sempre em brigas sem motivo, em que se
opunham o meu anseio de brincar tudo ao mesmo
tempo, e a absorção com que meus primos se dedicavam
exclusivamente a algum instrumento de brincar, que
eles não possuíssem e os seduzisse mais. Quando essas
brigas estalavam, minha mãe mandava-os embora, e
eu ficava dias e dias remoendo uma autoritária cólera
insatisfeita, e esperando (de ideia fixa e numa insistência
cuidadosa, para que minha mãe logo a não contrariasse)
que eles voltassem. Fui, por extensão, pouco a pouco,
sem cálculo nem método, conquistando o Papagaio
Verde, e, ao mesmo tempo, o respeito já lendário que
ele impusera à sua volta. Sem largar o poleiro, e olhando
ironicamente para o meu dedo, ele dava-me o pé;
cantava comigo, aceitava da minha mão alguma das
coisas, como um talo de couve, que ele apreciava. Fui
descobrindo que, na verdade, ele não apreciava muito
esses talos que, solícito, eu lhe metia no pé. Mais por
delicadeza que por gosto, mais para aproveitar a
oportunidade de despedaçar metodicamente um objecto
(que a gaiola com poleiro de folha, e a distância a que
era posto de quanto fosse roível, não lhe consentiam), é
que ele aceitava essas dádivas. Não as comia; com
bicadas certeiras e calmas, que intercalava de laterais
olhadelas para mim, partia tudo em bocadinhos quetombavam na gaiola ou no chão. Terminada a
cerimónia, descia do poleiro, e continuava na borda da
gaiola uma segunda fase que era escolher dos caídos
pedaços aqueles que ainda podiam ser, sem muito
esforço, reduzidos a tamanho menor. Contemplava,
então, de olho grave e atento, a extensão da devastação
que fizera. Então, abrindo as asas e esticando o pescoço,
sacudia-se de penas eriçadas, catava no alto da poupa
azul um piolhinho (para o que erguia, à cabeça baixa,
um dedo cuja unha coçava suavemente por entre as
penas), sacudia-se de novo, subia para o poleiro,
assentava-se nele, assentava nos ombros a cabeça, e
fechava os olhos. Era o sinal de que eu me retirasse, de
que a minha visita acabara. Com a ponta da vassoura,
após esperar que a respiração dele fosse pausada e funda
no peito verde, eu tocava-lhe. Ele fazia de conta que
não dava por isso, era preciso tocar-lhe vezes seguidas,
enfiar-lhe o cabo da vassoura por baixo das asas. Até
que tudo isto se repetia como uma cena previamente
ensaiada entre nós. Fingindo-se ele distraído e
indiferente, retraído e alheio, eu teimava com o cabo da
vassoura; e ele, subitamente, disparava um voo circular
na ponta da corrente, pousava de esgelha no pau
empinado, com as asas semiabertas numa imitação de
procurado equilíbrio, e cantava, gargalhando e dando
estalinhos com a língua.
As criadas tinham raiva daquele entendimento que
ele não lhes concedera nunca, com uma altivez senhorial
que tornava difícil lavar-lhe a gaiola posta para isso no
chão da varanda, ou deitar-lhe água e comida nos
recipientes pendurados de cada lado do poleiro. E,
raivosas, faltavam-lhe ao respeito, tocando-lhe com avassoura na cauda, a pretexto de varrerem melhor um
recanto, ou despejando, numa pontaria falsamente
errada, água por cima dele. Furioso, subia a empoleirar-se no espaldar da gaiola, de onde, sem dar muita
confiança de perder a cabeça, lhes fazia arremessos
temerosos: mas, às vezes, perdia-a mesmo, e então, veloz,
com o pé esticado numa corrente que arrastava a gaiola,
agarrava uma ponta de chinelo que, aos gritos, muito
trémulo, não largava das patas e do bico. Uma vez, a
fúria foi tal que só a jarros de água o largou, ficando
semidesmaiado, tremente de exaustão nervosa e de frio,
a gemer uma ladainha triste e rouca, em que havia,
dispersos, alguns palavrões adequados. Dessa vez,
deixou que eu lhe acudisse, o enxugasse com um pano,
lhe penteasse as penas tão indignamente riças, tão
enegrecidas do forçado banho. Daí em diante, foi que a
nossa leal camaradagem se firmou, sem hesitações nem
reservas.
Certa manhã, quando me levantei, havia na cozinha
um movimento desusado, gritos, uma atmosfera de
pânico. Provavelmente, essa atmosfera despertara-me.
Fui ver. O Papagaio Verde estava solto! Passeando para
cá e para lá no chão, arrastando uma ponta de corrente,
o Papagaio proibia que a porta da varanda se abrisse, e
esvoaçava ameaçador contra a greta que nas portadas
as criadas tentassem. Eu queria passar para fora, minha
mãe que acudira ao tumulto segurava-me, o Papagaio
berrava. As criadas repetiam que ele fugira, fugira! Eu
achava que, se tivesse fugido, teria voado para as árvores
do quintal subjacente. E desmenti. E, lutando
esgatanhadamente contra todas, abri as vidraças da
varanda. Afugentando para o corredor a minha mãe e as criadas, que pela porta entreaberta da cozinha
observavam o terrível incidente de que eu sairia
mortalmente ferido (“com um olho vazado”, clamava
minha mãe em ânsias), o Papagaio entrou, dando ao
corpo nos requebros de avançar, mal espalmados no chão
os dedos, a passos largos, direito a mim, que, contagiado
levemente pelo pânico daquelas galinhas, recuara. E
veio até aos meus pés, e fez contra um meu sapato, com
doçura e ternura, aquele gesto de afiar lateralmente o
bico, que fazia às vezes na borda da gaiola. Abaixei-me
para lhe pegar. Ele deixou que o agarrasse, instalou-se
num meu dedo, e pesava.
Que dia triunfal! Meu pai partira já, dessa vez, no
torvelinho dos malões e dos engomados, com o criado
de casaco branco, muito tímido entreportas, a dirigir a
saída da bagagem. Houvera as despedidas do costume,
com meu pai acabando por tirar da algibeira um
envelope branco que pousava em cima do “toilette” e
era o dinheiro para três meses de ausência. Houvera a
contagem do dinheiro, por minha mãe, e o regateio
mútuo sobre se chegavam ou não aquelas notas. Depois
os beijos e abraços, a ida à janela da sala para dizer-se o
adeus final. E eu recomeçara, aos fins de tarde, as idas a
casa da Dona Antonieta, para a lição de piano, que a
família toda, com meu pai à frente, achava uma
indignidade mulheril, e que era a única manifestação
de teimosa independência por parte da minha mãe. Para
mim, a Dona Antonieta era uma pessoa que eu me
espantava de afinal não ter sido decapitada, realengamente,
na Revolução Francesa; e o piano era triplo e
delicioso pretexto para fazer o contrário do que queria a
maioria numerosa dos meus tutores honorários, parapenetrar na sala obscura e proibida onde o nosso piano
estava aguitarrando-se na solidão húmida, e para ficar
sonhadoramente compondo, curvado sobre as teclas
amareladas, as sinfonias que me tornariam livre, célebre,
distante de tudo e todos.
Com o Papagaio no dedo, avancei pelo corredor fora
em direcção à sala, seguido pelo cortejo receoso que não
ousava deter-me, porque o bicho abria para elas um
bico desmedido. Abri a porta, entrei, escancarei de par
em par as portadas (e, para lutar com os fechos, tive de
pousar no chão o Papagaio que logo esvoaçou para a
porta, a conter o avanço das tropas perseguidoras), fui
fechar a porta, sentei-me no banco do piano que abri,
depois de levantar a colcha indiana que o cobria e cujas
franjas sempre se enguiçavam na tampa. Concentrando-
-me, desferi acordes tumultuosos e dissonantes, com
trémulos rotundos nas oitavas baixas e glissandos nas
esganiçadas. O Papagaio, numa atrapalhação precipitada,
subiu para as costas da cadeira mais próxima, e
espanejou-se, e acompanhava, dançando e gritando uma
melopeia desafinada, a minha música sem nexo. E, de
vez em quando, para maior alegria minha, largava
escagarrichadamente pelo estofo da cadeira, que assim
se degradava, as suas dejecções acinzentadas.
Não houve mais contê-lo. Eu próprio o prendia e
soltava da gaiola, e ele esperava com paciência as horas
em que iria buscá-lo para o trazer à sala. Minha mãe e
as criadas não se atreviam a intervir, e eu ouvira já
conspirações que assassinavam o Papagaio, o exilavam
para longes casas. Mas, quando eu o soltava, e ele andava
por toda a parte atrás de mim, tudo ficava por nossa
conta: minha mãe fechava-se no quarto, as criadasfechavam-se na cozinha. Uma das nossas diversões era
um pequeno trapézio que eu criara para ele, suspenso
da bandeira, sem vidraça, da porta do “quarto escuro”.
O Papagaio, ensinado por mim, saltava do trapézio
balouçante para a vassoura que eu atravessava na frente;
e, de cada vez que o pouso se realizava com precisa
elegância, a sua alegria não tinha limites. Ás vezes, íamos
ambos à varanda da sala de jantar visitar o Papagaio
Cinzento. Este, da sua gaiola, olhava-nos com chocado
pasmo, e ensaiava uma dança tonta de criatura a quem
acendessem, de súbito, uma luz forte. O Papagaio
Verde, pousado no meu ombro, arreliava-o com gritinhos
e mordidelas carinhosas na minha orelha; e o outro,
escandalizado e humilhado, vingava-se depenicando
ostensivamente, mas sem apetite, os requintes de
gastronomia papagaial de que, por mão de minha mãe
e das criadas, a gaiola dele estava sempre cheia. Uma
tarde, não precisei fazer mais que um leve movimento
de ombro. O Verde saltou para cima do Cinzento e, em
três tempos, deu-lhe uma sova que o pôs no canto da
gaiola que depois pilhou conscienciosamente, virando,
para despejá-los, o bebedouro e o comedouro, e varrendo
para o chão da varanda, à força de asas, patas e bico,
tudo o que se derramara ou estava pousado no fundo
da gaiola. O outro, olhando de banda, não se atrevia a
um gesto; e o Papagaio Verde voltou para o meu ombro,
sem querer tocar, para comê-lo, num grão do milho
fino com que o outro se regalava.
Quando eu ia para a escola, acompanhando
submissamente, até à última esquina de onde se via
minha mãe de atalaia à janela, a criada que era
mandada a comboiar-me para impedir que eu me perdesse nas ruas ou entre a garotada do meu bairro, e
fugindo dela a correr, mal era voltada a esquina, para
escapar-me ao perigo incalculável de os meus colegas
perceberem que a criada me trazia (e esta convenção de
fugir às respectivas criadas para negar-lhes a guarda
era tácita entre muitos dos meninos, e as criadas, à hora
da saída, ficavam conversando nas esquinas distantes,
a coberto das pedradas com que seriam recebidas, se se
aproximassem aquém dos limites convencionais da sua
não-existência), o Papagaio vinha até à porta do
patamar, a despedir-se de mim, e o mesmo fazia quando, à tarde, depois de lanchar, eu saía para a lição daquele
pescoço em que não via sinais de guilhotina. Estas
despedidas eram uma perfídia minha, nas vezes em que
não ia, como me pediam que fosse, deixá-lo preso.
Divertia-me saber que se fechavam à espera que ele,
caminhando solene pelo corredor e arrastando
chiadamente no oleado a corrente, voltasse honestamente à gaiola, onde ficava, sem ser preso, aguardando o meu
retorno.
Depois, meu pai regressava novamente. As luas-de-mel eram agora curtas, rápidas, tumultuosas, com minha mãe protestando lá dentro, em gritos que
chamavam porco e infame ao meu pai. Às vezes, a frágil
paz quebrava-se logo no jantar de família, nesse mesmo
dia, com meu pai levantando-se pela mesa fora e
atirando a cadeira, ou com minha mãe chorando diante
da travessa encalhada na mesa, entre um prato cheio e
outro vazio. Palavras viperinas circulavam, meus tios
levantavam-se também, com uma autoridade moral de
que compensavam a sujeição dos muitos auxílios e
jantares que meu pai lhes dava. Eram, aliás, parentespor parte dele, embora pessoas cuja interferência, nos
negócios domésticos, ia aumentando com a violência
das disputas; muitas vezes, naqueles escassos quinze dias,
uma das criadas, de noite, levantava-se para ir chamar
meu tio, que não morava longe e vinha sonolento, com
umas calças enfiadas por cima do pijama e um sobretudo
de gola levantada, conversar pacientemente, ora com
minha mãe que, em “robe de chambre”, suspirava
sentada na sala de jantar, ora com meu pai que,
passeando pesadamente no corredor até que os vizinhos
de baixo viessem protestar contra o barulho, proclamava
que não precisava de nós para nada, tinha a bordo todos
os confortos, que nos levasse o diabo. Eu, na cama, ouvia
tudo aquilo, quando não era expressamente convocado
a participar, por minha mãe que vinha acordar-me “para
fugirmos os dois”, ou por meu pai que me sacudia para
dizer-me “que minha mãe era doida, que o odiava, que
me ensinava a ter-lhe ódio”. Com sono, farto de cenas
sem novidade alguma, cujas marcações e deixas eu sabia
de cor, eu tinha ódio a ambos, por sob o medo imenso
que ambos me metiam, a puxarem cada um por um
braço meu, cada qual exigindo que eu desmentisse o
outro. Uma vez, minha mãe vestiu-me apressadamente
e vestiu-se depressa também, com meu pai, no corredor,
de faca da cozinha em punho, e as criadas nas sombras
da porta do “quarto escuro” espreitando. Fui informado
de que íamos sair para nos deitarmos ao rio, nos
afogarmos. À porta, entre gargalhadas do meu pai, eu
recusei-me terminantemente a sair, declarando que
estava muito frio. E meu pai, brandindo a faca – que
era para suicidar-se, ou para matar minha mãe, ou para
liquidar-me a mim, conforme as oportunidades daquela“commedia dell’arte” – avançou para minha mãe. Eu
dei-lhe um pontapé no baixo-ventre, que o fez, num
urro, largar a faca que apanhei. E as criadas e minha
mãe tiveram de interpor-se entre ele e mim, até que
uma das criadas, abrindo a porta da rua, se esgueirou,
comigo pela mão, desarmando-me, e levando-me para
a avenida, onde o dia clareava, e os grandes carros de
bois, cobertos de hortaliça muito arrumadinha, desciam
chiando a caminho do mercado. A criada falava
docemente comigo, dizendo-me que o que eu fizera não
se fazia, era uma grande maldade, uma grande falta de
respeito. Eu, abaixando a boca, mordi-lhe a mão. E
ficámos passeando para baixo e para cima, ela surpresa
e dolorida atrás de mim, porque me estimava muito, e
eu, à frente, dando pontapés aos detritos que havia no
passeio, entornando caixotes de lixo, que estavam nas
portas, e urinando contra as árvores como faziam os
cães.
Daí em diante, nas questões nocturnas, quando meu
tio vinha, no seu sobretudo escuro, negociar que minha
mãe não teimasse em dormir na minha cama, de que
eu arrepanhava a roupa, ou que meu pai não brandisse
facas, acabavam sempre os três por discutir-me
acaloradamente, a dois contra um, conforme os
argumentos, como se eu, “que levantara a mão contra
meu pai”, fosse o criminoso, o culpado daquilo tudo.
Eu, às vezes, saltava da cama, vinha encostar-me à
ombreira da sala de jantar, e pela frincha via-os sentados à volta da mesa, cada qual argumentando com
motivações que eu não sonhara ter tido, com malefícios
que me não lembrava de ter praticado, ou combinando
planos de educação para conterem os meus instintos.Eu ficava atemorizado e trémulo, ouvindo falar de
colégios internos, de proibições de brincadeiras, de
suspensão das lições de piano, coisas piores.
No dia seguinte, pela manhã, trôpego de sono e
inquietação, eu ia para a escola, onde não era mais feliz.
Afastados rispidamente da minha casa que não
frequentavam, como eu não frequentava a deles, os meus
colegas detestavam a minha incapacidade de comunicar,
o meu isolamento estudioso e vago que não procurava
aliados nem confidentes. Eu era menos rico do que a
maioria deles, e vestia-me com um aprimoramento
desmazelado que não mantinha a distância que os
primores despertam, nem a camaradagem a que o
desmazelo convida. E, bem mais vezes que a outros mais
peraltas, me atacavam para sujar-me, ripostando eu com
uma raiva que não era das regras do jogo, porque eu
procurava ansiosamente agredir, com ímpetos assassinos.
À tarde, eu voltava para casa, fechava-me na sala,
com o piano e o Papagaio Verde, até ao momento em
que, estando meu pai, ele batia à porta. Tocava as
músicas que preferia, ou ficava compondo repetidamente
melodias que se pareciam com tudo o que eu ouvira de
triste, e o Papagaio não pousava já nas costas da cadeira,
mas na borda extrema do teclado, de onde seguia os
movimentos das minhas mãos, e descia às vezes para as
teclas, ensaiando uns passos que eu fazia sonoros no
calcar das teclas descidas. Isto divertia-o, e ele simulava
um grande espanto, olhando a um lado e outro, soltando “ohs, ohs”, e ficando com um pé no ar, um pé hesitante
que fingia temer o som da tecla seguinte. Então, eu
retirava-o para a borda, e tocava estudos e escalas. O
Papagaio dormitava desatento. De súbito, eu feria doisou três acordes de algumas músicas suas predilectas.
Imediatamente se arrepiava na expectativa, de olho
arregalado, e cantava e dançava até ao fim, abrindo as
asas. Quando eu concluía numa catadupa de acordes
extras, os gritos dele eram de aplauso que exigia bis. Eu
repetia uma e duas vezes, até que uma angústia de
exprimir-me me embargava os dedos, eu pousava a
cabeça nas teclas, e esperava que ele viesse, pé ante pé,
catar-me na cabeça o piolhinho.
Não chegara ainda à adolescência, quando o
Papagaio Verde adoeceu, a princípio muito levemente,
de uma pequena boqueira no canto do bico, e que
manifestamente o incomodava. Só a minha presença, a
minha voz, os meus afagos, o arrancavam da sonolência
gemente em que se confinava ao canto do poleiro. Pouco
a pouco, a boqueira alastrou em refegos para os lados
do bico, avançou em direcção à poupa azul e à fina
pálpebra que se mantinha semicerrada. Mal podia abrir
o bico para comer; mal podia firmá-lo, para descer ou
subir. Tinha tonturas, vágados que o aterrorizavam e
surpreendiam, e acabaram por fazê-lo temer o poleiro
de onde quase caía. Foi preciso ter sempre a gaiola no
chão. Ele, que às vezes audazmente pulava para a grade
da varanda e olhava de alto para o quintal lá em baixo,
não se atrevia agora, senão de vez em quando, a
aproximar-se, num relance saudoso, da beira da varanda.
E, arrastando o pé, voltava para o canto da gaiola. Eu,
e minha mãe também, a meu pedido, tratávamos dele,
lavando-lhe com um algodão embebido em borato
aquela chaga que não era bem chaga, e antes parecia
um alastrar de lava pregueada e ressequida. O Papagaio
Verde não deixava que minha mãe lhe fizesse o curativo,se eu não estivesse ao lado. Com paciência, falando-lhe
carinhosamente, partindo tudo em pedacinhos, eu
insistia para que ele comesse. Quase que para me
agradar, ele acedia, num esforço infinito, em comer
alguma coisa. Dava-lhe de beber, e a água escorria pelos
cantos do bico. Foi então que, no meu colo, ele deu em
recordar teimosamente, com escândalo de minha mãe
que deixou de tratá-lo, o reportório antigo. Murmuradamente
dizia de enfiada coisas que eu nunca lhe ouvira,
frases, ordens de navegação e manobra, palavrões,
palavras em línguas que eu não reconhecia. Como em
sonhos, recostado nos meus braços, arrepiando-se às
vezes, repetia sem descanso tudo o que decorara na sua
longa vida, e o que não decorara, e o que ouvira no
convés de navios, em portos de todo o mundo, entre a
marinhagem, de todas as cores. A sua verdura, agora
tão esmaecida e pelada, tão rica, desdobrava-se em
ondulações de vagas, em apitos de manobra, em pregões
marinhos, em linguajares, que tinham no seu som
estalado a fúria e o tumulto dos trópicos multicores e a
amplidão azul dos mares espumejantes. Era uma
ardência mecânica, que eu escutava debruçado sobre
ele, e se ilustrava, na minha imaginação, de velhas
gravuras com índios de penas na cabeça e grandes barcos
ancorados em baías de água lisa e límpida em que se
espelhavam. Mas era também uma confiança de que,
em sacões abruptos, um dos seus pezinhos se apertava
no meu dedo, como quem se agarra à vida e transmite
a um amigo a derradeira mensagem. Isto durou semanas
que me fizeram às vezes faltar às aulas, não ouvir
ninguém, não notar ninguém, ocupado em escutar e
receber aquela vida que se extinguia. Eu saía a correrda escola que não me dava conta de frequentar, temendo
não encontrá-lo ainda vivo. Mas lá estava, agora meio
deitado no canto da gaiola, para apertar na pata o meu
dedo. O sofrimento dele devia ser horrível: tão grande
que, apesar da docilidade com que deixava eu fazer-lhe
o curativo inútil, suspendi aquelas lavagens que o
torturavam mais. Não era, porém, só a ferida, se era
ferida, o que lhe doía. Era-lhe igualmente dolorosa a
perda do seu garbo, da sua altivez, da elegância
majestosa das suas penas brilhantes. Quantas vezes,
arrastando-se, ele tentava erguer-se nas pernas e nos
músculos fracos, para, de cabeça ao alto, com o olho já
afogado no mal que o roía, espanejar-se ainda, olhar-me com amistosa sobranceria, ensaiar um começo de
cantiga. Logo recaía na dormência falante, em que
arrepios ligeiros o percorriam para terminarem num
aperto de pata no meu dedo. Eu levava-o para o pé do
piano, acomodava-o em almofadas na cadeira, tocava-lhe as suas músicas. Ele agitava-se num contentamento
longínquo, de quem já não ouvia bem e se despegava
do mundo, e recostava na almofada a cabecita, no
estertor roufenho que era a sua conversa solitária, onde
palavras mal se distinguiam.
Um dia, quando, arquejante da rua e das escadas,
cheguei à varanda, o Papagaio Verde estava inerte no
canto da gaiola, com o bico pousado no chão. Peguei-lhe, aspergi-o com água, sacudi-o, com a mão auscultei-o
longamente. Não morrera ainda. Levei-o para a sala,
deitei-o nas almofadas, puxei a cadeira para junto do
piano, e, enquanto com os dedos da mão esquerda lhe
apertava a pata, toquei só com a direita a música de
que ele gostava mais. As lágrimas embaciavam-me asteclas, não me deixavam ver distintamente. Senti que
os dedos dele apertavam os meus. Ajoelhei-me junto da
cadeira, debruçado sobre ele, e as unhas dele cravaram-se-me no dedo. Mexeu a cabeça, abriu para mim um
olho espantado, resmoneou ciciadas algumas sílabas
soltas. Depois, ficou imóvel, só com o peito alteando-se
numa respiração irregular e funda. Então abriu
descaidamente as asas e tentou voltar-se. Ajudei-o, e
estendeu o bico para mim. Amparei-o pousado no braço
da cadeira, onde as patas não tinham força de agarrar-se. Quis endireitar-se, não pôde, nem mesmo apoiado
nas minhas mãos. Voltei a deitá-lo nas almofadas,
apertou-me com força o dedo na sua pata, e disse numa
voz clara e nítida, dos seus bons tempos de chamar os
vendedores que passavam na rua: – Filhos da puta! – Eu afaguei-o suavemente, chorando, e senti que a pata
esmorecia no meu dedo. Foi a primeira pessoa que eu vi
morrer.
Consegui que os vizinhos de baixo mo deixassem
enterrar no extremo do quintal. Embrulhei-o num pano,
procurei desesperadamente uma caixa que lhe servisse,
atravessei pé ante pé a casa dos meus cerimoniosos
vizinhos, desci ao quintal com a caixa debaixo do braço,
escavei uma cova bem funda, depus a caixa, tapei-a,
calcando a terra, e juntei-lhe em cima um montinho de
pedras, com flores disfarçadamente surripiadas ao
canteiro, entaladas entre elas. E, da varanda, em dias
seguidos, eu contemplava aquela sepultura pequenina,
adjacente à imensa empena do prédio contíguo, e que a
cerimónia havida com os vizinhos não me permitia de
cuidar. Vieram chuvas, veio o jardineiro, a sepultura
desapareceu. Mas eu sabia, pelas manchas na empenasobranceira, onde ela estava, e adivinhava, sob o canteiro
florido, o meu Papagaio Verde.
A minha solidão tornara-se total. Meu pai ia e vinha,
sem que sequer a chegada das bagagens me incitasse a
reconhecer-lhe a presença mítica. E, na bisonhice que
eu cultivava contra tudo e todos, como na sobranceria
com que me mostrava ostensivamente agoniado num
regime doméstico que, de viagem para viagem, se
azedava, havia como que uma herança espiritual de
bicadas abruptas. Cheguei mesmo a torturar o Papagaio
Cinzento.
Uma tarde, à mesa, estalou a discussão entre meu
pai e minha mãe, precisamente num jantar de chegada,
a que, como de costume, meus tios assistiam. Eu declarei
categoricamente que os detestava a todos, e, atirando
com a cadeira por imitação de violência, levantei-me
para a varanda, perseguido por um bofetão de meu tio.
Lutei contra ele que me agarrava, e contra meu pai que
o agarrava a ele, e contra minha mãe que agarrava meu
pai, e contra a minha tia que os agarrava a todos; e
vendo, num relance enublado, aquele cacho humano a
disputar-se a primazia de castigar-me, a voz embargou-se-me em gritos de choro desatado: – Ninguém é meu
amigo, ninguém é meu amigo... Só o Papagaio Verde é meu amigo.
A luta suspendeu-se numa gargalhada alvar, que
escorria babada pelos guardanapos deles. Eu fiquei de
costas, buscando com os olhos, lá em baixo, no quintal,
o recanto em que jazia o Papagaio. E ouvi distintamente
a sua voz aguda e clara, dominadora e viril, sarcástica e
displicente, raivosa e cheia de carácter, a proclamar, num
grande voo de asas verdes, o juízo final que murmuraraao morrer. Não eram. Em verdade, não eram sequer
isso, cujo sentido eu não sabia então claramente. A vida,
desde então, não me esclareceu muito; mas creio
firmemente que, se há anjos-da-guarda, o meu tem asas
verdes, e sabe, para consolar-me nas horas mais
amargas, os mais rudes palavrões dos sete mares.
Assis, 3-6-61 e Araraquara, 25-6-62