Myra atravessou os carris desocupados em direcção
ao mar. Cresciam ervas e tojo nas juntas e as traves e
ferros estavam negros das marés vivas sujas de crude.
O céu estava baixo e muito escuro. Havia estrias roxas
e verdes na distância branca e areciam, céu e mar,
uma única onda a levantar-se para engolir a terra. Myra
tirou os sapatos e as meias rotas e ficou parada a ver
aquele assombro. Se corresse por ali adentro ninguém
daria com ela nunca mais. Assoou-se à baínha da saia e
limpou o resto da cara à manga do casaco de malha.
Correu com os braços abertos, um sapato em cada mão,
em direcção ao bando de gaivotas poisadas. Gritaram
muito e revoaram iradas por cima da cabeça dela, mas
não a atacaram. A mãe não teria razão, ou seria na
terra dela. Outros mares, outros ares.
Começou a chover, primeiro gotas grossas, depois
fios finos e cerrados. Tudo brilhava. Era como vapor de
luz que se levantava daquele grande corpo de água arugir. Myra começou a ficar cega de tanta chuva a bater-lhe na cara e a escorrer pelo pescoço. Era como chorar
sem gritos. Correu para o barracão onde brincara de
escondidas nesse primeiro Verão em que ainda só falava
a língua de brincar com os outros, com os olhos, gestos
e risos. Correu depressa, saltitando entre detritos, algas
mortas que chiavam, baba de espuma amarela que se
abatia na chuva.
Estava muito escuro e a água estalava com força
atroadora nas chapas de zinco do tecto. Myra fechou a
custo o tramelo enferrujado. Doíam-lhe as mãos e os
braços de proteger a cabeça da última sova. Ficou na
escuridão, até os olhos se habituarem às lâminas de luz
das frinchas nas tábuas. Cheirava a salmoura, bafio,
peixe estragado, cordame e óleo. Junto às paredes
estavam ensarilhados ao alto os paus das barracas, panos
de tela desbotada, redes com bóias de vidro, bidons
pretos, latas, contentores de plástico esventrados, lixo
da praia e do mar. O chão pegava-se aos pés, uma areia
imunda e húmida. Com o mundo a desabar por cima
da cabeça, Myra sentou-se num molho de corda que
lhe picava as nádegas e começou a chorar de aflição;
nunca chegaria a casa a tempo de secar antes deles virem,
pela noite. Ia apanhar de novo, da ira e do medo.
O latido uivado foi a primeira coisa que a alertou.
Depois brados, berros e risos trazidos na ventania e
abertas nas águas e rebentação, já muito perto. Myra
escondeu-se atrás de um bidon, a cara inchada contra o
alcatrão, os olhos arregalados de novo terror, a respirar
o menos que podia, o coração a bater por todos os lados.
Dois rapazes grandes entraram com estrondo a
arrastar numa corrente um cão que gania e ladravarouco. Com meio olho, Myra viu o cão a sacudir-se com
esforço. O pêlo espirrava água e sangue. Depois atirou-se para o chão e ali ficou. Puxaram-no para um canto
com algum cuidado e incentivo, amarraram a corrente
e taparam-no com uma manta que sacudiram da água.
Disseram-lhe que era um grande cão, o melhor de todos,
riram a lembrar a goela aberta do outro a espernear à
morte e disseram ao cão que ficasse. Eles logo voltariam,
que ele valia mais que o peso em ouro. Ele ficou. Riram-se mais e fecharam o tramelo de fora com toda a força.
Ao longe ainda bradavam, rapidamente ao longe,
corriam.
A chuva abrandou. Pingolejava agora em tampas,
fundos de alguidar e latas de zinco. Myra saiu do
esconderijo de rojo, devagar. O cão não era dos maiores,
mas era grande. Tinha o peito muito ancho e encorpado,
o pêlo curto e malhado de branco e camurça.
Os olhos eram preto-vivo, muito para cada lado da
cabeça achatada e larga. Parou de lamber-se e ficou fito
nela, todo quieto e inquieto nas narinas grandes e pretas.
Myra reconheceu-lhe a traça, de há tantos anos e tão
longe terra: eram os cães de matar cães, o pior cão do
mundo. O mais valente, até à demência de morrer de
raiva. Atarracado de força, nobre e tão mau.
Continuou a aproximar-se de gatas. O animal sem
ruído, sem fazer menção de levantar-se, mostrou-lhe as
presas. Myra, respeitosa, quebrou o intenso laço do olhar
e acocorou-se, os braços entre as pernas, à distância da
corrente. O bicho deitou a cabeça entre as patas, desceu
as orelhas curtas, uma delas esfacelada, fechou o beiço,
uma chaga aberta da orelha até à comissura da grande
boca. A luz coada ia esmorecendo. Na meia penumbraMyra deixou-se amolecer, gemeu. O cão voltou a olhá-la e ganiu um ganido de cachorro, um gemido. A
omoplata ainda sangrava de outra ferida que brilhava
no escuro, um coalho preto que escorria devagar até à
ponta da manta. Myra, sem se aproximar deu-lhe o
nome que lhe ouvira chamar e começou a falar-lhe de
manso na sua língua materna. Desgraçado, desgraçado
Rambo, pobrezinho de ti. O animal, sem se mover,
esboçou um trejeito de cauda. Deixou de a fitar e
recomeçou a lamber-se. Com mil cuidados lentos, Myra
tirou do bolso o pão com a salsicha que roubara da lata
da casa comum e pô-1o bem perto do nariz do cão, em
cima da manta. Toma, come cão, depois arranjamos
mais. O cão virou a cabeça de lado para abocanhar do
beiço intacto, soergueu o tronco e começou a comer.
Myra levantou-se e foi buscar uma tampa de lata com água da chuva.
Foi então que Myra pensou que se tinha urinado de
medo. As pernas estavam pegajosas, molhadas por
dentro. Apalpou-se e viu pela mancha escura nos dedos
que era sangue vivo. Havia de ser hoje, a primeira vez,
disse sem medo para o cão. Pousou-lhe a água diante.
Ele levantou-se e deixou-a chegar-se. Bebeu, a cauda
comprida claramente grata. O rabo estava a saber sorrir.
Depois começou a lamber-lhe um dos pés nus, o artelho
encardido, e Myra pousou-lhe a mão no grande cachaço
com muita doçura e determinação. Fomos feitos um
para outro, Rambo. Agora temos de fugir antes que
eles venham.