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Jorge de Sena

 

 

 
 
AS ITES E O REGULAMENTO
 
 

  

Le guerrier est brave et sublime parce qu'il ne sait pas ce qu'il fait.
Vigny

"Penafiel, 1941"



     No frio, um frio agudo e seco, em que perpassavam névoas ténues de humidade e um cheiro a terra, mais que embebida, varrida pelo ímpeto das águas, abri os olhos. A escuridão da noite começava a receber dentro de si una claridade difusa que não se definia ainda no horizonte para que, depois de entrever, com a sensação da testa pousada nos braços, os calcanhares enlameados da bota e do pé descalço, levantei lentamente a cabeça que, por sua vez, arrastou o olhar. Ao longe, na distância, acumulavam-se nuvens que fitei com olhos desfocados a esforçarem-se por distingui-las. Um tremor muito rápido me percorreu. Não tinha morrido.

   Quando, naquele ano em que fui convocado para o serviço militar, viajei para Penafiel, onde o curso de oficiais milicianos centralizava para todo o País o seu primeiro ciclo, era a primeira vez que eu penetrava na província, já que até então vivera só em Lisboa e depois no Porto, com rápidas paragens em Coimbra, nas viagens entre as duas cidades. O que não fosse cidade era, para mim, uma espécie de excursão aos arrabaldes, ou a paisagem que ia rodando, aparecendo e indo, rente às janelas do comboio. Penafiel, nesse tempo, era uma avenida larga com casinhas baixas, em cujos extremos, embora não exactamente neles, havia, respectivamente, o casarão imenso e acachapado do quartel e um santuário pretensioso e recente, construído na mira de justificar romarias que reanimassem o comércio de uma cidade que vivia só do quartel. E o quartel, em verdade, não dava para muito. Tirando alguns botequins em pontos estratégicos da avenida única que aliás era a estrada, e alguns prostíbulos mais, no fim da cidade velha que, em ruas estreitas e abruptas, se agarrava às traseiras das casas de um dos lados da avenida, e escorregava por essa encosta abaixo por calçadas de seixos e regueirões de lama e lixo, o quartel não trouxera mais nada. Os ofìciais viviam em casas da avenida, um ou outro na cidade velha, numa modéstia de varandas com vasos de flores que o "impedido" regava matutinamente usando a mesma displicência com que varria lentamente, antes ou depois, o portal da rua, na ombreira do qual uma campainha era um luxo distintivo de haver no quartel electricistas que as poriam de graça. A única distracção decente era um cinema bissemanal, cujo apelo anunciador retinia, em vacilações estridentes, pela cidade toda. E, porque a guerra ardia pela Europa e estava suspensa como uma ameaça sobre a Península Ibérica, e o blitz de Londres prosseguia feroz, e a Alemanha nazi parecia levar tudo de vencida, as pessoas apinhavam-se em pequenos grupos dentro e à porta de botequins com rádio, para ouvirem as emissões em português da B. B. C., a única voz ouvida em Portugal, que não estava ao serviço dos alemães. Esta curiosidade "mórbida", em que havia um misto de anti-salazarismo e de ódio ao "boche" combatido na Primeira Guerra Mundial (Penafiel tinha também, a meio da avenida, o seu horrendo monumento aos Mortos da Guerra), era muito mal vista pelas autoridades que proibiam expressamente tais audições públicas em que, segundo a designação aficial, o "comunismo internacional demo-liberal-judeo-maçónico" continuava a vomitar a sua fascinação de hidra de sete cabeças, essa mesma hidra que, mais de um século antes, trouxera, com o auxílio de mercenários e aventureiros de toda a espécie, um príncipe traidor, imperador irrisório do sertanejo Brasil, a expulsar do trono o rei legítimo, e dos altares e dos corações um Cristo inquisitorial e benéfico que, evidentemente, só Hitler reporia num indiscutível e tradicional império. No quartel, ordens de serviço haviam proclamado a proibição, com ameaças de castigo, e as "rondas" tinham por obrigação dispersar aqueles grupos, se havia fardas neles, e conduzir ao quartel, para inquérito, os soldados relapsos. Acontecia, porém, que, apesar do ranger de dentes de alguns oficiais, como o capitão Carvalho, as "rondas", muitas vezes, se não eram compostas de sargentos e cabos mais servis, se diluíam nos grupos, curiosas também dos noticiários, ou se faziam anunciar, a distância, por um marcial estrupido de botas e de ordens.

   O capitão Carvalho comandava a minha "companhia". Era um homem alto, corpulento, de bigode aparado, moreno, de enormes mãos, e que ninguém jamais vira á paisana. Dizia-se mesmo que não possuía trajes civis, e que até para dormir com a mulher não tirava as botas. Pertencer à companhia dele era a pior desgraça que podia caber em sorte a um "miliciano". A minha vida tem sido uma longa teoria de capitães-da-marinha, do exército, da indústria, do ensino, etc. -, cuja missão se cifra em temperar-me num desprezo imenso da humanidade oficial com alvará para espezinhar e oprimir. O capitão Carvalho foi um deles. Era o que, em gíria militar, se chamava um "tarimbeiro", espécie em vias de extinção, graças ao aristocratismo de castas, que começava então a ser rigidamente imposto. Ele assentara praça como soldado, subira a cabo, a sargento, frequentara a "escola de sargentos", e, na idade em que os aristocratas da Escola do Exército já eram capitães, fora promovido a alferes. Não se pense, porém, que ele tinha complexos, ou alimentava rancores. A sua ingenuidade, a limitação dos seus horizontes, a convicção de haver triunfado na pequena escala de uma carreira medíocre afincadamente seguida, tudo isso diluía e transfigurava, na mística do "serviço", o resto. E o resto era a superioridade de homem longamente aquartelado, com que olhava os meninotes, seus camaradas, vindos da Escola do Exército; era a certeza absoluta de que nenhum modo de vida nem nenhuma cultura especializada sobrelevavam, em legitimidade, a transcendência dos exercícios tácticos e das marchas; era o desprezo com que olhava tudo o que não fosse militar de raiz, e nós, milicianos, éramos militares por acidente, por obrigação, e não por vocação; era, sobretudo, a convicção, que anos de experiência vivida na malícia peculiar de um restrito meio haviam reiterado, de que, fora de um Regulamento e de uma disciplina, que o espírito do homem se ocupa em iludir, a salvação não é possível. O capitão Carvalho não tinha política, não tinha ideias, não frequentava a igreja, tinha horror de padre, gente que ele considerava uma variante de saias do mesmo bicho civil. O Regulamento era, para ele, tudo: Constituição, Evangelho, Código Civil, Manual de Primeíros Socorros em Caso de Acidente, Tratado de Economia Política, Regras de Bem Viver em Sociedade, "Como Fazer Amigos e Triunfar na Vida", tudo. Para cada caso, cada emergência, cada circunstância insólita, ele encontrava no texto sagrado, com uma maestria que raiava o virtuosismo jurídico, um artigo aplicável, decisivamente esclarecedor. Nesse caso os outros oficiais, e até o Comandante do Centro de Instrução, temiam-no. Não que as discussões com ele se prolongassem em teimosas subtilezas de interpretação do texto, ou que houvesse o perigo de que ele, avesso a pegar na pena, sustentasse, em memoriais intermináveis, as suas razões. Era pior. O capitão Carvalho não admitia controvérsias; limitava-se, espetando o queixo, empinando o ventre, e de folheto em punho, a ler repetidamente o aplicável versículo da sua Bíblia, com a mesma voz com que, na parada, gritava "esquér'volver". E não havia saída. De modo que, sacerdote incontestado das virtudes militares (ou sejam, as virtudes humanas só possíveis de exercer com a garantia de um regulamento e de um quartel), o capitão Carvalho fazia quanto queria. Não era, todavia, um prepotente: longe disso. Como para ele o mundo exterior não existia, não alimentava a mínima pretensão de reduzi-lo aos seus esquemas rígidos. A prepotência resultava apenas de recusar-se terminantemente a reconhecer a existência do que o Regulamento não consignasse. E foi com isso mesmo que ele, honestamente, se aplicou em matar-me.

   Claro que o digno capitão Carvalho não tinha, a meu respeito, quaisquer intenções assassinas. Simplesmente eu era, para todos os efeitos, um civil, e, como tal, um inapelável e contumaz gentio; e o meu caso não estava expressamente previsto no Regulamento, pelo que não podia deixar de ser uma manifestação dos meus desígnios malignos de escapar-me aos deveres estipulados pelo infalível texto. Não era por ser doença que a minha doença era condenável, mas por não ser mencionada no Regulamento, da mesma maneira que, ao saber dos grupos que escutavam a B.B.C., o capitão não rangia os dentes por ser partidário de Hitler, ou porque a determinação de não ouvi-la fosse expressão das preferências políticas da Governa da Pátria, mas porque viera publicada, e mesmo mais que uma vez, na Ordem da Dia, que ele, todas as tardes, com solenidade, fazia ler à Companhia devidamente fardada e formada, pelo sargento de serviço, a cujas mãos a arrancava, para lê-la ele, quando o timbre da voz, a altura dela, a clareza da dicção, a entoação melódica, não punham devidamente em relevo os arcanos harmónicos e as peculiaridades significativas de períodos como este: "Nos termos do art.° 147, parágrafo 3.°, do Decreto-Lei n.° 34 339, de 27 de Abril de 1938, e por determinação emanada do Estado-Maior do Exército em ordem telegráfica n.° 1576, que transcreve a Instrução n.° 424 de 14 de Novembro de 1927, como recordatória, em obediência ao esclarecimento solicitado pela Repartição de Pessoal, 3.a secção, do Ministério do Exército em seu ofício n.° 1871, de 9 de Setembro de 1931, acerca da emenda promulgada pelo Decreto-Lei n.° 28 892, de 18 de Maio de 1937, ao Art.° 29 do Regulamento de Disciplina Militar (e aqui os olhos do capitão brilhavam de fulgor altivo), dois dias de prisão ao soldado n.° 387/36, da 3.a Companhia de Sapadores do Batalhão de Sapadores Mineiros do Regimento de Engenharia n.° 1, por, no exercício das suas funções como sentinela de guarda ao quartel, não ter feito, a um oficial subalterno do seu Regimento, a continência estipulada, sob a alegação de que, no mesmo momento, se aproximava do portão do quartel a viatura do comando e de não saber se, nessa viatura, o comandante era transportado ou não, pelo que, observando atentamente a viatura, não teria visto o oficial subalterno que entrava. Circule-se a todas as unidades do País, para ser publicado em Ordem do Dia."

   Eu fora para Penafiel muito doente, com a sensação de que só me salvava de um sofrimento horrível se me trocassem a cabeça por outra, como acontecia, naquele tempo, com os fogareiros de petróleo, que haviam batido nas cozinhas os de carvão, e ainda não haviam sido batidos pelos fogões a gás. Em sequência de uma gripe e de uma naso- -faringite, tivera uma procissão de ites ascendentes e amplificadas em gravidade, que me roubavam o equilíbrio e o ouvido, me punham a cabeça à razão de juros e o resto da vida em perigo, numa época sem antibióticos, em que a penicilina era ainda, em Portugal, uma notícia das agências telegráficas. Acontecia-me, às vezes, sem aviso prévio, cair no chão em plena rua, para o que, evidentemente, contribuía o estado de fraqueza inerente à situação de fome endémica que era o meu regime alimentar de estudante pobre. Era quando meu pai vivia morrendo - no que se ocupou e ocupou os outros por largos e dolorosos anos - e consumindo em tratamentos e amarguras o pouco que lhe restara da dissipação de grande senhor, rodeado de uma clientela de familiares que o jantavam opiparamente e a quem ele dava pensões secretas, e de uma outra clientela de prostitutas mais ou menos dignas, com casa posta e com casacos de peles, dos quais, mas raramente, minha mãe recebia um duplicado modesto. Apesar da saúde pouco apta aos exercícíos militares, eu não tivera outro remédio senão ir para Penafiel. Como estudante de curso superior, eu tinha direito a frequentar o ciclo de oficiais milicianos, mas esse direito perdê-lo-ia, mesmo frequentando-o, se faltasse, ainda que por doença, mais do que três dias àquele primeiro ciclo de dois ou três meses nas férias grandes. Este rigor da lei implicava uma série interminável de falsificações dela. Uma doença pode durar, e em geral dura, a não ser nas congeminações disciplinares dos Estados-Maiores, mais dias que o inefável número da Santíssima Trindade. De modo que os doentes, quando os havia, baixavam ao hospital (que, em Penafiel, era o hospital civil da Misericórdia, único da cidade), oficialmente por três dias, recebiam alta, voltavam em braços para o quartel por não haver transporte providenciado para eles, e aí continuavam, extra-oficialmente, a frequentarem as aulas e a participarem das formaturas, respondendo, às vezes, às chamadas pela boca de outros que os representavam. Nem de outro modo poderia ser, já que uma doença de mais de três dias era afinal punida com a perda do curso e a obrigação de fazer o serviço militar como soldado e por inteiro durante dois anos, sem licença para estudos. Isto sucedia, naturalmente, nas outras "companhias" do quartel; na do capitão Carvalho que nunca, por sua declaração expressa ante uma formatura estivera doente mais que um dia (partir um braço, como uma vez partira, não era doença, embora ele não explicasse como, acaso partindo algum de nós as duas pernas, perderíamos não obstante o nosso curso), não. A bem dizer, não há doenças que possam impedir um homem de cumprir os seus deveres militares, tal como nada há, na vida, que possa competir, em prioridade, com esses deveres. Nisto, o capitão Carvalho era muito explícito. Não fora a humanidade do alferes que comandava o meu pelotão (humanidade que se exercia mais por exibicionismo de jovem aficial saído da Escola, contra a grosseria do "sargentão" que o comandava a ele, do que por verdadeira humanidade a que aderisse profundamente uma natureza embebida na contabilidade minuciosa e discriminada das suas proezas sexuais, contabilidade essa que fazia parte obrigatória da explicação das peças de uma metralhadora ou de qualquer outro objecto de possível significação simbólica), e a camaradagem de muitos dos meus companheiros (a qual provinha mais de uma solidariedade contra a disciplina do que de uma autêntica piedade humana), e eu não teria podido, sozinho, marchar tudo o que o capitão achava necessário que marchássemos, ou carregar tudo o que o capitão, no seu zelo de verificar e de castigar a minha malícia, entendia que eu era a pessoa indicada para sempre carregar.

   Os ricos não dormiam nem comiam no quartel. Tinham quartos alugados pela cidade, e regalavam-se com bifes e batatas fritas, e muito vinho verde, nas mesas trôpegas e sujas das tascas da avenida, sob nuvens de solícitas moscas. As minhas posses não davam para tal libertação; e, porque precisava de sossego para a minha cabeça e para trabalhar nas traduções que fazia (no quartel não havia uma única sala onde se estivesse, e as casernas, iluminadas por tímidas lâmpadas, eram, depois do "recolher" e do "silêncio", anfiteatro de competições desportivas quanto às capacidades gasoso-intestinais, ou teatro de assaltos de pederastia galhofeira às camas dos tidos por "maricas" - assaltos que degeneravam em batalhas tremendas a travesseiro e cinturão de couro -, quando não eram apenas cenário de pacíficas exibições de strip-tease que culminavam em inocentes concursos de instrumental genésico, em que o vencedor era necessariamente sempre o mesmo indivíduo, que já viera para o quartel com a alcunha de "tripé", tendo sido mesmo uma vez convidado a mostrar-se na Sala dos Oficiais), eu requerera para dormir fora. Isso me dava, além do sossego, mais tempo e mais luz para escrever, mas colocava-me numa posição duvidosa ante o capitão, que não sentia por mim, como pelos outros em situação idêntica, nenhum dos respeitos extremos do seu horizonte social: nem o respeito, a contragosto, pelos que não dependiam de modo algum de um soldo, nem a fraternidade para com os que estavam vivendo como ele começara.

   A minha odisseia teve início precisamente quando, ao entregar ao capitão o meu pedido, ele conversou comigo. Eu estava de pé à frente da mesinha dele, no "quarto da companhia", onde não havia mais que a cadeira de palhinha, em que ele se sentava, outra mesa e outra cadeira iguais, onde um sargento deduzia continuamente, num livro enorme, a idade e a amortização das peças de roupa e de equipamento distribuídas aos soldados, e uma estante pequena, com cortinas que haviam sido verdes, e onde se guardavam, além do Regulamento encadernado e de ponderosos tomos semestrais da Ordem do Exército, um binóculo velhíssimo, e uma coruja empalhada, de olho arregalado e um pé alçado do tronco em que pousava para a eternidade, e que o capitão encontrara anos atrás, coberta de pó, em cima da mesma estante, e mandara arquivar, por ter conferido em listas antigas do património que ela estava dada à "carga" da "companhia". Espetando o queixo, e com o cigarrinho de enrolar seguro entre dois dedos já negros dos antecessores, o capitão interrogou-me, e havia tremor irónico no bigode aparado: - Então que é que tu tens? - (não prescindia, mesmo com soldados-cadetes como nós, do tratamento de tu, já que o Regulamento assim o determinava para praças sem graduação, como fixava o vocemecê para sargentos, a senhoria para oficiais subalternos, e a excelência para oficiais superiores e generais).

   Expliquei-lhe, o mais traduzido possível, o rol das minhas desditas, que ele ouviu com atenção. Quando me calei, comentou: - ites... ites... Agora tudo são ites... Olha lá, tu lavas os ouvidos?

   Ante a minha perplexidade estupefacta, condescendeu em elucidar-me. Levantou-se, abriu a estante (foi quando vi, pela primeira vez, a arquivada coruja), e extraiu, para minha edificação, o Regulamento Anotado. E, mesmo de pé, folheou-o certeiramente e leu: - "Artigo 47.° da Parte Terceira: As praças sem graduação devem ser levadas ao banho, com traje próprio, uma vez por semana, cabendo-lhes que todos os dias lavem os ouvidos e se barbeiem." - Fitou-me com firmeza, e prosseguiu: - E a anotação diz: "Estas medidas regulamentares destinam-se não só a conservar o bom aspecto dos homens, como a incutir- -lhes hábitos de limpeza e de higiene." Higiene, estás a ouvir? "Com efeito, a limpeza quotidiana dos ouvidos, além de contribuir para uma boa audição das ordens dadas em parada, evita a acumulação de cera, da qual resultam diversas moléstias do aparelho auditivo." - e, mecanicamente, explicou: - O aparelho auditivo é o ouvido.

   Como eu não dizia nada, o capitão voltou o livro aberto para mim, sem me desfitar; depois, guardou-o novamente na estante, e veio sentar-se na cadeira que rangeu. Pelo canto do olho, eu via a cara do sargento que fingia fazer os seus descontos. O capitão recostou-se e, ameaçando-me com o cigarro apagado, avisou-me: - A dispensa do recolher é concedida, porque és merecedor, não tendo castigos. Será cassada ou suspensa, em caso contrário. E, quanto ao mais, lava os ouvidos, como o Regulamento manda. Tudo isso é cera seca - e sublinhou a cera com energia, pela segunda vez.

   A cera seca circulou veloz pelo quartel inteiro, e toda a gente, risonhamente, me perguntava por ela. Mas eu é que sabia quanto ela me custava. Sempre que preparava ordens de marcha, o capitão, do alto do cavalo em que seguia à frente da coluna (num hipismo regulamentar de capitão de infantaria, canhestro e apenas possível pela docilidade da cavalgadura que já conhecia de cor todas as estradas da região), lançava um olhar perscrutador que me distinguia entre os outros e verificava se eu carregava tudo o que ele mandara pôr-me em cima, de onde ele deduzia se eu desistira do pretensiosismo das ites e me submetera definitivamente à salutar e prescrita lavagam quotidiana dos ouvidos. Eu arrastava-me como podia, era arrastado pelos outros, e o alferes, piscando o olho e fazendo nas costas do capitão um gesto feio, abrandava o passo até à minha fileira, para animar-me, para ver se os outros me aliviavam da metralhadora ou de qualquer mais descoberta regulamentar do capitão, em matéria de peso.

   Um dia, quando, ao fim da tarde, a formatura assistia na parada à leitura da "ordem", senti uma dor mais aguda, vi tudo verde, e voltei a mim na enfermaria. A enfermaria era uma pequena sala tão nua como o "quarto da companhia", em que dois catres e um armário com alguns frascos e tesouras, pintados de branco como as mesas, davam o necessário tom de utilidade sanitária. O quartel não tinha médico; era um médico da cidade quem, contratado, preenchia as teóricas funções que, além do presidir às vacinações em série com a mesma agulha e o mesmo algodão sujo, executadas por dois cabos-enfermeiros, consistiam em receitar para tudo uma igual purga, ou lavagem de seringa com permanganato, conforme os casos. Chamado à pressa, o médico apareceu. Era um fulano gordo, baixote, com muita brilhantina mal cheirosa no cabelo, e o ar rubicundo e saltitante de quem havia de chegar, com artigos louvando o Salazar e a Nossa Senhora de Fátima (a cujo mútuo entendimento se devia, claramente, que Portugal fosse poupado aos horrores da guerra), publicados no jornal da terra, a Presidente da Câmara. Sabia perfeitamente o que eu tinha, porque eu falara com ele uma vez, lhe mostrara receitas, lhe entregara até as injecções que, em caso de emergência, deveria dar-me. Deu, e depois sentou-se à mesa para preencher a papeleta que me remeteria ao hospital. Quando peguei na papeleta, li que sofria de "infecção intestinal". Indignei-me. E ele ponderou: - Julga o senhor que eu estou disposto a ter uma briga com o seu capitão, escrevendo aí uma doença em que ele não acredita? Está bem livre! Eu não sou médico militar, sou contratado, contratado, ouviu? Vai para o hospital e tem muita sorte.

   Fui para o hospital e tive muita sorte. Mas não quis, prudentemente e ao contrário de outros, consumir em remanso total os três dias possíveis. Para uma próxima emergência, poupei um, e pedi ao director, que ao meio-dia percorria as enfermarias numa visita-relâmpago que era a única manifestação clínica num hospital que era mais asilo de velhos e indigentes do que outra coisa, para me dar alta. Saí à tarde do segundo dia, e apresentei-me a tempo do toque da corneta, a que formavam os doentes "curados" ou os presos libertos, tal como pela manhã os doentes em perspectiva, sob pena de não serem dispensados de coisa alguma, deviam apresentar-se ao toque de "doentes", para o médico os examinar na enfermaria e receitar-lhes a purga ou o permanganato. O capitão Carvalho, da porta do "quarto da companhia", que era no andar térreo da construção fechada em quadrângulo à volta da parada, para a qual davam também as portas das casernas, observava a formatura, e viu-me. Aproximou-se logo no seu passo cadenciado por invisíveis e silenciosos tambores, e veio vindo pela formatura adiante até onde eu estava. Fiquei tremendo todo, de uma maneira estúpida, na expectativa aterrada do que ele iria fazer. O ódio que eu lhe tinha era imenso, as ganas de o matar e de o estripar, ilimitadas. O próprio cabo que atendia a formatura, um rapaz pequenino e seco, quase preto de tão morena, franziu o sobrolho, ao fazer-lhe uma continência impecável, depois de ter-nos dado ordem de sentido. E a expectativa transmitiu-se à fileira toda e mesmo a soldados que estavam encostados à porta da caserna deles (havia no quartel, para os serviços vários, um pequeno número de soldados "prontos", apenas limpos da boçalidade campestre pelo vício da ociosidade citadina). O capitão passou por diante de mim sem parar. Mas a fileira, com só mais dois ou três depois de mim, não dava para muito mais. Voltou-se abruptamente, mandou que o cabo nos ordenasse a posição de "à vontade", ou seja, para homens desarmados, as pernas afastadas e as mãos cruzadas uma na outra, segundo a gravura publicada pelo Estado-Maior (nem mais nem menos dedos à vista), e ficou muito hirto, fitando-nos a todos, e não a mim em especial. A demora pareceu tanta, que, no vacilar das minhas pernas fracas, eu ouvi, dentro de mim, a freira do hospital (eram freiras quem fazia a enfermagem que consistia, sobretudo, em servir a comida, vender Almanaques de Santo António, e distribuir pagelas impressas com a oração mais apropriada ao santo advogado de cada caso particular: São Brás para a garganta, Santa Luzia para os olhos, etc., etc. - o que era uma maneira lógica de suprir a falta de especialistas que na cidade havia) a dizer-me: - Reze a Santo Expedito. Santo Expedito é agora o melhor, ninguém que se apegue com ele deixa de ter o que procura, não há santo que atenda mais depressa, Santo Expedito... Santo Expedito... - e vi-me a ouvi-la, com um sorriso atencioso nos lábios, enquanto pensava que o santo era, nas suas atribuições, uma preciosa mistura de Clínica Geral e Pronto Socorro. Era uma freira gorda e baixa, mais gorda pela sobreposição de saias que se arqueavam abaixo da cintura, e com um rosto inadequadamente magro, de uma lividez conventual, os olhos azuis engrandecidos pelos óculos de aros de ferro, e um sinal de pêlo na ponta do queixo. Mas respirava solicitude e boa vontade, no preguear risonho da boca sob os malares salientes e entretecidos de capilares rosados, que o toucado engomado e branco cingia e destacava. Contra o capitão Carvalho, como ela insinuara, só mesmo Santo Expedito que, parece, havia sida centurião romano, um colega santificado no "serviço" de Deus. - Ouviu o que eu disse? - perguntou-me o capitão, parado diante de mim. Eu vi-o, repentinamente, de toucado branco e engomado: - Santo Expedito é agora melhor -, e não respondi nada. - Então ficas sabendo, de uma vez para sempre, que essa de dar espectáculo na parada, de te atirares para o chão, não torna a repetir-se! Quando fores para cair no chão, cai para o outro lado! - e circunvagou um olhar terrível que fez os soldados sumirem-se, um a um, pela porta da caserna. Ele voltou-se para o cabo: - Manda dispersar. E põe-me aqueles homens da caserna para fora, que a esta hora quem lá pode estar é o plantão.

   Tocava para o jantar, à porta do quartel. Aqueles fins de tarde, mesmo quando enublados parcialmente como aquele estava, eram um encantamento para mim. Do terreiro em frente do quartel, que tinha um extenso parapeito sobre um alto muro sobranceiro a uma estrada para a qual o atarracado prédio fazia, sobre a continuação do muro, figura de fortaleza conspícua, com as suas janelas baixas e compridas, e gradeadas grossamente, a vista não era deslumbrante, nem variada, nem sequer muito nítida, para lá dos arvoredos cerrados que havia além da estrada, numa quinta de que mal se via, sob a folhagem, o portão de pedra armoriada. Mas era uma sucessão de planos verdejantes, verde-negro, verde-púrpura, verde-claro, verde-azul, verde-cinzento, que, a certas horas, névoas baixas repartiam nos sucessivos vales sobre que pousavam, tendo ao fim, na linha do horizonte, um afiado recorte de montanhas longínquas, junto às quais o céu se esbranquiçava, quando as não coroavam tumultuosos congelamentos de sombrias nuvens. Só em poalha dourada e adejante, o sol-poente vinha entrando pelo túnel que, sob a fachada principal do edifício, era a "porta de armas" do quartel. Aquele terreiro à frente, onde os pelotões faziam círculos, sentados no chão, à volta dos alferes e dos cabos que davam instrução de qualquer coisa, e onde, pela manhã, se fazia uma espectacular ginástica inane, pois que o Centro de Instrução inteiro formava um xadrez tiritante de frio, a que as ordens mal chegavam claras, era, de certo modo, privativo. Para ele dava uma rampa que descia do jardim intercalado entre ele e a avenida, e que era o acesso; e, a seguir ao jardim, um alto muro de suporte do terreno de um palacete limitava o terreiro, ao fundo do qual havia uma torre circular, profusamente ameada (como os quartéis têm ameias, e as igrejas são góticas!), que teoricamente desempenhava o papel de paiol, de onde o haver sempre junto dela uma sentinela firme que, à noite, era tentada pelas prostitutas mais miseráveis da cidade (que faziam do ermo e das sombras das árvores um quartel-general de satisfações apressadas e incómodas, sem a legalidade da casa reconhecida, do cartão profissional, do imposto à Polícia, e, também, das inspecções periódicas do Governo Civil) e devia contribuir para a ornamentação excrementícia do sopé da torre (com que ela, sem ser vetusta, se irmanava ao destino malcheiroso dos monumentos nacionais). Esse perfume excrementício do terreiro, que se prolongava ao longo do parapeito, como um cilício humano da contemplação da paisagem, poderia aliás ser como que uma continuação espiritual do quartel, em que o cheiro de urina e etc. predominava violentamente, graças ao estado das sentinas, tradicionalmente sujas, como signo da "indiferença" coprofílica que, nas mentalidades brutais e grosseiras, é ostensivo sinal externo de virilidade. A ideia de comida, de refeição, era, no quartel, inseparável deste cheiro resultante dela. Porque a comida era ignóbil, umas invenções mesquinhas, meio sopa, meio feijão guisado, com ossos disputados de prato em prato, às vezes massa misturada com espinhas de peixe. No intervalo de folga entre o jantar e o recolher, os não-desarranchados corriam, quando tinham dinheiro (e o dinheiro que acaso cada qual tinha não era a miséria que nos pagavam, de que se descontava ainda o que nós nem comíamos), aos botequins mais próximos, atropelando-se e acotovelando-se para conquistarem algumas sanduíches, que acabavam logo, feitas com os bifes sobrados das mesas dos ricos.

   Exausto, humilhado, triste, solitário, abatido, sem dinheiro, com as ites proibidas pelo Regulamento a morderem-me a cabeça, saí lentamente do quartel e fui para casa. Eu morava numa casa de pensão, que havia na avenida, e em que, para a emergência de se alugarem numerosamente aos dispensados de pernoitar, as salas tinham sido divididas por tabiques de madeira apressadamente caiados. O meu quarto dava para a avenida, com uma pequena varanda de ferro, por onde, de baixa que era, entravam colegas meus moradores da casa, depois que a patroa fechava a porta da rua, ou saltavam a refugiar-se outros que, surpreendidos na rua, depois do toque de recolher, pela "ronda" que se ouvia vir pela avenida adiante, seriam presos e levados para o quartel. Demorei-me, sentado ao pé da janela (além da cama, com uma colcha de croché e um travesseiro duro, o quarto tinha apenas uma mesinha e um lavatório de ferro, de tripé vacilante, com um braço erguido para sustentar um gancho para a toalha e repartindo-se em lira para encaixe de um espelho partido), vendo anoitecer.

   As donzelas da cidade, em grupos, refluíam para o jardim ao pé do quartel, na mesma mira insana e melancólica de namorarem um soldado-cadete que, formado, as arrancasse de Penafiel. O que, em geral, sucedia era algumas delas tornarem-se proverbiais, serem endossadas de curso para curso, cada vez mais fáceis, mais desesperadamente apalpáveis, mais conhecidas, mais distantes de alguma coisa que não fosse o que teriam num recanto escuro do jardim. As famílias distintas reuniam-se na "Assembleia", cuja frequência nos era vedada, desde que uma vez, no primeiro ano em que houvera um curso de cadetes na cidade, o baile terminara em desordem. Os oficiais e as suas famílias faziam parte da distinção da cidade; mas algumas senhoras preferiam manifestamente passear no jardim, no meio daquele cheiro de virgindades duvidosas e de homens em cio profissional, que fora, ao caçarem os maridos, a atmosfera da sua casta militar. Vi passar, pouco a pouco, para trás ou para diante, a cidade inteira que não estava, como eu, sentada à janela. Os lampiões da avenida acenderam-se. Os passos das botas pesadas, o vozear dos grupos, a campainha do cinema, foram-se diluindo num silêncio tépido, abafado, que parecia concentrar-se na luzinha vermelha que, ao fundo da avenida, ficava acesa no quartel dos Bombeiros Voluntários. Um ou outro automóvel - raro e a gasogénio, naqueles tempos de guerra mundial - passava na poeira da avenida que tinha duas pistas separadas por um renque de árvores raquíticas, municipalmente aprisionadas em cercados mais altos que elas; a pista oposta a mim é que era propriamente a estrada. Nesta, um cão hesitava, farejando, entre deitar-se na berma ou no meio.

   E, nisto, a um relâmpago lívído, sucedeu um trovão que estalou, reboou, logo correspondido por outros mais distantes e por ecos dele e dos outros nos vales e nas montanhas. E grossas pingas de água começaram a cair. Não tardou que a chuva tombasse contínua, espessa, furiosamente varrendo em nuvens de água a avenida, rentes aos prédios da qual pessoas se esgueiravam, abrigando-se. Distraindo-me das dores que sentia aumentarem num latejar agudo que se fixava no cimo da cabeça numa dor contínua, fiquei com as vidraças abertas a olhar os vultos que vinham fugindo, em pulos e corridas cegas, e sorri de algumas elegâncias que regressavam dissolvidas, com o cabelo escorrendo, e os refegos das vestidos reduzidos às formas que eles transformavam. A pouco e pouco, todo o movimento cessou. Intermitente, a trovoada continuava em bátegas desvairadas, que os estrondos dos trovões pareciam ampliar, depois de os relâmpagos as fazerem lívidas. Na minha cabeça, a dor veio latejar mais, e era como que uma luz intensa, um zumbido, por detrás dos olhos, dentro dos ouvidos. Notei, nas mãos, que suava frio. Encostei as vidraças, despi-me, estendi-me em cima da cama. Os trovões formavam um ruído constante, ou era só a dor o que eu ouvia? Os relâmpagos iluminavam o quarto, ou era a luz ardente que eu tinha atrás dos olhos? Um rangido violento acordou-me em sobressalto, e abri os olhos para ver um vulto recortado na varanda, e que empurrara as portadas. Não sei momentaneamente o que julguei que fosse, talvez um espectro da altura de uma janela alta, como o do Mistério, de Andreief (então uma das presenças sempre na minha imaginação), que me visitava, embora, ainda antes, o houvesse reconhecido - mas reconhecido? - como um dos meus camaradas, hóspede da casa. O espectro entrou, parecia fosforescente, deu-me as boas-noites, e, sem ter fechado a janela, abriu a porta do quarto, saiu e fechou-a sem ruído atrás de si. Levantei-me, aproximei-me da varanda. A chuva parara, ouviam-se trovões, o céu estava amarelo de uma humidade baixa que punha halos nos lampiões acesos, vacilantes. Debrucei-me, sem reparar que estava nu. Encostado à porta da casa, o cão que hesitara entre a berma e a estrada levantou para mim a cabeça. Falei-lhe mansamente, e tive a sensação de não ter proferido uma palavra, de ter emudecido como em pesadelos, ao mesmo tempo que as palavras soavam (e doíam) como chicotadas lá onde a dor agora me tomava todo. Um arrepio me percorreu da cabeça aos pés, e comecei a tremer, batendo o queixo com uma intensidade que parecia desviar um pouco para os dentes a dor que me tomava. O cão pousou a cabeça nas patas, acomodou-se melhor. Vim para dentro, encostei as vidraças, e deitei-me outra vez. Descobri, então, que não podia estar deitado. A dor torcia-me para trás, como se eu estivesse sendo amarrado a uma roda de tortura, em que torniquetes me fossem arqueando o corpo cada vez mais repuxado pelos cabelos e pelos calcanhares. E, quanto mais, deitado de lado, eu me arqueava, tanto mais a dor aumentava, me abrasava, me gelava, me iluminava de uma luz cegante que era, no quarto, uma treva pastosa. Sentei-me na cama, acocorado, com a cabeça entre os joelhos, e com os braços enlaçados nas pernas. Mas a treva, que se colava a mim, era intolerável. Fiz um movimento para levantar-me e acender a luz. A porta do quarto abriu-se. Numa claridade difusa que o desenhava mais linear e plano do que antes me aparecera, o espectro deu uns passos para dentro. Desta vez, não o reconheci. E, numa suspensão súbita da dor, pude desenlaçar os braços, levantar-me... e o espectro acendeu-me a luz. No mesmo instante, eu estava só no quarto, em pé, e a chuva desabava 1á fora com uma violência imensa, parecendo que levaria tudo, varreria tudo, esmagaria tudo, era o dilúvio. A porta do quarto estava fechada, e as tábuas dela, toscas e caiadas, pareciam arfar, na trepidação que tudo sacudia. Com uma pancada súbita na cabeça, a dor deitou-me ao chão. Espumando, uivando ciciadamente, torci-me no soalho, enquanto relâmpagos e trovões se sucediam. Agarrei-me com fúria aos pés da cama que arrastei, e consegui, num esforço interminável, levantar-me. Sentado na borda da cama, enfiei as botas; depois, escorregando nela, vesti as calças; não sei como vesti a camisa, e pus-me de pé, sentindo que só então as botas se me calçavam. Fui à varanda, alcei uma perna, passei para fora, e deixei-me pender para a rua, com a chuva parecendo vir sobre mim como escorrida dos dedos. Ao tocar no chão, senti as pedras molhadas num dos pés. Uma das botas caíra-me, e o cão, luzidio, cheirava-a e virava-a com o focinho. Abaixei-me para lha tirar, rosnou-me. Desesperado, afastei-me uns passos; trouxe-ma na boca até junto de mim. Encostado à parede, pude enfim calçá-la. Depois, a única coisa que eu via era a luz vermelha na porta dos Bombeiros. Para lá fui andando, com o cão atrás. A chuva corria-me pela cara e, no empapado da camisa e das calças, sobre o próprio corpo até às botas. A única coisa que eu sentia era o chocalhar dos calcanhares nas botas cheias de água. Na porta dos Bombeiros, onde a chuva era vermelha, havia uma campainha enorme, que puxei. Um badalo tilintou lá dentro. Escorregando contra a parede, esperei. Não apareceu ninguém. O cão sentara-se na borda do passeio, olhando-me. Era um rafeiro velho, de pelencas pendendo dos beiços, com as orelhas roídas de chagas que a luz vermelha fazia mais sangrentas. Tornei a tocar. Uma vez. Duas vezes. Nos intervalos, encostava-me à parede, escorregando verticalmente ao longo dela, e com a visão cheia da chuva que me corria pela cara abaixo. A porta envidraçada em caixilhos de ferro entreabriu--se com um rangido que só ouvi depois de vê-la abrir-se. - Quem está aí? - Para a sombra em que havia apenas um nariz vermelho a sair de uma sombra de capote, eu disse: - Tenho uma dor de ouvidos, dê-me qualquer coisa... - Dor de ouvidos? - Cera seca é o que era, ele ia contestar. Sorri. - Qualquer coisa para deitar nos ouvidos… - E a voz respondeu-me sonolenta: - Assim, para pôr só tenho tintura de iodo -. Apoiado à ombreira, ri-me. Tintura! E ouvi que a porta se fechava. Ainda fiz um gesto para a campainha, mas, só esboçado, logo se me diluiu com a queda do braço a que, senti, a manga se colava. Diante de mim, a avenida era um mar de água chiante e salpicante sob o choque de sempre mais chuva. O cão olhava-me. Aqueles olhos que eu não via, e contudo vermelhamente brilhavam; aquelas orelhas ratadas que pingavam avermelhadamente; aquele lombo luzidiamente vermelhusco - tudo isso causava horror. Desencostei-me da parede, e avancei para ele. Recuou, tombou de quartos traseiros na vasta levada que a avenida era, e pulou, nas pontas das patas, como se só então alguma água lhe houvesse tocado. Continuei a avançar para ele, com os pés perdidos na água que eu sentia correr contra as canelas, enquanto outra me descia dos cabelos pelo corpo abaixo. O cão, firmando-se nas patas, rosnou, e eu, olhando tontamente em volta, abaixei-me para pegar num pequeno pau que vinha navegando rápido entre mim e ele. Mas, abaixado, a cabeça caiu-me, e fiquei de gatas, com as mãos e os joelhos no chão, sentindo a chuva embater-me nas costas, e, com a cabeça pendida, adivinhando (mais que vendo) pelas ondículas tumultuadas a água em que estava metido. Num esforço em que tomei consciência da dor que me enchia só até à pele que a chuva, encharcando-me, refrescava, pus-me de pé. E fiz ao cão um gesto circular, um gesto de arremesso de um graveto imaginário. Interdito, voltou a cabeça, e depois deu saltos dentro de água, para longe, que eu não entendi, e regressou devagar, com um graveto na boca, que me apresentou. Estendi a mão. Aproximou-se mais, sem largar o graveto que na água iria, e deixou que eu lhe tirasse o pauzito. Novamente lhe estendi a mão, agora em jeito de afagá-lo. Rosnou e afastou-se. A chuva, numa rajada abrupta, fustigou-me o rosto: fechei os olhos. Luzes dançavam coloridas nas minhas pálpebras; e uma luz maior, como um farol veloz e esverdinhado, corria para mim zumbindo. Eu oscilava em movimento pendular, suspenso pelos pés, com a cabeça descrevendo um lento arco. Abri os olhos. O cão desaparecera. Sem sair da água, fui avançando pela avenida adiante até uma igreja aonde ela se bifurcava, à direita para umas ruelas, à esquerda prosseguindo a estrada. Foi para aqui que eu segui, agora rente às casas, apoiando-me com uma das mãos, a esquerda, nas paredes delas; e atingi uma esquina em que, mais profundamente que ao passar nas portas, a mão me fugiu. A água, aí, descia pela calçada íngreme, num amarelamento sombrio a que mal chegava a claridade dos lampiões da avenida. Sempre com a mão nas paredes, com os pés escorregando nas pedras da calçada e não acertando nunca com o fundo da valeta em que pisavam, fui descendo. Lá em baixo, um gradeamento de ferros de lança, com um portão a meio, era o hospital, cujo vulto caiado e difuso eu distinguia. Cheguei ao fim das casas, onde a água turbilhonava com outras que desciam para se engolfarem todas por uma viela, um barranco, ao lado do cunhal do muro do hospital. Entre a esquina e o portão, eu não tinha casas, e havia aquelas águas cujo estrondear eu não ouvia senão como um ronco no olhar. O portão cedeu diante do meu corpo, e entrei no jardim, onde não dei senão com pequenas poças, no saibro lamacento que rangia, e com as curvas caprichosas dos canteiros debruados a cacos de telha, num dos quais tropecei descalço. Descalço só de um pé. E, em verdade, foi quando eu soube que atravessara até ao hospital, deixando uma das botas no caminho. A porta do haspital estava fechada, não se via nele qualquer luz. Subi os três degraus de pedra, e fiquei junto da porta. Enovelada, pairava uma claridade alvacenta nos arbustos cabisbaixos. E os arbustos, mal ae erguendo acima de flores desfeitas e abatidas, brilhavam gotejando. Não chovia já. Encostado à porta, sentindo que não tinha forças para erguer a cabeça, deslizei um pouco para o lado, e olhei o céu. Negros rasgões corriam numa lividez imóvel, e entrevi neles algumas estrelas. A claridade que ondulava rente a mim provocou-me um arrepio viscoso, demorado, uma solidão de esqueleto ressequido, em que um hálito frio voltasse às cegas. Tentei falar. Não tinha língua, embora a movesse na boca. - É cera seca... - ouvi, contudo. E comecei a tremer, a tremer, com a claridade ondulante e alvacenta a rodear-me, a deslizar-me dos ombros, da nuca, e uma luz imensa a avançar do íntimo de mim direita a ela. Alguma coisa me roçou pela testa, uma coisa fria que tornou a roçar. Era uma argola que não pude agarrar com a mão, porque me fugia, quando a mão se lhe encostava. Tentei vezes seguidas, numa ânsia frenética, até que a argola se enfiou, ao pé da mão, no que, prolongando a mão, a não era. Firmei a vista: era o graveto que me fora dado pelo animal, ainda seguro nos dedos apertados de que as unhas senti na palma. Quis largá-lo, com a luz afogando-me, e não pude. A outra mão veio ajudar-me a abrir os dedos daquela. O pau caiu. A argola bateu-me com força na cara. Vacilei. E as duas mãos - vi-lhes os dorsos contraídos na acumulação de dedos sobrepostos - puxaram, e tornaram a puxar, e fiquei, subindo e descendo, rodeado de uma névoa cintilante de agulhas que me picavam a nuca, agarrado à argola. Não sei onde, lá dentro do edifício, ou na minha cabeça, ou longe, num outro ponto da cidade e por coincidência, uma sineta tocava. Eu suava, o meu suor corria-me para os olhos, e um frio límpido se interpunha agora entre mim e o pegajoso da claridade. Subindo e descendo. Subindo e descendo. Subindo... e, no extremo do horizonte subitamente iluminado e que vi que havia para além do prédio, um relâmpago explodiu dentro das nuvens. Quando eu descia, parei suspenso, porque das nuvens tombavam, numa dispersão lenta, fogachos prateados. Outro clarão nas nuvens, e os fogachos eram verdes, chovendo. E, depois, azuis, vermelhos, e um vago reboar vinha até mim. Quase sem consciência, entendi. Para lá de onde as nuvens estavam, gente lançava fogo-de-artifício para o céu estrelado. Uma girândola encheu de "lágrimas" a nesga de horizonte. Gente! As mãos soltaram a argola, e pousaram-se nos joelhos meio curvados. Senti um ardor nos olhos, que era suor e lágrimas. Fiquei assim, fitando a treva que já não era distante, que avançava, e num relance não enxerguei já os arbustos nem a parede do hospital. Descaí sentado na soleira da porta. O Regulamento aberto diante de mim, Santo Expedito de palma em punho, a freira dormindo de óculos na cara, e uma serenidade palpitante que parecia levar-me, perpassaram. As lágrimas corriam, e limpei-as com as costas da mão. Nada tinha importância, nada me doía, o negrume ciciava murmuradamente coisas que eu não entendia, nem via, nem ouvia, mas eram cenas vividas ou imaginadas, que eu não vivera, da minha vida. Depois, muito nítidos, havia rostos, uns meus como de retratos antigos, outros, não. E então, numa expectativa de corda que rebenta, fiquei à espera, e não vinha mais nada.

   No frio, um frio agudo e seco, em que perpassavam névoas ténues de humidade e um cheiro a terra, mais que embebida, varrida pelo ímpeto das águas, abri os olhos. A escuridão da noite começava a receber dentro de si uma claridade difusa que não se definia ainda no horizonte para que, depois de entrever, com a sensação da testa pousada nos braços, os calcanhares enlameados da bota e do pé descalço, levantei lentamente a cabeça que, por sua vez, arrastou o olhar. Ao longe, na distância, acumulavam-se nuvens que fitei com olhos desfocados a esforçarem-se por distingui-las. Um tremor muito rápido me percorreu. Não tinha morrido. Ou ressuscitara. Encostei-me à porta, sentindo-a nas costas e na cabeça que, com o pescoço esticado, nela encostei também. O dia, enevoado, vinha chegando de todos os lados. Levantei-me, atravessei o jardim. A minha bota estava entalada nas grades do portão. Abaixei-me e calcei-a. Comecei a subir a ladeira, cujas pedras arredondadas brilhavam, umas negras, outras brancas, outras rosadas ou castanhas. Curvado para a frente, ia a meio da rampa, quando um estalido de porta que se abre soou atrás de mim. Voltei-me, e uma porta que se entreabria tornou a fechar-se. Continuava a subir, rangeu a porta. Voltei-me novamente para ver cosido com a ombreira um vulto alto que era o alferes do meu pelotão. Ao mesmo tempo que ouvia "pst", vi, na memória, uma braçadeira de oficial de dia no braço do capitão Carvalho, e os seios da mulher dele sempre lamentados de pertencerem a ele e à cara dela, chupada, macilenta, de olheiras negras e sebosas. O alferes, à paisana, parou ao pé de mim, e não manifestou estranheza alguma de me ver ali. Chegando à minha cara uns olhos estremunhados, pisados e brilhantes, levou um dedo aos lábios que se contraíram num sorriso de conivência, e disse com voz rouca: - Cera seca... -, estugou o passo, e sumiu-se na esquina, ao cimo da calçada. Eu nem me ri, ao ouvir mentalmente a voz do capitão Carvalho: - Nenhum problema foi jamais descurado. Tudo está previsto. Ouçam! "Aos homens em campanha, deverá ser providenciado que tenham ao seu dispor, pelo menos uma vez por semana e mediante justa remuneração, mulheres apropriadas à satisfação das naturais impulsos, pela instalação e pelo bom estado sanitário das quais o Estado-Maior velará, através dos seus órgãas competentes. Deste modo, ao mesmo tempo que se garante, sob todos os aspectos, a saúde dos homens, poderá manter-se sempre elevado o moral das tropas."

  Assis, 17 de Março de 1961.


 
  In SENA, Jorge de. Os Grão-Capitães, Lisboa, Edições 70, 1976, pp. 53-86.    
     
 
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