Le guerrier est brave et sublime parce qu'il
ne sait pas ce qu'il fait.
Vigny
"Penafiel, 1941"
    No frio, um frio agudo
e seco, em que perpassavam névoas ténues de humidade
e um cheiro a terra, mais que embebida, varrida
pelo ímpeto das águas, abri os olhos. A escuridão
da noite começava a receber dentro de si una claridade
difusa que não se definia ainda no horizonte para
que, depois de entrever, com a sensação da testa
pousada nos braços, os calcanhares enlameados
da bota e do pé descalço, levantei lentamente
a cabeça que, por sua vez, arrastou o olhar. Ao
longe, na distância, acumulavam-se nuvens que
fitei com olhos desfocados a esforçarem-se por
distingui-las. Um tremor muito rápido me percorreu.
Não tinha morrido.
   Quando, naquele ano em que fui convocado
para o serviço militar, viajei para Penafiel,
onde o curso de oficiais milicianos centralizava
para todo o País o seu primeiro ciclo, era a primeira
vez que eu penetrava na província, já que até
então vivera só em Lisboa e depois no Porto, com
rápidas paragens em Coimbra, nas viagens entre
as duas cidades. O que não fosse cidade era, para
mim, uma espécie de excursão aos arrabaldes, ou
a paisagem que ia rodando, aparecendo e indo,
rente às janelas do comboio. Penafiel, nesse tempo,
era uma avenida larga com casinhas baixas, em
cujos extremos, embora não exactamente neles,
havia, respectivamente, o casarão imenso e acachapado
do quartel e um santuário pretensioso e recente,
construído na mira de justificar romarias que
reanimassem o comércio de uma cidade que vivia
só do quartel. E o quartel, em verdade, não dava
para muito. Tirando alguns botequins em pontos
estratégicos da avenida única que aliás era a
estrada, e alguns prostíbulos mais, no fim da
cidade velha que, em ruas estreitas e abruptas,
se agarrava às traseiras das casas de um dos lados
da avenida, e escorregava por essa encosta abaixo
por calçadas de seixos e regueirões de lama e
lixo, o quartel não trouxera mais nada. Os ofìciais
viviam em casas da avenida, um ou outro na cidade
velha, numa modéstia de varandas com vasos de
flores que o "impedido" regava matutinamente usando
a mesma displicência com que varria lentamente,
antes ou depois, o portal da rua, na ombreira
do qual uma campainha era um luxo distintivo de
haver no quartel electricistas que as poriam de
graça. A única distracção decente era um cinema
bissemanal, cujo apelo anunciador retinia, em
vacilações estridentes, pela cidade toda. E, porque
a guerra ardia pela Europa e estava suspensa como
uma ameaça sobre a Península Ibérica, e o blitz
de Londres prosseguia feroz, e a Alemanha nazi
parecia levar tudo de vencida, as pessoas apinhavam-se
em pequenos grupos dentro e à porta de botequins
com rádio, para ouvirem as emissões em português
da B. B. C., a única voz ouvida em Portugal, que
não estava ao serviço dos alemães. Esta curiosidade
"mórbida", em que havia um misto de anti-salazarismo
e de ódio ao "boche" combatido na Primeira Guerra
Mundial (Penafiel tinha também, a meio da avenida,
o seu horrendo monumento aos Mortos da Guerra),
era muito mal vista pelas autoridades que proibiam
expressamente tais audições públicas em que, segundo
a designação aficial, o "comunismo internacional
demo-liberal-judeo-maçónico" continuava a vomitar
a sua fascinação de hidra de sete cabeças, essa
mesma hidra que, mais de um século antes, trouxera,
com o auxílio de mercenários e aventureiros de
toda a espécie, um príncipe traidor, imperador
irrisório do sertanejo Brasil, a expulsar do trono
o rei legítimo, e dos altares e dos corações um
Cristo inquisitorial e benéfico que, evidentemente,
só Hitler reporia num indiscutível e tradicional
império. No quartel, ordens de serviço haviam
proclamado a proibição, com ameaças de castigo,
e as "rondas" tinham por obrigação dispersar aqueles
grupos, se havia fardas neles, e conduzir ao quartel,
para inquérito, os soldados relapsos. Acontecia,
porém, que, apesar do ranger de dentes de alguns
oficiais, como o capitão Carvalho, as "rondas",
muitas vezes, se não eram compostas de sargentos
e cabos mais servis, se diluíam nos grupos, curiosas
também dos noticiários, ou se faziam anunciar,
a distância, por um marcial estrupido de botas
e de ordens.
   O capitão Carvalho comandava a minha
"companhia". Era um homem alto, corpulento, de
bigode aparado, moreno, de enormes mãos, e que
ninguém jamais vira á paisana. Dizia-se mesmo
que não possuía trajes civis, e que até para dormir
com a mulher não tirava as botas. Pertencer à
companhia dele era a pior desgraça que podia caber
em sorte a um "miliciano". A minha vida tem sido
uma longa teoria de capitães-da-marinha, do exército,
da indústria, do ensino, etc. -, cuja missão se
cifra em temperar-me num desprezo imenso da humanidade
oficial com alvará para espezinhar e oprimir.
O capitão Carvalho foi um deles. Era o que, em
gíria militar, se chamava um "tarimbeiro", espécie
em vias de extinção, graças ao aristocratismo
de castas, que começava então a ser rigidamente
imposto. Ele assentara praça como soldado, subira
a cabo, a sargento, frequentara a "escola de sargentos",
e, na idade em que os aristocratas da Escola do
Exército já eram capitães, fora promovido a alferes.
Não se pense, porém, que ele tinha complexos,
ou alimentava rancores. A sua ingenuidade, a limitação
dos seus horizontes, a convicção de haver triunfado
na pequena escala de uma carreira medíocre afincadamente
seguida, tudo isso diluía e transfigurava, na
mística do "serviço", o resto. E o resto era a
superioridade de homem longamente aquartelado,
com que olhava os meninotes, seus camaradas, vindos
da Escola do Exército; era a certeza absoluta
de que nenhum modo de vida nem nenhuma cultura
especializada sobrelevavam, em legitimidade, a
transcendência dos exercícios tácticos e das marchas;
era o desprezo com que olhava tudo o que não fosse
militar de raiz, e nós, milicianos, éramos militares
por acidente, por obrigação, e não por vocação;
era, sobretudo, a convicção, que anos de experiência
vivida na malícia peculiar de um restrito meio
haviam reiterado, de que, fora de um Regulamento
e de uma disciplina, que o espírito do homem se
ocupa em iludir, a salvação não é possível. O
capitão Carvalho não tinha política, não tinha
ideias, não frequentava a igreja, tinha horror
de padre, gente que ele considerava uma variante
de saias do mesmo bicho civil. O Regulamento era,
para ele, tudo: Constituição, Evangelho, Código
Civil, Manual de Primeíros Socorros em Caso de
Acidente, Tratado de Economia Política, Regras
de Bem Viver em Sociedade, "Como Fazer Amigos
e Triunfar na Vida", tudo. Para cada caso, cada
emergência, cada circunstância insólita, ele encontrava
no texto sagrado, com uma maestria que raiava
o virtuosismo jurídico, um artigo aplicável, decisivamente
esclarecedor. Nesse caso os outros oficiais, e
até o Comandante do Centro de Instrução, temiam-no.
Não que as discussões com ele se prolongassem
em teimosas subtilezas de interpretação do texto,
ou que houvesse o perigo de que ele, avesso a
pegar na pena, sustentasse, em memoriais intermináveis,
as suas razões. Era pior. O capitão Carvalho não
admitia controvérsias; limitava-se, espetando
o queixo, empinando o ventre, e de folheto em
punho, a ler repetidamente o aplicável versículo
da sua Bíblia, com a mesma voz com que, na parada,
gritava "esquér'volver". E não havia saída. De
modo que, sacerdote incontestado das virtudes
militares (ou sejam, as virtudes humanas só possíveis
de exercer com a garantia de um regulamento e
de um quartel), o capitão Carvalho fazia quanto
queria. Não era, todavia, um prepotente: longe
disso. Como para ele o mundo exterior não existia,
não alimentava a mínima pretensão de reduzi-lo
aos seus esquemas rígidos. A prepotência resultava
apenas de recusar-se terminantemente a reconhecer
a existência do que o Regulamento não consignasse.
E foi com isso mesmo que ele, honestamente, se
aplicou em matar-me.
   Claro que o digno capitão Carvalho
não tinha, a meu respeito, quaisquer intenções
assassinas. Simplesmente eu era, para todos os
efeitos, um civil, e, como tal, um inapelável
e contumaz gentio; e o meu caso não estava expressamente
previsto no Regulamento, pelo que não podia deixar
de ser uma manifestação dos meus desígnios malignos
de escapar-me aos deveres estipulados pelo infalível
texto. Não era por ser doença que a minha doença
era condenável, mas por não ser mencionada no
Regulamento, da mesma maneira que, ao saber dos
grupos que escutavam a B.B.C., o capitão não rangia
os dentes por ser partidário de Hitler, ou porque
a determinação de não ouvi-la fosse expressão
das preferências políticas da Governa da Pátria,
mas porque viera publicada, e mesmo mais que uma
vez, na Ordem da Dia, que ele, todas as tardes,
com solenidade, fazia ler à Companhia devidamente
fardada e formada, pelo sargento de serviço, a
cujas mãos a arrancava, para lê-la ele, quando
o timbre da voz, a altura dela, a clareza da dicção,
a entoação melódica, não punham devidamente em
relevo os arcanos harmónicos e as peculiaridades
significativas de períodos como este: "Nos termos
do art.° 147, parágrafo 3.°, do Decreto-Lei n.°
34 339, de 27 de Abril de 1938, e por determinação
emanada do Estado-Maior do Exército em ordem telegráfica
n.° 1576, que transcreve a Instrução n.° 424 de
14 de Novembro de 1927, como recordatória, em
obediência ao esclarecimento solicitado pela Repartição
de Pessoal, 3.a secção, do Ministério do Exército
em seu ofício n.° 1871, de 9 de Setembro de 1931,
acerca da emenda promulgada pelo Decreto-Lei n.°
28 892, de 18 de Maio de 1937, ao Art.° 29 do
Regulamento de Disciplina Militar (e aqui os olhos
do capitão brilhavam de fulgor altivo), dois dias
de prisão ao soldado n.° 387/36, da 3.a Companhia
de Sapadores do Batalhão de Sapadores Mineiros
do Regimento de Engenharia n.° 1, por, no exercício
das suas funções como sentinela de guarda ao quartel,
não ter feito, a um oficial subalterno do seu
Regimento, a continência estipulada, sob a alegação
de que, no mesmo momento, se aproximava do portão
do quartel a viatura do comando e de não saber
se, nessa viatura, o comandante era transportado
ou não, pelo que, observando atentamente a viatura,
não teria visto o oficial subalterno que entrava.
Circule-se a todas as unidades do País, para ser
publicado em Ordem do Dia."
   Eu fora para Penafiel muito doente,
com a sensação de que só me salvava de um sofrimento
horrível se me trocassem a cabeça por outra, como
acontecia, naquele tempo, com os fogareiros de
petróleo, que haviam batido nas cozinhas os de
carvão, e ainda não haviam sido batidos pelos
fogões a gás. Em sequência de uma gripe e de uma
naso- -faringite, tivera uma procissão de ites
ascendentes e amplificadas em gravidade, que me
roubavam o equilíbrio e o ouvido, me punham a
cabeça à razão de juros e o resto da vida em perigo,
numa época sem antibióticos, em que a penicilina
era ainda, em Portugal, uma notícia das agências
telegráficas. Acontecia-me, às vezes, sem aviso
prévio, cair no chão em plena rua, para o que,
evidentemente, contribuía o estado de fraqueza
inerente à situação de fome endémica que era o
meu regime alimentar de estudante pobre. Era quando
meu pai vivia morrendo - no que se ocupou e ocupou
os outros por largos e dolorosos anos - e consumindo
em tratamentos e amarguras o pouco que lhe restara
da dissipação de grande senhor, rodeado de uma
clientela de familiares que o jantavam opiparamente
e a quem ele dava pensões secretas, e de uma outra
clientela de prostitutas mais ou menos dignas,
com casa posta e com casacos de peles, dos quais,
mas raramente, minha mãe recebia um duplicado
modesto. Apesar da saúde pouco apta aos exercícíos
militares, eu não tivera outro remédio senão ir
para Penafiel. Como estudante de curso superior,
eu tinha direito a frequentar o ciclo de oficiais
milicianos, mas esse direito perdê-lo-ia, mesmo
frequentando-o, se faltasse, ainda que por doença,
mais do que três dias àquele primeiro ciclo de
dois ou três meses nas férias grandes. Este rigor
da lei implicava uma série interminável de falsificações
dela. Uma doença pode durar, e em geral dura,
a não ser nas congeminações disciplinares dos
Estados-Maiores, mais dias que o inefável número
da Santíssima Trindade. De modo que os doentes,
quando os havia, baixavam ao hospital (que, em
Penafiel, era o hospital civil da Misericórdia,
único da cidade), oficialmente por três dias,
recebiam alta, voltavam em braços para o quartel
por não haver transporte providenciado para eles,
e aí continuavam, extra-oficialmente, a frequentarem
as aulas e a participarem das formaturas, respondendo,
às vezes, às chamadas pela boca de outros que
os representavam. Nem de outro modo poderia ser,
já que uma doença de mais de três dias era afinal
punida com a perda do curso e a obrigação de fazer
o serviço militar como soldado e por inteiro durante
dois anos, sem licença para estudos. Isto sucedia,
naturalmente, nas outras "companhias" do quartel;
na do capitão Carvalho que nunca, por sua declaração
expressa ante uma formatura estivera doente mais
que um dia (partir um braço, como uma vez partira,
não era doença, embora ele não explicasse como,
acaso partindo algum de nós as duas pernas, perderíamos
não obstante o nosso curso), não. A bem dizer,
não há doenças que possam impedir um homem de
cumprir os seus deveres militares, tal como nada
há, na vida, que possa competir, em prioridade,
com esses deveres. Nisto, o capitão Carvalho era
muito explícito. Não fora a humanidade do alferes
que comandava o meu pelotão (humanidade que se
exercia mais por exibicionismo de jovem aficial
saído da Escola, contra a grosseria do "sargentão"
que o comandava a ele, do que por verdadeira humanidade
a que aderisse profundamente uma natureza embebida
na contabilidade minuciosa e discriminada das
suas proezas sexuais, contabilidade essa que fazia
parte obrigatória da explicação das peças de uma
metralhadora ou de qualquer outro objecto de possível
significação simbólica), e a camaradagem de muitos
dos meus companheiros (a qual provinha mais de
uma solidariedade contra a disciplina do que de
uma autêntica piedade humana), e eu não teria
podido, sozinho, marchar tudo o que o capitão
achava necessário que marchássemos, ou carregar
tudo o que o capitão, no seu zelo de verificar
e de castigar a minha malícia, entendia que eu
era a pessoa indicada para sempre carregar.
   Os ricos não dormiam nem comiam no
quartel. Tinham quartos alugados pela cidade,
e regalavam-se com bifes e batatas fritas, e muito
vinho verde, nas mesas trôpegas e sujas das tascas
da avenida, sob nuvens de solícitas moscas. As
minhas posses não davam para tal libertação; e,
porque precisava de sossego para a minha cabeça
e para trabalhar nas traduções que fazia (no quartel
não havia uma única sala onde se estivesse, e
as casernas, iluminadas por tímidas lâmpadas,
eram, depois do "recolher" e do "silêncio", anfiteatro
de competições desportivas quanto às capacidades
gasoso-intestinais, ou teatro de assaltos de pederastia
galhofeira às camas dos tidos por "maricas" -
assaltos que degeneravam em batalhas tremendas
a travesseiro e cinturão de couro -, quando não
eram apenas cenário de pacíficas exibições de
strip-tease que culminavam em inocentes
concursos de instrumental genésico, em que o vencedor
era necessariamente sempre o mesmo indivíduo,
que já viera para o quartel com a alcunha de "tripé",
tendo sido mesmo uma vez convidado a mostrar-se
na Sala dos Oficiais), eu requerera para dormir
fora. Isso me dava, além do sossego, mais tempo
e mais luz para escrever, mas colocava-me numa
posição duvidosa ante o capitão, que não sentia
por mim, como pelos outros em situação idêntica,
nenhum dos respeitos extremos do seu horizonte
social: nem o respeito, a contragosto, pelos que
não dependiam de modo algum de um soldo, nem a
fraternidade para com os que estavam vivendo como
ele começara.
   A minha odisseia teve início precisamente
quando, ao entregar ao capitão o meu pedido, ele
conversou comigo. Eu estava de pé à frente da
mesinha dele, no "quarto da companhia", onde não
havia mais que a cadeira de palhinha, em que ele
se sentava, outra mesa e outra cadeira iguais,
onde um sargento deduzia continuamente, num livro
enorme, a idade e a amortização das peças de roupa
e de equipamento distribuídas aos soldados, e
uma estante pequena, com cortinas que haviam sido
verdes, e onde se guardavam, além do Regulamento
encadernado e de ponderosos tomos semestrais da
Ordem do Exército, um binóculo velhíssimo, e uma
coruja empalhada, de olho arregalado e um pé alçado
do tronco em que pousava para a eternidade, e
que o capitão encontrara anos atrás, coberta de
pó, em cima da mesma estante, e mandara arquivar,
por ter conferido em listas antigas do património
que ela estava dada à "carga" da "companhia".
Espetando o queixo, e com o cigarrinho de enrolar
seguro entre dois dedos já negros dos antecessores,
o capitão interrogou-me, e havia tremor irónico
no bigode aparado: - Então que é que tu tens?
- (não prescindia, mesmo com soldados-cadetes
como nós, do tratamento de tu, já que o
Regulamento assim o determinava para praças sem
graduação, como fixava o vocemecê para
sargentos, a senhoria para oficiais subalternos,
e a excelência para oficiais superiores
e generais).
   Expliquei-lhe, o mais traduzido possível,
o rol das minhas desditas, que ele ouviu com atenção.
Quando me calei, comentou: - ites... ites...
Agora tudo são ites... Olha lá, tu lavas
os ouvidos?
   Ante a minha perplexidade estupefacta,
condescendeu em elucidar-me. Levantou-se, abriu
a estante (foi quando vi, pela primeira vez, a
arquivada coruja), e extraiu, para minha edificação,
o Regulamento Anotado. E, mesmo de pé, folheou-o
certeiramente e leu: - "Artigo 47.° da Parte Terceira:
As praças sem graduação devem ser levadas ao banho,
com traje próprio, uma vez por semana, cabendo-lhes
que todos os dias lavem os ouvidos e se barbeiem."
- Fitou-me com firmeza, e prosseguiu: - E a anotação
diz: "Estas medidas regulamentares destinam-se
não só a conservar o bom aspecto dos homens, como
a incutir- -lhes hábitos de limpeza e de higiene."
Higiene, estás a ouvir? "Com efeito, a limpeza
quotidiana dos ouvidos, além de contribuir para
uma boa audição das ordens dadas em parada, evita
a acumulação de cera, da qual resultam
diversas moléstias do aparelho auditivo." - e,
mecanicamente, explicou: - O aparelho auditivo
é o ouvido.
   Como eu não dizia nada, o capitão voltou
o livro aberto para mim, sem me desfitar; depois,
guardou-o novamente na estante, e veio sentar-se
na cadeira que rangeu. Pelo canto do olho, eu
via a cara do sargento que fingia fazer os seus
descontos. O capitão recostou-se e, ameaçando-me
com o cigarro apagado, avisou-me: - A dispensa
do recolher é concedida, porque és merecedor,
não tendo castigos. Será cassada ou suspensa,
em caso contrário. E, quanto ao mais, lava os
ouvidos, como o Regulamento manda. Tudo isso é
cera seca - e sublinhou a cera com energia,
pela segunda vez.
   A cera seca circulou veloz pelo
quartel inteiro, e toda a gente, risonhamente,
me perguntava por ela. Mas eu é que sabia quanto
ela me custava. Sempre que preparava ordens de
marcha, o capitão, do alto do cavalo em que seguia
à frente da coluna (num hipismo regulamentar de
capitão de infantaria, canhestro e apenas possível
pela docilidade da cavalgadura que já conhecia
de cor todas as estradas da região), lançava um
olhar perscrutador que me distinguia entre os
outros e verificava se eu carregava tudo o que
ele mandara pôr-me em cima, de onde ele deduzia
se eu desistira do pretensiosismo das ites
e me submetera definitivamente à salutar e prescrita
lavagam quotidiana dos ouvidos. Eu arrastava-me
como podia, era arrastado pelos outros, e o alferes,
piscando o olho e fazendo nas costas do capitão
um gesto feio, abrandava o passo até à minha fileira,
para animar-me, para ver se os outros me aliviavam
da metralhadora ou de qualquer mais descoberta
regulamentar do capitão, em matéria de peso.
   Um dia, quando, ao fim da tarde, a
formatura assistia na parada à leitura da "ordem",
senti uma dor mais aguda, vi tudo verde, e voltei
a mim na enfermaria. A enfermaria era uma pequena
sala tão nua como o "quarto da companhia", em
que dois catres e um armário com alguns frascos
e tesouras, pintados de branco como as mesas,
davam o necessário tom de utilidade sanitária.
O quartel não tinha médico; era um médico da cidade
quem, contratado, preenchia as teóricas funções
que, além do presidir às vacinações em série com
a mesma agulha e o mesmo algodão sujo, executadas
por dois cabos-enfermeiros, consistiam em receitar
para tudo uma igual purga, ou lavagem de seringa
com permanganato, conforme os casos. Chamado à
pressa, o médico apareceu. Era um fulano gordo,
baixote, com muita brilhantina mal cheirosa no
cabelo, e o ar rubicundo e saltitante de quem
havia de chegar, com artigos louvando o Salazar
e a Nossa Senhora de Fátima (a cujo mútuo entendimento
se devia, claramente, que Portugal fosse poupado
aos horrores da guerra), publicados no jornal
da terra, a Presidente da Câmara. Sabia perfeitamente
o que eu tinha, porque eu falara com ele uma vez,
lhe mostrara receitas, lhe entregara até as injecções
que, em caso de emergência, deveria dar-me. Deu,
e depois sentou-se à mesa para preencher a papeleta
que me remeteria ao hospital. Quando peguei na
papeleta, li que sofria de "infecção intestinal".
Indignei-me. E ele ponderou: - Julga o senhor
que eu estou disposto a ter uma briga com o seu
capitão, escrevendo aí uma doença em que ele não
acredita? Está bem livre! Eu não sou médico militar,
sou contratado, contratado, ouviu? Vai para o
hospital e tem muita sorte.
   Fui para o hospital e tive muita sorte.
Mas não quis, prudentemente e ao contrário de
outros, consumir em remanso total os três dias
possíveis. Para uma próxima emergência, poupei
um, e pedi ao director, que ao meio-dia percorria
as enfermarias numa visita-relâmpago que era a
única manifestação clínica num hospital que era
mais asilo de velhos e indigentes do que outra
coisa, para me dar alta. Saí à tarde do segundo
dia, e apresentei-me a tempo do toque da corneta,
a que formavam os doentes "curados" ou os presos
libertos, tal como pela manhã os doentes em perspectiva,
sob pena de não serem dispensados de coisa alguma,
deviam apresentar-se ao toque de "doentes", para
o médico os examinar na enfermaria e receitar-lhes
a purga ou o permanganato. O capitão Carvalho,
da porta do "quarto da companhia", que era no
andar térreo da construção fechada em quadrângulo
à volta da parada, para a qual davam também as
portas das casernas, observava a formatura, e
viu-me. Aproximou-se logo no seu passo cadenciado
por invisíveis e silenciosos tambores, e veio
vindo pela formatura adiante até onde eu estava.
Fiquei tremendo todo, de uma maneira estúpida,
na expectativa aterrada do que ele iria fazer.
O ódio que eu lhe tinha era imenso, as ganas de
o matar e de o estripar, ilimitadas. O próprio
cabo que atendia a formatura, um rapaz pequenino
e seco, quase preto de tão morena, franziu o sobrolho,
ao fazer-lhe uma continência impecável, depois
de ter-nos dado ordem de sentido. E a expectativa
transmitiu-se à fileira toda e mesmo a soldados
que estavam encostados à porta da caserna deles
(havia no quartel, para os serviços vários, um
pequeno número de soldados "prontos", apenas limpos
da boçalidade campestre pelo vício da ociosidade
citadina). O capitão passou por diante de mim
sem parar. Mas a fileira, com só mais dois ou
três depois de mim, não dava para muito mais.
Voltou-se abruptamente, mandou que o cabo nos
ordenasse a posição de "à vontade", ou seja, para
homens desarmados, as pernas afastadas e as mãos
cruzadas uma na outra, segundo a gravura publicada
pelo Estado-Maior (nem mais nem menos dedos à
vista), e ficou muito hirto, fitando-nos a todos,
e não a mim em especial. A demora pareceu tanta,
que, no vacilar das minhas pernas fracas, eu ouvi,
dentro de mim, a freira do hospital (eram freiras
quem fazia a enfermagem que consistia, sobretudo,
em servir a comida, vender Almanaques de Santo
António, e distribuir pagelas impressas com
a oração mais apropriada ao santo advogado de
cada caso particular: São Brás para a garganta,
Santa Luzia para os olhos, etc., etc. - o que
era uma maneira lógica de suprir a falta de especialistas
que na cidade havia) a dizer-me: - Reze a Santo
Expedito. Santo Expedito é agora o melhor, ninguém
que se apegue com ele deixa de ter o que procura,
não há santo que atenda mais depressa, Santo Expedito...
Santo Expedito... - e vi-me a ouvi-la, com um
sorriso atencioso nos lábios, enquanto pensava
que o santo era, nas suas atribuições, uma preciosa
mistura de Clínica Geral e Pronto Socorro. Era
uma freira gorda e baixa, mais gorda pela sobreposição
de saias que se arqueavam abaixo da cintura, e
com um rosto inadequadamente magro, de uma lividez
conventual, os olhos azuis engrandecidos pelos
óculos de aros de ferro, e um sinal de pêlo na
ponta do queixo. Mas respirava solicitude e boa
vontade, no preguear risonho da boca sob os malares
salientes e entretecidos de capilares rosados,
que o toucado engomado e branco cingia e destacava.
Contra o capitão Carvalho, como ela insinuara,
só mesmo Santo Expedito que, parece, havia sida
centurião romano, um colega santificado no "serviço"
de Deus. - Ouviu o que eu disse? - perguntou-me
o capitão, parado diante de mim. Eu vi-o, repentinamente,
de toucado branco e engomado: - Santo Expedito
é agora melhor -, e não respondi nada. - Então
ficas sabendo, de uma vez para sempre, que essa
de dar espectáculo na parada, de te atirares para
o chão, não torna a repetir-se! Quando fores para
cair no chão, cai para o outro lado! - e circunvagou
um olhar terrível que fez os soldados sumirem-se,
um a um, pela porta da caserna. Ele voltou-se
para o cabo: - Manda dispersar. E põe-me aqueles
homens da caserna para fora, que a esta hora quem
lá pode estar é o plantão.
   Tocava para o jantar, à porta do quartel.
Aqueles fins de tarde, mesmo quando enublados
parcialmente como aquele estava, eram um encantamento
para mim. Do terreiro em frente do quartel, que
tinha um extenso parapeito sobre um alto muro
sobranceiro a uma estrada para a qual o atarracado
prédio fazia, sobre a continuação do muro, figura
de fortaleza conspícua, com as suas janelas baixas
e compridas, e gradeadas grossamente, a vista
não era deslumbrante, nem variada, nem sequer
muito nítida, para lá dos arvoredos cerrados que
havia além da estrada, numa quinta de que mal
se via, sob a folhagem, o portão de pedra armoriada.
Mas era uma sucessão de planos verdejantes, verde-negro,
verde-púrpura, verde-claro, verde-azul, verde-cinzento,
que, a certas horas, névoas baixas repartiam nos
sucessivos vales sobre que pousavam, tendo ao
fim, na linha do horizonte, um afiado recorte
de montanhas longínquas, junto às quais o céu
se esbranquiçava, quando as não coroavam tumultuosos
congelamentos de sombrias nuvens. Só em poalha
dourada e adejante, o sol-poente vinha entrando
pelo túnel que, sob a fachada principal do edifício,
era a "porta de armas" do quartel. Aquele terreiro
à frente, onde os pelotões faziam círculos, sentados
no chão, à volta dos alferes e dos cabos que davam
instrução de qualquer coisa, e onde, pela manhã,
se fazia uma espectacular ginástica inane, pois
que o Centro de Instrução inteiro formava um xadrez
tiritante de frio, a que as ordens mal chegavam
claras, era, de certo modo, privativo. Para ele
dava uma rampa que descia do jardim intercalado
entre ele e a avenida, e que era o acesso; e,
a seguir ao jardim, um alto muro de suporte do
terreno de um palacete limitava o terreiro, ao
fundo do qual havia uma torre circular, profusamente
ameada (como os quartéis têm ameias, e as igrejas
são góticas!), que teoricamente desempenhava o
papel de paiol, de onde o haver sempre junto dela
uma sentinela firme que, à noite, era tentada
pelas prostitutas mais miseráveis da cidade (que
faziam do ermo e das sombras das árvores um quartel-general
de satisfações apressadas e incómodas, sem a legalidade
da casa reconhecida, do cartão profissional, do
imposto à Polícia, e, também, das inspecções periódicas
do Governo Civil) e devia contribuir para a ornamentação
excrementícia do sopé da torre (com que ela, sem
ser vetusta, se irmanava ao destino malcheiroso
dos monumentos nacionais). Esse perfume excrementício
do terreiro, que se prolongava ao longo do parapeito,
como um cilício humano da contemplação da paisagem,
poderia aliás ser como que uma continuação espiritual
do quartel, em que o cheiro de urina e etc. predominava
violentamente, graças ao estado das sentinas,
tradicionalmente sujas, como signo da "indiferença"
coprofílica que, nas mentalidades brutais e grosseiras,
é ostensivo sinal externo de virilidade. A ideia
de comida, de refeição, era, no quartel, inseparável
deste cheiro resultante dela. Porque a comida
era ignóbil, umas invenções mesquinhas, meio sopa,
meio feijão guisado, com ossos disputados de prato
em prato, às vezes massa misturada com espinhas
de peixe. No intervalo de folga entre o jantar
e o recolher, os não-desarranchados corriam, quando
tinham dinheiro (e o dinheiro que acaso cada qual
tinha não era a miséria que nos pagavam, de que
se descontava ainda o que nós nem comíamos), aos
botequins mais próximos, atropelando-se e acotovelando-se
para conquistarem algumas sanduíches, que acabavam
logo, feitas com os bifes sobrados das mesas dos
ricos.
   Exausto, humilhado, triste, solitário,
abatido, sem dinheiro, com as ites proibidas
pelo Regulamento a morderem-me a cabeça, saí lentamente
do quartel e fui para casa. Eu morava numa casa
de pensão, que havia na avenida, e em que, para
a emergência de se alugarem numerosamente aos
dispensados de pernoitar, as salas tinham sido
divididas por tabiques de madeira apressadamente
caiados. O meu quarto dava para a avenida, com
uma pequena varanda de ferro, por onde, de baixa
que era, entravam colegas meus moradores da casa,
depois que a patroa fechava a porta da rua, ou
saltavam a refugiar-se outros que, surpreendidos
na rua, depois do toque de recolher, pela "ronda"
que se ouvia vir pela avenida adiante, seriam
presos e levados para o quartel. Demorei-me, sentado
ao pé da janela (além da cama, com uma colcha
de croché e um travesseiro duro, o quarto tinha
apenas uma mesinha e um lavatório de ferro, de
tripé vacilante, com um braço erguido para sustentar
um gancho para a toalha e repartindo-se em lira
para encaixe de um espelho partido), vendo anoitecer.
   As donzelas da cidade, em grupos, refluíam
para o jardim ao pé do quartel, na mesma mira
insana e melancólica de namorarem um soldado-cadete
que, formado, as arrancasse de Penafiel. O que,
em geral, sucedia era algumas delas tornarem-se
proverbiais, serem endossadas de curso para curso,
cada vez mais fáceis, mais desesperadamente apalpáveis,
mais conhecidas, mais distantes de alguma coisa
que não fosse o que teriam num recanto escuro
do jardim. As famílias distintas reuniam-se na
"Assembleia", cuja frequência nos era vedada,
desde que uma vez, no primeiro ano em que houvera
um curso de cadetes na cidade, o baile terminara
em desordem. Os oficiais e as suas famílias faziam
parte da distinção da cidade; mas algumas senhoras
preferiam manifestamente passear no jardim, no
meio daquele cheiro de virgindades duvidosas e
de homens em cio profissional, que fora, ao caçarem
os maridos, a atmosfera da sua casta militar.
Vi passar, pouco a pouco, para trás ou para diante,
a cidade inteira que não estava, como eu, sentada
à janela. Os lampiões da avenida acenderam-se.
Os passos das botas pesadas, o vozear dos grupos,
a campainha do cinema, foram-se diluindo num silêncio
tépido, abafado, que parecia concentrar-se na
luzinha vermelha que, ao fundo da avenida, ficava
acesa no quartel dos Bombeiros Voluntários. Um
ou outro automóvel - raro e a gasogénio, naqueles
tempos de guerra mundial - passava na poeira da
avenida que tinha duas pistas separadas por um
renque de árvores raquíticas, municipalmente aprisionadas
em cercados mais altos que elas; a pista oposta
a mim é que era propriamente a estrada. Nesta,
um cão hesitava, farejando, entre deitar-se na
berma ou no meio.
   E, nisto, a um relâmpago lívído, sucedeu
um trovão que estalou, reboou, logo correspondido
por outros mais distantes e por ecos dele e dos
outros nos vales e nas montanhas. E grossas pingas
de água começaram a cair. Não tardou que a chuva
tombasse contínua, espessa, furiosamente varrendo
em nuvens de água a avenida, rentes aos prédios
da qual pessoas se esgueiravam, abrigando-se.
Distraindo-me das dores que sentia aumentarem
num latejar agudo que se fixava no cimo da cabeça
numa dor contínua, fiquei com as vidraças abertas
a olhar os vultos que vinham fugindo, em pulos
e corridas cegas, e sorri de algumas elegâncias
que regressavam dissolvidas, com o cabelo escorrendo,
e os refegos das vestidos reduzidos às formas
que eles transformavam. A pouco e pouco, todo
o movimento cessou. Intermitente, a trovoada continuava
em bátegas desvairadas, que os estrondos dos trovões
pareciam ampliar, depois de os relâmpagos as fazerem
lívidas. Na minha cabeça, a dor veio latejar mais,
e era como que uma luz intensa, um zumbido, por
detrás dos olhos, dentro dos ouvidos. Notei, nas
mãos, que suava frio. Encostei as vidraças, despi-me,
estendi-me em cima da cama. Os trovões formavam
um ruído constante, ou era só a dor o que eu ouvia?
Os relâmpagos iluminavam o quarto, ou era a luz
ardente que eu tinha atrás dos olhos? Um rangido
violento acordou-me em sobressalto, e abri os
olhos para ver um vulto recortado na varanda,
e que empurrara as portadas. Não sei momentaneamente
o que julguei que fosse, talvez um espectro da
altura de uma janela alta, como o do Mistério,
de Andreief (então uma das presenças sempre na
minha imaginação), que me visitava, embora, ainda
antes, o houvesse reconhecido - mas reconhecido?
- como um dos meus camaradas, hóspede da casa.
O espectro entrou, parecia fosforescente, deu-me
as boas-noites, e, sem ter fechado a janela, abriu
a porta do quarto, saiu e fechou-a sem ruído atrás
de si. Levantei-me, aproximei-me da varanda. A
chuva parara, ouviam-se trovões, o céu estava
amarelo de uma humidade baixa que punha halos
nos lampiões acesos, vacilantes. Debrucei-me,
sem reparar que estava nu. Encostado à porta da
casa, o cão que hesitara entre a berma e a estrada
levantou para mim a cabeça. Falei-lhe mansamente,
e tive a sensação de não ter proferido uma palavra,
de ter emudecido como em pesadelos, ao mesmo tempo
que as palavras soavam (e doíam) como chicotadas
lá onde a dor agora me tomava todo. Um arrepio
me percorreu da cabeça aos pés, e comecei a tremer,
batendo o queixo com uma intensidade que parecia
desviar um pouco para os dentes a dor que me tomava.
O cão pousou a cabeça nas patas, acomodou-se melhor.
Vim para dentro, encostei as vidraças, e deitei-me
outra vez. Descobri, então, que não podia estar
deitado. A dor torcia-me para trás, como se eu
estivesse sendo amarrado a uma roda de tortura,
em que torniquetes me fossem arqueando o corpo
cada vez mais repuxado pelos cabelos e pelos calcanhares.
E, quanto mais, deitado de lado, eu me arqueava,
tanto mais a dor aumentava, me abrasava, me gelava,
me iluminava de uma luz cegante que era, no quarto,
uma treva pastosa. Sentei-me na cama, acocorado,
com a cabeça entre os joelhos, e com os braços
enlaçados nas pernas. Mas a treva, que se colava
a mim, era intolerável. Fiz um movimento para
levantar-me e acender a luz. A porta do quarto
abriu-se. Numa claridade difusa que o desenhava
mais linear e plano do que antes me aparecera,
o espectro deu uns passos para dentro. Desta vez,
não o reconheci. E, numa suspensão súbita da dor,
pude desenlaçar os braços, levantar-me... e o
espectro acendeu-me a luz. No mesmo instante,
eu estava só no quarto, em pé, e a chuva desabava
1á fora com uma violência imensa, parecendo que
levaria tudo, varreria tudo, esmagaria tudo, era
o dilúvio. A porta do quarto estava fechada, e
as tábuas dela, toscas e caiadas, pareciam arfar,
na trepidação que tudo sacudia. Com uma pancada
súbita na cabeça, a dor deitou-me ao chão. Espumando,
uivando ciciadamente, torci-me no soalho, enquanto
relâmpagos e trovões se sucediam. Agarrei-me com
fúria aos pés da cama que arrastei, e consegui,
num esforço interminável, levantar-me. Sentado
na borda da cama, enfiei as botas; depois, escorregando
nela, vesti as calças; não sei como vesti a camisa,
e pus-me de pé, sentindo que só então as botas
se me calçavam. Fui à varanda, alcei uma perna,
passei para fora, e deixei-me pender para a rua,
com a chuva parecendo vir sobre mim como escorrida
dos dedos. Ao tocar no chão, senti as pedras molhadas
num dos pés. Uma das botas caíra-me, e o cão,
luzidio, cheirava-a e virava-a com o focinho.
Abaixei-me para lha tirar, rosnou-me. Desesperado,
afastei-me uns passos; trouxe-ma na boca até junto
de mim. Encostado à parede, pude enfim calçá-la.
Depois, a única coisa que eu via era a luz vermelha
na porta dos Bombeiros. Para lá fui andando, com
o cão atrás. A chuva corria-me pela cara e, no
empapado da camisa e das calças, sobre o próprio
corpo até às botas. A única coisa que eu sentia
era o chocalhar dos calcanhares nas botas cheias
de água. Na porta dos Bombeiros, onde a chuva
era vermelha, havia uma campainha enorme, que
puxei. Um badalo tilintou lá dentro. Escorregando
contra a parede, esperei. Não apareceu ninguém.
O cão sentara-se na borda do passeio, olhando-me.
Era um rafeiro velho, de pelencas pendendo dos
beiços, com as orelhas roídas de chagas que a
luz vermelha fazia mais sangrentas. Tornei a tocar.
Uma vez. Duas vezes. Nos intervalos, encostava-me
à parede, escorregando verticalmente ao longo
dela, e com a visão cheia da chuva que me corria
pela cara abaixo. A porta envidraçada em caixilhos
de ferro entreabriu--se com um rangido que só
ouvi depois de vê-la abrir-se. - Quem está aí?
- Para a sombra em que havia apenas um nariz vermelho
a sair de uma sombra de capote, eu disse: - Tenho
uma dor de ouvidos, dê-me qualquer coisa... -
Dor de ouvidos? - Cera seca é o que era, ele ia
contestar. Sorri. - Qualquer coisa para deitar
nos ouvidos… - E a voz respondeu-me sonolenta:
- Assim, para pôr só tenho tintura de iodo -.
Apoiado à ombreira, ri-me. Tintura! E ouvi que
a porta se fechava. Ainda fiz um gesto para a
campainha, mas, só esboçado, logo se me diluiu
com a queda do braço a que, senti, a manga se
colava. Diante de mim, a avenida era um mar de
água chiante e salpicante sob o choque de sempre
mais chuva. O cão olhava-me. Aqueles olhos que
eu não via, e contudo vermelhamente brilhavam;
aquelas orelhas ratadas que pingavam avermelhadamente;
aquele lombo luzidiamente vermelhusco - tudo isso
causava horror. Desencostei-me da parede, e avancei
para ele. Recuou, tombou de quartos traseiros
na vasta levada que a avenida era, e pulou, nas
pontas das patas, como se só então alguma água
lhe houvesse tocado. Continuei a avançar para
ele, com os pés perdidos na água que eu sentia
correr contra as canelas, enquanto outra me descia
dos cabelos pelo corpo abaixo. O cão, firmando-se
nas patas, rosnou, e eu, olhando tontamente em
volta, abaixei-me para pegar num pequeno pau que
vinha navegando rápido entre mim e ele. Mas, abaixado,
a cabeça caiu-me, e fiquei de gatas, com as mãos
e os joelhos no chão, sentindo a chuva embater-me
nas costas, e, com a cabeça pendida, adivinhando
(mais que vendo) pelas ondículas tumultuadas a
água em que estava metido. Num esforço em que
tomei consciência da dor que me enchia só até
à pele que a chuva, encharcando-me, refrescava,
pus-me de pé. E fiz ao cão um gesto circular,
um gesto de arremesso de um graveto imaginário.
Interdito, voltou a cabeça, e depois deu saltos
dentro de água, para longe, que eu não entendi,
e regressou devagar, com um graveto na boca, que
me apresentou. Estendi a mão. Aproximou-se mais,
sem largar o graveto que na água iria, e deixou
que eu lhe tirasse o pauzito. Novamente lhe estendi
a mão, agora em jeito de afagá-lo. Rosnou e afastou-se.
A chuva, numa rajada abrupta, fustigou-me o rosto:
fechei os olhos. Luzes dançavam coloridas nas
minhas pálpebras; e uma luz maior, como um farol
veloz e esverdinhado, corria para mim zumbindo.
Eu oscilava em movimento pendular, suspenso pelos
pés, com a cabeça descrevendo um lento arco. Abri
os olhos. O cão desaparecera. Sem sair da água,
fui avançando pela avenida adiante até uma igreja
aonde ela se bifurcava, à direita para umas ruelas,
à esquerda prosseguindo a estrada. Foi para aqui
que eu segui, agora rente às casas, apoiando-me
com uma das mãos, a esquerda, nas paredes delas;
e atingi uma esquina em que, mais profundamente
que ao passar nas portas, a mão me fugiu. A água,
aí, descia pela calçada íngreme, num amarelamento
sombrio a que mal chegava a claridade dos lampiões
da avenida. Sempre com a mão nas paredes, com
os pés escorregando nas pedras da calçada e não
acertando nunca com o fundo da valeta em que pisavam,
fui descendo. Lá em baixo, um gradeamento de ferros
de lança, com um portão a meio, era o hospital,
cujo vulto caiado e difuso eu distinguia. Cheguei
ao fim das casas, onde a água turbilhonava com
outras que desciam para se engolfarem todas por
uma viela, um barranco, ao lado do cunhal do muro
do hospital. Entre a esquina e o portão, eu não
tinha casas, e havia aquelas águas cujo estrondear
eu não ouvia senão como um ronco no olhar. O portão
cedeu diante do meu corpo, e entrei no jardim,
onde não dei senão com pequenas poças, no saibro
lamacento que rangia, e com as curvas caprichosas
dos canteiros debruados a cacos de telha, num
dos quais tropecei descalço. Descalço só de um
pé. E, em verdade, foi quando eu soube que atravessara
até ao hospital, deixando uma das botas no caminho.
A porta do haspital estava fechada, não se via
nele qualquer luz. Subi os três degraus de pedra,
e fiquei junto da porta. Enovelada, pairava uma
claridade alvacenta nos arbustos cabisbaixos.
E os arbustos, mal ae erguendo acima de flores
desfeitas e abatidas, brilhavam gotejando. Não
chovia já. Encostado à porta, sentindo que não
tinha forças para erguer a cabeça, deslizei um
pouco para o lado, e olhei o céu. Negros rasgões
corriam numa lividez imóvel, e entrevi neles algumas
estrelas. A claridade que ondulava rente a mim
provocou-me um arrepio viscoso, demorado, uma
solidão de esqueleto ressequido, em que um hálito
frio voltasse às cegas. Tentei falar. Não tinha
língua, embora a movesse na boca. - É cera seca...
- ouvi, contudo. E comecei a tremer, a tremer,
com a claridade ondulante e alvacenta a rodear-me,
a deslizar-me dos ombros, da nuca, e uma luz imensa
a avançar do íntimo de mim direita a ela. Alguma
coisa me roçou pela testa, uma coisa fria que
tornou a roçar. Era uma argola que não pude agarrar
com a mão, porque me fugia, quando a mão se lhe
encostava. Tentei vezes seguidas, numa ânsia frenética,
até que a argola se enfiou, ao pé da mão, no que,
prolongando a mão, a não era. Firmei a vista:
era o graveto que me fora dado pelo animal, ainda
seguro nos dedos apertados de que as unhas senti
na palma. Quis largá-lo, com a luz afogando-me,
e não pude. A outra mão veio ajudar-me a abrir
os dedos daquela. O pau caiu. A argola bateu-me
com força na cara. Vacilei. E as duas mãos - vi-lhes
os dorsos contraídos na acumulação de dedos sobrepostos
- puxaram, e tornaram a puxar, e fiquei, subindo
e descendo, rodeado de uma névoa cintilante de
agulhas que me picavam a nuca, agarrado à argola.
Não sei onde, lá dentro do edifício, ou na minha
cabeça, ou longe, num outro ponto da cidade e
por coincidência, uma sineta tocava. Eu suava,
o meu suor corria-me para os olhos, e um frio
límpido se interpunha agora entre mim e o pegajoso
da claridade. Subindo e descendo. Subindo e descendo.
Subindo... e, no extremo do horizonte subitamente
iluminado e que vi que havia para além do prédio,
um relâmpago explodiu dentro das nuvens. Quando
eu descia, parei suspenso, porque das nuvens tombavam,
numa dispersão lenta, fogachos prateados. Outro
clarão nas nuvens, e os fogachos eram verdes,
chovendo. E, depois, azuis, vermelhos, e um vago
reboar vinha até mim. Quase sem consciência, entendi.
Para lá de onde as nuvens estavam, gente lançava
fogo-de-artifício para o céu estrelado. Uma girândola
encheu de "lágrimas" a nesga de horizonte. Gente!
As mãos soltaram a argola, e pousaram-se nos joelhos
meio curvados. Senti um ardor nos olhos, que era
suor e lágrimas. Fiquei assim, fitando a treva
que já não era distante, que avançava, e num relance
não enxerguei já os arbustos nem a parede do hospital.
Descaí sentado na soleira da porta. O Regulamento
aberto diante de mim, Santo Expedito de palma
em punho, a freira dormindo de óculos na cara,
e uma serenidade palpitante que parecia levar-me,
perpassaram. As lágrimas corriam, e limpei-as
com as costas da mão. Nada tinha importância,
nada me doía, o negrume ciciava murmuradamente
coisas que eu não entendia, nem via, nem ouvia,
mas eram cenas vividas ou imaginadas, que eu não
vivera, da minha vida. Depois, muito nítidos,
havia rostos, uns meus como de retratos antigos,
outros, não. E então, numa expectativa de corda
que rebenta, fiquei à espera, e não vinha mais
nada.
   No frio, um frio agudo e seco, em que
perpassavam névoas ténues de humidade e um cheiro
a terra, mais que embebida, varrida pelo ímpeto
das águas, abri os olhos. A escuridão da noite
começava a receber dentro de si uma claridade
difusa que não se definia ainda no horizonte para
que, depois de entrever, com a sensação da testa
pousada nos braços, os calcanhares enlameados
da bota e do pé descalço, levantei lentamente
a cabeça que, por sua vez, arrastou o olhar. Ao
longe, na distância, acumulavam-se nuvens que
fitei com olhos desfocados a esforçarem-se por
distingui-las. Um tremor muito rápido me percorreu.
Não tinha morrido. Ou ressuscitara. Encostei-me
à porta, sentindo-a nas costas e na cabeça que,
com o pescoço esticado, nela encostei também.
O dia, enevoado, vinha chegando de todos os lados.
Levantei-me, atravessei o jardim. A minha bota
estava entalada nas grades do portão. Abaixei-me
e calcei-a. Comecei a subir a ladeira, cujas pedras
arredondadas brilhavam, umas negras, outras brancas,
outras rosadas ou castanhas. Curvado para a frente,
ia a meio da rampa, quando um estalido de porta
que se abre soou atrás de mim. Voltei-me, e uma
porta que se entreabria tornou a fechar-se. Continuava
a subir, rangeu a porta. Voltei-me novamente para
ver cosido com a ombreira um vulto alto que era
o alferes do meu pelotão. Ao mesmo tempo que ouvia
"pst", vi, na memória, uma braçadeira de oficial
de dia no braço do capitão Carvalho, e os seios
da mulher dele sempre lamentados de pertencerem
a ele e à cara dela, chupada, macilenta, de olheiras
negras e sebosas. O alferes, à paisana, parou
ao pé de mim, e não manifestou estranheza alguma
de me ver ali. Chegando à minha cara uns olhos
estremunhados, pisados e brilhantes, levou um
dedo aos lábios que se contraíram num sorriso
de conivência, e disse com voz rouca: - Cera seca...
-, estugou o passo, e sumiu-se na esquina, ao
cimo da calçada. Eu nem me ri, ao ouvir mentalmente
a voz do capitão Carvalho: - Nenhum problema foi
jamais descurado. Tudo está previsto. Ouçam! "Aos
homens em campanha, deverá ser providenciado que
tenham ao seu dispor, pelo menos uma vez por semana
e mediante justa remuneração, mulheres apropriadas
à satisfação das naturais impulsos, pela instalação
e pelo bom estado sanitário das quais o Estado-Maior
velará, através dos seus órgãas competentes. Deste
modo, ao mesmo tempo que se garante, sob todos
os aspectos, a saúde dos homens, poderá manter-se
sempre elevado o moral das tropas."
  Assis, 17 de Março de 1961.