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Fernando Cabral Martins

 
AILERON
 
 
 
 

 

Descrente, há muito, de qualquer modificação na sua vida que não fosse a lenta degenerescência que murcha os tecidos e as antenas, percebeu certa tarde, não interessa agora qual foi, que precisava de falar alto para tentar perceber melhor o que pensava. Falar tornava mais lento o pensar, assim talvez pudesse acompanhar com a devida atribuição de sentido. Falar tornava as frases coisas que o ar recebia e a que dava uma realidade maior. Pensou ir para um sítio alto, um terraço de centro comercial por exemplo, e pôr-se a gritar certas dúvidas que tinha, a ver se percebia melhor o que devia fazer. Se gritasse muitas vezes, e inflectisse a voz nos lugares certos do ar, talvez recebesse em eco o sentido do que perguntava e até do que não sabia que perguntava. Mas saiu de casa nessa manhã, já com uma má notícia do escritório, um problema de polícia que nem tinha ouvido bem qual era, encontrou o carro bloqueado por uma carrinha, apitou, apitou, pensou que a coisa começava bem, depois arrepiou-se por ter pensado um estereotipo, não devia pensar pela cabeça dos outros, afinal não tinha cabeça própria, tinha só morte própria, queda lenta própria, interrompeu a lamúria em que resvalava como num aquaparque quando viu bem, ao ter que ligar o limpa-parabrisas, a extensão da sua desgraça. Era Verão e estava frio, era Verão e chovia. A chuva era uma garoa que suava em cima das coisas, plástico ou planta, vidro ou cabelo, e era de facto o suor da terra à desfilada no espaço. Quanto mais a terra corria tão perto do sol, a ele atada por atavismo sem rédea, mais suava, e gania os seus furacões, e tossia atofegada os seus relâmpagos e vulcões. A rádio dava anúncios e notícias, às vezes ele não sabia distinguir a que tipo cada um deles pertencia. Não havia ninguém na estrada, ainda não tinha chegado à estrada principal, nem à auto-estrada. Não, ia ali uma patusca figura. Era uma mulher, e andava de forma cómica, bamboleando-se. Reparou que trazia sandálias, e uma gabardina que a tapava até sair o cano largo das calças. Ao passar reparou que estava grávida. Assim a andar como quem não vê os pés e tem que mudar o peso todo do corpo de um pé para o outro. Uma barriga enorme, desmedida. E era negra. Parou. Esperou que ela se aproximasse, e pelo retrovisor viu que ela o soslaiava como quem vagamente o receia ou o lamenta. Com o interruptor eléctrico abriu a janela de vidro e disse quando a viu passar: Se quiser levo-a, vou para Lisboa. Ela parou, olhou para ele e sorriu. Ele abriu-lhe a porta e ela entrou. O que andaria ali a fazer? Alguns minutos mais tarde, entretanto fechara a rádio, preparava-se para lhe fazer alguma pergunta, mimoseá-la com qualquer comentário, olhou para ela e viu que ela tinha na mão um revólver pequeno, enquanto dizia com uma voz calma, lenta: Pára na berma, faz favor. O revólver não mexia. Com a outra mão, enquanto ele fazia a fácil manobra, desabotoou a gabardina e tirou de lá de dentro a almofada e o saco com que fizera volume. E disse: Dá-me o cartão de crédito, os documentos, o cartão do multibanco e o código. Passa-me o dinheiro que tiveres no bolso. Se não deres o número de código certo não recebes de volta os documentos. Deixo-tos numa esquadra, digo que os encontrei, ou outra coisa qualquer. Não tenhas medo. É preciso ainda que me dês o teu carro com a chave. Sai e atravessa a estrada para o outro lado. Ele fez aquilo tudo que ela lhe mandava, só admirado com o sotaque que ela tinha, abrindo muito as vogais e sem se enganar nem hesitar, e quando saiu do carro levava nos olhos as unhas dos pés dela que saíam das sandálias de estreitas fitas de couro e estavam pintadas de vermelho escuro, e o peito dela, redondo sob a camiseta, e as pernas fortes, que retesavam as calças apesar do corte largo. E se eu a agarrasse, se lhe roubasse um beijo? Talvez me desse um tiro, e então tudo bem, acabava esta permanente consulta dos astros e a espera inútil de boas notícias, a lenta queda no buraco interrompia-se como por milagre, e a última imagem seriam as unhas pintadas de vermelho escuro de pés de dedos de desenho delicado e uma face lisa, brilhante, negra, de mãe antiga e futura, assassina e doce, falando com sotaque desconhecido, como se tudo não passasse de realidade, realidade absoluta, sem distância, sem saída, sem remorso. Ouviu-a bater com a porta assim que ele acabou de sair e visá-lo ainda com o cano do revólver através da janela aberta com o interruptor eléctrico enquanto accionava o motor com a chave que ele tinha lá obedientemente deixado. Teve um repente quando o carro pegou e ia a arrancar em grande chiadeira, pois ia ficar pior que um cão, inexistente sem os seus cartões bancários e os seus outros cartões, sem o carro com as notícias e os anúncios, no meio de árvores (porque não parava nenhum dos carros que ia passando?). E agarrou-se ao aileron traseiro com as duas mãos. Desse por onde desse, havia de a seguir, de a não deixar fugir, de ir adiante, lutar, resistir, os pés raspavam no asfalto, breve iam chegar à auto-estrada, tinha que inventar uma solução, ouviu sibilar qualquer coisa e a seguir ouviu um estoiro mas não sentiu nada, o aileron soltou-se e as mãos dele enclavinhadas na lata arrastaram-na para a valeta, ao longe ouviu passar uma ambulância, e a pouco e pouco o carro com ela afastou-se no bulício abafado pela garoa.

 
     
  In O Deceptista, Lisboa, &Etc., 2003  
     
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