Havia um ano
que eu estava casado. Essas doze luas de mel tínhamo-las
passado no campo em uma casa encantadora, propriedade
de minha mulher, situada ao pé de um lago, rodeada
de uma daquelas florestas de abetos, que são a
mais bela árvore das montanhas. O andar térreo
abria em vidraças sobre os jardins cercados de
uma granja. Proporcionavam-se-nos excelentes caçadas
ao cabrito e partidas de pesca no lago. A nossa
carruagem era puxada pelos mais sólidos trotadores
de Meclemburgo. Minha mulher tinha um burrinho
lazão com alforges de lã encarnada aos listões
pretos, no qual ela percorria a aldeia levando
pequenos enxovais às crianças pobres. A nossa
paisagem era cheia dos doces murmúrios da água,
do canto das aves nas sombras e do mugir dos bois,
ao fim da tarde, à porta dos currais de esguios
tetos de colmo cobertos de pombos. Nos apartamentos
da casa ondulavam em grossas pregas moles os estofos
confortáveis. Tínhamos quadros originais de Wilmens,
de Meissonier e de Knauss, e óptimos livros na
nossa biblioteca de antigo carvalho esculpido.
Não obstante ao fim do ano eu sentia-me ligeiramente
aborrecido. Achava-me no período pletórico da
felicidade. Experimentava como a vaga urgência
de sangrar a minha pacificação doméstica. A permanência
e a imobilidade do bem-estar engrossavam-me o
paladar e davam-me tonturas.
Os meus amigos, que eu recebera como amáveis impertinências
nos primeiros tempos do meu noivado, tinham deixado
inteiramente de me visitar e até de me escrever.
Na minha isolação, frente a frente com os encantos
de minha mulher, os interesses do amor, que ninguém
me contestava e que ninguém me desdizia, principiavam-me
a parecer-se com as partidas de bilhar, que eu
de quando em quando jogava comigo mesmo. Entravam
a comer-me curiosidades burguesas de lojista retirado.
Tinha enchido a casa de barómetros, de termómetros
e de pluviómetros; sabia sempre de que lado estava
o vento; mandara pôr no jardim uma meridiana com
um pequeno obus, e todos os dias depois de almoço,
entre o meu segundo e o meu terceiro charuto,
ia acertar pelo sol o meu relógio e todas as pêndulas
da casa; conseguira levar até mais de meio a leitura
seguida da História Universal de Cantu,
e - sintoma pavoroso - assinava os jornais - e
lia-os!
Num dia em que o meu envilecimento, exacerbado
pelas leituras que fazia de todos os anúncios,
tinha chegado ao ponto de ter mandado comprar
a revalescière Du Barry, minha mulher pôs-se
a chorar à mesa do almoço. Ao rebentar-lhe o pranto,
com os olhos em mim, tinha uma visagem tão linda
e tão menineira, a sua pequena boca tinha feito
um bico tão encantadoramente contristado, que
eu ajoelhei-me aos seus pés, como quem tacitamente
aceitava a culpabilidade daquelas lágrimas, e
perguntei-lhe o que sofria, beijando-lhe as pontas
molhadas dos dedos.
Ela disse-me então que eu deixara de amá-la; que
ela o certificava com a lógica terrível dos meus
actos; que o amor verdadeiro, como o primeiro
que lhe votara, tinha preocupações próprias, absolutas
e indivisíveis; que eu começara por atraiçoá-la
com os barómetros e os pluviómetros, em seguida
com os cataventos e os para-raios, depois com
umas cabras do Tibet, que tinham feito por alguns
dias o encanto da minha existência; por fim -
ó supremo vilipêndio! - com a revalescière
Da Barry...
Parece que eu, em sonhos, ousara proferir com
êxtase o nome impudico da infame revalescière!
E já não acendia o meu segundo charuto para ir
acertar o relógio à meridiana, sem ter comido
meio prato daquela astuta farinha!
Desculpei-me, pus a mão no coração, fiz juras!
Mandei encravar o obus da meridiana, cujo tiro
obrigava brutalmente minha mulher a anunciar todos
os meios-dias com um grito de susto, e distribuí
a revalescière aos perus - com o que, posso
atestar, nada aproveitaram aquelas aves, pois
que tive o cuidado de as mandar pesar todos os
dias enquanto as sujeitei a esse regime nutriente!
No fim de contas a verdade é que minha mulher
tinha fundamentalmente razão. O delicado instinto
do seu sexo tinha-lhe feito perceber na crítica
do meu sentimento finuras de gradação, de cuja
frivolidade os homens farão mal em rir.
Eu começava efectivamente a sentir, de tempos
em tempos, às vezes de um modo confuso, especializadamente
de outras vezes, a nostalgia do celibato. Comprazia-me
na recordação das minhas aventuras, e sentia quási
o desejo de as fazer entrar como outro qualquer
assunto nas minhas conversações conjugais. Lembrava-me
- não ouso dizer com saudade - mas sem repulsão,
o interior litográfico dos meus pequenos quartos
de hotel, a alegria de antigas ceias, os ruídos
grosseiros da multidão, a saída dos teatros, o
baile, a valsa, a intriga de amor, o jogo, o duelo,
todo o cortejo da vida livre. E era em verdade
pensando vagamente nestas coisas que eu principiava
às vezes a dormir as pesadas horas que consagrava
ao sono em cada noite.
Entretanto minha mulher entristecia. Eu engordava,
o que me não impedia de começar a padecer do estômago.
O meu médico aconselhou-me as águas de Homburgo,
a mim, e a mudança de ar para qualquer parte a
minha mulher.
A viagem agradava-nos. Tínhamos um pretexto para
abandonar o lar doméstico, sem necessidade de
confessarmos a nós mesmos que ele principiava
levemente a enfadar-nos.
Homburgo sorria-me. No mês de Agosto, em que estávamos,
Homburgo era um dos prazos dados à multidão elegante
e alegre que eu sentia desejos de tornar a ver.
Decidimo-nos por Homburgo e, em dois dias, partimos.
Passámos por Paris, onde os teatros estavam desertos
e os salões fechados, e onde no Bois, em volta
do lago, alguns estrangeiros, em carruagens particulares
alugadas defronte do café Riche, se davam uns
aos outros em espectáculo de um Paris excessivamente
convencional.
No contacto porém da gente com quem me ia achando
em passagem fiz, a meu pesar, esta ridícula observação:
que as mulheres principiavam a não dar por mim.
Ora eu não estava certamente na triste alucinação
de querer fazer a corte a ninguém, e muito menos,
à maneira de um commis en nouveautés, às
senhoras com quem me encontrasse nas carruagens
do caminho de ferro, nos passeios das ruas ou
às janelas das casas! Estava também assaz longe
de exigir que as meninas desmaiassem sob a fatalidade
súbita da paixão, à medida da minha gravitação
pelo orbe. Mas pelo menos - diabo! - que me vissem!
- Porque, enfim, - seja-me lícito dizê-lo sob
a modéstia do anónimo - em solteiro as mulheres
viam-me, quando eu passava.
E queria-me parecer que depois de casado eu me
não estava fazendo transportar pelo mundo tendo
na testa o dístico de uma mercadoria tão frágil
que nem se lhe pudesse embarrar - com os olhos!
Supunha que nem eu nem minha mulher levávamos
adiante de nós um cartaz em que se lesse em grandes
letras com uma lanterna do outro lado: "Aqui vai
neste par, segregada de toda a comunicação das
gentes, a conjugação mística do verbo amar, pela
activa e pela passiva, pronominal e recíproco!"
Não obstante não suceder literalmente isto, nem
em Paris, nem em viagem até Homburgo, mulher alguma
encontrou os seus olhos com os meus. E afirmo
isto com tanta mais segurança quanto é certo que
para me não escapar alguma excepção, reparei com
grande cuidado em todas as criaturas!
Demónio! - pensava eu - como o casamento, e um
ano de reclusão no fundo de uma quinta, nos transfiguram
tão radicalmente! Quem sabe se eu não terei o
ar apocalíptico de quem traz as tábuas da lei
conjugal debaixo do braço? Quem sabe se, ao contrário
daquele sábio que supunha ter encavalado no nariz
um jesuíta que a outra gente não via, não terei
eu no meu nariz uma verruga que só eu não vejo?
E achava-me do mau humor mais abjecto e mais difícil
de explicar.
Minha mulher, pelo contrário, ia expansiva e contente.
Tinha-se esquecido do meu afecto clandestino à
revalescière, e deixara mesmo de falar
na salsa parrilha de Bristol, - último objecto
dos desvarios do meu ócio no tabernáculo conjugal.
Chegámos finalmente a Homburgo e alojámo-nos num
elegante hotel, em cujo terraço se via muitas
vezes o rei da Baviera, tomando a sua chope
entre a mais pitoresca e turbulenta concorrência
de toda a espécie de estrangeiros.
Entre as pessoas do meu antigo conhecimento achava-se
ali, hospedado como nós, Eduardo de B..., meu
companheiro de colégio e antigo amigo dedicado,
poeta, pintor, um grande artista e um excelente
rapaz. Entre as mulheres encontrávamo-nos todos
os dias com a célebre marquesinha C..., frequentadora
encartada de todas as terras de águas, que ela
percorria sozinha pelos verões, deixando admirar,
à beira da água ou junto das fontes termais, onde
se não esquecia nunca de fazer petrificar um ramo
de camélias, as suas graciosas toilettes
dos mais belos e frescos linhos da Irlanda, os
seus fantásticos penteados, os seus chapelinhos
tão invejados e a famosa colecção dos seus sticks.
Ora direi: a marquesa foi a primeira mulher do
mundo que, depois da clausura do meu noivado,
pareceu demonstrar que tinha uma tal ou qual ideia
de que eu ainda existisse entre os viventes!
Por mais de uma vez mo deixou adivinhar até que
eu evidentemente reconheci no seu sorriso, entre
o esmalte úmido dos seus pequeninos dentes, o
raminho de oliveira anunciador de que não estava
inteiramente coberta para mim pelas águas do dilúvio
a superfície da terra, na qual eu sobrenadava
com minha mulher dentro da arca santa do casamento.
Isto porém podia ser o resultado de uma alucinação
passageira dos meus sentidos. A minha vaidade
empenhada neste jogo precisava de um convencimento
positivo.
Uma coisa confesso para tranquilidade das esposas
que me lerem. Há um talento que nós, os maridos,
perdemos ao cabo do primeiro mês do nosso ofício:
é o talento de dirigirmos a uma mulher as primeiras
palavras da corte que pretendemos fazer-lhe. Não
sei verdadeiramente a razão porque isto sucede.
Cuido que é a pressão de um certo ridículo sempre
iminente e indefensável, o que em tais ocasiões
nos suprime fatalmente a palavra. Porque enfim
- não o escondamos - nesses casos felizmente excepcionalíssimos
e anormais, a nossa posição é extremamente melindrosa.
Uma só palavra, fina, delicada, bem afiada por
um engenhozinho feminil, bate-nos em brecha do
modo mais radicalmente desastroso. Suponhamos
por exemplo - e este é o caso mais simples, mais
trivial, menos filho da astúcia do que do próprio
acaso - suponhamos que nos lançam o nome de nossa
mulher. Se todos os Mefístófeles que existem nos
infernos não surgem nesse momento das profundezas
da terra, como de um alçapão de teatro, a cruzarem
os seus floretes satânicos em guarda ao nosso
peito, estamos desde logo feridos de morte. Porque
- das duas, uma - ou havemos de confessar ou havemos
de desdizer a estima da nossa esposa. Se a confessamos,
então, a lógica é que compremos meia dúzia de
brioches em casa de Baltresqui, e que vamos
para casa tomar chá com aquela que Deus nos deu
para legítima companheira da nossa existência
e do nosso chá. Se a desdizemos, se asseguramos
que essa estima não existe, de quem é a culpa,
de nós ou dela? Se a culpa é nossa, ficamos suspeitos
de uma brutalidade repulsiva. Se a culpa é dela,
confessamo-nos um marido atribulado - talvez batido!
- o que é então de um ridículo lacrimoso.
Será talvez por eu não ter cultivado bastante
este género de estudos, mas - declaro - ainda
não achei meio retórico de resistir a semelhante
contingência.
Sucedeu que uma vez, de repente, inesperadamente,
me achei frente a frente com a marquesa, num ponto
solitário da floresta, debaixo dos lilases. Cumprimentámo-nos,
sentei-me ao seu lado num banco de cortiça. Era
ao fim da tarde, ouvia-se o zumbir amoroso dos
insectos no ar tranquilo, alguns rouxinóis cantavam
nos castanheiros em flor. Nós, em voz baixa, no
tom das meigas confidências, falámos das nossas
dispepsias e da virtude das águas de Homburgo.
Oh! meu Deus! como nós falámos daquelas bentas
águas! Eu tossi... Sim! para que ocultá-lo? (Pondera,
ó leitor, nesta passagem o que são os recursos
de um marido que seduz!) Eu tossi... tossi duas
vezes! e até - ó eterno pejo! - fiz confusamente
com a ponteira da minha bengala alguns riscos
na areia!
Por fim a marquesa tirou o relógio de entre dois
botões do vestido, verificou que eram seis horas
e meia e fomos jantar à table d'hôte do
nosso hotel, onde minha mulher nos esperava...
Mal sabia ela, pobre inocente!...
Que - verdadeiramente - o que ela ignorava não
era em absoluto uma coisa que, descoberta, houvesse
de a tornar desgraçada para o resto dos seus dias...
Ainda assim eu, dominado por um orgulho feroz,
tive remorsos!
E de olhos baixos, contrito, quási arrependido,
esgotei taciturno, até à última colher, a sopa
de tapioca que me tinham posto no prato.
No entanto a marquesa, a outro lado da mesa, descuidada,
intemerata, comendo camarões e bebendo leite,
palreava alegremente com os hóspedes que tinha
junto de si, e falava do encontro que tivera comigo
sob os lilases. Os seus companheiros riam, riam,
riam! E diziam-lhe coisas que eu não podia ouvir.
Senti-me vexado, porque evidentemente essas coisas
eram muito mais interessantes do que o que nós
ambos tínhamos dito em plena floresta no nosso
banco rústico.
Ah! é um desafio isto?! Riem-se acaso de mim?!...
Pois bem! Eu não falo... confesso-o... para que
me hei-de gabar do que não posso fazer?... Não
é o meu género esse! - Mas escrevo. Eu também
sei escrever. Percebeis, meus parvos?... Por isso
mesmo vou escrever! Hei-de escrever amanhã...
E depois veremos quem é que ri!
Pois quê, minha linda marquesinha?! Eu sou então
assim uma coisa, uma espécie de guarda campestre
ou uma aia de meninos, de cujo encontro numa floresta
a gente venha rir para a mesa redonda de um hotel,
comendo-lhe camarões pelo meio e bebendo-lhe leite
em cima ?!... Ora talvez que se engane.
Combinou-se nessa noite uma partida de prazer,
nos campos, para o dia seguinte. Partiríamos a
cavalo do nosso hotel, às dez horas da manhã.
Deveríamos almoçar na relva e fazer depois uma
ascenção a pé a uma montanha, onde havia as ruínas
de um castelo roqueiro, com heras, legendas da
idade-média e cegonhas. Todos os que estavam à
mesa subscreveram a esta excursão. Minha mulher
estava radiante de prazer.
No dia seguinte levantei-me cedo e vim passear
para o terraço, sozinho, com as mãos atrás das
costas e o meu binóculo ao tiracolo. Os meus pensamentos
eram terríveis. Não sei se por adivinhar na minha
fisionomia o que se passava no meu cérebro, um
criado perguntou-me se queria tomar alguma coisa.
Pedi-lhe papel e tinta. As janelas do quarto de
minha mulher davam para outro lado da casa. Sentei-me
a uma mesa de ferro e escrevi uma carta à marquesa.
Esta carta, se não tivessem de me ler senão mulheres
e homens casados, transcrevia-a aqui. Não teria
medo que ma copiassem. Mas, como podem também
ler-me os solteiros, os que namoram, os que seduzem,
não! Não há-de ser com cera dada por mim que eles
hão-de fabricar as suas velas. Quereis cartas
ternas, eloquentes, originais, decisivas, que
fiquem, que se decorem? Escrevei-as, que eu não
estou aqui para secretário de amantes,
nem para pedicuro de erros de ortografia! A carta
- francamente - ficou boa. Eu nem toda a minha
vida passei a ler César Cantu e os anúncios da
Revalenta: frequentei as minhas humanidades,
vivi também um pouco por esse mundo, e descubro
ainda quando quero, como qualquer outro, o segredo
das palavras que umedecem de ternura os olhos
dos que as lêem.
Estava bem boa a carta! Tenho realmente pena de
a não citar, porque no fim há um fecho, principalmente,
que honra os meus recursos: fui-me a uma linha
inteira e passei-lhe um traço de pena por cima,
depois na entrelinha pus uma palavra só. Isto
caía num ponto em que se despertava a maior curiosidade
de decifrar o que existiria na linha cortada.
Era bastante completo de estratégia e de astúcia.
Dobrei a carta e guardei-a.
Às dez horas estavam todos os nossos companheiros,
homens e senhoras, no terraço do hotel. Pouco
depois chegavam os cavalos, os phaetons
e os dog-carts, e as pessoas da nossa caravana
principiaram a subir às carruagens ou a montar
a cavalo. Os últimos que ficaram na sala contígua
ao terraço foram a marquesa, minha mulher e Eduardo
de B..., o meu amigo. Eduardo, que estava junto
do parapeito do terraço, perguntou para a rua
de quem era um lenço de renda que ali ficara caído.
- É meu, disse a marquesa.
Eu, que estava a meio caminho entre Eduardo e
ela, tomei o lenço, e sem esperar momento mais
oportuno, numa volta em que só ela podia ver-me,
enrolei no lenço o meu bilhete e entreguei-lho.
A marquesa corou ligeiramente e ia guardar o lenço
e sair, quando - pelo diabo - o meu bilhete caiu
no chão. A marquesa não dava por isso. Foi minha
mulher - que terror! - minha mulher, pessoalmente,
que o levantou, dizendo:
- Marquesa, este papel... - Ah! obrigado, exclamou
ela; é um convite que recebi hoje. E saiu dizendo-nos
adeus com as pontas dos dedos.
Minha mulher, que tinha acabado de calçar as luvas,
pegou, com o ar aparentemente mais indiferente
do mundo, no seu chicote que estava sobre uma
das mesas, e saiu também, passando-me, de cima
abaixo, um olhar muito mais terrível do que o
risco com que eu cortara a última linha da minha
carta. Imaginem como eu fiquei!
- Eduardo, acode-me! - foi o meu único grito,
ao ver minha mulher fora da sala.
- Que é? queres água com açúcar? queres flor de
laranja? queres que chame os outros?
- Qual, que os chames! o que eu quero é que metas
os Pirenéus ou os Alpes entre mim e eles!
No entanto da rua gritavam pelos nossos nomes.
Eduardo chegou à grade do eirado e disse-lhes:
- Vão indo, vão indo! não nos esperem: nós os
alcançaremos galopando, em dois minutos. Depois
de sentir rodar a última carruagem lancei-me nos
braços do meu amigo.
- E esta!? exclamei eu.
- Que foi? saltou-te o botão da camisa? queres
espirrar? tens caimbras?
- Trata-se bem disso agora! É um precipício, é
um abismo, é uma voragem terrível! Meu amigo,
meu único amigo, meu companheiro de infância,
meu irmão... Deixa-me dar-te o nome de irmão...
Não somos nós como irmãos? Pois bem! esta manhã,
num momento de febre e de delírio, escrevi uma
carta de amor à marquesa de C... Essa carta entreguei-lha
agora. A marquesa deixou-a cair, minha mulher
levantou-a, minha mulher viu-a, minha mulher sabe
tudo!
- Então, se ela sabe tudo, melhor, que escusam
de lhe escrever cartas anónimas a contar--lho.
Vem daí!
- Mas, Eduardo, meu filho! pensa bem nisto: trata-se
da minha felicidade doméstica, do meu amor, do
meu futuro, da minha vida inteira, perdida, envenenada
para sempre! ah! eu conheço bem minha mulher:
tem uma enorme força de vontade, um extraordinário
domínio sobre si mesma. Esconderá o seu infortúnio
com a dignidade de um homem, mas morrerá como
uma mártir. Se soubesses!... Isto são coisas íntimas,
coisas de família, que se não podem contar senão
a homens como tu... Olha: aquela excelente criatura,
aquele anjo de bondade, ainda há pouco tempo chorou
lágrimas de sangue por imaginar que eu lhe preferia...
quem? A revalesdère Du Barry! Imagina o
que sucederá sabendo que a sua rival já não é
uma inocente, posto que ineficaz farinha, mas
sim uma marquesa à moda, uma celebridade ruidosa,
uma Benoiton, um horror de mulher?! Diz-me, meu
velho amigo, aconselha-me, anima-me... Que hei-de
eu fazer?
- Ora! faz qualquer coisa, inventa uma desculpa,
acha uma explicação seja qual for... Faz o que
fazem os outros. Não há marido nenhum a quem não
tenham sucedido coisas dessas vinte vezes na vida...
- Oh! felizes homens! felizes homens aqueles a
quem isto tem sucedido vinte vezes! Sabem ao menos
o que têm que fazer na vigésima primeira. Mas
é que a mim - juro-te pela minha honra - é a primeira
que tal me acontece! Que tens tu feito, tu, nos
teus casos?
- Eu nada, porque eu sou solteiro.
- E no meu caso o que farias? Vamos! dize-me alguma
coisa! dize-me alguma coisa pelo divino amor de
Jesus!
- Eu te digo... no caso de uma tribulação assim,
profunda...
- Profundíssima!
- Lançava-me talvez nos confortos da religião...
talvez que me fizesse padre.
- Bonito!... Padre! como se isso me livrasse de
responder logo à noite a minha mulher quando ela
me interrogar! como, se quando ela chegar e me
disser: "Que escrevias tu à marquesa?" se eu pudesse
desfazer-me dela, dizendo-lhe: "A propósito de
marquesa: adeus que vou dizer missa!"
Pusemo-nos então a meditar, e ocorreu-me uma ideia,
uma ideia que ao repente me pareceu luminosa e
que me fora inspirada pela táctica do grande Napoleão,
que consistia, como se sabe, em nunca esperar
o ataque, tomando a ofensiva.
- Eduardo! - exclamei eu - tu é que podes salvar-me.
És meu amigo? És-me dedicado? Estás pronto a fazer
um sacrifício por mim?
- Dize lá!
- Faze a corte a minha mulher... Oh! não inventes
subterfúgios! Não te ponhas com hesitações e com
desculpas! Para que servem os amigos íntimos e
verdadeiros senão para isto?... Faze a corte a
minha mulher... peço-to, imploro-to, suplico-to!
Que diabo te custa isso? É por um dia somente,
hoje, até à noite...
- Mas que proveito tiras tu daí? Que podes tu
lucrar em que eu me sacrifique por ti até ao ponto
de me apaixonar por tua mulher?...
- Pois não compreendes? Não atinges todo o êxito
do meu plano?! Fazendo-lhe tu a corte (como eu
espero, Eduardo, como eu espero da tua velha estima,
da tua boa amizade) segue-la, já se vê, acompanha-la,
passas todo este dia de hoje ao seu lado, não
lhe dás um momento para que ela possa aproximar-se
de mim... dizes-lhe que a amas, que a adoras...
E hás- -de pôr outra gravata, que ela disse-me
ontem que esse laço encarnado te dava o ar de
um cabeleireiro. Se ela te repelir, mete-lhe medo,
que ela é muito medrosa! Dize-lhe que te matas...
Não te esqueças também de lhe dizer que morres
por mim: ela adora os que me amam. Eu no entanto
espreito-vos, vigio-vos, o meu olhar pairará sempre
sobre vós ameaçador e terrível como um abutre.
Compreendes agora o desfecho... À noite, antes
de ela ter tempo de me perguntar que tinha eu
que escrever ocultamente à marquesa, eu abotoo
a sobrecasaca até o pescoço, cruzo os braços no
peito, deito os cabelos para trás, concentro-me,
e brado: "Minha senhora, que lhe disse Eduardo?"
- "Eduardo..." - "Nada de hesitações, minha senhora!
o tempo urge; amanhã, ao romper do sol, ao primeiro
grito da toutinegra, numa das encruzilhadas da
floresta, um de nós, ou esse homem ou seu marido,
cairá morto com uma bala na fronte!"
- Mas se apesar de tudo isso, ela tiver o espírito
de te observar: "Sigamos a ordem cronológica dos
sucessos: vejamos primeiro: senhor! o que dizia
o seu bilhete matinal à marquesa?"
- Oh! nesse caso, eu teria também o espírito preciso
para jogar as últimas, e dizer-lhe: "Silêncio,
senhora! mais respeito pela morte! Eu vou bater-me!"
E ela então - ah! disso estou bem certo! ela então
dará um grito, e cairá desmaiada. Eu terei as
algibeiras cheias de sais e de anti-histéricos:
acudir-lhe-ei, e quando ela recobrar os sentidos
estarei aos seus pés, beijar-lhe-ei as mãos e
pedir-lhe-ei que me perdoe. E no entanto a grossa
nuvem terá passado.
Eduardo pôs resistências, fez objecções, discutimos,
acabei por convencê-lo. Pus-lhe eu mesmo uma gravata
azul, que era minha, e partimos.
O que foi esse dia mal posso ainda hoje contá-lo
sem se me enegrecer o sangue! Eduardo rodeou minha
mulher de solicitudes, que ao princípio me encantaram
e me penhoraram muito. Depois minha mulher começou
a rir, a conversar longamente, a estar inteiramente
bem com ele. Na ascenção à montanha ele dava-lhe
o braço, estendia-lhe a mão, ajudava-a a subir.
Eduardo desenhou num álbum um dos aspectos da
ruína: algumas senhoras cercaram-no, seguiam o
traço do seu lápis; minha mulher, para ver o desenho
de mais perto, ousou então pousar-lhe uma mão
no ombro! Eu começava a sentir vertigens, tinha
febre, e de uma vez - a única que olhei para a
ruína! - pareceu-me da cor do sangue uma cegonha
que estava no alto da torre sobre as ameias com
uma perna no ar. A verdade era que eu tinha autorizado
o meu amigo a fazer a corte a minha mulher, mas
não tinha autorizado minha mulher a receber a
corte do meu amigo. O procedimento dela era pois
de uma legalidade que ninguém ousaria garantir.
Eduardo pela sua parte começava também a adiantar-se
demais: tinha-lhe oferecido o desenho da ruína,
o que era perpetuar com o seu lápis, que me atrevo
a qualificar de impuro, as impressões daquele
dia, - o que estava fora das minhas autorizações.
Eu sentia febre, rangia os dentes, tinha a boca
cheia de bílis. Experimentava vagamente a necessidade
de morder em alguém.
Ao almoço havia pequenas bouchées de foie gras;
Eduardo tomou um espeto de prata onde havia três
destas bouchées e ofereceu-o a minha mulher com
os ares pretensiosos e ridículos de um trovador,
fazendo ao mesmo tempo um pequeno speech.
Escapou-me então um gesto e um grito de raiva.
Olharam todos para mim: eu, pálido, com a voz
trémula, intimei minha mulher para que, em respeito
à sua saúde, se abstivesse de foie gras,
e tomasse de preferência uma sandwich de mayonnaise.
- Ora essa! - exclamou vivamente Eduardo - pois
achas que a mayonnaise seja menos nociva
a uma saúde delicada do que o foie gras?
- Acho, sim! clamei eu, E serás tu, Eduardo, tu,
meu amigo, meu companheiro, meu segundo irmão,
tu que te atrevas a sustentar na minha presença
a superioridade estólida do foie gras sobre
a mayonnaise?! Dize! responde! intimo-te
a que me respondas!
- Não, não, menino, eu cedo. Minha senhora, tenho
a honra de oferecer-lhe mayonaise.
Dá-se uma coisa: se Eduardo não tivesse recuado
tão cobardemente como o fez, eu ter- -lhe-ia atirado
com um copo.
Ao descermos da ruína, ao pôr do sol, a marquesinha
tomou o meu braço. Eu tive um estremeção de horror
como se tivesse tocado num bicho asqueroso.
- Li o seu bilhete... - melodiou ela.
Eu estava inteiramente perdido, envenenado, cego.
Minha mulher e o meu amigo tinham-me posto numa
exacerbação de ciúme estúpido que me enlouquecia.
Que imaginam que lhe respondi?...
- Ah! leu o meu bilhete? Bem. Pode ter então o
incómodo de mo restituir.
Sinto-me corar até o branco dos olhos quando me
lembro que disse isto, eu!
- Restituir-lho não, meu querido amigo - replicou
a marquesa agitando alegremente o seu leque. Oh!
o seu bilhete pertence à minha colecção de curiosidades...
- Deve ser preciosa - pelo número ao menos - a
sua colecção!
- É grande, é! Que quer, meu amigo? os homens
de espírito são tantos ... Eu tenho-os num
quadro, atravessados por alfinetes, sobre um fundo
verde, como os meus insectos.
- Tem sido muito visitado... por senhoras...
o seu bonito museu?
O braço da condessa tremeu ligeiramente como se
lho tivessem picado. Mas, imediatamente, sorrindo,
respondeu:
- Não... As minhas amigas cultivam vivos a espécie
de animais que eu não posso suportar senão mortos,
imóveis, mudos e varados pelos alfinetes de Fanny,
a minha criada de quarto. Ora isto faria chorar
talvez as minhas amigas, o que obrigaria os seus
conhecidos a distraí-las - dando-lhes bonitinhos
desenhados por eles...
Eu senti-me apoplético, e precisei de alargar
o coleirinho e de abrir a boca, para respirar.
- Então! - acrescenta ela, voltando-se para os
outros e metendo os dedos na crina do seu cavalo
do qual nos tínhamos aproximado - Não querem ver
o meu cavaleiro que me não ajuda a montar?!
Eu peguei nela e pousei-a no selim com o mesmo
sorriso com que a teria lançado ao mar com uma
pedra ao pescoço.
- Obrigado!... disse-me ela lentamente e estendendo
os beiços com o mesmo gesto de quem me enviasse
um beijo.
E, dando-me os dedos calçados numa estreita luva
de camurça, acrescentou:
- Permito-lhe que me beije a mão. Eu dava mordeduras
em mim.
Finalmente, ao cair da noite, achei-me a sós,
no hotel, com o meu prezadíssimo amigo.
- Então! Que tal? interrogou ele. Eu não respondi.
A primeira coisa que fiz foi arrancar-lhe do pescoço
a minha gravata azul e atirar-lhe com a sua infame
gravata cor-de-cereja, que guardara numa algibeira.
Ele tentou abraçar-me... - Para trás! - clamei
eu - não macule com a impureza do seu contacto
as fibras castas de um homem de bem. Proíbo-lhe
- entenda bem isto! - proíbo-lhe absolutamente
que torne a levantar os olhos para minha mulher.
- Mas vê lá, querido, que te não faça isso desarranjo!
Eu não tenho pressa nenhuma, estou sempre pronto
para te servir, e não tenho dúvida em continuar
até amanhã ou depois...
- Basta, senhor! Acabe-se de uma vez para sempre
com este jogo infame. Restitua-me a minha gravata!...
Ah! sim... agora me recordo que já lha arranquei...
Mais tarde verei se hei-de também arrancar-lhe
a vida! Agora saia! Saia, e que nunca mais eu
o torne a ver!
Apesar de quanto havia de cómico na minha situação
eu estava profundamente indignado e triste. Creio
que Eduardo compreendeu isto, porque o vi sair
pesaroso e calado.
Eu não quis jantar. Fui passear sozinho pelas
ruas mais desertas de Homburgo. Quando entrei
no quarto de minha mulher eram dez horas da noite.
- Muito bem aparecido! disse-me ela alegremente.
Que tens tu hoje que ainda me não falaste? que
estás de mau humor com toda a gente?
O ar de minha mulher e o tom da sua voz eram tão
meigos, tão inocentes, de uma transparência tão
casta, que eu resolvi retardar a minha explosão.
- Senta-te um momento, continuou, e vê se me explicas
umas coisas que sucedem e que eu não entendo...
Ela tinha ajeitado uma almofada do sofá ao seu
lado. Sentei-me.
- Em primeiro lugar, prosseguiu minha mulher,
que quere dizer este bilhete? Vi então entre os
seus dedos um papel como o da minha carta à marquesinha,
dobrado da mesma forma, com a mesma marca do hotel,
em tinta azul, a um canto...
Senti suores frios e cuidei que desmaiava. Minha
mulher abriu o bilhete, e leu:
"Minha senhora. "Para desfazer um qui pro quo
que poderia porventura influir no sossego do seu
espírito, julgo do meu dever declarar a v. ex.a
que era meu o bilhete que a senhora de C... deixou
cair esta manhã aos pés de v. ex.a É em desfecho
desse pequeno romance que eu parto hoje para Paris,
para onde recebo as ordens de v. ex.a.
"Tenho a honra de ser com o mais profundo respeito
De v. ex.a o menor criado
Eduardo de B..."
- Então? acrescentou minha mulher,
que quer isto dizer?
Senti que de cima do meu coração se erguera um
peso de trezentos quilos. Eu carregava em mim
para o chão com receio que o meu repentino desafogo
me erguesse como um balão no espaço.
- Eu sei lá o que isso quer dizer? É que Eduardo
receou talvez que tu supusesses que era de outra
pessoa o bilhete de que se trata...
- Ora essa! De quem havia de ser então? No terraço
não estávamos senão nós, ele e tu. Quem havia
de ser senão fosse ele? Eu mesmo te vi a ti tomares
o lenço da mão de Eduardo e dá-lo à condessa com
o bilhete envolvido...
- Mas, permite-me esta observação... Pareceu-me
notar que Eduardo te fez hoje, levemente, um sintomazinho
de corte...
- Pelo contrário: falando-se da condessa, disse-me
que ela era a depositária dos seus pensamentos.
Portanto este bilhete não tem explicação nenhuma
senão que o teu amigo quis passar aos meus olhos
por um conquistador feliz: concorda que não há
nada mais grosseiro, mais enfatuado e mais tolo!
Que havia de eu responder? Pedi mentalmente ao
meu adorado amigo que me perdoasse, e disse o
mais baixinho que pude:
- Con-cor-do!
Houve uma pausa, durante a qual o meu espírito
retomou posse da situação em que me achava.
- E a marquesa?... arrisquei-me a perguntar.
- A marquesa partiu com Eduardo.
Tive um pequeno movimento de despeito instantâneo,
mas longo de definir, e talvez impossível de explicar...
- Minha querida - acrescentei então com uma insistência
cordeal - tens razão: Eduardo é positivamente
um parvo!
Depois do que beijei minha mulher com a mais sincera
estima.
1. Publicado
em Brinde aos Senhores Assinantes do «Diário
de Notícias» (1871). –
(Nota dos Editores).