I
É uma mulher que tem só um braço e que olha para as fotografias de um álbum.
Uma mulher com um véu azul. É desse lado que respira, do lado da sombra. Todo o resto do corpo desaparece na madeira e apenas o braço se vê projectado num espelho, uma mancha de vidro colada à parede que ela atravessa várias vezes durante o dia, sem custo, num jogo que só a si pertence. Porque naquele espaço há uma luz através da qual a mulher consegue aquilo que mais ninguém é capaz de atingir, uma felicidade total, silenciosa.
II
Matei-o e não suporto a sua morte.
Era isto que o médico não entendia. Carlos morreu com um tiro disparado por si, disse-lhe. Mas foi ele quem carregou a arma. A senhora limitou-se a pôr o dedo no gatilho. Ora era essa a vontade dele, senão não tinha colocado uma bala na câmara. A senhora está livre, a culpa é do amor. E também do momento que estamos a viver. Há uma depressão na terra que atinge as colheitas, os animais. O ar tornou-se irrespirável e já não é possível arranjar tempo suficiente para se passar um serão tranquilo em casa. Os vizinhos destroem as paredes com berbequins, deitam abaixo cozinhas inteiras. Não se aguenta o barulho das aparelhagens, não há espaço para os carros e o lixo acumula-se nos passeios. A senhora sai à rua e o que vê, sujidade de cão, latas, papéis velhos, rolhas, cordéis, fruta podre, conservas, cigarros. E o que lhe apetece logo? Matar alguém, é óbvio. Portanto, não se preocupe, se não fosse a senhora, outra pessoa o teria matado.
E se ele fosse agora ter com ela, se saltasse de dentro das fotografias e aparecesse ali à sua frente, ou na sala, em cima do tapete, ou no corredor enquanto ela estivesse à procura do anel?
-É pouco provável, respondeu-lhe o médico.
E se tudo fosse um pesadelo, se a mulher não fosse ela e não estivesse ali, mas noutro lugar, no sítio dele, encostado à sua cama, a ouvi-lo respirar. Quando ele acordasse ela dir-lhe-ia, eu sou a tua única mulher, só quero as tuas mãos.
Achava o médico que ele acreditaria que era ela, ali em carne e osso, ainda que tendo apenas um braço?
-Não sei, disse o médico, o mundo mudou, as ribeiras secaram todas, o homem transformou-se no assassino dos seus próprio filhos. Para lhe dizer a verdade, eu estou pessimista, o universo não aguenta por muito mais tempo. Os continentes vão rebentar, serão engolidos por um fumo vindo do fundo do mar. "Então e Carlos", perguntou a mulher.
-Carlos salvou-se a tempo, graças a si.
III
É uma mulher que vive dentro de um álbum. O rosto dela tem um brilho como se saísse do petróleo. Algo rebentou na luz que lhe penetrou nos olhos, uma força.
As suas costas são uma superfície ondulada, exalam um aroma, uma espécie de flor entornada de um vidro. É precisamente na mão que lhe resta que acaricia uma romã e a mostra aos poucos amigos que possui. E uma mulher derrotada, incapaz de atravessar um túnel. Uma mulher com um sinal nos ombros, marcada para um sacrifício.
Uma mulher que toca harpa e revive as flores, enquanto outra, na fotografia caída do álbum, mostra os joelhos debaixo de um vestido de cetim. Parece ela e ao mesmo tempo há ali qualquer coisa que pertence a Carlos, a cintura, o desenho que o contorna, o modo como os pés assentam no chão. Atrás deles existe um castelo e só depois o céu.
É uma mulher real porque o seu cabelo se mexe com o vento. A harpa comprou-lha Carlos numa viagem pelas terras altas e é com ela que a mulher afugenta os tornados, devolvendo-lhes o mal para que se comam a si mesmos.
Tudo está neste álbum de fotografias, dizia ela, o meu passado e o meu futuro.
Ali naquela, ainda tinha ambos os braços e agarrava-se a uma coluna de mosteiro. Noutra estava nua. A sua pele era branca, mas naquela outra já era verde porque nesse dia comprara um vestido de cor da erva. Ali, por exemplo, vestia calções, fora uma época de inquietação, houvera uma vaga de calor e tudo à volta dela morrera, cães, gatos, pardais, formigas, tudo. Fora muito difícil para ela. Tivera que iniciar tudo de novo, mudar de casa, arranjar outro espelho, um biombo.
Datava desse ano a morte de Carlos.
"Ele está aqui nesta fotografia rasgada, a fumar, com um cachecol, com o isqueiro ao seu lado, pousado sobre a mesa. Aconteceu um ano depois da morte, a fotografia foi mudando com os meses. Ao princípio era só ele, a olhar para as dunas, depois apareceu o fumo e só a seguir o isqueiro entrou na fotografia.
Nesta sou eu, de óculos e ele atrás, a espreitar. O gesto que se vê entrou na fotografia uns anos depois. Era desejo dele que as suas fotos tivessem sempre dentro um gesto de mãos vazias."
A mulher pousa o álbum e atravessa o quarto até chegar junto do armário.
Estende depois um tapete sobre as tábuas e é lá que se deita a ouvir o tempo. É nesse momento do dia que fala com Carlos e lhe vai contando as mudanças que a força dos seus olhos provoca nas imagens fotográficas. "'0 teu rosto está rejuvenescido, o teu corpo emagreceu, já consigo ouvir a tua fala. Gosto daquele casaco que usavas e do teu cabelo caído sobre a testa. As tuas fotografias estão a encher-se de emoções, notam-se ao fundo os livros, cada vez mais livros e tu a folheá-los, a arrumá-los."
A mulher deixa-se entrar assim no seu silêncio, como se estivesse sentada numa pequena ilha, ao lado de uma cascata, e a chuva viesse bater-lhe no rosto, descobrindo um jardim a seus pés, com narcisos, talvez com um jasmineiro branco. E o momento em que Carlos lhe escapa. Ela procura agarra-lo, como dantes, mas a sua força diminui, embora o seu corpo seja agora mais leve, sujeito ao peso de um só braço.
Esta mulher é vista entrando pelo frio com um álbum ao colo. Nunca poderá saber se Carlos a amava. Quando o matou esperava que ele confessasse esse segredo, como o fazem os moribundos chorando nas mãos de um frade. Mas o tiro abriu-lhe demasiado o peito e a sua voz enrouqueceu depressa.
-Há sempre um castigo para o mal, disse-lhe o médico, no seu caso vai ter que conviver com isso. Nunca aceitou que ele a amava porque entendeu que nenhum homem pode amar uma mulher a quem falte um braço, ou uma perna, seja o que for. Quantos homens não amam mulheres que não têm um rim, uma orelha, uma mão, um olho. O mundo é feito de defeitos, eu costumo dizer isto aos meus doentes porque gosto de brincar com as palavras. Mas é verdade. Imagine que encontrava um homem sem esófago. Que esse homem era um génio, compunha música, pintava, escrevia, imagine que ele era ainda por cima belo, um homem a quem só faltasse voar. Que mal faria que ele não tivesse esófago, no meio de um tal amontoar de qualidades. A senhora não se preocupe, isso de não ter um braço não é bem uma doença. Nem a culpa foi sua. Matou-o porque ele estava a querer ser morto. Queria acabar assim, com um buracão no peito, como no cinema. O Carlos era um herói, uma actor que não morre nunca. A senhora limitou-se a fazer um cena como se rodasse um filme. Eu, por exemplo, posso chegar hoje a casa com um machado e enfiá-lo na cabeça da minha mulher. Porquê? Porque vi uma cena dessas num filme. Agora pergunto-lhe. A mulher do filme morreu de facto?
Claro que não. O mesmo aconteceu com o seu amado. Matou-o, mas ele não morreu. Pense é que ele se ausentou para o estrangeiro, abandonou-a, é a coisa
mais banal deste mundo.
IV
Todos os seus poderes nasceram dentro dela após a morte de Carlos. As imagens saíam do álbum como se a carne tomasse forma dentro da pele. Bastava olhá-lo ou tocá-lo com os dedos, acariciando o rosto do papel. Imagens que fluíam por entre as mãos e desciam até ao chão caminhando pelas tábuas da casa até entrarem na sombra, sem que ela as quisesse parar, porque era assim que construía a felicidade.
-Esses seus poderes foram consequência da perda do braço. Houve uma transferência, disse-lhe o médico. A senhora tinha um tumor que na altura se julgava maligno. Mas não, era benigno, foi um erro aquela amputação. E essa a força extraordinária que agora a senhora tem no cérebro. Passou do braço para o cérebro. Por isso não se espante quando diz que atingiu a felicidade total. A senhora tem um tumor no cérebro mas é uma coisa boa, ajuda-a a suportar esta vida. Nem toda a gente pode dizer que possui um tumor desses, uma espécie de talismã dado por Deus. Sei que é católica, está aqui na sua ficha. Então, deixe-se andar, não pense no Carlos. Neste momento, ele está feliz no céu. Todos os homens que morrem por questões de ciúmes têm o seu lugar garantido ao lado de Deus. É essa a prática da paixão. O buraco que ele tinha no peito já está sarado, a
bala foi extraída pelos anjos. Que quer que lhe diga mais.
V
-Não precisa de continuar a vir às consultas. Está curada, vejo pelos seus olhos, faz-lhe bem esse choro.
É uma mulher que aprendeu de facto a chorar. Um choro manso como se habitasse no domínio das ervas e as tivesse que manter vivas, rejuvenescidas dia após dia, batidas pelas lágrimas. E nesse choro havia mais do que um clarão, havia nele uma cântico, um chamamento que ecoava pela terra, que descia para debaixo das plantas e se metia pelas raízes das árvores, até ao fundo das areias.
Um choro que se construía a si mesmo como uma moldura de onde aparecia Carlos, vindo ao seu encontro, assim devagar pela porta da entrada, atravessando o corredor, como se as lágrimas dela tivessem desenhado uma estrada branca por onde ele caminhava ainda sonolento saindo da morte, respondendo ao seu apelo. Ele chegava e aos poucos as suas lágrimas iam secando, porque já o corpo dele se mostrava, inteiro e nu, preenchendo a casa como dantes. Rindo com os comboios, folheando os livros, dizendo que a água dos rios é o acontecimento mais invulgar das coisas terrenas.
"Foi estranho, eu a estender o braço na sua direcção e ele nem pareceu lembrar-se de que eu sofrera uma amputação, sem sequer se lembrar de que fora eu quem disparara sobre ele, deixando-lhe o peito queimado. Já chegaste, perguntou-me ele. Como se eu tivesse saído mais cedo do emprego, como se eu trabalhasse numa florista ou numa loja de roupa. Carlos, disse-lhe eu, não te recordas de nada?"
Uma mulher interroga um homem que minutos antes havia resgatado à morte, um homem sombrio que contempla os móveis da casa, os lençóis, os tinteiros, os livros. "Continuas com a tua obsessão por tinteiros", disse ele.
"Que podia eu responder a um homem que surge assim no meu quarto e me atira para dentro da cama como se o meu corpo fosse um brinquedo, um pequeno invólucro de celofane. Carlos, disse eu. a custo, a minha intenção não era matar-te. Mas ele não respondeu, o que quis foi envolver-me o braço, limpá-lo com um algodão, senti-lo com a língua e depois dispô-lo ao comprido em cima dos lençóis para o contemplar".
"Gosto do teu braço, acho-lhe uma súbita beleza, como se alguém o tivesse pintado enquanto dormias. Há um calor que vem dele como de um foco. Gosto da velocidade do teu corpo. Quando estás absorta a olhar para um quadro, esqueces-te de que seria melhor teres-te vestido, para que o sangue não corra deste modo no interior dos meus ossos. Não sei se o médico te explicou, mas uma das razões da minha morte foi a perfeição do espaço que existe no caminho entre nós dois, nesse trajecto". .
"Sim", disse ela. "Quando vens ao meu encontro, uma paisagem constrói-se em segundos. Pode ser um campo de gladíolos, pode ser uma arena ou uma tábua com pequenos pregos virados para o meu lado. É uma visão assustadora. Mas o médico disse-me que isso fazia parte da felicidade, que só desaparece quando os corpos se despedaçam, quando os membros deixam de ser humanos para se transformarem em lodo e a cintura de um atravessa a cintura de outro criando uma zona de dor. O médico perguntou-me se eu sabia o que era o amor. E eu respondi-lhe, que não, mas que tu devias saber porque te via a pôr balas no cano da pistola assim que chegavas a casa. É o amor, o medo do amor, explicou-me ele".
O médico falara-lhe de um doente que não era capaz de dormir com a mulher se não acariciasse uma faca, se não visse o seu brilho a cortar o tecto do quarto. E a mulher, perguntou Carlos. Entrava em pânico, desmaiava. E o homem? Abusava dela, claro, fazia-lhe o que queria. E o médico? Achava normal. A mulher acordava e não se lembrava de nada, porque o via sentado, a olhar pela janela, com uma parte do rosto iluminado pelos letreiros da rua. Adormeci, é tudo o que ela dizia, desculpa. Não faz mal, respondia o homem. E o médico insistia que era normal.
Há casos assim e mais graves ainda, do homem que pendura metade da mulher numa janela, num vigésimo andar, ou de uma mulher que pede ao homem para lhe enfiar um balde na cabeça porque detesta o olhar dele. Tudo cenas de amor. E são felizes, assegura ele. Cenas que se passam à nossa beira, com os vizinhos.
São pessoas que têm muito para dar aos outros, gente que não sabe onde foi buscar o desejo do mal.
"As pessoas são a coisa pior que há no mundo", disse-me o médico, logo após eu te ter matado.
VI
Uma mulher para quem o mistério pertence à luz da manhã, estando Carlos naquele momento vivo e acordado contra o seu corpo, enquanto os reposteiros se abrem devagar comandados pelo vento suão, que endoidece tudo o que mexe à sua volta, afugentando as nuvens e os pássaros. Até que a noite vem de novo, sabendo-se de antemão que, por mais que a mulher mate o amante, ele renasce cada vez mais forte, mais duros são os seus músculos, mais longos são os seus cabelos.
Carlos", diz-lhe ela. E é a primeira vez que ri desde a sua morte. "O teu corpo tornou-se mais alto, o teu rosto e as tuas pernas, tudo está mais consolidado em ti, até os teus olhos, que eram parados, agora rodam sobre as coisas, amplificando-as. Pode ouvir-se o teu pensamento".
A mulher fecha a paixão numa taça que destapa de cada vez que Carlos morre para sentir que existe uma pequena alma junto à água. Minúsculos peixes, insectos, algumas cobras, seres vivos que se alimentam desse desejo da mulher.
O seu corpo adormece na água sob os juncos e as abelhas vêm pousar ali, nos seus vestidos, construindo os canais, libertando os fetos.
"É só disso que preciso para ser feliz", diz Carlos. "Quando o teu corpo se transforma e eu já não estou ao pé de ti porque uma bala me trespassou, deixando-me o peito aberto, e as minhas mãos entram dentro de mim, encostando-se ao coração. Vejo-te ainda numa névoa, mas já as minhas veias estão longe, rodeadas de anjos, junto a Deus. Não acredites quando o médico te diz que Deus não existe, eu sei do que falo".
Uma mulher procurada pelo que está dentro do céu, assegura Carlos. Ele descreve-a quando volta para a morte e fá-lo com tanto amor que todos os do céu querem fabricar uma imagem dela. Porém nem os pintores conseguem esse prodígio, mesmo fazendo uso das tintas mais perfumadas. E se há homens por quem ela seria capaz de morrer são os pintores. Por vezes é a música que a faz perder a noção do espaço que habita, mas foram quase sempre os pintores, na terra, que para ela se aproximaram da perfeição.
Mas quem conhece então esta mulher? Talvez os músicos.
Carlos dizia que não entendia o modo como ela sentia a música. Olha para a harpa encostada à parede da sala e parece-lhe que as cordas mexem ao sabor dos seus dedos mesmo sem eles lá estarem, como uma visão. Quando contempla as fotografias ela lá está, inteira, com os dois braços estendidos para as mesmas cordas.
Carlos morre no momento exacto em que ela encontra a felicidade total de que fala, ainda a vê nesse contentamento a chamá-lo, com o braço a despedaçar-se, parece que lhe sorri e que isso seria também a felicidade dela, mas já o seu peito fica desfeito pelo impacto da bala e os dois separam-se, no meio de um estranho sentimento de paixão.
-Penso que há um avanço na vossa relação, diz o médico à mulher. Dantes Carlos nem se apercebia de quem o tinha morto, era tudo tão rápido. Agora sabe, aceita e começa a gostar. Avista a luz que vem de si. Ouve o seu choro, o seu apelo e responde a esse chamamento. Não pense que é magia. É mesmo assim.
Tudo tem a ver com a força que se dá às lágrimas. Eu sei que não é fácil aprender a chorar, mas a senhora conseguiu um prodígio. O seu corpo tem mais água do que o normal, não se assuste. A água é uma coisa boa quando nasce connosco. Basta que Carlos morra de novo uma dezena de vezes e que o seu regresso se .. torne tão rápido quanto o tempo que leva a bala no seu percurso até atingir o peito dele. Acho que devia aproximar-se mais, talvez colar-lhe a pistola ao peito e só então disparar, olhá-lo no olhos para que ele entre no seu olhar e fique lá. Sei que tem poderes para isso. Vê-se no seu rosto, nessa torrente que tem dentro de si.
É uma mulher que procura em vão essa ternura, despindo-se contra as tábuas do chão, adormecendo com as mãos nos seios, à espera de que a sombra dele a venha encontrar, preparada para o seu regresso. Mais uma vez e os dois estão aptos para viverem de novo, diz o médico, visto que Carlos já perdeu o abcesso. que trazia da última vez, e a febre já o abandonou. O seu corpo tornou-se imune. Todos os males carregam-nos agora os anjos. Mas esta sua última morte é ainda necessária porque nesta coisas há que ficar agradecidos.
-Sou eu que o digo porque sou médico e sei do que falo. É a despedida aos anjos, a última morte no céu. Mate-o com firmeza, sem culpa, com o máximo de doçura, para que ele possa ver finalmente o que o espera no regresso.
"O meu corpo todo", pergunta a mulher.
-Sim, responde o médico.
E a mulher cantou ao longo desse dia como uma sibila. E esse canto foi pela casa fora, impregnou as paredes e as gavetas e todos os pedaços de cal tomaram um brilho idêntico ao dos seus olhos, desafiando o mal. E o seu canto misturou-se com o choro e veio um grupo de aves saudá-la pelas grades da janela, anunciando uma aparição.
VII
Carlos chega da morte pela última vez, num dia em que o céu anunciou uma pequena chuva, tapando devagar o sol. O médico prometera estar lá nesse momento único em que o corpo dele se iria solidificar após uma viagem pela sombra. Não vestia uma bata, apenas um colete onde escondia os cigarros e um bloco. Como um amigo que procura saber se a ausência foi boa, se no outro lado do mundo também há árvores e de que modo o choro dela lá chegava, se num ritmo harmonioso se numa melodia maligna. Carlos surgiu com uma luminosidade colada aos cabelos e demorou a encontrar o equilíbrio do corpo. Os seus braços estenderam-se para o centro da casa como se procurassem um abrigo, mas era o corpo dela que buscavam.
-Eis o sinal, diz o médico. É a cura, o momento em que poderá tornar a amá-la. Ela poderá ainda apontar a arma contra o seu peito, mas a bala não estará lá, somente o reflexo de um passado que ambos vão esquecer para sempre, como se não tivesse existido.
Como sabe isso tudo, doutor?
-Não reparou como os cabelos dela se revolvem sozinhos quando está sentada em frente ao mar, questiona o médico. Sim, responde Carlos. E como os seus vestidos se mexem sozinhos como se quisessem tapar o sol? Sim, diz Carlos.
Então significa que eia o elegeu para o corpo da sua paixão e agora que você cumpriu a sua última morte e o céu o atirou sem remorsos para o corredor da casa. Também ela, pela primeira vez, se vai mostrar por inteiro, nua, sem o braço, dedicadamente, no fim das lágrimas, porque sabe que só assim é possível viver. dentro do amor. Então estamos curados, pergunta Carlos. Estão, assegura o médico, esta foi para vós a última consulta.
A mulher está inclinada sobre os livros e vai tirando as flores machucadas de dentro das páginas. Estas são as flores que eu colhi para ti ao longo das tuas mortes, diz ela, vou pô-las em cima da mesa. A mulher deita-se com o corpo ajeitado de modo a que as flores ocupem o lugar do braço ausente. Carlos vai ao seu encontro e repara nesse espaço, como se a mulher estivesse desenhada num pintura. E está ali a paixão, naquela forma impura. Pela primeira vez ele sabe o aroma do seu sofrimento. Carlos confronta-se com a sede do mal, agora ele, olhando para a pistola apontada, sabendo que desta vez o seu peito não irá ser despedaçado. A mulher deixa cair a arma. O rosto dela aquece. Com o seu único braço chama-o para dentro do corpo.
VIII
Uma mulher com um choro persistente que vagueia agora junto ao corpo de Carlos, fazendo à sua volta um círculo de luz. Uma mulher dentro de um cerimonial antigo, onde os braços dele são já duas raízes que lhe prendem o peito e as lágrimas vão enchendo a casa, toldando as paredes para que o ar da rua não passe, nem o sol seque os seus olhos. Porque é daí, daquela cor vermelha roubada a um campo de camélias, dessa respiração interior, que lhe nascem aquelas lágrimas que o mantêm para sempre vivo dentro da cidade.