A Chegada (Abertura)
(1935) O PASSO decisivo – a linha divisória das
vertentes da sua vida passada e futura – foi o embarque
em Southampton, a 4 de Julho, dia da Independência e
portanto de festa para os mais de mil viajantes norte-americanos de todos os sexos – sobretudo o opulento –
ali reunidos para regressar ao seu país. Ancorado ao
largo por não haver cais de embarque com pé bastante
para o acolher, estava o Normandie, fulgurante de luzes
e promessas. Era a sua segunda viagem. O tumulto da
multidão, em grande parte embriagada, era de
ensurdecer – brados, apelos, risos, aclamações,
saudações, toda uma agitação de grande acontecimento,
como se a perspectiva de regresso à puritana monotonia
do business lhe desse uma derradeira explosão de euforia
demente. Os vestidos de grande moda, as peles (apesar
da estação quente), as jóias, os perfumes (vindos de Paris
com os usuários), as maquilhagens excessivas, as atitudes
de exibição, eram (como só anos depois ele veria) os das
luxuosas audiências nas noites de gala da Ópera ou do
Ballet, e evocava as maneiras abusivamente livres da
sociedade que Hemingway e Scott Fitzgerald pintaram:
de tal modo sugestivas, que contagiavam de um sonho
colectivo de destinos sem limites os próprios emigrantes
naquela multidão perdidos. Ninguém lembrava ali as
viagens fatais do Titanic ou do Lusitania, as tragédias
marítimas da primeira Guerra Mundial, nem lhes
ocorria a proximidade aterradora duma segunda guerra – a quatro anos apenas! Um vapor especial ia agora
transportar todo aquele mundo esfusiante para a Cidade
Flutuante que os esperava, de imensas portas
escancaradas jorrando luzes de oiro para o negro da
noite e das vagas. Já os criados de bordo, altos,
sorridentes, impecáveis, encasacados como membros da
Academia, acolhiam solenemente aquela horda
dolarferente, orientando-a individualmente para as
respectivas classes e camarotes, ou para as conveniências
sem limites da grande e luxuosa nave onde a orgia iria
continuar por mais quatro dias e noites, na deslumbrante
atmosfera de arte, luxo, gosto e disciplina.
As suas próprias agonias pessoais lhe pareceram
assim atenuadas.
(1935) ATÉ que um dia pôde enfim sorrir à distante
memória, em Julho, quando a Cidade, activa e
transbordante de mistério, o surpreendeu pela primeira
vez. Os seus, aqui, dois únicos amigos esperavam-no,
um a cada extremo do imenso cais-hangar, a essa hora
crepuscular e mesmo anoitecido, a que o Normandie
acostara para despejar os seus mil e quinhentos
passageiros. Encontro de emoções! Não teve dificuldade
alguma. Despachada em pleno tumulto a maleta do
visitante – dois ou três livros, um dicionário, alguns
papéis e as roupas estritamente indispensáveis (o fato único e o único par de sapatos, ambos novos, iam no
corpo) – levaram-no a jantar num restaurante da Rua
8, no Village. O sítio, a sala antiga, a clientela de
aparência escolhida, as conversas sussurradas, os risos,
ao fundo o pátio onde se instalaram debaixo do toldo,
entre exalações de culinária e de estivais verduras, os
criados de jaqueta vermelha, pretos retintos, altos,
impassíveis, um quase-nada desdenhosos – tudo lhe
pareceu luxuoso e lhe deixou a voluptuosa impressão
de se encontrar num país exótico, tropical, colonial em
suma: no ambiente de algum romance inglês. E
sobretudo o sentimento inesperado e surpreendente de
liberdade: poder respirar fundo sem disso dar contas a
ninguém. Apeteceu-lhe até tirar o casaco: olhando em
volta, porém, não ousou fazê-lo. Era cedo no Tempo:
isso viria dias depois, ao balcão dum fish-and-chips.
Depois, na rua estreita e popular, o modesto
apartamento acanhado e obscuro, acolhedor como um
inventado lar de sonho ou ninho de amor, que a doce
amiga soubera desencantar (só Deus sabe a que custo),
e onde lhe abriu os braços a acolhê-lo – “A tua casa!” –
a fim de que ele recomeçasse a vida em novas bases,
com outros moldes e destinos… Sentiu-se levitado de
esperança e felicidade como nunca tivera. Iria agora
poder, em nome do Amor, esquecer tudo, sofrer tudo,
incluindo o ciúme? O amigo morava fora da cidade e,
discreto e cordial, retirou-se sem demora no automóvel,
deixando-os sós. Não sozinhos, porque eram dois e
estavam juntos, embora definitivamente unidos em Um-
-Só, no ardor da paixão vulcânica e renovada: e porque
o Amor, em torno deles, a envolvê-los, era uma terceira
e bem-vinda presença e companhia.
Amaram-se logo até ao esgotamento, com a fome,
o ardor, o riso e as lágrimas do breve encontro inicial de
Lisboa, havia meses, mas agora com a quase certeza
dos inseparáveis. Logo ao romper do dia, satisfeitas as
primeiras e urgentes exigências da paixão, e (nele) do
esquecimento e da embriaguez, para lhe mostrar a sua
gratidão e torná-la feliz neste seu novo estado sub-matrimonial (que ele, a bem dizer, não esperava), pulou
no chão: “Vou fazer o café e trago-to à cama!” (Mimos!)
Mas ela: “Deus te livre! É muito complicado e eu não
estou habituada.” (Nem eu!) Mas então porquê? Havia
primeiro o suco de laranja, depois era preciso aquecer o
ovo à temperatura exacta, de relógio na mão; o café
não era como em Lisboa, de saco, mas de cafeteira-filtro,
ele ignorava a porção de café a usar moído muito grosso,
e a água devia estar furiously boiling! Santo nome de!
Leite ela não tomava a não ser em casos extremos:
bastava um fio de creme ou de leite evaporado. (Que é
isso, evaporado?!) Àquela hora já o leite devia estar à
porta, grosso de gordura no gargalo da garrafa de litro
(ou quase). Ou espera, não! Alguém – a irmã dela decerto – o tinha metido no ice-box. Outra novidade: era uma
espécie de pequeno armário de madeira, carvalho, com
isolamento interno, um frigorífico primitivo onde, dia-sim, dia-não, se encaixava um formidável bloco de gelo
que um homem trazia à porta (“Ice!”), e lhe iria (a caixa)
dar sério(s) trabalhos de atenção: um descuido, e o gelo,
derretido na tina ou bandeja, inundava a cozinha –
principal divisão e casa de entrada do apartamento –
com veementes protestos do vizinho de baixo, que era o
encarregado do prédio. “Ah, e as torradas! Sabes usar a
torradeira eléctrica?” Ficou encabulado de não poder
com tantos milagres técnicos, mas que remédio: estava
na América, terra deles! Ela tinha-lhe dito na curta
passagem por Lisboa: “O senhor fica já prevenido: se
algum dia for à – ou para a – América, está proibido de
entrar na cozinha!” (Pois sim, mas foi ele que teve de
lhe fritar dois ovos! E não tardaria – pressentiu – a armar
em chef.)
TUDO aquilo lhe deu que pensar: Não estaria ele
disposto a exercer sobre ela, mulher independente, as
suas tendências proteccionistas, paternalistas, que eram
talvez a maneira sub-reptícia de impor a sua autoridade
de macho? Não fosse ela ressentir-se também, como a
Outra! Por sinal, dias depois, ao cortar as unhas dos pés
com a velha tesourinha inglesa que herdara do morto
pai (Senhor, já lá iam nove anos, e com a ditadura!),
descobriu um novo termo de comparação: O homem e
a mulher são como os dedos grandes dos pés: iguaizinhos – mas opostos! Ou então como a imagem do espelho:
exactamente a mesma, mas do avesso ou invés! Que
grande novidade! Mas era isso precisamente que tornava
o Amor tão gostoso e possível, embora complicado. Ficou
muito contente com essa descoberta, que viria ajudar a
(re)solver muitos problemas futuros. Foi mesmo a
primeira coisa que o exílio lhe ensinou. Para o celebrar,
foi-se ao armário da cozinha, onde achara os restos de
uma garrafa de vermouth doce, e bebeu um copo dele
com gelo picado – que delícia, no tempo quente! Desde
Madrid, onze anos antes, que o não provava. (Ah, que
saudades da Carrera San Jerónimo! (1924) E do Hotel
Lisboa, e de Maruja alva e loura, de luto!)
Logo naquela manhã, já ela saíra, ao barbear-se ao
espelho do lavatório (agora não lhe faltariam lâminas,
embora a humidade do clima viesse a enferrujá-las
também), vendo o suor a escorrer-lhe em bica da testa e
das fontes para a cara, ele riu-se a perder: nunca se tinha
visto suar! Lembrava-lhe o pai, com aquele ritual do
beija-face e beija-mão, que tanto repugnavam aos filhos.
O estio equatorial nesta alta latitude assombrava-o
(Espera tu pelo Inverno e então verás!) A canícula de
Julho, agravada pela humidade quase irrespirável,
tornava imperioso o banho ou o chuveiro diário, às vezes
a dobrar. Os vapores do shower, condensados, alagavam
as paredes e os azulejos como num banho turco ou sauna.
A vigorosa calisténica do Amor fazia-os suar mais,
viscosos, peganhentos, aderentes os corpos! Muito eles
se riam! (e se banhavam.) Isso é claro não os fazia desistir.
Amavam-se a todas as horas disponíveis do dia e da
noite, ao amanhecer e ao pôr-do-sol, cega e repetidamente,
com um furor quase vingativo de recuperação.
O Amor exasperado era o seu refúgio contra a solidão e
a incerteza, as dificuldades, além de telescopagem dos
sete anos perdidos. Ele quase não podia crer no que
tinha sofrido naqueles últimos tempos. Sem Ela, que
teria sido dele? Salvara-o da loucura, do suicídio quem
sabe. Por isso a amava duplamente, como se tivessem
reatado a vida desde 1928 sonhada. Eliminar o tempo
intercorrente. Era a ela que ele tinha amado primeiro.
Depois, tudo fora uma eternidade medida em desgostos,
privações, sustos, desilusão.
Por algum tempo ainda ele sentiu a trepidação
violenta da popa do Normandie, espécie de contra-canto
vibratório dos nervos, que de repente o acordava
alarmado, supondo-se ainda a bordo. As molas e redes
metálicas da cama rangiam em acordes de inusitada
harmonia musical, ao ritmo acelerado do Amor. Na
realidade aquilo não era cama, era um couch (lê-se cautche)
ou divã desdobrável: a metade inferior arrumava-se
durante o dia debaixo da outra. (Quando chegaremos
nós a ter uma cama de verdade?) Certa madrugada caiu
do divã, como sacudido por um sismo; que de facto
houvera segundo os jornais: em Brooklyn, na outra
banda do East River. Limitara-se a rachar algumas
paredes caducas.
Nem tudo, pois, era fácil ou aprazível. Imenso o
contraste com a sua vida anterior, desprovida como fora.
Vinha da Cidade supostamente do sol e do luar, dos
vastos horizontes suburbanos, dos ares lavados e
respiráveis, ainda livres então dos fumos e poeiras
industriais: sim, mas onde chegara a sofrer de fome e
outras privações, devorado pelos mosquitos sanguissedentes,
e onde tomava banho no alguidar de lavar
roupa: e achava-se de repente prisioneiro-livre dum
bairro de ferro-velho! Logo nas traseiras ou ao lado
daquele rés-do-chão havia um pátio e barracão onde se
amontoavam carcaças e peças avulsas de automóveis
ultra-usados, torres de pneus e mil outros artigos em
estado de sucata, numa confusão de terramoto. Abria a
janela, o ar entrava quente e sobrecarregado de
limalhas, de exalações azedas e gordurosas, de poeiras e
detritos de carvões e fumos sufocantes. Dez vezes por
dia limpava o tampo da mesa (oscilante) de trabalho,
coberto de um áspero filme de sujidade, e outras tantas
vezes lavava as mãos. Chegou a recear-se vítima da
mania de escrúpulos ou de limpeza! Assim o descrevia
em humorosas cartas a dois ou três amigos de Lisboa,
falando da solidão, dos trabalhos, ambiente, usos e
costumes, dos projectos que tinha – mas nunca do Amor,
por discreção ou prudência.
Tudo isso lhe era naturalmente estranho, embora
novo e épico de amor. Abafava entre paredes salitrosas,
esfarelentas, mil vezes repintadas, como o soalho
irregular, rangente, cor-de-sangue-de-boi ou mesmo
negro, com cabeças de pregos salientes como nas velhas
casas pombalinas da sua infância: quando ele o lavava
a grandes águas de sabão e escova, desprendia um fedor
acre de velhice, tintas e detritos estratificados, bolor e
mijo de gato. Os fluidos químicos de limpeza afligiam-no (nariz sensível!): O asseio é tanto que até fede! Concluía
a rir, com vontade de chorar. Ó cheiros da Natureza, onde
estais vós! Quando poderia voltar a escrever? Porque tudo
isto o estimulava. Era no Greenwich Village de universal
reputação. Assunto não faltava. Devia adaptar-se. Tinha
de. Era imperativo. O Amor, que tudo acende e
transfigura – Che muove’l Sol e l’altre stelle! – transfigurava
o ghetto em Paraíso.
Ficava ali sozinho o dia inteiro, ardendo de gratidão,
impaciência e desejo. Ela chegava ao fim da tarde, calma
e sorridente (o sorriso de Mona Lisa!), e precipitavam-se
nos desfiladeiros da paixão. Em seguida ela sentava-se à Remington portátil (quantos impressos a preencher!),
erecta no seu vestido arrendado sobre um fundo laranja-fogo, e ele, num mocho ao lado, olhava-a de baixo
para cima, em adoração: ela batia as teclas com rapidez,
sorrindo sempre, mordendo as bochechas por dentro,
hábito que nunca perdeu. De baixo, no subsolo, onde o
janitor (de Jano, latino sabor arcaico – assim se chamava
o encarregado) vivia com a mulher ou amiga, subiam àquela hora sons abafados da rádio, a voz duma torch-singer (Helena Morgan com certeza), grave e dramática,
o mistério sensual e provocante das canções de night-club: mundo estranho e sedutor! Ele gostava daquilo,
inspirado, vagamente antecipando não sabia o quê: O
que nunca seria! Outras vezes eram ralhos: o homem
tinha fama de gangster recuperado! Tudo isso o excitava
e ajudava a compor o cenário, a torná-lo aceitável.
Ou vinham visitas, quase diariamente a irmã mais
nova, decoradora e marionetista, um anjo, ou então as
lésbias, adoráveis raparigas, bem vestidas, muito
femininas – nada da odiosa rita-macha Gertrude Stein!
– às vezes em grupos, que lhe inculcavam indefiníveis
apetites. Duas delas, sentadas no divã, com ele ao meio,
puseram-se uma tarde a admirar-lhe os sapatos cor-de-castanha, feitos sobre medida por um bate-sola de porta
de escada do Intendente, por oitenta (80!) escudos, e
eram de facto uma obra-prima de arte portuguesa. Elas
nem podiam compreender: por tuta-e-meia! Lisonjeado,
já ele sonhava talvez convertê-las? (Algumas cultivavam
o amor a dois carrinhos.) Com frequência aparecia o
amigo e vizinho chileno, o B., ajudante de arquitecto,
que uma tarde lhe trouxe de surpresa, imagine-se!: o
secretário-geral do Partido Comunista! Um tal Hathaway,
irlandês arruivado, tipo familiar de operário ou marujo,
um “obreirista”, falando com volubilidade como um ex-anarquista convertido ao novo ideário. Até o fez pensar
no Bento Gonçalves! (Não tardou em ser substituído
por um sujeito de superior envergadura mental, e nunca
mais se ouviu falar do proletariano Hathaway, simpático
tagarela que tivera ao menos a curiosidade de conhecer
um “camarada” português exilado!)
Apesar de se exprimir com relativa facilidade em
inglês, custava-lhe entender os americanos da base, aos
guichés e balcões: se não ouvia bem e repetia a pergunta,
eles irritavam-se, respondiam torto, eram europeus como
ele mas já sem o verniz da paciência, deixavam-no
desolado. Entendia muito melhor os judeus, hábeis em
se exprimir (os cultos), como a Minna, quente e suave
mulher, advogada e boa amiga, que silabava nitidamente:
“Are you working hard?” Não perdia uma
consoante! Ou faria ela de propósito para ele a entender
melhor? Até uma noite os levou a conhecer um juvenil
casal de amigos, judeus também, ele professor de Direito
da New York University, e ela uma das mais lindas
mulheres que ele vira e viria a conhecer em sua vida:
destas que têm os olhos muito negros na alvura radiante
da epiderme, febris ou fulgurantes, como se fossem
deliciosamente lubrificados. Se entendem o que eu quero
dizer! O marido era trotzkista. Travaram uma discussão
vivíssima, ele (feito estalinista!), com o seu inglês ainda
cru, levou a melhor, a mulher pugnou por ele, e parecia
que o comia com aqueles olhos inesquecíveis, quase que
se apaixonou por ela. O professor encabulado, cheio de
ciúmes! Nunca mais se viram. Coisa frequente no país!
Nesse tempo, graças às leituras marxistas, tudo lhe
parecia claro e simples. Até agradar ao belo sexo!
Com o B. e a amiga, a escultora Myrtila, tiraram
retratos no pátio interior do prédio, de pouca verdura,
sombrio, húmido e silencioso. A Estela, a doce e lânguida
morena, ficava brandamente expressiva e feliz, com
aquele sorriso de Gioconda! Ele, no seu fato cinzento de
bom corte, e meia-estação… para o ano inteiro!, obra
de um alfaiate de meia-porta da rua dos Fanqueiros –
uma elegância inesperada!
Estando sozinho em casa, se alguém batia à porta
ou o telefone tocava, ele não respondia: por prudência e
receio de não entender. Uma tarde não fez caso ao som
da campainha, e daí a pouco, ouviu um grande
sarrabulho na salinha de banho: alguém tentava entrar
pela janela, sempre aberta, falando alto para fora! Ou
eram ladrões ou era a Polícia! Correu a ver: era o (futuro)
cunhado, o mais novo, de dezoito anos: “Joe! Não
respondeste, julgámos que não estava ninguém em casa!
Desculpa!” Não lhe parecia admissível entrar assim em
casa pela janela da sala de banho, mas enfim!…
Liberdades! Riram. O jovem trazia-lhe alguns objectos
indispensáveis à vida doméstica.
TINHA por vezes a estranha e feliz sensação de que
a vida ia decorrer assim indefinidamente, modesta,
anónima, segura, sem altos nem baixos, e tingida de
Amor: o seu sonho! Sentia-se contente na obscuridade,
longe de diplomas e formalidades que sempre odiara,
Mister Qualquer-Coisa. Não dependia de ninguém –
ilusória esperança que cedo seria desmentida! Só tinha
pena que não houvesse peles-vermelhas! Tinha feito a
sua educação americana nas obras de Gabriel Ferry,
Mayne Reid, e Gustave Aimard, nas novelas de índios “rojos” (em espanhol), de Texas-Jack, menos de Buffalo-Bill, nos policiais de Nick Carter, Miss Boston, Nat
Pinkerton, Patrick Osborn, cheias de racismo e de anti-
-labor (que ele odiava!), e até na obra de um cônsul
português, que o empolgara mas de quem esquecera o
nome! E os Contos e alguns poemas de Edgar Poe! Só
não leu (entre os dos índios) o Fenimore Cooper. Muito
mais tarde viria a ler o de Tocqueville, e depois de
formado, o de D. Pasquet – História Política e Social do
Povo Americano (1924), uma obra extraordinária francesa!
E outros, como o inocente Kafka de 16 anos, Amerika,
onde a Liberdade da estátua aparecia empunhando uma
espada romana em vez do archote! Até parecia um dos
(maus) folhetos de Nick Carter! Ora, tudo isso era
América para ele: This is America for me! (canção.) Claro
que, com o tempo, leria legiões de historiadores norte- -americanos, mas encheria páginas mencioná-los!
Tão pobre como antes e mais. Morrer de fome não
morriam, ela tinha o emprego modestamente pago, as
traduções, e ele ia com certeza arranjar ocupação: havia
o Cinema a traduzir (fia-te nisso!), e os amigos
brasileiros… Lá com portugueses nada.. Nem sequer se
apresentou no Consulado. Foi preciso vir de lá um seu
antigo colega, agora cônsul-adjunto, visitá-lo: “Então
você está cá há quinze dias, e nem sequer pia?!” Se ele
era um exilado político!… Fica para mais tarde.
Ao menos, agora podia meter a mão num bolso e
encontrar alguns cobres, não muitos, para um jornal,
cigarros, o café, e mesmo um cinema (a dois). Devia-o a
ela. Querida mulher! Infelizmente, como “visitante”
temporário, estava-lhe vedado ganhar dinheiro. Então
como é que iam viver?! Sério problema. E ainda havia o
perigo das “leis azuis”: sagrados mandamentos da
moralidade puritana – nada de adultérios, mancebias,
promiscuidades… (Mas aprovando o casamento de facto
entre amantes conviventes: pela common law.) Entretanto,
a prostituição prosperava a olhos vistos: clandestina,
claro! Nas mãos dos mafiosos. Se ele até o Gorky fora
convidado a sair do país, porque viera acompanhado
da “amiga”! Isto apesar de dormirem em quartos
separados, no mesmo hotel de luxo. A corrupção tem
destas hipocrisias – ou vice-versa?
Discutiam o assunto, apoquentados. Sendo ele ainda
casado com Outra, não haveria o risco de que Ela (a
Outra!) viesse surpreendê-los naquele estado? Haver-havia. Parece que até tinha parentes em Yonkers, cidade
próxima. Talvez preso, ou mesmo expulso! Ah, com
certeza… “Afinal eu não vim na suposição de vivermos
juntos, pois não?” (E de outro modo como viveria ele?)
A Estela olhou-o com atenta gravidade. Mas que
estúpida, impensada maldade a dele, ao dizer isto!
Sentindo que já nada os podia separar. Como é que ela
tolerava semelhante insulto? “Só por causa das
aparências…” – acrescentou ele, pior a emenda que o
soneto. Porque cá não há “aparências”! Pois bem, na
sua habitual serenidade ou fleuma, imperturbável, ela
pôs-se a procurar com ele outro apartamento no mesmo
prédio, ou porta ao lado, onde ele pudesse ir morar
sozinho. Que ideia! Onde é que estava o dinheiro para
nova renda? É claro que desistiram.
A memória da Outra perturbava-o de remorsos. Tê-la-ia abandonado sem motivo suficiente? Mandara-a
embora num cego impulso? Mas então não fora ela a
culpada da ruína de todos os seus planos e sonhos? Só
escrevendo um romance… Talvez no futuro! Era
impressionante o contraste entre estas duas mulheres.
Teria ele errado na escolha? De qual delas? Ambas o
tinham apaixonado a seu modo. A poucos dias da
chegada viera o cartão: “Estou em Lisboa à tua espera.”
Essa agora! Os parvos ou malévolos amigos tinham-na
informado da sua direcção, contra o combinado. Que
fazer? Não respondeu. Mantinha-se porém a aresta ou
divisória da decisão ou escolha.
O passado, com que ele se esforçara por romper – o
seu e os das suas mulheres – não estava pois tão enterrado
como ele supusera, ao cavar-lhe de permeio a fossa do
Atlântico. Vinha ela agora perturbá-lo, atormentá-lo,
em plena liberdade e suposta felicidade! Como ele não
aparecia, ela cedo regressou à origem. Vieram então as
cartas de amigas e primas: hesitava em abri-las. “A
Magda passa fome!” “Para continuar os estudos tem de
servir à mesa na cantina dos estudantes, sofrer
insultos…” A ele custava-lhe engolir a magra costeleta
de carneiro do almoço pensando que ela sofria de
privações. Se ao menos ele conseguisse passar de visitante
a imigrante, e ganhar dinheiro! (Em quê?) Mas era
complicado, se não impossível, e custava caro. Metia
advogados. A angústia recomeçou a estrangulá-lo. A
Estela daria por isso? Não ousava falar-lhe no assunto.
Havia nele um jogo de ambiguidade, de duplicidade:
num vago intento de represália (ciumento do passado
dela!), disfarçadamente dúplice, deu em trocar com a
Outra uma espécie de correspondência clandestina!
Tinham afinal lembranças do passado em comum. Era
uma deslealdade de todo o tamanho, um remorso a
dobrar o remorso. Mas talvez ele achasse interesse nas
situações dramáticas. Nascera para elas! Porque lá voltar
ao passado, nem pensar nisso! E não devia ela ter ciúmes
dele também?! O casamento dele fora uma verdadeira
traição a promessas implícitas (isto é, nunca formuladas).
Impassível, ela nem sinais dava de tal coisa. O que só
agravava as dúvidas dele: não o amaria de verdade?
Como é possível amar alguém e não ter ciúmes?! Ou não
o amava ela com o mesmo grau de paixão que ele lhe
consagrava? Sim, porque via agora claramente que
nunca amara assim mulher alguma!
Não podia propor-lhe a bigamia, o ménage-à-trois!
Pois bem, ela iria mais adiante ao extremo inacreditável
do sacrifício, ao tentar promover a vinda da rival! Se
isto era admissível! Conceber semelhante absurdo. Era
a fleuma, o fair-play, a sua eterna serenidade a disfarçar
talvez a paixão? A insondável sensualidade, satisfeita
sem o compromisso do amor?… E aqui a indulgência
dela só lhe agravava o ciúme. Era um círculo vicioso!
Foi quando a Outra – o que é a esperteza! – dissimulada,
sournoise, supondo-se insubstituível e vencedora, alegou
que o seu antigo professor de Biologia, esqueci-lhe o
nome, que tanto interesse mostrara ter por ela logo ao
primeiro exame, lhe prestava agora “um auxílio
precioso”, uma “grande ajuda”, e que ela não o queria “magoar”! Desiludi-lo, talvez? Pobrezinho!! O nervo dela,
só vendo. Era o cúmulo, a ameaça, a chantagem – mas,
esperta de mais, deu a solução: ele expulsou-a de vez em
carne e em espírito. Que se governasse. Eu também aqui
estou a sofrer! (Exagero? Mas talvez não fosse). E suspendeu
a secreta correspondência adulterino-matrimonial.
Mas ia agora aprender que a Vida, como as moedas,
tem sempre duas faces: Caras e Cruzes.
(fim – provisório – do conto!)
(parte final, reservada)
Chegada do Foragido
(1935) sim, havia o problema do ciúme retrospectivo,
ainda não solucionado. O episódio da gatinha,
por exemplo! Tinham-lhe dado o nome de Bendéry, por
estranha coincidência o mesmo de um porto no país
natal da Outra, em território anexado à Roménia desde
a primeira grande guerra. Porquê? Esse era também – e
aqui ele torcia-se todo – o nome do vapor francês em que a
Estela viajara de New York a Lisboa e volta, naquela
segunda e memorável visita por ela empreendida em
1932, para ver confirmado o boato do casamento dele
com a “russa” (que o não era).
Na tarde da despedida ela convidara-o a acompanhá-la a bordo e apresentara-o a um oficial taciturno
(comissário de bordo?) que lhe oferecera um drink e o
olhara com a fixidez da suspeita ou da rivalidade – aliás
mútua! Ele não simpatizara mesmo nada com o sujeito.
Instinto? Para quê esse convite? Seria propositado para
o encabular? Mostrar-lhe que não era ele o Único no
mundo? E agora, a presença da gatinha de poucas
semanas de idade, oferta recente do mesmo cavalheiro, ou
nele inspirada, a provar que, DOIS A TRÊS ANOS
DEPOIS DAQUELA VIAGEM, o mareante continuava
a frequentá-la, talvez nesta mesma casa! (Ou não,
porque ela morava, antes de ele vir, numa Residência
exclusivamente de mulheres.) Em todo o caso, a
frequentar a roda do Village, que era a dela! Queriam
prova mais segura?… Era a suspeita do laço odioso
confirmada. E havia ainda a história de uma viagem
de três dias a Espanha, supostamente a visita às três
tias gaditanas! Então não lhe bastava Um só? Quantos
lhe eram precisos?…
O ciúme transbordou em cólera e reproches: Pois
não via ela que isso a expunha e denunciava (o da gata)?
E o vexava? Não pensara no efeito que isso podia ter
nas suas relações? (Ou fizera-o propositadamente?) Seria
ela – mas isto não ousou ele dizer-lho! – uma dessas
aventureiras, em geral americanas, como tal conhecidas
no mundo inteiro, e assunto de anedotas picantes entre
os homens do mar e do turismo? (E então em Paris!…
Ou-là-là! Les Americaines!) Um piloto seu amigo dissera-lhe um dia: “Estas gajas, assim que pisam as tábuas
do convés de um navio, perdem logo todo o senso de
pudor e dignidade, e entregam-se sem escrúpulos ao
primeiro uniforme branco, engomado e agaloado com
quem dancem um fox ou um shimmy, e lhes faça rapapés!”
Profissionais, umas e outros, da prostituição turístico-navegatória! A este pensamento ele explodiu: “Porque é que ao menos não te desfizeste da gata antes da minha
chegada?! Ou julgas que eu não tenho memória?”
Foi o que ela logo fez, prudentemente, sem um
comentário: o corpo de delito, na dele, a pobre bichana
que não tinha culpa alguma de tais simbolismos ou
rumores! Quanto ao mareante, esse nunca mais (que
ele soubesse) mostrou o nariz naquela casa ou arredores.
Não era evidente? Tinham-no prevenido! Mas então já
uma mulher não pode ter amizade ou gratidão a um
homem, que não haja logo suspeitas de…? Ora,
cantigas! E quem sabe? Todo o passado dela lhe pareceu
comprometido, até mesmo antes do seu distante primeiro
encontro (1928).
A tortura, uma vez iniciada, cresceu, inchou,
multiplicou-se. Tudo agora eram motivos de ciúme.
Obcecado e algo traiçoeiro, na ausência dela, estudou-lhe furtivamente o passaporte USA, o mesmo ainda de
há três anos, para verificar as datas, especialmente as
da inexplicada e misteriosa viagem de três dias a
Espanha, no cego impulso, segundo ele cria, de represália
por o ter visto casado: as datas coincidiam! E esse não teria
sido com certeza o primeiro encontro com o anónimo
sujeito (ou objecto?) dessa excursão obviamente… quê?
Amorosa? E que outra coisa podia ser?! Já decerto se
tinham conhecido: onde e como? Nos anos da sua
candura ou inexperiência, não lhe escrevera um dia,
num pequeno retrato que lhe mandou, donde um outro
figurante fora cortado: “O senhor é ciumento?” Como elas
começam cedo e são peritas!
Sentiu-se burlado, traído, prisioneiro duma cilada.
E que fazer agora? Descontrolado, de passaporte em
punho – a prova! – forçou-a a confessar o insanável
deslize, cicatriz para todo o sempre indelével. A sua
raiva era tal, que poderia ter assassinado alguém.
Apertado na tenaz das suas próprias contradições, levou
mais longe a feroz inquisição. Queria agora saber –
sofrer! – mais: Quem, quando, onde, como? Qual outro
Eterno Marido de Dostoievsky… Ela, assombrada mas
calma, respondia-lhe como a um louco: não vendo nisso
tudo, decerto, nenhum pecado passível de censura ou
punição; numa paz de consciência que o exasperava
como sintoma do “cinismo anglo-saxão”, ou talvez
porque implicava a muda acusação de ser ele o autêntico
culpado do transvio: pois se ele se casara, e sem prévio
aviso à parte interessada, que merecia ou podia esperar
senão aquilo? O quê? Então a culpa de um justifica a
do outro?! Dois tortos não fazem um direito! Conteve a
custo a raiva vingativa. Mas quando um dia, esquecida
do insulto, numa hora de paixão, confiança e plenitude
amorosa, ela, grata pelos incansáveis recursos dele, e
querendo elogiá-lo, lhe confessou candidamente: “És
tal-qual um homem com quem eu tive relações por seis
meses!”, ele, tapando-lhe a boca (para a não estrangular),
gritou: “Nem mais uma palavra!” – e retirou-se dela
brutalmente… Pois quê, iria ele durar também só seis
meses, apesar das suas comprovadas qualidade e técnicas
viris, feito objecto de passageiro gozo ou capricho de
irresponsável aventura!? ERA ISSO O AMOR? E
quantos outros não teria havido no passado? Nesse caso,
que faço eu aqui? A que vim? Desejou matar esse rival
desconhecido, e para mais português! Quer dizer
linguareiro ou gabarola, vivo algures, que se estaria rindo
agora à custa deste pobre inocente! A sua reacção foi
tão aparente na atitude e na expressão, que ela o olhou
pela primeira vez alarmada sob a iminência da agressão
reprimida. Era outro homem? Mas afinal – reflectiu ele – não era aquela comparação o mais alto elogio a que
ele podia aspirar como homem? Não obstante, o rancor
permaneceu, embora surdo.
Na tarde em que o idoso e respeitável engenheiro
X., antigo patrão dela, mas comprovadamente (pelo
menos) não mais do que isso, ou apenas candidato, a
veio visitar, decerto para conhecer e avaliar pessoalmente
o rival de sorte (quantos anos mais novo!) que lhe
ganhara, ele, depois de o ver sair, desencadeou uma tal
cena, que a fez romper pela primeira vez num choro
desatado e provocou o seu primeiro grito de revolta: “A
esse, eu quero-lhe como a um pai! Se ele agora aqui
voltasse a aparecer, eu corria a abraçá-lo!” Mas pensaria
ela nas fatais consequências que isso poderia ter para
ambos eles – nós? E não havia nisso um quase convite à
separação? Percebeu, ele, o perigo que corria… Mas (de
novo) como elas são hábeis em criar situações sem saída!
Outras suspeitas o atormentaram. Começava a ver “amantes” (ex-) em todos os conhecidos dela, ali ou fora
dali. As mulheres são tão fáceis! E que ganhava ele com
isso, ele, o obcecado da monogamia? Queria perdê-la?
Prová-la indigna do seu amor? Ir-se embora talvez –
para onde e para quem? Pois se não tirava de tudo aquilo
nenhum gozo masoquista! (E quem sabe…) Então?
Deixar-se ir até ao desespero, ao suicídio? Depois de
tanto sofrer? Por causa de uma mulher! Ele, que jurara
antes cortar os testes do que submeter-se aos caprichos
da Outra? (Pobrezinha!) Senhor, em que meio ele viera
cair em busca do Amor! Antro de puritana inocência,
ou de inconsciente corrupção? E se ela fosse outra Isadora
Duncan, Lou Salomé, Frieda Van Richthofen (a do
Lawrence), ou Alma Mahler, que pertenceu ao
compositor, e ao Gropius, e ao Werfel, e ao Kokoshka,
e sabe Deus a quantos mais?! Por essa ou outra ordem?
Que poderia ele contra isso, se a amava? Aceitaria tudo
resignado, como esses amorosos pouco exigentes?
Abandonava-a? Sofreria para todo o sempre? Resignava-se a sabê-la livre? … Ah, lá isso!…
O problema era insolúvel. Uma das amigas dela,
que ele chegara a supor lésbia, fora ao ponto de dizer: “Oh, ele é delicioso! Cheio de nervos! Se um dia te fartares
dele, eu tomo-o de trespasse!” Fartar-se? Trespassá-lo? Era
então isso o sonhado Village? A promiscuidade, a
libertinagem, a colectivização do sexo, o escambo dos
amantes? Aonde chegara este mundo em que ele tentara
ser e ficar puro ou casto e fiel? (Tentara? Ou apenas
sonhara?) Nunca mulher alguma o tinha feito sentir
assim tão mal: nem a Concha prostituta, nem a Dama
da Casa das Rosas, burguesa, casada e mãe de filhos,
que o tinham glorificado e de quem ele fugira!… E
porque fugi eu? Jesus-Senhor – porque as não amava! Aí
estava a explicação, o AMOR! E no entanto, influência
talvez já do meio, ele próprio não tardou em sentir-se
tentado a um pluralismo erótico, sonhando arranjar
outras “amigas”… Com que meios? Amor-cadeia, a
quanto obrigas! Não se estaria ele corrompendo
também? Como é que estes homens (e outros) se
deixavam embeiçar por mulheres que tinham conhecido
um ou mais amantes ou maridos, mostrando uma
sensibilidade comparável à de tantos outros machos da
natureza?… Sempre o tinham intrigado: que gozo, que
frescura achavam nelas? E não deixei eu a Magda inocente,
a quem supunha idolatrar? O que é o ciúme senão uma
nevrose de inferioridade, o temor de supor-se desvantajosamente
comparado a, ou confrontado com, outro(s)
macho(s)? A inveja, o despeito, o temor das íntimas
aparências? E daí o querer assassiná-los! Não será o
ciúme um disfarce do ódio, o seu primeiro passo? E no
entanto, o sonho da pureza da Mulher, essa herança
ancestral de que ele sofria… Bolas!
Para que torturar então esta santa e amorosa mulher,
que tudo fizera para a salvar e reaver, mesmo em segunda
ou ENÉsima mão? Não era isso o Amor? Por que motivo
não haveria entre ambos uma honesta reciprocidade?
Que mais podia ele pedir ou esperar com trinta e quatro
(e ela com trinta!) anos? Havia nela, além da bondade,
boa-fé e equanimidade, um espírito de sacrifício e bem
fazer, o culto do fair-play, da transigência e da concórdia,
da liberdade individual, uma coragem e sensatez que
pareciam contradizer a suposta libertinagem do passado!
Talvez fosse essa a condição prévia, indeclinável, do
fervor amoroso de que ele agora usufruía! Tinha sido
escravo do preconceito, do prestigioso privilégio da
pureza ou virgindade da Mulher, hipnotizado desde a
infância! Iria então libertar-se dele? Ou era talvez a
beleza visual do sexo intacto ou pouco usado que o
fascinava? (Não lhe dissera um dia um amigo de mais
de 70 anos: “Haveria no mundo outra coisa tão bela de
contemplar?”) Uma espécie de kosher bebido na tradição?
(Mas porque é que Deus as tinha dotado daquela
membrana comprometedora?) Porque os homens são
vítimas também das heranças culturais!
Sim, tudo era afinal uma questão de cultura (ou de
estética) mais que de moralidade. Estranha contradição
entre o pendor para a castidade e a virtude, a
monogamia, a fidelidade, pelas quais tanto sofrera, (sem
porém deixar de as transgredir ocasionalmente) – e os
seus actuais impulsos orgíacos, de promiscuidade
boémia, de variedade “tipológica”? (“Me gustan
todas!…”) Sofreria da influência dela? Ou do meio? Que
direito tinha então de exigir dela uma virtude que ele
próprio transgredira e contra a qual sonhava tornar a
fazê-lo?
Devia-lhe (além do amor) a possibilidade de vir a
realizar a “obra” que sonhava e não sabia ainda qual
fosse. Apoderou-se dele, pouco a pouco, uma gratidão
admirativa, uma ternura e condescendência imensas,
que lhe iam permitir viver em paz consigo próprio e
contentamento dela. Pensou na famigerada Lou Salomé,
e dos muitos homens a que ela pertencera talvez, sem
que nenhum deles a possuísse em espírito – e só
dificilmente em corpo! Recalcou quanto pôde a
amargura do ciúme, procurando racionalizá-lo para se
libertar e ser feliz. Porque todo o bem da vida consiste
em dar e tomar, como com ela vinha aprendendo.
Lá bem no fundo, porém, apesar de esforços e de
aparências, e embora reconhecendo a sua própria
(involuntária) culpa, e legitimando o passado dela,
[talvez] nunca viesse a conseguir o milagre supra-humano do total perdão. Guardou um dormente
sentimento de represália, por vezes activo, a que se
julgava com direito por ter sofrido uma tão longa
juventude de privação quase monástica. O que o levaria
a fantasiar, e a cometer por vezes, infidelidades que só
viriam a causar-lhes, a ele sobretudo, escusados
sofrimentos.
Nota sobre “A Chegada” de José Rodrigues Miguéis
Encontrei o manuscrito de “A Chegada” em Julho de 2002,
no espólio de José Rodrigues Miguéis na John Hay Library da
Brown University, nos Estados Unidos. Na altura, andava eu
a preparar uma antologia em língua inglesa, a ser publicada
pela Editora Gávea-Brown, dos contos e crónicas “americanos”
deste autor que, como se sabe, residiu em Nova Iorque durante
mais de quatro décadas até à sua morte em 1980.
Trata-se de um inédito, o esboço de um conto, ao qual Miguéis
acrescentou uma “parte final reservada” com o intuito de o
transformar em novela. Seja qual for o género literário a que “A
Chegada” pertença (o autor parece ter encarado o assunto com
uma certa fluidez, escrevendo crónicas que poderiam considerar-se contos e vice-versa), esta novela é bem representativa da obra
de Miguéis, tanto em aspectos da técnica narrativa (uma certa
teatralidade caracterizada por exclamações, auto-reflexões e
apartes) como na forte influência autobiográfica. É este último
aspecto que é particularmente evidente em “A Chegada”. As
biografias do autor confirmam que Miguéis conheceu a futura
mulher, Camila Campanella, portuguesa residente desde a
infância nos Estados Unidos, por ocasião de uma visita que ela
fez a Lisboa em 1928. No ano seguinte, Miguéis foi tirar um
curso a Bruxelas, onde conheceu Pecia Cogan Portnoi, de origem
russa, com quem se casou em 1932. Pouco tempo depois de regressar
a Lisboa, o casal separou-se, e Miguéis, em parte por razões
sentimentais mas também por motivos políticos, embarcou para
Nova Iorque em 1935 a convite de Camila Campanella, com
quem viria a casar-se em 1940. Ora “A Chegada” é precisamente
a história desse reencontro de 1935 em Nova Iorque, reencontro
que os nomes das personagens (Estela/Camila, e Magda/Pecia)
mal disfarçam. Porém, se Miguéis queria proteger o “anonimato”
das suas mulheres, o seu “foragido”, a uma certa altura, é
identificado pelo nome Joe (Zé), e como se isso não bastasse, o
autor intervém directamente na narrativa na forma de um “eu”
159
enunciador para ilustrar a coincidência exacta entre Miguéis e o
seu protagonista masculino.
É bom lembrarmo-nos que Miguéis era um escritor formado
dentro da tradição do grande romance realista do Século XIX.
Não aborda a temática autobiográfica como o faria um escritor
pós-modernista, isto é, para baralhar os géneros literários e apagar
a suposta linha divisória entre realidade e ficção. Em “A
Chegada”, Miguéis escondeu-se atrás de uma narrativa ficcional
motivado por aquilo que, segundo Northrop Frye, é uma
necessidade tradicional e fundamental dos autobiógrafos:
justificar-se por meio de uma confissão, uma “viagem interna”.
Tudo indica que esta novela foi escrita, ou pelo menos revista, em
Agosto de 1980, menos de dois meses antes da morte do autor.
Nunca saberemos se Rodrigues Miguéis escreveu “A Chegada”
para aplacar a consciência. Seja como for, a novela é um pequeno
estudo psicológico sobre um confronto cultural em que um português,
proveniente de uma sociedade patriarcal (e, ainda por cima, em
plena ditadura salazarista) tenta adaptar-se às liberdades de
uma civilização urbano-industrial. Posto de forma mais simples,é uma história de ciúmes.
Na reprodução desta novela inédita, obedeceu-se às convenções
ortográficas seguidas pelo autor, mantendo-se o texto original.
Ficou corrigida uma ou outra gralha, emendado um ou outro
deslize, produto talvez da longa vivência do autor com o inglês.
Por outro lado, é interessante notar em Miguéis sinais de uma
tendência que existe entre autores que vivem em situações
multiculturais: a influência inevitável da língua circundante
(por exemplo, “o nervo dela” para evocar a desfaçatez da mulher),
e uma atitude um tanto lúdica em relação à língua (ver, por
exemplo, “a horda dolarferente” ou a “telescopagem dos sete anos”).
Tudo isso contribui para confirmar José Rodrigues Miguéis como
uma voz única e original da literatura portuguesa do século XX.
DAVID BROOKSHAW