|
|
Biblioteca online
do conto |
A Ficções apresenta a primeira BIBLIOTECA ONLINE DO CONTO. Através dela, queremos tornar acessíveis a todos os leitores de língua portuguesa os textos integrais de alguns dos contos mais notáveis do século XIX português.
Veja mais... |
| |
|
| |
|
| |
|
|
| |
|
|
| |
Biblioteca mínima do conto |
|
| |
tuv |
|
| |
|
|
| |
Tchekov, Anton
”Há na Rússia um médico, o Professor Emérito Nikolai Stepánovitch Tal e Tal, Conselheiro Privado e Cavaleiro; tem tantas condecorações russas e estrangeiras que, sempre que é obrigado a ostentá-las, os estudantes lhe chamam Iconostase; o seu círculo de conhecimentos é muito aristocrático; nos últimos vinte e cinco ou trinta anos não há nem houve na Rússia nenhum cientista famoso que ele não conhecesse intimamente. Agora já não tem com quem fazer amizade, mas no passado ofereciam-lha, da mais sincera e calorosa, nomes que entraram na comprida lista dos seus gloriosos amigos [...]. É membro honorífico de todas as Universidades russas e de três estrangeiras, etc. etc. Tudo isto e muito mais que se poderia ainda dizer constitui o que se chama o meu nome. Este meu nome é popular na Rússia, qualquer alfabetizado o conhece.”
“Uma História Enfadonha”
in Contos, vol. II, p. 7 |
|
(1860-1904)
Contos. Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Lisboa: Relógio d’ Água, 2001, 2 vols.
Mais conhecido como dramaturgo, Anton Tchekhov é um dos contistas mais inovadores e influentes de sempre. As suas cartas mostram-no preocupado e atento ao processo da escrita contística, quer nas críticas, quase sempre generosas, que faz a outros escritores, quer descrevendo as suas próprias descobertas. Escreveu abundantemente sobre tudo o que o tocava - e tudo o tocava - , desde a menoridade social e intelectual das mulheres (é talvez o primeiro escritor feminista) à realidade miserável e primitiva da vida camponesa, num tom contido e compassivo. “A literatura artística chama-se assim, “escreve” – porque pinta a vida como ela é. O seu objectivo é a verdade - incondicional e sincera.” Essa verdade, para Tchekhov, era sempre libertadora: “O meu santo dos santos é o corpo humano, a saúde, a inteligência, o talento, a inspiração, o amor e a liberdade mais absoluta - liberdade em relação à violência e à mentira, sob todas as suas formas. Este seria o meu programa, se eu fosse um grande artista.” A exigência de liberdade absoluta, da imaginação, da forma, do tema, é hoje ainda o primeiro requisito de tal programa.
|
|
| |
|
|
| |
|
|
| |
Teixeira Gomes, Manuel
“Cheguei a Faro de noite e batiam ronceiramente as nove no relógio da Sé quando eu tangia a sineta de um imenso portão, em casa apalaçada, aonde me conduzira o portador da minha bagagem, espécie de macrocéfalo a quem eu inicara o nome do cónego Simas. [...] Após redobrados toques abriu-se uma janela de sacada onde assomou um vulto negro, soltando um muito admirativo “Ah!” e retirando-se in-continenti. Seguiu-se-lhe outro vulto negro e depois outro e outro, repetindo cada qual, com idêntica intonação, o “Ah!” do primeiro recolhendo-se sem demora.”
Gente Singular, p. 72 |
|
(1860-1941)
Gente Singular. Pref. de Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa: Bertrand Editora, 4ª ed., 1988, 219 pp.
“Foi por certo em Gente Singular que Manuel Teixeira-Gomes atingiu o ponto mais alto da sua obra novelística no tocante ao humor. O cómico e o fantástico combinam-se neste conto magistralmente urdido, onde sentimos a atmosfera pegajosa da cidade de Faro no dobrar do século, com a sua mexeriqueira modorra. [...] O que dá unidade ao livro e´, de facto, para além da área semântica que o título recobre (o da singularidade), o jocoso de personagens e situações, metáfora de um país agónico”. (Urbano Tavares Rodrigues, Prefácio) |
|
| |
|
|
| |
|
|
| |
Tolstoi, Léon
“Estávamos no princípio da Primavera. Havia dois longos dias, e uma não menos longa noite que viajávamos de comboio. Em todas as estações, passageiros entravam ou saíam do nosso compartimento. Por fim ficaram só três viajantes: uma senhora de meia idade, feições envelhecidas e feia, de cigarro na boca, gorro na cabeça, e um casacão de corte masculino; um amigo alegre que aparentava quarenta anos, com bagagens novas e elegantes; e, afastado de todos, um homem baixo, de movimentos nervosos; não era velho e os cabelos embranquecidos antes de tempo, ainda se conservavam ondulados. Tinha uns olhos brilhantes e de extrema mobilidade. Vestia um casaco coçado, com gola de cordeiro e com a marca de um bom alfaiate; na cabeça, gorro alto da mesma pele.”
A Sonata de Kreutzer, p. 7
|
|
(1825-1910)
A Morte de Ivan Ilitch. sem data, 184 pp., Biblioteca Básica Verbo
A Sonata de Kreutzer. Trad. Jorge Reis, Lisboa: Guimarães Editores, 2ª. ed., 1986, 152 pp.
Três Eremitas. Trad. Maria Orquídea da Silva, Lisboa: Parque Expo 98, 1997, 28 pp.
A obra contística e novelística de Tolstoi não é abundante, mas inclui textos tão importantes como A Morte de Ivan Ilitch (1886) ou A Sonata de Kreutzer (1889), traduzidas em Português, em edições difíceis de encontrar em livraria.
Sobre A Morte de Ivan Ilitch escreveu Nabokov: “Não se trata da morte de Ilitch, mas da vida dele. A morte física descrita na história faz parte da vida mortal, é apenas a última fase da mortalidade. [...] Uma peculiaridade do estilo de Tolstoi é ser o que vou chamar de “purismo às apalpadelas”. Ao descrever uma meditação, emoção ou objecto tangível, Tolstoi segue os contornos do pensamento, da emoção ou do objecto até estar completamente satisfeito com a sua re-criação, [...] ele vai como um cego às apalpadelas, vai derivando, jogando, Tolstoijogando (toying, Tolstoying) com as palavras.” (Nabokov, V., “Conferências sobre Literatura Russa”). |
|
| |
|
|
| |
|
|
| |
Torga, Miguel
“Riba Dal é terra de judeus. Baldadamente, pelo ano fora, o Padre João benze, perdoa, baptiza e ensina o catecismo por perguntas e respostas.
- Quem é Deus?
- É um Ser todo-poderoso, criador do Céu e da Terra.
Na destreza com que se desenvencilham do interrogatório, não há quem possa desconfiar que por detrás da sagrada cartilha está plantado em sangue o Pentateuco. Mas está . E à hora da morte, quando a um homem tanto lhe importa a Thora como os Evangelhos, antes que o abade venha dar os últimos retoques à pureza da ovelha, e receba da língua moribunda e cobarde a confissão daquele segredo - abafador.”
“O Alma Grande”
in Contos, p. 463 |
|
(1907-1995)
Contos. Lisboa: Pub. Dom Quixote, 2001, 737 pp.
Esta é a 1ª. edição conjunta dos contos completos de Miguel Torga, que tomou por base as últimas edições corrigidas pelo autor de cada um dos volumes de contos publicados em separado.
Poeta, ensaísta, dramaturgo, romancista e contista, Miguel Torga refere sobretudo nos seus contos, o ambiente de “mitos agrários e pastoris que da sua origem aldeã transmontana remontam aos símbolos bíblicos. A semente, a seiva, a colheita, a água, a terra, o vento, o pão, o parto, o pastoreio, Adão e Eva, por exemplo, recorrem nos seus livros, não como simples ideias, mas como imagens irradiantes.” (António José Saraiva e Óscar Lopes. História da Literatura Portuguesa, p. 1057).
|
|
| |
|
|
| |
|
|
|
|