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Biblioteca online
do conto

A Ficções apresenta a primeira BIBLIOTECA ONLINE DO CONTO. Através dela, queremos tornar acessíveis a todos os leitores de língua portuguesa os textos integrais de alguns dos contos mais notáveis do século XIX português.

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Kafka, Franz

“Está a seguir o processo? O Mestre está a começar a escrever; quando acaba de fazer o primeiro rascunho da frase nas costas, a cama da de algodão começa a rolar e, lentamente, vai virando o corpo para abrir espaço ao Ancinho para escrever. Entretanto a parte lacerada que estava a ser escrita, fica em contacto com o algodão, que foi especialmente concebido para estancar a hemorragia, e assim fica pronta para receber uma nova passagem mais profunda das letras. Então estes dentes na extremidade do Ancinho, à medida que o corpo vai sendo virado, retiram o algodão das feridas e projectam-no para a vala e o Ancinho entra novamente em acção. E lá vai cravando cada vez mais fundo as letras, ininterruptamente, durante as próximas doze horas.”

Na Colónia Penal, p. 28

 

(1883-1924)

Na Colónia Penal. Trad. Susana Gabirro, Lisboa: Tempus Editores, 1995,65 pp.

A Metamorfose. Trad. Gabriela Fragoso, Lisboa: Presença, 1996, 81 pp.

A inexistência de uma ou várias boas edições dos contos de Kafka é uma dolorosa realidade do panorama contístico em Portugal. Franz Kafka, cuja obra não se pode classificar de monumental, foi e é hoje de uma importância monumental. A sua influência estende-se a todos os géneros literários, a todos os géneros de autores, a sua atitude em relação à escrita mudou as atitudes e as escritas. O universo profético e concentracionário de Na Colónia Penal (1919) põe em cena uma máquina que inscreve até à morte no corpo do prevaricador o preceito a que desobedeceu. O oficial que explica ao inspector visitante o seu funcionamento admirável acabará por também ele querer experimentar o mecanismo. Na sua pele, ficará escrito: “Sê justo!”.

 
     
     
 

Kleist, Heinrich

“Em M..., importante cidade da Alta Itália, a Marquesa de O...., senhora de excelente reputação, viúva, mãe de duas crianças de uma perfeita educação, fez saber pelos jornais que ficara grávida sem seu conhecimento, que o pai da criança que ia dar à luz se devia apresentar e que, por razões de natureza familiar, se encontraria na disposição de casar com ele. Esta Senhora que, sob pressão de uma circunstância irremediável, assim se expunha ao ridículo público com um passo tão estranho como convicto, era a filha do Senhor de G...., o comandante da cidadela de M....”

A Marquesa de O., p. 13

 

(1777-1811)

A Marquesa de O. e O Terramoto no Chile. Trad. José M. Justo, Lisboa: Ed. Antígona, 1986, 109 pp.

Os oito contos publicados em 2 volumes em 1810-11 variam em extensão, desde o conto muito curto até à novela Michael Kohlhaas (de que existe tradução portuguesa). Dos restantes sete contos escritos por Kleist, apenas dois se encontram traduzidos e publicados em Português. A Marquesa de O. e O Terramoto no Chile foram as primeiras histórias completadas por Kleist e constituem uma boa apresentação a um dos universos literários mais sublimes, intrigantes e singulares da História da Literatura. Nestas duas histórias revela-se em todo o seu esplendor aquilo a que Kleist chamava a estrutura instável e imperfeita do mundo - e o seu remédio, a compaixão amorosa.

 
     
     
 

Lispector, Clarice

“A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeites de paetês e um drapejado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados - e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acobardado pelo terno novo e pela gravata.”

Aniversário
in Laços de Família, p. 49

 

(1925-1977)

Laços de Família. Pref. Lídia Jorge, Lisboa: Relógio d´Água, 1989, 123 pp.

“Mas se o halo da sua misteriosa singularidade se desprende de toda a obra por inteiro [...] não é nos romances que lhe deram mais fama que Clarice melhor me abre a sua porta. Pelo contrário. Sem pretender diminuir de modo algum a revelação que pode constituir Perto do Coração Selvagem, seu romance de estreia, ou a Maçã no Escuro ou ainda A Paixão Segundo G.H., é no fragmento que a sinto revelada, melhor encontro a sua arte poética e o espanto da existência e, no fundo, as duas matérias compulsivas da sua Arte.” (Do Pref. de Lídia Jorge)

 
     
     
  Machado de Assis, Joaquim Maria

“Imagine a leitora que está em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio público e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos remotos: Não lhes chamo a atenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas., que já eram bonitas nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. Não falo sequer da orquestra, que é excelente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orquestra, com alma e devoção.

Chama-se Romão Pires; terá sessenta anos, não menos; nasceu no Valongo, ou por esses lados. É bom músico e bom homem; todos os músicos gostam dele.”

Cantiga de Esponsais
in Contos, p. 5

 

(1839-1908)

Contos. Porto: Lello Editores, 1985, 180 pp.

“Machado de Assis é um nome central da literatura brasileira. Perfeita encarnação do homem de letras oitocentista, escreveu ficção, poesia, teatro, ensaio, exerceu a crítica literária e teatral e fundou a Academia Brasileira de Letras, de que seria o primeiro presidente. Os seus romances da fase da maturidade são obras de uma aguda actualidade, que surpreendem ainda pela novidade dos processos de escrita e pela feição trágica do seu singular humorismo. Autor de mais de duas centenas de contos, Machado de Assis é um dos maiores cultivadores do género em língua portuguesa.” (Abel Barros Baptista, in FICÇÕES, Revista de Contos, nº. 1).

 
     
     
  Mann, Thomas

“Um grupo de adolescentes e jovens adultos, confiados a uma preceptora ou dama de companhia, estavam reunidos à volta de uma mesinha de bambú: três jovens raparigas, aparentemente entre os quinze e os dezassete anos e um rapaz de cabelos longos, de uns catorze anos. Aschenbach notou com espanto que o rapaz era de uma beleza perfeita. O seu rosto pálido e graciosamente circunspecto, emoldurado de caracóis cor-de-mel, com um nariz direito, uma boca agradável e a expressão de uma afeiçoada e divinal seriedade, lembrava esculturas gregas nos tempos mais nobres.”

A Morte em Veneza, p. 31

 

(1875-1955)

A Morte em Veneza. Trad. Cláudia Fisher, Lisboa: Relógio d´Água, 1987, 85 pp.

A Morte em Veneza (1912) é a novela perfeitamente clássica que anuncia a sua própria e perfeita morte. Narra a obsessão de um escritor famoso por um adolescente cuja beleza o deslumbra. Obsessão labiríntica por caminhos sem saída em Veneza cercada pela peste, é a Europa, tal como ela gostava de se imaginar, que morre às mãos da barbárie, de olhos postos na arte.

 

 
     
     
  Mansfield, Katherine

"Linda estava tão surpreendida com a confiança dessa criaturinha... Ah, não, sejamos sinceros. Não era isso que sentia; era algo diferente, era algo tão novo, tão... As lágrimas dançaram-lhe nos olhos; e murmurou para o bebé, num suspiro: «Olá, riqueza!» Mas agora o bebé tinha esquecido a mãe. Tornara a ficar sério. Uma coisa cor-de-rosa e suave dançava, pairando no ar à sua frente. Fez um gesto para agarrá-la, mas ela desapareceu imediatamente. Ao recostar-se de novo, porém, outra coisa igual à primeira apareceu. Desta vez o menino decidido a apanhá-la. Fez um tremendo esforço e rodopiou sobre si próprio." in Contos, p. 35

"O garden party"
in Contos, p. 35

 

(1888-1923)

Contos”,

O Garden-Party. Trad. Lisboa: Relógio d´Água, 1985, 163 pp.

Contemporânea de Joyce e de Virginia Woolf, a autora de origem neo-zelandesa foi uma das maiores contistas do seu tempo. Nesta colectânea incluem-se nove histórias, que foram na sua maioria publicadas em jornais e revistas entre 1910 e 1922. Conscientemente moderna na forma de contar, Mansfield foi também inovadora, por vezes quase militante, nos temas e desenlaces das suas histórias.

 
     
     
  Maupassant, Guy de

"Permanecíamos imóveis, lívidos, na expectativa de que algo de horrível acontecesse, de ouvido atento e coração fremente, sobressaltando-nos o mínimo ruído. E o cão começou a andar em volta do aposento, farejando as paredes e continuando a gemer. Este animal enlouquecia-nos! Então, o camponês que me trouxera lançou-se sobre ele, numa espécie de terror furioso ao atingir o paroxismo e, abrindo uma porta que dava para um patiozinho, atirou o animal lá para fora.”

O medo
in O Horla e Outros Contos Fantásticos, p. 71-72

 

(1850-1893)

O Horla e Outros Contos Fantásticos. Lisboa: Ed. Estampa, 1977, 208 pp.

Novelas e Contos. Lisboa: Estúdios Cor, 10 vols., 1998, 3550 pp.

Escreveu o próprio Maupassant em carta de 1891 ao seu agente literário: “Guy de Maupassant foi o primeiro escritor francês que fez renascer o gosto nacional pelo conto e pela novela curta... Tem publicadas, primeiro em jornais e depois em volumes, as suas obras, que formam uma colecção de 21 volumes, de cada um dos quais se vendeu aproximadamente 13.000 exemplares.” A carta tinha, obviamente, intuitos financeiros, mas não se podia negar a imensa popularidade do contista e o seu papel fundamental na escrita de conto. De facto, Maupassant é, com Tchekhov e Poe, um dos fundadores do conto contemporâneo e um dos seus mais prolíficos e excelentes cultores.

 
     
     
  McCullers, Carson

“Se uma pessoa descer a rua principal numa tarde de calor de Agosto, não encontra absolutamente nada que fazer. O edifício maior, no centro da povoação, foi entaipado e encontra-se de tal maneira inclinado para a direita, que parece prestes a cair de um momento para o outro. A casa é muito antiga. Tem um aspecto estranho e arruinado que intriga, até que, de súbito, se percebe que há muito tempo, o lado direito da varanda esteve pintado e também parte da parede, mas o trabalho não chegou a ser concluído e, por isso, uma parte da casa é mais escura e soturna.”

A Balada do Café Triste, p. 7

 

(1917-1967)

Balada do Café Triste. Trad. José Guardado Moreira, Lisboa: Relógio d´Água, 2001, 75 pp.

Escrita em 1951, esta novela foi considerada por Tennessee Williams como uma das obras-primas em prosa da língua inglesa. E Graham Greene, com a usual ironia, comparava-a a Faulkner: “Prefiro a Miss McCullers a Faulkner porque escreve com mais clareza; prefiro-a a D.H. Lawrence porque não tem mensagem.” A sucinta obra de Carson McCullers descreve um mundo solitário e marginal, onde se entra sem aviso prévio: “É uma terra sombria. Tem só uma fábrica de algodão, casas de duas assoalhadas onde vivem os operários, alguns pessegueiros, a igreja com duas janelas de vitral e uma rua principal, feia, que não tem mais de noventa metros.”

 
     
     
 

Melville, Herman

"Sentado, e nesta atitude, foi que o chamei, dizendo rapidamente o que pretendia que ele fizesse - ou seja, conferir comigo um pequeno documento. Imagine-se a minha surpresa, ou antes, a minha consternação quando, sem se mover do seu retiro, Bartleby - numa voz singularmente suave e firme, me respondeu: - Prefiro não o fazer.

Permaneci sentado um momento, em completo silêncio, tentando recompor as minhas faculdades aturdidas. E logo me ocorreu que os meus ouvidos me haviam enganado, ou que Bartleby havia compreendido mal o significado das minhas palavras. Repeti o meu pedido no tom mais claro que me foi possível; e num semelhante, veio a resposta anterior:

- Preferia não o fazer.”

Bartleby, p. 30


 

(1819-1891)

Bartleby. Trad. Gil de Carvalho, Lisboa: Assírio & Alvim, 1988, 86 pp.

Bartleby é um dos escritos “proféticos” da passagem, no século XIX, à modernidade. [...] Melville inicia esta curta novela como começara Moby Dick: com o balanço de um verso, talvez interrompido, que se torna épica moderna. Uma réplica, ou a resposta ao anonimato, tantas vezes feliz, de uma situação nascente - que desencadeará a maior quantidade possível de diferença individual- faz com que Melville convoque nomes: Typee, Benito Cereno, Moby Dick, Bartleby, John Marr, Billy Budd, que elucidam uma busca insana, um movimento imparável. Este retrato interposto do homem, acompanhado pelas nossas cidades, podendo optar por uma espécie de acção negativa, mortal, pela meditação ou reclusão junto ao muro, ou pela sua exclusão, é uma via - a não exaltante - do nosso tempo prefigurada.” (Da Nota de Gil de Carvalho)

 
     
     
 
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