Apresentação / Autores e contos / Um conto por extenso
 
 
 
 
 
 
 
     
     
     
 

Autores e Contos



Gérard de Nerval (1808- 1855) pseudónimo de Gérard Labrunie. Filho de um médico que fazia então a Campanha da Rússia no exército de Napoleão, Gérard ficou órfão de mãe aos dois anos e foi vagamente educado entre 1822 a 1827 no Collège Royal de Charlemagne, onde conheceu Téophile Gautier, que seria o seu amigo de sempre. Inicia-se na poesia em 1826 e traduz, no ano seguinte, a primeira parte do Fausto de Goethe, que muito agradou ao poeta alemão. Em 1829 inicia uma colaboração duradoura com a imprensa, especialmente com o Mercure de France, onde publicará poemas e artigos e cenas de peças de teatro. Em 1834, uma herança recebida por morte do avô materno permite-lhe viajar pelo Sul de França e pela Itália, mas, dois anos depois os problemas financeiros com a revista Le Monde Théâtral, que fundara em 1835 para louvar o seu ídolo, a cantora e actriz Jenny Colon, deixam-lhe dívidas pesadas. A partir de 1838, intensificam-se as suas viagens, à Alemanha ( com Alexandre Dumas), à Bélgica, a Viena ( onde, em 1839-1840, conhece Marie Pleyel, verosímil modelo de Pandora e afinal mais uma das instâncias do " feminino" que Nerval perseguiu em imaginação) à Holanda e, em 1843, ao Oriente (Alexandria, Cairo, Beirute, Constantinopla, Malta e Nápoles). Em 1841, sofre a primeira de várias crises nervosas que hão-de valer-lhe outros tantos internamentos e que se agravam a partir de 1852. Enforca-se a 26 de Janeiro de 1855, deixando, entre outras obras, Les Amours de Vienne (1841), Voyage en Orient (1851), Illuminés (1852) Les Filles du Feu e Pandora (1854), e Aurélia ou le Rêve et la Vie, um extraordinário estudo de caso e ficção romântica das suas próprias alucinações(1855).

Fedor Dostoievski (1821-1881) Nasceu em Moscovo, filho segundo de um médico. Foi educado em casa e num colégio privado. Depois da morte da mãe foi para São Petersburgo onde se formou como engenheiro militar. Depois da morte do pai, ao que se diz assassinado numa discussão com servos, Dostoievski renunciou à carreira militar e dedicou-se à escrita, tendo publicado em 1846 Pobre Gente e O Duplo, duas novelas. Começou a sua actividade política no Círculo Petrachevski, um grupo de pensadores socialistas utópicos radicais. Preso e condenado à morte, viu a pena capital comutada à última hora, numa encenação aterrante, em trabalhos forçados na Sibéria, onde passou quatro anos. Em 1854 foi recrutado como soldado. Durante os anos de Sibéria, Dostoievski tornou-se conservador, monárquico e devoto da Igreja Ortodoxa Russa e voltou para São Petersburgo animado de uma missão religiosa. Escreveu Casa dos Mortos,Humilhados e Ofendidos e em 1857 casou com Maria Isaev, que morreu poucos anos depois. Em 1866 publicou Crime e Castigo (1866) e casou com Anna Snitkina, a sua estenógrafa, então com vinte e dois anos, de quem teve quatro filhos. Para fugir aos credores, viajou pela Europa, sempre obcecado pelo jogo, regressando à Rússia com o sucesso de Os Possessos. Em 1876 funda o seu próprio jornal mensal, Diário de um Escritor. É deste ano que data A Submissa ( Kroptka, em Inglês A Gentle Creature ou The Meek Girl), que António Pescada traduziu para a Contexto em 1997, pela primeira vez em Portugal um texto de Dostoievski traduzido directamente do Russo.

Ernest Hemingway (1899-1961), nasceu em Oak Park, subúrbio de Chicago, no Illinois , segundo filho dos seis de seu pai médico. Começou a carreira como jornalista em Kansas City aos dezassete anos. Durante a Guerra de 14 -18, foi condutor de ambulância como voluntário na frente italiana. Foi gravemente ferido e condecorado pelo governo italiano. De regresso aos Estados Unidos, foi repórter de jornais canadianos e norte-americanos e enviado à Europa para cobrir a Revolução Grega, entre outros acontecimentos. Nos anos 20, Hemingway tornou-se parte do grupo de americanos residentes em Paris, onde frequentou Ezra Pound e Gertrude Stein, entre outros. O Sol também nasce, de 1926, retrata alguma coisa desse grupo. Fiesta, Homens sem Mulheres, O Adeus às Armas estabelecem-no internacionalmente como escritor. Por quem os sinos dobram, de 1940, descreve muita da sua experiência como repórter durante a Guerra Civil de Espanha. Romancista e contista, amante de mulheres, da caça grossa, dos touros, da pesca submarina, Hemingway casou quatro vezes e suicidou-se em 1961. The Killers é retirado da segunda colecção que publicou, em 1927, Men Without Women e um verdadeiro marco na escrita de Hemingway. A tradução, de 1960, é de Alexandre Pinheiro Torres. Os herdeiros, através do agente de Hemingway, proibiram qualquer revisão da tradução. Mestre da elipse e do implícito, minimalista quase avant la lettre, Hemingway será um género de Stallone das letras, espartano, criando atmosferas densas com meia frase, tirando o máximo partido do pouco que fica explícito.

Francis Scott Fitzgerald (1896-1940). Nasceu em St Paul, no estado americano do Minnesota, tendo começado a escrever desde muito novo e a publicar em jornais e revistas. O sucesso do seu primeiro romance, This Side of Paradise (1919), levou-o a abandonar o emprego na publicidade e a dedicar-se à carreira de escritor, sobretudo colaborando em revistas de grande circulação, como The Saturday Evening Post, com contos que virão mais tarde a ser reunidos em quatro livros: Flappers and Philosophers (1920), Tales of the Jazz Age (1922), All the Sad Young Men (1926), Taps and Reveille (1935). Em 1924, Fitzgerald muda-se com a mulher, Zelda, para França, onde escreve The Great Gatsby (1925), o romance que ele considera a sua obra-prima. Passa depois vários períodos entre a Europa e a América, acabando quase arruinado, doente e alcoolizado. Deixou uma obra com grandes romances como This Side of Paradise (1920), Tender is the Night (1934), e The Last Tycoon (1941), que são o retrato da época por ele baptizada como a " época do jazz". Depois da sua morte, o New York Times escrevia: " Era melhor do que ele pensava, pois inventou, no sentido real e no sentido literário, uma ' geração'…". O conto incluído neste número de Ficções foi publicado pela primeira vez em 1931, em The Saturday Evening Post, com o título Babylon Revisited, tendo servido de base ao argumento do filme A Última Vez que Vi Paris (1954), realizado por Richard Brooks, com Elisabeth Taylor e Van Johnson.

Jorge Luis Borges (1899-1986) Poeta, contista e ensaísta argentino nasceu em Buenos Aires e morreu em Genebra. A avó era de ascendência inglesa e Borges foi Bilingue desde a infância. Borges passou uma temporada com os pais na Europa antes de 1914. Surpreendida pela guerra, a família passou o período de 1914 -18 na Suíça. Viveu em Espanha entre 1919 e 1921 e dois anos depois regressou à Argentina. Borges começou por publicar poesia ( Fervor de Buenos Aires, 1923) e dedicou-se a escrever contos nos anos seguintes sobre temas ditos argentinos. Na revista Sur, fundada por Victoria Ocampo, publicará recensões, ensaios, poemas e contos. Conhece Adolfo Bioy Casares com quem escreverá vários livros e desenvolverá diversas actividades literárias. Durante os anos 30 foi perdendo a visão, até ficar cego. Trabalhou a partir de 1937 na Biblioteca Municipal Miguel Cané, mas a ascensão de Perón ao poder obrigou-o a abandonar. Será nomeado director da Biblioteca Nacional em 1955, depois da queda de Péron. Em 1944 surge Ficciones, que reune os contos de O jardim dos caminhos que se bifurcam (1941) e outros que coligiu sob o título de Artificios. Em 1949 publica O Aleph, outra colecção de contos. Nos anos sessenta viaja pela Europa, fazendo conferências pela Escócia, Inglaterra, França, Suíça e Espanha. Em 1967 casa-se com Elsa Millán que o acompanha aos Estados Unidos. Durante os anos setenta publica poesia (O ouro dos tigres, A rosa profunda, História da noite, entre outros volumes) e vários livros em colaboração. Viaja muito, acompanhado por Maria Kodama, com quem casará pouco antes de morrer. Em 1985 surge o seu último livro de poemas Os Conjurados. Tema do traidor e do herói, incluído na colecção de contos Artificios (in Ficciones, 1944) foi traduzido por José Colaço Barreiros para a Editorial Teorema em 1998.

Ingmar Bergman (1918-) nasceu em 14 de Julho Ernst Ingmar Bergman em Uppsala, um pouco a norte de Estocolmo. Começou a encenar na Universidade. Em 1939 entrou para o Teatro Real ( Ópera de Estocolmo) como assistente de produção e em 1943 começava a trabalhar como argumentista na Svensk Filmindustri. Inicia no final dos anos quarenta a sua carreira de cineasta, nunca abandonando a encenação de teatro e ópera. O Sétimo Selo(1956), Morangos Silvestres (1957), A Fonte da Virgem (1960), A Hora do Lobo (1968) , O silêncio (1963), Persona (1966), Lágrimas e Suspiros (1973), Cenas de um casamento (1973), Da vida das marionetas (1980), Fanny e Alexandre (1982) são alguns dos seus " clássicos". Em 2005 saíu o seu mais recente filme, Saraband. A Paixão, a narrativa que incluímos nesta Ficções, é o texto que serve de base ao filme de 1969 com Liv Ullman, Max Von Sidow, Erland Josephsson e Bibi Andersson. Texto inédito em sueco e aqui traduzido do original, há uma edição em livro americana, mais elaborada e revista por Bergman, traduzida por Alan Blair em 1976 para a Doubleday ( in Four Stories by Ingmar Bergman). São razoáveis as diferenças entre o original sueco e o texto em inglês. O original, dividido em actos e não em partes, está muito mais cru, muito próximo de uma sequência de actos, falas, descrição de imagens e ambientes para um guião. O próprio Bergman escreve : "Um guião nunca consegue exprimir o que o filme pretende transmitir. Se quisesse reproduzir em palavras o que acontece nos filmes que concebi, seria obrigado a escrever um grosso volume pouco legível, que seria apenas um obstáculo. Um processo desses mataria toda a alegria criativa, tanto para mim, como para os artistas". Em vez disso, Bergman escreve uma narrativa curta que distribui aos actores, trabalhando depois com eles e recorrendo a alguma improvisação.

Paul Auster (1947- ) nasceu em Newark, New Jersey . Estudou na Universidade de Columbia e viveu em França quatro anos. Estabeleceu-se em Nova Iorque em 1974, onde tem escrito e publicado poemas, ensaios e sobretudo romances. Praticamente tudo o que escreveu se encontra acessível em Português, desde a Trilogia de Nova Iorque ao seu último romance A Noite do Oráculo. A história de Natal de Auggie Wren, um dos seus raríssimos, se não único conto ( Porquê escrever?, publicado na Ficções nº. 1) é a sua outra incursão na narrativa curta e não propriamente um conto, mas um conjunto de micro histórias) foi-lhe encomendada, como ele próprio conta, pelo New York Times para ser publicado no dia de Natal do ano de 1990. É a partir desta história que Auster escreve o guião de Smoke, que será realizado em 1995 por Wayne Wang, com Harvey Keitel (Auggie) e William Hurt ( Paul Benjamin, sendo que Benjamin é o middle name real do próprio Auster ). De Smoke "sobrou" Blue in the Face, filmado por Wayne Wang e Paul Auster em cinco dias, a partir de texto de Auster e improvisações e cameos de Lou Reed, Michael J. Fox, Roseanne, Jim Jarmusch, Lily Tomlin, John Lurie e Madonna, entre outros.

 
     
 
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