| |
Autores e Contos

Anton Tchekov
"A senhora do cãozinho"
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
Anton Tchekov (1860-1904) escreveu A Senhora do Cãozinho em Yalta, entre Agosto e Outubro de 1899. O conto foi publicado pela primeira vez no jornal radical Russkaia mysl' (Pensamento Russo), e Tchekov reviu-o e fez alterações para a edição das suas obras completas, três anos mais tarde. Depois de ler A Senhora do Cãozinho , Gorki escreveu a Tchekov dizendo que lhe parecia agora "grosseiro e escrito não com a caneta mas com um toro" tudo o que ele próprio, Gorki, escrevera até então. E acrescenta: "Estás a fazer uma grande coisa com as tuas histórias, estás a acordar nas pessoas um sentimento de repulsa pela sua existência dormente, meia-morta..." A história, que parece fazer a apologia do adultério, foi considerada chocante por Tolstoi. Mas a moda dos cãezinhos pegou esse ano, na promenade de Yalta.
Ernest Miller Hemingway
"Montes como elefantes brancos"
Tradução de Luísa Costa Gomes
Ernest Miller Hemingway (1899-1961). Hills Like White Elephants faz parte da antologia Men Without Women , a segunda colecção de contos de Hemingway, publicada em 1927, sendo um marco importante na progressão literária do autor. Sobre ele escreve muito justamente Philip Young: "Homem supinamente contraditório, Hemingway teve a fama que poucos, ou mesmo nenhum, escritores do século XX ultrapassaram. A natureza viril da sua escrita, que tentava recriar exactamente aquelas sensações físicas de que teve experiência na guerra, na caça grossa, nos touros, dissimulava de facto uma sensibilidade estética de grande delicadeza".
Flannery O'Connor
"Os homens bons não são fáceis de encontrar"
Tradução de Clara Pinto Correia
Flannery O'Connor (1925-1964). Natural da pequena povoação de Milledgeville, no estado sulista da Georgia, Flannery O´Connor estudou escrita criativa na Universidade de Iowa e publicou um primeiro romance em 1952. Em 1955 saía A Good Man is Hard to Find (contos). Publicando apenas mais um romance, The Violent Bear it Away ( O Mundo é dos Violentos ), O'Connor morreu de lupus, de que sofrera durante dez anos. Em 1965, saiu postumamente mais uma colecção de contos Everything that Rises Must Converge . A tradução que incluímos é de Clara Pinto Correia (in Antologia Indispensável , Publicações Dom Quixote, 1996).
Julio Cortázar
"A ilha ao meio-dia"
Tradução de Carlos Barata
Julio Cortázar (1914-1984). Argentino nascido em Bruxelas, Cortázar cresceu porém em Buenos Aires, onde foi professor e tradutor, até 1951, ano em que, anti-peronista convicto, se mudou definitivamente para Paris. Em 1981, naturalizou-se francês, mantendo no entanto a dupla nacionalidade. Iniciou a publicação de contos com Bestiário (1951), tornando-se num iniciador do conto fantástico contemporâneo. A ilha ao meio-dia é um exemplo bem característico do universo de Cortázar e faz parte da colecção de contos Todos os fogos o fogo (1966). A tradução que incluímos nesta edição de FICÇÕES é de Carlos Barata (in Todos os fogos o fogo , ed. Estampa, 1971).
John Updike
"A piscina órfã"
Tradução de Luísa Costa Gomes
Nasceu na Pensylvania (1932) e estudou em Harvard e na Ruskin School of Drawing and Fine Art, em Oxford. Trabalhou no The New Yorker nos anos cinquenta, onde publicou poemas, contos, ensaios e recensões. Autor profícuo e proficiente, continua a escrever e a publicar com regularidade. The Orphaned Swimming Pool faz parte da colecção Museums and Women (1972) e foi depois integrado em Forty Stories , coligidas e reorganizadas para a Penguin em 1987 pelo próprio Updike.
David Lodge
"Hotel das mamas"
Tradução de Vítor Silva Mota
Nasceu em Londres em 1935. Autor de ensaios, contos, romances e peças de teatro, Lodge foi estabelecendo uma espécie de copyright da comédia de costumes (vertente academias e universidades), embora a sua obra não se limite a esse universo. Hotel das Mamas ( Hotel des Boobs no original, num trocadilho intransponível, já que "boobs" é simultaneamente "mamas" e "argoladas") foi traduzido por Vítor Silva Mota para as Edições Asa em 1998. O conto saíu originalmente em 1986 e Lodge relembra as duas circunstâncias que o despoletaram: uma viagem de férias com a mulher pelos hotéis e praias do Sul de França, motivo destas "lucubrações sobre o código de conduta paradoxal e tacitamente estabelecido que rege o desnudamento de seios femininos em tais cenários" e um cómico incidente com um manuscrito levado pelo vento.
Manuel Teixeira Gomes
"Agosto azul"
Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), nascido em Portimão, fez aí os seus estudos até seguir para o seminário em Coimbra, onde se preparou para entrar em Medicina. Mas não completou o curso, voltando a Portimão e iniciando as suas viagens como representante da empresa de exportação da família - Norte da Europa, Mediterrâneo, África, Ásia. As viagens serviram a Teixeira Gomes para adquirir uma extensa cultura e experiência, invulgar nos homens do seu tempo em Portugal e que viria a projectar-se numa obra literária de difícil classificação e inovadora pela temática, pela perspectiva, pela vitalidade, pelo próprio tratamento heterodoxo dos géneros. Depois de uma passagem pela conturbada política dos anos 20, Presidente da República entre 1923 e 1925, Manuel Teixeira Gomes iniciou um outro período de viagens, acabando por se fixar em Bugia, na Argélia, em 1931, aí morrendo passados dez anos. Agosto Azul , publicado em 1904, é um bom exemplo das narrativas coleantes, fluidas, abertas de Teixeira Gomes.
Vladímir Nabókov
"Nuvem, castelo, lago"
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
Vladímir Nabókov (1899-1977) nasceu em São Petersburgo, primogénito duma família aristocrática e liberal. O pai foi membro do Governo e teve de fugir da Rússia depois da Revolução, primeiro para Londres e depois para Berlim. Nabókov juntou-se-lhes em 1922, acabados os estudos em Cambridge. Entre 1923 e 1940 publicou romances, contos, poemas, traduções e peças de teatro em russo. Em 1940 estabeleceu-se nos Estados Unidos, publicando um ano depois The Real Life of Sebastian Knight , o seu primeiro romance escrito em inglês. Nuvem, Castelo, Lago (Oblako, ozero, bashnya) foi originalmente escrito em russo e publicado na revista de emigrantes russos Sovremennyya Zapiski (Paris, 1937). Em 1958, já a viver na América, Nabókov incluiu uma tradução inglesa de Peter Pertzov (em colaboração com o autor) numa antologia que intitulou Nabokov's Dozen (dela constavam, caracteristicamente, treze histórias). Nuvem, Castelo, Lago pertence à série de contos de Nabókov em que paira a sombra do homicídio do pai por dois fanáticos, que ele presenciou, e das atrocidades totalitárias contra as quais sempre se bateu.
Jonh Cheever
"O nadador"
Tradução de José Lima
John Cheever (1912-1982) passou a maior parte da sua vida em Nova Iorque ou em cidades suburbanas, cujos ambientes muitas vezes retratou nas suas histórias. Expulso da Thayer Academy aos 17 anos por, segundo diz, ser "conflituoso, intratável e péssimo estudante" (e por ter sido apanhado a fumar, como relata na sua primeira história "Expelled"), levou uma dessas vidas "místicas" de escritor, vivendo numa "cela", à base de pão e soro de leite, e escrevendo histórias para ganhar a vida. Adoptado pelo The New Yorker , Cheever publicou aí muitas das suas histórias. The Swimmer , incluído na colecção The Brigadier and the Golf Widow (1964) é um dos seus contos mais conhecidos, de que se fez um filme escrito por Eleanor Perry. A tradução de José Lima é da antologia da Ballantine, The Stories of John Cheever (1978), que nesse ano ganhou o Pulitzer e o National Book Critics Circle Award.
Clarice Lispector
"O grande passeio"
Tradução de Luísa Costa Gomes
Clarice Lispector (1925-1977) nasceu em Tchethcelnik, na Ucrânia, mas cresceu no Brasil, formando-se em Direito no Rio de Janeiro. Casada com um diplomata, viveu muitos anos no estrangeiro. Laços de Família, uma antologia de treze contos publicada no Brasil em 1960, inclui textos como Amor ou Feliz Aniversário , dois exemplos maiores da arte de Clarice Lispector. Convidada desde 1967 para escrever semanalmente no Jornal do Brasil, aí publicou contos-crónicas-textos, que não se integravam, o mais das vezes, em género nenhum: "Géneros não me interessam mais", escreveu à editora. Outro livro de contos, Felicidade Clandestina (1971) colige muitos dos textos escritos nessa época e inclui este O Grande Passeio , espécie de "estorinha de fadas" bastante negra, em que uma "velha sequinha, doce e obstinada" é "mandada passear".
|
|