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Autores e Contos

Marcel Schwob
"O Conto dos Ovos"
Tradução de Ana Cardoso Pires
Marcel Schwob (1867-1905) foi, em finais do século XIX, uma das grandes figuras da vida cultural parisiense, cuja influência considerável é hoje praticamente ignorada. Mas o simbolismo, o surrealismo de Breton e a obra de Jorge Luis Borges estão-lhe intimamente ligados. De família judia bastante culta, Schwob estudou Villon e as literaturas antigas anglo-saxónicas, traduziu Shakespeare, De Foe e De Quincey, foi jornalista e cronista. Com os seus primeiros livros de contos, Coeur Double, Le Roi au Masque d´Or e La Croisade des Enfants, em que se esboça um novo tipo de fantástico, impõe-se como referência . É amigo de Gide, Valéry, Claudel, Jarry. Aos trinta anos, já muito doente, entra em crise, torna-se recluso, deixa de publicar, parte para a Samoa, como Stevenson. Aproveitando um perídodo de remissão, regressa a Paris, para acabar o livro sobre François Villon, mas morre pouco depois. De Schwob existem em tradução portuguesa, na editorial Teorema, Vidas Imaginárias (1990), A Cruzada das Crianças (1991) e O Livro de Monelle (1994). O Conto dos Ovos (Le Conte des Oeufs) uma deliciosa fantasia, é retirado do seu primeiro livro de contos, Coeur Double ( 1891).
M. Teixeira Gomes
"Gente Singular"
Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), nascido em Portimão, fez aí os seus estudos até seguir para o seminário em Coimbra, onde se preparou para entrar em Medicina. Não completou o curso, voltando a Portimão e iniciando as suas viagens como representante da empresa de exportação da família - Norte da Europa, Mediterrâneo, África, Ásia. As viagens serviram a Teixeira Gomes para adquirir uma extensa cultura e experiência, invulgar em Portugal nos homens do seu tempo e que viria a projectar-se numa obra literária de difícil classificação e inovadora pela temática, pela perspectiva, pela vitalidade, pelo próprio tratamento heterodoxo dos géneros. Depois de uma passagem pela conturbada política dos anos 20, Presidente da República entre 1923 e 1925, Manuel Teixeira Gomes iniciou um outro período de viagens, acabando por se fixar em Bugia, na Argélia, em 1931, aí morrendo passados dez anos. Gente Singular, extraído do livro de contos do mesmo nome (1909), foi revisto seguindo a 3ª edição da Portugália Editora (1959), para evitar as gralhas que infestam a edição posterior da Bertrand. Aqui deixamos os nossos agradecimentos a Urbano Tavares Rodrigues pela preciosa ajuda.
Heinrich Böll
"As Crianças Também São Civis"
Tradução de José Lima
Heinrich Böll nasceu em 21 de Dezembro de 1917, em Colónia. Depois de concluir a escola secundária, sendo um dos poucos que não se inscreveu na Mocidade Hitleriana, foi convocado como soldado, tendo estado presente na frente soviética. Depois da guerra frequentou a universidade onde estudou germânicas. Os seus primeiros contos foram publicados em 1947. O primeiro romance Der Zug war Pünktlich (O Comboio Chegou à Tabela) é de 1949. A partir de 1952 dedicou-se inteiramente à escrita. Entre as suas obras contam-se: Wanderer, kommst du nach Spa. (Caminhante, se fores a Spa.(1950), de onde foi retirado o conto aqui publicado, (no original Auch Kinder sind Zivilisten), Wo Warst du Adam (Onde Estavas Tu, Adão) (1951), Und Sagte Kein einziges Wort (E Não Disse nem Uma Palavra) (1953), Gruppenbild mit Dame (Retrato de Grupo com Senhora) (1971), Die Verlorene Ehre der Katharina Blum (A Honra Perdida de Katharina Blum) (1974). Böll recebeu o Prémio Nobel de Literatura de 1972. Morreu em 16 de Julho de 1985. Num ensaio de 1952, Böll referia-se à sua obra como "literatura de ruínas", uma corrente literária que tinha como temas a guerra, o regresso dos soldados à Alemanha e a reconstrução do após-guerra. Considerando ser missão do escritor agir como consciência social do seu tempo, tomou sempre partido a favor da liberdade individual, contra o perigo da escalada no armamento nuclear e contra os crescentes poderes do sistema de segurança do Estado.
José Cardoso Pires
"O Conto dos Chineses"
José Cardoso Pires (1925-1998). Nasceu em São João do Peso, Castelo Branco, mas é em Lisboa que passa a maior parte da sua vida, aí frequentando a escola primária e o liceu. Uma experiência profissional acidentada e variada faz dele sucessivamente agente de vendas e intérprete, tradutor, publicitário e jornalista. Coordena a revista Almanaque, onde colaboram Alexandre O'Neill, Vasco Pulido Valente, Abelaira, José Cutileiro, entre outros. Em 1967, funda e orienta & Etc., "magazine das artes e do espectáculo" do Jornal do Fundão, coordenado por Vítor Silva Tavares. Dirigiu o suplemento literário do Diário de Lisboa e mais tarde o suplemento A Mosca, do mesmo jornal (1968). A sua vida, como a sua obra, espelha a sua inquietação social e política, que lhe valeu a perseguição da ditadura salazarista e a apreensão de vários livros seus pela Pide. Deixou uma extensa colaboração jornalística dispersa por vários jornais, portugueses e estrangeiros; teatro (como O Render dos Heróis); crónicas (A Cavalo no Diabo); romances (como O Hóspede de Job, premiado com o Prémio Camilo Castelo Branco; Balada da Praia dos Cães, que recebe o Grande Prémio do Romance; O Delfim, Alexandra Alpha, Prémio Especial da Associação de Críticos de São Paulo, Brasil); e alguns livros de contos, como Caminheiros e Outros Contos, Jogos de Azar, A República dos Corvos. O conto que apresentamos neste número foi publicado pela primeira vez na revista Almanaque, em 1959, e mais tarde incluído no livro de contos O Burro em Pé (1979).
Woody Allen
"Sim, mas A Máquina a Vapor Faz Isto?"
Tradução de Luísa Costa Gomes
Woody Allen nasceu em Brooklyn em 1 de Dezembro de 1935. Depois de ter sido expulso da New York University e do City College iniciou a sua carreira como escritor para televisão e para comediantes de stand up. Só em 1964 passou a interpretar os seus próprios textos. O sucesso do seu primeiro guião, escrito em 1964, What´s New, Pussycat?, filme com Peter Sellers e Romy Schneider, deu-lhe a possibilidade de continuar a escrever para cinema. Argumentista e realizador dos seus próprios filmes, Woody Allen escreve também regularmente para o New Yorker e outros jornais e revistas. The Complete Prose of Woody Allen, publicada pela Wings Books (Random House) em 1991, reúne os seus livros Without Feathers (Sem Penas, Bertrand, 1981), Getting Even (Para Acabar de Vez com a Cultura, Bertrand, Esgotado) e Side Effects (Efeitos Secundários, Bertrand, 1983). O conto aqui publicado (Yes, But can the Steam Engine do This?), em nova tradução, é retirado de Getting Even (1966).
István Örkeny
"O Matadouro"
Tradução de Ágnes Jancsó C. Lopes
István Örkény nasceu em 1912, nos últimos anos do Império Austro-Húngaro. Quando morreu em 1979, tinha passado pela Primeira Guerra Mundial, por uma revolução bolchevique, por uma ditadura de direita, pela Segunda Guerra Mundial, por um regime comunista, por uma revolução falhada e nos últimos tempos, pelo socialismo "conformista". As suas primeiras obras, Lágerek népe (Povo dos campos), 1947 e Voronyezs, 1948, reflectem as suas experiências durante a Segunda Guerra Mundial, em que foi prisioneiro de guerra na União Soviética. Após o seu regresso, os seus romances, peças e contos começam a aparecer em rápida sucessão, por exemplo: Mackajáték (Jogos de gato),1966 ou Pisti a vérzivatarban (Pisti no banho de sangue). Egyperces novellák (Contos de um minuto), 1968, uma compilação de contos que testemunha a capacidade dos húngaros de rir em tempos em que é mais fácil chorar, estabelece a sua reputação junto ao público húngaro, dando origem a várias sequelas. O matadouro (Vágóhíd), aqui apresentado, faz parte desta série de contos grotescos, por vezes absurdos.
Andre Dubus
"A Rapariga Gorda"
Tradução de Fernando Villas-Boas
Andre Dubus II (1936-1999) foi capitão do Corpo de Fuzileiros antes de se tornar escritor. Viveu em Haverhill, no Massachussets. Em 1986, sofreu um acidente grave que o deixou sem uma perna. Uns anos depois, recomeçou a escrever e a publicar e foi nomeado para o Prémio do National Book Critics Circle em 1997 com uma série de contos, Dancing After Hours.
The Fat Girl é um conto de Adultery and Other Choices, publicado em 1975.
O. Henry
"Primavera à la carte"
Tradução de Luísa Costa Gomes
O. Henry (1862-1910) Oliver Henry é o pseudónimo de William Sydney Porter, um dos maiores contistas americanos do século e um dos autores mais populares do seu tempo. Nasceu na Carolina do Norte de família culta e abastada. A mãe morreu tuberculosa quando ele tinha três anos e o pai um médico um tanto excêntrico. Começou como aprendiz de boticário aos quinze anos e emigrou depois para o Texas, com sintomas de tuberculose. Casou e empregou-se como caixa num Banco, tentando ao mesmo tempo escrever comédia. Comprou um jornal, The Rolling Stone, que faliu pouco depois. Porter foi acusado de desfalque no Banco e fugiu para as Honduras, de onde regressou passados três anos para a cabeceira de sua mulher moribunda. Preso durante quatro anos numa penitenciária do Ohio, começou a escrever sob o pseudónimo de O. Henry. Saído da prisão, passou a viver em Nova Iorque, e embora extremamente popular, viveu o resto da vida recluso, no terror de ser reconhecido como William Sydney Porter, acabando por morrer alcoólico e na miséria. O. Henry foi autor original e fecundo, chegando a escrever praticamente um conto por semana. Este delicioso Primavera à La Carte (Spring à la carte), do livro The Big City, é a resposta a Irvin Cobb, outro humorista que lhe perguntava onde é que ele ia buscar as ideias. "A tudo", disse O. Henry. " Há uma história neste menu". E improvisou-a.
Robert Walser
"O Jantar"
Trad. de José Maria Vieira Mendes
Robert Walser (1878-1956) nasceu em Biel, na Suíça. Abandonou os estudos aos catorze anos e trabalhou num Banco como escriturário, como mordomo num castelo e como assistente de um inventor antes de descobrir o que William Gass chama "a sua verdadeira profissão" - a loucura. Desde os vinte e um anos de idade, altura em que lhe foi (mal) diagnosticada uma esquizofrenia, até decidir internar-se em 1933, escreveu nove romances, de que restam quatro, entre eles Jakob Von Gunten (1908) e mais de mil contos e textos curtos. Em 1933 desistiu de escrever e internou-se num asilo psiquiátrico - onde ficou até morrer. "Não estou cá para escrever - disse - mas para ser louco". Kafka, Musil, Hermann Hesse e Walter Benjamin foram os poucos contemporâneos que o reconheceram e admiraram. Hoje é considerado um dos grandes escritores de língua alemã deste século. O Jantar (Das Diner), publicado em 1923, foi tirado do VII volume das suas Obras Completas (Das Gesamtwerke - Prosa aus des Bieler und Berner Zeit, 1921-1925), ed. Helmud Kossodo, 1966.
Henri Maxwell
"Peregrinação"
Tradução de Luísa Costa Gomes
William Maxwell (1908- 2000) nasceu em Lincoln, no Illinois. Depois da morte precoce da mãe, o pai de Maxwell voltou a casar e a família mudou-se para Chicago. Maxwell estudou arte e literatura em Harvard. Começava, como ele próprio conta, uma carreira de Professor de Inglês na Universidade de Illinois quando decidiu que precisava de experiência para escrever e resolveu "ir para o mar". Mas a escuna em que pretendia navegar estava parada há quatro anos por falta de fundos. "O capitão não fazia ideia de quando iria zarpar. E eu não fazia ideia de que três quartos da matéria de que ia precisar para o resto da minha vida de escritor, já estava à minha disposição." Em 1933 desistiu do ensino e em 1936 entrou para o New Yorker como editor de ficção. Durante quarenta anos ajudou, deu trabalho e publicou todos os escritores maiores do seu tempo, entre eles Nabokov, Updike, Cheever e Eudora Welty. The Pilgrimage, de 1953, foi retirada da antologia All the Days and Nights (The Collected Stories).
Dino Buzzati
"Escravo"
Tradução de Clara Rowland
Dino Buzzati nasceu em San Pellegrino, província de Belluno, Itália, em 1906. Estudou Direito e foi durante toda a vida jornalista do Corriere della Sera, viajando como repórter de guerra. Morreu em 1972. Estreou-se em 1933 com Barnabó delle Montagne, um livro de contos, mas foi com o romance O Deserto dos Tártaros, publicado em 1940, que passou a ser conhecido e reconhecido em Itália. Foi também pintor. Frequentemente aproximado de Kafka, Buzzati trabalhou na ficção a introdução de um fantástico ou de um absurdo intimamente relacionados com o quotidiano, jogando muitas vezes com a forma breve do conto, com "a estrutura breve e ágil" da narração curta. Escravo (Schiavo) faz parte do livro de contos de Buzzati, Il Colombre, de 1966.
Graham Greene
"Os Japoneses Invisíveis"
Tradução de José Lima
Graham Greene nasceu em Berkhamsted, Hertfordshire, Inglaterra, em 1904. Começou a escrever desde muito novo para jornais e revistas universitárias. Em 1926 mudou-se para Londres, tendo trabalhado no The Times e outros jornais. Durante a Guerra trabalhou para o serviço de informações do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e foi destacado para a África Ocidental, que viria a servir-lhe de cenário para The Heart of the Matter. Viajou como jornalista por vários países, incluindo o México onde se deslocara para estudar as perseguições religiosas que aí tinham lugar, escrevendo depois O Poder e a Glória (1940). É autor de vários romances bem conhecidos e traduzidos em muitíssimas línguas: Brighton Rock (1938); The Third Man, 1949; O Fim da Aventura (1951); O Americano Tranquilo (1955); O Nosso Homem em Havana (1958); The Human Factor (1978), entre outros. Graham Greene morreu em 1991. Extremamente versátil, romancista e contista brilhante, foi ainda dramaturgo e escreveu guiões e centenas de críticas de cinema e teatro. O conto que publicamos (no original, The Invisible Japanese Gentlemen) foi tirado do livro May We Borrow Your Husband?(1967), seleccionado por Malcolm Bradbury para a pequena antologia Modern British Short Stories , publicada pela Penguin em 1987.
Patricia Highsmith
"A Perfeccionista"
Tradução de José Lima
Patricia Highsmith nasceu em Fort Worth, no Texas, em 1921. Os pais mudaram-se para Nova Iorque quando ela tinha 6 anos. Aos 16, decidiu tornar-se escritora e em 1950 publica o seu primeiro romance, Strangers on a Train, mais tarde adaptado ao cinema por Hitchcock. Em 1957 recebeu o Grande Prémio francês de literatura policial e o Prémio Silver Dagger da Associação de escritores policiais ingleses. Muda-se definitivamente para a Europa em 1963, passando a viver em França e depois numa casa isolada na Suíça, onde morreu em 1995.
Embora seja normalmente incluída entre os escritores de romances policiais, Patricia Highsmith criou um universo muito pessoal e pouco típico do género, com temas recorrentes como a culpa e o sentimento de perigo iminente. As suas personagens relevam o mais das vezes da tragédia, compelidas a acções e sofrendo reacções, numa quase "mecânica da aversão"em que o sujeito provoca, pelo seu próprio medo, aquilo que mais teme.
De Highsmith há várias obras traduzidas, como Azul Cobalto (tradução de Ripley Underground), O Amigo Americano (tradução de Ripley´s Game) , O Grito do Mocho, O Talentoso Mr. Ripley, O Diário de Edith, Assassinos de Estimação, Pena Suspensa, Inocência Perversa, Doce Doença e outros.
O conto que publicamos em nova tradução foi tirado de Little Tales of Misogyny, 1974 (Pequenos Contos da Misoginia).
Kazuo Ishiguro
"Um Jantar de Família"
Tradução de Clara Rowland
Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki em 1954, mas em 1960 foi levado para Inglaterra, onde os pais o educaram na expectativa de regressar ao Japão. O regresso nunca teve lugar e Ishiguro tornou-se uma das vozes narrativas mais reconhecidas em Inglaterra, representante de uma literatura de fronteira entre diferentes culturas e gerações. Estudou na University of Kent e doutorou-se em escrita criativa, no curso fundado por Malcom Bradbury na University of East Anglia. Estreou-se na ficção através do conto, tendo publicado pela primeira vez em 1981 em Introduction 7: Stories by New Writers. Publicou o seu primeiro romance, A Pale View of Hills, em 1982, a que se seguiu em 1986 An Artist of the Floating World. Em 1989 foi-lhe atribuído o Booker Prize pelo romance The Remains of the Day, que mais tarde foi adaptado para cinema e divulgou internacionalmente a sua obra. Regressou ao romance em 1995 com The Unconsoled e em 2000 com When we were orphans. A Family Supper, © Kazuo Ishiguro, foi publicado na revista Esquire de Março de 1990.
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