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Autores e Contos

Heinrich von Kleist
"O Duelo"
Tradução de Teresa Seruya
Bernd Heinrich Wilhelm Von Kleist (1777-1811). Nasceu em Frankfurt-an-der-Oser, Brandenburg, numa família antiga da pequena nobreza, filho dum prestigiado capitão do exército prussiano. Destinado à vida militar, Kleist cedo se demitiu do exército para iniciar um período instável de leituras perturbadoras e de viagens na Europa devastada pelas guerras napoleónicas. A leitura de Kant deixou-o aniquilado, escrevendo à irmã Ulrike: " A ideia de que, nesta Terra, nada sabemos da verdade, absolutamente nada... abalou-me no mais íntimo da minha alma - o meu único objectivo, o meu objectivo supremo, caíu por terra; não resta nada." A crise intelectual de 1801 frutificou em comédias, tragédias e contos. Em 1807, preso pelos Franceses ao tentar entrar em Berlim sem passaporte e acusado de espionagem, passou seis meses na cadeia. Em liberdade, publicou o seu primeiro conto, O Terramoto no Chile. Poucas horas antes de se suicidar, numa estalagem do lago Wannsee, perto de Berlim, escreveu à irmã : "não há lugar para mim nesta Terra". Escolhera celebrar um pacto de suicídio com Henriette Vogel, que sofria de cancro. Kleist publicou os seus oito contos, em dois volumes (1810 e 1811). O Duelo que, segundo se pensa, é cronologicamente o último conto, ou novela, integra o segundo volume e é inspirado numa crónica de Froissart, do séc. XIV e ainda, em parte, num episódio do Persiles e Sigismunda de Cervantes. Neste conto, como na maior parte das outras novelas de Kleist, aparece em toda a sua evidência o universo singular e sublime do autor, um mundo inseguro, injusto, irracional, que subverte todos os ideais do Iluminismo. As suas vítimas são heróis cuja dignidade pré-kafkiana consiste em resistirem até à última, antes de serem engolidos pelo caos ou absorvidos pela ordem, o que, feitas as contas e dada a arbitrariedade definitiva, vem a dar no mesmo.
Jorge de Sena
"Super Flumina Babylonis"
JORGE DE SENA (Lisboa, 1919-Santa Bárbara, 1978), autor de uma obra extensa e variada que se reparte pelos mais variados géneros, foi no entanto sobretudo como poeta que ficou conhecido. O seu envolvimento político levou-o a um exílio voluntário no Brasil, onde deu início a uma carreira académica que se viria a revelar extremamente produtiva. A sua actividade jornalística e política, tornando-o suspeito aos olhos da ditadura instaurada no Brasil em 1964, levou-o mais uma vez a emigrar, tendo-se instalado em Madison, nos EUA, a convite da Universidade de Wisconsin. Em 1970 transferiu-se para a Universidade da Califórnia, onde prosseguiu a publicação da sua obra poética e um novo livro de contos, Os Grão-Capitães. Depois da sua morte, em 1978, foram ainda publicados vários livros inéditos, entre os quais se destaca o romance Sinais de Fogo (1979). As suas duas primeiras colectâneas de contos foram reunidas no volume Antigas e Novas Andanças do Demónio (1978), de onde foi extraído o conto publicado neste número de Ficções, uma magistral alegoria da criação poética, em que o protagonista, um Camões, envelhecido e alquebrado pela sífilis, cria as célebres redondilhas que Sena considerava "uma das mais emocionantes obras lírico-filosóficas da poesia universal".
Hans Dekkers
"O Busto Negro de Bach"
Tradução de Fernando Venâncio
Hans Dekkers, neerlandês, nascido em 1954. Depois dos estudos em sociologia na Universidade de Nijmegen, trabalhou vários anos como músico. Escreveu peças de teatro e colaborou em várias revistas com ensaios, poemas e contos. Publicou três contos numa antologia intitulada De vloek ("A Maldição"), de onde foi retirado O Busto Negro de Bach, que aqui se publica. Este conto faz parte de um capítulo de seis histórias sobre a vida de escritores famosos. De um modo geral, Hans Dekkers procura utilizar elementos do trabalho dos autores sobre quem escreve, sem se deixar influenciar por eles. "Nestes contos, escreveu um crítico, Dekkers é influenciado de modo feliz pelo estilo e os temas dos seus predecessores, se bem que sejam as suas próprias obsessões que ele aí projecta". Hans Dekkers vive em Amesterdão.
Tommaso Landolfi
"A Mulher de Gogol"
Tradução de Clara Rowland
A extravagante figura de Tommaso Landolfi (Pico Farnese 1908-Roma 1979) mantém-se ainda hoje à margem das antologias de literatura italiana e é quase desconhecida fora de Itália. Aristocrata e dandy, encenou incessantemente a própria personagem de intelectual decadente e foi um autêntico viciado no jogo. Viajou muito e escreveu para as principais revistas literárias de Roma e de Florença. Licenciado em Literatura Russa, traduziu obras russas, francesas e alemãs (Hoffmansthal, Novalis) e escreveu inúmeros contos e novelas. A sua obra repartiu-se ainda pelo teatro, pela poesia e pela crónica. Os contos, próximos do universo de Hoffmann, de Gogol ou de Kafka na escolha dos temas e na reprodução de um absurdo que se insinua na própria estrutura narrativa, são marcados por um virtuosismo linguístico impressionante, por uma paixão pelo jogo verbal, pelo pastiche e pela paródia. A Mulher de Gogol, publicado pela primeira vez em Ombre (1954), integra a importante antologia que Italo Calvino organizou em 1982 (Le più belle pagine di Tommaso Landolfi scelte da Italo Calvino).
Susan Sontag
"Romagem"
Tradução de José Lima
Susan Sontag nasceu em Nova Iorque, em 1933, e cresceu no Arizona e na Califórnia. Entrou para a Universidade de Berkeley aos quinze anos de idade, em 1948. Estudou depois em várias outras universidades, como Chicago e Harvard, e em 1957 frequentou em França durante um ano a Universidade de Paris. Na década de 1960, a sua colaboração na revista Partisan pô-la em contacto com o mundo intelectual de Nova Iorque, onde se tornou conhecida pelos seus ensaios inovadores, que tiveram um grande impacto na arte experimental da época. A sua carreira literária iniciou-se aos 30 anos com um romance, The Benefactor(1963), a que se seguiu Death Kit (1967), e um livro de contos, I, Etcetera (1977). Depois de uma interrupção de alguns anos, em que escreveu vários ensaios que a consagraram como uma figura central da cultura liberal-radical americana - Against Interpretation (1968), The Style of Radical Will (1969), Sobre Fotografia (1976), A Doença como Metáfora (1978) e A Sida e as Suas Metáforas (1988) - Susan Sontag voltou à ficção com O Amante do Vulcão (1992), que se tornou rapidamente num best-seller em todo o mundo, e Na América (1999), que lhe valeu o National Book Award, o maior prémio literário americano. Pilgrimage foi publicado pela primeira vez na revista americana The New Yorker, em 21 de Dezembro de 1987.
José Mourão
"O Velho, O Cão e As Cabras"
José Mourão, pseudónimo de um funcionário público, actualmente "na casa dos cinquenta anos". O Velho, O Cão e As Cabras, que foi enviado para a Ficções como proposta de colaboração, constitui também a sua estreia literária.
Brigitte Martinez
"Narciso"
Tradução de José Lima
Brigitte Martinez. Nasceu em Marrocos em 1959, tendo no entanto crescido em França, onde também estudou, fixando-se em Paris depois de terminar o curso de Letras. Começou por escrever guiões para uma série infantil da televisão francesa e contos para crianças (revista Toboggan e edições GP Rouge). Em 1998, publicou um romance policial, Passage à témoin, e uma recolha de testemunhos sobre o exílio político, J'ai deux amours. Paralelamente à escrita, trabalha como realizadora de documentários para a televisão, nomeadamente Regresso a Nacala, rodado no Norte de Moçambique no ano 2000 para a RTP. O conto que aqui se publica é um inédito enviado para Ficções.
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