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Bernd Heinrich Wilhelm von
Kleist (1777-1811) nasceu a 18
de Outubro em Frankfurt-an-der-Oser, Brandenburg,
numa família antiga da pequena nobreza, filho de
um prestigiado capitão do exército prussiano que
morre quando Kleist tem onze anos, deixando mulher
e sete filhos, dois do primeiro casamento e cinco
do segundo. Kleist entrou para o Regimento de Guardas
de Potsdam aos catorze anos e ficou sem mãe aos
quinze. Destinado desde sempre à vida militar, ainda
participou na Campanha do Reno contra o Exército
Revolucionário francês em 1793, mas cedo se demitiu
do exército para iniciar um período instável de
leituras perturbadoras e de viagens na Europa devastada
pelas guerras napoleónicas. A leitura de Kant deixou-o
aniquilado, escrevendo à irmã Ulrike: "A ideia de
que, nesta Terra, nada sabemos da verdade, absolutamente
nada... abalou-me no mais íntimo da minha alma -
o meu único objectivo, o meu objectivo supremo,
caiu por terra; não resta nada." A crise intelectual
de 1801 frutificou em comédias, tragédias e contos.
Em 1807, preso pelos franceses ao tentar entrar
em Berlim sem passaporte e acusado de espionagem,
passou seis meses na cadeia. Em liberdade, publicou
o seu primeiro conto, O Terramoto no Chile.
Poucas horas antes de se suicidar, numa estalagem
do lago Wannsee, perto de Berlim, escreveu à irmã:
"não há lugar para mim nesta Terra". Escolhera celebrar
um pacto de suicídio com Henriette Vogel, que sofria
de cancro.
Kleist publicou os seus oito contos em dois volumes (1810 e 1811).
O Órfão (Der Findling) está incluído no segundo volume.
Gérard de Nerval (1808-1855) pseudónimo de Gérard Labrunie.
Filho de um médico que fazia então a Campanha da Rússia no exército de Napoleão,
Gérard ficou órfão de mãe aos dois anos e foi vagamente educado, entre 1822
a 1827, no Collège Royal de Charlemagne, onde conheceu Téophile Gautier, que
seria o seu amigo de sempre. Inicia-se na poesia em 1826 e traduz, no ano
seguinte, a primeira parte do Fausto de Goethe, que muito agradou ao
poeta alemão. Em 1829 inicia uma colaboração duradoura com a imprensa, especialmente
com o Mercure de France, onde publicará poemas e artigos e cenas de
peças de teatro. Em 1834, uma herança recebida por morte do avô materno permite-lhe
viajar pelo Sul de França e pela Itália, mas, dois anos depois os problemas
financeiros com a revista Le Monde Théâtral, que fundara em 1835 para
louvar o seu ídolo, a cantora e actriz Jenny Colon, deixam-lhe dívidas pesadas.
A partir de 1838, intensificam-se as suas viagens, à Alemanha (com Alexandre
Dumas), à Bélgica, a Viena (onde, em 1839-1840, conhece Marie Pleyel, verosímil
modelo de Pandora e afinal mais uma das instâncias do "feminino" que
Nerval perseguiu em imaginação) à Holanda e, em 1843, ao Oriente (Alexandria,
Cairo, Beirute, Constantinopla, Malta e Nápoles). Em 1841, sofre a primeira
de várias crises nervosas que hão-de valer-lhe outros tantos internamentos
e que se agravam a partir de 1852. Enforca-se a 26 de Janeiro de 1855, deixando,
entre outras obras, Les Amours de Vienne (1841), Voyage en Orient
(1851), Illuminés (1852) Les Filles du Feu e Pandora
(1854), e Aurélia ou le Rêve et la Vie, um extraordinário estudo de
caso e ficção romântica das suas próprias alucinações (1855).
Nota: Por um lapso lamentável de que pedimos desculpa aos
nossos leitores, o conto de Gérard de Nerval, Pandora, saiu truncado
na edição de Verão, Ficções de Filmes. Aqui o damos novamente, desta
vez na íntegra.
Heinz von Lichberg (1890-1951) (pseudónimo de Heinz von Eschwege) serviu na infantaria alemã durante a Primeira Guerra Mundial. Estabeleceu-se de seguida em Berlim como jornalista, sendo na altura um dos mais conhecidos da Alemanha. Em 1929 fez a reportagem do voo transatlântico do Zeppelin, de que resultou o seu único livro conhecido, Zeppelin Dá a Volta ao Mundo. Em 1933 Lichberg entrou para o Partido Nacional-Socialista alemão e foi ele quem, em 1933, fez a reportagem radiofónica da tomada de posse de Hitler como chanceler e da Marcha das Tochas das SA, a milícia paramilitar do partido, até ao Reichstag em Berlim. Lichberg trabalhou como jornalista até 1937 no jornal Völkischer Beobachter [Observador Popular], o jornal do partido. Entrou depois para o exército, onde fez carreira, tendo trabalhado sobretudo nos serviços secretos. Em 1943 fazia parte do alto-comando do exército nazi. Depois da guerra, Lichberg foi feito prisioneiro pelos britânicos, que o libertaram em 1946. Morreu em Lübeck em 1951.
Além dos seus trabalhos jornalísticos, Lichberg publicou A Maldita Gioconda
(1916), um volume de quinze contos que inclui Lolita; um volume de
poemas Do Louco Espelho da Alma (1917); A Mulher Grande. Pequenas
Histórias da Vida das Pessoas (1920). Em 1935 fez a sua última tentativa
como autor, com um romance cuja acção se passa em Nova Iorque, O Barco-Farol
Nantucket. Todos estes livros caíram no esquecimento e são hoje praticamente
impossíveis de encontrar, mesmo em bibliotecas alemãs.
Paul Valéry (1871-1945) nasce em Ceuta. Aos treze anos vai viver para Montpellier e começa a ler grandes autores franceses e a interessar-se por arquitectura. A pintura começa também a preencher o seu tempo, a par dos cadernos de inúmeras notas, versos, esboços e desenhos. Aos dezassete anos tem já duas peças de teatro escritas, dezanove poemas e um ensaio; interessa-se por matemática, física e música; ingressa no curso de Direito.
A riqueza do meio cultural parisiense será favorável a uma atenção crítica e sensível às grandes produções dos espíritos notáveis desse início de século, e o encontro e a amizade com alguns deles determina o seu enquadramento sócio-artístico. Em 1890, torna-se amigo de Pierre Louÿs com quem trocará volumosa correspondência e conhece André Gide, que será seu confidente toda a vida. Ao longo dos anos encontrar-se-á e man
terá contacto (em diferentes graus) com escritores, como Marcel Schwob, Mallarmé, Anatole France, Sthephan Zweig ou Theillard de Chardin, com artistas, como Degas, Manet, Renoir, Monet, Maillol e com cientistas, como Henri Poincaré, Mme Curie e Einstein. Impressionam-no a música de Monteverdi, Débussy, Ravel, Wagner, Gluck, Sati, Stravinsky, a literatura de Victor Hugo, Allan Poe, Baudelaire... Valéry será autor de inúmeras conferências, prefácios, textos de catálogo e ensaios sobre artistas, música, arquitectura. Dedica-se a fazer análises do psiquismo humano, do "eu pensante", da linguagem, da atenção, do sonho, do tempo.
Data de 1893 o primeiro caderno, Journal de Bord dos seus duzentos e sessenta e um. Nele já havia esboços da famosa Soirée avec Monsieur Teste, editada em 1906. Os seus Études são publicados em 1909 pela NRF. Em 1917, Gallimard edita La Jeune Parque e dois anos depois Introduction à la Méthode de Léonard de Vinci. Valéry começa a ser conhecido, solicitado, lido publicamente, elogiado, nomeadamente por Léon Paul Fargue. O célebre Eupalinos e A Alma e a Dança surgem em 1923. As suas Varietés (de I a V) são editadas entre 1924 e 1944. 1926 é o ano de Vers et Prose e 1929 de Littérature et Charmes. Seguem-se Mer, Marines, Marins; Choses Tues; Pièces sur l'art; Moralités (1931), L'Idée Fixe (1932), Degas, Danse, Dessin (1936), L'Homme et la Coquille (1937), Tel Quel (1941), Mauvaises Pensées et Autres, para lembrar apenas alguns. Morre em Paris a 20 de Julho de 1945, com setenta e três anos. Uma semana depois, os seus restos mortais são transferidos para Ceuta.
Histoires brisés (de que Robinson faz parte) agrupa uma série
de pequenos contos, excertos, projectos e escritos dispersos, alguns deles
produzidos nos anos 20. A colecção é póstuma, datando de 1950 (Gallimard).
Leonor Nazaré traduziu-a integralmente para a Hiena, que não chegou a publicá-la.
Branquinho da Fonseca (1905-1974) poeta, dramaturgo e ficcionista,
nasceu em Mortágua, filho do polémico escritor Tomás da Fonseca. Frequentou
os primeiros anos do curso liceal em Lisboa. Com dezasseis anos vai para Coimbra,
onde termina o curso de Direito em 1930. Em 1935 foi nomeado conservador do
Registo Civil em Marvão, e depois na Nazaré. Em 1943 é feito conservador do
Museu-Biblioteca Conde de Castro Guimarães, de Cascais, onde já vivia e onde
lançou a experiência das bibliotecas itinerantes, a que a Fundação Calouste
Gulbenkian depois deu novo âmbito, convidando-o a organizar e dirigir o Serviço
de Bibliotecas Itinerantes e Fixas, de 1958 até à sua morte. Usou o pseudónimo
de António Madeira e colaborou nas revistas Manifesto, 1936, e Litoral,
1944. Foi co-editor das revistas Tríptico, revista de arte, poesia
e crítica (Coimbra, 1924-1925), Presença, folha de arte e crítica (de
1927 a 1930) e Sinal, revista literária (Coimbra, 1930). Branquinho
da Fonseca foi um presencista. "Para o compreendermos, deveremos lembrar a
principal característica desse movimento: a total liberdade de criação artística,
movida pela necessidade de cada qual poder assumir a sua própria verdade e
sensibilidade, donde a assumpção de um individualismo subjectivo bastante
descomprometido com o social e o político [...]" (Dicionário Cronológico
dos Autores Portugueses). Conhecido meramente (e injustamente) como o
autor da novela O Barão, uma das grandes obras da narrativa curta em
português, Branquinho da Fonseca publicou romances e contos, desde Zonas
(1931), Caminhos Magnéticos (1938) a Rio Turvo (1945), colectânea
de que O Involuntário faz parte. Para além da importância do próprio
conto, ele é ainda interessante pelos pontos de contacto que revela com O
Barão, estabelecendo com esse texto uma relação privilegiada.
John Cheever (1912-1982) nasceu em Quincy, no Massachussetts. O pai tinha uma fábrica de sapatos e a família viveu desafogadamente até ao crash da Bolsa de 1929, altura em que deixou a mulher os filhos. A educação escolar do jovem Cheever terminou aos dezassete anos, ao ser expulso da Thayer Academy por, segundo diz, ser "conflituoso, intratável e péssimo estudante" (e por ter sido apanhado a fumar, como relata o seu primeiro conto, Expelled, de 1930). Cheever foi viver para Boston com o irmão, escrevendo sinopses para a MGM e vendendo contos para várias revistas e jornais. Depois de uma viagem à Europa, estabeleceu-se em Nova Iorque onde conheceu John dos Passos, E. E. Cummings e James Agee, entre outros. Casou com Mary Winternitz e, dois anos depois, publicou a primeira recolha de contos, The Way Some People Live. Algumas das histórias são inspiradas na sua experiência em Artilharia durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1951, Cheever recebeu uma bolsa da Guggenheim, que lhe permitiu escrever a tempo inteiro. Adoptado pelo The New Yorker, Cheever publicou aí muitas das suas histórias. A reunião dos seus contos completos em The Stories of John Cheever, em 1978, valeram-lhe o Pulitzer Prize for Fiction e o National Books Critics Circle Award. Cheever morreu aos setenta anos em Ossinning, Nova Iorque. Dois dos seus filhos, Susan e Benjamin, tornaram-se romancistas.
The World of Apples, que dá o título à antologia, foi publicado em Nova Iorque pela Knopf em 1973.
A tradução foi realizada nas oito sessões da Oficina Ficções de Tradução
Literária 2004-2005 (organizada com a colaboração do Instituto Português
do Livro e das Bibliotecas), que teve lugar na Livraria Ler Devagar, no âmbito
do ciclo de Oficinas organizadas pela revista Ficções. Trabalharam
nela Ana Moreira e Helena Roldão, com orientação e revisão de Luísa Costa
Gomes. Colaboraram ainda António Escudeiro, Cristina Carvalho, Filipa Vala,
Graça Margarido e Margarida Malcato.
Antonia Susan Byatt (1936- ) née Drabble, nasceu em Sheffield, no South Yorkshire, em Inglaterra. É irmã da romancista e ensaísta Margaret Drabble. Foi educada numa escola Quaker em York e depois em Newnham College (Cambridge), Bryn Mawr (Pennsylvania) e Sommerville College (Oxford). Deu aulas na London University e na Central School of Art and Design e em 1983 abandonou o ensino para se dedicar inteiramente à escrita. Viajou intensamente, divulgando o seu trabalho e dando conferências sobre Literatura na Europa e nos Estados Unidos. Como crítica literária e ensaísta, fez parte de vários júris, incluindo o do Booker Prize for Fiction. O seu primeiro romance, Shadow of a Sun, saiu em 1964, seguido por The Game (1967). Ganhou o Booker em 1990 com Possession, um romance estarrecedor de engenho e arte, em que Byatt inventa um poeta, a sua vida e a sua obra. Foi desajeitadamente adaptado ao cinema, tal como outra das suas novelas, Angels and Insects. As colecções de contos que publicou até hoje são: The Matisse Stories (1975), Sugar and Other Stories (1987), Passions of the Mind (1990), Angels and Insects (1992), The Djinn in the Nightingale's Eye (1994), Elementals: Stories of Fire and Ice (1998), Collected Stories (1999).
Raw material [Matéria Bruta] foi primeiro publicado na Atlantic Monthly em Abril de 2002 e incluído no último volume de contos de Byatt, The Little Black Book of Stories (Knopf, Abril de 2004).
Luísa Costa Gomes agradece a Sam Edenborough, agente literário de Antonia Byatt, e à própria autora, o cuidado e a paciência com que responderam a todas as questões postas pela tradução do texto. Os erros, obviamente, são da inteira responsabilidade da tradutora.
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