Apresentação / Autores e contos / Um conto por extenso
 
 
 
 
 
 
 
     
     
     
 

Autores e Contos

 


André Gide
(1869- 1951) nasceu em Paris a 22 de Novembro. O pai era professor de Direito e morreu quando Gide tinha 10 anos. A mãe educou-o no rigor dos valores protestantes. Antes do percurso escolar normal, que inicia aos sete anos, aprende música e tem lições de piano desde os quatro anos. Em 1887 torna-se amigo de Pierre Louys e, através dele, conhece Paul Valéry e Marcel Drouin. Feito com sucesso o exame de final de curso, em 1889, dedica-se à escrita. Anonimamente e a expensas suas, publica Les Cahiers d’André Walter (1891) e Poésies d’André Walter (1892). Contudo, Le Traité du Narcisse (também de 1892) surge já com o seu nome. Em 1893 viaja para o norte de África, onde se cura da tuberculose e aonde mais tarde voltará como a uma mítica pátria da liberdade. No ano de 1895 morre-lhe a mãe. Gide casa-se com uma prima, Madeleine Rondeaux. Dois anos mais tarde publica Les Nourritures Terrestres, que será livro de culto para várias gerações.Com Jacques Copeau, Jean Schlumberger e André Ruyters, funda em 1909 La Nouvelle Revue Française. É da colaboração com esta revista e sob a direcção de Gaston Gallimard que em 1912 surge O Regresso do Filho Pródigo. Em 1926 faz editar conjuntamente a autobiografia Si le grain ne meurt e o romance Les Faux-Monnayeurs (traduzido em português como Os Falsos Moedeiros) e que veio subverter as leis do género. Em 1946 é editado o seu último grande texto, Thésée; no ano seguinte é-lhe atribuído o título de doutor honoris causa pela Universidade de Oxford. Recebe ainda, em 1947, o prémio Nobel.Morre a 19 de Fevereiro de 1951 em Paris.

Albert Camus (1913-1960), nascido na Argélia de uma família de emigrantes pobres, não chega a conhecer o pai, morto na guerra em 1914, e é com a mãe, praticamente analfabeta, que estabelece os mais fortes laços afectivos. É na Argélia que cresce e faz os seus estudos superiores em filosofia. A tuberculose, que nele se manifesta aos dezassete anos, dá-lhe uma consciência prematura da precariedade da vida humana e veda-lhe o acesso, anos mais tarde, a uma carreira académica. O seu amor à justiça e à liberdade levam-no a romper cedo com o Partido Comunista, bem como a abraçar o jornalismo enquanto meio-termo válido entre a condição do intelectual e a necessidade de uma ligação activa à realidade, na qual intervém sempre em defesa das partes oprimidas. Em 1940 muda-se para França e, no ano seguinte, entra para a Resistência. O humanismo existencialista, de amor à vida e desespero perante a sua falta de sentido, que elabora em toda a sua produção literária – a este respeito, é frequentemente mencionado o encontro com Sartre, em 1943 – atravessa os vários géneros a que se dedica. Da sua vasta obra, destacam-se, na ficção, L'Etranger (1942), La Peste (1947), La Chute (1956) e L'Exil et le royaume (1957), de que o presente texto constitui o conto de abertura; no teatro, L'Etat de siège (1948); e, no ensaio, L'Envers et l'endroit (1937), L'Homme révolté (1951), Lettres à un ami Allemand (1945) e Discours de Suède (1958).

Witold Gombrowicz (1904-1969) nasceu filho de rico proprietário rural, em Maloszyce, perto de Opatow, na Polónia e morreu em Vence, no Sul de França. Prosador, dramaturgo e ensaísta, Gombrowicz estudou Direito na Universidade de Varsóvia e Filosofia e Economia em Paris. Em 1933 publicou Memórias do tempo da imaturidade, uma colectânea de contos na qual se inclui este Aventuras. Quatro anos mais tarde é publicado o seu primeiro romance, Ferdydurke, que aborda temas presentes nas suas obras posteriores, como o problema da imaturidade e da juventude, as máscaras utilizadas pelo indivíduo nas suas relações com os outros, o carácter opressivo da sociedade e da cultura, sobretudo a polaca, nobiliárquica, católica e provinciana. A reacção da crítica a Ferdydurke foi violenta, os leitores dividiram-se em defensores e inimigos de Gombrowicz. Em 1938 veio a lume a sua primeira peça de teatro, Ivone, Princesa da Borgonha, que passou despercebida. Um mês antes da eclosão da 2ª Guerra Mundial, Gombrowicz emigra para a Argentina onde viverá 23 anos. Em 1965 passou a residir com a mulher em França. Conhece alguma notoriedade nos anos sessenta, depois da publicação das edições francesas de dois romances, A Pornografia e O Cosmos, e dos Diários, considerados as suas obras mais importantes.

Italo Calvino (1923-1985). Nascido em Cuba, onde os pais trabalhavam, acompanha-os no regresso a Itália, passando a viver em San Remo, onde faz o liceu e começa a estudar Agronomia, que não chega a acabar. Durante a guerra combateu na Resistência, estabelecendo-se depois em Turim, onde se formou em literatura e começou a trabalhar, no jornal comunista L’Unità e na editora Einaudi. De 1959 a 1966, juntamente com Elio Vittorini, editou a revista de esquerda Il Menabò di letteratura. A sua participação na Resistência inspirou-lhe as suas primeiras obras de ficção – Il sentiero dei nidi di ragno (1947) e o livro de contos Ultimo viene il corvo (1949), de onde foi extraído o conto aqui publicado (I Figli poltroni, no original). A partir da década de 1950 a sua obra ganha um cunho alegórico e fantástico, ilustrado em livros como Il visconte dimezzato (1952), Il barone rampante (1957) e Il cavaliere inesistente (1959). A sua mudança para Paris em 1964 assinala um renovado interesse pelas teorias astronómicas e cosmológicas e pela semiótica. A sua escrita assume uma estrutura cada vez mais complexa e inovadora, com recurso a processos combinatórios da narrativa, traduzindo-se em algumas das suas obras mais conhecidas, como Le città invisibili (1972), Il castello dei destini incrociati (1973), e Se una notte d’inverno un viaggiatore (1979).

Ethan Coen, nascido em 1957 em Minneapolis, nos EUA, é conhecido sobretudo pelos filmes que realizou, juntamente com o irmão Joel Cohen. Combinando humor, ironia e o choque visual das imagens, os irmãos Cohen legaram-nos filmes como Blood Simple (1983) Raising Arizona (1987), Miller's Crossing (1990), Barton Fink (1991), Fargo (1996), The Big Lebowski (1998), O Brother, Where Art Thou? (2000), The Man Who Wasn't There (2001), The Lady Killers (2004).
O conto aqui incluído, de certo modo um espelho literário das técnicas de composição que utiliza no cinema, foi anteriormente publicado em 1998 na revista americana The New Yorker, e faz parte do livro de contos Gates of Eden, editado no mesmo ano.

Gianni Celati (1937-) nasceu em Sondrio, na Lombardia, vivendo actualmente entre Londres e Bolonha, onde ensinou literatura anglo-americana. Um conto publicado numa revista valeu-lhe um convite de Calvino para escrever para a editora que então dirigia, onde veio a publicar o seu primeiro romance (Comiche, 1971), que Calvino prefaciou. Seguem-se vários livros, alguns deles premiados, que o consagram como um dos escritores mais originais da actual literatura italiana. A obra de Celati inclui romances, como La Banda dei Sospiri (1976), Lunario del Paradiso (1979); ensaios como Finzioni Occidentali: Fabulazione, comicità, scrittura (1975); traduções de autores como Swift, Mark Twain, Stendhal, Céline; e livros de contos, como Le avventure di Guizzardi, Premio Bagutta '72; Narratori delle pianure (1984), Quattro novelle sulle apparenze (1987), Verso la foce (1989), e Cinema naturale (2001), de onde foi extraído o conto (Notizie ai naviganti) publicado neste número de Ficções.
Calvino chamou aos contos de Celati "histórias de observação", que se desenvolvem "em torno de representações do mundo visível e, mais propriamente, em torno da profunda passagem do mundo interior para o exterior, que parece ser a mudança que melhor caracteriza a década de Oitenta".

 
     
 
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